O Assobio da Esperança: Como a Música Transforma o Lixo em Dignidade
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra
Embalado pela música-tema desse grande épico inesquecível do cinema, a contagiante marcha Colonel Bogey, assobiada por esses prisioneiros que foram induzidos e encorajados a construir a célebre ponte do rio Kwai (se pronuncia cuêi), até hoje é conhecida e cantarolada no mundo inteiro.
O ritmo melódico da marcha imprime volume e consistência, fazendo brotar em nós uma força que vem de dentro e nos projeta para a frente. O rigor com que é executada transmite um timbre de euforia e ânimo, ao mesmo tempo em que nos convida à ordem e à disciplina.
É essa mesma sensação que os brasilandenses têm vivido e sentido durante dias determinados, aqui em nossas ruas. Quando aquele assobio ecoa desde o centro até os bairros, não é apenas um caminhão de material reciclável que se aproxima; é uma onda sonora que nos envolve e embala, funcionando como um despertar coletivo que nos força a sair de nossos egoísmos cotidianos. É um convite poético para nos mexer, para vencer nossos desafios maiores.
O exemplo do militar inglês foi este: mesmo sabendo que a ponte, uma vez construída, iria servir tão somente ao inimigo, ainda assim ele continuou sua empreitada para provar a superioridade e a dignidade de seus homens em relação às forças opositoras.
Fazendo um rápido paralelo entre a construção dessa ponte e a ASSOBRAA, encontramos a mesma essência de superação. Mesmo sabendo que a tarefa da coleta seletiva do lixo pudesse ser (ou até devesse ser) realizada somente pela Administração Pública, eles — os cidadãos, os sócios, transformados em atores reais da nossa história — assumiram para si a missão de fazê-la, e de fazê-la brilhantemente.
Já não importa mais questionar de quem fora a obrigação legal de outrora. Com braços fortes e sorriso no rosto, esses Agentes Ambientais recolhem o que a sociedade descarta e devolvem em forma de cidadania, provando que a coleta seletiva em nossa cidade é plenamente possível.
Lá estavam eles, há 23 anos, heroicamente animados pelo senhor Deolir Felipe Schio, o popular Caco, e um grupo de amigos sonhadores, mostrando que é preciso conclamar a comunidade para a tarefa pedagógica de transformar comportamentos e superar nossos limites. Olhar para o trabalho da ASSOBRAA nos obriga a baixar os olhos diante do nosso próprio comodismo e erguê-los novamente, prontos para colaborar.
Assim como o filme do diretor David Lean foi coroado de glórias, auferimos aqui à ASSOBRAA nota DEZ pela sua iniciativa e coragem de fazer acontecer aquilo que Jean Cocteau, escritor francês, eternizou: "Ele não sabia que era impossível, foi lá e realizou".
E lá vem o assobio daquela musiquinha, uma composição de Malcolm Arnold eternizada pela KMC Orchestra e que ganha vida na gravação utilizada pelo caminhão da coleta, dirigido hoje pelo amigo Bidão. Na voz inconfundível do saudoso Benê Soares, esse gesto grandioso ecoa como um hino, convidando cada morador a se engajar nesse mutirão de amor por nossa terra.
Sim, sentimos uma pontinha de orgulho legítimo, todos nós brasilandenses. Isso porque quem faz isso é gente nossa, pelas mãos da Jociane e sua valorosa equipe, trabalhando por todos nós e desenhando o melhor futuro para a totalidade da nossa Brasilândia. Sentimo-nos orgulhosos porque alguém ousou desafiar o óbvio e superar obstáculos.
Parabéns, agentes ambientais da ASSOBRAA; parabéns, Brasilândia. Nossa cidade pulsa no peito desses heróis. E para aqueles que ainda teimam em dizer que Brasilândia não tem jeito... bem, assobia aquela musiquinha pra ele!
Brasilândia/MS, 20 de setembro de 2026. Homenagem aos 23 anos de
Fundação da ASSOBRAA. Crônica inspirada no artigo publicado originalmente no
Jornal Diário MS, Dourados, 09.fev.2004; A Tribuna, Campo Grande, 8-14.fev.2004.
E em DUTRA, C.A.S. Retalhos do Dia a Dia, Brasilândia, 2010, pág. 104s.







