segunda-feira, 18 de maio de 2026

 

A Bênção, vovó Aparecida Monção Batista

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 







Um dia, os caminhos me levaram até aquela casa. O calendário marcava o ano de 2016, mas o motivo exato se perdeu no tempo, como se o destino apenas quisesse me guiar ao aconchego.

Desde a porteira do sítio, a singeleza do lugar já anunciava um abraço. Conforme o carro se aproximava, a casa de madeira ia se revelando, emoldurada por uma varanda espaçosa que a contornava inteira, como se o próprio lar vestisse uma saia rodada de crochê.

No desvão das colunas de madeira rústica, a natureza fazia morada: folhagens delicadas, flores em vasos e trepadeiras suspensas dividiam espaço com samambaias e rosas em pequenos potes. Aquele cenário transformava a realidade em poesia, tal qual uma casa encantada saída dos contos de fadas.

E lá estava ela. Pequenina em estatura, com um corpo franzino que carregava a leveza dos anos e a pele docemente enrugada pelo tempo. No rosto, trazia um discreto e eterno sorriso estampado. Seus olhos miúdos e profundamente atentos pareciam guardar distâncias vividas e segredos do passado, brilhando intensamente ao nos olhar. Com passos firmes que desafiavam a idade, exalando um vigor que vinha da alma, ela caminhou ao nosso encontro e nos acolheu de braços abertos.

Ali reluzia a rainha do lar, o centro de gravidade daquela casa e a razão da nossa jornada. Dona Aparecida Monção Batista era a grande regente da melodia daquele lugar. Eu e minha esposa, Vilma, sentimo-nos profundamente lisonjeados por tanta ternura. Pouco depois, com um gesto terno, ela nos conduziu até a cozinha.

No coração da casa, fomos recebidos por uma mesa farta e generosa, preparada para o café da tarde. Pães dourados e cucas caseiras repousavam sobre uma toalha florida, cercados pelo aroma do leite fresco, do queijo e das geleias. Tudo ali tinha o divino sabor colonial que só as mãos e as memórias de Dona Aparecida sabiam despertar.

Pioneira e fundadora daquele povoado, ela chegou a Brasilândia no distante ano de 1956. Lembrava-se de cada detalhe, desde os primeiros passos da cidade ao lado de Arthur Höffig. Enquanto ela resgatava essas relíquias do tempo, seu filho Nilvo a amparava com as datas e os fios das recordações. Foi no dia 12 de julho daquele mesmo ano de chegada que Nilvo nasceu, lembrou. Ao lado, Dirce sorria com os olhos cheios de admiração diante das narrativas daquela doce mãe octogenária, alimentando o encantamento deste historiador.

Dona Aparecida recordou o tempo das primeiras escolas rurais, sob a gestão do prefeito Marques Neto. Depois, evocou a época do prefeito Patrocínio, quando nasceu a primeira escola estadual da cidade: o Centro Educacional Pedro Pedrossian, que abrigou sonhos até 1978 onde hoje funciona a prefeitura. Mais tarde, esse templo do saber ganhou um novo endereço e o nome do ex-prefeito Adilson Alves da Silva, cuja jornada foi abreviada em um acidente de carro. Nilvo, que se tornou professor, recorda com orgulho no peito que fez parte da primeira turma a se formar naquela instituição.

Para Dirce, ver Dona Aparecida tão lúcida, vibrante e cheia de vida era um espetáculo de pura luz. Católica fervorosa, sua fé era o seu norte: nunca deixou de caminhar nas missas, procissões e celebrações da Paróquia Cristo Bom Pastor desde o dia em que fincou suas raízes na cidade. Querida por todos, ela conhecia a vida em sua essência mais pura e crua, mantendo sempre as mãos estendidas para quem precisasse de amparo.

A tarde foi derramando suas luzes douradas e, após folhearmos o passado guardado nas poucas fotografias do álbum de família, chegou a hora da despedida. Agradecemos a imensa hospitalidade e partimos. Conforme o carro se afastava pela estrada, uma sensação terna nos invadia, como se um pedaço de nossos corações tivesse escolhido ficar ali.

Hoje, os filhos, netos e bisnetos que choraram a partida para o céu de sua grande matriarca, rememoram a saudade. Nas vozes embargadas pelas lembranças, ecoa a certeza de que ela foi, e sempre será, a rainha e a avó mais dedicada. Era para os seus braços que os netos corriam em busca de uma bênção, de um cheiro e de um beijo terno. Há, nos corações daqueles que tanto a amaram, o lamento doloroso de um último beijo que a distância e a malfadada doença não permitiram entregar. Mas a saudade que fica é também a prova desse amor imensurável.

Dona de um coração gigante, bom e generoso, Aparecida era uma mulher doce ao modo antigo: tinha o dom raro de enxergar a alma das pessoas, sem se importar com as aparências. Sábia, autêntica e desbravadora, ela esculpiu sua trajetória com os fios da dignidade, do respeito e do trabalho honesto. Raridade nos dias de hoje, ela se tornou credora de toda a nossa admiração.

Fará falta o eco de sua voz reunindo a família ao redor da mesa para partilhar conselhos e histórias. Mesmo quando silenciava, Dona Aparecida deixava falar a voz do coração — a única linguagem universal que todos compreendem.

Obrigado, vovó Aparecida Monção Batista, por aquela tarde eterna e imorredoura que nos brindou há 10 anos. Saudade eterna desta serena guerreira da vida.

 

Brasilândia/MS, 18 de maio de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/05/a-bencao-vovo-aparecida-moncao-batista.html 18 de maio de 2021.

Foto: Vilma Galli Dutra, 2016




sábado, 9 de maio de 2026

 

Jair Bezerra Xavier: A voz pioneira que ergueu o FUSUS em Brasilândia.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 

Você sabia que a saúde pública em Brasilândia tem uma força que nasce diretamente das mãos do povo? Essa história de cidadania e coragem ganhou um capítulo decisivo em 10 de maio de 2011, quando nasceu o FUSUS – Fórum Permanente dos Usuários do SUS.

No centro dessa conquista estava um homem de visão e espírito comunitário: Jair Bezerra Xavier. 

Seu legado de liderança e altruísmo foi construído como primeiro coordenador do FUSUS e representante da Associação ACOJAC (Jardim Camargo). O Sr. Jair não apenas ocupou um cargo; ele abriu caminhos. Em uma época onde a participação popular ainda buscava seu espaço, ele entendeu que a saúde de qualidade só existe quando o usuário tem voz, vez e o poder de fiscalizar. Seu trabalho foi o alicerce para que outras lideranças, como João Brito de Souza, pudessem dar continuidade a essa corrente de bem comum. 

O FUSUS surgiu como um escudo do povo num tempo ainda onde a municipalização da saúde engatinhava. E o Sr. Jair ajudou a consolidar o que hoje chamamos de controle social. Um instrumento que significa na prática: Vigilância: Garantindo que cada centavo destinado à saúde seja bem aplicado; Transparência: Mostrando onde e como os recursos estão sendo usados, e Participação: Ouvindo o cidadão comum, o trabalhador e a mãe de família, levando suas dores e sugestões diretamente aos gestores.

Olhando para trás, lembramos das reuniões simples na Câmara Municipal, em cadeiras de madeira e ambientes humildes. Mas, como bem ensinou o Sr. Jair, o que importava não era o luxo do plenário, mas o empenho altruísta de quem estava ali. 

Hoje, em tempos de desafios globais pós pandemia e universalização do atendimento à saúde, a semente plantada pelo Sr. Jair Bezerra Xavier floresceu. Brasilândia conta com dezenas de entidades da sociedade civil que mantêm viva a chama da fiscalização e da paz social. 

Num tempo em que o ser humano cada vez mais se esforça para acompanhar a celeridade da máquina, nossa homenagem e gratidão ao Sr. Jair Bezerra Xavier. Seu pioneirismo transformou a saúde de Brasilândia em um patrimônio de todos nós. Que seu exemplo continue inspirando novos conselheiros e cidadãos a nunca abrirem mão do direito de cuidar da nossa cidade!


Brasilândia/MS, 10 de maio de 2026.

Foto: Conselho Municipal de Saúde reunido na Câmara Municipal de Brasilândia, 1993.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/07/por-onde-anda-o-forum-dos-usuarios-do.html

 

Gerson Paulo da Silva: Guardião de Caminhos e Memória Viva da Saúde em Brasilândia

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

A história de um homem, em sua essência, costuma fundir-se com a terra que ele pisa e com o suor que dedica ao seu ofício. Em Brasilândia, Mato Grosso do Sul, a trajetória do combate às endemias não é apenas um registro burocrático; ela possui rosto, caligrafia e a força dos passos de Gerson Paulo da Silva. 

Em 1976, quando o setor de endemias ainda atendia pela sigla SUCAM (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública) e respondia ao distrito de Três Lagoas, o Sr. Gerson já cruzava as estradas de terra. Naquela época, os agentes eram chamados de "Guardas" — um título apropriado para quem vigiava a vida entre sítios e fazendas.

O caminho era um exercício de resistência. Fosse a pé ou sobre uma bicicleta, Gerson não carregava apenas equipamentos; levava consigo um caderno de notas, onde registrava, com um zelo quase ritualístico, cada visita e procedimento. Aquele caderno tornou-se o símbolo de uma dedicação que desafiou o tempo. 

As funções de um "Guarda" eram vastas e vitais: iam da dosagem precisa de medicamentos para febre até a delicada colheita de sangue em lâminas de vidro. Estes homens eram, na prática, enfermeiros e técnicos de laboratório itinerantes. Sob o espírito de Oswaldo Cruz, Gerson e seus companheiros — como o saudoso Nicola Pedroso da Silva, o "Cuiabano" — enfrentaram o "barbeiro", o mosquito da malária e os vetores da febre amarela. 

Os registros impressionam: em apenas uma de suas cadernetas, lê-se a coleta de 107 lâminas em uma dezena de fazendas. O Sr. Gerson enfrentou o sol escaldante do cerrado, as chuvas torrenciais e o perigo de animais silvestres. À noite, o descanso era em redes improvisadas em estrebarias ou galpões; a refeição, o clássico "empacotado" de farofa. 

Vindo de Andradina-SP em 1963, Gerson viu Brasilândia nascer e crescer. Viu o povoado tornar-se município em 1965 e dedicou sua juventude a proteger essa nova comunidade. Hoje, aos 72 anos, a pesada bomba aspersora Hudson X Pert e o saco de veneno não pesam mais em seus ombros. Contudo, o peso do ofício ainda se faz presente: os produtos químicos que outrora garantiram a saúde de milhares, marcaram seu corpo, cobrando o preço em sua própria saúde. 

Falar de Gerson Paulo da Silva é falar de um pioneirismo que não buscou glórias, mas que salvou vidas no silêncio das estradas de poeira. Ele é a prova de que a história da saúde pública no Brasil foi escrita com a tinta do esforço pessoal e o compromisso inabalável com o próximo. Orgulho da esposa, filhos e netos. 

Brasilândia/MS, 09 de maio de 2026.

Fonte: A história completa dos Pioneiros da Sucam o leitor encontra In História e Memória de Brasilândia/MS, vol. 1-Pioneiros, página 68-71 e Vol. 3-Cidadania, página 153-159.

Foto: Facebook

quarta-feira, 6 de maio de 2026

 Para Simone Maciel: Uma vida que floresce em amizade

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 





Existem pessoas que são joias raras em nossas vidas. Às vezes, o cotidiano nos faz esquecer de celebrar essa sorte, até que o calendário — seja em uma agenda antiga ou em um aviso no celular — nos lembra: hoje é o dia dela. 

É curioso como a tecnologia nos impulsiona de volta ao que temos de mais humano: o afeto. Hoje, meu coração se alegra ao celebrar a vida de Simone Maciel. Mais do que palavras, estas linhas carregam gratidão e saudade do tempo que passou. 

Simone chegou de mansinho, em silêncio, fazendo morada em nossos corações. Desde os tempos da antiga Cohab, em Brasilândia, ela foi mais que uma vizinha para mim e para Vilma. Ao lado de Nininho e com o pequeno Nathan ainda no berço, ela se tornou a nossa família escolhida, acolhendo este casal que acabara de chegar da pampa gaúcho em 1986. 

Dessa convivência, brotou uma amizade alicerçada no respeito e na confiança. Quantas histórias guardamos! A lida da casa, o crescimento profissional, os círculos bíblicos, a viagem ao Sul e o carinho imensurável como dama de companhia de minha saudosa mãe, Dona Laura. 

Simone sempre foi aquela presença disposta a ajudar, encantando a todos com seus dotes culinários e sua generosidade sem limites. Nunca esqueceu de um gesto gentil ou de um presente, provando que a grandeza do seu coração é o seu maior tesouro. 

Hoje, aquela jovem vizinha é uma vovó que permanece jovem em espírito e eterna em nossas memórias. Simone, que seu novo ciclo seja um horizonte de paz, saúde e felicidade.

Nós te amamos. Feliz Aniversário. Um beijo carinhoso em seu coração.

 

Brasilândia/MS, 06 de maio de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2023/05/feliz-aniversario-amiga-simone-maciel.html

segunda-feira, 4 de maio de 2026

 

Libaneza Center: Onde o passado floresce em gratidão
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




Em tempos de liquidez, como bem descreveu o filósofo Zygmunt Bauman, a vida parece escorrer por entre os dedos. As memórias, como águas de um rio apressado, arriscam-se a desaparecer no silêncio do esquecimento. Especialmente nos pequenos recantos do mundo, onde a história nem sempre se escreve em letras de forma, os momentos de glória podem ser varridos pelo vento se não forem eternizados pelo afeto e pela palavra escrita. 

Brasilândia, contudo, parou para respirar no dia 3 de maio de 2021. Naquela manhã, o tempo não fluiu; ele se fez monumento. O que se viu não foi apenas a abertura de portas, mas o desabrochar de um legado: a nova Libaneza Center, erguida sob o sol com o brilho da modernidade e a solidez dos sonhos realizados. Lá, entre o perfume das flores e o frescor das novas paredes, os olhos de Regina Célia Zogheib Bertonha marejavam, refletindo a luz de um coração que batia no ritmo acelerado da vitória. 

No silêncio de sua prece íntima, Regina viajava no tempo. Encontrava, no ano de 1948, as ondas de um mar rebelde sendo vencidas pela coragem de Farhat Zogheib, seu pai. Para trás, ficava um Líbano ferido pelas cicatrizes da Grande Guerra e pela depressão econômica. Na mala, quase nada; no peito, a imensidão da esperança. Ao desembarcar no Brasil e instalar-se em Junqueirópolis, o jovem imigrante não buscava apenas fortuna, mas um destino. 

A semente da prosperidade germinou rápido. Em 1953, o esforço transformou o empregado em proprietário. Ao lado de sua esposa, Yolanda Baggio Zogheib, Farhat fundou a "Casa Libaneza". Regina, a menina nascida em 1960, cresceu entre o balcão e os materiais de construção, aprendendo que o comércio é, antes de tudo, a arte de servir. 

A partida do pai, em 1994, embora tenha deixado um vazio imenso, não apagou a chama empreendedora da família. O esteio se foi, mas o carisma permaneceu. Quatro anos depois, guiada por desígnios que transcendem o plano terreno, os olhos de Regina miraram além da margem direita do Rio Paraná. 

Nas férias em que visitava o esposo Celso Bertonha e o sogro na lida agropecuária, ela percebeu que Brasilândia era o solo que esperava por sua história. Em julho de 1998, o veredito do coração: "Já não me via mais longe do Mato Grosso do Sul". E assim, em 5 de dezembro daquele ano, a Libaneza Center abria suas portas na Avenida Boa Esperança. 

O que começou em um espaço tímido e alugado, floresceu sob a confiança do povo brasilandense. O "mix" de produtos cresceu; as ferramentas ganharam a companhia da papelaria, da decoração e do aconchego de cama, mesa e banho. O espaço ficou pequeno para a grandeza daquela visão. 

Hoje, decorridos mais de 22 anos, o ciclo se completou com a inauguração do prédio próprio — a maior e mais imponente loja da cidade. Um espaço setorizado, amplo e moderno, pensado para que cada cliente se sinta em casa. Um presente arquitetônico que engrandece o município e oferece alternativas que vão das utilidades domésticas ao rigor dos materiais profissionais. 

Mais do que uma estrutura de concreto e vidro, a Libaneza Center é um gesto de gratidão. Por meio de cada colaborador, a empresa devolve à cidade o carinho e o prestígio recebidos ao longo de duas décadas. Parabéns, Regina Célia Zogheib Bertonha. Parabéns, Libaneza Center. 

Que a luz de Farhat e Yolanda continue a iluminar os corredores desta casa que, nascida de uma malinha de mão e atravessando oceanos, hoje é o orgulho de Brasilândia. 

Brasilândia/MS, 4 de maio de 2026. 5º aniversário de inauguração na nova sede da Libaneza Center.

Foto: Jornal de Brasilândia, 1999 e Dutra, 2021.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/05/libaneza-center-e-o-olhar-de-gratidao-e.html




 

domingo, 3 de maio de 2026

 

Memórias de Luta e a Saga do SINDIBRAS.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra.


 




As sementes do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Brasilândia — o SINDIBRAS — foram plantadas em solo fértil de esperança no dia 4 de maio de 2002. Contudo, a jornada para transformar o sonho em direito gravado no papel foi longa. O primeiro marco oficial viria apenas em 26 de março de 2007, quando a entidade registrou sua existência sob o número 079 do Livro 2-1, Folhas 147 vº, no Cartório de Brasilândia.

Por uma década inteira, os dirigentes do sindicato travaram uma batalha silenciosa e persistente. Faltava-lhes a tão almejada Carta Sindical — o documento que não apenas legitimava a força da categoria, mas que também serviria de escudo e espada nas negociações junto ao poder público. Até então, a prefeitura local ignorava a voz da entidade. Somente dez anos após a sua fundação é que o sindicato finalmente pôde erguer o documento que oficializava sua força reivindicatória. 

A verdadeira gênese dessa história remonta a tempos ainda mais distantes. O servidor público Marcos Eduardo Costa Brasil, fundador e primeiro presidente, já buscava desde 21 de setembro de 1993 — sem sucesso — a inscrição da entidade no burocrático labirinto do Cadastro Nacional de Entidades Sindicais do Ministério do Trabalho e Emprego. Era um esforço solitário que antecipava as lutas que estavam por vir. 

O destino do SINDIBRAS começou a mudar de rumo em 2005. O sopro de renovação veio em 2 de setembro daquele ano, quando uma assembleia geral elegeu a primeira Comissão Eleitoral. Semanas depois, no domingo de 16 de outubro de 2005, a categoria se reuniu em uma modesta casa na Rua dos Associados, nº 905, no coração da cidade, para escolher sua primeira diretoria oficial. 

Sob o olhar atento de Cleiton de Oliveira Caitano (presidente da mesa), Nilson de Oliveira (secretário) e Clemente Cardoso Farias (escrutinador) — todos servidores e homens de fibra —, os votos foram contados. Todo o rito cumpria rigorosamente o edital publicado em setembro nos murais da Comarca, no Paço Municipal e na Câmara. Para garantir a lisura e a proteção jurídica daquele momento histórico, os trabalhos foram assessorados pelo advogado Carlos Alberto dos Santos Dutra (OAB/MS nº 10.179).

Ali, naquele domingo de sol em Brasilândia, a categoria não apenas elegia seus representantes: ela começava a escrever, em definitivo, a sua própria história de liberdade e direitos. 

Brasilândia/MS, 4 de maio de 2026.

Fonte: A história completa do SINDIBRAS o leitor encontra no Volume 2-Patrimônio, da coleção História e Memória de Brasilândia/MS, páginas 426 a 430.


 

sábado, 25 de abril de 2026

Brasilândia e o legado de seu Teixa e Dona Tina.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra










Diz o ditado que o trabalho dignifica o homem. A frase, popularizada pelo sociólogo Max Weber, sempre serviu de norte para aquela família. Mesmo sem conhecerem o intelectual alemão falecido em 1920 — contemporâneo de seus ancestrais —, eles sempre souberam enfrentar o desafio das intempéries, os devaneios humanos e as feridas das guerras.

Agora, o clima é de paz, nutrido pela memória das águas e pela mansidão de um mar que abranda sua fúria na areia. Tudo ao redor exala graça, permitindo que passos descalços alcancem o frescor da vida e a felicidade de, finalmente, ter um lar.

O olhar da mãe contempla o menino de olhos azuis e pele rosada, que sorri enquanto corre entre as rosas do quintal. Dona Albertina sempre preferiu as rosas; dedicava a elas um cuidado quase místico, como se as flores compreendessem sua essência. Ao lado do esposo, cultivava a simplicidade comum aos imigrantes da época, espalhados por esse imenso Brasil que os acolheu, ainda que em cantos remotos do sertão.

De repente, um apito alto e retumbante a desperta. Em uma onda de nostalgia, ela se vê novamente nos braços do vento, sobre a quilha de um navio que avança, deixando para trás, entre as brumas, as lembranças do avô Christian e de seus pais, Antônia e Fernando.

Albertina — a "Tina" — enxerga agora, através dos olhos do marido, que o medo ficou no passado. Seu Cristiano Höffig, o "Teixa", nascido na fazenda Criciumal em Pirassununga, ainda guarda na memória o ofício do pai, o cuteleiro Floriano.

A tradição da cutelaria, herdada do pai Floriano Louis e do avô Augusto na distante Zossen, em Brandemburgo, não era apenas um ofício; era um símbolo de resistência. Pirassununga, solo fértil para imigrantes alemães, suíços e austríacos, transformou-se no novo lar desses homens e mulheres que, entre os cafezais, integraram-se à alma brasileira. Com o tempo, o idioma alemão silenciou-se, mas a disciplina e a força permaneceram.

O navio do destino não corta mais águas de insegurança. O menino Arthur Höffig, nascido em 21 de maio de 1912, cresceu sob a égide da Primeira Guerra, mas foi protegido pelo braço firme de seu pai. Em seus sonhos, Arthur forjou-se como o aço de um cutelo: forte, resiliente e afiado o suficiente para desbravar o sertão e transformar o mundo ao seu redor.

O tempo, porém, é um rio que não retorna. O menino que corria sob o olhar da irmã Ondina e o afeto da mãe perfumada já faz parte da eternidade. Dona Tina partiu em 1984, aos 94 anos, mas não sem antes se despedir de seu menino Arthur, que a precedeu na jornada final em abril de 1983, em Cornélio Procópio.

Hoje, Brasilândia celebra a memória de um sonhador - Arthur Höffig - que não conheceu limites. O filho do cuteleiro tornou-se mestre, aviador, servidor e empreendedor. Seu nome hoje batiza ruas, prédios e monumentos, gravado no bronze e na história das cidades que ajudou a erguer.

Lá do alto, Seu Teixa e Dona Tina celebram com júbilo. O pequeno Arthur superou todas as expectativas, deixando um rastro de luz e progresso. Aqui em Brasilândia, o pioneiro que em 10 de fevereiro de 1950, aos 37 anos, fundou a empresa Agropecuária AH, recebe nossa mais profunda reverência.

Os sonhos de Arthur perenizaram-se. Estão vivos no sangue e na fibra dos que herdaram o espírito empreendedor do patriarca. Hoje, com o peito estufado de orgulho, nos festejos de seus 61 anos de emancipação político administrativa, a cidade de Brasilândia, fundada por ele, saúda os  pioneiros de ontem e de hoje cuja marca de suas presenças nesta terra são sinônimo de trabalho e vitória. Parabéns Brasilândia. Obrigado jovem Arthur.

Brasilândia/MS, 25 de abril de 2026.



A história completa deste pioneiro pode ser encontrada na Biblioteca Municipal no livro História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. I-Pioneiros, página 122 a 125. E adquirido na edição especial em cores in https://clubedeautores.com.br/livro/historia-e-memoria-de-brasilandia-ms-vol-1-pioneiros