Quarta-feira de Cinzas, as árvores de guyacán e o chamado para voltar ao coração.
Por Daniel Castellanos, Gerente de Programas de Conversão Ecológica/Laudato Si.
Nesta
época do ano, essas árvores estão entre os últimos refúgios para outros seres
vivos. Seu segredo reside em sua profundidade: uma raiz principal mergulha
verticalmente para acessar águas subterrâneas profundas.
Entrando no segredo. O Evangelho desta Quarta-feira de Cinzas nos faz um convite claro: que a nossa esmola, oração e jejum sejam feitos do fundo do coração, em íntima comunhão com o Pai, “… e teu Pai, que vê no segredo, te retribuirá”. (Mt 6, 4). Diante da tentação de viver superficialmente, somos chamados a voltar ao coração. Como nos lembra o Papa Francisco na Dilexit Nos (2), é necessário recuperar a importância do coração quando nos assalta a tentação da superficialidade, de viver apressadamente sem saber bem para quê, de nos tornarmos consumistas insaciáveis e escravos na engrenagem de um mercado que não se interessa pelo sentido da nossa existência.
O guayacán sobrevive porque não é escravo da pressa. Seu crescimento lento, às vezes de apenas um milímetro por ano, se rebela contra o imediatismo. O Evangelho nos convida a ir às profundezas, onde encontramos a Fonte que nos permite permanecer firmes quando o deserto se intensifica. Jesus critica aqueles que buscam ser vistos, mas são secos por dentro. O guayacán, por outro lado, não desperdiça energia crescendo rapidamente para impressionar ninguém e constrói sua força com uma sábia decisão metabólica: crescer para dentro em vez de para fora.
Exercitar o coração. A Quaresma é um tempo privilegiado para fortalecer esse vínculo com o Criador e permitir que o coração, disperso e fragmentado, volte a se unificar. Na oração encontramos a Água Viva (Jo 4, 14) que sustenta nossa esperança quando as crises ecos sociais se agravam. No jejum, nos libertamos do supérfluo para dar espaço ao essencial. Na esmola, reconhecemos nossa interdependência e o fato de que a nossa vida ganha sentido quando oferecida como dom.
O guayacán nos lembra que, mesmo na aridez, a vida é possível se estiver bem enraizada. Dessa sabedoria brota o apelo do Objetivo da Laudato Si’ desta semana: cultivar uma espiritualidade ecológica que nasce do coração, pois “somente retornando ao coração é que uma verdadeira conversão ecológica pode acontecer” (Papa Leão XIV).
Voltar ao coração é um movimento que transforma a maneira como habitamos o mundo, ajudando-nos a distinguir entre o necessário e o supérfluo. A espiritualidade que brota do coração inevitavelmente conduz a uma vida mais sóbria, mais justa, em harmonia com os limites da criação.
Limites que dão vida. O guayacán não cresce além de sua capacidade. Sua força reside não na expansão ilimitada, mas na autocontenção: em saber até onde crescer para continuar dando vida. O jejum de hoje consiste em aprender essa mesma sabedoria, rompendo com a inércia do “quanto mais, melhor” e caminhando em direção ao “menos é mais”. Trata-se de poder dizer livremente: “Tenho o suficiente para ser feliz”.
Vivido dessa forma, tanto pessoal quanto socialmente, o jejum é um ato de justiça. Jejuamos daquilo que temos em excesso para que a Terra possa descansar e os necessitados possam ter o que precisam. Não é um sacrifício vazio, mas uma prática concreta de cuidado em um planeta finito, ferido pelo excesso e pela falta de moderação. Uma autocontenção como a do guayacán não significa recusar-se a viver, mas escolher uma vida que dê espaço aos outros. É o autodomínio a serviço da vida.
O Coração do mundo. Finalmente, esse retorno ao interior
nos revela que Cristo é o Coração do mundo (Dilexit Nos 31, 81).
Seu Sagrado Coração é o princípio unificador de toda a realidade, o lugar onde
a criação, a humanidade e o amor divino convergem. Retornar ao coração,
portanto, significa retornar ao coração Dele. E amar o Coração Dele é,
inevitavelmente, aprender a cuidar de tudo o que Ele ama. Por todas essas
razões, vale a pena começar a Quaresma se perguntando sinceramente: O que desvia o meu coração daquilo que
realmente dá vida, e como Deus me convida a retornar ao coração — o Dele e o
meu?
Brasilândia/MS, 18 de fevereiro de
2026. Quarta-feira de Cinzas.
Fonte e Foto: Quarta-feira de Cinzas O chamado: voltar ao coração - Laudato Si' Movement.

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