Sob o Amparo do Jaleco e da Fé: Quando o Alívio tem Nome de Mulher
Carlos Alberto dos Santos Dutra
Naquela manhã de segunda-feira, o Hospital Beneficente Dr. Júlio César Paulino Maia não era apenas um prédio de alvenaria em Brasilândia; era o porto seguro para uma alma que carregava o peso de uma coluna travada e a memória de uma Quaresma recém-nascida.
O QR Code na parede, moderno e frio, contrastava com o calor humano que emanava de pequenos gestos: o aceno gentil de quem, mesmo enfermo, oferecia-me um lugar para sentar. Mas eu permanecia de pé, como uma sentinela da própria dor, impedido pela rigidez de uma carne que se recusava a dobrar-se.
Minha via crucis começara sob o signo das cinzas. Na Capela São José dos Jesuítas, as orações pela dignidade da moradia — “Ele veio morar entre nós” — ainda ecoavam em meu peito quando o corpo reclamou o seu próprio teto. As dores, bondosas em sua natureza divina, esperaram o amém final e a benção das mochilas para, só então, tomarem conta do meu ser na estrada da MS 395. Naquela noite, o sono foi um presente trazido pelas mãos de um enfermeiro e pelo zelo de minha esposa.
Ao adentrar o hospital, vi o tempo caminhar. O som audível das chamadas no monitor narrava o progresso de uma saúde que se tornou direito, universal e equânime. Mas a verdadeira beleza não estava nos algoritmos, e sim no bailado dos jalecos azuis. Enfermeiras e atendentes, como notas musicais em uma partitura de urgências, distribuíam sorrisos que eram, por si só, o primeiro bálsamo da cura.
E no centro dessa orquestra de cuidados, surgia a regente: a Doutora
Priscila Vicentin.
Havia nela uma firmeza mansa. Ouviu meus lamentos, ponderou sobre minha pressão elevada e, com o olhar de quem enxerga além do prontuário, traçou o caminho para o meu alívio.
Enquanto eu aguardava, entre soros e agulhas, vi a cena que a poesia da
vida real reserva aos atentos: um homem, em desespero e amor, carregando nos
braços uma senhora que gemia as dores do mundo.
Foi nesse instante que a medicina se despiu de protocolos para vestir-se de entrega. A Doutora não apenas receitou; ela agiu. Vi-a empurrar a cadeira de rodas, conduzir o oxigênio, liderar o cateter e caminhar à frente, como uma bússola em meio à tempestade alheia. Seu semblante não mudava diante da adversidade; era uma rocha de serenidade em um mar de aflições.
Descobri, ali, que a saúde é um território que às vezes nos escapa, deixando-nos à mercê de mãos estranhas que, em minutos, tornam-se as mais familiares de nossas vidas. Quando a escrita — minha companheira de 40 anos — silenciou-se diante da dor, foi a dedicação da Drª Priscila que devolveu o ritmo ao meu pulsar.
Nas mãos da doutora, não encontrei apenas a técnica de uma clínica de plantão, mas a sensibilidade de quem entende que curar um corpo é, antes de tudo, acalentar uma alma. Que Deus abençoe essas mãos que, em silêncio e luz, transformam hospitais em templos de recomeço.
Brasilândia/MS, 20 de fevereiro de 2026.
Foto: (20) Facebook

















































