sábado, 14 de agosto de 2021

 

Capela Nossa Senhora de Fátima reinaugurada festeja o dom da vida que se renova.

Carlos Alberto dos Santos Dutra



Hoje, dia 14 de agosto de 2021 foi um dia de Graça. O coração de três gerações ali se encontraram para festejar um evento de fé numa celebração de vidas que começaram lá atrás, onde guardamos nossas melhores lembranças.

Desde o ano de 1957, quando o patriarca fundador de Brasilândia, Profº Arthur Höffig e um pequeno grupo de moradores se posicionaram sob o Cruzeiro instalado no ponto mais alto da cidade, que aquele povoado alimenta na fé sua esperança e força do Alto para impulsionar a vida.

Foram pontos de luz espalhadas pelo interior do município que brotaram ao longo dos rios Paraná, Verde e Pardo, desde a antiga Xavantina até o Porto João André, e que foram congregando devoções e preces em torno dessas comunidades rurais.

E lá estava ela: Nossa Senhora de Fátima, devoção do proprietário, construída e encravada no alto da colina, como que acolhendo as distâncias e estendendo os braços, abençoando a vida de cada um da colônia de moradores que ali aos poucos se achegavam, professando a mesma fé.

Devoção sempre nutrida, de quando em vez, pela passagem de um padre, um missionário, um frei, nestes tempos primeiros, onde a poeira da estrada ainda era escassa, e ainda abundante o verde dos campos e cerrados de meu Deus.

Entre paredes simples de madeira, altar e bancos confeccionados com o mesmo material é que o padre João Tomes ali celebrou como já fizera nas demais fazendas, onde igualmente capelas semelhantes a esta foram construídas ao longo dos anos, com todo o esmero e respeito pelos pioneiros que ali viveram.

Roda o moinho do tempo e cá estamos no ano de 1976 contando com a presença do padre Nilvo Pase, missionário lá do Rio Grande do Sul, juntamente com as irmãs Margarida e Abigail, da congregação das Irmãs de Jesus Crucificado, que administravam a Paróquia Cristo Bom Pastor, visitando a capela Nossa Senhora de Fátima, para a alegria dos moradores do lugar.

Mais um passo no relógio do tempo e, no dia 21 de abril de 1983, encontramos novamente a comunidade da Capela Nossa Senhora de Fátima em festa. O senhor Arthur Höffig, presente ao evento, fazia frente nas homenagens à padroeira da fazenda. Nestes dias após a missa, a propriedade sempre servia um delicioso almoço onde todos eram convidados.

Para a comunidade daquela época, a data foi por demais marcante. Isso porque, depois de um dia de graça e congraçamento, sete dias após, a sombra da tristeza haveria de cobrir o rosto de familiares, empregados e amigos do proprietário. Morria no dia 28 de abril daquele ano, vítima de um trágico desastre de avião, o benfeitor  Prof. Arthur Höffig.

A fazenda Nossa Senhora de Fátima, entretanto, sobreviveu ao tempo, sendo renovada a cada família de novos administradores e funcionários que chegavam e continuavam o sonho plantado há tantos anos pelo fundador do lugar. A capelinha, entretanto, depois de suportar o vento e a ação da chuva e do sol, aos poucos foi despedindo-se daqueles tempos áureos vividos.

Mas quando, tudo parecia perdido e, antes que a última taboa de suas paredes beijasse o solo que abençoou, eis que mãos de toque divino e braços de solidariedade a ampararam e a levantaram. Toda nova, maravilhosa, a nova Capela devolvia ao lugar a dignidade e santidade que o tempo não havia roubado do coração de seus filhos.

Pelas mãos de um artífice de coração doce chamado João, um homem generoso e contando com a colaboração de uma equipe e comunidade trabalhadora, a padroeira do lugar, hoje, passados 64 anos, novamente brilha. É reinaugurada, consagrada e celebrada a Capela Nossa Senhora de Fátima.

E tudo isso num dia muito especial. Na mesma data do aniversário de 18 anos do bisneto do Sr. Arthur Höffig, o jovem José Victor Schultz Hofig Ramos, eis que é festejada a reinauguração desta Capela, na presença da família Hofig Ramos, amigos e do padre Fábio Oliveira...

E todos aqueles que nunca descuidaram da fé, e de acreditar n’Aquele que sempre deitou os olhos de proteção e de bênção a seus filhos. Porque Deus ama, a quem dá com alegria. Salve Nossa Senhora de Fátima! Parabéns família Hofig Ramos!

Brasilândia/MS, 14 de Agosto de 2021.



 

 

 





















Fotos: Vanderleia Aparecida Butzh e Luana Alencar (Facebook, 14.Ago.2021).

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Eva Freitas e Milton Ducatti: um casamento para toda a vida.

Carlos Alberto dos Santos Dutra







Eu tinha a 4ª série quando fui convidada para dar aula como professora leiga na escola rural. A história de uma filha de Brasilândia, como a de tantas outras mulheres que aqui nasceram e cresceram, muito trabalharam e tiveram seus filhos, pode ser vista como aqueles contos de fada real, de nostalgia e beleza que enlevam sempre o coração das pessoas.

Mais que isso. Histórias que nos remetem aos braços e corações daqueles que amam viver e descobrir por entre as flores e as pedras do caminho o significado e importância do sorrir, sonhar e viver. Êxitos e vitórias, percalços e lágrimas suportados; garra e força no frescor da juventude para levantar e continuar caminhando. Até que o sol finalmente lhes ilumine a estrada.

Era o casamento da filha do seu Manuel Moreno. Porque o seu Manoel Moreno era muito amigo daquele que veio depois a ser o meu companheiro. E lá estava a menina com 17 anos de idade convidada pela amiga, também professora, naquele acontecimento social que modificaria para sempre sua vida. Na companhia do pai e da mãe, a jovem adentrou naquela festa rural confiante e de cabeça erguida.

Trazia nos braços um pequeno volume enrolado em cueiros de flanela que ainda guardava o perfume e lembrança do enxoval que ganhara após seu enlace. E lá se encontrava dentro, protegido em seus braços, um par de olhos verdes brilhantes e pele rosada: um coração cheio de vida, abanando as mãozinhas, com apenas seis meses de idade.    

Os passos decididos da jovem senhora pisaram firmes sem temor algum naquele espaço de glamour e atenção que toda noiva sonha. Para trás deixara os sonhos que a separação a fez despertar deixando nos seus braços o fruto inocente de um amor que lhe foi fugaz.

E ai passou aquele senhor, ele muito simpático, tinha quarenta e poucos anos, eu acredito. Aí eu olhei. Nossa, eu vi que era uma pessoa assim, que chamava a atenção, diferente. Era tudo que o coração daquela jovem merecia apreciar naquele momento de congraçamento. E ele estava ali, a poucos passos de sua felicidade. Olhou para ele dos pés a cabeça e seu coração dele se afeiçoou. Afinal, ela tinha os seus predicados e não era uma jovem de se jogar fora.

E ele deu uma olhada pra mim. Eu também não era assim... Eu era uma morena, tinha um cabelão comprido. Aí ele me olhou, eu olhei para ele... E aconteceu. O amor nasce assim: primeiros são os olhares, depois os detalhes, e por fim as informações, antes da decisão final. Naquela festa o casamento era da amiga, mas para a jovem Eva, o enlace se deu ali, e se estendeu até ela. Foi a moça mais feliz naquele dia. Alegria que irradiou para toda a Xavantina onde ela morava com seus pais.

Aí, eu percebi: ele foi pedir informação. Quem era aquela morena? Aí a pessoa que me conhecia falou sobre mim: que eu era separada, que era uma pessoa muito trabalhadora. Falou que eu dava aula como professora e que tinha um filhinho, e era muito responsável.

Foi quando o quarentão Milton, que em suas andanças entre Xavantina, Brasilândia e Dracena, sempre varando estradas por estes sertões com caminhões transportando sacas de arroz, café, amendoim, mamona, e algodão, puxou o freio de mão da vida, e deixou-se ser cativado pelos encantos da jovem Eva.

Se para o lado da jovem o mundo tinha se transformado num mar de rosas, para o futuro esposo, o caminho foi um pouco mais longo e desafiador. E aí eu descobri e ele me contou que era desquitado e que sua filha caçula, dos quatro filhos que tinha com a primeira esposa (José Milton, Jair, Lucas e Fátima), ela era quase da minha idade, observa.

Outro desafio foi ter de conviver com a mentalidade tradicional dos futuros sogros, sendo o pai de ascendência italiana, que colocavam óbices à união do casal. A mãe dele, tadinha, que era uma pessoa super  conservadora, reservada, na época, ela falou: --filho você tá louco, ela [a Eva] é uma criança. Eu tinha 17 anos na época, ia fazer 18 anos. A mãe dele ficou desesperada, porque ela achou que não estava certo.

Mas o que tem que ser acontece e o amor falou mais alto e forte. Aí a gente se conheceu durante mais ou menos uns 10 meses. E resolvemos juntar nossas vidas e estamos juntos até hoje. Ele criou meu filho Edmilson igual ao filho que tivemos juntos, o Rodrigo.

O quadro da família feliz estava concluído e se encaixava perfeito nos contorno da felicidade e da graça. Um lar onde o respeito e o carinho venceu as torrentes do tempo sob a poeira das estradas do velho caminhoneiro e sua jovem e fiel companheira que juntos continuaram lado a lado. Ele, Milton Ducatti, nascido no dia 12 de maio de 1931, hoje com 90 anos, e ela, Eva Freitas, nascida no dia 19 de julho de 1957, hoje com 64 anos de idade.

Mas ela continua vendo todas as manhãs - quando se encontrava em frente ao espelho -, aquela jovem com os mesmos olhos do coração, e sonhos que embalou quando moça, desde aquele dia, há 46 anos, quando tudo começou, numa festa de casamento que abençoou sua vida.

Brasilândia/MS, 10 de agosto de 2021.

 


 

domingo, 1 de agosto de 2021

Raimundo Pedro de Souza, 93 anos: o homem, a educação e o tempo.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 













Seu Raimundo Pedro de Souza completa neste dia 2 de agosto de 2021, a incrível marca de 93 anos de idade. E faz jus ao título que este escrevinhador lhe confere como o homem do tempo. Não somente pela longevidade que ele e a esposa Ana demonstram como uma verdadeira bênção para a extensa família que criaram, mas em razão de uma atividade que sempre desenvolveu, desde a época em que se encontrava morando em fazendas, que era a de consultar o pluviômetro que registrava o quanto havia chovido no dia anterior.

E lá estava ele, após um dia ou noite de chuva consultando seu aparelho de meteorologia recolhendo e medindo, em milímetros lineares, a quantidade de líquidos precipitado durante determinado tempo e local. Aparelho muito útil e comum em fazendas, onde as informações sobre o tempo são por demais preciosas, tornou-se hábito de seu Raimundo recolher os dados e repassá-los ao Jornal de Brasilândia para o qual colaborou durante vários anos, também com poesias e comentários, sempre demonstrando ser um cidadão interessado e comprometido com sua comunidade.

Mas a história deste cidadão não se resume a esta habilidade somente. Seu grande legado se encontra, sem dúvida, no campo da Educação. Raimundo Pedro de Souza, um nordestino vindo lá do Ceará, região do Crato, nascido em 2 de agosto de 1928 e que aqui chegou à região de Brasilândia em 1955, pisou firme nesta terra para fazer história, em especial, a história da Educação deste município.

Tudo começou quando chegou à fazenda Pinheiro para trabalhar como administrador, onde permaneceu no comando daquela propriedade por 19 anos, deixando aquela região chamada de Pontal, quando mudou para a cidade, em 1976. Foi ali que criou os seus 15 filhos, dos 16 que dona Ana, sua esposa, lhe deu.

Pois foi por iniciativa sua que se deu a construção da primeira escola naquela região para os moradores daquela próspera região criadora de gado. Homem simples, porém instruído no saber e amante da leitura, conta com orgulho que pagou do seu bolso, durante dois anos, o salário de uma professora para ministrar aulas aos alunos das fazendas, tamanho seu interesse pela educação daquelas crianças.

A jornalista Patrícia Acunha nos conta que tudo começou em meados de 1986, quando seu Raimundo passava por um grande problema na fazenda que administrava, pois os filhos dos trabalhadores daquela região não tinham a possibilidade de estudar em uma escola, pois a mais próxima os alunos demoravam horas para chegar.

Raimundo sugeriu então ao prefeito da época, José Cândido da Silva a construção de uma sala, para comportar na época, cerca de 40 alunos que residiam no lugar. O dedicado cidadão ajudou no levantamento do prédio e durante três anos pagou de seu próprio bolso um professor para a escola. Logo após o funcionamento ficou responsável pelo prédio a Prefeitura de Brasilândia.

O pequeno salão ia de vento em popa, mas, anos mais tarde, por motivo de força maior, a então prefeita Neuza Maia fechou a escola. O sonho de ter uma vida melhor foi trancado junto com as portas e janelas do prédio. Raimundo, entretanto, não se conformava com a situação e mais uma vez tomou a frente da ocasião e começou a fazer um levantamento em toda aquela região das crianças que precisavam de escola. Feito o estudo de quantas pessoas ficariam sem estudo, o mesmo levou até à Prefeitura pedindo a reabertura da escola. Visto que não eram poucas as crianças que necessitavam do aprendizado, a prefeita reabriu a Escola e assim a esperança voltou a brotar em cada um dos olhos dos estudantes.

A escola cresceu, ganhou novos lugares, formatos e professores. Na época em que a jornalista redigiu a matéria (2008), além de possuir esta sala, também havia outra sala localizada na fazenda São Luiz, ambas localizada na região da fazenda Pontal. Tonou-se, assim, referência em ensino na região, sendo elogiada pelos superiores da educação no município, sobretudo pela disciplina e o estudo aplicado aos estudantes da região.

Foi quando na época, com 79 anos de idade, Raimundo Pedro de Souza, ao visitar novamente o prédio da escola pode ver a nova geração aprendendo a ler e escrever, e se emocionou. A Educação é o caminho para um futuro melhor. Tal frase surte efeito positivo àqueles que têm a oportunidade de adquirir um pouco de sabedoria dos mais velhos. Mas, para quem não teve ou não tinha chance de poder ter um caderno e lápis na mão e poder conhecer o mundo dos números e das letras? Como é que fica? Pergunta ele sorrindo.

As dificuldades enfrentadas e vencidas por Raimundo Pedro de Souza em favor da Educação em Brasilândia merece o digno respeito de todo o cidadão brasilandense. E ele sente orgulho por ter dado o primeiro passo na educação de muitos que hoje percorrem em um caminho em busca de um futuro melhor do que ontem, hoje e sempre, concluiu (1).

Sobre sua história, ele mesmo conta em forma de uma magistral poesia publicada no Jornal de Brasilândia em 2007: Meu nome é Raimundo Pedro de Souza. Vou contar a minha vida. Eu fui criado no campo. A roça era a minha lida. Meu pai era um homem rígido. Me ensinou a trabalhar. Plantando milho e feijão. E depois tem que cuidar.

Mas quando eu fiquei mais moço. Resolvi a me casar. Me casei então com Ana. A princesa do lar. O dia do casamento eu. Vou contar para vocês. Foi no dia 4 de março. Do ano de 53. Depois de 12 meses. O primeiro filho nasceu. Botei o nome de João. Conforme o desejo meu.

Cada espaço de dois anos. É mais um filho que vem. Veio José e Erotides e. Fátima e Antônia também. Adelaide e depois o Josualdo. Chegou a vez do Antônio. Que quase piaza. Depois veio Terezinha, Ilda. Para enfeitar a casa. Clodoaldo e Francisco. Nasceu em setenta e dois. E a imagem de nós pais. Em cada filho se pois.

São 15 filhos saudáveis. Que nos dão muita alegria. E nos trás felicidade. No correr de cada dia. Nos mudamos para a cidade. Para a vida melhorar. Empregar as crianças. E o estudo continuar. Estudar todos os filhos. Foi esse nosso ideal. E mesmo sendo difícil. Algum fez até o colegial.

O caçula sempre fez força. Para estudar com a graça. Que Deus mandou. Seguindo os estudos. Se formar a professor. A nossa família é unida. Possa contar essa graça. A tradição vem de longe. Comprovando a nossa raça. Nossos filhos e nossos netos. Amamos de coração. Nossos genros e nossas noras. Temos carinho e consideração.

Temos 31 netos e 5 bisnetos. A família vai crescendo. Cinco bisnetos são lindos. Todos com vida e aprendendo. Pedimos a Deus que abençoe. A nossa família inteira. Paz, saúde e alegria. E sucesso na carreira. Vou parar com estes versos. Para cuidar de outra lida. Em cada um deles. Um forte abraço. Que prá você sempre liga (2).

Homem engajado na política e nos destino de seu município, por ser um frequentador assíduo das sessões da Câmara de vereadores, seu Raimundo foi considerado por muitos anos o 10° vereador de Brasilândia. No campo comunitário no ano de 2005 foi eleito vice-presidente da Associação de Moradores AMATA, no bairro onde mora com a esposa. Igualmente, antes da pandemia, frequentava sem nunca faltar a santa Missa aos domingos e durante a semana as reuniões do Círculo Bíblico que juntamente com sua esposa Ana fundou no antigo bairro COHAB.

Hoje, ao completar 93 anos idade, o coração da família Raimundo Pedro de Souza está em festa e duplamente abençoada por ter junto de si a mãe Ana, e este pai patriarca que permanece o cerne e esteio de uma construção perene cristã que os une. Pai, avô, bisavô, tataravô... lúcido e sempre pronto para acolher quem chega a sua casa, nunca descuidando de ler a Bíblia e ministrar seus conselhos e ensinamentos. Antigos, sim, mas que garantiram e sustentam até os dias de hoje os valores da fé e do respeito e admiração que todos lhe devotam. Feliz Aniversário seu Raimundo Pedro de Souza. Parabéns família Pedro de Souza. Vida longa ao seu Raimundo e dona Ana!

Brasilândia/MS, 2 de agosto de 2021.


(1) Educação sem Fronteiras, por Patrícia Acunha. Jornal da Cidade, 2.Jul.2008.

(2) Publicado na coluna Artigo no Jornal da Cidade, 07.Jul.2007.

 










sexta-feira, 30 de julho de 2021

 

Acácio Rocha: o adeus a um debrasense de coração.

Carlos Alberto dos Santos Dutra










Memória se assemelha a dupla face de Jano, da mitologia romana. Quando deitamos os olhos sobre um lado, o outro se nos apresenta oculto. Assim é com a vida: como se fosse uma folha de papel que escrevemos e não sabemos o que se encontra no verso. Com certos vultos, a linha que separa estas duas realidades, às vezes é tênue; é como se a folha de papel, onde foi escrita sua história de vida, fosse transparente, a ponto de permitir ver a trajetória translúcida e brilhante deste personagem.

Com seu Acácio Rocha, podemos dizer que foi assim. Seus passos e caminho construído, profissional e pessoal, o transformaram numa referência para qualquer um que chegasse ao distrito Debrasa. Eram tempos áureos da produção de cana de açúcar e o poderio econômico daquela comunidade a fazia ter aspirações, até mesmo de vir a se transformar em município.

E ele estava lá, sedimentando a caminhada do lugar, com sua presença, seu trabalho, sua atividade econômica, constituindo família; enfim, investido de status e cidadania de um debrasense que dedicou sua vida integrado àquela comunidade geradora de trabalho e renda para sua gente.

Essa era a face que todos viam e sentiam orgulho do cidadão que ele se transformara. Nascido no dia 23 de novembro de 1951, ele também revelava no íntimo outra face: a de ser portador de uma bela história pessoal, de vida, de sonhos e superações. São os filhos agora que recordam o lado familiar mais íntimo de seu papis e o fazem com muito carinho, todo o respeito e eterna gratidão.

Casado com Marília Pereira Rocha, ao lado da esposa construiu seu primeiro lar onde acolheu nos braços os quatro filhos que Deus lhe deu. Experiência que lhe consolidou a maturidade e o encheu de alegria e bênçãos: Lani Cássia Pereira Rocha, Hélton Cássio Pereira Rocha, Jeferson Aparecido da Silva e Acácio Rocha Junior.

Em 2009, com 58 anos de idade tornou-se viúvo. Homem bom, trabalhador e ainda com filhos para criar, dois anos depois conheceu aquela viria a ser sua esposa, a professora Maria Partonice Almeida Rocha com quem se casou e que ao seu lado reencontrou a alegria de viver, sobretudo com a chegada dos netos que lhe encantavam os dias.

Desde que chegou ao distrito Debrasa em 1982, como simples trabalhador rural, foi no corte da cana que ele conferiu dignidade ao labor que sempre desempenhou na lavora. Logo chegou à condição de fiscal de campo e, alguns anos depois, tornou-se encarregado do departamento agrícola da então poderosa usina Destilaria de Álcool Debrasa S. A.

Trabalhou nesta empresa até 1990 quando dela se desligou e passou a dedicar-se juntamente com a esposa, no ramo do comércio: a Mercearia Rocha - Secos e Molhados. Durante vinte anos este palmeirense do coração atendeu a população da Debrasa. Conhecia um a um seus moradores, desde simples trabalhadores indígenas até encarregados e alta chefia da empresa que frequentavam seu estabelecimento. Período em que seu Acácio Rocha tornara-se respeitada referência no lugar.

A partir de 2011 ele transferiu os negócios para o seu filho caçula, Acácio Rocha Junior que passou a administrar com a mesma presteza e atenção do pai o estabelecimento da família. Mesmo sob a gerência do filho, com o passar dos anos, era possível ainda vê-lo sentado em frente da mercearia, cumprimentando os amigos e as novas gerações que se sucediam enquanto assistia em silêncio o declínio do plantio da cana naquela comunidade.

Os filhos recordam que o pai foi um homem de personalidade forte e presente, constituiu em sua trajetória, bons e duradouros amigos e admiradores. Na comunidade sempre ajudou ao próximo com cuidado e presteza. Nem de longe seu Acácio transparecia que tinha estudado somente até a 4ª série. Ele tinha um admirável dom: seu ponto forte era a clareza de administrador. Ele gostava de fazer cálculos, sempre foi muito bom na matemática, lembram os filhos com brilho nos olhos.

Em assim agindo, seu Acácio passou para os filhos qualidades que serviriam para toda a vida: honestidade e persistências em suas convicções. Sim. Foi um homem simples, porém de enorme sabedoria. Conhecimento que poucos sabiam que ele possuía: como o gosto para cozinhar comidas típicas do interior, recordam os filhos com saudade.

Momentos esses inesquecíveis que os filhos, esposa e amigos, irão lembrar para sempre com muito  carinho, orgulho e a satisfação de terem estado ao seu lado e ouvir seus conselhos. E vê-lo sorrir, mesmo quando a dor e a doença lhe fizeram companhia. Sempre rodeado de amigos, contando causos e piadas, mantinha a sua volta um círculo de bondade que o protegia das tristezas e desesperanças da vida.

Este escrevinhador lembra que no tempo da política quando o distrito Debrasa se transformava em polo de atração de candidatos, aquilo era o que sempre acontecia: o palanque eleitoral montado em frente a sua mercearia era o ponto de encontro de todos, independente das cores partidárias que vestissem, ali era o lugar onde as ideias circulavam e as amizades se consolidavam. Ao longo dos anos, todos que por ali chegavam, faziam questão de dividir com seu Acácio o prazer de tomar uma cervejinha com os amigos e recordar os tempos antigos.

Homem de fé, enquanto esteve à frente do seu comércio, trabalhava de segunda a segunda. O único dia do ano que seu Acácio não abria seu comércio era na sexta-feira santa, onde fazia questão de reunir seus filhos e... Aqui o filho que nos conta essa história de vida, não esconde a lágrima que rola no seu rosto. E se perde nas palavras dando espaço somente a voz do coração.

Cheio de saudade pronuncia em silêncio as últimas palavras de adeus ao seu velho e querido pai, fazendo coro junto com os demais filhos, esposa, netos e amigos que o conheceram...

O homem, pai e avô que, em 1993 festejou a chegada do seu primeiro neto, Joldeir, da parte de sua filha Lani Cássia; que teve a felicidade de ver casar seus filhos Jeferson Aparecido em 2004 e Acácio em 2010, e ainda em 2009 alegrar-se com o filho Hélton Cássio vendo-o formado em Psicologia..., depois de toda esta trajetória, sim, ele tinha razões de sobra para estar feliz.

Felicidade que hoje a família celebra -- com o coração partido pela dor da despedida --, mas com a alma em paz e o conforto de saber que seu Acácio viveu e promoveu vida a sua volta, semeou amizades e, firme nas suas convicções, colhe agora o fruto de seu trabalho e caminhada que empreendeu este antigo morador.

A vida, ele deixou para traz aos 69 anos de idade no dia 21 de julho de 2021, ainda ontem. E as estradas empoeiradas de sua querida Debrasa são apenas lembranças para aquele que experimenta hoje a glória de poder pisar a relva pura dos campos do Senhor. Descanse em paz, amigo Acácio Rocha, um debrasense de coração.

 

Brasilândia/MS, 30 de julho de 2021.



 

 

 

 









Fotos: Recolhidas em https://www.facebook.com/lanicassia.perreirarocha 

Texto: Com informações fornecidas pelos filhos Lani Cássia, Hélton Cássio, Jeferson Aparecido e Acácio Jr. em 29 de julho de 2021.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

 Ariovaldo Carlos de Oliveira: as mãos e o trabalho de um homem de bom coração.


 






Um dia existiu um homem que olhava o mundo a sua volta de forma diferente. De origem rural e formação humilde contentava-se em apreciar o nascer do dia desde os primeiros raios de sol de cada manhã. Ficava horas mirando o horizonte como se estivesse conversando com a estrela maior que despertava, a ponto de, às vezes, nem perceber que pé ante pé uma menina de rosto rosado se aproximava jogando-se inteira nos seus braços.

Pouco se importava e nem reparava as mãos calejadas do pai: o que ela queria mesmo era abraçá-lo e estar junto de seu astro-rei o resto dia. Tudo se transformava de repente e tudo parecia um sonho. Mas a menina e o irmãozinho ao seu lado, permaneciam ali, olhando, sorrindo, acenando, como se dele estivessem lembrando e vendo aquele vulto pela última vez.

O carinho e a presença dos filhos, Ariani e Henrique, sempre foram o maior tesouro que aquele homem carregou no coração e nos braços. Com o mesmo amor que devotava à esposa Nina, de candura inigualável, sua dedicação aos filhos era uma verdadeira oração. Juntos formavam o mais belo par. Algo que o jovem Ariovaldo Carlos de Oliveira sempre sonhou em construir e foi abençoado com este presente do céu: a sua amada e respeitada família.

E lá encontramos o pai, seu Andrelino Carlos de Oliveira, carinhosamente chamado por todos de seu Ico, e dona Dorvina Pereira Oliveira, mãe guerreira regendo a orquestra de uma família de dez filhos, em busca de  um jeito de lhes dar nomes que facilitasse chamá-los sem confundir-se. E assim foi, na medida em que iam nascendo foram recebendo o nome, todos com a letra ‘A’: Ariovaldo (Ari), Anadir, Ariobaldo (Badim, falecido), Adalto (falecido), Adalberto (Branco, falecido), Ademar (Zino, falecido), Adelmo (), Analzira, Nilton (César), e Alessandro (Britinho).

O filho mais velho nestas horas, ao lado do pai, era o esteio da casa. Foi no convívio íntimo com a mãe, e a responsabilidade de ajudar a criar os irmãos que o jovem Ariovaldo foi moldando o caráter e sedimentando o encargo que o transformou num homem e o fez ainda muito novo trabalhar nas fazendas com o pai para ajudar a sustentar a família. Tal exigência se, por um lado lhe conferiu respeito e independência, por outros o afastou dos estudos, tendo concluído somente a quarta série na fazenda onde trabalhava.

Sua família era natural da região de Três Fronteiras, no estado paulista, mas, no ano de 1956 aportaram no município de Brasilândia, quando foram trabalhar na fazenda São João. Foi ali que o jovem Ari e a família de seu pai trabalharam por trinta anos para a família Ferreira, que eram donos das fazendas São João e Barra do Cedro, cuidando de lavoura e pecuária.

Mas para o jovem Ari, que havia nascido no dia 25 de novembro de 1950, foi em terras brasilandenses que ele fez sua verdadeira história. Embora tenha estudado somente as séries iniciais numa escola que funcionava na Cabeceira Perdida, ele sempre se mostrou muito interessado e conhecedor da ciência da matemática e da dinâmica dos números: fazia cálculos sempre de cabeça sem o auxílio de lápis (e muito menos calculadora que nem existia na época) e, como recorda a filha Ariani: - ele carregava sabedoria de quem tinha a experiência e amor pela família.

Quem o conheceu em Brasilândia, logo percebia que ele amava e conhecia palmo a palmo esta cidade e sua gente. Desde a infância e juventude, e depois já homem feito, sempre era visto indo e voltando para o trabalho em sua bicicleta Monark barra forte vermelha, recorda a filha Ariani. Ele teve várias mas sempre da mesma cor e modelo, sorri com saudade.

Nas horas de folga, o seu lazer era jogar bola. Torcedor desde pequeno do time do São Paulo, sempre gostou do esporte, em especial do futebol de campo. Isso sempre foi uma alegria para aquele moço de olhar cabisbaixo e um enorme coração poder correr com a bola nos pés pelos campos em jogos pelas fazendas quando eram realizados torneios, muito comuns em tempos passados. Quando sabia que ia acontecer um desses eventos, mesmo em lugares distantes, ele sempre dava um jeito de ir: muitas vezes, a pé ou a cavalo para jogar bola.

Ainda moço, aos 24 anos de idade, casou com Nina Miranda de Oliveira, de 21 anos, e que conhecera alguns anos antes. O casamento ocorreu no dia 31 de julho de 1976 em cerimônia religiosa realizada na igreja matriz da Paróquia Cristo Bom Pastor, e celebrado pela Irmã Maria Aparecida, da Congregação das Missionárias de Jesus Crucificado que administrava a paróquia na época.

Dessa união o casal teve dois filhos: Ariani Miranda de Oliveira Menezes e Jorge Henrique de Oliveira. Rebentos que frutificaram para a alegria dos avós brindando-lhes três netos: Matheus, hoje com cinco anos; Arthur, com dois anos, e Davi, com um ano e meio de idade. Já com família formada, no ano de 1985, seu Ariovaldo mudou da fazenda Barra do Cedro para a sede do município de Brasilândia, de modo que os filhos pudessem estudar.

Depois de ter trabalhado na lida do campo, desde as condições mais humildes, passando por cerqueiro [alambrador] e administrador de fazenda, concluiu sua trajetória de vida como servidor municipal. O fardo da vida que carregou, entretanto, nunca fez com que esmorecesse. Permaneceu sempre disposto para trabalhar, alimentando o gosto pela música caipira e assistir seus jogos de futebol.

E olha lá o avô, agora curtindo e brincando com os netos que eram sua maior paixão. O amor era tanto que, soluça a filha ao recordar, ele antes de falecer pediu para beijar a foto dos netinhos. Ver o filho formado era  outro sonho que seu Ari alimentava. E pode realizá-lo ao vê-lo cursando já o quinto ano de Medicina, muito próximo de dar-lhe completa alegria.

Entre as tristezas que a vida lhe reservou e que ele guardava no silêncio de seu coração estava a morte do pai, seu Andrelino, falecido em 30 de agosto de 2001 aos 82 anos de idade; e a perda dos irmãos: Adalto, Branco, Zino e Badim. Quando descobriu que estava com câncer ele e sua esposa mudaram para a cidade de Dracena/SP, onde a filha Ariani residia. A filha recorda que durante o tratamento o pai falava que depois, quando fosse curado iria voltar para terrinha amada, Brasilândia.

Mesmo com as dores da metástase óssea, ele sempre falava que o difícil não era a doença e sim não poder trabalhar. Homem acostumado ao labor, sempre que as pessoas perguntavam como ele estava ele prontamente  respondia --estou bem, estou melhorando, com um sorriso inocente no rosto. Mesmo nos piores momentos de dor ele nunca reclamou da sorte. Sempre muito positivo e, com sorriso, encarou a vida sempre de frente.

Esse foi o legado que seu Ariovaldo deixou para a esposa, os filhos e os netos: um  exemplo de dedicação como esposo, um pai carinhoso e presente, e que plantou  no coração de cada um de seus rebentos o orgulho de vê-lo sempre lutando para à família nada faltar.

Orgulho igual sentia o pai, agradecido, enquanto seu rosto queimado pelo sol conversava  com a aurora de cada dia: era todo gratidão pela família, pela esposa fiel e dedicada, pela filha bancária e pelo filho que em breve há de ser um médico. Lições de humildade e perseverança que todas as manhãs lhe animavam. E que permaneceram guardadas na alma, até o dia em que a dor já não lhe causou mais qualquer sofrer.

Ariovaldo Carlos de Oliveira faleceu no dia 23 de julho de 2021, com 71 anos de idade deixando um rastro de admiração e saudade. Descanse em paz amigo Ari, homem de um bom coração.

 

Brasilândia/MS, 28 de julho de 2021.


























Fotos e texto redigido com informações fornecidas pela filha Ariani Miranda de Oliveira Menezes, em 27 de julho de 2021. 

terça-feira, 27 de julho de 2021

 

Dona Eunice Rodrigues Fonseca: a simplicidade e o sorriso que venceu a dor.

Carlos Alberto dos Santo Dutra


 








O encontro com a vida, que cada um de nós realiza acontece desde o momento que respiramos pela primeira vez. A partir dali a sorte está lançada para aquele pequeno ser que dia a dia cresce e percebe o que se encontra a sua volta. Sorte aqui é sinônimo de lar, família, segurança, carinho, amor.

Pois é este amor e segurança que permite à criança dar seus primeiros passos e seguir em frente para encarar o mundo, encarar a vida, pintar o mundo com as cores que bem entender. Esses predicados, entretanto, nem sempre garantem a felicidade; eles dependem das circunstâncias e oportunidades que se nos são apresentadas ao longo do caminho.

Com aquela menina, em tempos recuados, somente o por do sol radiante era o colorido que iluminava sua vida. Raios de luz que lhe apontavam o rumo em direção ao amanhã. Casada muito cedo, seus pés pisaram fortes o cerrado mato-grossense acompanhando o esposo, jovem de família desbravadora desta terra desde há muito Xavantina.

Dona Eunice Rodrigues Fonseca, carinhosamente chamada de dona Nice nasceu na cidade paulista de Guataporanga, no dia 5 de janeiro de 1944. Filha de seu Ananias Rodrigues de Castro e dona Etelvina Rodrigues de Castro ela cresceu em meio a uma família de 12 irmãos: Antônio, Luzia, Maria, Ananias, José, Iná, Lázara, Plínio, Eunice, Deolinda, Izabel e Maria de Lourdes.

Vencendo as dificuldades da vida rural, seus avós e seus pais sempre viveram no interior, mas as principais recordações daquela que um dia fora jovem eram todas do tempo em que viveu na cidade de Adamantina, onde passou sua adolescência. Aos olhos daquela moça a cidade despertou sempre grande admiração, mesmo depois de adulta e já adiantada em idade, a saudade lhe fazia companhia, sobretudo quando recordava dos passeios pela praça central onde ela e as amigas circulavam com um sorvete na mão.

Ou então suas idas ao Cine Adamantina com as amigas e irmãs. Foram tempos de graça e encantamento, o que de certa forma a preparou para a vida que aos poucos foi se apresentando a sua frente. Recorda com muita lucidez ainda o tempo que trabalhou na casa de dona Abigail, gentil senhora que a acolheu no tempo em que estudava, e realizava para ela serviços domésticos. Neste período estudou até a quinta série numa escola municipal em Adamantina.

Durante a infância e início de sua juventude nesta cidade, se alegrava, junto de sua família, poder todos os domingos ir à missa, e depois, passear pelos jardins, ir ao cinema. Sempre protegendo e zelando por suas irmãs mais novas vendo-as crescer, sem descuidar de ajudar a mãe em casa e também ao pai, quando levava a comida até o local onde ele trabalhava, nos horários de almoço.

Certo dia, no ano de 1962, seus pais atravessaram o rio Paraná pela balsa do Porto João André e aportaram no município de Brasilândia. Seus Ananias, seu pai, recomeçou a vida aqui trabalhando como marceneiro e carpinteiro. Conforme a demanda do trabalho de construção de porteiras, galpões e sedes de fazenda eles se mudavam constantemente e andavam de fazenda em fazenda, às vezes até outras cidades. Até o dia que chegaram à fazenda Boa Esperança.

Nesta fazenda de propriedade do patriarca da cidade, Arthur Höffig, o pai de dona Nice viu um campo fértil para o seu serviço, sobretudo, pelas casas – que ajudava a construir -, pontes e móveis, lembra hoje a filha Cristiane. Ali dona Nice haveria de consolidar seu destino: depois de ter cruzado estradas, ajudado a abrir fazendas, e nunca esconder a mão ou recusar trabalho, onde quer que a família estivesse, conheceu aquele que seria seu esposo.

Ele trabalhava nesta fazenda Boa Esperança e o olhar cheio de encanto do jovem José Nicácio Fonseca haveria de conquistar o coração da jovem professora que ministrava aula na fazenda. Dona Nice, nesta época, cheia de predicados e formosura, igualmente, deitou os olhos sobre o jovem rapaz que era vizinho na colônia da fazenda, nascendo entre eles uma sólida amizade que se transformou em amor.

Dona Nice lecionava para os filhos dos empregados da fazenda e também para os adultos que lá trabalhavam. Foi lá que ela conheceu o seu Zé Fonseca, como se tornou conhecido, e que logo despertou interesse pela jovem Eunice começando a cativá-la. Dona Nice nesta época tinha namorado, porém, se deixou levar pelos encantos do seu futuro esposo e separou de seu namorado, recorda a filha Cristiane.

Após namorarem por um bom tempo, cerca de um ano, eles se casaram, com a aprovação do pai e da mãe, os quais gostavam muito de seu genro. Ele, José Nicácio Fonseca, nascido em 17 de abril de 1944, na própria fazenda Boa Esperança, era filho de um dos pioneiros fundadores de Brasilândia, Antenor Fonseca (nascido em 5 de maio de 1912 em Xavantina) e dona  Rosa Nicácio Fonseca (nascida em 16 de setembro de 1922).

Mesmo depois de casados dona Nice continuou na fazenda Boa Esperança trabalhando como professora ainda por oito anos, ensinando seus pupilos a ler, escrever e fazer contas, com muito zelo, sendo que seus alunos retratavam-na como muito exigente. E também ajudava a seu Antenor, seu sogro, fazendo a folha de pagamento dos funcionários da fazenda, quando o administrador não sabia ou não podia fazer.

Quando os filhos começaram a chegar, revelou-se uma exímia dona de casa, dedicando seu tempo aos  filhos e a família, além de dar suporte e conforto a todos que a ela recorriam. Juntos o casal teve quatro filhos: José Carlos, Paulo Sérgio, Edmilson e Cristiane. Com o tempo os filhos foram casando e brindando aquela senhora de netos: Ederson, Paulo Henrique e Pablo Tiago (filhos de José Carlos); Eduarda e Lívia (filhas de Edmilson); Ana Carolina, Ana Beatriz, e Ana Júlia (filhas de Cristiane).

A partir de 1985, já morando no novo bairro que surgia, COHAB Thomaz de Almeida, o casal logo se integrou ao grupo do Círculo Bíblico que foi criado no condomínio, ao lado de outros vizinhos, que para lá começavam a se mudar. Foram ali mais de trinta anos de feliz convivência, fé e harmonia. As reuniões semanais em sistema de rodízio nas casas foram bênçãos que iluminaram a vida daquele casal, fazendo-os suportar as dificuldades comuns da vida em família. Ao lado do esposo seu Zé Fonseca, dona Nice sempre lhe garantiu apoio suportando em silêncio a convivência nem sempre pacífica com a bebida que se tornou companheira do esposo, mal comum que acomete tantas pessoas.

Isso, entretanto, contrastava com o jeito amoroso e respeitoso que ele sempre tratou a esposa e os filhos, garantindo a alegria do viver ao casal. De comportamento reservado, porém portadora de um sentimento fraterno e de generosidade sem limites, dona Nice soube educar os filhos e dotá-los de valores humanos e altruístas que serviriam para a vida toda: humildade, honestidade e respeito.

Esteve sempre forte ao lado dos filhos quando a dor, a violência e a insegurança rondaram sua porta, mantendo-se esperançosa e confiante na justiça de Deus. Mulher de fé que era não sabia mais o que fazer quando alguém chegava a sua porta, recebendo a todos com um sorriso no rosto e as mãos estendidas para acolher.

Após o falecimento do esposo em 22 de janeiro de 2012, quando a doença e a idade ameaçavam tirar-lhe as forças, ela encontrava ânimo na fé e na igreja católica que lhe dava esperança e a impulsionava a ir à santa missa, grupo de oração e círculo bíblico, sempre que podia. Nunca faltava. Devota de Nossa Senhora Aparecida,  fervorosa, lá a encontramos nos últimos anos, aos domingos em frente da TV Aparecida assistindo a missa enquanto seus dedos já cansados não desistiam de dedilhar a reza pronunciando o terço todos os dias. Até quando sua saúde permitiu.

Ah dona Nice, nossas reuniões do Círculo Bíblico - findado este tempo de pandemia -, não serão mais as mesmas, em especial pela ausência e a dor que deixaste para a filha Cristiane e aqueles que lhe eram mais próximos. Mais do que sentir a dor de sua partida, porém, que os filhos e netos possam sentir orgulho pela avó que tiveram, silenciosa guerreira, mas não menos alterosa de virtudes e gestos de caridade que alcançavam longe.

Depois de ter enfrentado AVCs seguidos, nos últimos anos, fazia um esforço tremendo para lembrar o nome das pessoas, mas nunca perdeu o bom humor e o tom de brincadeira ao falar, coisas que despertou já nos últimos anos da vida. Sempre com um sorriso no rosto tratava a todos sempre com respeito e dignidade. Era como se a felicidade lhe acompanhasse aonde ia. Era como se livre estivesse das amarras e trancas de portas do passado antes impostas.

Sim, dona Nice se sentia livre. Livre como agora se encontra, liberta como os pássaros voando além do horizonte dourados que os olhos daquela menina ainda ontem haviam sonhado. Voe dona Nice, voe para o amor de Nossa Senhora, a quem tu eras devoto; voe para os braços de Deus para entregar-lhe o ramalhete de flores que fostes juntando um a um nos dias que por aqui passaste. Partes, mas o teu perfume há de permanecer entre nós. 

Dona Nice fez sua Páscoa definitiva no dia 25 de julho de 2021, aos 77 anos. Descanse em paz querida amiga dona Nice.

Brasilândia/MS, 27 de julho de 2021.

 




Texto e Fotos: Com informações fornecidas pela filha Cristiane Rodrigues Fonseca em 26.Jul.2021.