sexta-feira, 31 de julho de 2026

Memórias e Desafios do Ambientalismo em Brasilândia: O Grito Necessário do Instituto Cisalpina

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 

Relembro o ano de 2003. Ele foi profundamente marcante para a natureza e o meio ambiente de Mato Grosso do Sul, em especial para a nossa querida Brasilândia. Naquele período, após o enchimento do lago da Hidrelétrica Porto Primavera (posteriormente batizada com o nome do engenheiro Sérgio Motta), duas entidades pioneiras – Instituto Cisalpina e ASSOBRAA --, começavam a desbravar o imaginário popular da pequena cidade. 

Era um tempo de despertar. Diante dos novos desafios ecológicos, um grupo de jovens altruístas destacou-se na multidão e, com extrema responsabilidade e afinco, deu um passo decisivo em defesa da preservação ambiental. 

A primeira dessas façanhas históricas consolidou-se no dia 2 de agosto daquele ano. Cidadãos e técnicos de diversas áreas uniram-se pelo propósito de proteger a fauna e a flora da região. Numa rápida digressão histórica, recordo com orgulho que a assembleia de fundação reuniu mais de cem pessoas na antiga sede da Câmara Municipal, no centro da cidade. 

De forma brilhante e acolhedora, a comunidade elegeu a primeira diretoria do Instituto Cisalpina de Pesquisa e Educação Sócio Ambiental, confiando a presidência ao professor Carlos Alberto dos Santos Dutra, o popular Carlito. 

Durante aquele ato marcante, distribuímos à população cerca de 200 mudas de árvores nativas — como pau-brasil, murta, oiti, ipê-mirim e calistemo —, doadas pela Companhia Energética de São Paulo (CESP). O repasse foi viabilizado pela Secretaria Municipal de Agricultura, Desenvolvimento Econômico e Turismo, representada pelo então secretário e técnico em agropecuária Gilberto Silva, que também assumiu o cargo de diretor administrativo da nova entidade. 

O evento, que movimentou o cenário cultural local, contou com o prestígio dos vereadores Francisco Aparecido Lins (in memoriam), Carlos Amorim de Assis e Marcos Roberto Lopes. A Polícia Florestal também se fez presente por meio dos policiais Da Silva e Sabatini, representando o Capitão Monari, do Batalhão de Três Lagoas. 

O Instituto Cisalpina — que posteriormente incluiu em seus estatutos a Defesa do Patrimônio Cultural — nasceu com fôlego de onça. Suas ações iniciais ecoaram longe, levando educação ambiental às escolas públicas e fazendo ressoar o esturro da onça e o silvo da sucuri em favor da nossa biodiversidade. 

É preciso parabenizar a grandiosa trajetória desta entidade, que venceu o ceticismo de uma classe muitas vezes alheia às causas ecológicas, transformando conceitos e expandindo os horizontes de inúmeras crianças e jovens. 

O Instituto realizou dezenas de palestras e ciclos de cinema ambiental que lotavam o Centro Cultural Ramez Tebet. Exibições que iam desde o aclamado Avatar — que demandou três sessões devido à imensa procura — até documentários de forte teor crítico para o público adulto, como A Carne é Fraca e Lixo Extraordinário. 

Contudo, ao olhar para o cenário atual, não posso deixar de manifestar uma profunda preocupação de caráter institucional e pessoal, como autor e fundador. O Instituto Cisalpina hoje estendeu suas linhas de ação para o esporte e o atendimento veterinário de animais domésticos. Embora tais causas sejam nobres, essa dispersão de foco acabou por arrefecer o espírito de vanguarda que nos definia. 

Até o ano de 2022, o Instituto mantinha-se como uma força altamente combativa e ativa no debate ecológico regional. Hoje, a sobrevivência do ecossistema local parece repousar de forma quase solitária nos ombros da nova Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (criada na administração Márcia Amaral) e da também incipiente Associação Brasilandense de Fiscalização Ambiental (ABAFA). 

Elas resistem isoladas no clamor em defesa do Cerrado, dos pequis, dos palmitos e dos fragmentos remanescentes de Mata Atlântica e matas ciliares, que perdem espaço gradativamente para o avanço agressivo dos agrotóxicos e florestas plantadas. 

Como pioneiro e idealizador dessa história de vinte anos, entretanto, guardo comigo uma réstia de esperança e um desejo categórico: que o Instituto Cisalpina retorne às suas origens essenciais. É urgente que a entidade reassuma o papel de protagonista do ambientalismo responsável e combativo que a caracterizou até 2022. 

O município necessita que o Instituto restabeleça sua forte parceria com a Secretaria de Meio Ambiente e entidades como a ABAFA e instituições superiores de ensino de pesquisa como o seu nome ostenta, somando forças na elaboração de projetos de educação ambiental e implementação de políticas públicas que garantam a preservação real da nossa fauna, da nossa flora e de um meio ambiente urbano e rural genuinamente saudável.

Parabéns Instituto Cisalpina pela sua trajetória e pioneirismo que urge dar continuidade às suas ações e objetivos estatutários mais do que nunca no tempo que se chama hoje. É o que os ambientalistas de Brasilândia esperam e se propõem a apoiar.


Brasilândia/MS, 02 de agosto de 2026. 23º aniversário de fundação da Associação Instituto Cisalpina de Pesquisa e Educação Socioambiental e Defesa do Patrimônio Cultural, de Brasilândia. Mais informações In Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, 2020, Pág. 323-328. Disponível em História e Memória de Brasilândia/MS Vol. 2-Patrimônio - Em Cores, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores


















Fotos de 2006 (capa), 2005 (evento), 2013 (diretoria) e 2022(diretoria)











quarta-feira, 29 de julho de 2026

 

Do Sonho à Realidade: Uma Homenagem aos 29 Anos de Luta e Amor pela APAE de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 






Histórias que verdadeiramente transformam uma sociedade raramente começam com grandes recursos materiais; elas nascem do olhar atento, da empatia e da determinação de pessoas que se recusam a aceitar a invisibilidade do próximo.

A trajetória da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Brasilândia é o reflexo exato desse poder de transformação, construído a muitas mãos, mas impulsionado pela coragem inabalável de suas pioneiras. 

Tudo começou a ganhar forma em maio de 1996, quando uma ação conjunta entre os setores de Educação e Saúde trouxe a APAE de Três Lagoas para realizar a primeira triagem de portadores de necessidades especiais no município.

Na liderança desse passo inicial estava a professora Elídia de Almeida Martinez Soriano. Com recursos limitados e usando o telefone para conclamar a comunidade, a professora Elídia coordenou o mapeamento que identificou as primeiras 36 crianças que necessitavam urgentemente de cuidados específicos na região. 

A semente plantada em 1996 germinou e ganhou um reforço vital no início do ano seguinte. Em fevereiro de 1997, a professora Maria Rita Ferreira de Gusmão Santini, então coordenadora da Agência Educacional de Brasilândia, liderou uma reunião histórica que reuniu diversos segmentos da sociedade e secretarias municipais. 

O objetivo era claro: enfrentar de frente as dificuldades detectadas pelas técnicas da Unidade Interdisciplinar de Apoio Psicológico (UIAP), como as professoras Elídia e Nilce Costa Jardim, que lidavam diariamente com a falta de atendimento médico especializado e de espaço físico adequado para os alunos com deficiências visuais, mentais e auditivas.

Desse movimento popular e do clamor por dignidade, nasceu o Grupo Vida – Em Defesa da Pessoa Portadora de Deficiência, o embrião que culminou na fundação oficial da APAE de Brasilândia em 31 de julho de 1997. A primeira diretoria executiva consagrou a professora Elídia como presidente e a professora Maria Rita como segunda diretora secretária, eternizando o nome de ambas na base desta instituição.

Esta homenagem se estende também a todas as outras lideranças e colaboradoras que deram continuidade a esse legado de dedicação ao longo dos anos. Mulheres e profissionais admiráveis como Dora Corasini Antunes, Cleyde Dias Monteiro, Maria Helena Wilmers de Moraes, Aurelina Pereira dos Anjos, Nilce Costa Jardim, e as presidentes que sucederam a fundadora Elídia: a professora Ana Iva Corrêa Brum Barros, a professora Eunice Aparecida de Melo Perez, dona Antônia Pereira da Costa e Maria Inês Anselmo Costa, e seguintes. Cada uma delas doou seu tempo, intelecto e coração para erguer o que hoje conhecemos carinhosamente como APAE Florescer. 

O sucesso da instituição também ressalta a força da solidariedade brasilandense. Nos primeiros anos de extrema dificuldade, foram os colaboradores locais, o comércio da cidade e entidades parceiras — como o Rotary Club, a Loja Maçônica, a Destilaria Debrasa e o Banco do Brasil — que se uniram para pagar os primeiros aluguéis, doar móveis, computadores, cadeiras de rodas e viabilizar os primeiros atendimentos clínicos. 

Celebrar a história da APAE de Brasilândia é reconhecer que a inclusão se conquista com autonomia, afeto e responsabilidade coletiva. À professora Elídia, à professora Maria Rita e a cada voluntário, doador e profissional que dedicou sua vida a esta causa: o município de Brasilândia e todas as famílias beneficiadas guardam uma gratidão eterna pelo florescer de tantas vidas.

 

Brasilândia/MS, 31 de julho de 2026

Fonte: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia;/MS, Vol. II-Patrimônio, pág. 271-280.

Foto: APAE Facebook



terça-feira, 28 de julho de 2026

 

O Futuro de Brasilândia e o Equilíbrio Ambiental no Novo Plano Diretor

Carlos Alberto dos Santos Dutra






Na noite do dia 29 de julho próximo, um segmento importante da população de Brasilândia/MS estará reunido para apresentar sugestões à revisão do seu Plano Diretor. Nesta data, a administração pública, o seu secretariado e a população em geral estarão debruçados sobre o Plano Diretor da cidade com olhares novos. Mas o Secretário de Meio Ambiente, Carlito Dutra, não estará entre eles. Motivo: Encontra-se de férias. Ele deverá estar representado nesta Audiência Pública pelo Secretário Interino da Pasta, Pedro Henrique Coutinho do Vale.

Não obstante, manifesto-me neste artigo na condição de um cidadão comum que ama esta cidade e o verde de seu entorno. E também, porque é com as palavras que consigo melhor me comunicar. Neste caso, a revisão do Plano Diretor, evento de suma importância, pois dele depende o futuro sob vários aspectos de nossa comunidade.

Por dever de ofício no campo do Meio Ambiente, cumpre registrar que o Plano Diretor aprovado em 2016 estabeleceu, em seus artigos 3º e 7º, que o desenvolvimento urbano deve ser socialmente justo e ambientalmente equilibrado. No entanto, fomos acostumando a assistir na prática, ao longo dos anos, situações de desrespeito a suas diretrizes.

Historicamente, as administrações demonstram dificuldade em proteger o Meio Ambiente e frequentemente falham na salvaguarda do patrimônio público. Áreas verdes, por exemplo, que deveriam ser intocáveis por força de lei, são periodicamente desafetadas e entregues à construção civil imobiliária ou ao atendimento de interesses privados particulares.

Embora a atual administração se proponha de forma corajosa  a agir diferente e com respeito ao meio ambiente, outrora, os bosques naturais urbanos da nossa cidade — como a Chácara São João, no centro da cidade --, entre outros, que funcionam como verdadeiros pulmões e reguladores do clima, foram relegados à desproteção ficando à mercê da especulação. Com um mínimo de seriedade, essas áreas já poderiam ter sido desapropriadas e transformadas em Parques Urbanos de preservação.

O novo Plano de Diretor, em contrapartida, tem a oportunidade de corrigir distorções praticadas, entre elas o desvio de finalidade, inaceitável, nas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS) e de Interesse Ambiental (ZEIA). Esse cenário deverá ser uma das preocupações da competente equipe técnica e gestores da atual Administração na conformação do novo Plano Diretor em construção.

Arrisco a dizer que a Lei do novo Plano Diretor não deverá legalizar retrocessos ambientais e sociais já praticados. A título de sugestão, tomo a liberdade de elencar algumas propostas com a intenção de contribuir para a prática urbanística local que, ao longo dos últimos anos, demonstrou grave vulnerabilidade na proteção do patrimônio imobiliário público.

1º) A desafetação sistemática de áreas verdes, praças e sistemas de lazer para atender a interesses particulares, sob o pretexto de fomento à construção civil, desvirtuou o planejamento original de 2016. Bosques naturais e fragmentos de cerrado urbano vêm sofrendo forte pressão imobiliária, privando a população de espaços de regulação microclimática, lazer e preservação ambiental.

2º) Da mesma forma, áreas originalmente reservadas como ZEIS e ZEIA necessitam de blindagem jurídica imediata. A ausência de mecanismos rígidos permitiu o desvio de finalidade dessas regiões, prejudicando o atendimento ao déficit habitacional da população de baixa renda e acelerando a degradação de fundos de vale e de nascentes.

3º) No campo da legalidade, cumpre dizer que a vedação à desafetação atende ao Princípio da Proibição do Retrocesso Ambiental. Uma vez integrada ao patrimônio público como área verde por força de loteamento (Lei Federal nº 6.766/79), o espaço ganha uma vocação socioambiental comunitária intangível.

As alterações aqui propostas, de forma modesta, buscam garantir que a propriedade cumpra sua função social voltada à habitação de interesse social e à proteção do meio ambiente, conforme o texto original da própria norma municipal.

4º) Por derradeiro, propõe-se a destinação de 15% do Fundo Municipal da Cidade para a infraestrutura verde do município, via Fundo Municipal de Defesa do Meio Ambiente. Essa medida garantirá a exequibilidade financeira da lei, permitindo que o município promova desapropriações de bosques privados sem estrangular o orçamento corrente.

Além disso, o ideal seria buscar a nulidade de atos que desviem a função das ZEIS, assegurando a segurança jurídica e a justiça social para que o crescimento urbano ocorra de forma planejada, compacta e ordenada.

Estou confiante de que os integrantes da Comissão multidisciplinar responsável pela revisão do Plano Diretor saberão apreciar as sugestões apresentadas pela população na Audiência Pública. E com sua voz possam contribuir para a feitura de uma legislação capaz de  estancar a perda de ativos socioambientais públicos, corrigir distorções históricas na gestão imobiliária de Brasilândia e garantir um desenvolvimento local socialmente justo e ambientalmente equilibrado para as presentes e futuras gerações.

Desejo, de coração, antecipadamente, o pleno êxito deste importante evento de cunho comunitário proporcionado pelo governo democrático e participativo da administração Márcia Regina do Amaral Schio, e todo o seu esforço para tornar a nossa Brasilândia cada vez mais Empreendedora e mais Verde... Vivat viride!

Brasilândia/MS, 28 de julho de 2026.

sábado, 25 de julho de 2026

 

Os Passos que Inspiram a Caminhada: Uma Homenagem a Angélica Amado Penha Costa

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




Sair de férias, por menor que seja o período, é sempre uma oportunidade valiosa que a vida e o trabalho nos dão para romper a rotina. É o momento ideal para esquecer o corre-corre dos dias, soltar as amarras e experimentar a ventura de se deixar levar. Viajar para lugares distantes nos mostra o quanto de belo e diverso existe além dos olhos cotidianos que tantas vezes nos acomodam.

Contudo, a minha primeira parada neste descanso foi em um ambiente profundamente familiar: o universo da leitura. Os livros são meus companheiros inseparáveis; não saberia dizer o que seria de mim sem eles. 

Desde os 7 anos de idade, risco no papel minhas impressões sobre o mundo. Aos 9, publiquei meu primeiro livrinho reeditado em cópias datilografadas — primeiro em uma Remington portátil e, depois, na inigualável IBM de esfera que revolucionou a escrita nos anos 1970. 

De lá para cá, a produção editorial e o gosto pelas letras evoluíram, mas minha paixão permaneceu intacta. Foi com esse espírito que dediquei os primeiros dias de folga para mergulhar em uma obra literária muito especial.

A autora encontrava-se no portão da minha casa com um sorriso largo. Antes mesmo de acionar o interfone, eu a vi no momento exato em que estava de saída. Ela me entregou o livro e, com a voz embargada pela emoção, falou da alegria de publicar sua primeira obra.

Demonstrou ali sua admiração por mim e por minha esposa, que é professora e também escritora. Pude perceber a sinceridade em seus olhos e a grandiosidade de sua alma postadas bem à minha frente.

Esse sentimento transbordou quando li as palavras que ela declinou na dedicatória, escrita de próprio punho na orelha do livro Ainda estamos caminhando, de Angélica Amado Penha Costa (136 páginas, publicado em Campo Grande/MS pela Life Editora neste ano de 2026):

Vilma e Carlito. Para um casal que nos ensina, em silêncio, que o amor mais bonito não é o que faz alarde, mas o que permanece. Que a vida continue abençoando essa caminhada construída com respeito, cumplicidade e propósito. Que a dedicação de vocês à educação, à escrita, à proteção da natureza e à valorização dos povos indígenas continuem inspirando todos que cruzam os seus caminhos. Angélica.

O livro que se encontra em minhas mãos é o prêmio da jornada de uma vida em capítulos. Ao folhear a obra de Angélica — que atua profissionalmente em nossa cidade como cirurgiã-dentista —, o leitor é imediatamente conduzido por uma trilha de memórias marcadas por coragem, ousadia, leveza e amor que edificam.

É impossível não se emocionar com a desenvoltura da escrita e a profundidade do conteúdo pirilampo que a autora faz brotar do papel. Ela revela o aprendizado diário na construção de um lar, desde os primeiros madrigais ao lado do menino de 16 anos que segurou na sua mão no recreio e nunca mais soltou., até o desabrochar da vida. Mostra como superou o cansaço e o silêncio, semeando recomeços diários e pequenos gestos sempre com otimismo e fé.

O sumário do livro desenha a verdadeira geografia de sua alma: O começo; Construindo um lar; Ariquemes/MT e os anjos que a vida nos deu; Mãe, filha, recomeço; Escolhas, renúncias e crescimento; Joana e dias intensos; A coragem de mudar o mundo; Recomeçar do zero; Silêncios que revelam; Silêncios que pedem nome; Algumas informações sobre o Autismo; O sono que não era sono; Quando a gente vira filho de novo; A fé que sustenta; A Paz possível; Sobre o propósito de amar alguém que não enxerga o próprio brilho, e Não é o fim..., seguimos.

Na introdução, Angélica adverte com o coração aberto: Este livro nasceu das memórias que guardo no peito, do amor que constrói casas, do medo que ensina coragem, da fé que sustenta quando nada mais sustenta... Não escrevo como especialista. Escrevo como quem viveu. Se em algum momento você se reconhecer nestas páginas — numa filha, numa esposa, numa mãe, numa mulher cansada, mas persistente —, então essa história também é sua.

Termino a leitura profundamente tocado com o retrato de muitas vidas ali subentendidas. E sinto-me feliz pela vitória de Angélica, por sua coragem de dividir com tantas outras mulheres lições que vão muito além da pura resiliência: são lições de felicidade genuína. 

E com um final de gratidão, pois ela sabe exatamente onde está fincada sua própria essência: Sentada na frente de casa, o sol se pondo, meus filhos sorrindo na rua e o Dudu ao meu lado. Existe, porventura, felicidade maior? Depois de todo este aprendizado?

Parabéns, amiga Angélica Amado Penha Costa. Seu livro não é apenas o registro dos seus passos; ele é, verdadeiramente, o retrato espelhado de muitas vidas. E foste capaz de dividi-lo com aqueles que buscam construir sentido, mesmo quando o caminho não é como o planejado. Sim. Disseste bem. Porque o amar é isso: continuar caminhando... juntos. Obrigado. Deus a abençoe.

Brasilândia/|MS, 25 de julho de 2026. 

Dia do Escritor.

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

 

Memorial de Luz e Fé: Um Ano de Saudade e Esperança em Deus

Carlos Alberto dos Santos Dutra




 



No dia 21 de julho, André Paes de Oliveira completa 42 anos. Não está no nosso meio, mas nos braços de nosso Pai Celestial. Mas não é pelo fato dele não se encontrar mais conosco que vamos deixar de prestar-lhe nossas homenagens. Afinal, celebrar a vitória da vida sobre a morte e render graças a Deus por nos ter emprestado este anjo para viver entre nós, nos enche a todos de alegria e gratidão.

A Palavra de Deus nos lembra que o justo, ainda que morra precocemente, encontrará descanso (Sabedoria 4, 7). Pois bem, há pouco mais de um ano, no dia 7 de maio de 2025, o solo da criação que o André tanto amava e cuidava foi o cenário de sua última jornada entre nós. Para os olhos humanos, uma partida trágica; para os olhos da fé, foi o momento em que o Bom Pastor recolheu sua ovelha mais generosa.

André foi um homem de altar e de terra. Católico fervoroso, ele não guardava a fé apenas nas palavras, mas a traduzia em gestos concretos de caridade diária. O seu dízimo devolvido com alegria, as doações espontâneas à Santa Casa de Misericórdia, o carinho com que rezava o terço ao lado dos enfermos – tudo nele refletia a graça do seu Batismo, a força do seu Crisma e a comunhão com o Cristo que ele tanto amava.

Para os pais Geracina e seu Eliazel, que enfrentam a dor mais profunda que um pai e uma mãe podem carregar, o Senhor hoje diz: Não choreis como aqueles que não têm esperança (1 Tes. 4:13). As lágrimas de despedida daquele último abraço em novembro de 2024, ó mãe querida, se transformaram, no Céu, em um sorriso de acolhida eterna. Vocês geraram um homem justo, um filho que deu orgulho e honra à sua família, e essa missão foi plenamente cumprida.

Para você, Valdereza, o André continua sendo o seu porto seguro, agora eterno. O amor que nasceu na simplicidade da Chapada do Catingueiro não se desfez; ele se transfigurou. Olhe para o pequeno Pedro Lucas e veja ali a promessa de Deus se renovando. André vive no sorriso, nos olhos e no futuro do filho de vocês.

Para a irmã Andréia, para os tios Wilson e Nilton, para o padrinho Carlito e para cada amigo que conquistou, a vida do André deixa uma lição: a de que devemos trabalhar a terra com paixão, amar a família com devoção e manter o coração puro para quando o Senhor nos chamar.

Hoje, nossa oração não é de desespero, mas de profunda gratidão. Entregamos novamente o nosso André de volta ao relicário de Deus. Que Nossa Senhora, que também conheceu a dor de ver seu Filho partir, acolha cada coração partido e enxugue todas as lágrimas. Que a certeza da ressurreição acalme a nossa alma, até o dia em que, na eternidade, nos reencontraremos com ele na grande colheita do Céu.

Feliz aniversário, querido afilhado André. Descanse em paz.

Brasilândia/MS, 20 de julho de 2026.




domingo, 19 de julho de 2026

 

Os Mistérios do Coração e a Pedagogia da Paciência de Deus

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra





A liturgia da Palavra deste Domingo nos convida a entrar em um território profundo, íntimo e, às vezes, desconfortável: os mistérios do nosso próprio coração. Jesus, através da conhecida Parábola do Trigo e do Joio (Mt 13, 24-43), revela-nos a realidade das coisas escondidas, o mal que nos circunda e, acima de tudo, o perigo imenso da nossa própria intolerância diante da infinita paciência de Deus. 

O Joio Inesperado e o Parasita Oculto. O Evangelho nos mostra o espanto dos servos ao verem o joio crescer onde apenas sementes boas foram plantadas. Na antiguidade, o joio de que Jesus fala era o Lolium temulentum. Essa planta tem uma característica impressionante: em sua fase inicial, ela é visualmente idêntica ao trigo. Elas crescem juntas, confundem os olhos e entrelaçam suas raízes sob a terra. Mais do que isso, a ciência e a história nos ensinam que a ação intoxicante do joio não vem da planta em si, mas de um parasita, um fungo oculto que habita dentro dela e contamina a espiga. 

Trazer isso para a nossa vida espiritual e comunitária é um choque de realidade. O mal que nos circunda, e que muitas vezes nos fere, opera dessa forma: silencioso, disfarçado e infeccioso. E o pior: o joio inesperado costuma aparecer justamente quando estamos fracos, cansados, ou nas madrugadas da nossa alma, quando o inimigo aproveita o nosso sono para semear a discórdia. 

A Nossa Reação Humana. Diante do joio, qual é a nossa reação natural? É a mesma dos servos: queremos a erradicação imediata. Queremos arrancar o mal pela raiz! Quando nos deparamos com o "joio" em nós mesmos — o desânimo, a dúvida que surge do nada, o abalo na fé, o sentimento de vergonha e a impotência — nossa primeira reação é a revolta. Perguntamos a Deus: "A semente que o Senhor plantou em mim não era ótima? Por que nasceu esse joio no meu coração?" 

Essa mesma intolerância nós aplicamos aos outros. Somos fortemente tentados a condenar de imediato aqueles que se aproximam de nós e nos ferem, nos desiludem ou nos decepcionam. Quando alguém coloca a nossa fé ou a nossa paz em risco, nossa justiça humana clama por uma sentença rápida. Quantas vezes, em pensamento ou atitude, "condenamos ao inferno" pessoas que nos causaram mal? Fazemos isso sem dar a elas o tempo e a oportunidade da conversão. Somos severos, rígidos e impacientes. 

A Pedagogia de Deus. Mas Jesus nos freia. Diante do pedido dos servos para arrancar o joio, a resposta do Mestre é categórica: "Não! Para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele.". Jesus condena qualquer julgamento sumário. Por quê? Porque na dúvida, na pressa, a nossa reação humana é pautada pelo medo, pelo orgulho ou pelo desejo de vingança. Deus, em sua soberana sabedoria, cuida de todas as coisas com uma pedagogia que nós desconhecemos. Na fase de crescimento, o joio e o trigo se parecem. Só depois de adultos, na hora da colheita, eles se revelam pelos seus frutos. Se Deus agisse como nós agimos, muitos santos da nossa Igreja teriam sido arrancados antes de darem frutos, pois um dia foram joio. Pensemos em São Paulo, que perseguia cristãos; pensemos em Santo Agostinho. A paciência de Deus é o espaço que Ele dá para que o joio possa se transformar em trigo. Deus ama tanto o trigo que prefere tolerar o joio por um tempo a correr o risco de perder uma única espiga boa. 

Lição para a Vida. Qual é, portanto, a lição central para as nossas vidas hoje? Olhar para dentro e confiar no reino. Em primeiro lugar, não se preocupe tanto com a vida alheia. Não fomos chamados para ser os "juízes da colheita", fomos chamados para ser trigo. O julgamento pertence a Deus. Cada um receberá o seu próprio juízo no final dos tempos.

Em segundo lugar, cuide do seu próprio coração. O verdadeiro combate ao mal começa dentro de nós. Precisamos combater o mal interior para deixar o trigo da graça florescer. Em vez de gastar energia apontando o joio no campo do vizinho, olhemos para as nossas próprias raízes. Deixemos que a oração e a graça divina curem os nossos parasitas internos — o orgulho, a fofoca, a amargura, a injustiça. 

Hoje, no dia a dia da comunidade identificar o Joio Moderno que aflige os nossos corações é tarefa difícil. Isso porque ele pode se manifestar também no campo social com igual influência sobre todos nós. É o caso do Joio Digital que semeia em nossos corações a cultura do cancelamento e do julgamento rápido. Senão vejamos: as redes sociais tornaram-se o tribunal do mundo moderno.

Diante de um erro, de uma postagem ofensiva ou de um mal-entendido, a reação imediata da internet é "arrancar o joio": linchar virtualmente, expor, humilhar e cancelar a pessoa. Se olharmos para o Evangelho de hoje, podemos dizer que o “joio moderno se veste de justiça virtual.

Queremos destruir a reputação de alguém instantaneamente, sem dar tempo para a verdade aparecer, sem direito à defesa e sem espaço para o perdão. Agimos exatamente como os servos impacientes, esquecendo que o tribunal da internet destrói vidas (o trigo) na pressa de punir o erro.". 

Da mesma forma o Joio Familiar que semeia a intolerância nas relações diárias. Por exemplo: um filho que se afasta da Igreja, um cônjuge que passa por uma crise de fé ou de humor, ou um parente que comete um erro grave que envergonha a família. "Muitas vezes, o joio aparece dentro de nossa casa sob a forma de uma decepção. A nossa tentação é apontar o dedo, condenar, gritar ou nos afastar agressivamente. 

Esquecemos que aquela pessoa que nos feriu pode estar passando por um momento de fraqueza, intoxicada por dores que não conhecemos. A pedagogia de Deus nos pede paciência para amar e rezar por eles, esperando os frutos da conversão, em vez de expulsá-los de nossas vidas."

E ainda, aquele joio que acomete aqueles mais bem intencionados no coração da igreja:  o Joio Interior. Isto é, aquele católico que faz muitas coisas boas, trabalha na paróquia, ajuda os pobres, mas, por dentro, está cheio de soberba, vaidade, amargura ou ressentimento crônico. Aplicando o Evangelho podemos dizer: "Lembremos do Lolium temulentum: ele se parece com o trigo por fora, mas está intoxicado por um parasita por dentro. 

O joio moderno mais perigoso é o que guardamos no coração. Podemos parecer cristãos perfeitos externamente (trigo), mas se estivermos habitados pelo parasita da hipocrisia, da mágoa ou do desejo de vingança, nossa vida se torna tóxica para os irmãos. Precisamos da graça de Deus para purificar o que está escondido em nós.". 

Deus é paciente e amoroso para com todos. Ele nos dá o tempo necessário para que possamos amadurecer e integrar plenamente o Seu Reino, mesmo que para isso tenhamos de passar pelo processo longo da vida até o Juízo Final. Nesta Celebração (16º domingo do tempo comum) peçamos ao Senhor o dom da paciência — para com os outros e para conosco. 

Que a mesa do Altar e da Palavra nos nutra, para que sejamos trigo limpo, forte e gerador de vida, confiando que o Senhor da colheita sabe perfeitamente guiar a história e salvar os Seus filhos.

 

Capela São Vicente de Paulo e Igreja Matriz da Paróquia Cristo Bom Pastor, Brasilândia/MS, 19 de julho de 2026.

 

 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

 

Sementes da Terra: A Trajetória de Luta e Resiliência dos Pioneiros da APASF

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




Celebrar a história da APASF (Associação de Produtores Agroecológicos de Subsistência Familiar) é resgatar uma trajetória profunda de união, suor e persistência no coração do município de Brasilândia. Fundada em 19 de julho de 2003, a associação nasceu no Reassentamento Santana com uma missão nobre: defender os direitos sociais e impulsionar o desenvolvimento da produção agroecológica e comunitária. Olhar para trás e lembrar de cada homem e mulher que colocou as mãos na terra para erguer essa história é prestar uma justa homenagem aos verdadeiros pioneiros da agricultura familiar da nossa região.

O Começo de Tudo: Os Primeiros Passos e Líderes. O caminho da cooperação começou a se consolidar formalmente em 15 de junho de 2004, com a aprovação do estatuto social e a eleição da primeira diretoria. Sob a liderança do primeiro presidente, João Batista do Nascimento, ao lado do vice-presidente João Pereira da Silva, e de nomes fundamentais como José da Silva Pinto, José Luiz Petelinkar, José Etinho de Souza e Maria Aparecida de Oliveira, a APASF ganhou estrutura e voz. No conselho fiscal, o compromisso foi fortalecido por titulares e suplentes que zelaram pelos primeiros passos coletivos da organização.

A conquista do primeiro espaço físico ocorreu com a cessão de um barracão de alvenaria de 220 metros quadrados e uma área de 15 hectares. Foi nesse pedaço de chão que a entidade firmou suas raízes, plantando, cultivando e comercializando o fruto do trabalho familiar, abrindo as portas também para os primeiros financiamentos coletivos e sonhos que transformariam a comunidade.

A Luta por Dignidade e Infraestrutura Básica. A história desses pioneiros nunca foi marcada pela facilidade. Em 2004, demonstrando uma forte consciência política e coletiva, um grupo de 37 proprietários de lotes dos Reassentamentos Santana e Santa Emília uniu-se para reivindicar o básico. Representados pela diretoria da associação, recorreram ao Ministério Público para garantir o direito de opinar sobre os rumos de recursos bloqueados, buscando direcioná-los para investimentos essenciais na própria comunidade.

Eles recordavam às autoridades que a implantação da infraestrutura básica vinha se arrastando desde o ano 2000. A água, essencial para a vida e para a lavoura, dependia de caminhões-pipa abastecidos por um poço perfurado. Faltava energia elétrica para cerca de 30% do reassentamento e um sistema definitivo de abastecimento hídrico. Essa mobilização inicial mostrou que a APASF ia muito além da produção: era um instrumento de luta por cidadania e dignidade.

O Caso das Queixadas: Resiliência Diante da Natureza. Ao longo dos anos, novas diretorias assumiram o bastão para dar continuidade ao trabalho, como a segunda gestão liderada novamente por João Batista do Nascimento, e a terceira, presidida por José Luiz Petelinkar. Foi durante esses anos de consolidação que a comunidade enfrentou provações que testaram a sua união, como o marcante Caso das Queixadas em janeiro de 2009.

Na madrugada do dia 13 de janeiro daquele ano, uma manada de queixadas (porcos-do-mato) vinda de uma reserva ambiental vizinha invadiu a plantação de mandioca de João Brito de Souza, então presidente da associação, destruindo grande parte de sua roça. Diante do enorme prejuízo financeiro e da ameaça à subsistência, a resposta da comunidade não foi o isolamento, mas a coletividade. Uma assembleia extraordinária reuniu 37 associados, técnicos agrícolas e defensores ambientais para buscar soluções integradas e cobrar dos responsáveis novas cercas e um manejo adequado para os animais. Esse episódio eternizou o espírito de mútua ajuda que define a associação: a dor de um produtor era a dor de todos.

Um Legado de Utilidade Pública. Todo esse esforço e dedicação foram oficialmente reconhecidos em 11 de junho de 2010, quando a APASF foi agraciada com a declaração de utilidade pública municipal através da Lei nº 2356/10. Essa conquista foi o selo de que a batalha travada nos reassentamentos Santana e Santa Emília gerou frutos que beneficiaram toda a sociedade de Brasilândia.

A caminhada seguiu forte, alcançando a quarta diretoria em 2013 sob a liderança de assembleias participativas coordenadas por nomes como Jorge Luiz da Silva e o próprio João Brito de Souza.

Hoje, ao celebrar mais de duas décadas de história, prestamos nossa sincera homenagem a cada pioneiro, parceiro, trabalhador e líder que transformou a APASF em um símbolo de resistência da agricultura familiar. Que a coragem daqueles que começaram em 2003 continue a inspirar as futuras gerações a proteger a terra, valorizar a agroecologia e manter viva a força da nossa comunidade.


 Brasilândia/MS, 18 de julho de 2026

Fonte: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, vol. II-Patrimônio, pág. 338s.