Brasilândia,
meu Brasil!
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra
Brasilândia,
meu Brasil!
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra
A tentação de seguir Cristo sem a cruz.
Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra
Olhando para a nossa igreja hoje, vendo o rosto de cada um, sei que muitos vieram aqui trazendo cansaço. A vida não é fácil. Trabalhar o mês inteiro, cuidar da família, pagar as contas e ainda ver o mundo do jeito que está, cheio de divisões e brigas, pesa nos nossos ombros.
No Evangelho de hoje, Jesus fala diretamente para essa nossa realidade. Ele nos faz um convite que choca, mas que salva: "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me".
O que significa isso na nossa vida simples de cada dia?
Significa escolher o caminho de Deus em um mundo que nos empurra para o lado oposto. Hoje, vivemos divididos. Parece que fomos esquecendo como caminhar juntos.
De um lado, estão as coisas de Deus: o amor, o perdão, a partilha, a paciência. Do outro, estão as coisas do mundo: o egoísmo, o querer ter razão a todo custo, o pisar nos outros para subir na vida.
Jesus nos avisa com clareza: de que adianta o homem ganhar o mundo inteiro, ter dinheiro, fama, curtidas na internet, se ele perder a sua alma? Se ele perder a sua paz, a sua família e a sua salvação? Ganhar o mundo e perder a vida é o grande engano dos nossos tempos.
Pedro, no Evangelho, tentou desviar
Jesus do caminho do sofrimento. Ele pensava como o mundo pensa: "Evita a
dor, busca o que é fácil". E Jesus o repreendeu fortemente. Às vezes, nós
agimos como Pedro. Queremos um Deus que resolva nossos problemas, mas não
queremos o compromisso de viver como Ele viveu.
Renunciar a si mesmo não é se destruir. É deixar de lado o nosso orgulho, o nosso egoísmo, a nossa mania de julgar o vizinho. Tomar a cruz é aceitar os desafios de fazer a coisa certa, mesmo quando todo mundo ao redor está fazendo a coisa errada.
Mas fazer a coisa certa hoje dá trabalho. É aí que entra o profeta Jeremias, na primeira leitura. Ele dizia algo que muitos de nós sentimos na pele: "Sempre que falo, tenho que clamar contra a maldade... e por causa disso, a palavra do Senhor virou para mim fonte de vergonha e deboche". Jeremias se sentia sozinho. Ele olhava ao redor e ver que o povo não queria ouvir a verdade.
Quem tenta ser um cristão de verdade hoje passa pelo mesmo que Jeremias. Se você decide não falar mal da vida alheia na roda de amigos, se você escolhe ser honesto no trabalho enquanto outros passam a perna, se você defende a paz em vez de alimentar o ódio nas redes sociais, muitas vezes você é apontado. Riem de você. Chamam você de bobo, de careta. O testemunho cristão virou motivo de deboche para o mundo. É uma cruz pesada.
Mas Jeremias também nos dá o
segredo para não desanimar. Ele diz que tentou esquecer Deus, tentou não falar
mais no Seu nome para não sofrer.
Mas a Palavra de Deus virou um fogo ardente no peito dele, uma força presa nos ossos que ele não conseguia segurar. É esse fogo que precisamos pedir ao Espírito Santo hoje. Que o nosso amor por Jesus seja maior do que o medo do que os outros vão falar.
Meus irmãos, a nossa vida é um caminho de seguimento. Não tenham medo da cruz de ser bom, de ser justo, de ser misericordioso. O mundo oferece um caminho largo, bonito, que promete felicidade fácil, mas que deixa o coração vazio e o mundo polarizado, dividido e violento. Jesus nos oferece a vida verdadeira.
Nesta semana, quando o egoísmo bater à porta, quando a vontade de brigar ou de julgar for maior, lembrem-se: renunciar a si mesmo é dar espaço para Deus agir. Tomar a cruz é abraçar o amor que salva.
Que o Senhor nos dê a coragem de Jeremias e a fidelidade dos santos, para que não queiramos ganhar o mundo, mas sim ganhar a vida eterna ao lado Daquele que nos ama. Amém.
Brasilândia/MS, 30 de agosto de 2026
Homilia Dominical - Mateus 16,21-27
22º Domingo do Tempo Comum, Ano Litúrgico A.
Dia Nacional do Perdão.
Política e
Eficiência: O desafio da governança nas pequenas cidades - Parte 2.
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra (1)
Na primeira parte deste artigo, discutimos a possibilidade de se obter equilíbrio entre a legitimidade político-ideológica e a eficiência técnica na gestão municipal. Esse objetivo pode ser alcançado por meio do monitoramento, ferramenta que viabiliza medir, mediante indicadores, se as decisões tomadas beneficiam o município de forma universal ou se atendem apenas a interesses parciais de grupos de sustentação econômica.
No campo teórico — embora perfeitamente aplicáveis à prática —, esses indicadores podem apontar caminhos quando observados a partir de dimensões estratégicas que facilitam o entendimento e a execução desse monitoramento:
A primeira dimensão é a da Eficiência e Entrega Técnica, por meio da qual se avalia se a máquina pública mantém sua capacidade operacional independentemente de pressões políticas. Isso pode ser mensurado, por exemplo, pelo percentual de execução orçamentária, ou seja, pelo volume de recursos efetivamente gastos em relação ao planejado para o ano. Deve-se atentar, ainda, para a taxa de entrega das obras e ações programadas na lei plurianual, bem como para o percentual da receita própria destinado a novos investimentos, e não apenas ao custeio da máquina administrativa.
Uma segunda dimensão auxiliar é a da Governança e Transparência, que avalia a blindagem institucional contra o favorecimento indevido de correntes econômicas apoiadoras. Como indicadores, citam-se a proporção de contratos celebrados por concorrência ampla — reduzindo-se o uso de dispensa de licitação ou de cartas-convite —, o percentual do orçamento municipal pago a empresas ligadas aos grupos de sustentação econômica, a aderência à Lei de Acesso à Informação (LAI) e o número de decisões efetivas tomadas pelos conselhos de desenvolvimento, saúde ou educação e outros.
A terceira dimensão a ser observada é a da Política e Representatividade, que mede a capacidade do secretariado de manter a governabilidade e o diálogo aberto com a sociedade civil. Monitora-se, neste aspecto, a distribuição geográfica dos recursos públicos para evitar que apenas regiões de interesse dos apoiadores recebam melhorias; o tempo médio de permanência dos secretários nos cargos (visto que a alta rotatividade indica instabilidade política ou técnica); o percentual de projetos do Executivo aprovados pela Câmara de Vereadores sem crises institucionais; e o volume de investimentos definidos por consulta popular direta.
Por fim, há a dimensão da Profissionalização
Administrativa, que avalia o peso do mérito técnico em relação às
indicações políticas (fisiologismo). A atenção, aqui, deve voltar-se para o
percentual de funções de chefia ocupadas por funcionários de carreira
qualificados, o percentual de secretários com formação acadêmica ou experiência
prévia comprovada na área da pasta e a frequência de trocas em setores
sensíveis, como comissões de licitação, procuradoria e finanças.
Esses indicadores podem, sem dúvida, ser transformados em ferramentas úteis e práticas para a realidade de pequenas cidades que almejam o desenvolvimento. Contudo, a sua implementação e observação devem ocorrer no âmbito de cada secretaria municipal.
Tomando como exemplo ilustrativo o campo das ideias, apontaremos alguns indicadores que poderão ser úteis quando colocados em prática por uma secretaria de nossa cidade.
Mas isso o faremos no próximo artigo.
Brasilândia/MS, 29 de agosto de 2026
Dia Mundial de Combate ao Fumo
(1) https://www.escavador.com/sobre/2022269/carlos-alberto-dos-santos-dutra.
Memórias sob a Chuva: a AMDE no Distrito Debrasa. Homenagem a Neusivan Fonseca do Nascimento.
Por Carlos Alberto
dos Santos Dutra

Há histórias que o tempo teima em apagar, mas que a força da memória insiste em trazer de volta. Longe dos grandes centros urbanos, a 55 quilômetros da sede do município de Brasilândia, o distrito de Debrasa guarda os vestígios de uma época em que o associativismo e a cidadania pulsavam intensamente. Ali, no dia 28 de agosto de 1997, nascia a Associação de Moradores do Distrito Debrasa (AMDE), uma entidade modesta em recursos, mas gigante em propósitos.
Naquela época, a
economia regional vivia o auge do ciclo da cana-de-açúcar. Sob o lema
inspirador “Quem não segue o rumo, não chega ao seu destino”, a
AMDE marcou época. Seu primeiro presidente, o Sr. Neusivan Fonseca do
Nascimento — policial militar e atuante membro da Pastoral da Criança —,
liderou um processo democrático exemplar. As eleições da entidade, como a
concorrida disputa de 2001, mobilizavam a comunidade de casa em casa, com
distribuição de santinhos e debates francos sobre o futuro local. Era o
exercício mais puro da cidadania como motor de desenvolvimento.
Contudo, a
trajetória das organizações comunitárias raramente segue uma linha reta. Elas
são construídas aos pedaços, tijolo por tijolo. E lidar com tijolos deixa
marcas profundas, do alicerce ao topo das paredes. Muitas vezes, quando o
prédio parece finalmente consolidado, tempestades políticas ou administrativas
põem tudo abaixo, deixando um rastro de frustração e abandono.
Com a AMDE não foi
diferente. Dez ano após a sua fundação, ao visitar sua antiga sede na Rua Jaime
Pastick, nº 3, deparei-me com um cenário que aperta o peito. O prédio outrora
vibrante repousava em ruínas, sitiado pelo capim, muros caídos e árvores
tombadas. Folhas soltas de documentos bailavam ao vento pelo chão batido.
A chuva fina que
penetrava o telhado danificado ia, aos poucos, destruindo armários e caixas
repletas de papéis empoeirados. São ofícios expedidos e recebidos, redigidos
por mãos zelosas de homens e mulheres voluntários, sonhadores e, talvez,
utópicos, que doaram suas vidas pela coletividade e acabaram esquecidos pelo
poder público.
Como historiador,
assumi naquele momento a missão de resgatar alguns desses escritos antes que a
umidade e o tempo os consumissem por completo. Dizia para mim mesmo: --faço
isso para fazer justiça, ainda que tardia, ao legado de Neusivan Fonseca do
Nascimento. Pelos documentos e pela produção intelectual que ele deixou,
confirma-se o perfil de um jovem líder que, se tivesse permanecido na região,
hoje seria um forte quadro na política institucional de Brasilândia.
Divulgar essas
memórias, em livros e também pelas redes sociais, é provar que existiram
pessoas dedicadas a causas coletivas em tempos onde a voz do "ter"
frequentemente abafa a importância do "ser".
Mesmo que o lixo e
o esquecimento tentem consumir essas cartas, as sementes da solidariedade e da
irmandade foram plantadas. Ao homenagear a saudosa AMDE neste Dia Nacional do
Voluntariado, estendo o reconhecimento a tantas outras associações comunitárias
que nascem e morrem no anonimato, mas que transformaram para melhor a realidade
dos mais simples. Os nomes podem ser esquecidos, mas alguém, no futuro, sempre
voltará a empunhar essas mesmas bandeiras.
Brasilândia/MS, 28
de agosto de 2026.
O Renascer do
Saber: A Importância da Reabertura da Biblioteca Municipal Profª Abadia
dos Santos em Brasilândia/MS
Carlos Alberto dos
Santos Dutra
É com grande entusiasmo e alegria que este escrevinhador e a comunidade de Brasilândia celebra a regulamentação e a reabertura da Biblioteca Pública Municipal Professora Abadia dos Santos.
Mais do que um
simples depósito de livros, a biblioteca se reafirma como um pilar essencial
para a democratização do conhecimento, o incentivo à pesquisa e o
fortalecimento educacional de nossa população.
Parabenizamos
calorosamente a Secretaria Municipal de Educação e Cultura e
sua Coordenadoria de Cultura pela dedicação na coordenação administrativa e
operacional deste equipamento público.
Graças a esse
empenho institucional, o município volta a ganhar um ambiente, em que pese,
temporário, totalmente renovado e estruturado para acolher estudantes,
pesquisadores e todos os apaixonados pela leitura.
Para a alegria dos
amantes do saber, a biblioteca estará atendendo em um novo endereço: na Rua
Deocleciano da Fonseca, nº 1270, Bairro Jardim Mão Amiga. O espaço irá funcionar
das 07h00 às 11h00, consolidando-se como o cenário perfeito para
quem busca mergulhar na literatura infantil, juvenil, adulta e indigenista,
além de obras de autores locais e regionais.
Um dos grandes
diferenciais dessa nova fase é a sensibilidade da Administração Municipal em
valorizar a nossa identidade. Tudo indica que a SEMEC reservou um espaço
especial nas dependências da biblioteca para abrigar o acervo do museu
municipal. Esse ambiente, enriquecido por peças históricas doadas com
carinho pelos próprios moradores, resgata e preserva de forma viva a memória e
a evolução cultural de Brasilândia.
A reabertura da
Biblioteca Profª Abadia dos Santos é um marco cultural e social para nossa cidade. Sinta-se convidada comunidade escolar e público em geral de Brasilândia para prestigiar
esse novo capítulo da nossa história e desfrutar de toda a riqueza que este
espaço tem e pode oferecer!
Parabéns Brasilândia. Parabéns Administração Municipal da Cidade Esperança.
Brasilândia/MS, 24
de agosto de 2026.
Dia do Artista.
Em homenagem a todas as pessoas que dedicam suas vidas a cultivar o sentimento do belo e a expressar ideias: cantores, compositores e instrumentistas; atores, bailarinos e artistas de circo; pintores, escultores e desenhistas; escritores, poetas e contadores de histórias; diretores, fotógrafos e cineastas, e artesãos que criam peças únicas.
Política e
Eficiência: O desafio da governança nas pequenas cidades - Parte 1.
Carlos Alberto dos
Santos Dutra (1)
Conciliar a
política com a eficiência administrativa em municípios pequenos é um dos
maiores desafios de qualquer gestão pública. Nestas cidades os prefeitos
dependem do apoio de diferentes forças econômicas para governar. Nesse cenário,
os secretários municipais precisam equilibrar a lealdade política com a entrega
de resultados reais à população.
Para entender como
essa engrenagem funciona na prática, quatro teorias clássicas ajudam a iluminar
o caminho.
A primeira
pode ser resumida assim: a gestão está de olho! Formulada por Michael
Lipsky, a teoria da Burocracia de Nível de Rua estuda quem
trabalha na ponta do serviço público. Em cidades pequenas, os secretários atuam
diretamente na rua. Eles conhecem os moradores e são observados por eles o
tempo todo. Esses gestores têm liberdade para humanizar o atendimento e mediar
pressões políticas, mas sempre respeitando as leis.
A segunda é o Governo em Rede, teoria da Governança Pública, de Jan Kooiman e R.A.W. Rhodes, que mostra que a prefeitura não governa sozinha. Ela funciona melhor quando inserida em redes de cooperação. O segredo do sucesso é transformar o apoio financeiro de grupos privados em parcerias público-privadas benéficas para toda a comunidade.
A terceira busca
criar valor para todos. É a Nova Governança Pública proposta por Stephen
Osborne, que defende que a gestão deve superar a rigidez burocrática e o
foco puramente comercial. O objetivo é fazer com que setores fortes — como o
agronegócio, o comércio local e o cooperativismo — colaborem no desenho das
políticas públicas. O papel do secretário deixa de ser atender a
um grupo e passa a ser gerar valor coletivo com a
ajuda deles.
E por fim, a teoria da do controle e da transparência, que é a da Escolha Pública e da Agência, de James Buchanan e Gordon Tullock, onde alertam que os atores políticos também buscam defender seus próprios interesses. Para evitar desvios, a gestão precisa criar mecanismos rígidos de controle. Contratos de gestão bem amarrados e portais de transparência robustos garantem que, independentemente da ideologia, o secretário seja obrigado a entregar um trabalho eficiente e assim por diante.
Então? Como medir o sucesso de uma gestão? O grande desafio é saber se as decisões do governo beneficiam a cidade inteira ou apenas os grupos que apoiaram a eleição. Para descobrir isso, o monitoramento deve focar em áreas essenciais da administração.
Mas isso, veremos no próximo artigo.
Brasilândia/MS, 22
de agosto de 2026.
Dia do Folclore
Brasileiro
(1) https://www.escavador.com/sobre/2022269/carlos-alberto-dos-santos-dutra.
No dia
11 de maio de 2010 redigi uma carta ao amigo Padre Alex José Kloppenburg, um hulha-negrense tornado pedritense da pampa gaúcha, comentando
um artigo que ele me enviou e que havia sido publicado na coluna do Juremir
Machado no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre-RS, em 27 de abril de 2010 (1).
Dizia eu na ocasião: Conheci Palomas há 40 anos. Não conheço Juremir pessoalmente, esse poeta das letras e da sensibilidade. Parabéns pelo texto. Mas, quem és tu Juremir, se me permite? E o que andas escrevendo na ânsia de nos alimentar a saudade e as vergas que cruzam o peito? Deixando inquieto esse quera aqui distante do Cacequi?.
Eis a crônica TRISTEZA EM PALOMAS.
De Juremir Machado da Silva (2) que tomo a liberdade de reproduzir aqui.
Quando
eu era criança, Palomas era o meu universo. O mundo começava logo depois do
cerro.
Era
o desconhecido. Pouco antes do grande morro, está o cemitério branco, num alto.
Era um divisor. Chegávamos até perto dali. Ao avistar os túmulos, mortos de
medo, disparávamos de volta para a vila. Em "Cai a noite sobre
Palomas", conto uma história da qual tive de me lembrar recentemente.
Fui
buscar as vacas ao final da tarde. Depois de muito procurar, concluí que
estavam para o lado do cemitério. Bati com a vara de alecrim nas ancas do
cavalo. A noite vinha caindo muito rápido. De repente, vi um vulto todo branco
balançando em frente ao cemitério. Desabalei. Poucas vezes senti tanto medo,
salvo, talvez, outra vez, em Paris, no hotel Home Latin, quando temi
enlouquecer.
O
matungo chegou estafado ao povoado. Não encontrei ninguém para me queixar ou
para voltar comigo. Fiquei com medo do meu pai. Afinal, não trouxera as vacas.
Enchi-me de uma coragem que não tinha e segui para o cemitério. Aproximei-me do
vulto que balançava ao vento. Era um enorme caraguatá com flores brancas. Morri
de vergonha.
Palomas
era a fonte, o nascimento, a infância, os campos sem fim, os belos cerros
distantes e os seres estranhos que transformei em personagens, acrescentando
ficção ou cortando o inverossímil por excesso de verdade.
Nunca
me esquecerei do primeiro enterro que vi no cemitério de Palomas, numa tarde de
inverno. Nunca me esquecerei do longo apito do trem. Nunca me esquecerei do
enforcado. Nunca me esquecerei das velozes carreiras de cancha reta. Palomas
era, sobretudo, a alegria da natureza pulsando.
Tinha
os seus mistérios insondáveis para a fantasia de um guri sonhador. Uma gruta
que se perdia no fundo da terra, na qual eu nunca estive. O canto triste dos
jacus nos matos. A louca raspando latas. O alaranjado das bergamotas vergando
as árvores. A cor linda dos maracujás. As pandorgas serpentando no céu azul. O
silêncio das "cordilheiras". O vento assobiando na rua de trás. A lua
descendo por trás dos eucaliptos. As meninas crescendo, tornando-se mulheres
com suspiros repentinos.
As
estrelas coalhando o firmamento nas noites de verão. Homens conspirando nos
cantos ou jogando truco nos bolichos. As melancias crescendo nas lavouras
fartas.
Agora,
aos poucos, Palomas vai ganhando tristezas, tornando-se uma lenta acumulação de
más lembranças. Estive lá, na semana passada, para o enterro do marido da minha
irmã Nina. Írio morreu aos 52 anos de idade. Era um grande marceneiro, um
uruguaio que se abrasileirou sem perder a origem.
Chorei
a morte desse gremista apaixonado, cujo último jogo que escutou no rádio, como
sempre fazia, foi do Internacional. Deve ter dado uma secadinha. Quero que o
Grêmio ganhe este gauchão em homenagem a ele. Foi muito triste.
Palomas
pareceu-me exatamente a mesma da minha infância. Quase uma paisagem imóvel de
um quadro melancólico. O mundo depois do cerro eu já conheço um pouco. Palomas,
no entanto, é outra: o lugar aonde agora vamos para enterrar os nossos mortos.
Texto reproduzido em Dutra, C.A.S. Se me deixam falar: crônicas daqui e além mais. Edição do Autor, Brasilândia/MS, 2013, Página 254s.