segunda-feira, 25 de março de 2024

 

Quaresma é tempo de prestar atenção
Carlos Alberto dos Santos Dutra



Um texto divulgado pela Santa Sé ainda no ano de 2012, no tempo do saudoso Papa Bento XVI, refletia sobre o acontecimento chamado Quaresma. Em que pese esta seja uma data no calendário cristão que a sociedade nem sabe direito o que é e como ele é construído (mas sabe muito bem aproveitar o feriado que o antecede e prepará-la para o consumo da Páscoa), urge, por derradeiro, ainda refletir-se um pouco mais sobre este tema.

O texto assinado pelo então Benedictus XVI reflete sobre uma passagem bíblica pouco explorada por nós católicos. “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (Heb 10, 24). Pois é com essa preocupação que, nesta última semana da Quaresma, às vésperas da Páscoa, proponho discorrermos sobre o que o Papa chamou de "o cerne da vida cristã: o amor".

--Mas como falar de amor num mundo tão cheio de ódio e violência gratuita, mundo onde todos caminham de pedras nas mãos e correm o risco de ser assaltados e mortos a cada instante em cada esquina?

O sumo pontífice parece não se importar com o grito do cidadão e segue sua homilia dizendo que esse tempo de Quaresma "é propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal".

Mas ele, o Papa, se importa mais do que pensamos. Ele ouve o grito do povo lá fora, e vê com óculos de alcance, muito além de nós: a mãe famélica e doente no mais fundo da África, a criança órfã e mutilada na guerra interminável do Oriente, a criança e o jovem usado e abusado, consumido e corrompido pela droga e rio de sangue provocado pela disputa e combate a esse estado de coisas. Ele ouve, curva-se sobre si, e chora.

Mas encontra forças, também para orar. Recorre neste tempo de penitencia e oração, apresentando-nos a bela Carta aos Hebreus: “Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras” (10, 24). "Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade".

Neste artigo falaremos rapidamente da primeira parte do versículo 24, onde está escrito: “Prestemos atenção”. A expressão nos quer falar da responsabilidade que devemos ter com o próximo, com o irmão.

A exegese nos mostra que o primeiro elemento é o 'convite' (prestar atenção). "O verbo grego usado, explica o texto, é 'katanoein', que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a 'observar' as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e, todavia, são objeto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a 'dar-se conta' da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Este verbo no dia de hoje nos convida a fixar o olhar no outro (...) e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos".

Isso porque vivemos um mundo cada vez mais preocupado com o que é excêntrico e extravagante, mais preocupado com o silicone que nos torna belos e o celular que nos conecta ao mundo, pouco importando o sofrimento que passa a nossa volta. Não falo dos problemas sociais, políticos ou econômicos que nos consomem e nos diminuem a cada ano, falo do que diz respeito à condição humana, da falta de solidariedade e de fraternidade.

Diz o texto ministerial que, "com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela 'esfera privada'. Por isso neste tempo da Quaresma ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o 'guarda' dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem".

O que nos moveu nestes 40 dias e 40 noites de oração, jejum e penitência, sem dúvida, deve ter sido a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento que podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: “O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende” (Prov 29, 7). "O fato de 'prestar atenção' ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual". E aqui, recorda o Papa, um aspecto da vida cristã bastante esquecido: "a correção fraterna, tendo em vista a salvação eterna".

Serve-nos de alento as palavras da Sagrada Escritura: “Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber” (Prov 9, 8-9). "O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado neste caso para exprimir a correção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11)".

A Quaresma nos faz lembrar também a tradição das obras espirituais de misericórdia da Igreja, entre elas, a de “corrigir os que erram”. É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. "Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui --confessa o Papa--, na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem".

Diz o apóstolo Paulo: 'Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado' (Gl 6, 1). "Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade".

Um mundo renovado exige dos cristãos, por conseguinte, um renovado testemunho de amor e comprometimento com o Outro. Oxalá este apelo de conversão ressoe forte junto a todos na celebração da Páscoa, razão de ser da Quaresma que vivemos.

 

Fonte: Publicado originalmente em 22.Fev.2012 In http://treslagoasja.com.br/?act=col&id=12022220124530;
Jornal da Cidade, Brasilândia-MS, 22.Fev.2012, p. 2
Jornal Folha da Costa Leste, Anaurilândia-MS, 03.Mar.2012, p. 2. Também em DUTRA, C.A.S. Se me deixam falar, Brasilândia, 2013, pág. 43



 

quinta-feira, 21 de março de 2024

 

Hélio Katsumi Kobayashi: o médico dos simples vive


 

O dia amanheceu sombrio naquela manhã. Parece que foi ontem mas já se passou um lustro. Na terra do sol nascente era dia do equinócio da primavera. E aqui em Brasilândia uma fina neblina parecia deitar lágrimas caindo do céu. Logo cedo o rufar de asas celestes anunciavam o passamento do senhor Hélio Katsumi Kobayashi, antigo farmacêutico e respeitado cidadão brasilandense que aqui vivia.

Corria os primeiros dias dos anos 1990 e a família Kobayashi adquiria a Farmácia Galeno que em pouco tempo se tornou referência no aviamento de receitas e atendimento à saúde desta cidade que os acolheu e ele fez por merecer. 

Homem culto e de sabedoria singular, quase um médico, mostrava-se sempre prestativo em informar e recomendar o melhor remédio para as doenças do corpo e da alma, num diálogo simples e ao mesmo tempo profundo, porque cheios de vida e conhecimento, e por isso era respeitado e admirado por todos.

O olhar humano por cima dos óculos, do outro lado do balcão de sua farmácia, parecia sempre transmitir muito mais vida e saúde que o remédio que tinha em mãos no atendimento a quem lhe procurava para aviar uma receita.

E lá estava o engajado cidadão, na sua vida reservada, transcendendo a barreira dos interesses meramente econômicos, de forma altruísta e voluntária, dedicando-se à filantropia na direção do Rotary Club, nos áureos tempos da entidade.

A partir de 1997, na condição de exemplar rotariano ocupou diversos cargos chegando à presidente da entidade, imprimindo àquela saudosa instituição a força e o brilhantismo das ações que caracterizaram o dinamismo do trabalho benemérito prestado no auxílio aos mais necessitados e na promoção humana e profissional.

Sem dúvida um talento que deixa saudade. Uma gota de orvalho que o tempo consome e com certeza pousa sobre as pétalas de flores e jardins aos quais contemplava nos últimos anos quando o Alzheimer e o Parkinson o alcançaram, passo a passo em suas caminhadas pelas ruas e estradas da cidade.

Dona AntôniaMichelleMildred, familiares e amigos que o conheceram sentem sua partida. E prestam póstuma homenagem a esse cidadão brasilandense que trouxe luz e saúde para muitos. Luzes que acompanham seus passos, largos e seguros, pelas trilhas da verdadeira Vida, ao encontro da Paz.

Nascido em Marília-SP no dia 8 de abril de 1938, despediu-se de nós no dia 21 de março de 2019, poucos dias antes de completar 81 anos de idade. Saudade, Dr. Hélio, nosso médico, nosso irmão. 


Publicado originalmente em  https://www.institutocisalpina.org/helio_kobayashi_vive.html, em 21.Mar.2021. Disponível em DUTRA, C.A.S. Quando eu me chamar saudade. Vol. 1. 2021, pág. 149 - Quando eu me chamar saudade, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores 


segunda-feira, 18 de março de 2024

 

A “síndrome de Caim” no Brasil

Artigo do Padre Francisco Aquino Júnior


A Campanha da Fraternidade 2024, recordando com Jesus que somos todos irmãos e irmãos, fala de “fraternidade e amizade social”. E faz isso no contexto de uma sociedade profundamente dividida, desigual e excludente.

É verdade que sempre houve divisões e inimizades entre pessoas, famílias e grupos, especialmente em períodos eleitorais. Mas isso alcançou nos últimos anos, com o crescimento da extrema direita e o uso das tecnologias digitais, dimensões e proporções assustadoras. 

A criação do “gabinete do ódio”, a constituição de verdadeiras “milícias digitais” e a propagação de “movimentos digitais de ódio e destruição” criou um ambiente de intolerância, ódio, agressão, fake news e violência generalizados, onde os adversários e até os diferentes são transformados em inimigos a serem odiados e eliminados a todo preço. 

Isso gerou inimizade entre adversários, nas famílias, entre amigos e nas igrejas.  Disseminou a prática imoral do “tudo vale” e “tudo pode” contra o adversário/inimigo: difamação, mentira, agressão verbal e até física. Despertou e aguçou a intolerância e o desejo de eliminação do diferente/adversário/inimigo: seja uma “eliminação virtual” (cancelamento), seja uma “eliminação real” (homicídio). O Texto-Base da Campanha da Fraternidade chega a falar de uma “cultura do cancelamento”.

Mas a consideração do ambiente de polarização, intransigência, ódio e violência não pode ofuscar nem relativizar a marca mais fundamental e trágica de nossa sociedade que é desigualdade social. 

Primeiro, porque a desigualdade social no Brasil, não só não diminuiu, mas continua crescendo: um estudo apresentado no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), revela que 1% da população concentra 60% da riqueza nacional; 4 dos 5 homens mais ricos do Brasil tiveram um aumento de 51% de sua riqueza em 2020 (em plena pandemia!), enquanto 129 milhões de brasileiros ficaram mais pobres; a pessoa mais rica tem uma fortuna equivalente a 107 milhões de brasileiros. 

Segundo, porque a polarização do Brasil, em grande medida, foi provocada e/ou instrumentalizada pela extrema direita em função de um projeto político voltado para os interesses dos grandes grupos econômicos. 

Não por acaso o discurso “deus-pátria-família” sempre esteve associado ao desmonte de políticas públicas e direitos trabalhistas, a aversão a direitos humanos e políticas ambientais, ao ódio a tudo que tem a ver com justiça socioambiental e à defesa intransigente do “teto de gastos” para políticas sociais (para pagamento de juros não há teto de gastos nem responsabilidade fiscal!).

Essa desigualdade social chega ao extremo nos setores mais vulneráveis, produzindo verdadeira exclusão social. Segundo o IBGE, 67,8 milhões de pessoas vivem em situação de pobreza (com até 637 reais por mês) e 12,7 milhões de pessoas vivem em situação de extrema pobreza (com até 200 reais por mês). 

Particularmente dramática é a condição da População em Situação de Rua que “supera 281,4 mil pessoas no Brasil”. Sem falar da situação da população carcerária que chega a 839.672 (dados de junho de 2023), formada em sua imensa maioria por jovens pobres e pretos das periferias. E aqui se conjugam pobreza/miséria, racismo, preconceitos, discriminação…

Procurando compreender o ambiente cultural em que se produz e se reproduz uma sociedade dividida, desigual e excludente como a nossa e perguntando sobre o “motivo pelo qual estamos vivenciando um tempo em que a vida, as pessoas e as relações humanas experimentam tanta agressão, tantas ameaças”, o Texto-Base da Campanha da Fraternidade fala de uma espécie de “síndrome de Caim”, na qual, “não só não nos sentimos mais responsáveis uns pelos outros como também, ainda que não expressemos desse modo, desejamos que as pessoas que pensam diferentemente de nós desapareçam, isto é, sejam na prática exterminadas”.

De fato, “chegamos a uma época em que a não fraternidade, ou seja, a inimizade social se tornou o critério determinante para boa parcela de pessoas, de grupos e da sociedade”. E é isso que justifica e exige uma Campanha da Fraternidade que convoque, mobilize e promova a “fraternidade e amizade social” em todos os âmbitos da sociedade. Essa “pandemia sociocultural” (divisão, desigualdade, exclusão) “clama por transformação e conversão à luz da fraternidade nascida do Evangelho”.

Reconciliai-vos com Deus. É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação. 2Cor 5,20; 6,2

Fonte: A “síndrome de Caim” no Brasil | Artigo de Pe. Francisco Aquino Júnior – Blog das Comunidades (wordpress.com);  Colaborou: Portal das CEBs

Imagem: Síndrome de Caim - SSVP | CMBH (ssvpcmbh.org.br)

 

 

sexta-feira, 15 de março de 2024

Nós Não Precisamos de Outro Herói (Cúpula do Trovão)

We Don't Need Another Hero (Thunderdome)

Tina Turner


 

Saímos das ruínas
Out of the ruins


Saímos dos destroços
Out from the wreckage


Não podemos cometer o mesmo erro desta vez
Can't make the same mistake this time


Nós somos as crianças
We are the children


A última geração
The last Generation


Nós somos aqueles que eles deixaram para trás
We are the ones they left behind

 

E eu me pergunto quando
And I wonder When


Nós vamos mudar
We are ever gonna change


Vivendo sob o medo
Living under the fear


Até que não reste nada mais
Till nothing else remains

 

Nós não precisamos de outro herói
We don't need another hero


Nós não precisamos saber o caminho de casa
We don't need to know the way home


Tudo o que queremos é uma vida além
All we want is life beyond


Da Cúpula do Trovão
The Thunderdome

 

Procurando por algo
Looking for something


Em que possamos confiar
We can rely on


Deve haver algo melhor lá fora
There's got to be something better out there


Amor e compaixão
Love and compassion


Seus dias estão chegando
Their day is coming


Todo o resto são castelos construídos no ar
All else are castles built in the air

 

E eu me pergunto quando
And I wonder When


Nós vamos mudar
We are ever gonna change


Vivendo sob o medo
Living under the fear


Até que não reste nada mais
Till nothing else remains

 

Todas as crianças dizem que
All the children say


Nós não precisamos de outro herói
We don't need another hero

Nós não precisamos saber o caminho de casa
We don't need to know the way home

Tudo o que queremos é uma vida além
All we want is life beyond


Da Cúpula do Trovão
The Thunderdome

 

O que nós fazemos com as nossas vidas?
What do we do with our lives?


Nós deixamos apenas uma marca
We leave only a mark


Será que nossa história brilhará como uma luz
Will our story shine like a light


Ou acabará na escuridão?
Or end in the dark?

 

Dê tudo de si ou nada
Give it all or nothing

 

Nós não precisamos de outro herói, herói
We don't need another hero, hero


Nós não precisamos saber o caminho de casa
We don't need to know the way home


Tudo o que queremos é uma vida além
All we want is life beyond


Da Cúpula do Trovão
The Thunderdome

 

Todas as crianças dizem que
All the children say


Nós não precisamos de outro herói
We don't need another hero


Nós não precisamos saber o caminho de casa
We don't need to know the way home


Tudo o que queremos é uma vida além
All we want is life beyond


Da Cúpula do Trovão
The Thunderdome

 

Fonte: PARADISE IS HERE (TRADUÇÃO) - Tina Turner - LETRAS.MUS.BR; Significado da música PARADISE IS HERE (Tina Turner) - LETRAS.MUS.BR

 


quinta-feira, 14 de março de 2024

segunda-feira, 11 de março de 2024

 

O Povo Ofaié e o dia do retorno ao lar

Carlos Alberto dos Santos Dutra







Corria o dia 11 de março de 1996 e aquelas pessoas, muito cedo, já amontoavam suas tralhas e pertences, postando-se na beira da estrada a espera do caminhão. Um a um iam chegando, carregando nos ombros os sonhos e o resto de suas vidas.

Eram latas de óleo transformadas em copos, panelas encarvoadas pela ação do fogo de chão, roupas surradas fruto da caridade alheia, alguns arcos e colares de contas silvestres, e almas feridas de tanto tempo de exílio e espera de um raio de luz que lhes apontasse à dignidade pela fresta do barraco de sapé.

Mas seus rostos tímidos sorriam numa alegria contagiante e encabulada, como que se desculpando pelo cadinho de felicidade que experimentavam naquele dia histórico de suas vidas. Afinal, foram 10 anos de luta e espera para que pudessem voltar a pisar o solo de seus antepassados.

Depois de tantas andanças, desde Bodoquena, para onde foram transferidos pela Funai em 1978, ao retornarem em 1986, experimentaram verdadeira via crucis como peões em fazendas – São Paulo, Almeida, Pirajuí, Três Morrinhos, Santa Cecília --, até a barranca do rio e Cisalpina de onde ecoou grito Ofaié: Aganíe! Quando foram ouvidos e seus direitos por fim garantidos: estavam a um passo de realizá-lo nas proximidades do córrego Sete, o berço Ofaié, ali, onde tudo começou.

A data da transferência da comunidade Ofaié desde a barranca do Rio Paraná para a Aldeia Anodhi encravada nos 484 hectares adquiridos pela Cesp e doados à Funai, é um marco a ser festejado. Pois foi a partir da conquista desta área contigua ao território tradicional Ofaié que a identificação e delimitação da área da Terra Indígena Ofaié Xavante, pela Funai, se concretizou.

Mais que um pedaço de terra a esses pioneiros caçadores e coletores da margem direita do Rio Paraná, a retomada a seu antigo território, permitiu aos Ofaié proclamar ao mundo sua existência e obter o reconhecimento da parte do Estado como povo, como entidade étnica, pondo por terra velhas teses antropológicas e históricas que os davam como extintos.

Hoje, a comunidade Ofaié, ao lado de seus patrícios Guarani Kaiowá e Ñhandeva, que vivem na Aldeia Anodhi, em Brasilândia/MS, experimenta um novo tempo, cuja autoestima e a confiança em si mesma foi resgatada e revitalizada. Vive novas práticas e valores cultivados pela juventude das gerações que dia após dia florescem no rumo da sustentabilidade e autodeterminação.

Novos tempos e horizontes que os colocam, hoje, mais do quer nunca como sujeitos de seu próprio destino e história. Parabéns Povo Ofaié.

Brasilândia/MS, 11 de março de 2025. Publicado originalmente em 11 de março de 2024.

Mudança de Bodoquena (Miranda) para Brasilândia


Acampamento Ofaié no Posto Fiscal Cisalpina - Balsa do Rio Paraná

Área cedida por Luigi Cantone aos Ofaié (Fazenda Cisalpina)


Mudança da Fazenda Cisalpina para a Aldeia Anodhi


Inauguração da Aldeia Anodhi doada pela Cesp

Grupo de Trabalho Identificação Terra Indígena Ofaié Xavante

Fotos: Carlito Dutra