Memórias sob a Chuva: a AMDE no Distrito Debrasa. Homenagem a Neusivan Fonseca do Nascimento.
Por Carlos Alberto
dos Santos Dutra

Há histórias que o tempo teima em apagar, mas que a força da memória insiste em trazer de volta. Longe dos grandes centros urbanos, a 55 quilômetros da sede do município de Brasilândia, o distrito de Debrasa guarda os vestígios de uma época em que o associativismo e a cidadania pulsavam intensamente. Ali, no dia 28 de agosto de 1997, nascia a Associação de Moradores do Distrito Debrasa (AMDE), uma entidade modesta em recursos, mas gigante em propósitos.
Naquela época, a
economia regional vivia o auge do ciclo da cana-de-açúcar. Sob o lema
inspirador “Quem não segue o rumo, não chega ao seu destino”, a
AMDE marcou época. Seu primeiro presidente, o Sr. Neusivan Fonseca do
Nascimento — policial militar e atuante membro da Pastoral da Criança —,
liderou um processo democrático exemplar. As eleições da entidade, como a
concorrida disputa de 2001, mobilizavam a comunidade de casa em casa, com
distribuição de santinhos e debates francos sobre o futuro local. Era o
exercício mais puro da cidadania como motor de desenvolvimento.
Contudo, a
trajetória das organizações comunitárias raramente segue uma linha reta. Elas
são construídas aos pedaços, tijolo por tijolo. E lidar com tijolos deixa
marcas profundas, do alicerce ao topo das paredes. Muitas vezes, quando o
prédio parece finalmente consolidado, tempestades políticas ou administrativas
põem tudo abaixo, deixando um rastro de frustração e abandono.
Com a AMDE não foi
diferente. Dez ano após a sua fundação, ao visitar sua antiga sede na Rua Jaime
Pastick, nº 3, deparei-me com um cenário que aperta o peito. O prédio outrora
vibrante repousava em ruínas, sitiado pelo capim, muros caídos e árvores
tombadas. Folhas soltas de documentos bailavam ao vento pelo chão batido.
A chuva fina que
penetrava o telhado danificado ia, aos poucos, destruindo armários e caixas
repletas de papéis empoeirados. São ofícios expedidos e recebidos, redigidos
por mãos zelosas de homens e mulheres voluntários, sonhadores e, talvez,
utópicos, que doaram suas vidas pela coletividade e acabaram esquecidos pelo
poder público.
Como historiador,
assumi naquele momento a missão de resgatar alguns desses escritos antes que a
umidade e o tempo os consumissem por completo. Dizia para mim mesmo: --faço
isso para fazer justiça, ainda que tardia, ao legado de Neusivan Fonseca do
Nascimento. Pelos documentos e pela produção intelectual que ele deixou,
confirma-se o perfil de um jovem líder que, se tivesse permanecido na região,
hoje seria um forte quadro na política institucional de Brasilândia.
Divulgar essas
memórias, em livros e também pelas redes sociais, é provar que existiram
pessoas dedicadas a causas coletivas em tempos onde a voz do "ter"
frequentemente abafa a importância do "ser".
Mesmo que o lixo e
o esquecimento tentem consumir essas cartas, as sementes da solidariedade e da
irmandade foram plantadas. Ao homenagear a saudosa AMDE neste Dia Nacional do
Voluntariado, estendo o reconhecimento a tantas outras associações comunitárias
que nascem e morrem no anonimato, mas que transformaram para melhor a realidade
dos mais simples. Os nomes podem ser esquecidos, mas alguém, no futuro, sempre
voltará a empunhar essas mesmas bandeiras.
Brasilândia/MS, 28
de agosto de 2026.



