quarta-feira, 12 de março de 2025

 

E lá vai padre Antônio Tasquetto, despassito, em sua nova missão.

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




A aurora ainda nem despontou e o amigo, padre Antônio Tasquetto, já se encontra sorvendo o mate dos madrugadores. Há pouco, encilhava o pingo para mais uma jornada que o levaria em busca de novas paisagens. Na verdade, desafios, pois tu és um homem de coragem e que aqui, por estas terras, muito plantaste, de modo que vai ser difícil remover as raízes do muito que semeou. 

Sabes gaudério, tu me faz lembrar de um outro Antônio que por essas terras -- Cacequi/RS --, também aqui chegou e se aquerenciou: padre Antônio Botton era o nome deste pastoralista igual a ti; despassito, com as palavras e as mãos, com os pés e o coração, e que foi alargando estradas de luz em meio a escuridão. 

Tua voz, padre Antônio Tasquetto, impregnou a alma de muita gente, daqui e para além das margens dos rios Ibicuí e Cacequi. Suas prédicas, mesmo à distância, pelas redes sociais, eram acompanhadas por centenas de conterrâneos desgarrados do torrão natal. Por todo o Brasil, tuas homilias soavam serenas, profundas e cheias de vida alcançando léguas. E se tornavam perenes no peito de cada cacequiense distante deixando marcas que o tempo não apaga. 

Sim, vais deixar saudade, índio velho. Saudade do seu jeito simples, direto e ao mesmo tempo cauteloso e pedagógico, deitando um verbo de sabedoria e óculos de alcance, bem ao estilo galponeiro, edificante como o sopro que alivia a dor, a dúvida e a insegurança do paisano, sempre animando o crente, cantando e acreditando na missão como um autêntico pastor.  

Sem descuidar da cultura do povo, enraizado na tradição pampeana, sempre se mostrou um taura a desfraldar a bandeira da liberdade com responsabilidade, do respeito com altivez e a honra com humildade entre os cristãos cacequienses durante todo o tempo que por aqui pastoreou. Sim, tu deixas uma marca que irá acompanhar os teus passos e teu rastro que reluz onde quer que vá. 

Ao ser transferido por ordem de Dom Leomar Antônio Brustolin, para sua nova missão, na comunidade da Paróquia Santo Antônio, na cidade da Mata, o padre Antônio Tasquetto se junta ao padroeiro daquele lugar na tarefa sublime do Evangelizar. E com certeza, levará consigo suas bombachas, suas botas e o lenço que sempre ostentou honrando essa terra de Caciques, como Sepé Tiarajú e Nicolau Languirú. 

Na garupa de seu pingo, igualmente, haverás de levar quilos de lembranças da paisagem do campo e da cidade que ficou para trás e onde fostes disciplinado e brilhante catequista. Os olhos e mãos que lhe acenam, mesmo à distância, em sua despedida da Paróquia Nossa Senhora das Vitórias, de Cacequi/RS, desejam a ti todas as bênçãos do Céu. 

Lúcido intelectual e engajado sacerdote das tradições e lutas do povo sofredor, não faltará ocasião para, quando a saudade apertar, de quando em vez, seus antigos fiéis tudo farão para ir visitá-lo na vizinha comunidade da Mata, participando de uma Missa por ti celebrada, amigo padre Antônio Tasquetto, reacendendo, assim, a chama da amizade que não morre por este cacequiense de coração. Boa sorte irmão, padre Antônio Tasquetto.

 

De Brasilândia/MS para o Cacequi/RS dos meus recuerdos, 12 de março de 2025.



terça-feira, 11 de março de 2025

 

A política dos 7 R(s), o mundo reciclável e suas cores.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




Quase todos nós já ouvimos falar em materiais recicláveis. Aqui em Brasilândia/MS, somos privilegiados pois desde o dia 20 de setembro de 2003, quando foi criada a ASSOBRAA, o assunto vem sendo veiculado junto aos nossos ouvidos, corações e mentes nos familiarizando com o tema e nos motivando a fazer a nossa parte em favor da sobrevivência do meio ambiente e a nossa própria sobrevivência também.

Aos nos aprofundarmos no tema, passamos também a descobrir que o lixo, e aqueles antigamente chamados de catadores de lixo, não se tratam mais de desvalidos da sociedade que sobrevivem dos restos da sociedade. Se em outros tempos era assim, hoje podemos dizer com certeza, trata-se de uma das fontes de renda para milhares de trabalhadores, empresários e industriais que fazem mover a máquina da reciclagem e do progresso numa infinita gama de variáveis na economia.

A coleta seletiva e a reciclagem, portanto, descobrimos que se trata de uma atividade altamente complexa e que deve ser feita de forma inteligente. Uma forma de universalizar essa preocupação e atividade comum ao mundo inteiro  foi impregnar essa diversidade de elementos no universo das cores. Convencionou-se, assim, dividir aquilo que o mundo descarta, por cores: Verde, para o vidro; Vermelho, para o plástico; Azul, para o papel, papelão; Amarelo, para o metal. 

Estes quatro elementos - vidro, plástico, papel, papelão e metal, são os mais comuns e se encontram entre os mais presentes na cestinha do lixo, fazendo parte da rotina do dia a dia de qualquer pessoa, independente da classe social. Indistintamente, hoje, em qualquer residência domiciliar ou estabelecimento comercial encontramos embalagens de alimentos, cadernos, faturas impressas, latinhas de refrigerantes ou sucos, brinquedos infantis, enfim, uma infinidade de matérias entre os quais se encontram os chamados resíduos. 

Também aqui as cores servem para que saibamos distingui-los, observando que o seu fim, com exceção dos orgânicos e da madeira, resume-se a rejeitos pois, não podem ser aproveitados. São eles: o Preto, para a madeira; o Laranja, para resíduos perigosos; o Branco, para resíduos hospitalar; o Roxo, para resíduos radiativos; o Marrom, para resíduos orgânicos; o Cinza, para os não recicláveis, contaminados, ou misturados.

Observamos acima que uma grande quantidade de materiais não será aproveitada. A pergunta que se faz, então, é: --Por que selecioná-los se não serão aproveitados? A resposta está no cuidado adequado que devemos ter com este material evitando que o mesmo venha a contaminar as pessoas, o solo e o meio ambiente. Nem todos sabem, por exemplo, que os resíduos orgânicos, quando eliminados de forma correta, podem se tornar adubos. Ainda que estes elementos devam ser descartados, se feito de forma consciente, respeitando a natureza e o meio ambiente este ato pode ser realizado de maneira sustentável.

Com sabedoria já foi dito que “nada se rejeita, tudo se aproveita”, fundada na célebre frase de Antoine-Laurent de Lavoisier “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, cunhada há mais de 200 anos e que continua mais atual do que nunca.

Corroborando com o mundo das cores neste mundo que urge ser cada vez mais reciclável, novas políticas passaram a ser implementadas em diversos países. Uma lição e proposta que rapidamente se expandiu no mundo capitalista foi o empenho militante com a adoção de medidas urgentes de mitigação, mudanças de comportamento e de contenção materializada  pela letra “R”. A chamada Política dos 3 R(s): Reduzir, Reutilizar e Reciclar. 

Dada a urgência da tomada de medidas de enfrentamento às mudanças climáticas que assombram o mundo e colocam em risco a condição humana, a Política dos 3 R(s) passou a ser a Política dos 4 R(s), acrescentando-se a palavra Recuperar, chegando-se ao quadro atual já em prática nos países altamente industrializados e, portanto, os mais poluidores, a Política dos 5 R(s) onde adicionou-se Renovar. Nos dias que nos esperam já se impõe da Política dos 7 R(s): Reduzir, Reutilizar, Reciclar, Recuperar e Renovar, Repensar e Recusar. 

Estes são os novos aspectos que emergem daqueles primeiros gestos ingênuos e altruístas de jovens idealistas que deram os primeiros passos na coleta seletiva e reciclagem de materiais, sendo embalado pela musiquinha da ASSOBRAA que se tornou hino em Brasilândia anunciando a coleta seletiva[1]. 

O ânimo dos pioneiros da coleta seletiva em Brasilândia consolida-se ao encontrar o apoio da comunidade, do poder público -- a Prefeitura Municipal de Brasilândia --, e das empresas parceiras, como a SUZANO, AH Agropecuária, entre outras, todos empenhados em assumir a gestão dos resíduos que devem ser entendidos não apenas como matérias resultantes da utilização de produtos, nomeadamente sólidos, mas resíduos com um sentido mais lato, considerando as águas residuais e até, os efluentes gasosos.

Os modelos econômicos associados à geração de produtos e valor têm evoluído no sentido de incorporar os objetivos da sustentabilidade, levando a uma concepção circular da economia, em alternativa à tradicional economia linear. Sim, a sociedade evoluiu necessária e felizmente, criando com o conhecimento e a capacidade inovadora e criativa produtos que transformam os recursos naturais em produtos que contribuem para a melhoria da qualidade de vida das populações[2]. Que saibamos acompanhá-la!

 

Brasilândia-MS, 11 de março de 2025.

38º aniversário (11/03/1987) de instalação da Comarca de Brasilândia. Gestão da Prefeita Neuza Paulino Maia.

 

Fonte: Quais são os tipos de materiais recicláveis - Natural Limp; “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, Antoine-Laurent de Lavoisier

Foto: Membros da ASSOBRAAS recebem representantes do IMASUL e CODEVALE, 28/02/2025, SEMATUR/Brasilândia-MS.

 

 

[1] - "The River Kwai March" (O Rio Kwai March, em tradução livre) é uma marcha composta por Malcolm Arnold em 1957.[1] Foi escrita como uma contramarcha orquestral à "Colonel Bogey March", tema que aparece, assobiado, no filme A Ponte do Rio Kwai.

[2] - Ver todos os Artigos de Leonor Amaral » Leonor Amaral, Diretora da Indústria e Ambiente / Professora na FCT-UNL

 

segunda-feira, 10 de março de 2025

 

A Política, o Secretariado e a Confiança.

Carlos Alberto dos Santos Dutra




Quando um cidadão ou cidadã assume um cargo público dois sentimentos básicos o acompanham: o primeiro, de gratidão, por ver coroado seus esforços no campo político que o graduou a galgar uma pasta na nova administração eleita; e o segundo, o de satisfação por encontrar uma oportunidade de contribuir, pelos seus méritos e predicados, com a comunidade onde vive. 

Aqueles que, pelos propósitos ideológicos de suas siglas concorreram a cargos para o Legislativo municipal e não se elegeram, via de regra, desfrutam da possibilidade de vir a serem chamados a compor a equipe dos novos gestores no Executivo. 

Da mesma forma militantes e simpatizantes das legendas vencedoras também se habilitam ao poder discricionário do novo governo para escolhê-los para sua governança em razão da fidelidade manifestada em campanha. 

Assim tem sido e será por motivos óbvios, por muitos e muitos anos. Tal estratégia, entretanto, se, por um lado garante a hegemonia e sustentação do grupo político vencedor que assume a gestão municipal, por outro lado, oferece e devolve à população a equipe de servidores públicos de sua preferência e que poderão colocar em prática o plano de governo construído e que semeou esperança no coração daquela comunidade, conferindo-lhe o direito de ela governar. 

Não obstante, entre os escolhidos, independente de filiação partidária, pelos méritos próprios e confiança dos novos gestores, alguns são convidados a assumir cargo de destaque com a missão, junto à nova administração, de arregimentar forças para gerir o múnus público e garantir a felicidade e o bem estar da comunidade.

São pessoas, a maioria delas, que já demonstraram, em áreas do conhecimento específica e de seu domínio, seu potencial e engajamento naquilo que fazem de melhor. Sejam oriundos de organismos não governamentais onde puderam levantar a voz e arregaçar as mangas para fazer valer o direito dos cidadãos, da natureza, da mulher e as minorias; sejam oriundos da iniciativa privada expertos em projetos a favor da produção agroindustrial, consultorias e profissionais liberais. 

Impulso e novidade em áreas como o incentivo ao esporte, o artesanato, a música e eventos que compõe a colorida colcha de retalhos que cobre a aura da beleza do muito que esta comunidade pode ainda realizar, estes rostos novos na administração municipal, revelam-se por demais prontos para realizar grandes ações em nossa comunidade. 

Impossível não reconhecer que em todas essas áreas da nova administração pública que o município de Brasilândia inaugura, em cada pasta, sempre um elemento novo foi convidado a assumir a tarefa proposta pela prefeita Márcia Regina do Amaral Schio e seu vice Fábio Toledo Leite da Silva para seus projetos nos seus quatro anos iniciais de governo. 

E lá encontramos na composição de seu secretariado, jovens e idosos senhores e senhoras cujo grau de instrução e formação, na maioria dos casos, os qualificam a prestar o serviço de excelência almejado com a maior presteza e lisura que o cargo exige. 

Entre os qualificados profissionais e novos administradores que compõem a atual administração de Brasilândia, uma recomendação aos navegantes: a comunidade pode abrir os olhos para admirar e acompanhar de perto cada um desses secretários, confirmando, assim, o quanto eles podem e devem, dentro das possibilidades econômicas da administração, dedicar ao município. 

Quanto à nova gestão que iniciou há apenas 68 dias, por meio de suas realizações já está mostrando a que veio. Uma rápida espiada nas notícias veiculadas pelas redes sociais e site oficial da Prefeitura, e lá encontramos o setor de Comunicação divulgando todos os dias um rol de eventos, contatos, reuniões, viagens e audiências, marcando presença o poder público em todas as áreas da administração. 

Iniciativas que tornam os cidadãos e as cidadãs desta cidade, muito bem informados e confiantes, desde a regularidade dos serviços até a normalidade e transparência financeira, o que é divulgado pelo Diário Oficial todos os dias. Tudo, pois, pode ser recebido pelo cidadão e cidadã de nossa cidade, com generosidade e manifestação de apreço por quem ama por demais este lugar e o quer ver cada vez melhor. Carpe diem, pois. 

Brasilândia/MS, 10 de março de 2025.

23º aniversário (10/03/2002) de fundação da ADECOPAM - Associação de Desenvolvimento Rural do Projeto Assentamento Mutum, cuja 1ª Presidente foi Elizabete Victal Caetano.

domingo, 9 de março de 2025

 

Mulheres de luta renhida brilham em Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 



Desatento, olho no rosto  de cada uma daquelas mulheres, todas produzidas e perfiladas em noite de gala e me pergunto porque elas estão sendo homenageadas naquele lugar? E logo encontro a resposta: A chamada Casa do Povo não poderia ser o melhor lugar para conferir a elas aquela merecida honraria. 

E lá estavam elas naquela noite memorável, algumas delas saindo do anonimato em que viveram a vida inteira; outras deixando mostrar o brilho e os flashes que nem sempre recaíram sobre si, e ainda aquelas onde, por suas posições pública sempre estiveram expostas ao brilho por onde passaram. 

São rostos e sorrisos, abraços e mãos que se encontram em torno de si em sinal de gratidão. E ali estavam elas que sempre tiveram presentes no círculo da vida que construíram com zelo e paciência e por vezes não notadas. Agora elas estavam sob o prisma da luz conquistando a sua fé pública pelas mãos da edilidade. 

Rostos de mulheres que, no interior de seus lares, no silêncio do dia a dia, se mantiveram ocultas nos afazeres domésticos. Rostos de mulheres que, nos órgãos públicos, administrando o erário, fizeram todo o esforço para administrarem com lisura e proatividade. 

Rostos de mulheres artistas e seu trabalho criativo no campo da pintura, da costura, das letras, da feitura de alimentos, empreendedora de seus próprios sonhos e realizações. Rostos de mulheres administradoras de  empresas e do comércio movimentando a máquina da economia local, bem como, aquelas trabalhadoras braçais cujo labor humilde e desgastante revelam o quão importância são para o cotidiano e bem estar da comunidade. 

Rosto de mulheres intelectuais, profissionais liberais, e expoentes nos cargos que ocupam, ministrando saberes nas escolas, militando em entidades e servindo suas igrejas nos altares, e tantas outras. 

Todas  essas mulheres maravilhosas e imprescindíveis encontravam-se ali, envoltas numa aura de luz, sob o título de Mulheres de Luta e dos Direitos, celebrando o Dia Internacional da Mulher. 

Sim mulheres de luta porque a iniciativa das ações que as fazem resistir e ocupar espaço tem o mérito e a glória de partir de suas próprias mãos, de suas próprias vontades, de seus rebeldes corações, neste vasto e íngreme campo de luta em busca de seus direitos. 

Sim, como escreveu o poeta maranhense Gonçalves Dias, há mais de 180 anos: “A luta é renhida: a vida é combate que os fracos abate, que os fortes, os bravos, só pode exaltar[i]

Sim, essas bravas mulheres nunca desistiram de sua condição embora, talvez, nunca lhes tenha sido dada a oportunidade de dizer isso de viva voz. Porque sabedoras da importância de seu papel sabem o quão imprescindíveis são, ainda que em silêncio. 

No lar e na sociedade, na dupla, tripla ou quádrupla jornada das atividades que desempenham como cidadã, esposa, mãe, dona de casa, conselheira, educadora, catequista, prestando apoio e incentivo ao progresso profissional do esposo, dos filhos e netos e ainda marcar presença na comunidade, no clube, na feira, na associação beneficente e no círculo bíblico de sua igreja... 

Ah, essas mulheres maravilhosas de rostos jovens, rostos senhorios e rostos cujo velo cor de neve já lhes adorna a fronte... Sim, elas mereceram estar ali e representar um outro tantos delas que se encontram em igual condição. 

Sim, vestir a melhor roupa e irradiar o perfume de todo aquele brilho para receber a comenda de reconhecimento é mais que uma homenagem que o Legislativo Municipal conferiu naquela noite. É o reconhecimento do que elas profundamente são.

Independentemente da idade e o status social que ocupam na pirâmide social e econômica que muitas vezes nos distingue, elas são o esteio e a mola propulsora do progresso e da beleza desta comunidade. Sim, nesta noite, o silencio se fez voz.

Parabéns a todas as mulheres maravilhosas de Brasilândia. Parabéns a todos esses rostos e corações, cujo espírito feminino do mundo inteiro lá esteve presente perfumando o ambiente com seu brilho e força de luta renhida que urge alcançar. 

Brasilândia/MS, 8 de março de 2025.

Dia Internacional da Mulher.



[i] - Canção do Tamoio, Gonçalves Dias, 1843.

terça-feira, 4 de março de 2025

 

Fraternidade, Meio Ambiente e Cuidado

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 

Todos os anos, desde 1964, a Campanha da Fraternidade, orientada pela CNBB[1] aborda temas intimamente ligados à vida dos brasileiros, sobretudo sua realidade social, suas condições de vida e os desafios do mundo que nos rodeia.

Assim foram, durante 61 anos, lançados no coração dos fieis e sociedade, reflexões e mensagens, admoestações e incentivo sobre os diversos temas que envolvem a condição humana. Todos os anos, por ocasião da Quaresma ainda é possível perceber pulsando dentro do peito de cada cristão uma chama de esperança conclamando, por inspiração da Palavra de Deus, a deitar os olhos e ver as belezas que Deus criou e  também os principais problemas que afligem a sociedade e tudo que ela produz e reproduz, e que merece nossa atenção.

Neste ano de 2025, o tema escolhido para a Campanha da Fraternidade não poderia ter sido diferente, por ser atual, urgente e necessário. Fraternidade e Ecologia Integral é o tema, acompanhado do lema extraído da Bíblia (Gênesis 1,31): Deus viu que tudo era muito bom. Motivação que busca, nos quarenta dias que antecedem a Páscoa, a força do Espírito divino para abrir os olhos da fé e mirar a realidade socioambiental.

Chamado que também atinge o nosso julgar nos fazendo reconhecer que cada um de nós têm responsabilidade e oportunidade de conversão, num processo que abrange homens e mulheres, governantes e governados integralmente, sensibilizando os irmãos a ouvir o grito da terra, da água e do ar; o grito dos pobres e miseráveis de todo o lugar; aqueles que são os mais sofredores e impotentes vítimas das mudanças climáticas.

A Igreja Católica no Brasil, ao lado das coirmãs que integram o CONIC[2] e demais confissões religiosas, organismos e entidades governamentais e não governamentais solidárias, em tempo recente, motivada pela Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, e o Sínodo da Amazônia, vem percorrendo este árduo caminho denunciando o modo de vida atual e os males globais que estão destruindo o planeta.

Boa oportunidade para todos refletir sobre o nosso modo de vida, no mais das vezes pautado no consumismo, precarização e exploração sem limite, o que tem gerado uma complexa crise socioambiental à beira da exaustão do recursos naturais e perspectiva zero para o futuro, uma vez que tudo está interligado.

Razão pela qual o principal objetivo do alerta da Campanha é apontar para as causas da grave crise climática global cujos efeitos estão a exigir, de forma profunda, que alteremos o nosso modo de viver. E para que não caiamos nas falsas soluções, muitas vezes fomentadas em nome de transposição energética cujas fontes renováveis e sustentáveis são vistas apenas sob a ótica mercantil.

Todo o empenho eclesial, registre-se, tem a intenção de despertar no cristão o seu agir para promover uma ecologia integral que conecta a fé cristã com responsabilidade socioambiental. Inspiração que brota das palavras d’Aquele que tudo criou e viu que tudo era muito bom (Gênesis, 1,31). 

E lá está o coração misericordioso de Deus abraçando o coração distante da humanidade, alimentando a sua espiritualidade, de muitas e diversas formas, dando-lhes força para intervir, já a partir da realidade local onde vivem, enfrentando os desafios ambientais na ótica da justiça social e o cuidado com o ser humano mais carente e necessitado de proteção, motivo e caminho para a nossa conversão.

Estamos no decênio decisivo para o planeta! Ou mudamos, convertemo-nos, ou provocaremos com nossas atitudes individuais e coletivas um colapso planetário. Já estamos experimentando seu prenúncio nas grandes catástrofes que assolam o nosso país. E não existe planeta reserva! Só temos este! E, embora ele viva sem nós, nós não vivemos sem ele.

Ainda há tempo, mas o tempo é agora! É preciso urgente conversão ecológica: passar da lógica extrativista, que contempla a terra como um reservatório sem fim de recursos, onde podemos retirar tudo aquilo que quisermos, como quisermos e quanto quisermos, para uma lógica do cuidado.

(...) A Ecologia integral é um bem espiritual. Professamos, pois, com alegria e gratidão ao nosso Deus que criou tudo com seu olhar amoroso. Todos os elementos materiais são bons, se orientados para a salvação dos seres humanos e de todas as criaturas. Assim, Deus viu que tudo era muito bom.

Que as Cinzas que serão colocadas sobre nossas cabeças nesta Quarta-feira de abertura da Campanha da Fraternidade e início deste Tempo Quaresmal seja um gesto e sinal de penitência e conversão, e nos inspire e recorde os nossos corações e mentes do quão frágil é o ser humano pois do pó viemos e ao pó voltaremos (Gênesis 3:19).

 

Brasilândia/MS, 04 de março de 2025. 

Véspera de Quarta-feira de Cinzas. Em memória dos 800 anos da composição do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis.

 

Fonte: Texto Base da Campanha da Fraternidade 2025, CNBB; Campanha da Fraternidade 2025: conheça o tema, a identidade visual e a oração - CNBBCampanha da Fraternidade 2025 - ANECTerritório e energia: crítica da transição energética | Revista da ANPEGE

 



[1] -A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é uma instituição permanente que reúne os Bispos católicos do Brasil que, conforme o Código de Direito Canônico "exercem conjuntamente certas funções pastorais em favor dos fiéis do seu território, a fim de promover o maior bem que a Igreja proporciona aos homens, principalmente em formas e modalidades de apostolado devidamente adaptadas às circunstâncias de tempo e lugar, de acordo com o direito" (Cân. 447).

[2] - O Conselho Nacional de Igrejas Cristã do Brasil (CONIC) é composto pela Aliança de Batistas do Brasil, Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e Igreja Presbiteriana Unida, o CONIC nasceu no ano de 1982, em Porto Alegre (RS).



domingo, 2 de março de 2025

 

O meio ambiente de Brasilândia e seus desafios

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Falar em meio ambiente, dependendo dos lábios de onde brotam as palavras, pode soar inocente, romântico, politicamente correto ou a partir de quem, consciente, está preocupado com a preservação do ecossistema e a sobrevivência da espécie humana.

Governos do mundo inteiro têm realizado reuniões e encontros globais para minimizar os chamados efeitos climáticos que, de forma perene e célere, têm colocado o planeta em regime de alerta exigindo avanços urgentes em suas legislações e governanças.

No Brasil isso não seria diferente, afinal, abrigamos o pulmão do mundo, vociferam anjos imperialistas de todos os lados exigindo de nós medidas que protejam esse legado da humanidade, reservando-o para uso e gozo das gerações futuras sobreviventes, buscando frear o inexorável desenvolvimento extrativista e predador dos recursos naturais sem qualquer medida.

Diante de descomunal desafio, eis que, num minúsculo ponto no mapa mundi, entre a latitude de 21º15'21” Sul e longitude de 52°02'13” Oeste, uma administração pública desperta dos braços do passado ambiental de Morfeu, e dá ouvidos para os reclames de sua gente que há anos gritava insurgente contra o descaso oficial para com sua casa comum, a natureza.

A iniciativa pioneira desta nova administração municipal de Brasilândia/MS, que tem à frente a prefeita municipal Márcia Regina do Amaral Schio e o vice-prefeito Fábio Toledo Leite da Silva, com a criação de uma Secretaria dedicada ao Meio Ambiente e ao Turismo, revela de antemão, o quanto de carinho, respeito e cuidado haverá ela e seu secretariado de ter com a paisagem que circunda nossa casa, nossos campos e a cidade; ainda que tardiamente.

Um grande desafio, entretanto, deverá ser enfrentado com a implantação desta nova instância de governança: as exigências climáticas que estão na ordem do dia e reclamam ações urgentes de mitigação e que nos impele a desenvolver ações e projetos sempre novos de proteção e bem estar ambiental para os munícipes.

Ações já delineadas no plano de governo da nova administração, que vão desde a qualidade e preservação do curso das águas de nossos rios e córregos, até o monitoramento e fiscalização do uso do solo e seus resíduos, da vida das florestas, das áreas verdes de lazer, e as unidades de conservação.

Havemos de convir, entretanto que, em matéria de meio ambiente, somos todos dedicados aprendizes cujas melhores iniciativas ainda estão guardadas na algibeira de nossos corações. E cujas práticas ainda deverão ser implementadas, passando, sobretudo pela educação ambiental de nós mesmos, o que só será conseguido se caminharmos de mãos dadas com responsabilidade, criatividade e firmeza dos passos, no rumo do bem estar econômico, social e ambiental de nossa comunidade.

Que a paixão pelo meio ambiente seja o motor da nova equipe técnica que será montada, com capacidade, comprometimento e estímulo comum para desenvolver o potencial transformador deste lugar, o que será conseguido se todos os segmentos que compõem esta comunidade colaborar. 

Porque para a natureza não importa o que pensamos ou sentimos, importa é o que fazemos (INR).

 

Brasilândia/MS, 2 de março de 2025.

30º Aniversário (02/03/1995) de Inauguração da Escola Municipal Paulo Simões Braga. Gestão de Prefeita Neuza Paulino Maia.



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

 

Relembrando a Fanfarra Municipal de Brasilândia.

Carlos Alberto dos Santos Dutra




 

A história da FAMBRA, Fanfarra Municipal de Brasilândia, se confunde com a história do município, pois esteve sempre presente nos grandes momentos cívicos e comunitários da cidade. Desde antes de sua fundação, no ano de 1983, na administração da prefeita Neuza Paulino Maia e, depois, a partir de 1989, sob o impulso do prefeito José Cândido da Silva, a Fanfarra Municipal sempre prestou relevante serviço à municipalidade despertando a música e o sentimento de patriotismo a crianças e jovens que, ao longo de seus mais de 40 anos de existência, passaram por ela.

Uma rápida olhada no álbum de fotografia do passado e lá encontramos um jovem brasilandense integrante da banda num desfile cívico de 7 de setembro de 1965, ano da emancipação do município que se desvinculava de Três Lagoas, com seu bumbo cuja inscrição Fanfarra de Brasilândia plasmada sobre a pele leitosa do instrumento, já demonstrava a força criativa e musical desta cidade, sob o zelo do primeiro prefeito José Francisco Marques Neto. 

Roda o moinho do tempo e, ao lado de seus coordenadores, instrutores e maestros, o que os munícipes viram ao longo da história era a presença da FAMBRA em eventos cívicos e culturais, promovendo a arte, a disciplina e a formação de jovens para o futuro. Com o mérito de não fazer qualquer tipo de distinção étnica, econômica, social ou confessional, sempre promoveu dezenas de jovens brasilandenses alimentando sua autoestima e incentivando os dotes musicais e artísticos de cada um, graças ao empenho e dedicação das administrações pública e seus dirigentes.

As páginas dos periódicos locais sempre deram muita divulgação às apresentações da Fanfarra Municipal de Brasilândia, até mesmo porque, mantida pela municipalidade, sempre esteve presente nos eventos oficiais, festividades e comemorações, marcando presença e abrilhantando a arte e o orgulho de ser brasilandense. E sempre conquistando diversos prêmios estaduais e regionais, o que justificava o empenho de cada administração municipal que sempre buscou equipá-la com instrumentos e uniformes que a projetaram no cenário artístico levando alto o nome de Brasilândia.

Entre os coordenadores e maestros que dirigiram a FAMBRA é impossível não lembrar o nome daqueles que colocaram este símbolo da cultura local na posição de destaque valorizando o que foi, por muito tempo, o grande orgulho dos brasilandenses, escreveu o Jornal de Brasilândia por ocasião do 39° aniversário da cidade. Na oportunidade o periódico enalteceu os maestros que passaram pela FAMBRA, entre eles o maestro Jehú Vieira Serrado, lembrando quando este, à frente da fanfarra simples de Brasilândia competiu brilhantemente com uma das maiores fanfarras do Brasil, a FACMOL, de Pereira Barreto. 

Inicialmente sob a batuta do grande maestro Jehú Vieira Serrado e direção do professor de música, Mário Nelson da Silva; depois dirigida pelo maestro Alcides Magalhães e coordenação de Edvanir Aparecida Boldoni Borges; depois, Marcos Alves Juremeira e coordenação de Miguel Régis de Oliveira; e depois pelo maestro Carlos Alberto Nascimento...

E assim foram passando os anos. Entre os prêmios conquistados, encontramos um registro em 20 de novembro de 1999, quando a FAMBRA conquistou um honroso 2° lugar no Concurso de Bandas e Fanfarras realizado na capital do Estado. Notícia mais recuada que mereceu destaque na imprensa data de 1991 foi quando, o então prefeito municipal, Prof. José Cândido da Silva comemorou em praça pública o 1º aniversário de fundação da FAMBRA. Ele quis dizer, com certeza, aniversário de refundação, uma vez que foi em sua gestão, iniciada em janeiro de 1989, que a banda assumiu o rosto de fanfarra simples. 

Nesta ocasião o prefeito lembrou que a música era de todas as artes a que mais enobrece e aquela que melhor traduz os anseios de nossa alma. Até os povos de civilização rudimentar a cultivam, quer para recreio do espírito, quer para incentivo na luta. Não a desdenham tampouco nos seus ritos religiosos. Antes, e a história o confirma, fez sempre parte dos cerimoniais sacros (...). Estou certo que a Fanfarra Municipal de Brasilândia-FAMBRA, concorre grandemente para elevar o nome de nossa cidade. E concluiu em tom professoral: Que Euterpe, deus da música, vele sobre este punhado de abnegados que, embora roubando algumas horas de seus afazeres ou de seus ócios, se propõe a dotar esta terra desse melhoramento, orgulho de todos nós. 

Sem dúvida a FAMBRA representa orgulho para todos os brasilandenses, sendo uma colecionadora de prêmios, tendo recebido inúmeros títulos e se apresentado em diversas cidades do Estado. Em 1999 consagrou-se campeã no Estado de Mato Grosso do Sul, em evento realizado na Capital, Campo Grande, conquistando o 1º lugar na categoria Juvenil, tendo também conquistado o 1º lugar no âmbito das Fanfarras e 1º lugar de Maestro, Prof. Marcos Alves Juremeira. Na ocasião a FAMBRA inaugurou orgulhosa os equipamentos novos:  dois saxofones, três cornetões, seis cornetas e um carrilhão, adquiridos pela administração da época. 

Foi um tempo de ouro onde se acumulavam títulos. Em 2000 a FAMBRA participou na cidade de Goiânia-GO, do 8º Concurso Nacional de Bandas e Fanfarras Cidade de Goiânia, evento que reuniu as 35 melhores bandas e fanfarras de todo o Brasil. Na categoria Juvenil que contou com a participação de sete fanfarras, a FAMBRA conquistou honroso segundo lugar, algo que veio coroar o trabalho da equipe e da comissão coordenada pelo senhor Miguel Régis de Oliveira, tendo como Instrutor Regente, o maestro Marcos Alves Juremeira, lembrou a secretária de Promoção Social na época, Márcia Regina do Amaral Schio, hoje prefeita municipal de Brasilândia. O evento que teve repercussão nacional, chegou a ser manchete no Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão. 

Sim. Aquele tempo de ouro pode estar voltando. É o que a harmonia dos sons e o talento musical dos artistas de Brasilândia já percebem circular, tocados pela brisa dos novos tempos no ar. Abrir os canais do diálogo com o governo federal e estadual, e buscar a captação de recursos e incentivo para se investir numa atividades cultural que faz parte do DNA desta Cidade Esperança -- o talento musical --, é a redençãoÉ a certeza de que valeu a pena esperar. E acreditar que, parafraseando o poeta Fernando Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena,   

Dia 27 de fevereiro, quinta feira, às 18:30 (MS) todos estão convidados a participar na Câmara Municipal de Brasilândia de uma Audiência Pública sobre os recursos da Política Nacional Aldir Blanc-PNAB que trará luz e sonoridade aos antigos sonhos da FAMBRA, promovendo-a, à semelhança de uma Fenix, possibilitando-a abrir suas asas para vê-la renascida e transformada quiçá em uma Banda Marcial, o que há muito já estava a merecer esta graduação.


Brasilândia/MS, 26 de fevereiro de 2025.


Fonte: Confira o restante desta história em História e Memória de Brasilândia, Vol. 2-Patrimônio, pág. 115-122.