O
Gigante Resiste: A Verdadeira História por Trás do Risco de Queda da Árvore
Centenária de Brasilândia
Carlos
Alberto dos Santos Dutra
Este
texto fala na perspectiva da leniência histórica e da ressignificação
do futuro. As palavras iniciais já definem o seu propósito: A trajetória do
centenário Tamboril em Brasilândia é o retrato vivo de que o crescimento urbano
não pode caminhar cego às leis da natureza.
Após quase duas décadas de omissão do Poder Público — que permitiu o sufocamento radicular do espécime Tamboril pela construção irregular de um prédio e a posterior mutilação de sua base para a abertura de um anel viário —, o gigante do cerrado provou sua impressionante resiliência adaptativa, alterando sua própria biologia para continuar de pé.
Pois
bem, caros leitores. Desde que eu e o Pedro Henrique Coutinho do Vale assumimos
a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo, muitos moradores e pais dirigiram
a nós sua preocupação com o risco de a árvore Tamboril tombar sobre a creche.
Logo vistorias técnicas de engenharia ambiental foram realizadas buscando avaliar os riscos reais disso acontecer. A árvore Tamboril, que é um patrimônio protegido por lei passou, então, a merecer toda a atenção da Prefeitura Municipal de Brasilândia. Através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (SEMATUR) e Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços, o poder público mobilizou seus técnicos e engenheiros para avaliar a situação da histórica árvore Tamboril que se encontra localizada ao lado do berçário do CEINF Henrique Mendonça Quintino.
Abaixo, o cidadão pode confere em detalhes o diagnóstico técnico, o histórico de agressões urbanas que o gigante do cerrado sofreu e o plano de ação para resolver o problema de forma definitiva.
Inicialmente registre-se que o diagnóstico
técnico apresentado excluiu o risco iminente de queda desta árvore sobre a
Creche. Quanto ao comportamento de suas raízes, observou-se que a árvore passou
por cortes severos de suas raízes no passado, especificamente do lado onde foi
construído o anel viário da rodovia MS-395.
Tal
situação determinou que sua inclinação, caso ocorresse uma queda futura pela
ação do vento, a análise apontou que o Tamboril cairia para o lado da rodovia
pois suas raízes profundas foram deste lado suprimidas, diminuindo a sua sustentação
lateral.
O que os pareceres, de real, apontam sobre
a interferência da árvore no prédio configura risco para o CEINF tão somente o crescimento
de suas raízes superficiais. Sob na ótica da planta, suas raízes buscam oxigênio
devido a um aterro colocado sobre o tronco. Essas raízes quebram calçadas e
muretas, mas, até o momento, a estrutura principal da creche não apresenta rachaduras
decorrente disso.
No plano institucional providências foram adotadas no sentido de alinhar a preservação ambiental e a segurança pública com os passos formais subsequentes:
Em 23 de outubro de 2025, a SEMATUR concluiu o Relatório Técnico com a emissão de um Laudo de Engenharia que foi enviado à Procuradoria Geral do Município por meio da Comunicação Interna nº 46/2025, procedendo-se avaliação conjunta dos pareceres emitidos pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e turismo, e Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços.
No referido documento medidas preventivas foram recomendadas, por exemplo: Para resolver as patologias estruturais sem agredir o patrimônio cultural, foram sugeridas as ações como: Sondagem subterrânea com o uso de georradar para mapear a exata profundidade das raízes; Barreira física com a instalação de uma barreira subterrânea (raiz-containment) para desviar o crescimento radicular para longe da creche; Remoção do aterro com a retirada controlada da terra sufocante sobre a base da árvore para devolver a oxigenação natural, e Reforma da calçada com a reconstrução do pavimento usando juntas de dilatação e camadas drenantes para aliviar futuras expansões.
Para
compreender a atual situação da árvore Tamboril, é fundamental contudo resgatar
o histórico de ocupação do espaço urbano ao seu redor. Faço aqui, por
fim, o registro:
Memória e Resistência: O Histórico de Lutas e Agressões ao Tamboril
Pois saibam os senhores e senhoras que este gigante, centenário Tamboril já testemunhava a paisagem local muito antes da própria fundação do município de Brasilândia. No entanto, as últimas décadas foram marcadas por um embate constante entre o avanço de construções de engenharia e a preservação deste patrimônio natural.
Em
13 de junho de 2007, o município promulgou a Lei Municipal nº 2.186/07, que
oficializou o tombamento do Tamboril (Enterolobium contortisiliquum)
para o Patrimônio Histórico de Brasilândia. A lei declarou a árvore imune ao
corte por meio de uma proibição rígida: O Artigo 2º da legislação vedou
expressamente a derrubada, a poda drástica ou qualquer ação antrópica que
gerasse modificações no desenvolvimento natural ou provocasse a morte do
espécime. Assim, o Tamboril foi reconhecido como um monumento cultural paisagístico
icônico e um verdadeiro cartão-postal na entrada da cidade.
Não obstante, apenas uma semana após a promulgação desta lei de proteção, aconteceu a primeira grande agressão: A Construção do CEINF. O Tamboril enfrentou o seu primeiro grande risco devido ao início das obras do Centro Educacional Infantil (CEINF). Em total desrespeito ao projeto original, o loteamento original que previa que o CEINF ocupasse lotes catalogados como "área institucional" (Quadras 10, 12, 13 ou 14) não foi obedecido. As escavações avançaram de forma irregular sobre a Quadra 15, classificada como área verde de preservação, exatamente onde a árvore ficava.
Na época, num gesto de resistência civil, a combativa ONG de outrora, Associação Instituto Cisalpina de Pesquisa e Educação Socioambiental e Defesa do Patrimônio Cultural acionou o Ministério Público Estadual (MPMS) em regime de urgência. A entidade alertou que assentar os alicerces do prédio a apenas um metro do caule condenaria o gigante à morte.
Apesar dos apelos públicos na Tribuna da Câmara e nas rádios locais bradados pelo então vereador Carlito Dutra, para que se respeitasse uma distância mínima técnica, engenheiros e administradores da época mantiveram-se silentes e ignoraram os alertas. A obra avançou sob a promessa infantil de funcionários de que fariam apenas uma "cerquinha" protetora ao redor do tronco.
Como se não bastasse, veio a segunda grande agressão: As Obras do Anel Viário. O sistema radicular do Tamboril sofreu outro golpe severo com a modernização da infraestrutura de transportes do município. O que se viu foi o corte radical de raízes:
Durante as obras de implantação do anel viário de acesso à cidade, interligando a Rodovia MS-395 à Avenida São José, a empreiteira contratada executou escavações profundas. Como resultado obteve-se exposição e mutilação: Esse processo promoveu o corte drástico e a supressão de longos e calibrosos segmentos laterais das raízes fasciculadas que davam sustentação e nutrição à árvore.
Valendo-se de mecanismo de defesa e resposta biológica a tantas mutilações, o heroico Tamboril alterou sua dinâmica de crescimento, buscando a sobrevivência crônica concentrando forças para emitir raízes na direção oposta às agressões, avançando por dezenas de metros por baixo do solo do CEINF. O sufocamento posterior gerado pelo aterramento do seu tronco reduziu a oxigenação da terra, forçando o surgimento das atuais raízes superficiais secundárias que hoje quebram as calçadas. A omissão e leniência ao longo de 18 anos davam agora os seus frutos.
As palavras dirigidas na época aos poderes públicos ainda ecoam nos ouvidos deste escrevinhador. Em matéria publicada no portal BBC News em 30 de junho de 2007, a entidade expôs publicamente a contradição da prefeitura, que avançava com o maquinário dias após o tombamento: “É um verdadeiro cartão postal de nossa cidade, explica o vereador Carlito Dutra (autor do projeto de lei), porém o senhor Prefeito parece que não entendeu direito o teor da Lei nº 2.186/07 que ele mesmo sancionou no dia 13 de junho último. A Lei obriga a proteção e preservação da árvore, sendo vedado o seu corte, derrubada ou prática de qualquer ação que possa provocar danos, alteração no seu desenvolvimento natural ou morte.”
Ao final da reportagem, o parlamentar e presidente da ONG Instituto Cisalpina endureceu a cobrança para barrar a obra irregular na área de preservação: “Se o Prefeito não rever o seu projeto, não haverá outra alternativa para a entidade a não ser denunciá-lo ao Ministério Público, evitando que ele cometa um crime ambiental (...).”
No dia 2 de outubro de 2007, a Associação oficializou uma representação junto à Promotoria de Justiça de Brasilândia. O texto detalha tecnicamente como o avanço físico dos alicerces sufocava a árvore: “Patente está, portanto, que uma obra pública que senta seus alicerces a um metro do caule de uma árvore centenária, cuja proteção está garantida em Lei, além de configurar dano, no mínimo, zomba da norma e seu espírito que é o de preservar a vida e a conservação dessa espécie.”
A entidade apontou também o vício de planejamento urbano, já que o loteamento oficial destinava outro quadrante para a creche: “A olhos vistos, a ampliação da obra em construção padecia de vício, pois se encontrava em desacordo com o projeto original do loteamento que previa naquele local uma área verde de preservação.”
Diante
do ritmo acelerado das máquinas da empreiteira, o apelo final da petição ao
Ministério Público que se encerrava com uma previsão sombria sobre o destino do
Tamboril caso o Estado se mantivesse inerte: “Solicitava a entidade, por
fim, que fossem tomadas as providências cabíveis, no que couber de direito, em
regime de urgência urgentíssima, dado o adiantado das obras, fazendo valer,
assim, a proteção jurisdicional do Estado ao meio ambiente. Pois caso contrário,
na omissão deste, in concreto, estaremos condenando este Tamboril à morte num
futuro bem próximo.”
Essas citações textuais têm o único propósito de ajudar o leitor a entender e comprovar que os problemas estruturais enfrentados hoje pelas calçadas do CEINF não são culpa da natureza da árvore, mas sim fruto de um erro urbanístico alertado exaustivamente há quase duas décadas.
Hoje, o conflito que outrora opunha a segurança de uma creche à sobrevivência de um patrimônio histórico foi finalmente superado pela técnica. O diagnóstico de 2025 afasta de forma definitiva o fantasma do desabamento sobre o educandário e devolve a razão à coletividade: a engenharia moderna e o manejo ambiental responsável caminharão juntos por meio de georradares, barreiras físicas subterrâneas e a descompactação do solo.
Proteger o Tamboril não é apenas cumprir a Lei nº 2.186/07: é o resgate de uma dívida histórica e um compromisso ético com a nossa "Casa Comum". Ao salvaguardar este cartão-postal, Brasilândia deixa de carregar a marca da leniência do passado e assume o protagonismo de uma cidade que aprendeu a harmonizar sua infraestrutura com a preservação de suas raízes mais profundas.
Brasilândia/MS 13 de junho de 2026
19º
aniversário da promulgação da lei que inscreveu o Tamboril como patrimônio histórico
de Brasilândia.









