quarta-feira, 6 de maio de 2026

 Para Simone Maciel: Uma vida que floresce em amizade

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 





Existem pessoas que são joias raras em nossas vidas. Às vezes, o cotidiano nos faz esquecer de celebrar essa sorte, até que o calendário — seja em uma agenda antiga ou em um aviso no celular — nos lembra: hoje é o dia dela. 

É curioso como a tecnologia nos impulsiona de volta ao que temos de mais humano: o afeto. Hoje, meu coração se alegra ao celebrar a vida de Simone Maciel. Mais do que palavras, estas linhas carregam gratidão e saudade do tempo que passou. 

Simone chegou de mansinho, em silêncio, fazendo morada em nossos corações. Desde os tempos da antiga Cohab, em Brasilândia, ela foi mais que uma vizinha para mim e para Vilma. Ao lado de Nininho e com o pequeno Nathan ainda no berço, ela se tornou a nossa família escolhida, acolhendo este casal que acabara de chegar da pampa gaúcho em 1986. 

Dessa convivência, brotou uma amizade alicerçada no respeito e na confiança. Quantas histórias guardamos! A lida da casa, o crescimento profissional, os círculos bíblicos, a viagem ao Sul e o carinho imensurável como dama de companhia de minha saudosa mãe, Dona Laura. 

Simone sempre foi aquela presença disposta a ajudar, encantando a todos com seus dotes culinários e sua generosidade sem limites. Nunca esqueceu de um gesto gentil ou de um presente, provando que a grandeza do seu coração é o seu maior tesouro. 

Hoje, aquela jovem vizinha é uma vovó que permanece jovem em espírito e eterna em nossas memórias. Simone, que seu novo ciclo seja um horizonte de paz, saúde e felicidade.

Nós te amamos. Feliz Aniversário. Um beijo carinhoso em seu coração.

 

Brasilândia/MS, 06 de maio de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2023/05/feliz-aniversario-amiga-simone-maciel.html

segunda-feira, 4 de maio de 2026

 

Libaneza Center: Onde o passado floresce em gratidão
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




Em tempos de liquidez, como bem descreveu o filósofo Zygmunt Bauman, a vida parece escorrer por entre os dedos. As memórias, como águas de um rio apressado, arriscam-se a desaparecer no silêncio do esquecimento. Especialmente nos pequenos recantos do mundo, onde a história nem sempre se escreve em letras de forma, os momentos de glória podem ser varridos pelo vento se não forem eternizados pelo afeto e pela palavra escrita. 

Brasilândia, contudo, parou para respirar no dia 3 de maio de 2021. Naquela manhã, o tempo não fluiu; ele se fez monumento. O que se viu não foi apenas a abertura de portas, mas o desabrochar de um legado: a nova Libaneza Center, erguida sob o sol com o brilho da modernidade e a solidez dos sonhos realizados. Lá, entre o perfume das flores e o frescor das novas paredes, os olhos de Regina Célia Zogheib Bertonha marejavam, refletindo a luz de um coração que batia no ritmo acelerado da vitória. 

No silêncio de sua prece íntima, Regina viajava no tempo. Encontrava, no ano de 1948, as ondas de um mar rebelde sendo vencidas pela coragem de Farhat Zogheib, seu pai. Para trás, ficava um Líbano ferido pelas cicatrizes da Grande Guerra e pela depressão econômica. Na mala, quase nada; no peito, a imensidão da esperança. Ao desembarcar no Brasil e instalar-se em Junqueirópolis, o jovem imigrante não buscava apenas fortuna, mas um destino. 

A semente da prosperidade germinou rápido. Em 1953, o esforço transformou o empregado em proprietário. Ao lado de sua esposa, Yolanda Baggio Zogheib, Farhat fundou a "Casa Libaneza". Regina, a menina nascida em 1960, cresceu entre o balcão e os materiais de construção, aprendendo que o comércio é, antes de tudo, a arte de servir. 

A partida do pai, em 1994, embora tenha deixado um vazio imenso, não apagou a chama empreendedora da família. O esteio se foi, mas o carisma permaneceu. Quatro anos depois, guiada por desígnios que transcendem o plano terreno, os olhos de Regina miraram além da margem direita do Rio Paraná. 

Nas férias em que visitava o esposo Celso Bertonha e o sogro na lida agropecuária, ela percebeu que Brasilândia era o solo que esperava por sua história. Em julho de 1998, o veredito do coração: "Já não me via mais longe do Mato Grosso do Sul". E assim, em 5 de dezembro daquele ano, a Libaneza Center abria suas portas na Avenida Boa Esperança. 

O que começou em um espaço tímido e alugado, floresceu sob a confiança do povo brasilandense. O "mix" de produtos cresceu; as ferramentas ganharam a companhia da papelaria, da decoração e do aconchego de cama, mesa e banho. O espaço ficou pequeno para a grandeza daquela visão. 

Hoje, decorridos mais de 22 anos, o ciclo se completou com a inauguração do prédio próprio — a maior e mais imponente loja da cidade. Um espaço setorizado, amplo e moderno, pensado para que cada cliente se sinta em casa. Um presente arquitetônico que engrandece o município e oferece alternativas que vão das utilidades domésticas ao rigor dos materiais profissionais. 

Mais do que uma estrutura de concreto e vidro, a Libaneza Center é um gesto de gratidão. Por meio de cada colaborador, a empresa devolve à cidade o carinho e o prestígio recebidos ao longo de duas décadas. Parabéns, Regina Célia Zogheib Bertonha. Parabéns, Libaneza Center. 

Que a luz de Farhat e Yolanda continue a iluminar os corredores desta casa que, nascida de uma malinha de mão e atravessando oceanos, hoje é o orgulho de Brasilândia. 

Brasilândia/MS, 4 de maio de 2026. 5º aniversário de inauguração na nova sede da Libaneza Center.

Foto: Jornal de Brasilândia, 1999 e Dutra, 2021.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/05/libaneza-center-e-o-olhar-de-gratidao-e.html




 

domingo, 3 de maio de 2026

 

Memórias de Luta e a Saga do SINDIBRAS.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra.


 




As sementes do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Brasilândia — o SINDIBRAS — foram plantadas em solo fértil de esperança no dia 4 de maio de 2002. Contudo, a jornada para transformar o sonho em direito gravado no papel foi longa. O primeiro marco oficial viria apenas em 26 de março de 2007, quando a entidade registrou sua existência sob o número 079 do Livro 2-1, Folhas 147 vº, no Cartório de Brasilândia.

Por uma década inteira, os dirigentes do sindicato travaram uma batalha silenciosa e persistente. Faltava-lhes a tão almejada Carta Sindical — o documento que não apenas legitimava a força da categoria, mas que também serviria de escudo e espada nas negociações junto ao poder público. Até então, a prefeitura local ignorava a voz da entidade. Somente dez anos após a sua fundação é que o sindicato finalmente pôde erguer o documento que oficializava sua força reivindicatória. 

A verdadeira gênese dessa história remonta a tempos ainda mais distantes. O servidor público Marcos Eduardo Costa Brasil, fundador e primeiro presidente, já buscava desde 21 de setembro de 1993 — sem sucesso — a inscrição da entidade no burocrático labirinto do Cadastro Nacional de Entidades Sindicais do Ministério do Trabalho e Emprego. Era um esforço solitário que antecipava as lutas que estavam por vir. 

O destino do SINDIBRAS começou a mudar de rumo em 2005. O sopro de renovação veio em 2 de setembro daquele ano, quando uma assembleia geral elegeu a primeira Comissão Eleitoral. Semanas depois, no domingo de 16 de outubro de 2005, a categoria se reuniu em uma modesta casa na Rua dos Associados, nº 905, no coração da cidade, para escolher sua primeira diretoria oficial. 

Sob o olhar atento de Cleiton de Oliveira Caitano (presidente da mesa), Nilson de Oliveira (secretário) e Clemente Cardoso Farias (escrutinador) — todos servidores e homens de fibra —, os votos foram contados. Todo o rito cumpria rigorosamente o edital publicado em setembro nos murais da Comarca, no Paço Municipal e na Câmara. Para garantir a lisura e a proteção jurídica daquele momento histórico, os trabalhos foram assessorados pelo advogado Carlos Alberto dos Santos Dutra (OAB/MS nº 10.179).

Ali, naquele domingo de sol em Brasilândia, a categoria não apenas elegia seus representantes: ela começava a escrever, em definitivo, a sua própria história de liberdade e direitos. 

Brasilândia/MS, 4 de maio de 2026.

Fonte: A história completa do SINDIBRAS o leitor encontra no Volume 2-Patrimônio, da coleção História e Memória de Brasilândia/MS, páginas 426 a 430.


 

sábado, 25 de abril de 2026

Brasilândia e o legado de seu Teixa e Dona Tina.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra










Diz o ditado que o trabalho dignifica o homem. A frase, popularizada pelo sociólogo Max Weber, sempre serviu de norte para aquela família. Mesmo sem conhecerem o intelectual alemão falecido em 1920 — contemporâneo de seus ancestrais —, eles sempre souberam enfrentar o desafio das intempéries, os devaneios humanos e as feridas das guerras.

Agora, o clima é de paz, nutrido pela memória das águas e pela mansidão de um mar que abranda sua fúria na areia. Tudo ao redor exala graça, permitindo que passos descalços alcancem o frescor da vida e a felicidade de, finalmente, ter um lar.

O olhar da mãe contempla o menino de olhos azuis e pele rosada, que sorri enquanto corre entre as rosas do quintal. Dona Albertina sempre preferiu as rosas; dedicava a elas um cuidado quase místico, como se as flores compreendessem sua essência. Ao lado do esposo, cultivava a simplicidade comum aos imigrantes da época, espalhados por esse imenso Brasil que os acolheu, ainda que em cantos remotos do sertão.

De repente, um apito alto e retumbante a desperta. Em uma onda de nostalgia, ela se vê novamente nos braços do vento, sobre a quilha de um navio que avança, deixando para trás, entre as brumas, as lembranças do avô Christian e de seus pais, Antônia e Fernando.

Albertina — a "Tina" — enxerga agora, através dos olhos do marido, que o medo ficou no passado. Seu Cristiano Höffig, o "Teixa", nascido na fazenda Criciumal em Pirassununga, ainda guarda na memória o ofício do pai, o cuteleiro Floriano.

A tradição da cutelaria, herdada do pai Floriano Louis e do avô Augusto na distante Zossen, em Brandemburgo, não era apenas um ofício; era um símbolo de resistência. Pirassununga, solo fértil para imigrantes alemães, suíços e austríacos, transformou-se no novo lar desses homens e mulheres que, entre os cafezais, integraram-se à alma brasileira. Com o tempo, o idioma alemão silenciou-se, mas a disciplina e a força permaneceram.

O navio do destino não corta mais águas de insegurança. O menino Arthur Höffig, nascido em 21 de maio de 1912, cresceu sob a égide da Primeira Guerra, mas foi protegido pelo braço firme de seu pai. Em seus sonhos, Arthur forjou-se como o aço de um cutelo: forte, resiliente e afiado o suficiente para desbravar o sertão e transformar o mundo ao seu redor.

O tempo, porém, é um rio que não retorna. O menino que corria sob o olhar da irmã Ondina e o afeto da mãe perfumada já faz parte da eternidade. Dona Tina partiu em 1984, aos 94 anos, mas não sem antes se despedir de seu menino Arthur, que a precedeu na jornada final em abril de 1983, em Cornélio Procópio.

Hoje, Brasilândia celebra a memória de um sonhador - Arthur Höffig - que não conheceu limites. O filho do cuteleiro tornou-se mestre, aviador, servidor e empreendedor. Seu nome hoje batiza ruas, prédios e monumentos, gravado no bronze e na história das cidades que ajudou a erguer.

Lá do alto, Seu Teixa e Dona Tina celebram com júbilo. O pequeno Arthur superou todas as expectativas, deixando um rastro de luz e progresso. Aqui em Brasilândia, o pioneiro que em 10 de fevereiro de 1950, aos 37 anos, fundou a empresa Agropecuária AH, recebe nossa mais profunda reverência.

Os sonhos de Arthur perenizaram-se. Estão vivos no sangue e na fibra dos que herdaram o espírito empreendedor do patriarca. Hoje, com o peito estufado de orgulho, nos festejos de seus 61 anos de emancipação político administrativa, a cidade de Brasilândia, fundada por ele, saúda os  pioneiros de ontem e de hoje cuja marca de suas presenças nesta terra são sinônimo de trabalho e vitória. Parabéns Brasilândia. Obrigado jovem Arthur.

Brasilândia/MS, 25 de abril de 2026.



A história completa deste pioneiro pode ser encontrada na Biblioteca Municipal no livro História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. I-Pioneiros, página 122 a 125. E adquirido na edição especial em cores in https://clubedeautores.com.br/livro/historia-e-memoria-de-brasilandia-ms-vol-1-pioneiros

 

José Francisco Marques Neto: A Memória e o Tempo.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

No ano de 2016, ao ser homenageado em vida pelo município de Brasilândia/MS, José Francisco Marques Neto emprestou seu nome à nova Unidade Básica de Saúde (UBS) no bairro Residencial Vale Verde (Lei 2654/2016). 

Na cerimônia de inauguração, foi apresentada uma biografia do homenageado — o primeiro prefeito da cidade —, elaborada por Alessandro Zioti e pela pesquisadora Leila Adelaide Ferreira.

O texto abaixo, reproduzido originalmente no volume 5 da coleção História e Memória de Brasilândia, é a uma singela homenagem àquele que nos antecipou na caminhada e, agora, nos honra neste dia de festa, recebendo-a do alto. 

Nascido em José Bonifácio/SP, em 10 de setembro de 1932, José Francisco foi o quarto de sete filhos de um casal de colonos. Ainda jovem, decidiu trilhar seu próprio caminho em busca de grandes objetivos. Serviu ao Exército Brasileiro por cinco anos, oportunidade em que se formou em Farmácia pela escola militar. Sua vocação política despertou cedo: em 1950, aos 18 anos, já integrava o diretório municipal do PSD no Mato Grosso. 

Marques Neto consolidou uma formação intelectual vasta: além de farmacêutico, graduou-se em Direito, foi pecuarista e professor de História e Geografia na universidade federal. Mesmo com o passar das décadas, nunca abandonou a vida pública, mantendo-se como membro ativo do diretório do PSD em Três Lagoas. 

Em 1962, foi eleito vereador por Três Lagoas, onde lutou incansavelmente pela emancipação do distrito de Brasilândia. Com a criação do novo município em 1965, Marques Neto candidatou-se ao cargo de prefeito, tendo como vice Gentil Ferreira de Souza. Eleito pelo voto popular, governou de 25 de abril de 1965 a 14 de setembro de 1966. 

Seu legado administrativo incluiu a estruturação da Escola Municipal Arthur Höffig, a construção do campo de aviação e do Estádio Joaquim Cândido da Silva, além da fundação de diversas escolas rurais e urbanas. Foi ele quem deu o passo primordial para a urbanização da cidade, que até então possuía características estritamente rurais. 

A homenagem na UBS em 2016 foi um momento de grande emoção. Lisonjeado, Marques Neto compareceu à solenidade, onde relembrou fatos pitorescos. Irineu de Souza Brito, que teve a oportunidade de entrevistá-lo, recorda uma história emblemática sobre o nascimento institucional da cidade. 

Segundo Irineu, o ex-prefeito narrou com saudosismo a grande festa de posse, que reuniu políticos de todo o antigo Mato Grosso. Contudo, o momento mais marcante veio após o fim da celebração:

"Quando a festança acabou e os visitantes voltaram para suas cidades, deixando apenas a saudade e a poeira na estrada, a 'ficha caiu'. Prefeito e vereadores ficaram de pé no meio da praça, sob o fim de tarde, olhando uns para os outros. Não havia Câmara, não havia sede da Prefeitura, não havia nada. O jeito foi partir para a luta com a cara e a coragem, conquistando passo a passo o prédio e os móveis para instalar a administração." 

Como bem escreveu Ray Santos em 1999, Marques Neto cumpriu sua missão. Ele não apenas implementou as primeiras obras e instalou os órgãos públicos, mas também trouxe conterrâneos e familiares — como Anésio e Wilson Marques — que se radicaram e ajudaram a construir Brasilândia.  

As obras de um homem permanecem vivas na memória mesmo após sua partida pois sempre lembradas a cada aniversário da Cidade Esperança.

 

Brasilândia/MS, 25 de abril de 2026

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2020/04/jose-francisco-marques-neto-memoria-e-o.html

terça-feira, 21 de abril de 2026

 

Homenagem de Aniversário ao amigo Amaral Adriano Alves.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 





Nem sempre temos a oportunidade de agradecer. O tempo e os dias encontram um jeito de nos fazer protelar aquilo que deveria ser o motor da vida em comunidade: o reconhecimento do valor de cada um à nossa volta e o quanto contribuíram para a maturidade do que nos tornamos.  

Hoje, abro as portas do coração para expressar a gratidão que a azáfama de tempos passados, por vezes, ofuscou. Falo de um jovem que o acaso colocou em meu caminho logo que cheguei ao Mato Grosso do Sul. Ainda solteiro em Brasilândia, vi esse jovem assumir o volante da Toyota que auxiliava o trabalho pastoral do CIMI e o apoio logístico aos Ofaié, que lutavam pela sobrevivência nas barrancas do Rio Paraná.  

Reviro meus arquivos e não encontro fotografias daquele tempo, mas a memória guarda intacta a imagem do jovem que transportou indígenas em busca de socorro, garantiu mantimentos varjão adentro e foi imprescindível na ação social junto aos ribeirinhos. De olhar manso e braços fortes, ele revelava um coração de ouro onde tudo era possível. Tornou-se um membro da família, embora nunca tenhamos dito isso nas tantas idas e vindas pela velha estrada do porto.  

Quando aquela que viria a ser minha esposa chegou nestas terras, vindo do Rio Grande do Sul, lá estava ele com a Toyota verde. Foi buscar a professora Vilma na beira da estrada em Bataguassu, pois o ônibus da época não parava na rodoviária. Enquanto eu viajava por Dourados, Brasília ou Cuiabá em busca de documentos sobre os Ofaié, lá permanecia o nosso guardião, regendo a orquestra da vida que fomos construindo dando segurança e visibilidade àqueles que a história tentou ocultar.  

Foi com os olhos e braços deste amigo que resgatamos animais silvestres, participamos de reuniões comunitárias e desfrutamos de tantas rodas de chimarrão na companhia do saudoso Padre Lauri, pároco de Brasilândia.  

É a este homem admirável, que prestou serviços relevantes à causa indígena e à nossa história, que hoje rendemos homenagem. A este coração generoso, cujos braços ainda o mantêm firme no volante da vida, rogamos aos céus que sua estrada seja sempre iluminada e feliz ao lado daqueles que o amam. 

Parabéns, Amaral Adriano Alves. 

Feliz Aniversário!


Brasilândia, 21 de abril de 2026.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

 

Cruzeiro da Fundação: o Marco Zero de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 

Os símbolos municipais são mais que figuras; são o retrato vivo da identidade, tradição e evolução de uma comunidade. Em Brasilândia/MS, ao lado da Bandeira, do Hino e do Escudo, outros ícones conferem nobreza ao nosso espírito cívico. Entre eles, destacam-se o Painel Cultural da Praça da Matriz, o busto do Fundador Arthur Höffig e a centenária Árvore Tamboril — esta última já protegida por lei como patrimônio histórico. 

Contudo, um outro monumento ainda carece desse reconhecimento oficial: o Cruzeiro. Plantado no alto da cidade, ao lado da Câmara Municipal, ele é o marco inabalável da fundação do nosso povoado. Uma demonstração de que esta cidade teve seu nascimento sob a inspiração redentora da Cruz. 

A história remonta a data de 21 de abril de 1957. E eis que numa clareira do cerrado, cercada por poucas casas, uma cruz de madeira nobre de 4 metros foi erguida. Ali, sob os pés do monumento, o padre tchecoslovaco John Tomes celebrou a primeira missa campal, acompanhado pelo patriarca Arthur Höffig, seus familiares e a pioneira população local. 

Mais que uma expressão religiosa, o Cruzeiro representou naquele momento a data da elevação daquela vila à condição de Povoado. Expressão da bravura daqueles que, a partir de 1912, desafiaram o domínio da Brazil Land Cattle and Packing Company para desbravar este sertão, outrora habitado exclusivamente pelos indígenas Ofaié. Ele é a pilastra do progresso trazido pelos nossos antepassados. 

O seu lenho, sob o aspecto cultural, nos reporta à tradição e também à renovação. Originalmente, o Cruzeiro ficava em um ponto mais elevado, entre as chácaras instalada na parte alta do povoado, onde fiéis depositavam flores e velas nos dias santos e de guarda. Com o passar de três décadas, a ação do tempo e o calor das oferendas desgastaram a madeira original. Foi quando em 1989, na gestão do prefeito Prof. José Cândido da Silva, o símbolo foi renovado. 

A nova cruz foi entalhada pelas mãos do pioneiro Mané Zoada, com o auxílio de Joaquim Cândido da Silva, Isaías Nunes da Silva e Noel Euzébio de Lima. Juntos, eles lapidaram com esmero o ícone que hoje se impõe à nossa memória e reafirma a fé que sustentou a comunidade em seus primeiros anos. 

A cada aniversário Brasilândia ergue um apelo à preservação deste monumento histórico: transformar o Cruzeiro em patrimônio oficial do município. Gesto institucional que resgata a dignidade da antiga Praça dos Fundadores, idealizada a em 1981, encravada numa placa em 1984 pela prefeita Neuza Paulino Maia, sem nunca ter se tornado uma realidade. 

O clamor por sua preservação ainda vive no coração dos munícipes, sobretudo dos mais antigos. Lembremos que em 1989, há 37 anos portanto, o jornal Informativo Agulha já alertava sobre o desmatamento no entorno deste monumento e a necessidade de se proteger o "bosque do Cruzeiro" como era chamado, para a posteridade. 

Que o espírito ecológico, a inspiração divina da primeira Missa campal e o respeito à trajetória dos que aqui chegaram derrame suas bênçãos sobre o município que festeja seus 61 anos de emancipação político administrativa. Proteger o Cruzeiro é garantir que as futuras gerações conheçam o lugar onde o coração de Brasilândia começou e continua até hoje a bater. 

Brasilândia, 21 de abril de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/06/em-defesa-do-cruzeiro-patrimonio.html