sábado, 26 de setembro de 2026

 

Conforto e Esperança na Ressurreição de Luiz Antônio Lino Pasini

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra




 








Tem dias que amanhecem sombrios, ao contrário de outros que irradiam luz desde muito cedo. São dias em que nossos olhos sentem o peso de uma realidade que muito pouco entendemos. É quando nos reunimos tomados pela dor, que nos ofusca o pensamento; e da fé, que dá esperança ao coração que se encontra partido.

São dias que não gostaríamos de vivenciar: o momento de nos despedirmos de quem amamos. Mais do que isso, um dia em que as entranhas pulsam vivas dentro de uma mãe que, aos poucos, perde sua ligação com a vida ao ter nos braços o filho que parte.

Dia de despedida eterna de um rebento que ainda há pouco sorria e sonhava, enchendo de alegria os seus pais, que viam brilhar neste menino tudo o que fazia. Hoje é o dia de dizer adeus ao jovem querido por todos, Luiz Antônio Lino Pasini.

Diante deste mistério profundo e dilacerante, quando a comunidade presencia a partida tão precoce desse jovem de apenas 18 anos, arrancado dos braços de sua família, não há dor maior nesta terra. Sobretudo para uma mãe e um pai que precisam entregar seu filho a Deus antes do tempo que julgavam certo.

As palavras parecem insuficientes. Embora a natureza reclame, só nos resta apegarmo-nos à Palavra de Deus e à nossa fé na Ressurreição em Cristo para encontrar o consolo que o mundo não pode nos dar.

Há no coração dos pais a profunda alegria e o orgulho do dever cumprido, ao verem o menino crescer em uma jornada que só lhes causou felicidade. Solange e Ademir podem estar gratos e felizes pois tiveram a alegria de ver um filho criado, que se tornou um estudante dedicado, um atleta cheio de vida e um trabalhador exemplar.

Luiz Antônio trazia no rosto a pureza de um olhar doce e inocente. Ele possuía a força de um coração aberto e generoso. Foi o reflexo do amor, da educação e dos valores que seus pais e amigos verdadeiros plantaram em sua vida.

A dor de vê-lo partir tão cedo, em uma fatalidade tão abrupta, é incomensurável; é uma ferida que rasga a alma. No entanto, lembrem-se de que o amor dos pais o guardou até aqui. Agora, ele é entregue aos braços do Pai Celestial, onde nenhuma dor ou sofrimento pode alcançá-lo.

O abraço da Misericórdia e do Perdão. Neste momento de dor, o papel da comunidade cristã é levá-los a compreender e estender as mãos e nossas orações também à senhora envolvida neste trágico acidente. A nossa fé nos ensina que o Cristo que chora com os que choram é o mesmo Cristo que acolhe as fragilidades humanas e derrama a sua misericórdia. Que o Senhor também console o coração dela, dissipe a culpa e lhe conceda a paz que vem do perdão divino e do consolo eterno.

A Esperança na Vida Eterna. Jesus nos prometeu: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá" (João 11,25). O nosso Luiz Antônio não completou o seu caminho na Terra da forma como esperávamos, mas completou a sua missão: espalhou luz enquanto esteve entre nós.

Luiz Antônio une-se hoje à herança e bênçãos de seus antepassados, numa trajetória trilhada pelo sangue espanhol e italiano de Vertude Bravo Pazzini, pautada desde Itaboji (SP) até a fazenda Califórnia (MS), ao lado dos filhos, para depois, a partir de 1997, fixar-se na cidade de Brasilândia.

Uma família que nunca perdeu a sua fé, mesmo em tempos difíceis como a seca:
“Antigamente a gente saía pelos campos carregando uma Santa, rezando para chover. A gente levava o Santo no córrego, molhava o Santo. E aí chovia”, contou-me a saudosa matriarca no ano de 2007 (1).

A morte não é o fim, é a passagem para a verdadeira vida. Que o Espírito Santo Consolador abrace os pais, os familiares, os amigos e todos os que sofrem com esta perda. Que a certeza do reencontro na eternidade seja o bálsamo para os dias difíceis. Dai Senhor ao jovem Luiz Antônio, o descanso eterno. E que a luz perpétua o ilumine. Descanse em paz. Amém.

Brasilândia/MS, 26 de setembro de 2026.

(1)   DUTRA, C.A.S. Retalhos do Dia a Dia, Brasilândia, Ed. do Autor, 2010, pág. 209.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 

Como Alterar o Endereço de uma Associação: Guia Passo a Passo Sem Complicação

Carlos Alberto dos Santos Dutra





Se você faz parte da diretoria de uma associação comunitária, de bairro ou de defesa de direitos, sabe que o trabalho voluntário e a militância exigem lidar com muita burocracia. Ao longo da minha trajetória ajudando a fundar e redigir estatutos para mais de 20 entidades nesta cidade, percebi que uma das maiores dores de cabeça surge quando a associação precisa mudar de endereço.

Essa mudança geralmente acontece quando uma nova diretoria assume a gestão. Por parecer um processo complexo, a atualização vai sendo deixada de lado. O problema é que, com o tempo, a falta de regularização acumula pendências e torna tudo ainda mais difícil de corrigir.

Se a sua entidade está passando por isso, não se preocupe. Neste artigo, busco explicar de forma simples e pedagógica como funciona esse processo para que você possa regularizar a sua associação sem cometer  erros.

O erro mais comum: tratar a associação como uma empresa. Quando os gestores decidem mudar o endereço de uma entidade que já possui CNPJ, a primeira reação costuma ser buscar o portal da Redesim ou pensar nos trâmites de uma empresa comercial. No entanto, os caminhos para um Microempreendedor Individual (MEI), uma Microempresa (ME) ou uma Sociedade Limitada (LTDA) envolvem a Junta Comercial.

Uma associação de bairro ou comunitária é uma Organização Não Governamental (ONG) sem fins econômicos. Por conta dessa natureza jurídica, o processo de alteração cadastral não envolve a Junta Comercial, mas sim o Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas (RCPJ) e a Receita Federal.

Vejamos o passo a passo para a mudança de endereço. Para que a alteração seja válida e legal, o processo deve seguir três etapas fundamentais:

1. Convocação e Realização da Assembleia Geral. Como a alteração do endereço da sede exige uma reforma estatutária (caso o endereço antigo esteja detalhado no texto do estatuto), a decisão precisa ser aprovada de forma coletiva.

2. Esta Assembleia prescinde de um documento importante: o Edital de Convocação que é o documento legal utilizado para chamar todos os associados para a reunião, respeitando rigorosamente os prazos e as regras previstos no estatuto vigente da entidade.

3. Durante a realização da Assembleia deverá ser lavrada a Ata da Assembleia, que é o documento que formaliza a reunião. Nela, deve constar explicitamente que os membros aprovaram o novo endereço e a atualização dos dados cadastrais.

4. Há também a necessidade de realizar uma Consulta de Viabilidade e Emissão do DBE que deve acontecer antes de ir ao cartório. O DBE garante que a prefeitura local autoriza o funcionamento da associação no local pretendido. Para tanto, acesse o portal da Redesim e realize uma Consulta Prévia de Viabilidade para o novo endereço; depois, após a aprovação da viabilidade, preencha a solicitação para gerar o Documento Básico de Entrada (DBE) da Receita Federal, assinalando a opção de "alteração de endereço". Este documento deve ser assinado digitalmente pelo representante legal da associação. 

5. Por fim, faz-se o Registro no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas (RCPJ) onde a associação possui o seu registro original. Nesta oportunidade, o presidente da entidade reúne toda a papelada e encaminha ao Cartório. 

Para evitar que o seu processo seja recusado ou sofra exigências, certifique-se de apresentar: Duas vias da Ata da Assembleia Geral: assinadas pelo presidente e pelo secretário, com todas as demais páginas rubricadas; Duas vias do Estatuto Social Reformado: necessárias caso o endereço antigo estivesse detalhado no texto original. Observe que o estatuto reformado deve ser assinado por um advogado inscrito na OAB. 

Ao Cartório também deve ser apresentada a Lista de presença, contendo a assinatura dos associados que participaram da assembleia; o DBE liberado, qual seja o documento de entrada da Receita Federal já assinado pelo representante, e o Requerimento de averbação que é uma solicitação formal assinada pelo presidente direcionada ao oficial do cartório com reconhecimento de firma. 

Atualmente, na maior parte dos estados brasileiros, os cartórios possuem convênio direto com a Receita Federal. Isso significa que, assim que o registrador aprova e averba a ata, a informação é transmitida automaticamente e o CNPJ da associação é atualizado em poucos dias. Com o CNPJ atualizado, a entidade poderá solicitar o novo Alvará de Funcionamento no portal da prefeitura onde a entidade está funcionando. 

Para poupar tempo e recursos, recomenda-se: Se você sabe que a sua associação precisará passar por uma mudança de endereço e a eleição da nova diretoria está próxima, planeje-se para fazer tudo junto.

A recomendação ideal é incluir a alteração do endereço diretamente no mesmo edital de convocação e na ata de eleição e posse da nova diretoria. Dessa forma, a entidade realiza uma única assembleia, gera apenas um conjunto de documentos e economiza com taxas cartorárias, regularizando toda a situação institucional de uma só vez. Mantenha a papelada da sua associação em dia para que ela continue cumprindo o seu papel fundamental de transformar a realidade da sua comunidade!

 

Brasilândia/MS, 25 de setembro de 2026. Dia Mundial do Sonho ("World Dream Day").

terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

Saudação à Profª Drª Izabel Castanha Gil

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Olá, pessoal! Que alegria ver esse auditório cheio de jovens com tanta energia e o futuro inteirinho pela frente. Sejam muito bem-vindos a este encontro!

Quando pensamos em construir o amanhã, muitas vezes olhamos para as telas dos nossos celulares em busca de inovação. Mas a verdade é que as maiores transformações começam exatamente onde os nossos pés estão pisando, na nossa própria comunidade e no respeito à nossa terra.

Hoje, nós temos a honra gigantesca de abrir este evento recebendo uma convidada que é a definição viva de como o conhecimento pode mudar o mundo real. Quero apresentar e prestar uma homenagem muito especial à nossa palestrante: a Professora Doutora Izabel Castanha Gil.

Para vocês terem uma ideia de quem está aqui conosco hoje, a Professora Izabel é uma mente brilhante. Ela é graduada em Geografia, História e Pedagogia, mestre em Ensino e Doutora em Geografia pela UNESP. Ela dedica a sua vida a entender o Desenvolvimento Regional, ou seja, como fazer as cidades e as regiões crescerem de forma inteligente, justa e sustentável. Atualmente, ela ensina futuros profissionais no Centro Universitário de Adamantina-UniFAI.

Mas não pensem que ela vive trancada em uma biblioteca ou em um laboratório! A Professora Izabel é uma empreendedora de futuro, daquelas que põe a mão na massa. Ela já ganhou dezenas de prêmios internacionais, até da Organização das Nações Unidas (ONU) por seu trabalho com agricultura sustentável. Ela criou projetos incríveis com frutos nativos da nossa região, transformando o jatobá em produtos inovadores — como o "Bolobá", um bolo de caneca feito com frutos locais!

Além disso, ela é a grande idealizadora do movimento sociocultural e ambiental Latitude 21, que desde 2019 conecta ciência, música, fotografia e literatura para valorizar a identidade de 30 municípios da região da Alta Paulista e que se estende até Mato Grosso do Sul.

A Professora Izabel tem uma ligação histórica muito bonita com a nossa querida Brasilândia. Há mais de 15 anos, em 2009, quando a nossa cidade ainda dava os primeiros passos para planejar o seu crescimento e mobilizar a comunidade, ela estava exatamente aqui, neste mesmo Anfiteatro Cultural Ramez Tebet, nos ensinando sobre cooperação e desenvolvimento local.

Dizem que o conhecimento é como uma gota de orvalho que cai do céu e enche uma folha verde de vida. Hoje, a folha verde somos nós, cheios de sonhos, e a Professora Izabel é essa gota que vem renovar as nossas ideias. Suas ações nos mostram que o meio ambiente e a economia podem caminhar de mãos dadas, e que o progresso de verdade só nasce quando buscamos o bem comum.

Professora Izabel, tê-la aqui novamente com esta nova geração é uma honra imensa. Nossa profunda gratidão por sua dedicação, seu brilho e sua generosidade em compartilhar tanto saber.

Alunos, preparem os cadernos, celulares e as mentes. Vamos receber com uma salva de palmas calorosa a nossa querida palestrante, Professora Drª Izabel Castanha Gil!

Brasilândia/MS, 22 de setembro de 2026.

Minha Pegada Ambiental

A Escola Municipal Antônio Henrique Filho realizou, no dia 22 de setembro, a palestra “Minha Pegada Ambiental: pequenos gestos, grandes mudanças”, um momento de grande importância para a comunidade escolar e para a promoção da consciência ambiental.

O evento contou com a participação dos estudantes do Ensino Fundamental e convidados, proporcionando um espaço de aprendizagem, reflexão e diálogo sobre a preservação do meio ambiente e a responsabilidade de cada cidadão na construção de um futuro mais sustentável.

A palestra foi ministrada pela Prof.ª Dr.ª Isabel Castanha Gil, professora do Centro Universitário de Adamantina, pesquisadora em desenvolvimento regional e escritora, que compartilhou conhecimentos e reflexões sobre atitudes sustentáveis e os impactos das nossas escolhas no cotidiano.

A realização do evento contou com a importante participação e parceria da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo Carlos Alberto dos Santos Dutra e da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Brasilândia Maria Inês Anselmo Costa, fortalecendo a união entre os setores públicos em favor da educação ambiental.

A escola agradece à Prefeitura Municipal de Brasilândia, às Secretarias envolvidas e, à gestão da Escola Municipal Antônio Henrique Filho, pelo apoio, organização e empenho para que esse momento pudesse acontecer com tanto significado para nossos estudantes.

🌳 Pequenos gestos podem transformar grandes realidades. Educar para cuidar do meio ambiente é investir no futuro!

Equipe Tecnologia. ESCOLA ANTONIO HENRIQUE FILHO

domingo, 20 de setembro de 2026

 

Onde Aninham as Corujas e a Memória

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 





Olho para o Cruzeiro e um frio percorre-me a espinha. Aquele marco fundante do município há quarenta anos espera por uma reforma. Outrora, a Praça dos Fundadores estava projetada para o seu entorno. O tempo passou; após ser palco de encontros e do coroamento das saudosas Cavalgadas Arthur Höffig, o lugar foi, aos poucos, entregue ao esquecimento. 

Com a madeira corroída, o monumento mantinha-se forte apenas o suficiente para abrigar um casal de corujas teimosas. Elas insistiam em não abandonar o posto que um dia — no sonho do patriarca do lugar — congregou a seus pés a urbe nascente.

De repente, vejo homens trabalhando muito próximos àquele monumento: máquinas nivelando o terreno e estacas fincadas ao chão. Meu coração alegra-se e aproximo-me de um dos operários.

Numa conversa informal, após concordarmos sobre a importância de proteger a vida das corujas que mantêm sua toca na base do Cruzeiro, o senhor informa-me educadamente que ali será construído um estacionamento para a Câmara Municipal. 

A informação, para meu absoluto desalento, foi confirmada mais tarde pela Secretaria de Infraestrutura e Serviços.

Passados a surpresa e o desencanto, ponho-me a refletir sobre o significado e importância de uma praça para o senso comum e para os administradores. 

Sob o aspecto da engenharia, a preocupação limita-se à organização dos espaços e ao planejamento da estrutura urbana. Para alguns, a criação de uma praça traduz unicamente a ocupação de um espaço vazio, tantas vezes abandonado nos grandes centros à mercê da vulnerabilidade social. Restando a uma pequena parcela da sociedade enxergá-la como alternativa de lazer, meditação e deleite comunitário.

O geógrafo Milton Santos escreveu que “o espaço é hoje um sistema de objetos cada vez mais artificiais, povoado por sistemas de ações igualmente imbuídos de artificialidade, e cada vez mais tendentes a fins estranhos ao lugar e a seus habitantes”. É impossível discordar da lucidez de sua percepção trintenária. 

Praças não se confundem com o espaço puro e simples. Elas são formas de paisagem intimamente ligadas à comunidade que as envolve. Construir e cuidar de praças é investir na paisagem que humaniza o território — uma paisagem que, com o passar do tempo, plasma e transforma a natureza em humanidade, herança e memória. Por isso, o esquecimento nos entristece: porque somos parte das paisagens que nos abraçam.

Ver uma paisagem desenhada pelo coração da comunidade — a Praça dos Fundadores, a Praça do Cruzeiro —, cuja forma exprime os sonhos, as lembranças e o orgulho dos pioneiros que ergueram este chão, ser reduzida a um mero depósito de veículos, choca pela frieza e insensibilidade.

Para a maioria, o significado da praça reside no elo vital entre o ser humano e a natureza. E é isso que nos enche de alento e esperança.

Porque a praça transfigura o espaço que vive e faz viver; reúne pessoas, histórias, política, religião, arte e música. É sinônimo de manifestação cultural e o verdadeiro palco da expressão de um povo consciente, feliz por caminhar entre jardins floridos e memórias preservadas. 

Sim, somos um povo capaz de garantir o voo livre de uma coruja perene que ainda resiste – como a Praça de nossos sonhos que esperamos vê-la erguida e assim o faremos--, nos braços do Cruzeiro de Brasilândia.

Brasilândia/MS, 21 de setembro de 2026. Dia da Árvore.

 

Salve o 20 de Setembro: O orgulho Gaúcho que carregamos no peito, onde quer que estejamos

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

O dia 20 de setembro não é apenas uma data no calendário; é o pulsar de um sentimento telúrico que une todos aqueles que carregam a alma rio-grandense, estejam eles cruzando as coxilhas do Sul ou habitando qualquer outro canto deste imenso Brasil.

Neste Dia do Gaúcho, permitam-me resgatar uma memória muito especial deste escrevinhador. Volto no tempo, mais precisamente para o dia 19 de setembro de 2005. Naquela oportunidade, como vereador na Câmara Municipal de Brasilândia, Mato Grosso do Sul, ousei quebrar a solenidade dos protocolos habituais para falar do Rio Grande, minha terra natal, que celebrava a sua Semana Farroupilha.

Lembrei aos presentes na Tribuna que o Rio Grande do Sul guarda uma formação singular: foi o único estado brasileiro que não integrou os domínios coloniais de Portugal logo de início, pertencendo à Espanha até um século e meio após o restante do país ser colonizado. Foi somente em 1737 que a Capitania de São Pedro do Rio Grande ganhou vida, mas foi o estopim da Revolução Farroupilha, em 1835, que verdadeiramente moldou as cores da nossa bandeira, definiu nossos contornos geográficos e forjou o caráter indomável dos antigos habitantes daquelas paragens.

Hoje, vivendo em Brasilândia — terra generosa que honrosamente me adotou há mais de quatro décadas, desde que aqui aportei em fevereiro de 1986 —, confesso que o tempo acabou por suavizar meu sotaque. Distante da pampa que faz divisa com as bandas de Cacequi, na fronteira oeste, o jeito de falar e a tradicional charla galponeira parecem adormecidos na rotina.

Mas basta chegar o mês de setembro para que toda essa cultura e apego às raízes se revigorem com força total. Enquanto lá no Sul o chão estremece com as gineteadas, os fandangos, as trovas e as bombachas, a gente que vive distante sente o coração apertar de saudade. Começamos, quase sem perceber, a reeducar a língua e a memória. O sotaque esquecido teima em voltar, trazendo à tona o guri, o piazito de campanha que fomos ontem, contrapondo-se ao velho táta em que vamos nos transformando com o branqueamento dos cabelos. O velho capão teima em se sentir borrego diante da força da tradição.

Por isso, peço licença para enveredar em cancha reta no rumo do sentimento. O Rio Grande está vivo em cada um que cultiva seus valores, mesmo longe das fronteiras geográficas do Sul. Como homenagem a essa herança cultural eterna, compartilho com vocês uma das mais belas manifestações dessa fé galponeira: a célebre "Prece do Gaúcho", escrita originalmente por Dom Luiz Felipe de Nadal. Uma Oração do Pai Nosso rezada em versão xirua e gaudéria, direto do fundo do rincão.

Prece do Gaúcho

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e com licença, Patrão Celestial.

Vou chegando, enquanto cevo o amargo das minhas confidências, porque ao romper da madrugada e ao descambar do sol, preciso camperear por estas invernadas e repontear do Céu a força e a coragem para o entrevero do dia que passa.

Eu bem sei que qualquer guasca bem pilchado, de faca, rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida se não se estriba na proteção do céu. Ouve, Patrão Celestial, a oração que te faço. Tomara que todo mundo seja como irmão. Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim.

Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me solto porteira afora... Eita, potrilho chucro, renegado e caborteiro! Mas eu te garanto, meu Deus, quero ser bom e direito.

Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do céu. Socorre-me, São Pedro, capataz da Estância Gaúcha. Pra fim de conversa, vou te dizer, meu Deus, mas somente pra ti: que tua vontade leve a minha de cabresto, pra todo o sempre, até a querência do Céu. Amém."

Que o civismo, a coragem e a hospitalidade do povo gaúcho continuem a inspirar nossos passos, não importa a distância da querência. Um feliz Dia do Gaúcho a todos!


Brasilândia/MS, 20 de setembro de 2026.

Publicado originalmente em https://carlitodutra.blogspot.com/2024/09/salve-o-20-de-setembro-dia-do-gaucho.html

sábado, 19 de setembro de 2026

 O Assobio da Esperança: Como a Música Transforma o Lixo em Dignidade

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra







Quando aquele comandante britânico vestiu a farda militar interpretada pelo ator Alec Guinness e decidiu liderar um grupo de prisioneiros que se mantinha refém dos japoneses na Birmânia, durante a IIª Guerra Mundial, ele não sabia que entraria para a história. Esse argumento, que foi adaptado do romance The bridge on the river Kwai e ganhou as telas do mundo inteiro em 1957, viria a ser vencedor de sete Oscar: filme, direção, ator, roteiro, montagem, fotografia e trilha sonora.

Embalado pela música-tema desse grande épico inesquecível do cinema, a contagiante marcha Colonel Bogey, assobiada por esses prisioneiros que foram induzidos e encorajados a construir a célebre ponte do rio Kwai (se pronuncia cuêi), até hoje é conhecida e cantarolada no mundo inteiro.

O ritmo melódico da marcha imprime volume e consistência, fazendo brotar em nós uma força que vem de dentro e nos projeta para a frente. O rigor com que é executada transmite um timbre de euforia e ânimo, ao mesmo tempo em que nos convida à ordem e à disciplina.

É essa mesma sensação que os brasilandenses têm vivido e sentido durante dias determinados, aqui em nossas ruas. Quando aquele assobio ecoa desde o centro até os bairros, não é apenas um caminhão de material reciclável que se aproxima; é uma onda sonora que nos envolve e embala, funcionando como um despertar coletivo que nos força a sair de nossos egoísmos cotidianos. É um convite poético para nos mexer, para vencer nossos desafios maiores.

O exemplo do militar inglês foi este: mesmo sabendo que a ponte, uma vez construída, iria servir tão somente ao inimigo, ainda assim ele continuou sua empreitada para provar a superioridade e a dignidade de seus homens em relação às forças opositoras.

Fazendo um rápido paralelo entre a construção dessa ponte e a ASSOBRAA, encontramos a mesma essência de superação. Mesmo sabendo que a tarefa da coleta seletiva do lixo pudesse ser (ou até devesse ser) realizada somente pela Administração Pública, eles — os cidadãos, os sócios, transformados em atores reais da nossa história — assumiram para si a missão de fazê-la, e de fazê-la brilhantemente.

Já não importa mais questionar de quem fora a obrigação legal de outrora. Com braços fortes e sorriso no rosto, esses Agentes Ambientais recolhem o que a sociedade descarta e devolvem em forma de cidadania, provando que a coleta seletiva em nossa cidade é plenamente possível.

Lá estavam eles, há 23 anos, heroicamente animados pelo senhor Deolir Felipe Schio, o popular Caco, e um grupo de amigos sonhadores, mostrando que é preciso conclamar a comunidade para a tarefa pedagógica de transformar comportamentos e superar nossos limites. Olhar para o trabalho da ASSOBRAA nos obriga a baixar os olhos diante do nosso próprio comodismo e erguê-los novamente, prontos para colaborar.

Assim como o filme do diretor David Lean foi coroado de glórias, auferimos aqui à ASSOBRAA nota DEZ pela sua iniciativa e coragem de fazer acontecer aquilo que Jean Cocteau, escritor francês, eternizou: "Ele não sabia que era impossível, foi lá e realizou".

E lá vem o assobio daquela musiquinha, uma composição de Malcolm Arnold eternizada pela KMC Orchestra e que ganha vida na gravação utilizada pelo caminhão da coleta, dirigido hoje pelo amigo Bidão. Na voz inconfundível do saudoso Benê Soares, esse gesto grandioso ecoa como um hino, convidando cada morador a se engajar nesse mutirão de amor por nossa terra.

Sim, sentimos uma pontinha de orgulho legítimo, todos nós brasilandenses. Isso porque quem faz isso é gente nossa, pelas mãos da Jociane e sua valorosa equipe, trabalhando por todos nós e desenhando o melhor futuro para a totalidade da nossa Brasilândia. Sentimo-nos orgulhosos porque alguém ousou desafiar o óbvio e superar obstáculos.

Parabéns, agentes ambientais da ASSOBRAA; parabéns, Brasilândia. Nossa cidade pulsa no peito desses heróis. E para aqueles que ainda teimam em dizer que Brasilândia não tem jeito... bem, assobia aquela musiquinha pra ele!

 

Brasilândia/MS, 20 de setembro de 2026. Homenagem aos 23 anos de Fundação da ASSOBRAA. Crônica inspirada no artigo publicado originalmente no Jornal Diário MS, Dourados, 09.fev.2004; A Tribuna, Campo Grande, 8-14.fev.2004. E em DUTRA, C.A.S. Retalhos do Dia a Dia, Brasilândia, 2010, pág. 104s.

 

 

O Coração do Mutum: A Saga Invisível de Suor, Coragem e Dignidade no Campo

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Existem histórias que o tempo não pode apagar, pois elas foram escritas com o suor do rosto e a força da esperança. Olhar para trás e recontar a trajetória da APRAMBRAS (Associação dos Pequenos Produtores do Assentamento Mutum de Brasilândia) não é falar apenas sobre terras ou números, mas sobre a alma de centenas de famílias que decidiram lutar pelo direito de existir com dignidade.

Tudo começou oficialmente em um 18 de setembro de 1997. Naquele dia, a esperança de 340 famílias ganhou voz na liderança de Roberto Silva. Ele não assumiu apenas a presidência de uma associação; ele abraçou o destino de pais, mães e filhos espalhados por uma imensidão que tocava Santa Rita do Pardo, Ribas do Rio Pardo e Brasilândia.

No início, o que aquelas 187 famílias de Brasilândia encontraram foi o isolamento. A realidade era dura: poços artesianos secos ou quebrados, a escuridão da falta de energia elétrica e estradas que eram verdadeiras barreiras. Mas a fome de justiça daquela comunidade era maior.

Roberto Silva, com passos incansáveis e o apoio vital do então vereador Lauro Canno, transformou o silêncio do campo em clamor. A prefeita Marilza do Amaral ouviu o chamado, e em março de 1998, as primeiras lágrimas de alívio correram com a inauguração da Escola e do Posto de Saúde. Pela primeira vez, o Mutum sentia que o futuro era possível.

Contudo, a terra cobra o seu preço, e o abandono governamental quase sufocou o sonho. Entre 1999 e 2000, o Mutum viveu seu inverno mais rigoroso. Sem recursos do INCRA, a penúria foi tamanha que alguns precisaram partir para não morrer de fome. Projetos técnicos frios e distantes da realidade tentavam impor regras impossíveis — como sustentar uma casa inteira com a produção de apenas seis vacas. Mas a associação não se curvou. Roberto voltou à cidade, denunciou a dor do seu povo e exigiu o respeito que a dignidade daquelas famílias merecia.

O bastão da liderança foi passado em outubro de 2000 para as mãos calejadas de Pedro Paulo Cassemiro Martins, então com 55 anos. Com o mesmo fogo no peito, Pedro Paulo continuou a marchar pelos direitos da comunidade. Ele lutou por cada pedaço de chão demarcado, brigou para que o comércio ganhasse vida e insistiu na abertura da Estrada do Bico da Bota, o cordão umbilical que finalmente tiraria o reassentamento do isolamento.

E a vitória veio. Ela veio no teto das casas, na água que corria pura e, principalmente, no milagre da Bacia Leiteira, que alcançou 60% de sua capacidade, e na força do Laticínio Mova Lat. Ver o queijo muçarela cruzar as fronteiras do assentamento e ver o soro retornar para alimentar os animais e adubar a própria terra era a prova viva de que o Mutum havia vencido.

A história da Agrovila Mutum é um monumento à resiliência humana. Cada estrada aberta, cada sala de aula cheia e cada poço que jorra água celebra um sonho pautado no sacrifício e a união da APRAMBRAS e de seus heróis anônimos. Eles não apenas cultivaram a terra; eles semearam a dignidade para as gerações que hoje colhem os frutos dessa brava e inesquecível jornada.


Brasilândia/MS, 18 de setembro de 2026. 

Artigo inspirado nas memórias e registros históricos resgatados por C.A.S. Dutra na obra "História e Memória de Brasilândia/MS - Volume II – Patrimônio".