sábado, 28 de fevereiro de 2026

 

O privilégio do encontro: Uma homenagem a três amigos aniversariantes.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Escolher amigos é uma arte e, por vezes, um mistério. Nem sempre o número deles é farto; o que importa é a ressonância. Amigos reais são aqueles que não apenas ocupam espaços em nossas redes sociais, mas que habitam nossas aspirações e nos motivam a caminhar rumo aos nossos sonhos. 

Hoje, 28 de fevereiro, o destino reservou uma coincidência poética: celebro a vida ao lado de três pessoas que admiro profundamente. Cruzar a linha de chegada de mais um ano junto a eles não é apenas um acaso, é um privilégio. 

Maria Aparecida: A Nobreza da Simplicidade

Conheci Cida nos corredores da Secretaria de Saúde, e ali bebi da fonte de sua simplicidade. Testemunhar seu crescimento profissional foi uma lição: ela provou que é possível alcançar o topo da montanha acadêmica sem perder a essência da menina sorridente que estende a mão ao próximo. Cida, que tantas vezes leu e corrigiu meus escritos, hoje lê aqui minha gratidão eterna. Obrigado por ser luz acima dos interesses. Parabéns! 

Francismeire: O Olhar que Embeleza o Mundo

Nossa conexão vem da juventude, selada pela descoberta de que dividimos o mesmo dia no calendário. Trabalhamos lado a lado na habitação, percorrendo lotes e selecionando lares para quem mais precisava. Francismeire sempre tratou o bem público com um zelo raro, mesclando dever com um olhar de profunda humanidade. Sua presença é capaz de embelezar o coração de quem a rodeia, inclusive o deste humilde escrevinhador. Feliz aniversário, querida Francismeire! 

Pedro Henrique: A Juventude que Inspira

Com menos de 30 anos, Pedrinho já carrega a sabedoria dos generosos. Convivemos há 14 meses na Secretaria de Meio Ambiente, tempo suficiente para eu confirmar o que todos dizem: ele é uma bênção. Sua disposição em servir, tratando cada cidadão como um irmão e estendendo a mão — e o próprio bolso — a quem precisa, é um testemunho de caráter. Pedrinho conquista o respeito pelo exemplo. Parabéns, meu amigo! 

Aos meus três companheiros de data, meu abraço fraterno. Que a nossa "ciranda" continue girando pelo mundo, espalhando o bem que cultivamos aqui. Feliz Aniversário para nós!

Brasilândia/MS, 28 de fevereiro de 2026.

Fotos: Facebook


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

 

Sob o Amparo do Jaleco e da Fé: Quando o Alívio tem Nome de Mulher

Carlos Alberto dos Santos Dutra


Naquela manhã de segunda-feira, o Hospital Beneficente Dr. Júlio César Paulino Maia não era apenas um prédio de alvenaria em Brasilândia; era o porto seguro para uma alma que carregava o peso de uma coluna travada e a memória de uma Quaresma recém-nascida. 

O QR Code na parede, moderno e frio, contrastava com o calor humano que emanava de pequenos gestos: o aceno gentil de quem, mesmo enfermo, oferecia-me um lugar para sentar. Mas eu permanecia de pé, como uma sentinela da própria dor, impedido pela rigidez de uma carne que se recusava a dobrar-se. 

Minha via crucis começara sob o signo das cinzas. Na Capela São José dos Jesuítas, as orações pela dignidade da moradia — “Ele veio morar entre nós” — ainda ecoavam em meu peito quando o corpo reclamou o seu próprio teto. As dores, bondosas em sua natureza divina, esperaram o amém final e a benção das mochilas para, só então, tomarem conta do meu ser na estrada da MS 395. Naquela noite, o sono foi um presente trazido pelas mãos de um enfermeiro e pelo zelo de minha esposa. 

Ao adentrar o hospital, vi o tempo caminhar. O som audível das chamadas no monitor narrava o progresso de uma saúde que se tornou direito, universal e equânime. Mas a verdadeira beleza não estava nos algoritmos, e sim no bailado dos jalecos azuis. Enfermeiras e atendentes, como notas musicais em uma partitura de urgências, distribuíam sorrisos que eram, por si só, o primeiro bálsamo da cura. 

E no centro dessa orquestra de cuidados, surgia a regente: a Doutora Priscila Vicentin.

Havia nela uma firmeza mansa. Ouviu meus lamentos, ponderou sobre minha pressão elevada e, com o olhar de quem enxerga além do prontuário, traçou o caminho para o meu alívio. 

Enquanto eu aguardava, entre soros e agulhas, vi a cena que a poesia da vida real reserva aos atentos: um homem, em desespero e amor, carregando nos braços uma senhora que gemia as dores do mundo.

Foi nesse instante que a medicina se despiu de protocolos para vestir-se de entrega. A Doutora não apenas receitou; ela agiu. Vi-a empurrar a cadeira de rodas, conduzir o oxigênio, liderar o cateter e caminhar à frente, como uma bússola em meio à tempestade alheia. Seu semblante não mudava diante da adversidade; era uma rocha de serenidade em um mar de aflições. 

Descobri, ali, que a saúde é um território que às vezes nos escapa, deixando-nos à mercê de mãos estranhas que, em minutos, tornam-se as mais familiares de nossas vidas. Quando a escrita — minha companheira de 40 anos — silenciou-se diante da dor, foi a dedicação da Drª Priscila que devolveu o ritmo ao meu pulsar. 

Nas mãos da doutora, não encontrei apenas a técnica de uma clínica de plantão, mas a sensibilidade de quem entende que curar um corpo é, antes de tudo, acalentar uma alma. Que Deus abençoe essas mãos que, em silêncio e luz, transformam hospitais em templos de recomeço. 

Brasilândia/MS, 20 de fevereiro de 2026. 

Foto: (20) Facebook

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

 

Quarta-feira de Cinzas, as árvores de guyacán e o chamado para voltar ao coração.

Por Daniel Castellanos, Gerente de Programas de Conversão Ecológica/Laudato Si.







Início da Quaresma, e no leste da Guatemala - parte do Corredor Seco da América Central - a estação seca já dura meses. O ar é sufocante e tudo parece sedento. Enquanto grande parte da vegetação sucumbe à seca, as árvores de guyacán (Guaiacum sanctum), desafiadoras, continuam verdes e adornadas com suas flores violetas. É justamente quando a paisagem está mais seca que os guayacáns exibem toda a sua beleza. 

Nesta época do ano, essas árvores estão entre os últimos refúgios para outros seres vivos. Seu segredo reside em sua profundidade: uma raiz principal mergulha verticalmente para acessar águas subterrâneas profundas. 

Entrando no segredo. O Evangelho desta Quarta-feira de Cinzas nos faz um convite claro: que a nossa esmola, oração e jejum sejam feitos do fundo do coração, em íntima comunhão com o Pai, “… e teu Pai, que vê no segredo, te retribuirá”. (Mt 6, 4). Diante da tentação de viver superficialmente, somos chamados a voltar ao coração. Como nos lembra o Papa Francisco na Dilexit Nos (2)é necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência. 

O guayacán sobrevive porque não é escravo da pressa. Seu crescimento lento, às vezes de apenas um milímetro por ano, se rebela contra o imediatismo. O Evangelho nos convida a ir às profundezas, onde encontramos a Fonte que nos permite permanecer firmes quando o deserto se intensifica. Jesus critica aqueles que buscam ser vistos, mas são secos por dentro.  O guayacán, por outro lado, não desperdiça energia crescendo rapidamente para impressionar ninguém e constrói sua força com uma sábia decisão metabólica: crescer para dentro em vez de para fora.  

Exercitar o coração. A Quaresma é um tempo privilegiado para fortalecer esse vínculo com o Criador e permitir que o coração, disperso e fragmentado, volte a se unificar. Na oração encontramos a Água Viva (Jo 4, 14) que sustenta nossa esperança quando as crises ecos sociais se agravam. No jejum, nos libertamos do supérfluo para dar espaço ao essencial. Na esmola, reconhecemos nossa interdependência e o fato de que a nossa vida ganha sentido quando oferecida como dom. 

O guayacán nos lembra que, mesmo na aridez, a vida é possível se estiver bem enraizada. Dessa sabedoria brota o apelo do Objetivo da Laudato Si’ desta semana: cultivar uma espiritualidade ecológica que nasce do coração, pois “somente retornando ao coração é que uma verdadeira conversão ecológica pode acontecer” (Papa Leão XIV). 

Voltar ao coração é um movimento que transforma a maneira como habitamos o mundo, ajudando-nos a distinguir entre o necessário e o supérfluo. A espiritualidade que brota do coração inevitavelmente conduz a uma vida mais sóbria, mais justa, em harmonia com os limites da criação. 

Limites que dão vida. O guayacán não cresce além de sua capacidade. Sua força reside não na expansão ilimitada, mas na autocontenção: em saber até onde crescer para continuar dando vida. O jejum de hoje consiste em aprender essa mesma sabedoria, rompendo com a inércia do “quanto mais, melhor” e caminhando em direção ao “menos é mais”. Trata-se de poder dizer livremente: “Tenho o suficiente para ser feliz”. 

Vivido dessa forma, tanto pessoal quanto socialmente, o jejum é um ato de justiça. Jejuamos daquilo que temos em excesso para que a Terra possa descansar e os necessitados possam ter o que precisam. Não é um sacrifício vazio, mas uma prática concreta de cuidado em um planeta finito, ferido pelo excesso e pela falta de moderação. Uma autocontenção como a do guayacán não significa recusar-se a viver, mas escolher uma vida que dê espaço aos outros. É o autodomínio a serviço da vida. 

O Coração do mundo. Finalmente, esse retorno ao interior nos revela que Cristo é o Coração do mundo (Dilexit Nos 31, 81). Seu Sagrado Coração é o princípio unificador de toda a realidade, o lugar onde a criação, a humanidade e o amor divino convergem. Retornar ao coração, portanto, significa retornar ao coração Dele. E amar o Coração Dele é, inevitavelmente, aprender a cuidar de tudo o que Ele ama. Por todas essas razões, vale a pena começar a Quaresma se perguntando sinceramente: O que desvia o meu coração daquilo que realmente dá vida, e como Deus me convida a retornar ao coração — o Dele e o meu?

 

Brasilândia/MS, 18 de fevereiro de 2026. Quarta-feira de Cinzas.

Fonte e Foto: Quarta-feira de Cinzas O chamado: voltar ao coração - Laudato Si' Movement.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

 

Oitavas para Jesús Hortal Sánchez SJ

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Era o outono de 1984. Sob os arcos da majestosa PUCRS, o tempo parecia suspender o fôlego. Naquelas naves de saber, entrelaçavam-se destinos: seminaristas de olhar atento, religiosos de hábito e leigos banhados pelo sol do interior ou pelo asfalto da capital, todos unidos sob o peso de um rito de passagem: o exame de Direito Canônico. 

Pelos corredores, o eco de passos firmes anunciava a chegada da autoridade. O Pe. Jesús Hortal Sánchez, jesuíta de alma universal e mente forjada na Pontifícia Universidade Gregoriana, aproximava-se. Ele não trazia apenas o saber de Roma; carregava nos ombros o prestígio de quem deu voz portuguesa ao Código da Igreja, traduzindo leis em caminhos para o seu povo.  

O mestre postou-se à frente, com o destino de cada aluno em um maço de papel. O ritual da entrega era uma lenta agonia de esperança. Para este que vos escreve, então um jovem seminarista da Diocese de Bagé, o silêncio tornava-se denso. O monte de papéis minguava e o meu nome não soava; a ansiedade soprava que o final da fila guardava apenas o desalento. 

Mas a realidade guardava um verso de luz.

Restavam apenas duas laudas na pasta do professor. Com um brilho raro no olhar, ele revelou: — Saibam que um de seus colegas ousou tecer críticas em versos na prova. Pela audácia e originalidade, eu os lerei. 

E ali, há mais de quatro décadas, a voz do mestre, tingida por seu inconfundível sotaque espanhol, deu vida àquelas rimas juvenis. Enquanto as palavras flutuavam pela sala, percebi que o rigor acadêmico se curvava à beleza da crítica literária. Pe. Hortal dedilhava o papel com uma satisfação mansa, perdoando os erros métricos em favor da alma que saltava das linhas. 

“Me perdoe seu Jesus / Mas não peca quem confessa / Vou dizer-te bem depressa / O que vai neste meu peito / Não repara o meu jeito / Algo de santo e maligno / Que às vezes até perde o tino / Mas não quer faltar o respeito / Hoje vou abrir o verbo / Sobre uma disciplina / Não julgando o que ela ensina / Julgo-a de mui valor / Acontece que um senhor / Tão competente e capaz / Faz do “direito” um az / Não dá chance ao perdedor / Toda a linguagem contesto: /Intimista e privada / Deixa toda a peonada / Naquela dicotomia / Um rezando Ave Maria / Outro vê o povo penando / Mas, os dois vão se aguentando / Vendo assim passar os dias / O “canônico” de casos / Todo mui longe do povo / É padre que bota ovo / Freira faceira, um tarado / Todos os exemplos dados / São na linha bem “freudiana” / Bota moral bem sacana / Ando até desorientado / Sonhava, exigência do padre / Luta, povo, mutirão / Não piadas de salão / De convento ou sacristia / O povo trabalha não ria / Come poeira na estrada / Para esta gente falta nada / “direito” pros nossos dias? / Mas Jesus não se alvorote / Que a paz é companheira / Saio logo da banheira / Que esta água é muito insossa / Pro povo toda mulher é moça / Que “casou”, ponto final / Pra que fazer temporal / Farisaísmos da roça? / Estamos mais interessados / Naquilo que o “direito” / Pode bota, de respeito / Nesta nossa sociedade / Que ajude a comunidade / E os cristãos na caminhada / Vamos todos de mãos dadas / Rumo ao Reino da igualdade / Pro arremate capitulo / Diante de minha ignorância / Mas meu Deus não tem importância / Faço o que posso estudando / Mas bem sei, Tu tá chamando / Não dentro das catedrais / Muito além destes vitrais / Lá tá Tu, pobre esperando”. 

As lembranças daqueles "anos de chumbo" hoje repousam em águas mais calmas, onde a Teologia da Libertação servia de âncora para que o Nazareno pudesse, enfim, caminhar sobre a terra firme da justiça. Agora, ao saber da Páscoa definitiva do meu mestre, ocorrida neste 2 de fevereiro de 2026, a saudade se faz prece. Mesmo de longe, inclino o pensamento para honrar o homem que fez da vida um magistério vivo, especialmente em sua jornada como reitor da PUC-Rio, onde deixou rastros de luz entre 1995 e 2010. 

As Edições Loyola guardam, em papel e alma, o eco de sua inteligência. Seus livros — do cuidado com o "O que Deus uniu" à esperança de que "Haverá um só rebanho" — não são apenas volumes em estantes; são sementes de um Direito que pulsa com coração pastoral. Sua produção intelectual permanece como um farol seguro, unindo o rigor da norma à ternura do Evangelho, guiando gerações que aprenderam com ele que a lei só faz sentido se servir à vida. 

A meros doze dias de completar seu centenário incompleto, o Pe. Jesús Hortal Sánchez, SJ (1927–2026) despede-se do tempo para entrar na eternidade. A comunidade acadêmica e religiosa silencia em gratidão por essa existência doada, por essa mente que colocou a erudição aos pés da fé. Ele partiu como viveu: sendo ponte, sendo mestre e, acima de tudo, sendo um fiel operário na vinha do Senhor.


Brasilândia/MS, 2 de fevereiro de 2026.

 

Foto: jesús hortal sánchez - Pesquisa Google; Fonte: Poesia publicada em DUTRA, C.A.S. Homenagens, pág. 15-16, Brasilândia, 2011. Padre Jesús Hortal Sánchez, ex-reitor da PUC-Rio, morre no Rio | G1