quinta-feira, 22 de agosto de 2024

 

Prof. Vitor: a história, a união e a luta.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Corria o ano de 2006 e o desafio estava posto. Abrir uma fresta por onde aquela estreita porta deixasse passar os sonhos do povo. Chamadas de nanicos à época, lá estavam aquelas siglas estranhas para alguns, mas que ousavam romper com a lógica e o silêncio que tudo corrompia e abafava a sua volta. 

Os conceitos de neoliberalismo, globalização e capitalismo selvagem, ninguém mais ousava questioná-los, vez que já se encontravam por demais colados à pele de cordeiro que nos cobria a todos. 

E eles estavam lá, PSOL e PSTU (1), erguendo a voz, abrindo espaço para que o Mato Grosso do Sul permitisse falar os calados, e também desfraldar suas bandeiras, liberdades e sonhos para uma nova ordem social. 

Hoje, passados 18 anos de estrada, recuos e avanços de companheiros e camaradas, a coragem recupera o fôlego da esperança, colorindo novamente a face dos que vivem à margem, nas palavras, ideias e ações de um jovem professor, que ousou dar as mãos àqueles que a vida não deixou calar. 

Desinquietou-se, fazendo ir mais longe o grito que nada mais é do que o eco do som que se ouve nas ruas, nas praças, no campo e cinturões da periferia da cidade. 

Não. Não esperem que a bandeira intrépida verde e amarela tremule e quebre vidraças desafiando a ordem e o bem comum. Não. Não acreditem no discurso retrógrado daqueles que se arvoram contra a conquista de direitos e desconhecem a força do verbo unir e lutar. 

O desafio eleitoral dos pequenos contra os grandes e poderosos sempre existiu e existirá. O que nos alenta, entretanto, é saber se assimilamos aquela sábia lição de Davi contra Golias: --Davi, seu inimigo é muito grande; não podes vencer. –-Sim, Golias é muito grande; não tenho como errar!, disse confiante, segurando a sua funda. 

Hoje, em Três Lagoas, um professor aniversaria e o maior presente que deveria receber, é ele, entretanto, quem dá. Lança-se de braços aberto à causa maior que acredita e faz uma legião também acreditar. 

Vencido o medo, o preconceito e o estigma imposto pela sociedade, demonstra que a política partidária não é coisa de gente egoísta interessada somente no status quo que pode ser tocada ao sabor do vento que alimenta o famigerado desenvolvimento transnacional. 

Parabéns Professor Dr. Vitor Wagner Neto de Oliveira. Feliz Aniversário e Parabéns pela vida colocada a serviço da academia, do trabalho e da luta por uma Três Lagoas e um mundo melhor.

 


Brasilândia/MS, 22 de agosto de 2024.

(1) Cf. https://youtu.be/kTtjuaDO9zk


 

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

 

Era uma vez um pirilampo encantado

Carlos Alberto dos Santos Dutra (Carlito)

 









--Mamãe, estou com frio. A voz, em tom de murmúrio, parecia falar com a silhueta das mãos estendidas que era projetada na parede, ao fundo daquela placa de trânsito na beira da estrada.

Tal qual uma criança perdida de seus pais, enquanto a tarde declinava, sonhava ainda vê-los vindo em seu socorro para aquecê-la do frio e da solidão que sentia.

Só que as luzes dos faróis dos veículos, cada vez mais velozes, já não lhe permitia ver imagens familiares, a exemplo daquelas que sua mãe lhe ensinara com as mãos desenhando figuras imaginárias sob a luz da lua, num tempo que já vai longe.

De súbito, desperta de seu esquecimento e não se vê mais uma criança entre fraldas e cueiros, aquecida e querida por um par de olhos maternal. O que sente é uma espada de dor que a transpassa pelas costas provocada pelo frio que lhe invade o corpo e a alma.

Não. Não mais se encontra entre os seus e seus afetos. Olha ao seu redor e não encontra mais nada, somente o silêncio da noite e o rumor dos veículos e sua pressa. Percebe, então, que está terrivelmente só e perdida naquele lugar.

Leva a mãos à cabeça comprimindo com os dedos a fronte, e busca lembrar: --Lembrar o que?, se pergunta. --Quem sou eu? --Como vim parar aqui? --Para onde vouQual será o meu fim? Angústia e medo lhe tomam de assalto sufocando-lhe o peito e impedindo-a de respirar.

Tem vontade de gritar, mas já não tem forças. Levantar e acenar, no meio da noite, também lhe é tarefa impossível pois seu corpo todo dói, sobretudo os braços e a ponta dos dedos encarangados de frio. Assim, só lhe resta olhar para o Céu.

A noite avança e o ruído dos carros dão lugar ao canto dos pássaros noturnos, a bulha das águas do rio que adiante corre, o som dos grilos, os pirilampos e o coaxar das rãs que habitam as áreas úmidas do lugar que integram a sinfonia rural própria da noite, e que são audíveis somente quando o silêncio que habita em nós e ao redor se cala.

Seu corpo está gelado. Ainda assim, acomoda-se em meio a vegetação rasteira e viçosa que circunda a placa de trânsito que lhe dá abrigo. Se recosta ali e, sentindo o calor da mãe terra, e quiçá o rumor de asas celestes, adormece.

Adormece e sonha. Sim, sonha. Porque sonhar não é proibido a nós humanos, à semelhança dos pássaros quando se veem libertos de suas gaiolas e prisões, dos maus tratos e do esquecimento dos seus.

Sim, ela sonha com aquele vestido floreado, cheio de rosas vermelhas e fundo verde que usou no dia do aniversário de uma de suas filhas. Num outro momento já se encontra  correndo pelos campos floridos cheios de cachos de pompons brancos como o algodão que seus pais colhiam em sua faina diária.

E assim, a noite ruma em direção à aurora. É quando o frio já não lhe paralisa mais o corpo e uma sensação de conforto lhe faz companhia. O sol já havia nascido e lhe iluminava a face tornando-a brilhante e com o rubor radiante de uma juventude que já foi sua. 

A estrada, em todo o seu percurso estava coberta de rosas, da mesma cor do vestido que usara um dia. E toda enfeitada de flocos brancos de algodão que a transformava numa espécie de anjo.

Sentindo-se menina novamente, levanta-se e sai trilhando aquela estrada, colhendo uma rosa aqui outra acolá. Saltitante, sorri, parecendo uma criança que voltava para casa para abraçar a família depois de uma travessura realizada por aí.

E assim o fez. Entrou correndo em casa e diante daqueles olhares aflitos, dos pais e dos irmãos maiores, correu ao seu encontro de braços aberto e disse a todos: --Eu estou aqui. Eu estou bem e feliz. E entregou a eles um ramalhete de rosas pedindo que fizessem o mesmo, um dia, a seus filhos e netos, desculpando-se.

--O nome desta mulher? Cada um de nós hoje pode pronunciá-lo em segredo em suas orações: Elvira, com saudade e emoção... Mas, como saber se este pirilampo encantado não anda por aí saltitante e feliz dentro de nossas próprias casas e dentro de nossos corações?

 

Brasilândia/MS, 14 de agosto de 2024.

Foto: Um menino correndo em uma estrada de terra com os braços estendidos. | Foto Premium (freepik.com)

Cf. https://carlitodutra.blogspot.com/2022/07/homenagema-dona-elvira-e-sua-nova.html

 

terça-feira, 13 de agosto de 2024

 

Antônio Pitanga, os Ofaié e o Ivinhema

Carlos Alberto dos Santos Dutra (Carlito)

 



A simpatia é sempre uma porta por onde a alma e a percepção transitam. Expressa o que somos em essência e como vemos as coisas em si, em imanência. Confesso que foi por aquela porta, aparentemente frágil, que me vi transportado ao deparar-me diante de tanta empatia que aqueles olhos e sorriso inspiravam.

E cá estávamos naquele Galpão das Artes, transformado na catedral do cinema e da cultura do lugar, diante de um evento de extraordinária importância para o Estado de Mato Grosso do Sul e que reunia ali renomados artistas, produtores culturais e significativas obras audiovisuais produzidas no País.

Sim, tratava-se do Festival de Cinema do Vale do Ivinhema que neste ano celebrou sua 18ª edição promovendo a divulgação dos 25 anos do Parque Estadual das Várzeas do Rio Ivinhema, uma área de preservação ambiental de 72 mil hectares, verdadeiro santuário da natureza localizado na confluência das águas do rio Ivinhema com o rio Paraná num cenário paradisíaco.

Em meio a um roteiro de múltiplas atrações e atividades culturais que reuniu desde show do cantor Chico César, MC Guarani Anarandá, Celito Espindola e Paulo Simões, o recital de Eduardo Martinelli e Brener Gonzales que homenageou o flautista Potápio Silva, entre outros, projetou mais de 25 filmes recentes, curtas e longas metragens, premiados nos principais festivais nacionais e internacionais, amostra sob a curadoria do cineasta Joel Pizzini.

O festival também exibiu em avant-première o filme documentário de Ricardo Câmara e Maurício Copetti, "Inventário das Várzeas do Ivinhema", com a participação do Prof. José de Souza Kói e do cacique Marcelo da Silva Lins, ambos Ofaié, que mostrou um tríplice olhar, na visão arqueológica, antropológica e histórica desta várzea contando com a poesia cosmogônico dos últimos representantes do  povo Ofaié, cujos ancestrais ali viveram fazendo um contraponto entre a ciência e a narrativa oral deste povo, antigos habitantes do lugar.

O festival também fez uma homenagem ao centenário da violeira Helena Meirelles (in memoriam) e ao ator Antônio Pitanga que celebrou 85 anos no dia 13 de junho último, carregando nos ombros os louros de ter realizado mais de 70 filmes, 50 participações na televisão e uma dezena de peças teatrais que lhe conferiram inúmeros prêmios.

E ele estava lá, sentado em meio a plateia assistindo o lançamento do filme sobre as várzeas do Ivinhema. De chapeuzinho na cabeça e um largo sorriso que lhe iluminavam os olhos, era um pontinho negro naquele plenário branco formado por artistas, intelectuais, profissionais das artes, e comunidade local.

Enquanto os protagonistas e a equipe técnica de produção era convidada para compor a mesa dos debates, ao final da projeção que foi aplaudida de pé, a música acalanto “O Povo do Mel”, trilha do filme, composta por Celito Espindola e Paulo Simões, ainda embalava os ouvidos e o coração de todos.

Foi neste momento que a atenção da plateia deitou o olhar mais acurado sobre o ilustre visitante, Antônio Pitanga ali presente. Não despertada, talvez, pela aura que o envolvia, nutrida pelo senso comum e o currículo invejável deste ator protagonista de uma vasta lista de obras audiovisuais consagradas; mas pela percepção sentida mais amiúde das palavras que brotavam de sua alma: --Ela sangra, disse ele.

As margens frias e alagadiças daquela várzea, num dado momento, sentiram o calor e a força destas palavras. Sob nossos pés, era como se voltássemos a pisar sob um vasto sitio arqueológico, num reencontro cheio de vida e morte dos que ali viveram e ainda insistem em viver pelas dobras da memória. –Este filme faz a nossa alma sangrar, continuou.

Não sangue de dor, mas de reverência, reconhecimento, confiança, lembrança, e esperança, parecia dizer quando associou a luta pela autodeterminação dos povos originários, os povos indígenas, com a luta pela igualdade racial do povo negro no Brasil.

--O negro e o índio, eles são os pilares da formação histórica deste país, disse com voz firme e corajosa diante de um aparente silêncio da verdade encartada nos livros, no mais das vezes negada e soterrada pela pá de cal do esquecimento e do embranquecimento da pele que pintou em falsete as cores oficiais desta pindorama, terra brasili.

O diálogo entre o indígena Ofaié, José Koi e o ator Antônio Pitanga, aos poucos, foi contagiando o ambiente rompendo com a fleuma de alguns, movidos pelo rumo das palavras de um discurso amoroso, diria Roland Barthes, cheio de vida e sabor, que nos arrebatavam a uma visão holística do que representava para todos os sobreviventes do desterro e preconceito aquele momento singular.

A história e o testemunho dos Ofaié, através das imagens daquele filme lançaram sementes de um sentimento de pertença até então adormecido na história de Ivinhema, mas que ainda se encontrava sob as folhas daquele chão. 

O sopro de vida, ao som do chocalho Ofaié e Guarani do passado, e as palavras de fé e esperança de Antônio Pitanga, hoje, faziam soerguer em nós as palavras 'tamoias' de Gonçalves Dias: Não chores meu filho; não chores, que a vida é luta renhida: viver é lutar, a vida é combate...

Os créditos do filme, aos poucos, vão esmaecendo na tela e os espectadores vão deixando o lugar também. O murmúrio das vozes e os flashes das câmeras rodeiam o ilustre convidado, quando todos desejam eternizar aquele momento: uma foto e um abraço com aquele cidadão especial e diferenciado.

Ao longe, o barco das palavras de Antônio Pitanga  permanecem ecoando no coração do lugar, educando e evocando chamas sempre vivas, batendo no casco de nossas vidas, conclamando pelo respeito e os direitos dos povos negros e indígenas deste País.

Voz que se confunde com a bulha das águas do antigo Igaray, nome dados pelos primeiros viajantes ao Ivinhema, que prossegue o seu curso pelas várzeas, desafiando a ordem e o tempo, e recolhendo de suas margens as lembranças da erva-mate, o som das vozes Guarani, e o acalanto dos Ofaié, o doce e gentil povo do mel...

 Ivinhema/MS, 13 de agosto de 2024.


















terça-feira, 6 de agosto de 2024

 A música, a ACIABRA e as homenagens

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 

O clima permeava euforia e nostalgia. Uma noite de festa embalada pela música e pela a emoção. Ali estavam, no aconchego do Recanto das Palmeiras, rostos e olhares, revestidos de seus melhores sentimentos, para comemorar o encontro de quem convivia há tanto tempo e nem havia se apercebido.

O coração de Pedro de Souza Batista Neves, realizado e, ao mesmo tempo, apreensivo, dava o melhor de si para acolher a todos, com um sorriso de satisfação e alegria. Afinal, tratava-se de seu primeiro jantar dançante, onde a Associação Comercial, Industrial e Agropastoril de Brasilândia, a ACIABRA, celebrava o seu 36º ano de existência e persistência nesta terra.

E ali estavam reunidos representantes dos mais diversos segmentos do comércio local, o empresariado, seus colaboradores, prestadores de serviços, seus familiares e clientes amigos numa noite memorável.

Sim. Uma noite para guardar na memória, através das imagens captadas pelas câmeras dos celulares. Mas, sobretudo, pela retina dos olhos e do coração, revivendo cada um, a experiência de suas histórias e lutas empreendidas. Muitas mãos, muitos gostos e sabores, tudo para servir com amor e atenção esta comunidade.

No turbilhão das lembranças, lá os encontramos no outro lado do balcão, aquele olhar e presteza que alegra o cliente ao vê-lo assim satisfeito e contente. Mesmo que, para o proprietário, a contragosto, ele tenha de suportar os custos e impostos implacáveis sobre o seu labor.

Mas lá vão esses comerciantes confiantes, apostando no amanhã de seus dias. Desde a banquinha na feira da praça, o escritório, a oficina, até a rede de supermercados, a indústria e os altos negócios. Com coragem de menina, a pequena ou grande empresa, não importa onde o comércio esteja, se um barzinho ou loja, vende boi, mandioca ou soja, todos merecem e têm a atenção destes profissionais.

Embalados pela música da bela cantora Malu Alves e a dupla Anderson & Claudinho, os presentes ainda tinham um especial motivo para ali estar. Antes de ser servido o jantar, coube a cinco empresários receber uma comenda em homenagem à dedicação de associados da ACIABRA que vem imprimindo nesta comunidade o ideal do comércio, sendo destaque e motivo de inspiração para os demais.

As palavras do presidente da ACIABRA falaram desta emoção de estar ali e poder agradecer o esforço desta Diretoria e também aquelas que nos antecederam, nós chegamos até aqui, unindo campo e cidade, buscando o bem estar de todos, para hoje poder celebrar esta conquista. Obrigado aos empresários, ao comércio e prestadores de serviços, deste lugar que aprendi a amar e onde a ACIABRA teve a oportunidade de contribuir na modernização e acompanhar o desenvolvimento de Brasilândia, disse ele ao microfone diante de um salão repleto de olhares de aprovação e gratidão.

Naquela noite, foram homenageadas pessoas que ajudaram a construir e manter de pé a ACIABRA, desde a sua fundação em 1988. Receberam a homenagem de Destaque representantes de 4 categorias: Pioneiros do Comércio local; Geração de Emprego e Desenvolvimento Socioeconômico; Participação com o Comércio e Sociedade em geral, e Destaque Comercial e Inovação. 

Esta premiação é uma forma singela de dizer a cada um dos homenageados: muito obrigado pelo que vocês têm feito pela nossa cidade, por não desanimar e acreditar no potencial empreendedor que move e torna seus cidadãos, sempre mais dispostos a aprender e evoluir, disse a cerimonialista, jornalista Patrícia Luciana Paulino Acunha que dividiu a tarefa protocolar do evento com este escrevinhador. 

Sim, foi uma demonstração de afeto, reconhecimento e valor pelo trabalho realizado por todo o comércio desta comunidade e uma forma de demonstrar que esses profissionais são merecedores de toda a estima e signo de prestigio que cada um de seus clientes e amigos lhe devotam. 





O primeiro homenageado da noite foi a senhora Maria de Fátima Servilla Barbosa que recebeu a homenagem materializada num quadro conferindo a ela o Destaque como Pioneira do Comércio local. Sua biografia foi lida aos presentes com as seguintes palavras: 

“Existem pessoas que são talhadas para determinados negócios manifestando isso desde pequenas. Com ela foi assim. Ainda criança, ela viu seu pai, Juan Manoel Servilla inaugurando uma das primeiras máquinas de arroz  deste povoado no ano de 1957 que recém iniciava. 

Carregando os dotes artísticos da costura e do bordado aprendidos de sua mãe, dona Hermínia Martinez Hernandes lá estava ela vendo a mãe cuidar de 10 filhos, e deslocar-se de carroção pela estrada para ir ao mercado. Foi ali, entre essas idas e vindas que a menina Maria de Fátima Servilla Barbosa, adquiriu o gosto pelo comércio. 

Nascida no dia 22 de março de 1958, na cidade de Tupã, chegou a Brasilândia em 1969, com 11 anos de idade e aos 12 anos já se encontrava trabalhando  como Caixa, no Mercado Casa Mendes onde ali permaneceu por 10 anos. 

Aos 33 anos de idade, no dia 10 de julho de 1992, alçou seu voo comercial inaugurando a própria empresa, a Loja Santa Maria que há 32 anos mantêm-se firme no mercado. É uma das pioneiras lojas de confecções, calçados, tecidos e armarinhos em geral. 

Com o estabelecimento localizado na Avenida São José, nº 508, no centro de Brasilândia, essa mulher atuante do comércio local, é mãe de 2 filhos, Maycon e Cristiane, e possui 2 netos, Isac e Lucas. Viúva de Isac Honorato Barbosa, também saudoso pioneiro do comércio local, hoje ela exerce, além de comerciante, a função de ministra da Comunhão na Paróquia Cristo Bom Pastor. 

Maria de Fátima tem 66 anos de idade e se sente uma jovem realizada e agradecida em poder oferecer à comunidade o melhor de si. Gratidão especial aos moradores das fazendas, seus maiores e fiéis clientes, o que a faz confirmar sua vocação para o comércio e continuar como empreendedora pioneira desta cidade. Parabéns Maria de Fátima Servilla Barbosa”. 

A entrega de sua comenda foi realizada pelo ex-presidente da ACIABRA Luiz Gilmar Justino. Ao referir-se aos presentes, a homenageada agradeceu a todos, em especial a seus filhos e netos presentes no evento, o que lhe encheu de emoção. Eu continuo aqui, firme, superando os altos e baixos da vida, com fé em Deus, disse ela, cheia de emoção e otimismo. 





O segundo homenageado da noite foi a senhora Maria Valentina de Souza Rodrigues, também uma das pioneiras do comércio de Brasilândia. Sua biografia também foi lida aos presentes: 

“A história desta mulher deita raízes desde a fundação de Brasilândia. Nascida numa família de 8 irmãos ela vem de um berço dos mais tradicionais deste lugar. Filha da senhora Tereza Valentina da Silva, dona de casa e comerciante, e de seu  João Galdino de Souza, lavrador e produtor de algodão, este casal veio lá da cidade de Urânia, no Estado de São Paulo. 

Foi lá que seus pais embalaram nos braços aquela  recém nascida no dia 1º de outubro de 1955. Passada a infância, aos 7 anos de idade, e seus pesinhos já pisavam as empoeiradas ruas deste povoado. 

Logo que a família aqui chegou, no ano de 1962, o município ainda era uma Vila, vindo a emancipar-se somente 3 anos depois. Sempre muito dedicada aos estudos, a jovem logo se pôs a lecionar na Escola Municipal Arthur Höffig e depois de formada, na Escola Adilson Alves da Silva, onde trabalhou até se aposentar. 

O espírito empreendedor e o tino para o comércio, herança da mãe, fê-la dedicar-se exclusivamente a administrar a Panificadora e Confeitaria Jardim, inaugurada em 15 de dezembro de 1990 ao lado do saudoso Daniel Rodrigues, também pioneiro, com quem viveu casada por 25 anos e juntos tiveram 3 filhos: Fábio, Fabiana e Fabruno. 

Sempre muito dedicada à empresa que criara, localizada num ponto privilegiado da cidade, em frente à Praça Santa Maria, firmou-se como referência no ramo da panificação, confeitaria, salgaderia, lanchonete e pizzaria. 

Considerada por todos como uma autêntica mulher de negócios, elegante e sensível no trato com os clientes, conquista a simpatia de todos. Hoje, aos 68 anos de idade, Maria Valentina sente-se uma jovem empresária que aposta no futuro do comércio local, acreditando no seu desenvolvimento. Parabéns Maria Valentina de Souza Rodrigues”. 

A entrega de sua comenda foi realizada pelo Sr. Valdeir Santana, secretário de Desenvolvimento Econômico do município de Brasilândia. Ao referir-se aos presentes, Maria Valentina dedicou a homenagem recebida a todas as mulheres empreendedoras de Brasilândia. E agradeceu ao presidente da ACIABRA, Sr. Pedro de Souza Batista Neves, pela homenagem, dizendo: 

É um prazer enorme estar aqui, e poder estender essa homenagem à minha mãe, dona Tereza Valentina da Silva, que foi a mulher pioneira do comércio de Brasilândia que tudo me ensinou. Obrigado mãe querida. O que encheu de orgulho a seus filhos que estavam presentes e que vieram abraçá-la, emocionando a todos. 





O terceiro homenageado desta noite foi a senhorita Roberta de Souza Giraldo, uma jovem mulher que tem se destacado na economia deste lugar, e exerce com satisfação o labor de quem tem cultivado com êxito o caminho de suas realizações. 

“Nascida na vizinha cidade de Panorama, no dia 22 de fevereiro de 1996, para a alegria dos pais, Rosely Baptista de Souza Giraldo, recepcionista, e Reinaldo da Costa Giraldo, operador de escavadeira hidráulica, e seu irmão Roger, sua vida é marcada por uma trajetória de sucesso. 

Inicialmente trabalhou numa agência de passagens pertencente ao seu avô, depois dedicou-se a função de auxiliar de dentista, para finalmente ingressar no ramo dos negócios, passando pelo Santander, Cooperativa Credifoz e o SICREDI, em Santa Catarina. 

A trajetória desta jovem, entretanto, estava apenas começando quando aqui chegou, no dia 7 de junho de 2021, com apenas 25 anos de idade. Foi aqui que ela imprimiu ao SICREDI, que chegara a Brasilândia em 2015, os préstimos de administradora, como gerente. 

Solteira e muito dedicada ao trabalho, Roberta se mantém firme à frente desta cooperativa de crédito, dispondo de 10 colaboradores, e dedicando-se de forma extraordinária na promoção e o desenvolvimento econômico desta comunidade. E sempre com viés da sustentabilidade, com acento no cooperativismo de crédito, seu maior produto, o que ela entrega a seus clientes e empreendedores locais com a maior responsabilidade e satisfação. 

Os sonhos desta gerente do SICREDI têm um diferencial: atua de forma solidária, criando laços e parceria, o que confere um privilégio para Brasilândia contar com seus préstimos, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social desta cidade. Parabéns Roberta de Souza Giraldo”. 

A entrega de sua comenda foi realizada pela Srª. Erica Yuri Hayashi.  Ao dirigir-se aos presentes, a representante do SICREDI em Brasilândia agradeceu ao presidente da ACIABRA, Sr. Pedro Neves, pela homenagem e a parceria que a entidade representativa do comércio local vem realizando à instituição financeira e cooperativa desde que aqui chegou. Agradeceu a todos os seus colaboradores e associados, colocando-se a disposição de todos. 







O quarto homenageado da noite foi o casal Regina Célia Zogheib Bertonha e Celso Bertonha, que recebeu a homenagem como destaque Comercial e Inovação. Sua biografia foi lida aos presentes e saudada por todos:

“Os pilares desta família ostentam a força de quem carrega no sangue migrante, a persistência de povos que jamais desistiram de lutar e vencer seus obstáculos. 

Um dia existiu um homem que acreditou no Brasil. Ele e seus irmão aqui desembarcando, no ano de 1948, vindo de navio da costa do Líbano, desta terra brasili ele se enamorou. Em Junqueirópolis o senhor Farhat  Zogheib se instalou, casou e ao lado da esposa Yolanda Baggio Zogheib inaugurou a sua primeira loja, a Casa Libaneza naquela cidade. 

Mal sabiam os pais que os olhos daquela menina, nascida no dia 5 de setembro de 1960 a tudo espreitava e aprendia as lições que a levaria a experimentar novos ventos, seguindo os passos da família, levando adiante os sonhos e a vontade de vencer na outra margem do rio. 

Com a morte de seu pai em 1994, coube à Regina Célia a tarefa de continuar os negócios da família. Quatro anos depois, e por razões que só Deus explica, os olhos daquela jovem empresária miraram mais adiante, em direção à margem direita do rio Paraná, onde conheceu o seu esposo Celso Bertonha que já trabalhava por aqui em atividade agropecuária. 

E assim se sucedeu. Em julho de 1998 ela decidiu vir definitivamente para Brasilândia. Estava determinada a instalar na cidade a sua loja. A  inauguração deu-se no dia 5 de dezembro daquele ano, quando a loja abriu suas portas na Av. Boa Esperança, nº 496, no centro de Brasilândia. 

Inicialmente num prédio pequeno, alugado, mas que aos poucos foi conquistando a confiança e a preferência dos brasilandense. 26 anos depois, no dia 3 de maio de 2021, ela inaugura o prédio próprio da maior loja de utilidades da cidade com uma imponente e bela estrutura. Um orgulho para Brasilândia. 

A menina que se transformou em empresária, ao lado de seu esposo, funcionários e colaboradores, hoje aos 63 anos de idade, se encontra realizada, com o sucesso de sua empresa e a confiança dos filhos Tiago, Cler e Marcel, e os netos Cecília, Alice, Liz e Vicente. 

A Loja Libaneza Center, hoje, devolve à cidade de Brasilândia sua gratidão pela acolhida, pela preferência e pelo prestígio que sua loja angariou e confere à esta comunidade. Parabéns ao casal Regina Célia Zogheib Bertonha e Celso Bertonha. 

A entrega de sua comenda foi realizada pela Srª. Thaís Araújo. Ao dirigir-se aos presentes, Regina Célia agradeceu o carinho pelo convite feito pelo presidente da ACIABRA, Sr. Pedro Neves, para receber a homenagem. Demonstrou felicidade ao recebe a homenagem das mãos de uma antiga colabora de sua loja, parabenizando a todos que lhe ajudaram nesta caminhada. Contou também detalhes sobre sua vida e os motivos que a trouxeram para Brasilândia, enriquecendo a biografia apresentada. 





O quinto homenageado da noite foi o senhor Adilson da Costa Pinto, um jovem empresário de nossa cidade que tem se destacado na geração de emprego e contribuído para o desenvolvimento socioeconômico de Brasilândia, tornando essa cidade conhecida além fronteiras. Sobre sua biografia foi dito:

"A geração de emprego em qualquer lugar é sempre um desafio, tanto para os programas governamentais como para os empreendedores que na maioria das vezes, se veem forçados a submeter-se  e depender das iniciativas oficiais de investimento, o que nem sempre lhes garante os recursos necessários para tocar os seus empreendimentos. 

Há entretanto aqueles que não esperam a mudança dos ventos para lançar seu barco ao mar. Foi o que aconteceu com um jovem nascido em 8 de julho de 1968 e que para a alegria dos pais, seu José Geraldo Pinto e dona Nery Vaz Costa Pinto, muito cedo arregaçou as mangas decidindo ser um empresário. 

Promessa que se concretizou aos 26 anos de idade, quando abriu sua própria empresa que foi registrada no dia 7 de abril de 1994. Inscrita para atuar nas atividades de apoio a produção florestal e serviços de reparação de terreno, a Empreiteira Costa Pinto, conta com 30 anos de estrada nesta cidade. 

Foi assim, graças às frentes de trabalho que por aqui aportaram e abriram novas perspectivas de atividades para a região, mudando a paisagem econômica sobretudo rural que este jovem soube investir neste setor, ampliando o seu negócio e consolidando-se como umas das referências nos serviços de apoio ao trabalho realizado tanto no campo como na cidade. 

Trata-se, sim, de Adilson da Costa Pinto e sua Empreiteira que carrega a responsabilidade de portar o nome da família elevando alto a sua linhagem e vocação para o mundo dos negócios. 

Hoje, com 56 anos de idade, casado desde 1990 com Adriana Souza Araújo Pinto, tem 2 filhos: Junior  e Júlia, e 4 netos: Davi, Maria Luiza, Maria Júlia e Ana Laura. Além de ser um dinâmico empresário também é um benemérito cidadão de Brasilândia. Parabéns Senhor Adilson da Costa Pinto". 

A entrega de sua comenda foi realizada pelo Sr. Jorge Justino Diogo,  também empresário, farmacêutico e ex-prefeito de Brasilândia. Ao dirigir-se aos presentes, Adilson, agradeceu as palavras que descreveram sua trajetória em Brasilândia, falando das dificuldades, os altos e baixos da carreira de empresário, conclamando a todos não desanimar e manter firme seus sonhos e ideais, manifestando também seu apreço e carinho por esta cidade onde vê seus filhos e netos crescendo e lhes ensinando a viver. 

Após a leitura das biografias e a entrega dos quadros de homenagens, os cerimonialistas convidaram os presentes a adentrar no mundo da música e da culinária: --Que este 5º jantar dançante promovido pela ACIABRA nos aproxime uns dos outros e promova em nós o enlevo com o sabor de desfrutar e agradecer pela vida, nosso maior presente. Muito obrigado. Muito obrigado a todos (...).

 

Brasilândia/MS, 4 de agosto de 2024.

Fotos: 


sábado, 3 de agosto de 2024

 

Homenagem aos 36 anos da ACIABRA

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 1-Um dia existiu um sonho
Grandioso, quem diria
Transformar esta cidade
Pelas mãos da economia.
Então, os pioneiros chegaram
Com seus sonhos, acreditaram
Fincaram suas raízes
Comerciantes aprendizes
Foram portas que se abriram
Com muita garra se uniram
Superando as distâncias
Vendo esta cidade esperança
Se tornar comunidade
Terra de oportunidade
Nestas plagas nunca vista
Homens de fé, otimistas
Mulheres com força e voz
Tornaram o tempo veloz
Rico em diversidade
Uniram o campo e a cidade
Parceiros de todo tempo
Havia chegado o momento
Decidiram os pioneiros
1988, ligeiro
Em assembleia nascia
Prestando consultoria
A ACIABRA entidade
Concretizando a vontade
Tantos nomes resilientes
Se tornaram experientes
Dirigiram na verdade
Com muita capacidade
Tornando a ACIABRA eficiente.
 
2-Desde o Alcides Lopes
o primeiro presidente
Depois Waldemar Firmino
De Campos este menino
Manteve a entidade no jogo
Com a Léia e o Jorge Diogo
A Chiosini, dona Helena
Sempre justa e serena
Depois o Émerson Aquino
Teve nas mãos o destino
E a Cristiane Aparecida
Advogada desprendida
Dona Regina Bertonha
Que pensa alto e sonha
E a Elídia Soriano
Para além do cotidiano
Contribuiu na caminhada
O sereno Heidir Hadas
Nilton Fernandes também
e a ACIABRA foi além
Luiz Diogo, o Gilmar
E para a lista completar
Pedro Neves a coragem
Que hoje presta homenagem
Aos antigos e os novos
Motivos pra festejar.
 
3-Desde a primeira reunião
Lá estavam os fundadores
Agenor, Hippler, Agostinho
O Talayeh, Adão Galdino
Madalena, e o Alencar
Impossível não falar
Isac Honorato e o Mauro
Alves, Izilda e o Saulo
E  seu Hélio Mar
tinez
Beto, Pantaleão, Gilvaez
Vilki, Jamil, dona Lélia
Gente antiga que aconselha
Aparecida, Matilde, Dalva
Era o comércio que salva
Antônio José, Leonel
Pedretti, Ti Carlo, Joel
Nelson, Ovídio e o Borges
Carregando seu alforje
Roberto Rodrigues, Geraldo
Donizeth e seu Osvaldo
Raimundo, Roque, Ildegarde
José Rodolfo, sem alarde
Seu Daniel, dona Tereza
Pioneiros com certeza
O Luizão e o Lindomar
Tanta gente pra lembrar
O Trajano e o Pascoal
No campo empresarial
Seu Juan e Zé Arara
Maria de Fátima, não para
Arnaldo, Fábio, Valentina
Jovem senhora menina
Kobayashi, seu Tomaz
O Luiz Lopes e João Alquaz
O Ottoboni e o Messias
Regeram com maestria
Alcides Martinez, Miranda
De olho na propaganda
Do Jamil e Domingão
Anunciando a promoção
Realizações que marcaram
Com seus sócios festejaram
Semana do consumidor
Show de Prêmio com primor
Feirão Céu Azul, o primeiro
SPC, Procon, certeiro
Quem se lembra do Rempac
Máquina de escrever, tique tac
Hoje tudo interligado ...
Pelo muito que foi conquistado
Amigos, muito obrigado.


Brasilândia/MS, 03 de agosto de 2024.

quarta-feira, 17 de julho de 2024

 

O Ivinhema e os aprendizes de Ofaié

Carlos Alberto dos Santos Dutra




 



O portão se abre e surge a frente um rosto conhecido. Uma estampa brilhante que reflete a lembrança de um passado que permanece ainda muito vivo na memória. Olhar de óculos de alcance que irradia o trecho florido de uma estrada já trilhada, enquanto estende a mão e cumprimenta o recém chegado. 

Após um forte abraço de reencontro com o amigo vindo do interior, aquele dinossauro expert das trilhas arqueológica e etnohistórica de Mato Grosso do Sul observa que o recém chegado está acompanhado. Seu olhar então repousa sobre o outro que se encontra ao lado, ornado de penas e colar, portando um imponente arco e flecha, e que lhe sorri encabulado. 

Logo eles são convidados a adentrar a residência pelo anfitrião que os recebe com simpatia e os acompanha até a antessala do escritório onde o pesquisador trabalha e produz seus estudos acerca do tempo passado e presente das culturas humanas e materiais que o cercam, as quais tem se dedicado há mais de 30 anos com uma vigorosa produção acadêmica e intelectual. 

Numa das salas de sua residência impossível não observar no mobiliário sólidas prateleiras contendo livros, muitos livros, novos e antigos, uma coleção invejável acerca da história e da cultura deste Estado. 

O lugar transpira uma aura de conteúdo e informações que torna o ambiente quase uma cátedra de sabedoria, capaz de inspirar e encher de conhecimento quem por ali passa entre uma e outra coluna de livros que pareciam gritar palavras que saltam de suas páginas. 

Aquela reunião ocorrida em Campo Grande/MS no dia 25 de junho último, não por acaso havia sido preparada pelo destino para o reencontro dos três. Estavam ali para celebrar uma história de vida, um acontecimento que um dia os uniu a um propósito maior, e que resultou no soerguimento de um povo, onde a escrita da pesquisa acadêmica traduziu e se encontrou com a palavra dita na aldeia. 

E tudo por uma motivação maior: recuperar através do diálogo e das lembranças, fragmentos de um tempo ainda não escrito, quando um aldeamento do povo Ofaié ainda se encontrava encravado na margem esquerda do rio Ivinhema, limítrofe de suas terras com os indígenas Guarani Kaiowá que habitavam na margem direita deste mesmo rio.  

Na época em que esses fatos aconteceram os assuntos indígenas mesclavam-se com a colonização e expansão pecuária do antigo Mato Grosso e cujos apontamentos nos chegam, a partir de 1913, através de Curt Nimuendajú e Cândido Rondon. Foram através das fileiras do Serviço de Proteção aos Índios-SPI que deu-se a criação dos primeiros aldeamentos Ofaié, do Laranjalzinho e do Peixinho, todos na margem do rio Ivinhema. 

Neste mesmo período, entretanto, a menos de 300 quilômetros a nordeste deste lugar, outro grupo de Ofaié vivia nas margens do rio Verde, no lado sul-mato-grossense, sendo atendido por uma Missão Capuchinha instalada no ribeirão Marrecas, afluente do rio Paraná, próximo à cidade de Panorama/SP.

Hoje, sessenta e cinco anos passados, um sobrevivente deste povo faz o percurso inverso, de volta à terra de seus ancestrais, e que através da palavra dos pesquisadores arrisca estabelecer um diálogo entre o passado e o presente de seu povo. 

E ali estavam José de SouzaKoi Ofaié, ao lado de pesquisadores e cinegrafistas, reavivando na memória a travessia de sua gente pelos campos e cerrados que habitaram ao longo do rio Paraná, entre o rio Ivinhema até a margem direita do rio Sucuriú.

A cada palavra pronunciada e respaldo do que já foi escrito, o encontro acontecia: o encontro da história dos historiadores com a memória e testemunho vivo de quem ali se encontrava presente. 

Por assim dizer, a vigilância crítica dos pesquisadores, frente àquele professor bilíngue da Escola Estadual Ofaié E-Iniecheki, da Aldeia Anodhi, de Brasilândia/MS, sentia-se legitimada pelo testemunho e fidelidade ao passado vivo, postado a sua frente. 

Para ambos os professores, o arqueólogo doutor Gilson Rodolfo Martins e o historiador mestre Carlos Alberto dos Santos Dutra, estar ao lado daquela liderança indígena e poder ouvir de sua própria boca suas conquistas e orgulho de pertencer ao grupo Ofaié sobrevivente era muito gratificante: saber que um impulso pôde ser dado para garantir a segurança e a autodeterminação deste povo. 

Estar ali, falando sobre a permanência dos Ofaié num tempo remoto na região do Ivinhema, seus pantanais e suas várzeas, lhes dava a certeza de que o empenho realizado valeu a pena. Empenho iniciado há 43 anos pelo precursor na luta pelo soerguimento deste povo, o historiador e missionário Dr. Antônio Jacob Brand (in memoriam). 

As filmagens sobre o Inventário das Várzeas prosseguem com a participação indígena de José de Souza e o cacique Marcelo Lins da Silva trilhando a proposta de conciliar a investigação histórica com a poética da natureza, e a valorização dos povos originários que sobrevivem nos mitos fundadores do Estado.

Ao despedirem-se, os pesquisadores, o indígena e os membros da equipe de cinegrafistas dirigida por Ricardo Pieretti Câmara dividiam a satisfação de terem recitado naquele dia um poema de paz para as várzeas do rio Ivinhema e contribuído para a valorização da história e da cultura dos povos que daquelas águas desfrutaram.

Brasilândia/MS, 17 de julho de 2024.