domingo, 19 de fevereiro de 2023

 

Feliz Aniversário Professora Judite Penha

Carlos Alberto dos Santos Dutra


Contemplo no Facebook a alegria do amigo Kinha (Hilkias Penha Júnior), seus filhos e netos ao lado de sua adorável mãe e avó, dona Judite, festejando seus 93 anos de vida (comemorado no dia 18 de fevereiro último). Uma bênção de gratidão e motivo para celebrar tamanha graça, presença e luz. 

Sempre damos parabéns nestas ocasiões, mesmo quando pouco conhecemos o aniversariante. Mas neste caso peço licença poética, em especial aos familiares, para homenagear esta nonagenária senhora através de uma lembrança que guardo de seu saudoso esposo.

Não. Não a conhecia em profundidade, mas a beleza que meus olhos viram num tempo pretérito, merece ser lembrada e partilhada, assim como o voo de uma borboleta suave e bela que brinda com caricias uma flor que toma a forma do rosto desta mulher. 

Corria o ano de 1997, (portanto, quem tem menos de 26 anos ainda não havia nascido), e lá encontramos uma senhora de aparência jovem e muito decidida, de nome Judite, caminhando com passos firmes em direção à escola Adilson Alves da Silva. Era professora substituta da disciplina de História e lecionava naquela época em Brasilândia/MS, lembra minha esposa Vilma, que também era professora neste educandário. 

Não por acaso estas duas professoras eram vizinhas e residiam no mesmo bairro Thomaz de Almeida que, nos seus primeiros anos, reunia profissionais de várias áreas do conhecimento humano e atividade laboral. 

Com o tempo, os filhos procuram trazer os pais para mais perto de si. O que aconteceu com minha mãe, que a trouxe do Rio Grande do Sul, anos depois, aconteceu também com o amigo Kinha que, por zelo e cuidado, trouxe seus pais de Guaimbé/SP para morar em Brasilândia. 

Foi numa manhã chuvosa, enquanto eu e minha esposa nos dirigíamos para Marilia/SP, que comentamos: --não podemos esquecer de fazer uma visita para o seu Hilkias e dona Judite. Tratava-se de um vizinho que durante cinco anos vivia praticamente ao lado do meu quarto, pois a parede de minha casa era o muro que separava os dois terrenos. E mesmo assim, fomos sempre adiando essa visita, e o tempo foi passando. 

O enfarte que o acometeu paralisou-lhe o lado direito fazendo necessário o seu retorno à cidade de Guaimbé/SP de onde viera. Sua partida comoveu a todos no bairro pois tratava-se de um casal muito querido na cidade. 

Resolvidos meus assuntos em Marília, no caminho de volta para casa, entro na pequena, porém, simpática Guaimbé. O papel com o número do telefone que tinha no bolso, perdi. Resolvo então perguntar para alguém. Num banco da praça central da cidade, encontro dois senhores idosos. Mal menciono o nome de seu Hilkias e rapidamente sou informado do local exato de sua residência. Logo a dois quarteirões dali. 

E cá estou eu adentrando o portão da casa, onde logo avisto dona Judite que vem ao meu encontro sorridente e bela. Seu Hilkias Penha, sentado em uma cadeira de rodas, me recebe emocionado e com lágrimas nos olhos. Falando com desenvoltura, queixava-se somente do braço direito que ainda não lhe obedecia de todo, mas já com grandes progressos no restante do corpo. 

Sente-se uma aura de felicidade no seu olhar. Aquele casal em harmonia era como se vivessem num paraíso que inspirava paz e felicidade. Seu Hilkias diz que em breve poderá caminhar. Dona Judite sorri. E com certeza isto acontecerá, pois sua disposição era notável. 

Fala com alegria e manifesta saudade dos moradores de Brasilândia. Num breve momento, vejo-me diante de um homem que desconhecia. Minha mulher sempre falava que, quando eu estava fora de casa -- pois eu estava sempre viajando --, ele, seu Hilkias, seguidamente vinha à minha casa. 

Sempre prestativo, lá estava ele a consertar uma torneira estragada, um ventilador que não ventilava, uma máquina de costura que não costurava. Um dia chegou a matar uma cobra que ameaçava as crianças no quintal. --É, eu dizia, sem prestar muita atenção. --Que bom. Sempre muito ocupado eu estava. 

Minhas filhas passavam horas colhendo flores no pátio ao lado, sob os cuidados de seu Hilkias. Pé ante pé, por várias vezes, ele veio até meu escritório (e eu sempre ocupado frente ao computador). Ele vinha, como legítimo advogado dos pequeninos, pedir para eu deixar as crianças brincar no seu pátio. Ele deliciava-se em vê-las brincando e conversando sobre seu mundo encantado. --Essas meninas, são vida para mim, confessou-me um dia. 

Essas imagens assombram-me por instantes. Enquanto ele esforça-se em contar os efeitos e os sintomas do enfarte -- em resposta a um questionamento meu sobre uma dorzinha no braço esquerdo que julguei sentir enquanto dirigia no percurso para cá --, vi-me diante de um homem renovado e confiante. Falamos ainda sobre as novidades políticas de Brasilândia, a nova prefeita, etc., enquanto a tarde declinava. 

A poucos metros de mim, este senhor esteve durante anos. E eu me pergunto: --Fui visitá-lo talvez uma vez, quem sabe, duas? Agora sou eu que sinto vontade de chorar... E de vergonha. Trezentos quilômetros daqui para frente nos separam. 

Dona Judite, portando-se sempre como uma dama gentil e prestativa, nos mostra as dependências da casa. Seu Hilkias continua falando lá da área e brinca dizendo que em breve já poderá dirigir, pois tem de fazer fisioterapia duas vezes por semana em Lins/SP. Sua lucidez, sua sede de viver era algo contagiante e que inquietava a todos, exemplo para os mais jovens. -- Quero trabalhar, diz ele sério e convicto. 

Homens dessa envergadura, concordo com o poeta alemão Bertolt Brecht, são imprescindíveis. Enquanto me distancio pela estrada, em direção a Brasilândia, um suspiro profundo embarga o peito. As lágrimas dificultam a visão. E percebo que este amigo, ainda assim, apesar de minha falha, fora bondoso comigo e brindara-me com uma grande lição de humanidade. 

Deu a mim (e a quem ler este texto), a oportunidade de perceber que ainda há tempo para resgatar o abraço perdido, o afeto contido, o aperto de mão... Nos fez ver que ainda há tempo de romper barreiras, e abrir clareiras em busca do irmão... Obrigado seu Hilkias. Feliz Aniversário professora Judite! 

 Brasilândia/MS, 20 de fevereiro de 2025. Publicado originalmente em 19 de fevereiro de 2023.

Foto: Shirlei Nogueira/Facebook, 14.08.2016.

Fonte: DUTRA, C.A.S. Ao amigo, senhor Hilkias. O mendigo das estrelas, crônicas brasilandenses. São Paulo, Scortecci, 2005, pág. 129.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

 

 Homenagem de

Agradecimento ao Pároco

Padre Fábio Alves de Oliveira



Paróquia Cristo Bom Pastor / Diocese de Três Lagoas

Brasilândia/MS, 19 de fevereiro de 2023

 

Amigos, me dão licença

Um momento vou falar

Quero aqui homenagear

O nosso padre querido

Estamos agradecidos

Por estar junto de nós

Mas, agora falta voz

Para o que eu vou contar

Não sei como vou falar

Para quem está distante

Por mais que esteja confiante

Pois saber que estás partindo

Uma dor vamos sentindo.

*

Já não estarás por perto

Aquele sorriso aberto

Que nunca via maldade

Falou sempre a verdade

Ser gentil, acolhedor

Um bom mestre educador

Soube conduzir o povo

Mudou o velho e o novo

Somos gratos todo o dia

Pela Santa Eucaristia

As reuniões pastorais

As tuas obras sociais

Nos encheste de alegria

Renovaste a teologia.

*

Caminhaste em comunhão

Vai proutras bandas, irmão

O coração está doendo

Por isso eu vou dizendo

Por aqui tua passagem

Nos encheste de coragem

Para continuar andando

Reunindo, celebrando

Afinal, são cinco anos

Tantas histórias e planos

Que vão ficar na saudade

A tua personalidade

Tua luz e encantamento

Tua fé e engajamento.

*

Nos trouxe paz e alegria

Paciência, sabedoria

Ah, são tantas as lembranças

A amizade e confiança

Um companheiro de fé

Que se manteve de pé

Vencendo a Pandemia

Conciliou a academia

Nunca viu dificuldade

Sempre em disponibilidade

Na Diocese, Regional

À grande família eclesial.

*

Atento ao pedido do Bispo

Lá vai nosso São Francisco

Despojado e aplicado

Padre Fábio obrigado

Por tantas atividades

És uma preciosidade

Para a missão e o bispado

És um verdadeiro achado

Da pastoral e da Igreja

Não importa aonde esteja

Por aqui tu tens morada

Mesmo que em outra estrada

Que sabemos vai trilhar

Os teus passos vão ficar.

*

Serás sempre um bom amigo

Estaremos sempre contigo

Lhe desejando sorte

Que Deus lhe aponte o Norte

Te ilumine noite e dia

Paróquia Santa Luzia

Que o acolhe sorridente

Lhe acenamos contente

Saber que vais como o vento

Sempre disposto e atento

Filho zeloso, família

Tanto na festa ou vigilia.

 *

Esse é o nosso padre!

Verdadeiro irmão, confrade

Já estamos com saudade

Este é o nosso sentimento

Total agradecimento

Pelo carinho e os laços

Do coração, um pedaço

Por aqui você deixou

E muito nos confortou

O calor do teu abraço.


Obrigado Padre Fábio.

Diác. Carlito e Comunidade





quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

 

CF 2023: Dai-lhes vós mesmos de comer.

Texto Base CNBB/Carlos Alberto dos Santos Dutra




Há mais de 50 anos a Campanha da Fraternidade, da Igreja Católica, todos os anos, reflete no tempo quaresmal, uma situação bem específica vivida pelo povo brasileiro, cuja imensa maioria possui íntima relação com a fé cristã.

Entende a Igreja que a situação de pecado, quando não enfrentada, gera destruição e morte. Neste ano o convite é para refletir neste tempo de preparação para a Páscoa do Senhor, sobre o tema da fome, oportunidade e tempo propício à conversão pessoal, comunitária e social.

É a terceira vez que o tema da fome é apresentado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB por meio da Campanha da Fraternidade. A fome, sem dúvida, é a realidade mais atual vivida nos dias de hoje: fome de Deus, fome de paz, fome de fraternidade, fome de pão e de justiça, e tudo que desumaniza.

Isso porque, quando a fome bate à porta de uma família, isso é sinal de alerta; quando o alimento não chega a todo o ser humano; quando mães e filhos gritam e choram, reclamam e reivindicam por alimento, tudo isso é sinal de que algo está errado, levando o mundo e a cada um de nós a um questionamento a respeito do rumo que estamos tomando como cidadãos e sociedade.

O Papa Francisco lembrou em sua mensagem ao diretório argentino do Comitê Pan-Americano de Juízes pelos Direitos Sociais e a Doutrina Franciscana, em 2021 que não há democracia se existe fome. Por isso a mensagem da Campanha da Fraternidade, neste ano vai mais longe e profunda o tema da fome. E assevera em obediência ao chamado do próprio Jesus: Vinde (...) eu estava com fome, e me destes de comer; todas as vezes que fizeste isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!  (Mt 25,34-40).

Razão pela qual a Igreja neste período -- que inicia na quarta-feira de cinzas, dia 22 de fevereiro e se estende até a quinta-feira santa, dia 6 de abril --, busca sensibilizar a sociedade e a si mesma para enfrentar o flagelo da fome, sofrido por uma multidão de irmãos e irmãs, por meio de compromissos e ações que transformem esta realidade a partir do Evangelho de Jesus Cristo cujo lema da campanha destaca em epígrafe: Dai-lhes vós mesmos de comer! (Mt. 14,16).

Esmera-se, assim, no convite aos cristãos para que possam: compreender a realidade da fome à luz da fé em Jesus Cristo; desvelar as causas estruturais da fome no Brasil; indicar as contradições de uma economia que mata pela fome; aprofundar o conhecimento e a compreensão das exigências evangélicas e éticas de superação da miséria e da fome, e acolher o imperativo da Palavra de Deus, que nos conduz ao compromisso e à responsabilidade fraterna.

A Campanha convida, igualmente, a todos: investir esforços concretos em iniciativas individuais, comunitárias e sociais que levem à superação da miséria e da fome no Brasil; estimular iniciativas de agricultura familiar agroecológicas e a produção de alimentos saudáveis; reconhecer e fomentar iniciativas conjuntas entre comunidade de fé e outras instituições da sociedade civil organizada; e, por fim, mobilizar a sociedade para que haja uma sólida política de alimentação no Brasil, garantindo que todos tenham vida.

No rol das propostas de como o cristão pode agir para transformar a realidade da fome, no plano pessoal, o Texto Base da CF 2023 sugere: partilhar do muito ou do pouco que se tem com aqueles que mais necessitam; praticar a partilha na família, na escola, no trabalho etc.; jejuar em atitude solidária com aqueles que pela miséria são obrigados ao jejum; converter o resultado do seu jejum e da sua penitência quaresmal também em alimento para quem precisa; questionar o próprio estilo de vida e de alimentação; ser solidário com os que passam fome aguda – jamais renunciar à solidariedade;

E ainda colaborar nas campanhas de arrecadação de alimentos de entidades sérias e transparentes; abolir o desperdício de alimentos, estabelecendo práticas de reaproveitamento saudável; realizar uma doação significativa para a Coleta Nacional da Solidariedade, no Domingo de Ramos; participar dos conselhos de direitos (humanos, da criança e do adolescente, da juventude, da pessoa idosa, da saúde...); praticar o voluntariado; envolver-se nos trabalhos e nas ações que já existem na comunidade, (no caso de Brasilândia, AVCC, Apae, Pastoral da Criança, e outras entidades assistenciais);

Desafia os cristãos também a preparar uma refeição saudável e nutritiva no Domingo de Páscoa e convidar uma família carente (desafiante, não?); participar mais ativamente das discussões sociais de políticas públicas; envolver-se na política com espírito cristão, não lavando as mãos como Pilatos nem difundindo a ideia errônea de que política não presta nem é lugar de cristão; tomar mais conhecimento e envolver-se nas iniciativas públicas (governamentais ou não) de combate à fome e à pobreza no município onde vive; apoiar e participar de alguma pastoral social em sua paróquia (...).

Todos comeram e ficaram saciados, e dos pedaços que sobraram recolheram ainda doze cestos cheios (Mt 14,20). Isso nos consola e nos diz que isso é possível. Que o tema da fome, sua reflexão e ações, portanto, envolva toda a Igreja, transbordando também para o todo da sociedade. 

Que sejamos, pois, envolvidos por este esforço de evangelização e educação capaz de gerar convicção e atitudes evangélicas e proféticas em busca da superação do resistente egoísmo e do fatal individualismo que nos afasta daquele Deus que encheu de bens os famintos (Lc 1,53), cantado por Maria no seu Magnificat.

 Brasilândia 16 de fevereiro de 2023.

Fonte: CNBB, Fraternidade Fome. Campanha da Fraternidade 2023. Texto Base, Brasília-DF, 2022.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

 

Eis o Homem

Carlos Alberto dos Santos Dutra 

O rosto ainda traz o brilho da juventude que ainda não o deixou de todo. 

Irreverente e símbolo de problema, arrebata as angústias e sensibiliza-se com a flor. 

Poeta excluído, bebe as dores e contradições intestinas do mundo. 

Dedicado ao trabalho, curte as sobras que a vida lhe proporcionou. 

Transforma-se em fera para sobreviver. 

Pisam-lhe o rosto com ares de caridade. 

Roubam-lhe os sonhos e o sustento dos seus.

Hostilizam sua fé e debocham de sua sorte.

Consciente e sereno, entretanto, rompe com a vida normal e se lança ao espaço. 

Em asas de liberdade, voa mais longe que a morte e saboreia resignando fragrâncias de cumplicidade com a sorte. 

Causa admiração este homem que há tempo já devia ter deixado de ser, o resto que lhes permitiram.

Causa admiração este homem que, não sendo pária, junta-se à massa e a pinta em cores de horizonte, para além de muitas noites. 

Causa admiração sua coragem de sorrir e acreditar no amanhã. 

Mesmo que lhe neguem a mão.

Mesmo que lhe neguem o pão.

Mesmo que lhe digam não! 


Eis o Homem, meu amigo, irmão e compadre. 

Edilson Fernandes Lopes, ou simplesmente Fera

Brasilândia/MS, 12 de fevereiro de 2023.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

 

Os Ofaié, a história e o verbete no Aurélio
Carlos Alberto dos Santos Dutra

Já se passaram dez anos e uma nota no Facebook dava conta de que Eles estão lá, na página 1.497, da 5ª edição do majestoso Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, publicado em parceria com a Editora Positivo, na versão impressa e digital.

E logo explicava: É o verbete ‘Ofaié’, que finalmente salta dos recônditos da história e tem seu nome, agora, incluído entre as mais de cinco milhões de palavras que compõem o léxico da escrita deste nosso pluriétnico Brasil. Ao final a nota dava Parabéns Ofaié. Parabéns Brasilândia.

Nos comentários que se seguiram e a repercussão de pouco mais de 20 curtidas na época, uma delas dizia: Meus parabéns Carlito, acredito que nesta história tem um dedo seu. Com o agradecimento à pessoa querida e pelo reconhecimento ao trabalho realizado, aproveito o mote para me alongar um pouco mais nesta história.

É bom lembrar inicialmente que o nome Ofaié só começou a ser ventilado nas esferas jornalísticas a partir de 1976 com uma reportagem no Jornal O Estado de São Paulo, quando a sucursal de Marilia/SP enviou o jornalista Luiz Carlos Lopes à Brasilândia/MS, e que realizou uma importante matéria sobre esse povo em via de extinção e em situação precaríssima de sobrevivência.

A reportagem assumiu relevância em razão de que, dois anos após, os Ofaié acabaram tendo visibilidade e sendo drasticamente transferidos de sua área tradicional, levados pela Funai, para a Reserva do Kadiwéu, no município de Porto Murtinho, e que acabaram sendo usados como bucha de canhão como se noticiou na época, no epicentro de um conflito que envolvia Incra, Funai, fazendeiros, indígenas e arrendatários na Serra de Bodoquena e região. O ex-Cacique Ataíde Xehitâ-ha foi testemunha ocular deste conflito que resultou em muita violência e morte de indígenas e não indígenas.

Tempos difíceis para um tempo da abertura política que dava seus primeiros passos. Na Funai, as fileiras que a comandavam ainda eram verde-oliva e as poucas vozes que se somavam ao grito dos indígenas – como Marçal de Souza Tupã-I --, eram o Cimi, o CTI, a Opan, Cedi, CPT, GTME, entre outras entidades não governamentais e confessionais que ousavam desafiar o regime para solidarizar-se com a causa indígena.

Os Ofaié, povo minoritário – em Bodoquena viviam 27 pessoas –, foram praticamente redescobertos em 1981 pelo indigenista Prof. Antônio Jacob Brand, falecido em 2012, que reuniu, ao lado dos missionários Ivo Schoroeder, Rogério, Carlito, Orlando, Hilário, Veronice, Nereu, Maucir, Pe. Odilo, Jorge, D. Teodardo, e outros que trabalhavam no Regional do Cimi em Dourados/MS, a documentação para o soerguimento Ofaié.

Registre-se aqui a captação da voz no lamento Ofaié gravado por Antônio Brand, em 1981, ao lado da indígena Ozena Ofaié, sentada no chão, rodeada de crianças da diminuta aldeia, lá no Vazantão.


Naquela região do Tarumã, fundões da Morraria do Sul, pantanal adentro, o indigenista recolheu uma raridade, que se configurou chamar de O último canto dos Ofaié. Estava lançada e eternizada no espaço impresso e virtual a voz desse povo heroico esquecido da história.

Logo deixam de ser confundido com os Xavante. Isso porque a literatura e os apontamentos dos primeiros viajantes estrangeiros chamavam a todos os habitantes das savanas de shavantes. Passam então a serem ouvidos e respeitados como Povo Ofaié ou Äfäyé, como grafam os linguistas. 

Foi, sem dúvida, na contemporaneidade, que a ação missionária e acadêmica deram visibilidade à história e ao grito de liberdade desse povo.

Não fossem as campanhas nacionais e internacionais realizadas, com mais de cinco mil assinaturas de entidades e pessoas engajadas em favor da luta intitulada Ofaié, ainda estamos vivos, a história desse povo teria sido diferente.

Não fosse a corajosa participação dos alunos da Escola Estadual Adilson Alves da Silva, com a Profª Márcia Nakamura, em Brasilândia/MS, até o Alto Comissariado das Nações Unidas e da Human Right que solidarizaram-se com a causa dos Ofaié a partir de 1989, não saberíamos dizer a que as frentes agropastoris que tomaram de assalto o MS teriam reduzido esse povo.

Move-se a roda do tempo e novos reforços, novos agentes sociais e políticas públicas; novos atores e metodologias, pesquisas e lutas reivindicatórias, cada vez mais especializadas, mais exigentes e críticas, fazendo a sua parte, como um corretivo à história.
 

E lá estão eles, agora, indefectíveis, invadindo a academia com suas lanças e jacá, na trilha de monografias, dissertações de mestrado e teses de doutorado. Perambulam pelos estandes da economia, dando seu nome à monumentos, carimbos oficiais e à postos fiscais da receita; na ciência agronômica chegam a imortalizar espécies de cultivares de trigo, ora veja!

Cruzam a linha do horizonte da linguística e da semântica que os manteve presos durante séculos no domínio somente do saber de especialistas. O nome Ofaié com o apoio de parceiros, ingressa nos livros de história, desde a universidade até a cartilha da escola municipal local, não sem alguma resistência.

Há poucos anos, uma coleção que pretendia falar dos indígenas do Estado de MS, deixou de fora os Ofaié.  O próprio IHGMS ao republicar suas obras (que não dispunham de ISBN) olvidou de incluir o livro Ofaié, morte de vida de um povo, que patrocinou em 1996. Enfim, um longo caminho de tolerância acadêmica ainda precisava ser trilhado.

Mas os Ofaié da aldeia Anodi, do município de Brasilândia/MS venceram. E estão aí, com viva voz, para falar de sua história e seus sonhos e conquistas vividos nos dias atuais. A inclusão de seu nome no Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, edição de 100 anos, sim foi um marco a ser festejado.  Ainda que tardio. Mas quanto à autoria do verbete, a história é semelhante a uma outra vivida por este escrevinhador há mais tempo.

Quando fui convidado pelo Cedi, hoje Isa, para escrever sobre os Ofaié, foi algo pioneiro. Os anos 1990 estavam apenas começando e o saber indígena só vinha à lume pelas mãos de uns poucos especialistas.

Hoje, esse saber, assim como todo o cabedal do Aurelião, como era conhecido, está sendo construído por muitas mãos, também indígenas; saberes que na maioria das vezes não aparecem nos créditos das obras. Mas quem liga, se o mérito está no conteúdo e não na forma? Ainda assim, urge devolver-lhes o protagonismo.  

De modo especial para quem pouco observa. Afinal, quem liga, se o olhar de uma das filhas de Knii está cabisbaixo, enquanto seu corpo descansa, sentada num barranco, sob a poeira da estrada – Rodovia MS 040, a 12 km da cidade? Quem liga, se ela ainda aguarda o ônibus, que só depois de passar pelas fazendas da região, a levará para a escola e a biblioteca que quiçá guarda tão pouco da memória de sua gente?

 

Fonte: DUTRA, C. A. S. Ofaié, morte e vida de um povo. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 1996. p. 25-70, 141-144; Diário MS, Dourados-MS, 24.nov.2003; A Tribuna, Campo Grande/MS, 23. Nov.2003, e Jornal da Cidade, Brasilândia-MS, 21. Mar.2003; DUTRA, C.A.S. Uma flecha no coração de Hans Kelsen. Brasilândia-MS: Edição do Autor/Clube de Autores, 2009, p. 10-12; Idem. O território Ofaié pelos caminhos da história. 2Ed. Campo Grande: Editora UFMS, 2017, p. 399.

Publicado originalmente em 22 de julho de 2018.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

 

Os Ofaié e o “Paraíso” em construção

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 Ofaié na Serra da Bodoquena/MS (Foto: Dutra, 1986)

Para uma instituição crescer e ser reconhecida, seja ela pública ou privada, é preciso muito esforço e empenho de seus dirigentes. O olhar ad intra, ou seja, de quem está dentro, nem sempre coincide com o olhar ad extra, ou seja, o olhar de quem vê a realidade de fora.

Não obstante, a formação, os interesses e as perspectivas de vida, às vezes, comprometem também o olhar de quem está inserido numa realidade comum. Mais exigente para uns, imediatistas; mais flexíveis para outros, programáticos.

A recente matéria publicada pela jornalista Lúcia Morel, do Jornal Campo Grande News, sob o título: Com pequenas populações, Guatós e Ofaiés vivem ‘Paraíso’ dos indígenas em MS, pode ser mote para ilustrar a nossa reflexão.

A ideia de Paraíso, de imediato, pode assustar o leitor e levá-lo a entender que tudo está às mil maravilhas com os povos indígenas Ofaié e Guató da reportagem. Também pode contrariar, igualmente, o olhar de algumas das 33 famílias que vivem no interior da Aldeia Anodi, em Brasilândia.

Porém, já no subtítulo da matéria o periódico ressalva que aquilo que chamou de Paraíso, era, não menos que consequência de uma luta: essa realidade só é possível porque comunidades são organizadas e não param de buscar apoio. Denuncia, também, pelo contraste, a precariedade em que vivem maior parte das populações indígenas do Brasil.

Os Ofaié (e não Ofaiés, como o periódico grafa), aparentemente estariam fora do círculo de miséria e violência que acomete outros povos de Mato Grosso do Sul, segunda maior população indígena do país. Ao destacar a situação confortável em que se encontram, pela obtenção de recursos úteis à sua subsistência, a etnia de Brasilândia, e os patrícios Guató, de Corumbá, o jornal observa que tudo foi conquistado por povos que já sofreram bastante para estar onde estão.

No caso dos Ofaié, são mais de 50 anos de luta e 30 anos de espera pela demarcação de suas terras tradicionais, quando foram jogados de um lado para outro, sendo aos poucos dizimados e dados como extintos, pelo próprio órgão oficial, desde 1978.

Não obstante, em hipótese alguma o olhar otimista manifestado por algum membro desta comunidade indígena, ressaltando ganhos e conquistas, pode ser entendido como demérito para a beligerância daqueles que historicamente deram a vida para o soerguimento desse povo.

Assim como as novas gerações Ofaié que se sucederam, desde Zé Tá, Tomé Xião, Alfredo Cuembe, Ataide Xehitâ-ha, José Koi, Rosalina Martins, até o atual cacique Ofaié, Marcelo da Silva Lins, esta comunidade sempre permaneceu em alerta, reivindicando direitos e melhorias para o seu povo, tendo a Imprensa como aliada.

As vitórias conquistadas por este povo que viveu meio século no sofrimento e desterro, sim, merecem ser comemoradas. É este olhar que as palavras do professor Silvano de Moraes de Souza, da Escola Municipal Ofaié E-Iniecheki, revelam. Escola que hoje, acaba de conquistar a sua estadualização.

Ao lado do progresso obtido no campo da Educação, não descuida o professor de também denunciar os problemas sociais de sua comunidade: a demarcação efetiva e a homologação de suas terras, identificadas em 1992, ainda não aconteceram (...).

Neste ponto sua fala pedagógica se aproxima das reivindicações do atuante cacique Ofaié, pois a comunidade -- continua o professor --, ainda aguarda a colocação dos marcos físicos pela Funai (hoje, Fundação Nacional dos Povos Indígenas), que é a última etapa da demarcação antes da homologação pelo presidente da República.

Sobre a questão fundiária, o cacique Ofaié, Marcelo da Silva Lins, completa informando através de publicação no Facebook, que o processo está suspenso, ainda precisa terminar o processo de demarcação e em seguida fazer levantamento de benfeitorias para pagamento aos proprietários e depois ir pra homologação.

Depois de tantos anos de luta e percalsos, para além de olhares e perspectivas que divirjam, todos haverão de concordar que esta etnia se encontra cada vez mais fortalecida. 

É hora, portanto, da comunidade Ofaié novamente se unir em torno de suas lideranças para envidar esforços e buscar solução para seus problemas, entre eles, a ampliação da rede de internet na aldeia que precisa ser otimizada e a construção de novas moradias pois há um défice habitacional gritante na Aldeia Anodi, entre outras carências.

Sim, o Paraíso pode ser uma miragem, um lugar distante, inatingível para uns; ou uma utopia, um lugar palpável, possível de ser construído e alcançado. Para tanto, ainda assim, como escreveu o poeta amazonense Thiago de Melo: é preciso avançar de mão dada com quem vai no mesmo rumo, mesmo que distante ainda esteja de aprender a conjugar o verbo amar. Toda força ao Povo Ofaié!

 

Brasilândia/MS, 13 de fevereiro de 2023.

 

Fonte: https://www.campograndenews.com.br/buscar?q=ofai%C3%A9


domingo, 12 de fevereiro de 2023

 Benê Soares e os homens do Rádio

Carlos Alberto dos Santos Dutra



Os profissionais do rádio sempre foram personagens da história de algum de nós, e carregam, sobretudo na lembrança dos mais antigos, através dos veículos de comunicação, informação e lazer. 

Hoje os tempos são outros. Vive-se sob o império das redes sociais, mídias digitais e rádios cada vez mais virtuais. Mas elas, as rádios, sobreviveram, revitalizando-se e ressignificando seus instrumentos e alcance. 

Comunicativos e joviais, na maioria das vezes, os radialistas tem a capacidade de tornar nossos dias alegres pelas manhãs, nostálgicos os cair da tarde e, quando não, melancólicos nos fins de noite. 

No decorrer dos anos, durante o dia, desde o possante rádio de mesa, antigo, ao minúsculo radinho de pilha, moderno, tudo era motivo para transformar a vida de donas de casa, trabalhadores em oficinas, vendedores de lojas, motoristas ao volante; tudo fazendo para ecoar pelas ruas da cidade e pelos campos, o entretenimento diário e necessário à sobrevivência cultural de uma população. 

Por aqui, desde 1997, Marcos Eduardo Brasil e Paulo Sérgio Brasil (Rádio Cidade e Rádio Brasil) bem sabem a importância que esses veículos de comunicação exerceram nestas terras Ofaié. Razão para lembrar cada um dos profissionais do rádio que por aqui passaram e ainda resistem, adaptando-se à modernidade algorítmica dos tempos atuais. 

Entre os profissionais que se destacaram no período do surgimento dessas rádios em Brasilândia, além do locutor Nilson de Oliveira, popular Ninja (Rádio Xereta), muitos desses profissionais foram homenageados pelo trabalho que realizaram. 

Entre eles, o locutor Cícero Pereira dos Santos, popular Ceará Santos. Este radialista chegou a receber, no dia 2 de agosto de 1999, uma Moção de Apoio e Agradecimento do vereador Carlos Amorim de Assis em razão de seu inestimável apoio à uma campanha contra o consumo de drogas feito diariamente em seus programas de rádio. 

E lá estava o Ceará Santos com toda a sua alegria e trejeitos anunciando a sua Manhã Sertaneja, ao lado do Abraço da Madrugada, do Marcos Brasil, que despertava a todos para o trabalho ao som do rádio. 

Também o Informativo apresentado por Oliveira Júnior, sendo que algumas vezes fez uma palhinha  o ex-gerente do Banco do Brasil, Oldemar Ottobeli, no uso dos microfones da Rádio FM Cidade. 

Olhando mais adiante, como não lembrar lá pelos anos 1998, do locutor do Distrito Debrasa, Vanderley Fialho, alcunhado de Ceará, também homenageado pela Imprensa na época como o Homem do Rádio, quando fazia o programa Chegou a sua vez, que ia ao ar à noite na FM de Presidente Venceslau, e que era muito ouvido na região. 

Como não lembrar também de outro locutor que deixou marcas nos microfones por aqui, nos anos seguintes: o locutor e radialista Edmar Fernandes. Entre os programas que mais obtiveram sucesso dirigidos por ele foi o Tarde Sertaneja, que ia ao ar de segunda a sábado das 15 horas e tornava a tarde mais gostosa ouvindo a melhor música sertaneja da cidade.  

No ano de 2001, durante a premiação dos Destaques do Século XX, o radialista Edmar Fernandes chegou a receber o prêmio de Melhor Locutor Radiofônico, e seu colega, Edson Fernandes Spindola, popular Passarinho, foi eleito o Locutor mais Popular, ambos sendo agraciados com uma comenda entregue em cerimônia oficial pela Câmara Municipal de Brasilândia. 

Também o locutor Emerson Nascimento, dono de grande carisma à frente do rádio que, no ano de 2004 recebeu homenagens na Imprensa local dizendo que ele desfrutava de grande popularidade na cidade devido seu trabalho na emissora, causando orgulho pelo trabalho do radialista, um menino que cresceu sem conhecer os pais, conviveu com as tias, tios, avós e irmão, sendo que na maior parte foi educado pelo mundo, lembrou emocionado o jovem na época. 

No campo da cultura Emerson Nascimento também se destacou a produção de belos textos lidos no seu programa que era o carro chefe da sua audiência. 

Entre outros nomes mais antigos como Euriane Brasil Serginho Gomes, também deixaram sua marca nos microfones da emissora Rádio FM Cidade de Brasilândia: José Rita Gonçalves, popular Zé Rita (1958-2012) entusiasta liderança comunitária, poeta do sorriso e comunicador impar do Rádio de Brasilândia. 

E mais recentemente, Benedito Soares, popular Benê Soares. 

Sobre este brilhante radialista, em que pese a importância recente de seu trabalho na difusão de suas mensagens pelas ondas do rádio, ele quase nunca apareceu na Imprensa escrita, mas estava lá, sempre presente nas madrugadas com seu programa sertanejo. 

Benê Soares, dono de uma voz vibrante e inconfundível, de forma simples e comunicativa é um verdadeiro profissional do rádio, que através da emissora FM Cidade, até bem poucos dias atrás ajudava os brasilandenses a despertar todas as manhãs. 

Na data em que este texto foi escrito Benê Soares se encontrava em tratamento médico buscando cura para uma grave enfermidade, razão pela qual dedicávamos a ele e a seus familiares uma homenagem de esperança e fé. Infelizmente no dia 5 de janeiro de 2024 ele veio a falecer. 

Tudo na expectativa de que as energias positivas que o envolveram pelas ondas do rádio e microfone que sempre amou, lhe devolvessem as forças e lhe revigorasse o espírito para seu restabelecimento. 

Ah, como bom seria se as madrugadas de nossa cidade voltassem a acordar ao som de sua voz, sempre alegre e estimulante para o dia a dia de todos nós, que sempre reinicia por aqui ou além mais. 

Um abraço repleto de carinho e respeito a você Benê Soares, são os votos de saúde e saudade de todos os profissionais do rádio e amigos desta comunidade.

 

Publicado originalmente em 12 de fevereiro de 2023.

Foto: https://www.facebook.com/afjgii7bene 

Fonte: A história completa sobre os profissionais do rádio de Brasilândia/MS o leitor encontra em DUTRA. C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. 4- Desenvolvimento, pág. 87-90. Ou adquirido na versão impressa emhttps://clubedeautores.com.br/livro/historia-e-memoria-de-brasilandia-ms-volume-iv-desenvolvimento