domingo, 11 de outubro de 2020

A reeleição e os estreantes na política em Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra



As eleições municipais geram momentos de muita disputa, sobretudo nos pequenos municípios. Elas têm dinâmica própria e chegam às vezes as raias da passionalidade. No calor dos debates, mesmo aqueles realizados entre os cidadãos comuns, a questão da reeleição sempre é colocada em xeque. A renovação dos agentes políticos, tanto do Legislativo como do Executivo é sempre um tema candente e que divide opiniões.

Neste ano Brasilândia apresenta um quadro expressivo de estreantes na política: 45 candidatos, o que corresponde a 65% do total de 69 candidatos em disputa; todos lutando por uma vaga das cobiçadas cadeiras à frente do plenário Raimundo Assis de Alencar, do Legislativo Municipal.

Entre os 24 candidatos mais antigos que concorrem neste ano e já participaram de pleitos eleitorais à edilidade, 11 deles já se elegeram e 13 já concorreram a vereador, porém nunca se elegeram.

No quadro abaixo que reúne as eleições ocorridas entre 1982 e 2016, se pode destacar os candidatos Jorge Madeira e Dominguinhos que já ocuparam cadeira no Legislativo por quatro mandatos, sendo, portanto, em tese, os candidatos que têm maior experiência legislativa no município. Jorge Madeira ainda concorreu a vice-prefeito em 2016 e Dega, igualmente a vice em 2000.


No outro extremo, podem-se destacar também os nomes de dois candidatos que, embora nunca tenham concorrido ao cargo de vereador, já participaram de eleições municipais, logrando ambos, aceitação popular tendo sido eleitos. É o caso de
Márcia Amaral candidata a prefeita em 2008 e vice-prefeita eleita em 2012, e Jorge Diogo, candidato a prefeito em 2004, vice-prefeito eleito em 2008 e prefeito eleito em 2012. 

O quadro é ilustrativo, porém, pode servir de parâmetro para firmar posição sobre o debate de um tema que sempre aflora nas eleições em geral. Sou contra a reeleição, muitos dizem, porém exigem sempre essa façanha do Legislativo somente, permanecendo o Executivo intocável. E por um motivo simples. A experiência administrativa mais comprometedora e de influência direta no cidadão, recai exigi-la do Executivo, por ser aquela que exerce ação direta na vida da comunidade.

A tolerância para com a reeleição de candidatos ao Executivo, bem como o empenho dos que defendem a necessidade de sua renovação a cada quatro anos, entretanto, exige uma reflexão que nem sempre o eleitor pode inteirar-se e aprofundar. Corrobora aqui o adágio popular que recomenda: a mudança exige cautela. 

Isso não quer dizer que o tema da reeleição de Legislativo e Executivo não deva ser colocado no rol dos debates e possibilidades, o que, em tese, evitaria a perpetuação de vícios e desmandos, muitas vezes presentes nas administrações e cuja fiscalização o Legislativo descuidou-se e permaneceu silente.

O tema da renovação na política impõe ao cidadão, sim, uma discussão não de botequim, mas em profundidade, avaliando os avanços e os recuos, benefícios e prejuízos que a sociedade presenciou ao longo de quatro anos de governo em seu município, permitindo-lhe arcar com a responsabilidade de escolher este ou aquele candidato olhando para o futuro. 


Este processo de reflexão e escolha sob hipótese alguma deve ser encarado como oposição cega, reduzida a um maniqueísmo obtuso: entre A ou B, direita ou esquerda, luta do milhão contra o tostão, enfim, o nós contra eles, o que torna a escolha por demais polarizada, e que nos dias atuais é potencializada pelos veículos sem censura das mídias sociais. Isso não deve ser assim. Numa sociedade educada, o palavrão, por exemplo, poderia até ser dito, mas em tom jocoso, jamais ofensivo. 

Um debate ocorrido nas eleições de 2004 promovido pelo SIMTED, nas dependências do saudoso Rotary Club cabe recordar com satisfação o esforço do então presidente do Sindicato Prof. Sérgio dos Santos Lima Junior e demais professores que, num gesto de cidadania exemplar, oportunizaram de forma inédita aos candidatos na época exporem suas ideias e propostas, tudo realizado em alto nível e com grande proveito e aceitação pela população brasilandense... Saudade.

Mas voltaremos ao tema.

Brasilândia/MS, 11 de outubro de 2020.


 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

As Mulheres, a Política e as Eleições em Brasilândia.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

Em tempo de eleição, sobretudo a municipal, onde o eleitor acompanha mais de perto seus candidatos, a participação das mulheres é sempre questionada, uma vez que dificilmente os partidos abrem espaço para que elas possam livremente se expressar, em que pese a legislação garanta o percentual mínimo de 30% do sexo oposto a cada eleição.

O Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul lançou neste ano a campanha Juntas Somos Mais Fortes que está sendo divulgada na Capital e algumas cidades do interior.

Trata-se de fomento para a participação feminina nos espaços de poder e decisão política, buscando despertar nas mulheres que desejam atuar no processo eleitoral uma compreensão jurídica básica sobre a organização dos poderes aos quais pleiteiam uma vaga.

A importância de haver espaços democráticos e de igualdade entre homens e mulheres é um imperativo nos dias atuais onde a sociedade cada vez mais busca minimizar as diferenças que no curso da historia política brasileira obstaculizaram a participação feminina nos espaços de poder.

Acima da questão legal e jurídica que sempre esteve sob a tutela dos partidos e seus caciques homens, a questão da participação feminina nas eleições exige que se garanta às mulheres o acesso a este debate, por meio da simplificação dos conceitos, no mais das vezes, abstratos que são utilizados na política, para engajar mulheres alcançando-as em todos os lugares e nas mais diferentes esferas sociais.

Existem muitos estereótipos para caracterizar de forma pejorativa a atuação das mulheres no meio político, sobretudo quando se trata da mulher negra, indígenas e dos extratos sociais mais excluídos. 

E isso sem razão alguma, porque quem está lá na ponta, no dia a dia, é a mulher. É ela que faz a maior política. Política é o preço do pão, a fila no posto de saúde, é a vida concreta. Mas infelizmente é senso comum aceito que a política fique restrita tão somente ao espaço de poder dos homens.

Os espaços públicos, onde as mulheres são grande maioria elas já ocupam: seja nas feiras, nos supermercados, nas igrejas, nas escolas, nos hospitais, nos escritórios e nas residências. Ela, a economista do lar, agora luta para ocupar os espaços de poder, de direção e mando, de influência maior sobre a sociedade, aliás formada pela maioria de mulheres.

Todos sabem que a construção dos partidos políticos não é pensada para que as mulheres participem [1]. Na maior parte dos casos, a cada eleição, elas aparecem no final do rol de candidatos, tão somente para completar a chapa em cumprimento à exigência legal dos 30%. 

Com raras e honrosas exceções, as mulheres escolhidas para participar dos pleitos municipais, poucas tiveram a oportunidade de opinar na elaboração das propostas defendidas pelos partidos aos quais estão concorrendo.

Na eleição municipal passada, em 2016, aproximadamente 1.300 municípios não elegeram uma única vereadora. E isso que elas representam 52,5% do eleitorado brasileiro. No poder Executivo o quadro é ainda mais desafiador: somente 636 mulheres foram eleitas para governar, o que representa apenas 11,6% das prefeituras do país [2].

Felizmente em Brasilândia esse quadro está mudando. No ano de 2016, entre os 35 candidatos que concorreram, 13 eram mulheres. Em 2020, segundo o TRE/MS o número de mulheres concorrentes saltou para 24 entre os 69 candidatos inscritos. 

Na eleição passada a relação entre as concorrentes mulheres e os homens representava 0,69 para 1; já na eleição atual, a relação é de 0,87 para 1. Em números absolutos houve um aumento no número de concorrentes mulheres em 2020 na ordem de 84% em relação a eleição anterior. Em que pese porcentagem maior (104%) também tenha ocorrido com os homens.

Ainda assim, o crescimento do número de mulheres concorrendo ao cargo de vereador no município é significativo, sobretudo, em razão da diminuição do número de partidos neste pleito, o que forçou as siglas (com o fim das coligações proporcionais), a apresentar número maior de candidatos. 

Partidos que tradicionalmente já apresentavam candidatos femininos nestas eleições reforçaram suas siglas com a participação de número maior de mulher em suas coligações.

É o caso do PSDB que aumentou o número de participantes mulheres nesta eleição, de 4 para 5, e os partidos PTB, PODE e PSD que não participaram em 2016, e que inscrevem 4 candidatas mulheres cada um. O DEM que também não concorreu na eleição passada, inscreveu 3 mulheres. 

O único partido que reduziu o número de mulheres na sua sigla foi o MDB, de 5 candidatas em 2016, para 4 em 2020. Número compensado pelo soma alcançada pela coligação MDB-DEM-PSD que registrou um sólido total de 11 mulheres. A coligação PSDB-PODE inscreveu 9 mulheres, e o PTB, chapa completa inscreveu 4 mulheres ao pleito municipal.

Tudo denota que o futuro é promissor para as mulheres em Brasilândia e o prognóstico aponta para a superação da sub-representatividade na política. 

Tal quadro só reforça a luta pela igualdade de gêneros como instrumento da efetivação da democracia. Votar em mulheres para o Legislativo municipal pode ser um excelente instrumento para se garantir políticas afirmativas que superem a desigualdade na representatividade feminina nos espaços de poder.

A democracia não pode abdicar da representatividade da mulher no cenário político. É através de sua voz na tribuna do Legislativo que a realidade pode mudar. Este é o caminho para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e inclusiva, superando o patriarcalismo arraigado, onde a mulher foi submetida a uma posição de inferioridade em relação ao homem em todos os níveis sociais. 

Mas isso já está mudando em Brasilândia, a começar pelo dia 15 de novembro.

Brasilândia/MS, 6 de Outubro de 2020.



[1] - Cf. Política também é coisa de mulher. Portal Geledés.21.Jun.2019, disponível em http://www.geledes.org.br/politica-tambem-e-coisa-de-mulher.html, acesso em 05.Out.2020.

[2] - Dados da Secretaria Nacional de Políticas para as Mulheres (SNPM) disponível em http://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2020-2/agosto/mais-mulheres-na-politica-campanha-incentiva-participacao-feminina-nas-eleicoes-2020...html, acesso em 5.Out.2020.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

 As palavras, as eleições e os incêndios

Carlos Alberto dos Santos Dutra




Antes foi o Pantanal e a Amazônia que ganharam as páginas dos telejornais e mídias sociais denunciando os incêndios, tanto os naturais como os criminosamente provocados. Realidade distante do eleitor de Brasilândia/MS, localizada na região Leste do Estado, sentia-se relativamente segura das chamas devastadoras da fauna e flora. Imagens que davam consternação, mas que nem de longe provocava no espectador o pavor mortal que as vítimas (animais silvestres e semoventes, matas nativas e plantações) se submetiam.

Os ventos mudam, entretanto. E aquilo que parecia tão distante, hoje se avizinha do chamado bolsão Sul-mato-grossense, no entorno da cidade polo de uma das maiores áreas de floresta plantada do país. A fumaça e a fuligem suspensa no ar já provoca elevação da temperatura a níveis nunca vistos. E a roupa no varal da gentil senhora que vive nos arredores já mostra os sinais desta desolação. São gritos de advertência na ordem do dia.

A vida, porém, continua e só nos damos conta do caos quando as labaredas atinge a pista e a calota do carro que dirigimos. A floresta está em chamas. A marginal da rodovia está enfumaçada. Os caminhos estão interditados, os animais silvestres esturricados, em meio à azáfama das autoridades que, impotentes, tudo assistem, perplexas. Os pecuaristas, agricultores e empresários das grandes empresas, e lá estão eles envidando redobrados esforços para apagar o incêndio e minimizar os prejuízos.

No calor destas chamas, as eleições municipais seguem. E começam também esquentar a verve apontando suas espingardinhas de rolha uns contra os outros, prenunciando o embate que ora inicia. 

As propostas dos candidatos ainda nem foram apresentadas aos eleitores, mas uma urgência se faz necessária: --que eles digam o que pretendem fazer para prevenir os incêndios e garantir a segurança da natureza e do cidadão desta cidade!

Surge assim, uma triste, porém oportuna ocasião para os candidatos, tanto ao Executivo como ao Legislativo dizer o que irão propor para preservar os incêndios no município. Falo de projetos que disciplinem e proíbam o plantio de eucalipto no entorno da cidade: proposição de vereador que um dia – que traz saudade -, apresentou e foi rejeitada.

Ao eleitor preocupado com o futuro e a sobrevivência das espécies nativas e vida de seus filhos e netos é um imperativo que ele exija de seu candidato um posicionamento responsável acerca do assunto. Quando a RPPN de Brasilândia sofreu um grave incêndio no ano passado e o Instituto Cisalpina promoveu um debate na Câmara Municipal, um rol de sugestões foi encaminhado à empresas, entidades e instituições governamentais. Eis aí uma boa oportunidade para os candidatos se inteirarem sobre o assunto e incluir em seus programas de governo compromisso com algumas das propostas ali apresentadas.

Alguém poderá dizer que tais propostas podem ser apresentadas somente por candidatos a Prefeito. Ledo engano: Vereadores também podem e devem apresentar projetos de leis propositivos ao Executivo para tais temas. Isso demonstra o quanto o edil está atento aos sinais dos tempos que exige seriedade e envolvimento integral do agente político nas questões sociais e ambientais de seu município. Eleição não é um concurso de miss simpatia, disse um candidato certa vez.

A apresentação de propostas e compromissos assumidos pelos candidatos, além de ser cartão de visita que inspira a confiabilidade do eleitor é uma excelente forma de descolar o discurso de enfrentamento pessoal desmedido e provocado pelo calor do debate irascível.  Conduta que só tende a incendiar as relações entre as pessoas, famílias e amigos, causando estragos, queimaduras e cicatrizes que marcam para sempre a vida de cada um.

Sinal de maturidade política é um atributo que deve ser exigido não somente dos candidatos, mas também deve ser manifestado pelo eleitor criterioso e ajuizado que deverá ter sabedoria para relevar as ofensas e apostar no futuro fazendo a escolha mais acertada. Nunca o papel de bombeiro, no combate ao fogo e na promoção da paz foi tão necessário aos candidatos como nestes tempos de promessas e palavras em combustão.


Brasilândia/MS, 2 de outubro de 2020.


[Foto] Rádio Caçula, Três Lagoas/MS, 1º de Outubro de 2020







quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O duelo dos partidos nas eleições de 2020 em Brasilândia/MS

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 



Uma eleição caracteriza-se pelo embate de ideias, apresentação de perfis e propostas com a intenção de sensibilizar o eleitor e despertar nele o interesse pela política. Isso porque não fomos motivados desde pequenos em nossa formação à prática da política no sentido lato do termo.

Como resultado restou à política ver-se na condição diminuta e acanhada, às vezes proscrita, sendo manejada por um grupo de pessoas - umas bem intencionadas e outras nem tanto – interessadas em ingressar no serviço público sem concurso e somente com o referendo popular, conquistando a benesse de marcar presença no trabalho somente um dia na semana, auferindo altos salários pagos pelos cidadãos e cidadãs aos quais só apertam a mão em tempo de eleição.

Com raras e honrosas exceções, esse é o portfólio da política e eleições Brasil afora, o que gera descrédito e desencanto geral a cada ano que passa. Um movimento cíclico que se repete de tempo em tempo e é só quebrado quando, por motivação raríssima e singular, algo acontece havendo uma tomada de posição coletiva e individual de reação e demonstração de saúde e vigor democrática.

É o que está acontecendo nestas eleições em Brasilândia/MS e em diversos outros municípios no Brasil. Estimulados pelas novas regras eleitorais que proibiram as coligações na eleição proporcional, dos 15 partidos que concorreram nas últimas eleições de 2016, hoje permanecem ativos 12 partidos e destes, somente 6 (seis) partidos lançaram candidatos a vereador.

MDB (Movimento Democrático Brasileiro, nº 15); PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira, nº 45); PTB (Partido Trabalhista Brasileiro, nº 14); PSD (Partido Social Democrático, nº 55); DEM (Democratas, nº 25); e PODE (Podemos, nº 19). Uma redução de 60%.

Para o Executivo municipal, somente MDB, PTB e PSDB lançaram candidatos para prefeito, arregimentando o apoio dos cinco partidos que assim dividiram-se: o MDB (15) com o apoio do DEM (25) e do PSD (55) formaram a coligação Brasilândia que eu amo inscrevendo 10 candidatos a vereador filiados ao MDB, 9 (nove) candidatos filiados ao DEM, e 10 candidatos pelo PSD. 

Do lado do PSDB (45) foram inscritos 14 candidatos a vereador, partido que recebeu o apoio do PODE (Podemos, nº 19, ex-PTN) com seus 13 candidatos inscritos na coligação Por uma Brasilândia com oportunidade justa e humana. E a chapa completa do PTB que lançou candidato a prefeito inscrevendo 13 candidatos a vereador.

Das 15 siglas que aqueceram a disputa em 2016, não concorrem este ano 12 siglas tradicionais do município, o que revela a mudança na ciranda das siglas que ocorre a cada eleição. Não concorre o PP (Partido Progressista, nº 11) que elegeu o Dr. Alexandre como o 3º mais votado; o PDT (Partido Democrático Trabalhista, nº 12) que elegeu a Jô Cabeleireira, a 4ª mais votada; o PSL (Partido Social Liberal, nº 17) que concorreu com Tiago Canno; o PT (Partido dos Trabalhadores, nº 13) que elegeu Luiz do Café, que foi o 2º mais votado e o suplente Edinho do Máster que veio assumir vaga deixada por Sérgio Abreu eleito pelo PEN (hoje PATRI, Patriota, nº 51), sigla que também ficou fora da eleição deste ano.

Também não lançou candidatos o PTC (Partido Trabalhista Cristão, nº 36); o PTdoB (Partido Trabalhista do Brasil, nº 70) que em 2016 elegeu o vice-prefeito Dr. Gabriel e hoje esse partido mudou de nome para Avante; o PSB (Partido Socialista Brasileiro, nº 40) que concorreu com Edgar da Padaria; o PV (Partido Verde, nº 43) que concorreu com Joel Cadeirante, Juliana e Marcelo Ofaié; o PROS (Partido Republicano da Ordem Social, nº 90) que elegeu o vereador Toninho; o PSC (Partido Social Cristão, nº 20) que concorreu com João Ferreira Neto; e o PSDC (Partido Social Democrata Cristão, nº 27 que mudou o nome para Democracia Cristã-DC).

Tal quadro é revelador. Primeiro, porque concentrou-se 69 candidatos a vereador à tutela de seis partidos apenas. O que rendeu economia processual, dir-se-ia em direito. Segundo, porque forçou os partidos concorrentes a abrir espaço para um leque maior de participantes. 

Embora pareça o contrário, tal disposição democratizou o pleito. Senão vejamos: nas eleições de 2016, o PSDC, o PTC, o PSB, o PP, e o PROS lançaram apenas um candidato a vereador. Votos que foram encaminhados para as duas coligações que concorreram, e garantiram a eleição de candidatos de partidos coligados. A proibição da coligação na proporcional proporcionada pela Emenda Constitucional nº 97, de 2017 veio corrigir essa distorção.

Por outro lado, diminuiu a chance dos partidos menores se verem representados e em condições de igualdade para disputar a eleição obstada por fatores econômicos e o baixo número de filiados. E por outro lado, aumentou o risco dos grandes partidos fragilizarem-se e perderem as vagas que antes a coligação proporcional lhes garantia. 

Por isso o apoio aos candidatos majoritários pelos partidos permanece importante. Aqui em Brasilândia é o caso do DEM (nº 25), do PSD (nº 55) e do PODE (nº 19) que não lançaram candidatos a prefeito, mas “coligaram-se” à alguma legenda majoritária concorrente, como forma de alavancar suas candidaturas proporcionais e reforçar assim a chance de eleger um representante ao Legislativo municipal.

Mas retornaremos ao assunto.

Brasilândia/MS, 1º de outubro de 2020.

 

[Fonte: Atas das Convenções Partidárias apresentadas ao TSE pelos partidos PSD, PSDB, DEM, MDB, PTB e PODE disponível em http://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/atas/convencao, acesso em 30 de setembro de 2020].

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O que a eleição de 2020 têm em comum com a eleição de 1988?

Carlos Alberto dos Santos Dutra.

As eleições municipais começaram. E os brasileiros pela primeira vez se deparam com uma nova situação. Os candidatos ao cargo de vereador não podem mais concorrer por meio de coligações. 

O fim das coligações na eleição proporcional passou a valer desde 2017 com a reforma eleitoral pacificando uma questão há muito discutida entre os partidos e os tribunais. 

Na eleição proporcional agora é o partido que recebe as vagas e não o candidato. Para o cargo de prefeito, continua sendo possível a união de diferentes partidos em apoio a um candidato[1].

Se por um lado isso tornou as eleições mais disputadas, por outro, deu mais segurança ao eleitor que poderá acompanhar mais de perto o resultado e o desempenho de seu partido e candidato. Nos municípios essa é uma questão relevante, pois muitas vezes um candidato a vereador que foi bem votado acaba perdendo a eleição para um que fez menos votos, e isso acontecia porque o voto alcançado pela coligação acabava privilegiando os velhos caciques da política que se mantinham no poder indefinidamente valendo-se deste artifício.

Essa nova situação fez com que o número de candidatos aumentasse, pois cada partido teve de lançar seus próprios candidatos, sob risco de não alcançarem o quociente eleitoral para eleger alguém de sua sigla, uma vez que não mais contará com o apoio de legendas consideradas fortes e que muitas vezes foi a responsável por eleger sempre os mesmos candidatos. Agora cada sigla deverá se empenhar para mostrar realmente a sua força, o que deixará o pleito bem mais interessante.

Só para ter uma ideia, reuni abaixo um quadro demonstrativo com o número de concorrentes às eleições em Brasilândia/MS nos últimos 38 anos para o cargo de prefeito e vereador[2]. Se o número de concorrentes para o cargo de prefeito manteve-se padrão, entre dois e três candidatos, com exceção de 2000 quando concorreram quatro candidatos, já para o cargo de vereador o número de concorrentes foi bastante variável. 

Se nas últimas eleições municipais, que ocorreu em 2016, por exemplo, disputaram apenas 35 candidatos para o cargo de vereador, quatro anos depois, na eleição deste ano temos inscritos no TRE/MS, nada menos que 69 candidatos. Um aumento de quase 100%.



Outro elemento que chama a atenção é a comparação entre os anos. O número de candidatos a vereador de 2020 praticamente iguala-se ao número de candidatos de uma eleição que ocorreu há 32 anos, quando os candidatos chegaram a 71 participantes na disputa por uma vaga no Legislativo municipal local.

Naquele ano concorreram ao cargo de prefeito, três candidatos, José Candido da Silva, que foi eleito pelo PTB, com 2.215 votos, derrotando os candidatos Patrocínio de Souza Marinho, do PMDB, com 1.436 votos, e Joélio dos Santos Lima, o estreante candidato do PT, sigla que concorria pela primeira vez no município e que obteve apenas 130 votos.

A questão, entretanto, que instiga o observador é: --O que essas duas datas, 1988 e 2020 teriam em comum? --O que justificaria a candidatura de tantos concorrentes ao cargo de vereador em Brasilândia nestes anos?

Em 1988, numa rápida digressão histórica, arrisco a dizer que a realidade daqueles dias mostrava um município atravessando uma grave crise econômica, reflexo da implantação pelo governo federal do Plano Cruzado cuja reforma tributária orquestrada por José Sarney, de congelamento de preços e salários, levou o Brasil ao fracasso de ter de conviver com uma inflação de 337% que só teve fim em 1989.

No olho deste furacão, aliado ao desencanto dos cidadãos com a atuação dos vereadores locais, em franca oposição à prefeita municipal da época, Neuza Maia, o município não dispunha de recursos sequer para pagar o funcionalismo público e o 13º salário que se encontrava em atraso, tendo de se valer de empréstimo bancário para saldar as dívidas.

As irregularidades apontavam também para o Legislativo: gastos e contratação de pessoal acima do necessário, altos salários e a promoção de páginas inteiras nos jornais, como se o dinheiro público fosse ilimitado, como foi denunciado na época. Esta teria sido a causa motivadora para o surgimento de tão elevado numero de candidatos em 1988, algo assim, como que querendo dar um basta aos descalabros políticos da época.

Nos dias atuais, entretanto, o município não vive qualquer abalo em sua economia, muito menos com atraso no pagamento aos servidores e estrangulamento de suas contas públicas.  O foco seria mesmo o Legislativo local que, ao contrário do Executivo que desapontou menos a população, despertou protesto numa parcela significativa da comunidade que teve de presenciar, por vez primeira, um vereador destituído de suas funções por irregularidades praticadas. 

Ainda que a Câmara municipal tenha galgado o mérito de ter aprovado o impeachment de um de seus pares, paradoxalmente teve o demérito de conviver com a impopularidade motivada ainda por uma desafortunada cassação de prefeito, que foi revertida em pouco mais de 24 horas pela Justiça, o que ofuscou sensivelmente o brilho daquela edilidade.

Uma das explicações possíveis para entender o porquê de um número tão alto de candidatos a vereador nos anos que se seguiram a 1988 e agora 2020, teria sido, portanto, a insatisfação popular e o descontentamento geral com os vereadores. Situação que rendeu um saldo positivo fazendo despertar o desejo de mudança na forma de fazer política pelo Legislativo. Este parece ter sido o recado dos cidadãos em épocas distintas, não nas urnas, mas decidindo fazer parte do pleito diretamente.

E o que se viu, por conseguinte, foi uma acirrada busca, na proporção de sete candidatos para cada vaga de vereador, de cidadãos e cidadãs comuns se lançando - a maior parte deles pela primeira vez -, no desafio de se tornar um servidor público por excelência, um agente político capaz de bem administrar os destinos de seu município.

Em 1988, Jorge Madeira foi eleito vereador e José Quintino de Souza e Euclides Buzatt ficaram como suplentes. Hoje, no pleito que se aproxima, oito dos atuais vereadores buscam a reeleição numa disputa que envolve 69 candidatos. Todos alimentando o sonho de ocupar uma cadeira no Legislativo local e dar o melhor de si pela cidade que amam com oportunidade justa para todos.

Mas voltaremos ao assunto.

 

Brasilândia/MS, 28 de setembro de 2020.

 



[2] - Mais informações sobre as Eleições em Brasilândia/MS, cf. DUTRA, C.A.S. História e Memória de Brasilândia, vol. 5, O poderes, as eleições e a política, p. 38-42, Brasilândia, Edição do Autor, (no prelo).

[Fotos] Fotos dos candidatos a vereador em ordem nominal alfabética obtidas na Internet via Fabricio's Post, em 28.Set.2020.

[Atualizado em 29.Set.2020]

quarta-feira, 5 de agosto de 2020



Dona Jupira, a margem e o centro da Vida
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Existem pessoas que passam ao nosso lado e é como se elas fossem invisíveis. O corre-corre do dia a dia e a luta pela sobrevivência transformou a todos em autômatos, cibernéticos, digitais. Na linguagem atual, movidos pelas chamadas redes sociais (que de social pouco têm), são impessoais, plásticos, virtuais.

Pois esses amigos entram em nossas vidas por uma telinha brilhante da mesma forma que saem. Adicionamos e excluímos amigos sem a menor reflexão e aproximação com o ser humano que está do outro lado do visor de cristal.

E como as pessoas que se encontram a nossa volta são de carne e osso, nem sempre esbeltas, cheias de plumas e sorriso, a tendência é desconsiderá-las, afastá-las deste nosso mundo ideal criado e alimentado pelo imaginário coletivo satélite global; porque imperfeitas e fora do padrão imposto pelo  mercado.

Mesmo assim, esses seres humanos desprezados e alijados existem, e resistem. E, pouco importando o que pensam a respeito deles, seguem adiante. Traçam seu rumo, sua história, geralmente cabisbaixos, e nem percebemos. Vivem em bairros distantes na periferia e suas residências se confunde com o que são, pensam ou fazem.

As grandes cidades os toleram em suas comunidades, eufemismo de favelas; têm vida própria. Os que vivem em pequenas cidades residem muitas vezes a poucos metros de cada um de nós, vivem praticamente no centro da cidade; impossível não vê-los, não sentir seu cheiro, tocá-los.

O caso da dona Jupira pode ser assim comparado. Em que pese à anomia social que a condição dos que assim vivem é entendida e raramente acolhida, ela foi uma avis rara que sobreviveu. Passou por nós e, descuidados que somos, desapareceu.

De aparência frágil, fez-se forte para dobrar a vida quando ela não lhe foi nenhum pouco favorável. Foi assim desde o dia 26 de abril de 1928 quando nasceu, lá num cantinho da cidade de Tupã/SP, quando seus pais João David Bonifácio e Adelina Amélia de Jesus festejaram sua chegada erguendo os braços para os céus em sinal de acolhida e alegria.

Ainda muito jovem chegou a Brasilândia juntamente com seus pais, logo, entretanto, constituindo sua família e tocando em frente a vida que recém iniciava. Por muitos anos residiu na Rua Elviro Mancini com sua família, a poucas quadras do Paço Municipal da cidade.

Mesmo depois de viúva sustentou a família com o trabalho e suor de seu rosto. Fez das tripas coração para alimentar e educar os 22 filhos que a natureza plantou no seu ventre e ainda outros que ajudou a criar, adotando-os como filhos. Depois, passou a criar os netos, acolhendo a todos com amor e afeto.

Por essa sua proeza, no ano de 1993, a Prefeitura Municipal de Brasilândia brindou-a com o prêmio da mãe com o maior número de filhos da cidade, quando ela foi homenageada através da Secretaria de Promoção Social, numa parceria com o Rotary Club e o Banco do Brasil locais, com a doação de seis mil cruzeiros reais, moeda da época.

No plano laboral, dona Jupira Amélia de Souza foi uma das mulheres pioneiras na atividade de catadora de papel e material reciclável em Brasilândia. Muito antes do surgimento da ASSOBRAA era possível observar no pequeno quintal de sua casa, montanhas de latinhas, papéis, vidros e plásticos, sendo pacientemente separados pela aquela senhora cujos anos iam consumindo.

Depois de contrair doença a partir de uma ferida na perna que não cicatrizava, queixou-se a este escrevinhador em 2014, não podendo mais percorrer as ruas e o lixão da cidade para catar o material reciclável, passava as tardes na residência para onde fora levada, contando histórias aos netos e a quem se dispusesse ouvi-la.

Os vizinhos mais próximos da Rua Euzébio Pedroso, onde viveu seus últimos dias e veio a falecer no dia 24 de outubro de 2016, de quando em vez, ainda há quem se lembre daquela senhorinha de estatura pequena, levemente curvada que nunca se queixou da vida. E cujo rosto iluminava esperança e vida àqueles que a contemplavam...

Brasilândia/MS, 5 de agosto de 2020.



domingo, 2 de agosto de 2020



Um olhar, uma fotografia, uma lembrança
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Escrever sobre o passado a partir da memória impõe ao escritor um duplo desafio. O de se manter fiel à história e ao mesmo tempo abrir espaço para a sua interpretação, no mais das vezes realizada pelos próprios personagens e protagonistas que a construíram.

E lá estão as lembranças plasmadas em contos, causos e histórias eivadas de significados às vezes incompreensíveis ao visitante e pesquisador desavisado dos costumes e signos locais.

Entre o apanhado de recortes de jornais, entrevistas e depoimentos espontâneos dos cidadãos -- muitas vezes sem consciência do alcance desta sua contribuição para a posteridade --, estão também as fotografias antigas.

Ah, as fotografias... 

E elas falam. Às vezes em silêncio, estanques, plasmando no tempo e no espaço aquele flash de vida e movimento do passado que aconteceu e perenizou na memória. Outras vezes, quando provocadas, dialogam e respondem às perguntas certas que fazemos.

A fotografia em apreço é dos anos 1970 e originalmente está em preto e branco. Graças ao recurso da tecnologia, damos-lhe cores e eis que a vida experimentada naquele momento salta do papel e invade o coração do observador.

Pedindo licença poética aos personagens, alguns deles já saudosos, o contexto vai tomando forma e invadindo o ambiente ruidoso de um evento estudantil festivo que envolve a todos, revelando sua beleza.

A cerimônia acontece na Escola Municipal Arthur Höffig e reúne professores, alunos, pais, mães, avós e comunidade. Também lá estão as autoridades municipais da época, do Executivo e do Legislativo local.

O município que vive seu primeiro lustro de emancipação político administrativa faz daquele evento o momento mais importante de sua vida contagiando o ambiente e o coração dos presentes.

E não era para menos, naquele dia a escola vive, salvo engano, sua primeira formatura de 4ª série, onde o rosto daqueles jovens e seus primeiros madrigais sorri para o futuro que desponta a sua frente transformando o evento num verdadeiro salão de festas para o povoado que emergia.

Entre os formandos agraciados com os louros da merecida vitória, dois olhinhos brilhantes de uma jovem, de apenas 13 anos de idade, naquele dia pestaneja de alegria e contentamento. 

Diante de si estava, entre outros, aquele a quem a menina mais amava: seu pai. Joaquim Cândido da Silva era o seu nome. 

Figura pública de destaque na condição de vice-prefeito (de Julião de Lima Maia) também deixou sua marca na história como vereador na segunda legislatura da Câmara Municipal de Brasilândia.

No plano pessoal, sempre acompanhou a caminhada da filha, desde seus primeiros passos até a educação escolar. E esse era o maior motivo de sua felicidade: estar ao seu lado. Tinha tudo para sentir orgulho naquele momento.

A objetiva atenta do fotógrafo Abel Oliveira, o primeiro desta profissão em Brasilândia, eterniza aquele momento de beleza e sensibilidade raras fazendo o registro da cena ontológica. E amplia seu olhar para outras duas personagens históricas da municipalidade.

Ao lado do pai da formanda Áurea Cândido da Silva, lá está o 4º prefeito de Brasilândia, Julião de Lima Maia e o jovem vereador Adilson Alves da Silva que viria ser prefeito sete anos depois.

O quadro está completo e a fotografia, depois de 44 anos, repousa sobre a mesa da aluna professora que recorda. É como se novamente entrasse naquela escola e revisitasse uma a uma as carteiras de madeira simples que alimentaram o saber de cada um dos colegas de turma que por ali passou.

As recordações rodopiam ao sabor da nostalgia do vento. Cheias de gratidão às prestimosas Glorinha Leal e Profª. Maria José, pelo esmero e cuidado com o cabelo e a leve maquiagem que adornou a aluna.

E o cartaz ainda resiste, cheio de saudade, em homenagem ao Dia dos Pais rabiscado em 10 de agosto de 2014 pela mesma menina que num dia especial de sua vida recebeu da primeira escola de sua cidade a chave do conhecimento para conquistar o sucesso e a felicidade.

Parabéns aluna Áurea Cândido da Silva. Obrigada professora Áurea Cândido da Silva por contribuir para o resgate da história e memória da Cidade Esperança.















Brasilândia/MS, 2 de agosto de 2020.