segunda-feira, 4 de maio de 2026

 

Libaneza Center: Onde o passado floresce em gratidão
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




Em tempos de liquidez, como bem descreveu o filósofo Zygmunt Bauman, a vida parece escorrer por entre os dedos. As memórias, como águas de um rio apressado, arriscam-se a desaparecer no silêncio do esquecimento. Especialmente nos pequenos recantos do mundo, onde a história nem sempre se escreve em letras de forma, os momentos de glória podem ser varridos pelo vento se não forem eternizados pelo afeto e pela palavra escrita. 

Brasilândia, contudo, parou para respirar no dia 3 de maio de 2021. Naquela manhã, o tempo não fluiu; ele se fez monumento. O que se viu não foi apenas a abertura de portas, mas o desabrochar de um legado: a nova Libaneza Center, erguida sob o sol com o brilho da modernidade e a solidez dos sonhos realizados. Lá, entre o perfume das flores e o frescor das novas paredes, os olhos de Regina Célia Zogheib Bertonha marejavam, refletindo a luz de um coração que batia no ritmo acelerado da vitória. 

No silêncio de sua prece íntima, Regina viajava no tempo. Encontrava, no ano de 1948, as ondas de um mar rebelde sendo vencidas pela coragem de Farhat Zogheib, seu pai. Para trás, ficava um Líbano ferido pelas cicatrizes da Grande Guerra e pela depressão econômica. Na mala, quase nada; no peito, a imensidão da esperança. Ao desembarcar no Brasil e instalar-se em Junqueirópolis, o jovem imigrante não buscava apenas fortuna, mas um destino. 

A semente da prosperidade germinou rápido. Em 1953, o esforço transformou o empregado em proprietário. Ao lado de sua esposa, Yolanda Baggio Zogheib, Farhat fundou a "Casa Libaneza". Regina, a menina nascida em 1960, cresceu entre o balcão e os materiais de construção, aprendendo que o comércio é, antes de tudo, a arte de servir. 

A partida do pai, em 1994, embora tenha deixado um vazio imenso, não apagou a chama empreendedora da família. O esteio se foi, mas o carisma permaneceu. Quatro anos depois, guiada por desígnios que transcendem o plano terreno, os olhos de Regina miraram além da margem direita do Rio Paraná. 

Nas férias em que visitava o esposo Celso Bertonha e o sogro na lida agropecuária, ela percebeu que Brasilândia era o solo que esperava por sua história. Em julho de 1998, o veredito do coração: "Já não me via mais longe do Mato Grosso do Sul". E assim, em 5 de dezembro daquele ano, a Libaneza Center abria suas portas na Avenida Boa Esperança. 

O que começou em um espaço tímido e alugado, floresceu sob a confiança do povo brasilandense. O "mix" de produtos cresceu; as ferramentas ganharam a companhia da papelaria, da decoração e do aconchego de cama, mesa e banho. O espaço ficou pequeno para a grandeza daquela visão. 

Hoje, decorridos mais de 22 anos, o ciclo se completou com a inauguração do prédio próprio — a maior e mais imponente loja da cidade. Um espaço setorizado, amplo e moderno, pensado para que cada cliente se sinta em casa. Um presente arquitetônico que engrandece o município e oferece alternativas que vão das utilidades domésticas ao rigor dos materiais profissionais. 

Mais do que uma estrutura de concreto e vidro, a Libaneza Center é um gesto de gratidão. Por meio de cada colaborador, a empresa devolve à cidade o carinho e o prestígio recebidos ao longo de duas décadas. Parabéns, Regina Célia Zogheib Bertonha. Parabéns, Libaneza Center. 

Que a luz de Farhat e Yolanda continue a iluminar os corredores desta casa que, nascida de uma malinha de mão e atravessando oceanos, hoje é o orgulho de Brasilândia. 

Brasilândia/MS, 4 de maio de 2026. 5º aniversário de inauguração na nova sede da Libaneza Center.

Foto: Jornal de Brasilândia, 1999 e Dutra, 2021.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/05/libaneza-center-e-o-olhar-de-gratidao-e.html




 

domingo, 3 de maio de 2026

 

Memórias de Luta e a Saga do SINDIBRAS.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra.


 




As sementes do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Brasilândia — o SINDIBRAS — foram plantadas em solo fértil de esperança no dia 4 de maio de 2002. Contudo, a jornada para transformar o sonho em direito gravado no papel foi longa. O primeiro marco oficial viria apenas em 26 de março de 2007, quando a entidade registrou sua existência sob o número 079 do Livro 2-1, Folhas 147 vº, no Cartório de Brasilândia.

Por uma década inteira, os dirigentes do sindicato travaram uma batalha silenciosa e persistente. Faltava-lhes a tão almejada Carta Sindical — o documento que não apenas legitimava a força da categoria, mas que também serviria de escudo e espada nas negociações junto ao poder público. Até então, a prefeitura local ignorava a voz da entidade. Somente dez anos após a sua fundação é que o sindicato finalmente pôde erguer o documento que oficializava sua força reivindicatória. 

A verdadeira gênese dessa história remonta a tempos ainda mais distantes. O servidor público Marcos Eduardo Costa Brasil, fundador e primeiro presidente, já buscava desde 21 de setembro de 1993 — sem sucesso — a inscrição da entidade no burocrático labirinto do Cadastro Nacional de Entidades Sindicais do Ministério do Trabalho e Emprego. Era um esforço solitário que antecipava as lutas que estavam por vir. 

O destino do SINDIBRAS começou a mudar de rumo em 2005. O sopro de renovação veio em 2 de setembro daquele ano, quando uma assembleia geral elegeu a primeira Comissão Eleitoral. Semanas depois, no domingo de 16 de outubro de 2005, a categoria se reuniu em uma modesta casa na Rua dos Associados, nº 905, no coração da cidade, para escolher sua primeira diretoria oficial. 

Sob o olhar atento de Cleiton de Oliveira Caitano (presidente da mesa), Nilson de Oliveira (secretário) e Clemente Cardoso Farias (escrutinador) — todos servidores e homens de fibra —, os votos foram contados. Todo o rito cumpria rigorosamente o edital publicado em setembro nos murais da Comarca, no Paço Municipal e na Câmara. Para garantir a lisura e a proteção jurídica daquele momento histórico, os trabalhos foram assessorados pelo advogado Carlos Alberto dos Santos Dutra (OAB/MS nº 10.179).

Ali, naquele domingo de sol em Brasilândia, a categoria não apenas elegia seus representantes: ela começava a escrever, em definitivo, a sua própria história de liberdade e direitos. 

Brasilândia/MS, 4 de maio de 2026.

Fonte: A história completa do SINDIBRAS o leitor encontra no Volume 2-Patrimônio, da coleção História e Memória de Brasilândia/MS, páginas 426 a 430.


 

sábado, 25 de abril de 2026

Brasilândia e o legado de seu Teixa e Dona Tina.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra










Diz o ditado que o trabalho dignifica o homem. A frase, popularizada pelo sociólogo Max Weber, sempre serviu de norte para aquela família. Mesmo sem conhecerem o intelectual alemão falecido em 1920 — contemporâneo de seus ancestrais —, eles sempre souberam enfrentar o desafio das intempéries, os devaneios humanos e as feridas das guerras.

Agora, o clima é de paz, nutrido pela memória das águas e pela mansidão de um mar que abranda sua fúria na areia. Tudo ao redor exala graça, permitindo que passos descalços alcancem o frescor da vida e a felicidade de, finalmente, ter um lar.

O olhar da mãe contempla o menino de olhos azuis e pele rosada, que sorri enquanto corre entre as rosas do quintal. Dona Albertina sempre preferiu as rosas; dedicava a elas um cuidado quase místico, como se as flores compreendessem sua essência. Ao lado do esposo, cultivava a simplicidade comum aos imigrantes da época, espalhados por esse imenso Brasil que os acolheu, ainda que em cantos remotos do sertão.

De repente, um apito alto e retumbante a desperta. Em uma onda de nostalgia, ela se vê novamente nos braços do vento, sobre a quilha de um navio que avança, deixando para trás, entre as brumas, as lembranças do avô Christian e de seus pais, Antônia e Fernando.

Albertina — a "Tina" — enxerga agora, através dos olhos do marido, que o medo ficou no passado. Seu Cristiano Höffig, o "Teixa", nascido na fazenda Criciumal em Pirassununga, ainda guarda na memória o ofício do pai, o cuteleiro Floriano.

A tradição da cutelaria, herdada do pai Floriano Louis e do avô Augusto na distante Zossen, em Brandemburgo, não era apenas um ofício; era um símbolo de resistência. Pirassununga, solo fértil para imigrantes alemães, suíços e austríacos, transformou-se no novo lar desses homens e mulheres que, entre os cafezais, integraram-se à alma brasileira. Com o tempo, o idioma alemão silenciou-se, mas a disciplina e a força permaneceram.

O navio do destino não corta mais águas de insegurança. O menino Arthur Höffig, nascido em 21 de maio de 1912, cresceu sob a égide da Primeira Guerra, mas foi protegido pelo braço firme de seu pai. Em seus sonhos, Arthur forjou-se como o aço de um cutelo: forte, resiliente e afiado o suficiente para desbravar o sertão e transformar o mundo ao seu redor.

O tempo, porém, é um rio que não retorna. O menino que corria sob o olhar da irmã Ondina e o afeto da mãe perfumada já faz parte da eternidade. Dona Tina partiu em 1984, aos 94 anos, mas não sem antes se despedir de seu menino Arthur, que a precedeu na jornada final em abril de 1983, em Cornélio Procópio.

Hoje, Brasilândia celebra a memória de um sonhador - Arthur Höffig - que não conheceu limites. O filho do cuteleiro tornou-se mestre, aviador, servidor e empreendedor. Seu nome hoje batiza ruas, prédios e monumentos, gravado no bronze e na história das cidades que ajudou a erguer.

Lá do alto, Seu Teixa e Dona Tina celebram com júbilo. O pequeno Arthur superou todas as expectativas, deixando um rastro de luz e progresso. Aqui em Brasilândia, o pioneiro que em 10 de fevereiro de 1950, aos 37 anos, fundou a empresa Agropecuária AH, recebe nossa mais profunda reverência.

Os sonhos de Arthur perenizaram-se. Estão vivos no sangue e na fibra dos que herdaram o espírito empreendedor do patriarca. Hoje, com o peito estufado de orgulho, nos festejos de seus 61 anos de emancipação político administrativa, a cidade de Brasilândia, fundada por ele, saúda os  pioneiros de ontem e de hoje cuja marca de suas presenças nesta terra são sinônimo de trabalho e vitória. Parabéns Brasilândia. Obrigado jovem Arthur.

Brasilândia/MS, 25 de abril de 2026.



A história completa deste pioneiro pode ser encontrada na Biblioteca Municipal no livro História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. I-Pioneiros, página 122 a 125. E adquirido na edição especial em cores in https://clubedeautores.com.br/livro/historia-e-memoria-de-brasilandia-ms-vol-1-pioneiros

 

José Francisco Marques Neto: A Memória e o Tempo.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

No ano de 2016, ao ser homenageado em vida pelo município de Brasilândia/MS, José Francisco Marques Neto emprestou seu nome à nova Unidade Básica de Saúde (UBS) no bairro Residencial Vale Verde (Lei 2654/2016). 

Na cerimônia de inauguração, foi apresentada uma biografia do homenageado — o primeiro prefeito da cidade —, elaborada por Alessandro Zioti e pela pesquisadora Leila Adelaide Ferreira.

O texto abaixo, reproduzido originalmente no volume 5 da coleção História e Memória de Brasilândia, é a uma singela homenagem àquele que nos antecipou na caminhada e, agora, nos honra neste dia de festa, recebendo-a do alto. 

Nascido em José Bonifácio/SP, em 10 de setembro de 1932, José Francisco foi o quarto de sete filhos de um casal de colonos. Ainda jovem, decidiu trilhar seu próprio caminho em busca de grandes objetivos. Serviu ao Exército Brasileiro por cinco anos, oportunidade em que se formou em Farmácia pela escola militar. Sua vocação política despertou cedo: em 1950, aos 18 anos, já integrava o diretório municipal do PSD no Mato Grosso. 

Marques Neto consolidou uma formação intelectual vasta: além de farmacêutico, graduou-se em Direito, foi pecuarista e professor de História e Geografia na universidade federal. Mesmo com o passar das décadas, nunca abandonou a vida pública, mantendo-se como membro ativo do diretório do PSD em Três Lagoas. 

Em 1962, foi eleito vereador por Três Lagoas, onde lutou incansavelmente pela emancipação do distrito de Brasilândia. Com a criação do novo município em 1965, Marques Neto candidatou-se ao cargo de prefeito, tendo como vice Gentil Ferreira de Souza. Eleito pelo voto popular, governou de 25 de abril de 1965 a 14 de setembro de 1966. 

Seu legado administrativo incluiu a estruturação da Escola Municipal Arthur Höffig, a construção do campo de aviação e do Estádio Joaquim Cândido da Silva, além da fundação de diversas escolas rurais e urbanas. Foi ele quem deu o passo primordial para a urbanização da cidade, que até então possuía características estritamente rurais. 

A homenagem na UBS em 2016 foi um momento de grande emoção. Lisonjeado, Marques Neto compareceu à solenidade, onde relembrou fatos pitorescos. Irineu de Souza Brito, que teve a oportunidade de entrevistá-lo, recorda uma história emblemática sobre o nascimento institucional da cidade. 

Segundo Irineu, o ex-prefeito narrou com saudosismo a grande festa de posse, que reuniu políticos de todo o antigo Mato Grosso. Contudo, o momento mais marcante veio após o fim da celebração:

"Quando a festança acabou e os visitantes voltaram para suas cidades, deixando apenas a saudade e a poeira na estrada, a 'ficha caiu'. Prefeito e vereadores ficaram de pé no meio da praça, sob o fim de tarde, olhando uns para os outros. Não havia Câmara, não havia sede da Prefeitura, não havia nada. O jeito foi partir para a luta com a cara e a coragem, conquistando passo a passo o prédio e os móveis para instalar a administração." 

Como bem escreveu Ray Santos em 1999, Marques Neto cumpriu sua missão. Ele não apenas implementou as primeiras obras e instalou os órgãos públicos, mas também trouxe conterrâneos e familiares — como Anésio e Wilson Marques — que se radicaram e ajudaram a construir Brasilândia.  

As obras de um homem permanecem vivas na memória mesmo após sua partida pois sempre lembradas a cada aniversário da Cidade Esperança.

 

Brasilândia/MS, 25 de abril de 2026

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2020/04/jose-francisco-marques-neto-memoria-e-o.html

terça-feira, 21 de abril de 2026

 

Homenagem de Aniversário ao amigo Amaral Adriano Alves.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 





Nem sempre temos a oportunidade de agradecer. O tempo e os dias encontram um jeito de nos fazer protelar aquilo que deveria ser o motor da vida em comunidade: o reconhecimento do valor de cada um à nossa volta e o quanto contribuíram para a maturidade do que nos tornamos.  

Hoje, abro as portas do coração para expressar a gratidão que a azáfama de tempos passados, por vezes, ofuscou. Falo de um jovem que o acaso colocou em meu caminho logo que cheguei ao Mato Grosso do Sul. Ainda solteiro em Brasilândia, vi esse jovem assumir o volante da Toyota que auxiliava o trabalho pastoral do CIMI e o apoio logístico aos Ofaié, que lutavam pela sobrevivência nas barrancas do Rio Paraná.  

Reviro meus arquivos e não encontro fotografias daquele tempo, mas a memória guarda intacta a imagem do jovem que transportou indígenas em busca de socorro, garantiu mantimentos varjão adentro e foi imprescindível na ação social junto aos ribeirinhos. De olhar manso e braços fortes, ele revelava um coração de ouro onde tudo era possível. Tornou-se um membro da família, embora nunca tenhamos dito isso nas tantas idas e vindas pela velha estrada do porto.  

Quando aquela que viria a ser minha esposa chegou nestas terras, vindo do Rio Grande do Sul, lá estava ele com a Toyota verde. Foi buscar a professora Vilma na beira da estrada em Bataguassu, pois o ônibus da época não parava na rodoviária. Enquanto eu viajava por Dourados, Brasília ou Cuiabá em busca de documentos sobre os Ofaié, lá permanecia o nosso guardião, regendo a orquestra da vida que fomos construindo dando segurança e visibilidade àqueles que a história tentou ocultar.  

Foi com os olhos e braços deste amigo que resgatamos animais silvestres, participamos de reuniões comunitárias e desfrutamos de tantas rodas de chimarrão na companhia do saudoso Padre Lauri, pároco de Brasilândia.  

É a este homem admirável, que prestou serviços relevantes à causa indígena e à nossa história, que hoje rendemos homenagem. A este coração generoso, cujos braços ainda o mantêm firme no volante da vida, rogamos aos céus que sua estrada seja sempre iluminada e feliz ao lado daqueles que o amam. 

Parabéns, Amaral Adriano Alves. 

Feliz Aniversário!


Brasilândia, 21 de abril de 2026.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

 

Cruzeiro da Fundação: o Marco Zero de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 

Os símbolos municipais são mais que figuras; são o retrato vivo da identidade, tradição e evolução de uma comunidade. Em Brasilândia/MS, ao lado da Bandeira, do Hino e do Escudo, outros ícones conferem nobreza ao nosso espírito cívico. Entre eles, destacam-se o Painel Cultural da Praça da Matriz, o busto do Fundador Arthur Höffig e a centenária Árvore Tamboril — esta última já protegida por lei como patrimônio histórico. 

Contudo, um outro monumento ainda carece desse reconhecimento oficial: o Cruzeiro. Plantado no alto da cidade, ao lado da Câmara Municipal, ele é o marco inabalável da fundação do nosso povoado. Uma demonstração de que esta cidade teve seu nascimento sob a inspiração redentora da Cruz. 

A história remonta a data de 21 de abril de 1957. E eis que numa clareira do cerrado, cercada por poucas casas, uma cruz de madeira nobre de 4 metros foi erguida. Ali, sob os pés do monumento, o padre tchecoslovaco John Tomes celebrou a primeira missa campal, acompanhado pelo patriarca Arthur Höffig, seus familiares e a pioneira população local. 

Mais que uma expressão religiosa, o Cruzeiro representou naquele momento a data da elevação daquela vila à condição de Povoado. Expressão da bravura daqueles que, a partir de 1912, desafiaram o domínio da Brazil Land Cattle and Packing Company para desbravar este sertão, outrora habitado exclusivamente pelos indígenas Ofaié. Ele é a pilastra do progresso trazido pelos nossos antepassados. 

O seu lenho, sob o aspecto cultural, nos reporta à tradição e também à renovação. Originalmente, o Cruzeiro ficava em um ponto mais elevado, entre as chácaras instalada na parte alta do povoado, onde fiéis depositavam flores e velas nos dias santos e de guarda. Com o passar de três décadas, a ação do tempo e o calor das oferendas desgastaram a madeira original. Foi quando em 1989, na gestão do prefeito Prof. José Cândido da Silva, o símbolo foi renovado. 

A nova cruz foi entalhada pelas mãos do pioneiro Mané Zoada, com o auxílio de Joaquim Cândido da Silva, Isaías Nunes da Silva e Noel Euzébio de Lima. Juntos, eles lapidaram com esmero o ícone que hoje se impõe à nossa memória e reafirma a fé que sustentou a comunidade em seus primeiros anos. 

A cada aniversário Brasilândia ergue um apelo à preservação deste monumento histórico: transformar o Cruzeiro em patrimônio oficial do município. Gesto institucional que resgata a dignidade da antiga Praça dos Fundadores, idealizada a em 1981, encravada numa placa em 1984 pela prefeita Neuza Paulino Maia, sem nunca ter se tornado uma realidade. 

O clamor por sua preservação ainda vive no coração dos munícipes, sobretudo dos mais antigos. Lembremos que em 1989, há 37 anos portanto, o jornal Informativo Agulha já alertava sobre o desmatamento no entorno deste monumento e a necessidade de se proteger o "bosque do Cruzeiro" como era chamado, para a posteridade. 

Que o espírito ecológico, a inspiração divina da primeira Missa campal e o respeito à trajetória dos que aqui chegaram derrame suas bênçãos sobre o município que festeja seus 61 anos de emancipação político administrativa. Proteger o Cruzeiro é garantir que as futuras gerações conheçam o lugar onde o coração de Brasilândia começou e continua até hoje a bater. 

Brasilândia, 21 de abril de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/06/em-defesa-do-cruzeiro-patrimonio.html

sábado, 18 de abril de 2026

 

Bel: Onde o Sonho Cria Raízes e a Luta Faz Florir

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 



Maria Izabel Prates Oliveri. Para todos, simplesmente Bel. Ela carrega o dom da simplicidade, não como renúncia, mas como celebração. Sente-se em casa rodeada pelos humildes e combativos, por aqueles que estendem a mão aos que sofrem e transformam a perseverança em um ato de resistência. 

E sem nunca deixar de ser bela. 

Não falamos da beleza artificial, que busca o brilho efêmero dos holofotes ou o vácuo das mídias sociais. Sua beleza é orgânica, forjada na coerência de sua história. É a beleza de uma mulher de têmpera forte, capaz de extrair encanto da aspereza do cotidiano e fazer florescer jardins de esperança onde antes havia deserto. É essa mística que a mantém renovada a cada instante. 

Sua memória resgata a menina de 18 de abril de 1947, data em que decidiu espiar pela fresta da vida e vislumbrar, entre tantos olhares, a vastidão do mundo. Desde então, a quietude a abandonou. Inquietava-se com o riso de uns e as lágrimas de outros. Inconformada com as sombras que via, decidiu repintar a realidade com as cores vivas do arco-íris que guarda no peito.

Mas o mundo, por vezes, torna-se estreito para sonhos gigantes. 

Em 1974, após graduar-se em Serviço Social em Lins/SP, Bel engajou-se no Instituto Administrativo Jesus Bom Pastor (IAJES), em Andradina/SP. Ali, reuniu o fôlego necessário para um voo de envergadura admirável, selando a opção fundamental de sua existência.

Nas margens do Rio Paraná, com a chegada de Dom Izidoro Kosinski a Três Lagoas em 1981, a Diocese abraçou a defesa dos excluídos e impulsionou a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Bel, encarnando a trilha do "Servo Sofredor", abriu o coração para o campo da justiça social. 

Eis que, num dia banhado de sol, aquela personalidade cativante — ao lado do Padre João Carlos Oliveri, com quem se unira em 1975 — pôs os pés em definitivo na Cidade das Águas. Com a anuência eclesiástica, o casal inaugurava "Novas Formas de Ser Igreja", semeando alento à luta dos marginalizados e materializando a opção preferencial pelos pobres anunciada em Medellín e Puebla. 

A partir de então, Três Lagoas não foi mais a mesma. Eram tempos densos, os "anos de chumbo", quando o país tateava a saída da ditadura. O cenário exigia coragem dos agentes de pastoral, frequentemente alvo de críticas e perseguições dos setores conservadores e do pensamento ruralista burguês. Mas Bel nunca foi de se intimidar. Criou laços e uniu forças com companheiras como Belkiss Maria Kudlavicz, a irmã Nair Ribeiro Cardoso e o saudoso Ernesto Chico Brambatti, que então revigorava o informativo Vida Diocesana. 

Desse fôlego, brotaram sementes férteis: o Serviço de Formação de Agentes Populares (SFAP), a Pastoral dos Direitos Humanos, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Tudo apontava para um novo horizonte de fé naquelas terras outrora habitadas pelos Kayapó e Ofaié. 

Bel tornou-se uma estrela polar, apontando caminhos. O mundo solidário que ela buscava empreender através de seus passos e palavras nunca a deixou só; a cada gesto, conquistava aliados e despertava simpatias na aurora de sua vida. No âmago de sua jornada, acolheu a família, o esposo e os filhos com ternura dedicada. Manteve-se firme, conduzindo-os com responsabilidade e vigor, mesmo após a dor profunda da partida de Hanako e Giancarlo em 1996.

Mesmo no luto, não descuidou da luta. 

Reservou para si a bandeira dos sonhos, empunhada com a garra da utopia realizável. Entregou corpo e alma à liberdade. E como é impossível comprometer-se sem "meter a mão na massa", Bel sentiu o chamado de tocar a terra e a ferida. Levantou a voz e avançou para a política institucional, elegendo-se em 1996 como a primeira mulher vereadora pelo PT em Três Lagoas. Ali, provou que a via partidária é um prolongamento necessário das lutas populares. 

Encontramos nela a guerreira que carrega o antídoto contra o desânimo. De braços dados com a Educação e os Sindicatos, em defesa da Saúde e da Vida, contra todo preconceito, Bel é a timoneira que desafia a correnteza do tempo. À semelhança de uma imortal Dorcelina, ela semeia flores e energia; é uma "Margarida" aguerrida que, com passos decididos, mantém viva a chama da esquerda nas trincheiras do amanhã. 

Bel é centelha de luz, chama de vela, voto de esperança. É o abraço que acolhe e o sorriso que caminha de mãos dadas. Para seus amigos e parceiros de viagem, é um orgulho tê-la como companheira de jornada. Ela permanece imprescindível, com os pés sempre prontos para o pó da estrada. Uma história que se funde à do companheiro João que, lá do alto, segue iluminando suas sandálias — e, às vezes, o andar descalço e romântico de sua amada. 

Nesta festa da vida, onde a música e o perfume suave de seu caminhar nos envolvem, nós a saudamos. Porque uma mulher como Bel, que não apenas sonha, mas ensina o mundo a sonhar, faz aniversário todos os dias. Tal qual uma flecha certeira lançada entre as flores, cujo toque exala aromas de conforto e inspiração, Bel é a canção que habita o coração de quem ama e acredita que um mundo melhor é possível.

Feliz Aniversário, Maria Izabel Prates Oliveri. Nós te amamos. 

Brasilândia/MS, 18 de abril de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/05/bel-sonhando-e-ensinando-sonhar.html, 21/05/2021.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

 

Feliz Aniversário Mano João
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra



O pincel das cores dança sobre a tela da vida
E das mãos do Pintor Mor
Eis que desprende uma aquarela do cosmo
Obra prima capaz de mover os ventos e os mares
Cobrir de encantos os vales
Que enchem de beleza e graça
Os braços - João - de sua mãe...

Sonhos, sorrisos de agradecimento
De pais, irmãos, amores, rebentos...
Ah, meu Deus, como o tempo voa
Mas as imagens ficam
A emoção permanece.

É visível nos traços, no olhar e na saudade...
A imagem revela laços que os unem por algo maior.
A ceia e a alegria do encontro
E ele está ali, nosso mano João, como que contemplando o momento mágico.
Carregado de vida e sentimento.

No dia de seu aniversário, é o irmão João, que nos permite admirar este instante:
Que felicidade maior estar ao lado da mãe e irmãos que amamos?
Que felicidade maior poder contar com o carinho e o toque daqueles que nos são caros?
Que felicidade maior saber que podemos contar sempre com um esse prestativo mediador?
Esse irmão que às vezes se oculta nas cores, se retrai nos planos.
Mas nos ângulos da vida, transfigura-se em pilastra que a tudo suporta.
Prenhe de temperança e acolhida, que arrastam jardins de bem-querer.

Sempre solícito no auxilio, na acolhida e bem aventurança
Semeia esperança aos que estão à sua volta, animando-lhes a alma
Com leveza e perfume.

E lá vem ele sorridente, dando um salto da foto para os braços do coração da família:
Pois não é mais possível escondê-lo nos acontecimentos do cotidiano.
Não é mais possível ocultar suas obras e feitos no curso da vida que ele faz viver.

Quando tudo brilha a sua volta
Não é mais possível deixar de proclamar o seu nome, como o irmão amado.
À semelhança daquele discípulo de envergadura e misericórdia celeste
Tu encheste as nossas vidas de bênçãos.
Muito obrigado João.

Feliz Aniversário. Te amamos.

 

Brasilândia/MS, 16 de abril de 2026. Texto original publicado em 16/04/2018 in https://carlitodutra.blogspot.com/2018/04/joao-e-danca-da-vida.html

terça-feira, 14 de abril de 2026

 

Funai conclui georreferenciamento para demarcação de área Ofaié Xavante em MS.

Território de aproximadamente 1.937 hectares passa por etapa fundamental para definição oficial dos limites.

Por Jhefferson Gamarra, Campo Grande News 13/04/2026 13:27


 

A Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) concluiu o processo de georreferenciamento da Terra Indígena Ofaié Xavante, localizada no município de Brasilândia, a 363 quilômetros. A ação integra a etapa de demarcação física do território tradicionalmente ocupado pelos povos Ofaié e Guarani-Kaiowá. 

Os trabalhos foram conduzidos pela CGGeo (Coordenação-Geral de Georreferenciamento ), vinculada à Didem (Diretoria de Demarcação de Terras Indígenas), com apoio da Coordenação Regional em Campo Grande e da Unidade Técnica Local de Brasilândia. A iniciativa também contou com a participação direta de membros da comunidade indígena, que contribuíram com o conhecimento tradicional do território durante o processo. 

Um dos destaques da ação foi o uso de drone para aerolevantamento e mapeamento da área, ampliando a precisão dos dados coletados e marcando um avanço tecnológico nas atividades fundiárias da Funai.

A cacica e liderança do povo Ofaié, Ramona Coimbra Pereira, destacou a importância do momento para a comunidade.

“Para mim, essa demarcação tem uma importância muito grande, não só como liderança, mas como testemunha da luta do povo Ofaié por tantos anos. Foi uma demarcação bem transparente, pacífica e tranquila, e, para nós, é uma vitória muito grande. Representa aqueles que lutaram, os que já não estão mais aqui e os que continuam. É uma honra imensa para o nosso povo”, afirmou.

A demarcação física consiste na instalação de marcos no terreno para definir os limites da área. O trabalho utiliza dados captados por satélites, por meio de receptores como o GPS, garantindo precisão centimétrica nas coordenadas geográficas. 

Na Terra Indígena Ofaié Xavante, o processo resultou na medição de um perímetro aproximado de 27,7 quilômetros, delimitando oficialmente a área. A metodologia segue o que determina a Lei nº 10.267/2001, regulamentada pelo Decreto nº 4.449/2002, que exige o georreferenciamento de imóveis rurais e áreas públicas no Brasil.

O uso de drone complementou a coleta de dados ao permitir imagens aéreas detalhadas do território, contribuindo para a elaboração do mapa e do memorial descritivo da área, documentos essenciais para a continuidade do processo.

Com a conclusão dessa etapa, o procedimento segue agora para a fase de homologação.

A demarcação de terras indígenas no Brasil é regulamentada pelo Decreto nº 1.775/1996, que estabelece as fases do processo administrativo. Entre elas estão os estudos iniciais, a delimitação, a declaração pelo Ministério da Justiça, a homologação por decreto presidencial e, por fim, o registro da área.

Somente após a homologação e o registro em nome da União, com usufruto exclusivo dos povos indígenas, o processo é considerado finalizado.

A Terra Indígena Ofaié Xavante possui cerca de 1.937 hectares e abriga aproximadamente 32 famílias. Embora tenha sido declarada de posse permanente dos povos indígenas em 1992, a área foi alvo de contestações por parte de proprietários rurais.

Durante esse período, os Ofaié foram obrigados a se deslocar para outra área, posteriormente inundada pela formação da represa da Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta. As contestações foram julgadas improcedentes em 1996, mas, até hoje, a terra indígena ainda não foi homologada por decreto presidencial.

A conclusão do georreferenciamento representa, nesse contexto, mais um passo no processo de regularização fundiária do território e na garantia dos direitos dos povos que tradicionalmente ocupam a área.

Campo Grande/MS, 13 de abril de 2026.

Fonte: https://www.campograndenews.com.br/cidades/interior/funai-conclui-georreferenciamento-para-demarcacao-de-area-ofaie-xavante-em-ms. Funai conclui georreferenciamento da TI Ofaié Xavante. https://share.google/4xezqN9H0cUeQwI7T; Foto: Drone foi utilizado para delimitar área em demarcação (Foto: Divulgação/Funai).

domingo, 12 de abril de 2026

 

41 Anos de Voz e Coragem: A Epopeia do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasilândia/MS.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 







Houve um tempo em que as terras de Brasilândia eram banhadas por sombras de injustiça. Sob o sol escaldante do cerrado, o homem do campo vivia sob o jugo do coronelismo, trilhando estradas que pareciam levar apenas à opressão. Mas, no coração desses trabalhadores, germinava uma semente de liberdade.

O Despertar da Resistência: Em 12 de abril de 1985, apenas oito anos após o nascimento de Mato Grosso do Sul, o cenário começou a mudar. Enquanto o estado buscava sua identidade, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasilândia (STRB) rompia o silêncio. Sua primeira sede, uma estrutura simples na Rua Coterp, era mais do que um escritório: era o primeiro porto seguro em uma cidade que ainda despertava como povoado.

Lideranças que Fizeram História: A trajetória do STRB é escrita por nomes que se tornaram símbolos de luta. Irineu de Souza Brito, reconduzido à presidência em 1989 sob o olhar de líderes de todo o estado, não apenas liderou; ele inspirou. Dezessete anos depois, seu esforço seria coroado com o título de melhor sindicalista de Mato Grosso do Sul.

Ao longo das décadas, o bastão da justiça foi passado de mão em mão, mantendo a chama acesa. De 1984 a 2001, o legado de Irineu de Souza Brito; de 2004 a 2012, a dinâmica gestão de José Leite de Noronha; de 2012 a 2016, o compromisso de João Brito de Souza; e a partir de 2016, após a direção firme de Valdemar Batista, os demais que se seguiram. 

O Grito contra o Gigante: Nos anos de ouro, o STRB provou que o tamanho do adversário não intimida quem tem razão. Em 1988, Irineu de Souza Brito levantou a voz contra os impactos da Usina de Porto Primavera. Ele não defendeu apenas terras; defendeu a dignidade dos 400 oleiros e agricultores que viam suas vidas ameaçadas pelas águas. "Por que não ouvir o povo atingido?", questionava o sindicato. Essa voz ecoou como um divisor de águas, transformando o "apartheid rural" em um novo iluminismo para o trabalhador. 

Modernização e Luta Social: Com a chegada de José Leite de Noronha, o sindicato abraçou o futuro sem esquecer suas bases. A entidade se modernizou com tecnologia, mas seu maior avanço foi humano: Reforma Agrária: Impulso decisivo no crédito fundiário; Marcha das Margaridas: Protagonismo feminino no campo; Educação e Assistência: Desde a alfabetização rural até o apoio direto aos acampados com alimentos e infraestrutura. 

O Desafio do Novo Tempo: Hoje, o cenário mudou. O inimigo não é mais apenas o coronel, mas as engrenagens sofisticadas do sistema neoliberal. O trabalhador rural de hoje é esclarecido e detentor de direitos que antes eram sonhos — como a luz no campo e a alfabetização de ontem e as conquistas e avanços atuais: fortalecimento da agricultura familiar, democratização do acesso à terra, crédito, infraestrutura e apoio à produção sustentável. 

No entanto, a missão do STRB permanece sagrada: a vigilância constante. Contra os retrocessos e em favor da esperança, o sindicato segue como o farol que garante que nenhum trabalhador rural de Brasilândia caminhe sozinho. 

Parabéns, STRB! A voz do campo é a força desta terra.


Brasilândia/MS, 12 de abril de 2026. 41º aniversário de fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasilândia. Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/04/ha-36-anos-nascia-o-sindicato-dos.html


segunda-feira, 6 de abril de 2026

 

AMAMEBVP - Associação da Mão de Obra Atingida e Moradores Excluídos da Barranca dos Rios Verde e Paraná

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 

Esta associação nasceu durante o movimento de resistência dos ribeirinhos, oleiros, pescadores, agricultores e comerciantes do Porto João André e extensão da margem direita dos rios Paraná e Verde por ocasião do enchimento do lago da barragem de Porto Primavera construída sob a responsabilidade da CESP.

Conforme a ata da assembleia geral pró-fundação da entidade, o primeiro encontro se deu no dia 7 de abril de 2000, quando compareceram dez moradores da barranca do rio Verde e Paraná, evento que ocorreu na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, já localizado na Rua Jeremias Borges, 524 na sede do município, ocasião em que foi lançado o Edital de convocação para a assembleia de fundação da associação, aprovação do Estatuto, eleição e posse da Diretoria marcada para o dia 15 de abril daquele ano de 2000 tendo como local o Rancho Morada do Sol, localizado na estrada do rio Verde, km 16.

Estiveram presentes nesta assembleia pró-fundação o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Irineu de Souza Brito, o representante da Comissão Pastoral da Terra - CPT, Mieceslau Kudlavicz, e os membros da Comissão, Lauro Brito, João Batista, Hélio Noronha, Sérgio Roberto, José Alexandre (Deguinha), José Elias (Zé Tranquilo), Rita Vitório, João Brito, Glória dos Santos, Aparecido Osvaldo, Alessandro Bispo, e ainda Luiz Carlos (Carlão), Edison Rosalino (Alemão), Francisco Elias (Chico), e Celso, da Pedra Bonita.

O 1º presidente da associação foi Hélio de Noronha e o 1º secretário João Brito de Souza. Em agosto de 2000 a entidade firmou convênio com a Fundação de Promoção Social de Mato Grosso do Sul - PROMOSUL e obtém o fornecimento de 60 cestas básicas para as famílias atingias pela barragem de Porto Primavera.

Dois anos depois, convocada pelo 1º secretário da associação, João Brito de Souza, no dia 18 de maio de 2002 aconteceu uma assembleia geral extraordinária que reuniu os moradores dos Reassentamentos Santana e Santa Emília que, na oportunidade, elegeram a segunda diretoria da entidade e alteado alguns artigos do antigo estatuto da entidade.

Ainda na administração anterior, o 1º secretário da entidade, João Brito de Souza, no dia 5 de setembro de 2000 informa que enviou um rol de reivindicações à Companhia Energética de São Paulo-CESP dirigida a Guilherme Augusto Cirne de Toledo, então presidente da concessionária elétrica paulista, com sede na alameda ministro Rocha de Azevedo, nº 25 em São Paulo Capital.

No dia seguinte, acontecia uma audiência convocada pela AMAMEBVP onde se reuniram: Eliana B, representando Mercedes de Oliveira; Márcio Bruno, representando Maria Aparecida Isabel dos Reis; Iara, representando Rosalino Bispo Machado; Glória dos Santos, representando Adriana dos Santos Tenório, Ernestina, representando Vanderly Lino Lopo, Juvenal, representando Eperson Ravanhani; Maria do Carmo, representando Antônio José Alves; João José da Silva, representando Nivaldo José da Silva; João Miguel da Silva; João Brito de Souza; João Cardoso de Sá; Lauro Brito de Souza; Edson Rafael Rosalino; Hélio Noronha; Alessandra Bispo Machado; Luiz Carlos Pires; José Elias dos Santos; Antônio Ferreira Tenório; João Batista da Silva; José Luiz Petelinkar; Pedro Luiz de Araújo; José Vieira Filho; Santos Gimenes; Terezinha Silvestre da Silva; José Alexandre da Silva; Ademir Pires, representando Aparecido Osvaldo da Silva; Sérgio R. P. representando da Motta, João Alves Coutinho Filho; Paulo Menzo de Oliveira; Júlio Evangelista de Souza; Silvio Antônio de Souza Ribas e Ana Maria; Ubirajara; Valdir Vicente, representando José Luiz da Silva Filho, e Leandro Leite dos Santos.

No dia 16 de novembro de 2000, ainda há o registro de que o 1º secretário da AMAMEBVP tenha encaminhado o Ofício nº 008/00 dirigido à Promotora de Justiça da Comarca, Drª Helen Neves Dutra da Silva, reivindicando direitos nos seguintes termos:

A associação de mão de obra atingida e moradores excluídos da barranca do rio Verde e Paraná mais uma vez solicita a excelentíssima Promotora Drª Helen que adote medidas cabíveis que venha de encontro satisfatório categoria, nessa há tanto tempo oprimida e repudiada pelos principais autores responsáveis dessa nossa situação calamitosa: como se não bastasse tantos abusos e desmandos por parte dos nossos opressores mais uma vez a poderosa CESP desfecha mais um golpe na nossa categoria sofrida e desabonada dos nossos direitos legais: 

Terça Feira 14 último, funcionários dessa referida empresa (CESP) estiveram entregando em mãos para a categoria mão de obra atingida ultimato com 05 (cinco) dias de prazo, por uso irregular de propriedade da mesma referida: aí perguntamos: Somos nós os responsáveis? Fizemos acordo com essa Companhia? Fomos nós que solicitamos esse número de terra insuficiente pra nossa sobrevivência? Não Drª Helen!

A Excelentíssima tem em mãos os acordos entre CESP e prefeitura sem o conhecimento da população atingida e as reivindicações com vários documentos, fita de vídeo, e declarações pessoais, que a nossa associação vem encaminhando a vossa Excelência já há alguns meses.

Não só prá vossa Excelência, que encaminhamos nossas reivindicações, mais para o (Terrasul) Departamento de Terras e colonização do Estado de Mato Grosso do Sul, ao digníssimo Governador José Orcírio Miranda dos Santos, ao Excelentíssimo Procurador Geral da República, Tarcísio Humberto Parreiros Henrique Filho, ao Ministério Público Federal, e até enviamos Ofício ao Excelentíssimo presidente da Companhia Energética de São Paulo CESP, Guilherme Augusto Cirne de Toledo, enviamos em 05/09/00, recebido em 11/09/00 e mandado a resposta em 10 de outubro de 2000 (.,.).

Mais uma pergunta Drª Helen: a quem mais precisamos recorrer? Certos de poder contar com vossa presteza para o assunto em questão, a Associação da Mão de Obra Atingida e Moradores Excluídos da Barranca do rio Verde e Paraná elevam seus protestos de estima e apreço (...).

 

FotoJoão Brito de Souza e o Acampamento da Mão de Obra Atingida. (Foto: Arquivo João Brito de Souza, 1999).

Fonte: História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, pág. 329-330. Disponível em: História e Memória de Brasilândia/MS - Patrimônio, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores