Os Mistérios do Coração e
a Pedagogia da Paciência de Deus
Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra
A liturgia da Palavra deste Domingo nos
convida a entrar em um território profundo, íntimo e, às vezes, desconfortável:
os mistérios do nosso próprio coração. Jesus, através da conhecida Parábola do
Trigo e do Joio (Mt 13, 24-43), revela-nos a realidade das coisas
escondidas, o mal que nos circunda e, acima de tudo, o perigo imenso da nossa
própria intolerância diante da infinita paciência de Deus.
O Joio Inesperado e o
Parasita Oculto. O
Evangelho nos mostra o espanto dos servos ao verem o joio crescer onde apenas
sementes boas foram plantadas. Na antiguidade, o joio de que Jesus fala era o Lolium
temulentum. Essa planta tem uma característica impressionante: em sua fase
inicial, ela é visualmente idêntica ao trigo. Elas crescem juntas, confundem os
olhos e entrelaçam suas raízes sob a terra. Mais do que isso, a ciência e a
história nos ensinam que a ação intoxicante do joio não vem da planta em si,
mas de um parasita, um fungo oculto que habita dentro dela e contamina a
espiga.
Trazer isso para a nossa vida espiritual e
comunitária é um choque de realidade. O mal que nos circunda, e que muitas
vezes nos fere, opera dessa forma: silencioso, disfarçado e infeccioso. E o
pior: o joio inesperado costuma aparecer justamente quando estamos fracos,
cansados, ou nas madrugadas da nossa alma, quando o inimigo aproveita o nosso
sono para semear a discórdia.
A Nossa Reação Humana. Diante do joio, qual é a nossa reação natural? É
a mesma dos servos: queremos a erradicação imediata. Queremos arrancar o mal
pela raiz! Quando nos deparamos com o "joio" em nós mesmos — o
desânimo, a dúvida que surge do nada, o abalo na fé, o sentimento de vergonha e
a impotência — nossa primeira reação é a revolta. Perguntamos a Deus: "A
semente que o Senhor plantou em mim não era ótima? Por que nasceu esse joio no
meu coração?"
Essa mesma intolerância nós aplicamos aos
outros. Somos fortemente tentados a condenar de imediato aqueles que se
aproximam de nós e nos ferem, nos desiludem ou nos decepcionam. Quando alguém
coloca a nossa fé ou a nossa paz em risco, nossa justiça humana clama por uma
sentença rápida. Quantas vezes, em pensamento ou atitude, "condenamos ao
inferno" pessoas que nos causaram mal? Fazemos isso sem dar a elas o tempo
e a oportunidade da conversão. Somos severos, rígidos e impacientes.
A Pedagogia de Deus. Mas Jesus nos freia. Diante do pedido dos servos
para arrancar o joio, a resposta do Mestre é categórica: "Não! Para
que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele.". Jesus
condena qualquer julgamento sumário. Por quê? Porque na dúvida, na pressa, a
nossa reação humana é pautada pelo medo, pelo orgulho ou pelo desejo de
vingança. Deus, em sua soberana sabedoria, cuida de todas as coisas com uma
pedagogia que nós desconhecemos. Na fase de crescimento, o joio e o trigo se
parecem. Só depois de adultos, na hora da colheita, eles se revelam pelos seus
frutos. Se Deus agisse como nós agimos, muitos santos da nossa Igreja teriam
sido arrancados antes de darem frutos, pois um dia foram joio. Pensemos em São
Paulo, que perseguia cristãos; pensemos em Santo Agostinho. A paciência de Deus
é o espaço que Ele dá para que o joio possa se transformar em trigo. Deus ama
tanto o trigo que prefere tolerar o joio por um tempo a correr o risco de
perder uma única espiga boa.
Lição para a Vida. Qual é, portanto, a lição central para as nossas
vidas hoje? Olhar para dentro e confiar no reino. Em primeiro lugar, não se preocupe tanto com a vida alheia.
Não fomos chamados para ser os "juízes da colheita", fomos chamados
para ser trigo. O julgamento pertence a Deus. Cada um receberá o seu próprio
juízo no final dos tempos.
Em segundo lugar, cuide do seu próprio
coração. O verdadeiro combate ao mal começa dentro de nós. Precisamos
combater o mal interior para deixar o trigo da graça florescer. Em vez de
gastar energia apontando o joio no campo do vizinho, olhemos para as nossas
próprias raízes. Deixemos que a oração e a graça divina curem os nossos
parasitas internos — o orgulho, a fofoca, a amargura, a injustiça.
Hoje, no dia a dia da
comunidade identificar o Joio Moderno que aflige os nossos corações é tarefa
difícil. Isso porque ele pode se manifestar também no campo social com igual
influência sobre todos nós. É o caso do Joio Digital que semeia em
nossos corações a cultura do cancelamento e do julgamento rápido. Senão
vejamos: as redes sociais tornaram-se o tribunal do mundo moderno.
Diante de um
erro, de uma postagem ofensiva ou de um mal-entendido, a reação imediata da
internet é "arrancar o joio": linchar virtualmente, expor, humilhar e
cancelar a pessoa. Se olharmos para o Evangelho de hoje, podemos dizer que o “joio
moderno se veste de justiça virtual.
Queremos destruir a reputação de alguém
instantaneamente, sem dar tempo para a verdade aparecer, sem direito à defesa e
sem espaço para o perdão. Agimos exatamente como os servos impacientes,
esquecendo que o tribunal da internet destrói vidas (o trigo) na pressa de
punir o erro.".
Da mesma forma o Joio
Familiar que semeia a intolerância nas relações diárias. Por exemplo: um
filho que se afasta da Igreja, um cônjuge que passa por uma crise de fé ou de
humor, ou um parente que comete um erro grave que envergonha a família. "Muitas
vezes, o joio aparece dentro de nossa casa sob a forma de uma decepção. A nossa
tentação é apontar o dedo, condenar, gritar ou nos afastar agressivamente.
Esquecemos que aquela pessoa que nos feriu pode estar passando por um momento
de fraqueza, intoxicada por dores que não conhecemos. A pedagogia de Deus nos
pede paciência para amar e rezar por eles, esperando os frutos da conversão, em
vez de expulsá-los de nossas vidas."
E ainda, aquele joio que acomete
aqueles mais bem intencionados no coração da igreja: o Joio Interior. Isto é, aquele católico
que faz muitas coisas boas, trabalha na paróquia, ajuda os pobres, mas, por
dentro, está cheio de soberba, vaidade, amargura ou ressentimento crônico. Aplicando
o Evangelho podemos dizer: "Lembremos do Lolium temulentum: ele se
parece com o trigo por fora, mas está intoxicado por um parasita por dentro.
O
joio moderno mais perigoso é o que guardamos no coração. Podemos parecer
cristãos perfeitos externamente (trigo), mas se estivermos habitados pelo
parasita da hipocrisia, da mágoa ou do desejo de vingança, nossa vida se torna
tóxica para os irmãos. Precisamos da graça de Deus para purificar o que está
escondido em nós.".
Deus é paciente e amoroso para com
todos. Ele nos dá o tempo necessário para que possamos amadurecer e integrar
plenamente o Seu Reino, mesmo que para isso tenhamos de passar pelo processo
longo da vida até o Juízo Final. Nesta Celebração (16º domingo do tempo comum)
peçamos ao Senhor o dom da paciência — para com os outros e para conosco.
Que a
mesa do Altar e da Palavra nos nutra, para que sejamos trigo limpo, forte e
gerador de vida, confiando que o Senhor da colheita sabe perfeitamente guiar a
história e salvar os Seus filhos.
Capela São Vicente de
Paulo e Igreja Matriz da Paróquia Cristo Bom Pastor, Brasilândia/MS, 19 de julho de 2026.