sábado, 15 de maio de 2021

 Tá lá o corpo estendido no chão.

Carlos Alberto dos Santos Dutra



No ano de 1975 os compositores João Bosco e Aldir Blanc lançaram um LP intitulado Caça à Raposa. Entre as músicas, uma delas recebeu o título de De frente pro crime e iniciava com a expressão: Tá lá o corpo estendido no chão…

É essa a sensação que tive ao contemplar a página cinco do jornal Dia a Dia naquele dia 11 de junho de 2013. Na época em que escrevi essa crônica, dizia eu que: mesmo depois de passado um mês do ocorrido, a imagem do velho Jatobazão combalido, ventre e entranhas expostas, braços e rosto dilacerados, era impossível não falar sobre ele.

Confesso que naquele momento não tive coragem de pedir ao editor-chefe daquele periódico, jornalista Ray Santos, a foto daquele corpo estendido no chão. Depois acabei encontrando outras fotos na internet no site do Jornal do Povo e também do próprio Dia a Dia, imagens do velho Jatobá, numa cena muito triste, de cortar o coração. O título abaixo de uma foto publicada num desses jornais, expressava lacônica o sentimento dos três-lagoenses: Infelizmente a imagem acima foi o que restou do nosso querido Jatobazão.

Bem sabem os mais antigos que aquele antigo pé de Jatobá (Hymenaea courbaril), localizado no canteiro central da Avenida Filinto Muller, integrava o patrimônio do município e que havia sido tombado como Patrimônio Histórico de Três Lagoas, através do Decreto nº 06/82, de 04 de maio de 1982, possivelmente a primeira árvore tombada para o patrimônio público em Mato Grosso do Sul, feito este inaugurado pelo então Prefeito de Três Lagoas, Lúcio Queiroz Moreira (1979-1982).

No dia 14 de março de 2013, entretanto, passados pouco mais de 30 anos de seu tombamento histórico, numa tarde serena de terça-feira do inverno que recém se aquerenciava na terra de Ramez Tebet, eis que o sonho de imortalidade do velho Jatobá capitulou. Foi-se o corpo, pois a alma, há muito já havia partido, diria o poeta gaúcho, conterrâneo deste escrevinhador, Glauco Saraiva.

Naquela data fatídica, coube à então prefeita Marcia Moura (PMDB) a tarefa de autorizar e perpetuar na história o declínio daquele gigante: revogou o antigo decreto que garantiu por algum tempo ao velho Jatobá a ilusão de se tornar perene e receber ainda em vida um pouco mais, despacito, as honrarias do reconhecimento oficial.

Por aqueles galhos, papagaios e tucanos, araras e joão-de-barro, quantos pássaros, nos seus braços, não encontraram abrigo? Também os retirantes, comitivas de boiadeiros, quiçá, ponto de referência à distância para os obreiros da estrada de Ferro Noroeste do Brasil, soldados da coluna revolucionária, pelos grotões do Campo Japonês, sob o comando de Juarez Távora, vindos pelo Porto Independência rumo à Campo Grande e que aqui mais de cem deles capitularam, por ventura, não teriam eles descansado à sua sombra?

E lá, ao longe, mirando lejo, estava o centenário Jatobá. Imponente, feito um posteiro, um sentinela.

Num levantamento socioambiental que realizei para a empresa Poyry em 2007, pude observar que os galhos e o caule do velho Jatobá não haviam resistido somente ao tempo e a intempérie. Também sofrera com a negligência e imperícia dos homens, técnicos despreparados e equipamentos inadequados para lidar com essa espécie de vida, vida delicada, vegetal, comumente desprezada.

Informei à época em relatório que o Jatobá fora vítima de lastimáveis podas, por demais radicais e que necessitava urgente de cuidados fitossanitários, o que colocava em risco sua preservação. Os ramos ainda muito verdes, nos seus extremos, sinalizavam anseio e esperança de uma sobrevida, que não encontrou amparo a tempo.

Hoje a sentença da doutora em agronomia da UFMS, Maria José Neto revela que estávamos moucos, e o quadro do paciente não oferecia outra escolha aos ecologistas e aos atuais administradores: botanicamente a arvore é considerada morta, encontrando-se em processo de apodrecimento (...). Inclusive com espaços que permite observar que o cerne está em processo avançado de decomposição. Palavras por demais  duras para quem embalou suave a brisa dos fins de tarde no corredor do último século.

Sobre os brotos e galhos novos ainda presentes na árvore, a professora explicou que se tratava de uma figueira (planta oportunista) que costumeiramente cresce sobre outras plantas utilizando-as como suporte. Aqueles ramos verdes já não eram do jatobá. O parecer ainda previu que como seu caule encontrava-se muito frágil, ela (a planta intrusa) tende a morrer em pouco tempo.

A notícia de que o velho Jatobá seria transformado em um monumento, inobstante, semeia alento ao leitor. Restava ao artista da terra, o entalhador Wilson Narciso de Souza, a maestria de aproveitar o tronco e os galhos do velho Jatobá para a confecção de um monumento histórico, que lembre esta histórica e importante árvore para a cidade, declarou o produtor cultural incumbido da nobre tarefa.

Enquanto as novas mudinhas plantadas pelo atual prefeito Ângelo Guerreiro (PSDB) no início de seu mandato em 2017, quatro anos após a derrubada do antigo Jatobá, não florescem, caberá ao artesão e suas mágicas mãos, o milagre do renascimento da natureza morta, um salto para a cultura viva...

Oxalá, este monumento ressurgido, depois de concluído, seja preservado com mais zelo e ciência pelos administradores, para que a memória deste e inúmeros outros patrimônios histórico-culturais da cidade de Três Lagoas e região não sejam levados pelo vento... E que o ocorrido seja exemplo para a nossa Brasilândia que também tem sua árvore encantada, e a lição não se perca nas curvas de um trem fantasma que só vai, e nunca mais volta...







terça-feira, 11 de maio de 2021

 

A estrada, os passos e o milagre da vida.

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 





São apenas letras sobre o papel, mas elas parece moverem-se por conta própria. Querem dizer e falar mais. Impossível os olhos não repousar sobre elas e perceber para onde elas apontam.

E ele está lá, no vigor de sua juventude, desde a Caçulinha do Bolsão, de passos firmes cruzando a poeira das estradas da técnica, da agropecuária e da assistência àqueles que apostavam na terra sua sobrevivência.

Roda a cortina do tempo e lá o encontramos agora na Cidade Esperança, planejando e decidindo os destinos daqueles cujas águas os desterravam de suas raízes, contribuindo para soerguê-los em suas novas moradas.

No exercício do múnus publico, por ser dedicado e pró-ativo, teve seu trabalho reconhecido por muitos, o que o confortou, e deu-lhe forças quando a crítica também lhe alcançou.

Mas um homem não se mede pelos olhos de quem o vê e sim por aquilo que ele mesmo vê quando está frente ao espelho.

E neste caso o que ele vê, passados os anos de lutas e vitórias, conquistas e gratificações, abraços da família e dos amigos que restaram, o que seus olhos veem é a imagem daquilo que ele construiu e deixou a vida construir para si e que ele a Deus é grato.

Neste dia em que a vida lhe brinda com mais um ano de graça e saúde, o gesto de poder caminhar confiante do trajeto exitoso percorrido, ainda que com cuidado e a passos miúdos, é o maior presente que esposa e filhos, em especial, e também os amigos, podem lhe ofertar.

Enquanto isso as letras saltitantes que o descrevem no livro História e Memória de Brasilândia se remanejam, autônomas, pedem licença poética para compor a dileta e merecida saudação:

Parabéns Solange, Gilberto Silva e família. Feliz Aniversário Gilberto Silva.

Brasilândia/MS, 11 de maio de 2021.


Foto: Gilberto da Silva, Secretário Municipal de Agricultura, no pomar da Escola Municipal Agrícola Julião de Lima Maia, com a fruta coité. Jornal do Povo, 1998.

 

A alegria e a amizade de um jovem feliz.

Carlos Alberto dos Santos Dutra









Aquele menino igual nunca se viu.

Atento e desprendido, seus olhinhos desde criança brilhavam num tom singular.

Dono de um sorriso franco que escondia certa dose de timidez contida era a alegria da família ter nos braços aquele doce rebento.

Para a alegria dos pais João e Benê o menino crescia forte e belo. Também haviam de concordar os manos Larissa e Wellington

E logo foi se afeiçoando a lida no campo passando com o tempo a ser o braço direito do pai na propriedade rural.

Mas os horizontes daquela alma jovem e gentil miraram longe avançando nos estudo e descobrindo na tecnologia sua vocação maior.

Especializou-se e tornou-se expert em informática passando a ser referência profissional na cidade que viu ele nascer.

Hoje, um jovem completo, ele ainda retorna com frequência à propriedade dos pais para voos ainda mais audazes e surpreendentes.

E os presenteia com outra habilidade rara, verdadeiro dom divino: a de tratar a madeira, construindo verdadeiras peças de arte entalhadas com esmero e extremo bom gosto.

E para completar, não é que este menino bom, ainda presenteia a família e os amigos com dotes culinários de dar água na boca?

Pizzaiolo de mão cheia e outros atributos completa o currículo deste jovem de ouro que no dia 9 de maio último aniversariou.

Mestre em servir, coração generoso e fiel, a alegria dos amigos é a sua alegria. Da mesma forma que podemos dizer:

Rodrigo, a tua alegria nos enche de gratidão a Deus por nos ter escolhido e acolhido como amigos, como irmãos. Obrigado meu rapaz.

Feliz Aniversário Rodrigo Cardoso Martinez

Te amamos.

Brasilândia/MS, 11 de maio de 2021.

sábado, 8 de maio de 2021

 

A Covid-19, o rasgar as vestes e a esperança.

Carlos Alberto dos Santos Dutra





O Brasil ultrapassou o número de 420 mil mortos pela Covid-19. O estado de Mato Grosso do Sul já soma seis mil mortos e Brasilândia contribui em números gerais com mais de 20 vidas que esta terrível doença ou em decorrência dela, nos roubou de nossos lares fazendo um buraco em nossos corações.

Em meio a uma crise institucional permeada de desencontros nas esferas governamentais sobre o uso de medicamentos não reconhecidos cientificamente, protocolos sanitários e medidas de prevenção necessárias; somado aos impropérios diplomáticos negacionistas e a falta de insumos e vacina vindos da China para conter o avanço da doença, eis que a curva de morte não cessa de crescer.

Diante de hospitais lotados, a fila de pacientes em busca de socorro médico transforma o país num cenário de guerra, onde todos buscam socorro e a salvação nas mãos de médicos, enfermeiros e medicamentos que aliviem suas dores e lhes garanta a sobrevivência.

Os que se encontram a nossa volta - pais, mães, filhos, esposos, parentes e amigos - do lado de fora da porta dos hospitais, muitos pacientes sem poder estar ao lado dos familiares em tratamento ou entubados na UTI, resta-lhes acompanhar o boletim médico que, com palavras técnicas comedidas, transmite a desesperança daqueles que já não acreditam mais na recuperação, num triste quadro de exaustão e desalento.

A solução que todos buscam, tem-se visto de forma crescente, é entregar a Deus o destino de suas vidas e de seus entes queridos nesta luta insana contra a Covid-19. Só que o número de mortes que aumenta cada vez mais, exige resposta mais convincente, mesmo para aqueles que acreditam que estamos nas mãos do Senhor da história e que pouco ou nada podemos fazer.

Mas, por que meu Deus passamos por esta provação?, alguns se perguntam em silêncio. Os templos, respeitando as medidas de biossegurança, voltam às celebrações e aos cultos presenciais, onde oradores, de braços abertos, conclamam o poder de Deus para afastar o mal que consome as cidades.

Só que o mal permanece como se mouco fosse.

Carreatas, caminhadas e peregrinações de fé buscam mostrar a Deus a confiança dos homens na Parusia, buscando forças para enfrentar o dia a dia. Em meio às lágrimas, uma ruidosa carreata denominada da Vitória une os cristãos de todas as denominações locais numa manifestação de fé e testemunho de sua crença inabalável em Jesus Cristo rogando a sua proteção. Na esperança de que a sorte mude.

Os cristãos, em dois mil anos de historias já passaram por centenas de provações, pestes, catástrofes e mortes que devastaram cidades inteiras. E sempre atribuíram esses fatos ao descontentamento de Deus com a humanidade. Ocasião em que as comunidades rasgavam as vestes em sinal de arrependimento de seus pecados.

Há quem possa dizer que esse costume é antigo e que hoje não teria sentido algum rasgar a roupa, numa sociedade que prima pelo narcisismo e culto ao corpo. Mais ainda: que vive hábitos de urbanidade pautados, sobretudo, na razão e apelo meramente estético. É o que vemos quando bem vestidos exercitamos a fé indo religiosamente ao templo.

O fato é que desta prática podemos tirar algumas lições vividas desde os tempos bíblicos pelas culturas orientais e que concebiam o rasgar as vestes como uma demonstração de forte emoção, permeada de angústia, tristeza ou remorso. É o que diz o profeta Josias numa passagem bíblica elucidativa:

Josias percebeu que o povo não estava obedecendo ao Senhor e rasgou suas vestes como sinal de angústia e de remorso. Deus aceitou este comportamento como sinal de seu arrependimento e ouviu sua oração. A passagem se encontra em 2 Reis 22,11.18-20.

Da mesma forma assim agiu Esdras que mostrou seus sentimentos de vergonha e remorso quando soube do pecado do povo em fazer casamentos com os povos pagãos. Ele foi orar a Deus com as vestes rasgadas.

Quando as pessoas rasgavam as vestes em arrependimento, no entendimento do cristianismo vero testamentário, Deus perdoava. O ato exterior de rasgar as vestes refletia a mudança interior do coração. Hoje em dia não faz sentido rasgar a roupa, mas devemos nos arrepender de nossos pecados (Joel 2,12-13).

Portanto, diante de tanta dor e morte a nossa volta; diante de tanto ódio entre os irmãos e violência que só divide e sacrificam vidas e sonhos de uma existência feliz e em paz, a lição que podemos acolher nos dias atuais é que Deus não olha para as roupas rasgadas (ele as vê todos os dias cobrindo a nudez dos desvalidos).

Ele se interessa mesmo é pela conversão dos corações, despojamento e desapego às coisas que nos afastam d’Ele. E a simplicidade no vestir é uma demonstração de que queremos caminhar de mãos dadas com Ele.

Porque assim Deus falou o que realmente quer de nós, pecadores: Ainda assim, agora mesmo, diz o Senhor: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso Deus... (Joel 2:12-13).

Devemos, pois, aproveitar a lição que nos é dada: a maneira de demonstrar a submissão ao Senhor nos dias de hoje pode ser diferente do tempo do Antigo Testamento, porém a necessidade da nossa reverência e obediência a Deus não mudou. Se ontem Deus falou para o rei por meio de um profeta e apareceu pessoalmente ao sumo sacerdote, hoje, ele nos fala por meio das páginas da Bíblia e dos pequeninos do Reino que cruzam todos os dias por nós pelas ruas da cidade, verdadeiro Evangelho vivo.

Portanto, as mortes e o sofrimento que vivemos em razão da Covid-19 não nos chamam a alegria e a vitória, mas a esperança e ao arrependimento. Nos oportunizam dobrar o joelho e chegar a Deus por meio de nossa oração e suplica que brota de nossos corações quebrantados e arrependidos (Joel 2,13). E quando Deus fala, devemos, pois, ouvir!

 Brasilândia/MS, 8 de maio de 2021.

 

Foto: https://www.jw.org/pt/biblioteca/revistas/ws20140815/rasgar-suas-roupas/

Fonte: Cf. Dennis Allan. https://estudosdabiblia.net/jbd957.htm; https://www.respostas.com.br/qual-era-o-significado-de-rasgar-as-vestes/;

 

sexta-feira, 7 de maio de 2021

 

Dona Odila e seu pedacinho de tijolo no Céu.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 







Ó minha amada dona Odila. Depois de uma longa caminhada, eis que partes, assim de mansinho, quase imperceptível, à semelhança dos passos miúdos que empreendestes pelas ruas de nossa cidade, pelos lares e o altar do Senhor.

Não como um andarilho, sem causa, perdido ao sabor do vento, como tantos que cruzam as estradas. Seus passos suaves, porém firmes e decididos levavam no peito uma causa por demais nobre que a sustentava na fé.

Sim dona Odila era uma mulher de fé. Acreditava no imaginável e incompreensível para muitos. De casa em casa, sempre com um sorriso no rosto, angariava fundos para a Canção Nova manter seu canal de TV. Poucos trocados, às vezes moedinhas, já a tornavam feliz em poder ajudar aquele órgão de difusão da Renovação Carismática.

E lá ia ela, consciente do seu compromisso, no cumprimento do mandamento: fazia sua evangelização conclamando de forma silenciosa, a conversão e a caridade daqueles com que dialogava. Apenas com o olhar, aqueles olhinhos pequenos tocava-lhes o coração.

Ah. dona Odila. Muitas histórias podem ser contadas lembrando o quão importante foste, caridosa que eras. Sempre doce e afetuosa não sabia esconder seu sentimento quando o espírito lhe arrebatava e a alegria lhe tomava a alma, transbordando essa emoção aos que se encontravam a sua volta.

Sempre muito discreta, lá estava ela na fileira da esquerda dos bancos da matriz ao lado do esposo, seu Nelson, ambos com um sorriso nos lábios, atentos, acompanhando a celebração e as palavras do celebrante como se fossem exclusivamente para eles.

Ah. E os encontros do círculo bíblico no bairro Thomaz de Almeida quando ela ainda lá morava. Sempre presente e comunicativa, fazia coro de anjos sertanejos nas nossas cantorias com o gaiteiro, seu esposo, que abrilhantava sempre aquelas reuniões de fé e congraçamento. Quanta saudade.

Anos depois, no assentamento Esperança, envolvida com a lida do campo, impossível não sair de sua casa, com algum alimento cuidadosamente por ela preparado e que sempre fazia questão que o visitante levasse. Mulher virtuosa e hospitalidade assim são avis rara.

A idade, os filhos, as fotos: quase impossível conciliar a juventude que ela representava; a tristeza que os rebentos hoje padecem, e as fotos suas que são tão escassas nas redes sociais. É como se ela vivesse etérea em espírito e o rastro que deixou marcou indelével a vida de quem a teve ligado somente por um véu celeste.

Foi uma alma pura que soube suportar os revezes da condição humana revolucionando a dor, dedicando-se a fé, buscando renovar a vida e fomentar a certeza naquilo que acreditava: a construção do Reino sendo edificado por cada pedacinho de tijolo que ela, mesmo sem saber, lá no céu depositou.

Descanse em paz, amada dona Odila. Que os anjos(da canção que ela tanto gostava) permaneçam por aqui e acolá no Céu acolhendo-a com a mesma alegria que aqui ela semeou. Amém.

Brasilândia/MS, 7 de maio de 2021.

terça-feira, 4 de maio de 2021

 

Libaneza Center e o olhar de gratidão e prestígio de uma empresária brasilandense.

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 






Vivemos tempos líquidos, escreveu o filósofo polonês Zygmunt Bauman, falecido em 2017. Na ausência de uma imprensa regular escrita, sobretudo nos pequenos municípios, os fatos sociais, políticos e históricos correm o risco de perderem-se no turbilhão das águas que varrem o cotidiano de seus cidadãos e cidadãs.

Brasilândia viveu na data de ontem, dia 3 de maio de 2021, um desses acontecimentos que, por sua grandiosidade e importância, se não registrado, corre o risco de perder-se na história ficando a mercê somente da memória dos que ali estavam e presenciaram aquele evento.

Com os olhos marejando e o coração palpitando de alegria, lá estavam os proprietários, familiares e convidados presenciando as novas e modernas instalações da loja Libaneza Center que estava sendo inaugurada naquela manhã de primavera.

As palavras faltam e a emoção fala mais alto. Mesmo distante, pelas redes sociais, o semblante dos que se encontravam no portal do estabelecimento que se abria para receber os clientes e amigos, era possível percebê-los radiantes de felicidade e gratidão.

Afinal, a caminhada em terras de Boa Esperança não havia começado ontem. Há mais de duas décadas, eis que o sonho plantado no coração de uma mulher haveria de mover as estruturas sociais e econômicas de uma comunidade.   

E lá estava Regina Célia Zogheib Bertonha relembrando no íntimo de seu pensamento a trajetória que aquele empreendimento havia realizado até ali, e a história de sucesso empreendida pelos seus pais quando tudo começou.

E lá encontramos no ano de 1948, por entre as ondas de um mar agitado, atravessando oceanos, Farhat Zogheib, seu pai, chegando ao Brasil e se instalando na cidade de Junqueirópolis/SP, junto a parentes e tios que ali já eram comerciantes.

O rosto da menina Regina se irradia com a lembrança terna daquele que era a luz de sua família. Chegou com sua malinha na mão para tentar a sorte e fugir das dificuldades enfrentadas no seu país.

Para trás havia ficado o seu Líbano que vivia grave depressão econômica nos anos posteriores à Segunda Guerra que foi de grande impacto sobre a sociedade afetando tanto populações rurais quanto urbanas (...), o que motivou a emigração para o Brasil.

Regina continua seu emocionado relato num vídeo institucional de sua loja, lembrando: Então meu pai (...) trabalhou como empregado (...) e cinco anos depois, no ano de 1953, o empregado tornou-se proprietário, fundando com minha mãe, Yolanda Baggio Zogheib, com quem havia casado há um ano, a Casa Libaneza, em Junqueirópolis/SP.

A menina nascida no dia 5 de setembro de 1960 lembra que, no início, a loja de seus pais vendia somente material de construção e alguma coisa de ferramenta, depois, passou a vender também utilidades domésticas.

A perda do pai em 1994 não a fez desanimar do carisma empreendedor da família. Sentimos muito a morte de meu pai. O esteio da família ao faltar haveria de conferir à filha Regina a tarefa de continuar os negócios da família.

Quatro anos depois, e por razões que só Deus explica, os olhos da menina miraram mais adiante, em direção à margem direita do rio Paraná, onde seu esposo Celso Bertonha já trabalhava juntamente com seu sogro em atividade agropecuária, e onde ela os visitava nas férias escolares dos filhos.

E foi numa dessas visitas, circulando pela cidade que Regina percebeu o quanto a instalação de uma loja Libaneza seria proveitosa tanto para si como para aquela comunidade. E assim se sucedeu. Em julho de 1998 ela decidiu vir definitivamente para Brasilândia. Estava determinada a instalar na cidade a sua loja. E foi assim que eu já não me via mais longe do Mato Grosso do Sul. Resolvi trazer a Libaneza Center para Brasilândia.

Foi no dia 5 de dezembro de 1998 que a loja abriu suas portas na cidade tendo como endereço a Av. Boa Esperança, nº 496, no centro de Brasilândia. Inicialmente num prédio pequeno, alugado, mas que aos poucos foi conquistando a confiança e a preferência dos brasilandense.

O espaço ficou pequenininho e a Libaneza Center ampliou seu 'mix' de produtos: material de construção, ferramentas, papelaria, cama, mesa e banho, decoração... Tudo isso mostrou que precisávamos de um local maior, explica a empresária Regina.

E hoje, passados 22 anos e quatro meses daquele evento primeiro, ela inaugura o prédio próprio da maior loja da cidade com uma imponente e bela estrutura. Um local com mais comodidade, amplo, setorizado, com departamentos, todo para deixar nossos clientes mais a vontade, antecipava ela, otimista, já no final do ano passado.

A nova loja, sem dúvida, engrandece a cidade, oferecendo aos brasilandense alternativa única neste setor da economia que vai desde as utilidades domésticas à materiais e utensílios profissionais especializados. 

Da mesma forma esta loja empreendedora, por meio de seus funcionários e colaboradores devolvem à cidade sua gratidão pela acolhida, pela preferência e pelo prestígio que Libaneza Center conferiu à comunidade brasilandense.

Parabéns Regina Célia Zogheib Bertonha. Parabéns Libaneza Center. Obrigado Libaneza Center.

 

Brasilândia-MS, 4 de maio de 2021.

 

Primeira sede da Loja Libaneza Center em Brasilândia localizada na Av. Boa Esperança, nº 496, Centro.  (Foto: Jornal de Brasilândia, 1999).


Sobre a inauguração da Libaneza Center confira: https://www.facebook.com/libanezacenter/videos/801710747424362


Mais informações sobre esta e outras histórias de sucesso do comércio de Brasilândia, confira: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Volume 4 - Desenvolvimento.

segunda-feira, 3 de maio de 2021



O sonho, a realidade e o Presidente.
Carlos Alberto dos Santos Dutra













Jesuíno olha para a receita médica no corredor do SUS do hospital Nossa Senhora Auxiliadora, de Três Lagoas/MS e suspira. A fila é lenta. Enquanto aguarda a sua vez, paciente, olha para o canto da sala e uma TV na parede informa que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava sendo aguardado por uma multidão de pessoas nas proximidades de uma termelétrica que iria ser inaugurada pelo chefe da Nação naquele dia, há 18 anos. 

--Ah! Como gostaria de estar lá para poder saudar aquele presidente-metalúrgico, presidente-trabalhador, igual a nós, pensa ele envaidecido, sorrindo para si mesmo. 

Uma leve brisa dialética sopra sobre o rosto do homem já curvado pela intempérie dos anos, e de súbito, em meio a um sentimento que lhe brota da alma, se vê rejuvenescido. Sente-se um menino, militante cheio de forças e sonhos, empunhando bandeiras em prol da justiça e das causas, aquelas ditas menores, do povo.

E lá vai seu Jesuíno ao lado dos sem-terra, dos sem-teto, uma fileira de “sem”, todos ansiosos para acenar para aquele pequeno grande homem. Uns, portando faixas, outros, querendo entregar um “mimo” àquele pernambucano de garra; uns, trazendo reivindicações, outros, somente com a vontade de vê-lo de perto. 

O professor também lá estava nessa hora. Até que tentou chegar perto. Mas quando o jovem policial lhe informou, com retidão e cortesia, de que necessitava de uma credencial amarela e uma tarja que devia ser colocada no para-brisa do carro e assim sua entrada no recinto seria permitida, percebeu que não somente seu Jesuíno ficaria de fora, sem ver o "seu" Presidente. Viviam semelhante condição. 

E tudo foi tão rápido quando a comitiva passou. Vidros fechados, silenciosa, célere. Assessores atentos, além de reduzir os convites a menos de 200 pessoas, teriam impedido o presidente de abrir a janela do carro durante o percurso do aeroporto até o local, desculpa-se Jesuíno, em relação ao descuido de seu comandante maior. 

--A fazenda desse tal Orestinho deve ser segura e o presidente, afinal, tem que ter boas relações, pensou o pobre homem em sua inocência.

O professor havia separado um de seus livros --“Razão e Utopia”--, para entregar ao presidente. Ingenuidade sua pensar que lhe seria dada a oportunidade para dedicar-lhe este agrado em meio a tanta gente importante vinda de Brasília e que cercavam o homem. 

E pensar que durante a campanha eleitoral de 1994, em Itaici/SP, num debate entre os candidatos presidenciáveis, esse mesmo Luiz Inácio Lula da Silva havia se aproximado do professor, ainda jovem, e tenha lhe puxando a barba num gesto fraterno e lhe dito palavras de afeto, coisas que fariam qualquer militante seguir seu líder até as últimas consequências. 

Seu Jesuíno desperta do sonho quando a senhora a sua frente na sala de espera lhe avisa que o médico já foi embora que ele deverá voltar no dia seguinte para fazer o exame. Corre até a rodoviária ainda a tempo de pegar o ônibus para Brasilândia. 

De volta para sua cidade, já na estrada, pela janela, fica admirando as imagens que passam. Passam árvores, passam pastagens, e passa por ele o carro rápido do professor, que também volta para casa. O homem do volante carrega no peito a frustração resignada de não ter conseguido ver o "seu" presidente. Consola-se, pois outros integrantes de diretórios do Partido dos Trabalhadores, na época, também não conseguiram tal façanha. 

Seu Jesuíno continua olhando pela janela, e adormece. Uma carreta carregada, nessa hora, ultrapassa o ônibus em que viaja. Desperta com o ruído do motor do veículo. E por um momento, rápido e fugaz, pensou ter ouvido o avião presidencial lá no alto, que deixava Três Lagoas, em direção ao Pantanal...

Publicado no Jornal Diário MS, Dourados/MS, 05 de abril de 2004
Jornal da Cidade, Brasilândia/MS, 01-Abril a 15.Abril de 2004, 
sob o título: Uma foto, senhor Presidente.