sábado, 10 de abril de 2021

 

Glauco Marighella, imprescindível.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 










Um soco no estômago. A dor motivada pela partida repentina de Glauco Marighella Ferreira da Silva, não causa somente perplexidade a todos, mas um sentimento de angústia e desolação.

Poucas vezes vi um jovem tão radiante e empenhado naquilo que fazia por idealismo profissional, brilhante que era. Desprendido, sorridente e prestativo, lá o encontrei pelos braços da Catena Planejamento Territorial transbordando profissionalismo e solidariedade.

Sua partida repentina deixa um vazio não somente no coração de quem o conhecida, mas um vácuo na educação, na assistência, no empreendedorismo, na técnica e no planejamento em que era mestre. Mais que isso, Glauco era imprescindível, e apto a informar e orientar qualquer um em qualquer área humana e tecnológica de interesse.

Colaborador do Instituto Cisalpina prestando informações da mais alta qualidade, um dia desses pegou o carro e levou-me a cada uma das instalações da Fazenda Córrego Azul, do Grupo AH, explicando-me sobre o processo de transformação do excedente da suinocultura em energia sustentável.

Depois, sempre solícito e obsequioso, mostrou-me as instalações da Fundação AH e seu trabalho pioneiro na educação e promoção da infância e juventude rural, com criatividade, conhecimento e beleza.

Ah, meu Deus!, Como escreveu o amigo Wellington de Deus, --Que tempestade é essa que estamos passando? O meio ambiente está de luto. A família e os amigos estão de luto. Não, Giselle Beatriz Correa, não é uma brincadeira do nosso mocinho de apenas 32 anos de idade, sorridente que nos escapuliu. Bem que gostaríamos que fosse, sim, uma brincadeira. Ele, entretanto, partiu; mas continua, sim, dentro de nós.

O esforço será grande por aqui para não chorar. Sua luz, porém, há de permanecer, o seu amor, o seu jeito carinhoso e doce, cheio de bondade sem fim. Luz que há de continuar brilhando para os amigos, para a família, e por todo o lugar por onde seus pés pisaram. Porque sua alma plaina suave e leve sobre tudo aquilo que viveu, realizou e fez viver, sempre com gratidão. Também em nós um respingo dessa luz há de ficar.

Descanse em paz, amigo Glauco.

Brasilândia/MS, 10 de abril de 2021.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

A grande esperança e a ruína social chamada Covid-19
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Há 9 anos
a Igreja Adventista do Sétimo Dia iniciou uma campanha nacional distribuindo no Brasil, cerca de 42 milhões de exemplares do livro A Grande Esperança. No mundo foram distribuídos cerca de 170 milhões de livros, e em Mato Grosso do Sul, 800 mil exemplares.

A obra da norte-americana Ellen Gold White, na época, tinha o propósito de alertar a humanidade e fazer frente à situação que o mundo se encontrava, onde, escreveu ela: tudo parece caminhar para ruína social, moral, econômica. Buscava ela, naquela época, inspiração divina pois acreditava que com certeza tudo terminará bem se nos mantivermos firmes ao lado do nosso Salvador Jesus (1).

Parecia um presságio do que estava para acontecer com a humanidade menos de uma década depois de seu anúncio profético. A devastação de sofrimento e morte que o corona vírus causou sobre a totalidade dos povos sobre o globo, onde os números chegam a 2.867.242 mortos, sendo que no Brasil já morreram 332.752 pessoas vítimas deste vírus.

Situação desesperadora tanto para aqueles que perderam parentes e amigos, como para aqueles que sobreviveram e conseguiram superar e vencer a doença, valendo-se de todos os recursos disponíveis, científicos, humanos e sobre-humanos.

É interessante notar, entretanto, como a humanidade nos momentos de crise sempre recorre a Deus em suas diversas denominações para depositar n’Ele suas esperanças. Desde os primórdios até os dias atuais, desde as confissões mais céticas até as mais fervorosas, o catecismo é sempre o mesmo.

É interessante notar também que a maioria das religiões não coloca no centro de suas preocupações e debates, de maneira crítica e holística, o contexto de desajuste que os homens vêm construindo e praticando no decorrer da história contra si e os que se encontram a sua volta, e que, nos momentos atuais, assume proporções assustadoras.

O que vemos na verdade é que cada vez mais há o distanciamento entre os ensinamentos divinos e a realidade. Não mais mensura-se a fidelidade ou infidelidade humana ao projeto de salvação oferecido por Deus através de seu filho Jesus Cristo na nossa cultura, a partir das ações praticadas.

Achamos que tudo acontece num plano superior, predefinido, fora do alcance do homem e onde não há como sua pequenez penetrar. E nem faz por onde, tornando-o um irresponsável.

Esse pensamento popularizou-se, cumpre lembrar, após a Reforma protestante, que influenciou as ideias de tantos pensadores contemporâneos, como é o caso da profetisa e precursora do movimento Adventista sabatista, Ellen Gould White (1827-1915), autora do livro citado acima.

No curso de uma linha etérea e nefelibata, essa corrente de pensamento adentra com sabedoria o campo da metafísica e da alma humana e discutem algumas das questões que mais interessam a todos nós, como: razão do sofrimento, a verdadeira paz, a vida após a morte e a vitória final do amor de Deus.

Em que pese este seja o tema mais abordado pelos animadores da fé nos templos de tijolos ou virtuais que se transformaram em pilastras de sustentação nesses momentos de dor e morte causados pela pandemia, observa-se uma dicotomia gritantemente avassaladora.

Verifica-se um sistemático distanciamento entre os apelos do Espírito e a conduta das vicissitudes da Carne, tal qual nos fala a Epístola de Paulo aos Gálatas 5,13-26. 

Os desvios que a humanidade vem praticando e que tem resultado em desesperança e descrédito, pouco se fala ou se faz para transformar essa realidade – social, política e econômica -- de pecado e desajuste com os ditames da fé bíblica.

O livro de Ellen White, restauracionista que é, busca fazer a sua parte: oferece aos cristãos pela via suave, um caminho, uma direção. Um caminho, entretanto, que muitos ainda se negam a seguir.

Tudo no esforço de mostrar a mão de Deus guiando os cristãos ao longo da história (2). Algo como se houvesse um conflito cósmico sendo travado na terra entre o bem (Deus) e o mal (Satanás), embate que acontece independentemente do querer dos homens.

Isso, entretanto, soa tão distante e irreal, e nos põe em dúvida se esse é o caminho mais acertado, homens de ciência que somos. Homens que acreditam que a vacina pode conter o Corona vírus, pois fruto da sabedoria, dom de Deus ofertadas aos homens.

Mas, para Ellen Gould Harmon, que é o nome verdadeiro da irmã White, não há dúvida nas suas convicções de fé. Descrita como uma das figuras mais vibrantes e fascinantes da história da religião americana (3), tornou-se a autora feminina mais traduzida de não-ficção na história da literatura, bem como o mais traduzido autor de não-ficção americana de ambos os sexos.

Escreveu mais de 5 mil artigos e 40 livros. Outros estudos seus tratam de teologia, evangelização, vida cristã, educação e saúde, tendo sido uma defensora, ora, até do vegetarianismo. Promoveu também a criação de escolas e centros médicos, num perfeito casamento entre ciência e fé.

O portal Vikipédia traz uma longa biografia da escritora dando destaque para as experiências visionárias, que começaram aos 17 anos e se prolongou durante o resto de sua vida em diversas ocasiões, sendo-lhe revelado, no seu entendimento, o poder de Deus.

Sua vontade era que o mundo fosse contagiado pela mensagem do segundo advento de Cristo à Terra para buscar aqueles que servem ao único Deus. Isto precisa ser proclamado em cada igreja em nossa terra --dizia. Os cristãos precisam saber disso, e não colocar os homens onde Deus deveria estar, para que eles não sejam mais adoradores de ídolos, mas sim do Deus vivo. Existe idolatria nas nossas igrejas, denunciava.

Fátima e Mediugórie, no universo católico, são exemplos de cristãos que tiveram visões e presenciaram aparições divinas semelhantes a que
irmã White experimentou, revelando ao mundo um último apelo de conversão à Deus.

Numa região convertida ao catolicismo e duramente perseguida pelo domínio turco entre 1478 e 1878, a mãe de Jesus em sua aparição a seis jovens croatas, revelou-lhes uma dezena de segredos sobre acontecimentos que sobrevirão, em breve, à humanidade.

Após a realização do 10º segredo, segundo as videntes, o poder de Satanás será destruído e um Novo Pentecostes marcará o início de um Novo Tempo (4). O apelo à conversão interior, percebe-se, está muito presente quando os homens encontram-se em dificuldades extremas.

Ainda que as religiões pouco possam contribuir para mudar os contextos sociais, políticos e econômicos da sociedade atual, sobre os alertas e verdades advindas da Sabedoria superior, vindas do Pai Celestial e destinadas a seus filhos amados, elas são mais do que necessárias, porque moldam o interior do homem.

Nestes tempos difíceis onde a humanidade não sabe mais para onde caminhar, são sinais de esperança e estímulo para aqueles -- revolucionários, como Francisco, Padre Pio, Tereza de Calcutá, Camilo Torres, entre outros --, que lutaram por transformações nas estruturas do seu tempo.

Lutaram para que os homens do nosso tempo interfiram em defesa dos mais fracos em face do opressor. Promovendo a justiça e a solidariedade, garantindo, por exemplo, vacina para todos, cumprindo as orientações sanitárias, enfim, buscando o melhor para si e para seus irmãos.

Este pensamento superior, serve também de alento à hierarquia das igrejas, missionários, pastores, anciãos, padres, rabinos, bispos e diáconos, para que arrisquem mais suas vidas na proclamação dos valores do Evangelho da Justiça e da Solidariedade, prenúncio da vida Eterna, e ajudem a orientar o homem, em concreto, no curso de seus dias, até que Ele venha.


Foto: http://www.esperanca.com.br/categoria/livro-a-grande-esperanca/  
(1) Projeto “A grande Esperança chega a Brasilândia”. Igreja Adventista, Brasilândia-MS. In Jornal Folha Costa Leste, Anaurilândia-MS, Ano 3, nº 117, 31 de março de 2012, p. A5.


 

Publicado originalmente em 4 de Abril de 2012 e republicado com atualizações em 7 de abril de 2021.

terça-feira, 6 de abril de 2021

 

Mariângela Castilho Leôncio Ferrari Vive!

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 


Despedir-se de alguém, isso fazemos todos os dias e a toda hora. Despedir-se de alguém para sempre, entretanto, isso já é outra coisa.

Isso porque só sentimos essa realidade tão íntima quando acontece conosco ou com quem queremos muito bem.

A mão faz um aceno, externamos um sentimento de pesar. E só. O tempo passa e a vida continua.

Mas para quem esteve perto, dedicou carinho, embalou os sonhos e dividiu caminhos no cotidiano da lida diária, lado a lado, esse é o gesto mais difícil, o mais doloroso.

Da mesma forma podemos dizer em relação àquelas pessoas que, mesmo sem conhecê-las em profundidade, despertaram em nós admiração e respeito, e nem sabemos explicar o porquê.

No caso de Mariângela Ferrari, as poucas vezes que dela me aproximei e troquei algumas palavras, ela sempre demonstrou ser uma pessoa iluminada.

Seu sorriso contagiante e moderado, que revelava um espírito de luz e otimismo para com a vida, transparecia também certo grau de timidez, sensibilidade e delicadeza.

Seu olhar, límpido, claro, sem reservas, eram luzeiros de verdade que lhe apontavam, com elegância e simpatia, o rumo de êxito e realizações por onde passava.

Seja na escola, seja na igreja, seja da família, seja com os amigos. Todos a sua volta sabiam que com ela sempre podiam contar.

Ah, e aquela letra. Como que fazendo rabiscos minuciosamente delineados sobre o papel, sua caligrafia sempre foi desejo de muitos poderem imitá-la, tamanha beleza da letra cursiva que sobre linhas multicoloridas deslizavam encantando a todos.

Mulher virtuosa, como profissional e cidadã, transcendia também na caridade, na solidariedade e na criatividade, incentivando crianças e jovens para os valores cristãos que elevam o ser humano à dignidade de filhos de Deus.

Todos que a conheceram são unânimes em testemunhar a envergadura dessa mulher: a irmã, a professora, a sempre zelosa e inspiradora profissional que Brasilândia teve a felicidade de tê-la a seu lado.

No dia em que ela atende ao chamado do Alto para iluminar e preencher outras esferas de Amor, três meses antes de completar 45 anos de idade, uma sombra de tristeza se abate sobre a mãe, os irmãos, esposo, filhos e comunidade.

Sombra que, a exemplo da Páscoa do Senhor, pela fé, os remete, paradoxalmente, à alegria da Ressurreição. Por essa razão e esperança Mariângela Vive. Na Glória e também aqui, para sempre, em nossos corações.


Brasilândia/MS, 6 de abril de 2021.

 

A dor da partida de uma filha, para uma mãe, é quase impossível conter.

Mãe Francisca... A flor que preenchia o ramalhete

Que acariciaste um dia criança... / A pétala que desapegou do botão

Quando a flor desabrochou.../ O ramo caído no chão

O espinho que fere a mão / Aperto no coração...

Ah. Mãe Francisca. / Ver a filha amada partir

Ah como dói sentir... / Queria ainda vê-la sorrir

Largo jardim a florir / E o sorriso que ilumina

Mariângela, minha menina / Gentil perfume no ar

Saudade que vai ficar / Só Deus Pai para consolar

Coragem mãe, esperança / Fé esposo Ferrari, família, crianças.

quarta-feira, 31 de março de 2021

 

O Diaconado Permanente Católico

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra

 












Ser diácono permanente na Igreja Católica, no contexto da ministerialidade define-se como sacramento de Cristo Servo e como expressão da Igreja servidora (Doc. 96 – CNBB).

 O texto que segue é de autoria do Diácono Celso Luís Sais, da Paróquia Geraldo Magella, de Santo André-SP, e foi publicado no folheto ABC Litúrgico.

Ser diácono permanente é, antes de tudo, um dom de Deus à sua Igreja, onde o cristão é marcado pelo caráter do serviço e gratuidade de forma livre e voluntária.

Seu ministério surge na Bíblia em Atos dos Apóstolos, nos quais discutiam: não está certo que nos descuidemos da Palavra de Deus para servir às mesas.

Servir às mesas. Parece estar aqui o acento que a Igreja sempre buscou dar ao diácono permanente. O crescimento das comunidades gerava tensões e conflitos internos. E a caridade era uma exigência.

O diácono Celso Luís Sais nos lembra de que muitos pobres nos primeiros anos do cristianismo não estavam sendo bem atendidos. Então os Doze convocaram uma assembleia e apresentaram uma solução concreta: descentralizar os serviços, escolhendo novos ministros.

Segundo a história, a comunidade aderiu à ideia, realizando uma eleição, na qual os Doze confirmaram os eleitos mediante a imposição das mãos. Surge assim uma nova organização na comunidade, o grupo dos Sete Diáconos (cf. At 21,8).

Estava instituído o ministério diaconal, que passou a ser exercido, segundo as Diretrizes para o Diaconato Permanente da Igreja no Brasil e pelos Diretórios diocesanos para o Diaconado.

Firmou-se, assim, a missão do diácono: 1) o serviço da Liturgia exercido pelo diácono na celebração dos sacramentos, Batismo e Matrimônio, na presidência das celebrações da Palavra e nas orações, nutrindo-se constantemente da Eucaristia; 2) o serviço da Palavra, pelo qual o diácono se torna discípulo, ouvinte, servidor e mensageiro da Palavra, da Bíblia Sagrada; 3) e o serviço da Caridade, pelo qual o diácono assume a opção preferencial e evangélica pelos pobres, marginalizados e excluídos da sociedade, sendo este âmbito o maior deles!

Sim, o diácono permanente é o único que tem a graça de viver a dupla sacramentalidade, ou seja, da Ordem e do Matrimônio. Onde ambos se completam, e um não elimina o outro. A vida matrimonial é, portanto, vivida em sua plenitude.

Por esta a razão a esposa e os filhos precisam autorizar, por escrito, sua ordenação. Sendo o diácono permanente simultaneamente pai e esposo, deve exercer uma profissão civil que sustente e dê segurança a sua família e, assim como se consagra à Igreja pelo sacramento da Ordem, sua vocação abrange vários aspectos com três grandes dimensões: familiar, profissional e eclesial. Estas três dimensões devem contribuir positivamente para a realização da vocação diaconal.

Desta forma, no que se refere à vocação, à formação, à vida e ao ministério do diácono permanente, os diáconos são ordenados para o serviço da Palavra, da caridade e da liturgia, também para acompanhar a formação de novas comunidades eclesiais (…).

Pelo testemunho de vida doada à missão, incorporados a Jesus Cristo, servo e servidor, por meio do sacramento da ordem, devem revelar a dimensão especial da diaconia do ministério ordenado, ajudando a construir um mundo mais de acordo com o projeto de Deus.


Publicado originalmente em 31 de março de 2021, 19º aniversário de ordenação do Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra (Carlito), Paróquia Cristo Bom Pastor, Diocese de Três Lagoas-MS.

quarta-feira, 24 de março de 2021

 

A mansidão e a paz de seu Antônio Alves.

Carlos Alberto dos Santos Dutra



Corria o ano de 1985 e o Bairro Thomaz de Almeida, chamado inicialmente de COHAB, reunia seus primeiros habitantes que inauguravam suas casas semiconstruídas entregues em tempos de eleição. E lá estavam os novos moradores disputando o espaço com o resto da mata e cerrado derrubados que ainda mostravam ao longo das ruas de terra, rastos de insetos e formigas que insistiam em não deixar seu antigo lar. Tempo de pioneiros e desbravadores.

E ele já se encontrava lá, sendo um dos primeiros moradores do novo bairro. Homem simples e de hábitos rurais, logo se acostumou com o ritmo do lugar e a proximidade com a área de campo e pasto que circundava o núcleo habitacional. Levar seus animais, cavalos e éguas que criava para pastar e tratar, era a ocupação que mais lhe agradava. Talvez por isso, recebera dos vizinhos e amigos o codinome Antônio das Éguas.

Apelido que a família preferia não conferir ao pai, seu Antônio Alves, e sim Antônio Corretor, que era mais simpático, uma vez que essa era também outra das habilidades profissionais que o tornou conhecido nas cidades por onde andou. 

Nascido em Araçatuba/SP, no dia 5 de outubro de 1927, descendia de uma antiga família estabelecida naquela cidade, formada por sete irmãos. Infância e juventude ele a viveu em Pereira Barreto/SP onde a família morou e lá ele foi criado, ajudando o pai na lavoura e lida no campo. Talvez por essa razão não tenha tido a oportunidade de avançar nos estudos.

Mal e mal sabia escrever. Porém, na matemática sempre teve facilidade aprendendo desde cedo a mexer com os números. Talvez por isso tenha abraçado a profissão de corretor, onde o conhecimento dos números e cálculos lhe eram necessários e importantes.

No dia 8 de março de 1954, o jovem Antônio, com 26 anos de idade casou-se com Rita Simplício Alves, na cidade de Guaraçaí/SP, seguindo na atividade de trabalhador rural e corretor. O casal teve oito filhos: Cecília, José (in memoriam), Francisco, Rubens, Marlene (in memoriam), Vera, Elias e Cássia.

Homem simples e de andar correto, com um leve sorriso no rosto, sempre dedicava atenção a todos que encontrava no caminho. Talvez por ter familiaridade com a mansidão dos equinos com os quais tinha o maior gosto em tratá-los e cavalgar, sabia ouvir quem encontrasse, sem pressa, como se um sábio fosse.

Havia chegado a Brasilândia no ano de 1975, depois de passar por Pereira Barreto/SP, estabelecendo-se, dois anos depois, na fazenda Jesuíta, pertencente à época ao patriarca Arthur Höffig. Mudou para a sede do município em 1981, fixando sua morada logo em seguida no bairro Thomaz de Almeida onde viveu praticamente o restante de sua vida, vendo ali os filhos crescer.

Na memória dos filhos, ainda se encontra muito presente as histórias que ele contava, sobretudo dos primeiros anos da cidade esperança. A energia elétrica tocada pelo motor a diesel; o fundador do município, Arthur Höffig; os primeiros prefeitos da cidade, e outros fatos que marcaram a vida dos pioneiros, como ele, que aqui chegaram.

Homem que transparecia ser portador de uma bondade singular, poucos colocavam reparo na sua conduta que manifestava não possuir mácula, norteando seus atos, ao lado da esposa dona Rita, conduzindo-os com retidão e honestidade as relações e a criação de seus rebentos.

Consolo para todos que o conheceram e puderam beber na fonte seus ensinamentos, ainda que singelos, mas de longo alcance e puro afeto. Lembranças alegres e a mais triste: o dia 31 de dezembro de 2020 que deixou marcas profundas no coração da família e amigos.

Na campa imaginária e florida, enquanto seu Antônio aprumava seus arreios e derradeiras tralhas para a caminhada em direção ao Céu, os filhos, num aceno recordam os sonhos não realizados pelo pai: o de não ter aprendido a dirigir um automóvel, e não ter adquirido um sitio para plantar.

A rua em frente da antiga casa no bairro Thomaz de Almeida, onde a família morava, hoje tem asfalto e transformou-se num lugar diferente, distante daquele que faz lembrar os passos serenos e comedidos de seu Antônio levando seus animais para pastar.

O vulto dele, agora, montado em seu cavalo, sob um o belo chapéu branco que empunhava, não é mais possível percebê-lo na rua. Só se vislumbra a aura de luz que este homem de fé foi capaz de deixar na estrada e no coração de seus rebentos: filhos bem criados, sem vícios, e aprendizes das maiores lições de amor e simplicidade que ele ensinou, dizendo que estas virtudes deveriam estar sempre acima de tudo.

Homem de índole irretocável e feições de paz, em 2006, com o falecimento da esposa, dona Rita, passou a residir na casa de uma filha em São José do Rio Preto. A filha Cássia recorda que ele, de vez em quando visitava a família em Brasilândia e sempre dizia que estava voltando... Tamanha saudade.

Numa dessas visitas, lembrou a filha, ele disse que se viesse a falecer lá [em São José do Rio Preto] exigia que o trouxessem pra ser sepultado na querida Brasilândia, junto à esposa. O que só foi possível atender parte de seu desejo, devido sua causa morte ter sido a Covid-19.

Oh que dor, seu Antônio, ver seus filhos em lágrimas contemplando seu corpo frágil enterrado à parte, aqui em Brasilândia, porém separado de sua amada, dona Rita Simplício Alves, descansando a lucidez e altivez de seus 93 anos de idade na terra nua, fria, cumprindo a exigência funerária, apartado de todos, sem poder, sequer a família poder velá-lo e despedir-se direito. Oh, que dor.

Descanse em paz, caminhe em paz, ensina-nos a paz, seu Antônio Alves.


Brasilândia/MS, 24 de março de 2021.

 







Fotos e Informações cedidas pela filha Cássia Cristina.

segunda-feira, 22 de março de 2021

 

Rita Nogueira de Souza, mãe em simpatia está no céu.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 


 

Difícil falar de uma pessoa feliz num momento de tristeza. Isso porque a felicidade que contagia quem está ao redor e completa o sentimento de todos, nesta hora nos escapa, nos faltam as palavras. Mesmo com preocupação e com dor, quem tem a vocação para a felicidade, dificilmente esconde isso no olhar, nos gestos, no sorriso.

É isso que nos enche de coragem para que acerquemo-nos de alguém que viveu e fez viver à sua volta, sempre irradiando simpatia e vigor de uma mulher de coragem que causava orgulho a todos, em especial aos filhos.

Assim era dona Rita Nogueira de Souza. Quem a via andando pela rua, antes do isolamento social imposto por aquele vírus mortal, era possível perceber o quanto ela era feliz pois parecia estar sempre de bem com a vida.

Nas poucas vezes que cruzei por ela, a sensação que passava, mesmo aos estranhos, era a de que ali caminhava uma pessoa simples, porém, iluminada. Os seus passos seguiam, e quando nos dávamos conta, sentíamos vontade de acompanhá-la, mesmo que fosse de longe para contemplá-la.

E isso não podia ser diferente. Tamanha aura nutrida pelo círculo de amizade e confiança construído no seio de sua família só podia resultar nisso. Filhos, netos, bisnetos e um rol de parentes e amigo que todos os anos só tinham a agradecer a Deus pela saúde e alegria permanente daquela que era a joia mais preciosa da casa, aquela que tocava a orquestra de uma grande família. 

E lá estavam todos os filhos festejando cada ano o aniversário daquela que os fez nascer e crescer, tornando-os filhos e filhas admiráveis e realizados. Sempre alegres e brincalhões, herdaram da mãe essa vontade de viver e vencer, sempre com olhar franco, de frente para o rumo do sol.

Agradecer, portanto, era o que todos nestas horas de festas tinham a dizer e demonstrar. A cada encontro lá estavam todos saudando a trajetória vitoriosa desta matriarca que, com garra e humildade superou os caminhos difíceis que a vida lhe impôs e chegou lá.

Mas agora, em meio a um soluço de dor, cá estão os filhos, relembrando dona Rita, mamãe, vovó, professora da vida, percorrendo as estradas, vencendo uma a um os obstáculos, mulher de fibra e perseverança. Cada um deles com o coração tomado de amor, agradecendo pela sua vida e pelo tempo em que ela esteve ao lado de cada um.

Dona Rita, agora, sorri e conversa com os anjos disfarçados de amigos que Deus colocou na sua vida. Contempla cada um dos rostos e corpos ternos dos 9 rebentos que acariciou e embalou: Manoel, Joana, Rozalina, Jorge, Ermelinda, Jaciro, Jaira, Luciane, Jairo. E eles, em lágrimas de saudade, agradecem aquele abraço apertado de sua maior mestre que soube educar e apontar-lhes um futuro de esperança.

Dona Rita não era somente uma mãe zelosa e alegre. Também se sentia feliz ao ser rodeada de netos e bisnetos e gerações inteiras que a conheceram e foram tocadas por suas mãos que mais pareciam bênção que sobre eles repousava e os acalmava.

Dona Rita Nogueira de Souza, seu espírito e luz vão permanecer por aí no coração de muitos. Seus passos ainda podem ser percebidos pelos desvãos da casa onde morou por tantos anos e onde acolhia todos os filhos e suas famílias.

Nascida em 16 de março de 1941, teve de adiar a festa de seus próximos aniversários, que prometiam ser com a costumeira alegria. No dia de hoje, a mestre pediu licença a todos e foi se encontrar com Deus, atendendo um chamado que não podia recusar. Descanse em paz, amiga Rita Nogueira de Souza, mãe generosa em simpatia de todos nós.

 

Brasilândia/MS, 22 de março de 2021.

 





























Fotos: Facebook

sábado, 20 de março de 2021

 

A Covid-19, os números e o cuidado com a vida.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 







A história do corona vírus em Brasilândia começou ainda no ano passado (2020). O gráfico elaborado pela Secretaria Municipal de Saúde demonstra bem a sua evolução. Começou tímido, sorrateiro, no mês de maio, apresentando 15 casos confirmados. Depois, ao longo dos meses junho, julho e agosto, os números só cresceram. Havíamos chegado ao pico.

Sim, setembro e outubro entraram em declínio, com apenas 6 casos confirmados, e começamos festejar a vitória, enquanto o mês de novembro nos reservava um pequeno acréscimo no gráfico, em que pese o acumulado até ali já chegasse a 120 casos.

Daí veio o feriado das festas de fim de ano quando, felizes, pelo declínio no numero de casos, afrouxamos a guarda e achamos que não precisávamos mais de máscara, o distanciamento social podia ser flexibilizado, e que a hidroxicloroquina e ivermectina defendida pelo presidente, iria salvar a todos.

E no mês de dezembro o número explodiu: 72 casos confirmados, o que fez, novamente, o município intensificar as medidas de biossegurança, estado de emergência e toque de recolher. Como resultado, observando o gráfico, o efeito já se sentiu no mês de janeiro e fevereiro: os números baixaram para 54 e 41 casos respectivamente. No mês de março, ainda em curso, entretanto, os casos voltaram a subir.

O outro gráfico buscou mostrar, sob o olhar da epidemiologia, o quadro sanitário mais detalhado e não menos preocupante da ação deletéria e mortal do corona vírus sobre a população brasilandense. Chegamos à casa dos 1.059 casos notificados.

Ou seja, foram mais de mil pessoas que tiveram sintomas da doença e passaram por algum atendimento médico, demandaram atenção de profissionais da Saúde, receberam medicamentos, e submeteram-se a exames. Enfim, fizeram movimentar a conta financeira, social e emocional da rede de atendimento montada especialmente para garantir a segurança sanitária dos usuários do SUS.

Descartadas da doença 643 pessoas, outros 380 pacientes tiveram o diagnóstico confirmado e sobre elas uma rede minuciosa de procedimentos passaram a ser desprendidos por médicos, enfermeiros, técnicos e monitores que, 24 horas por dia, passaram a acompanhar o dia a dia desses pacientes.

No curso de 11 meses, daqueles que foram confirmados com Covid-19, um total de 314 recuperaram-se, sendo apresentados como curados. Não obstante, tivemos ainda que contabilizar 8 casos de pacientes que não tiveram a mesma sorte, e que vieram a óbito.

Hoje, 19 de março de 2021, o Boletim Epidemiológico do Covid-19 aponta 58 pacientes positivos em tratamento, sendo que 36 ainda aguardam o resultado de exames (swab ou sorológico) realizados pela rede pública. Um número altamente preocupante e que exige cuidado permanente do sistema municipal de Saúde.

Sistema frágil e formado por pessoas humanas, muitas delas envolvidas emocionalmente por ter de lidar e tratar parentes e amigos que se encontram internados no hospital local, ou em busca de uma vaga na UTI mais próxima.

São enfermeiras e auxiliares, motoristas, técnicos e médicos a beira da exaustão; às vezes impotentes diante de tanta demanda - não somente da Covid-19, pois o hospital também atende outras especialidades médicas, muito delas de urgência -, sobretudo à noite.

O bip intermitente dos aparelhos ecoando pelos corredores; o preenchimento dos formulários; a indicação de monitores; os equipamentos de proteção de uso obrigatório, muitos dos quais dificultam a locomoção dos atendentes; a entrada pela frente dos casos de urgência e a entrada pela lateral do hospital para o atendimento do corona vírus, tudo se soma aos corações apertados de quem ali trabalha.

Cansado e com a vida exposta ao risco, uma vez que também tem família que o espera em casa, lá vai aquele profissional de saúde, às vezes sem janta, deixando o turno da noite no hospital, com os braços e a cabeça em frangalhos, entrando pelo lado da casa, trocando os calçados e a roupa, para logo tomar um banho e poder abraçar o filho e o esposo... E agradecer a Deus por mais um dia e o dever cumprido.

Um mundo cuja maioria não observa e não entende onde há tanta dedicação, esforço e empenho envolvidos. Bem que mereciam que todos se cuidassem um pouco mais. Pelo menos, não para salvar suas vidas ou de quem queiram bem, mas para não dar tantos motivos para seus corações chorarem.

 Brasilândia/MS, 20 de março de 2021.