sábado, 17 de outubro de 2026

A Arataca e a Ferida que mais Dói 
Relato de um guardião da natureza

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 






As palavras que grito ao telefone são duras, eu sei. Elas saem do meu peito como lâminas afiadas, fazendo a boca sangrar. Mas a ferida que mais dói em mim não é a do metal; é o desalento de ver o caos engolir o bem mais precioso que Deus me deu para proteger: esta terra, esta mata, os filhos do mato.

Eu ligo para a secretaria de meio ambiente e grito. Minha voz é puro estopim: — Vocês não fazem nada! Sempre pedi vistorias... Veja este vídeo que te mando, olhe o tamanho da nossa culpa! Nas imagens, a armadilha fria espreita na sombra das árvores. Uma arataca disfarçada de sossego.

Minha indignação tem o formato de uma ausência. Encontrei a caveira do veado-de-rabo-branco bem ali, onde a minha propriedade faz divisa com o silêncio sagrado da Reserva Cisalpina. Andavam caçando dentro da minha Área de Preservação Permanente. A minha APP, que deveria ser um templo, virou um matadouro.

Ali, quase todo mundo esconde o hálito da pólvora em armas ilegais. Eu imploro ao secretário: — Faça mandados, recolha o ferro que mata a floresta... Eu juro que não abro a boca para ninguém. Só quero salvar o que resta.

Sou apenas um homem idoso, um ambientalista sem farda, testemunhando o avanço da morte na beira da mata. Logo agora... logo agora que as onças-pintadas haviam entendido que aqui era um lar seguro. Nós flagramos duas delas, lindas, majestosas, atravessando a fronteira do estado de São Paulo para as terras de Mato Grosso do Sul... Procuravam vida, encontraram o medo.

Só quem mora no miolo da floresta, longe das luzes da cidade, conhece a espessura dessa solidão. É um desamparo que aperta o peito. — Mataram o meu veadinho... Ele vinha manso, com os cascos leves, comer o sal junto com o gado. Era um pedaço da minha família, uma espécie em extinção que confiava nos meus olhos. Agora, resta apenas a carcaça seca no pasto.

Sinto-me um Dom Quixote velho, desarmado, gritando contra moinhos de impunidade e vento. — Mova-se, Carlito! Faz alguma coisa ou pede demissão! Se você quiser, eu te levo pelas trilhas, antes que eles sumam com as armadilhas. Sei onde tudo está. As antas vinham direto buscar o mamão maduro que caía dos pés; os catetos passavam em bandos alegres, mas mataram todos.

O homem é cruel: joga milho na arataca, ceva a fome do bicho e, quando ele entra, a fechadura da tampa desaba como um caixão. Se eu pegar um caçador perseguindo a nossa biodiversidade, juro que atiro. Mas Deus sabe que hoje não carrego armas; não sou criminoso. Minhas mãos estão limpas, pois arma boa serve apenas para prender bandido.

Quando a noite cai em Brasilândia, o silêncio deveria ser um manto. Mas ele é rasgado pelo estampido seco de uma bala em busca de carne e sangue. Com os dedos trêmulos, digito no celular: — Atende, pelo amor da natureza! É tua obrigação moral agir. Eu fiz a minha parte. Já me ameaçaram quando denunciei as aratacas que engoliam os catetos e as queixadas. Já atiraram no meu veadinho.

Sei que somos pequenos Davis contra Golias gigantescos. Sei que a ordem do mundo lá fora é "deixar passar a boiada", desbotando o verde das nossas matas nativas, o vermelho fértil do chão, o azul das nossas águas e o amarelo prateado que corre no pelo dos bichos. A floresta está em fuga, intoxicada pelo veneno e pelas queimadas.

Mas eu continuo aqui, gritando no ouvido dos que têm o poder. Olho para os jovens, para os professores, para os meus irmãos de fé, implorando para que cuidem da nossa Casa Comum. Brasilândia não pode ser a terra da despedida, precisa ser a cidade da esperança. Que um raio de luz desça sobre nós antes que a última arataca se feche. 

Brasilândia/MS, 1º de dezembro de 2025. Cf.

sábado, 10 de outubro de 2026

 

Era uma vez um Hino que virou Arte.
Como o muro da Praça da Matriz conta a nossa história.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Você já parou para observar com calma as cores e formas que cercam a Praça da Igreja Matriz? Mais do que um simples muro, o Mural Cultural de Brasilândia é um livro aberto feito de cerâmica que guarda a identidade da nossa terra. 

Inaugurado no dia 20 de maio de 2012, o projeto nasceu de um desafio poético: transformar a letra do hino municipal em imagens. A artista plástica Franciele Ribas Gomes aceitou a missão e, durante um mês, mergulhou no cotidiano de Brasilândia para dar vida aos azulejos. 

Ao caminhar pelo local, você não vê apenas desenhos. Você vê a Cidade Esperança representada pela icônica pomba branca e o cuidado com o futuro simbolizado por uma criança regando a flor. Cada peça de 10x10 cm foi escolhida para resistir ao tempo, garantindo que as próximas gerações saibam exatamente de onde viemos. 

A Praça Anísio Gomes de Almeida tornou-se, assim, um museu a céu aberto. É o lugar perfeito para um passeio de domingo, onde a história deixa de estar nos livros e passa a colorir o nosso dia a dia. 

Se você mora ou está de passagem por Brasilândia, o muro da Praça da Matriz é parada obrigatória. Ao caminhar pelo mural, você faz uma viagem no tempo com destaque para: 

As Raízes do lugar: A obra honra os primeiros habitantes, os índios Ofaié-Xavante, e o marco zero da cidade, representado pela primeira cruz erguida no centro. 

Os Fundadores: Você encontrará o rosto de Arthur Höffig, o fundador, e a lendária balsa que atravessava o Rio Paraná até Panorama (SP), um símbolo da resistência e conexão da nossa região. 

O Povo Invisível: Um dos detalhes mais emocionantes é a silhueta de trabalhadores baseada em fotos antigas. A artista escolheu as silhuetas para representar não apenas quem estava na foto, mas todos os anônimos que ajudaram a erguer Brasilândia. 

Nossas Riquezas: O gado, a agricultura e a doçura do mel — uma de nossas maiores produções atuais — também ganharam destaque. 

A jornada visual termina com a imagem do Bom Pastor, padroeiro da cidade, selando a história que começa na fundação e chega aos dias de hoje. 

Durante a criação, os próprios moradores levavam fotos antigas para a artista, fazendo do muro um espelho da alma brasilandense. É por isso que o muro é tão querido: porque ele foi feito ouvindo o povo! Por isso está e será preservado.

 

Brasilândia/MS, 20 de maio de 2026

Fonte: História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, páginas: 142-144.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

 Memória e Resistência: A História dos Pioneiros da ASBRAPP em Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 

Hoje resgato uma história de união, suor e determinação que moldou a agricultura familiar da nossa região: a trajetória da Associação Brasilandense dos Pequenos Produtores (ASBRAPP). 

Olhar para o passado da ASBRAPP é entender como a força coletiva transformou a vida no campo. Mais do que uma organização, ela nasceu do desejo de dezenas de famílias de conquistarem dignidade e desenvolvimento. 

O começo de tudo nos idos 1987. Fundada em 4 de novembro de 1987 como uma sociedade civil sem fins lucrativos, a ASBRAPP deu seus primeiros passos na Avenida Arapuá (hoje Wilson de Arruda), nº 714. Naquela época, o trabalho era bruto. A associação unia os produtores para preparar o solo, oferecendo serviços de tratores e implementos agrícolas que os pequenos proprietários dificilmente conseguiriam acessar sozinhos. 

Para baratear os custos, a diretoria firmou uma parceria essencial com a TERRASUL, garantindo o transporte gratuito dos maquinários para quem morava a até 15 km da sede. Era o associativismo na prática, vencendo as distâncias e as dificuldades do chão de terra. 

A liderança de dois grandes pioneiros. Nenhum movimento caminha sem líderes corajosos. A história da ASBRAPP está profundamente ligada ao empenho de seus dois primeiros presidentes, homens que doaram seu tempo e liderança pela comunidade: José Melo de Carvalho, com a base técnica do recomeço e José Luiz Rodrigues com os primeiros passos na busca pela modernização. 

Técnico agrícola da EMPAER, José Melo de Carvalho foi o primeiro presidente da entidade. Ele foi o responsável por estruturar a associação nos anos iniciais e conduzir a primeira transição democrática em 1990. Anos mais tarde, em 1995, seu compromisso com a categoria falou mais alto: ele retornou à presidência liderando a chapa Renovação, com a missão de reorganizar, pacificar e colocar as finanças da casa em dia. Sua dedicação técnica e política foi o alicerce da associação. 

Com José Luiz Rodrigues (in memoriam), eleito para o biênio 1990/1991, ele assumiu com a ousadia de quem queria ver o produtor prosperar. Com seu jeito simples, sob o seu comando, a ASBRAPP iniciou a instalação da tão sonhada máquina de beneficiamento de arroz e do triturador, além de garantir o cercamento do terreno doado pela prefeitura para a sede própria. Mesmo enfrentando as complexidades e os debates intensos da gestão patrimonial nos anos seguintes, o seu pioneirismo em buscar infraestrutura industrial para o pequeno produtor deixou uma marca eterna. 

A união contra a inundação de Porto primavera, a resistência de 1998. O associativismo se prova nas crises. Naquele ano, já com cerca de 120 produtores integrados, a ASBRAPP viveu um dos seus capítulos mais dramáticos. Cerca de 50 famílias que viviam e produziam nas barrancas dos rios Paraná e Verde viram suas terras e moradias ameaçadas pela iminente inundação causada pela Usina Hidrelétrica de Porto Primavera (CESP). A associação virou o quartel-general da resistência, mobilizando a comunidade para defender seu direito à terra e à justa compensação. 

Um Legado que cruzou o tempo. Histórias como a da ASBRAPP e de líderes como José Melo de Carvalho e José Luiz Rodrigues não podem ser esquecidas. Eles plantaram a semente da cooperação em Brasilândia. Que o exemplo desses pioneiros continue inspirando as novas gerações de agricultores a defenderem a força do trabalho coletivo. 

Brasilândia/MS, 04 de novembro de 2026

Fonte: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, pág. 321s.

E você? Conheceu algum dos fundadores ou tem lembranças dessa época da ASBRAPP? Deixe seu comentário aqui embaixo e ajude a enriquecer essa memória!

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

Dia da Árvore: o Município de Brasilândia e a Natureza agradecem a Sanesul e a Caeté.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

É com imensa gratidão que a comunidade e a administração de Brasilândia/MS manifestam de público o mais sincero agradecimento pela valiosa colaboração de duas instituições parceiras -- Sanesul e Caeté --, durante as ações da Semana da Árvore.

O sucesso das atividades da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo, em prol da preservação ambiental e educação ecológica só foi possível graças ao compromisso social e à responsabilidade socioambiental demonstrados por elas.

Folhas verdes balançam em agradecimento à senhora Siley Alves de Lima, supervisora local da Sanesul, que intermediou a generosa doação de mais de 300 mudas de espécies nativas — como a Aroeira Preta, Pau-Brasil, Guanandi, Marolo e Pequi —, fundamentais para a recuperação e o fortalecimento das margens do nosso Córrego da Aviação.

Rios de infância generosos expressam a profunda gratidão ao engenheiro ambiental Emerson Felipe Maia, representante da Caeté, pela disponibilização de 100 mudas de ipês, jatobás e patas-de-vaca, enriquecendo a biodiversidade de nossa flora local.

Reconhecemos também o empenho logístico e técnico essencial para que essas mudas chegassem e fossem plantadas com o cuidado necessário: o nosso obrigado ao Sr. Cícero, pelo transporte seguro das espécies vindas de Minas Gerais; ao técnico agrícola Jorge Luiz da Silva, pelo preparo impecável dos berços com o perfurador; e aos secretários Carlito Dutra e Pedro Henrique Coutinho, pela dedicação na supervisão dos trabalhos.

O recebimento dessas mais de 400 mudas disponibilizadas para o plantio representa um legado duradouro de ar puro, sombra, proteção das nossas águas e, acima de tudo, uma lição prática de cidadania para os estudantes e moradores que se mobilizaram. Parcerias como a de vocês fortalecem o futuro sustentável de Brasilândia, bem como demonstram o compromisso mútuo com o desenvolvimento sustentável e com a conscientização das futuras gerações de nossa comunidade.

Esta municipalidade permanece à disposição para futuras iniciativas conjuntas de interesse público. Nosso muito obrigado por cultivarem essa ideia conosco!

Brasilândia/MS, 30 de setembro de 2026.



 Confira a Notícia completa sobre a Semana da Árvore/2026 em Brasilândia/MS: 

https://www.brasilandia.ms.gov.br/portal/noticias/0/3/6742/semana-da-arvore-mobiliza-estudantes-e-comunidade-em-acoes-ambientais-e-educativas-em-brasilandia/




terça-feira, 29 de setembro de 2026

 

Da Barranca do Rio à Terra Firme: O Legado de Luta, Origem e Conquistas na Pedra Bonita

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




A história da Associação dos Pequenos Produtores Rurais do Reassentamento Pedra Bonita (APPRRPB) é um testemunho vivo de resiliência, união e superação. Suas raízes profundas remontam o dia 29 de setembro de 2000, quando a entidade ainda se chamava Associação de Moradores do Reassentamento Pedra Bonita (AMRPB) durante o desafiador período de instalação do reassentamento, promovido pela Companhia Energética de São Paulo (CESP). 

Aquela comunidade era composta por bravos ribeirinhos das barrancas dos rios Verde e Paraná, trabalhadores que viram suas vidas transformadas ao serem desterrados pela construção da Usina Hidrelétrica de Porto Primavera (Engenheiro Sérgio Motta). 

À frente desse primeiro e crucial capítulo, Gerivaldo Rosa de Moraes assumiu a primeira presidência da instituição. Sua liderança tornou-se um marco indelével na condução de um povo sofrido, mas incansável, que ousou erguer a voz para reivindicar dignidade, o direito à terra e infraestrutura básica diante dos impactos do progresso energético. 

Sob o clamor de bandeiras essenciais como a abertura de estradas, a agilização da regularização fundiária, moradias de qualidade e a implantação de uma rede hidráulica, o ideal comunitário amadureceu. A transição da antiga associação de moradores para a atual associação de produtores rurais foi o passo natural para consolidar a força produtiva do reassentamento. 

Com o passar do tempo, os alicerces institucionais ganharam contornos definitivos, sob a firme condução de Irma Aparecida de Melo (Tutti). Na presidência, Tutti liderou a aprovação e a lavratura do Novo Estatuto Social, oficializando a transição jurídica da entidade fundada ainda em 5 de março de 2000 para a denominação APPRRPB, que hoje carrega com orgulho. Seu trabalho foi fundamental para estruturar e legitimar a voz dos pequenos produtores perante o mercado e o poder público. 

Dando continuidade a essa linhagem de pioneiros, Arthur Mendes da Silva assumiu a presidência subsequente, conduzindo a comunidade a novos horizontes de representatividade. O reconhecimento público da relevância dessa trajetória também se materializou no âmbito legislativo local. 

Recorde-se que, ainda em 2001, por iniciativa do então presidente da Câmara Municipal de Brasilândia, Jaime Assis de Alencar (Jaime Doce), a sede da associação foi batizada unanimemente como Centro Comunitário João da Pedra, sendo posteriormente eternizada nas festividades do aniversário do município sob o nome oficial de Centro Comunitário João José Ferreira. 

Mais do que uma cronologia de fatos, a trajetória capitaneada por Gerivaldo, Tutti e Arthur simboliza a transformação da dor do desalojamento em uma duradoura vitória coletiva, garantindo que o suor dos reassentados da Pedra Bonita frutificasse em dignidade, posse da terra e cidadania plena.

 

Brasilândia/MS, 29 de setembro de 2026

Foto: Prefeitura Municipal de Brasilândia, 2013

Fonte: DUTRA, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. 2-Patrimônio, pág. 355s.

 

sábado, 26 de setembro de 2026

 

Conforto e Esperança na Ressurreição de Luiz Antônio Lino Pasini

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra




 








Tem dias que amanhecem sombrios, ao contrário de outros que irradiam luz desde muito cedo. São dias em que nossos olhos sentem o peso de uma realidade que muito pouco entendemos. É quando nos reunimos tomados pela dor, que nos ofusca o pensamento; e da fé, que dá esperança ao coração que se encontra partido.

São dias que não gostaríamos de vivenciar: o momento de nos despedirmos de quem amamos. Mais do que isso, um dia em que as entranhas pulsam vivas dentro de uma mãe que, aos poucos, perde sua ligação com a vida ao ter nos braços o filho que parte.

Dia de despedida eterna de um rebento que ainda há pouco sorria e sonhava, enchendo de alegria os seus pais, que viam brilhar neste menino tudo o que fazia. Hoje é o dia de dizer adeus ao jovem querido por todos, Luiz Antônio Lino Pasini.

Diante deste mistério profundo e dilacerante, quando a comunidade presencia a partida tão precoce desse jovem de apenas 18 anos, arrancado dos braços de sua família, não há dor maior nesta terra. Sobretudo para uma mãe e um pai que precisam entregar seu filho a Deus antes do tempo que julgavam certo.

As palavras parecem insuficientes. Embora a natureza reclame, só nos resta apegarmo-nos à Palavra de Deus e à nossa fé na Ressurreição em Cristo para encontrar o consolo que o mundo não pode nos dar.

Há no coração dos pais a profunda alegria e o orgulho do dever cumprido, ao verem o menino crescer em uma jornada que só lhes causou felicidade. Solange e Ademir podem estar gratos e felizes pois tiveram a alegria de ver um filho criado, que se tornou um estudante dedicado, um atleta cheio de vida e um trabalhador exemplar.

Luiz Antônio trazia no rosto a pureza de um olhar doce e inocente. Ele possuía a força de um coração aberto e generoso. Foi o reflexo do amor, da educação e dos valores que seus pais e amigos verdadeiros plantaram em sua vida.

A dor de vê-lo partir tão cedo, em uma fatalidade tão abrupta, é incomensurável; é uma ferida que rasga a alma. No entanto, lembrem-se de que o amor dos pais o guardou até aqui. Agora, ele é entregue aos braços do Pai Celestial, onde nenhuma dor ou sofrimento pode alcançá-lo.

O abraço da Misericórdia e do Perdão. Neste momento de dor, o papel da comunidade cristã é levá-los a compreender e estender as mãos e nossas orações também à senhora envolvida neste trágico acidente. A nossa fé nos ensina que o Cristo que chora com os que choram é o mesmo Cristo que acolhe as fragilidades humanas e derrama a sua misericórdia. Que o Senhor também console o coração dela, dissipe a culpa e lhe conceda a paz que vem do perdão divino e do consolo eterno.

A Esperança na Vida Eterna. Jesus nos prometeu: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá" (João 11,25). O nosso Luiz Antônio não completou o seu caminho na Terra da forma como esperávamos, mas completou a sua missão: espalhou luz enquanto esteve entre nós.

Luiz Antônio une-se hoje à herança e bênçãos de seus antepassados, numa trajetória trilhada pelo sangue espanhol e italiano de Vertude Bravo Pazzini, pautada desde Itaboji (SP) até a fazenda Califórnia (MS), ao lado dos filhos, para depois, a partir de 1997, fixar-se na cidade de Brasilândia.

Uma família que nunca perdeu a sua fé, mesmo em tempos difíceis como a seca:
“Antigamente a gente saía pelos campos carregando uma Santa, rezando para chover. A gente levava o Santo no córrego, molhava o Santo. E aí chovia”, contou-me a saudosa matriarca no ano de 2007 (1).

A morte não é o fim, é a passagem para a verdadeira vida. Que o Espírito Santo Consolador abrace os pais, os familiares, os amigos e todos os que sofrem com esta perda. Que a certeza do reencontro na eternidade seja o bálsamo para os dias difíceis. Dai Senhor ao jovem Luiz Antônio, o descanso eterno. E que a luz perpétua o ilumine. Descanse em paz. Amém.

Brasilândia/MS, 26 de setembro de 2026.

(1)   DUTRA, C.A.S. Retalhos do Dia a Dia, Brasilândia, Ed. do Autor, 2010, pág. 209.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

 

Como Alterar o Endereço de uma Associação: Guia Passo a Passo Sem Complicação

Carlos Alberto dos Santos Dutra





Se você faz parte da diretoria de uma associação comunitária, de bairro ou de defesa de direitos, sabe que o trabalho voluntário e a militância exigem lidar com muita burocracia. Ao longo da minha trajetória ajudando a fundar e redigir estatutos para mais de 20 entidades nesta cidade, percebi que uma das maiores dores de cabeça surge quando a associação precisa mudar de endereço.

Essa mudança geralmente acontece quando uma nova diretoria assume a gestão. Por parecer um processo complexo, a atualização vai sendo deixada de lado. O problema é que, com o tempo, a falta de regularização acumula pendências e torna tudo ainda mais difícil de corrigir.

Se a sua entidade está passando por isso, não se preocupe. Neste artigo, busco explicar de forma simples e pedagógica como funciona esse processo para que você possa regularizar a sua associação sem cometer  erros.

O erro mais comum: tratar a associação como uma empresa. Quando os gestores decidem mudar o endereço de uma entidade que já possui CNPJ, a primeira reação costuma ser buscar o portal da Redesim ou pensar nos trâmites de uma empresa comercial. No entanto, os caminhos para um Microempreendedor Individual (MEI), uma Microempresa (ME) ou uma Sociedade Limitada (LTDA) envolvem a Junta Comercial.

Uma associação de bairro ou comunitária é uma Organização Não Governamental (ONG) sem fins econômicos. Por conta dessa natureza jurídica, o processo de alteração cadastral não envolve a Junta Comercial, mas sim o Cartório de Registro Civil das Pessoas Jurídicas (RCPJ) e a Receita Federal.

Vejamos o passo a passo para a mudança de endereço. Para que a alteração seja válida e legal, o processo deve seguir três etapas fundamentais:

1. Convocação e Realização da Assembleia Geral. Como a alteração do endereço da sede exige uma reforma estatutária (caso o endereço antigo esteja detalhado no texto do estatuto), a decisão precisa ser aprovada de forma coletiva.

2. Esta Assembleia prescinde de um documento importante: o Edital de Convocação que é o documento legal utilizado para chamar todos os associados para a reunião, respeitando rigorosamente os prazos e as regras previstos no estatuto vigente da entidade.

3. Durante a realização da Assembleia deverá ser lavrada a Ata da Assembleia, que é o documento que formaliza a reunião. Nela, deve constar explicitamente que os membros aprovaram o novo endereço e a atualização dos dados cadastrais.

4. Há também a necessidade de realizar uma Consulta de Viabilidade e Emissão do DBE que deve acontecer antes de ir ao cartório. O DBE garante que a prefeitura local autoriza o funcionamento da associação no local pretendido. Para tanto, acesse o portal da Redesim e realize uma Consulta Prévia de Viabilidade para o novo endereço; depois, após a aprovação da viabilidade, preencha a solicitação para gerar o Documento Básico de Entrada (DBE) da Receita Federal, assinalando a opção de "alteração de endereço". Este documento deve ser assinado digitalmente pelo representante legal da associação. 

5. Por fim, faz-se o Registro no Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas (RCPJ) onde a associação possui o seu registro original. Nesta oportunidade, o presidente da entidade reúne toda a papelada e encaminha ao Cartório. 

Para evitar que o seu processo seja recusado ou sofra exigências, certifique-se de apresentar: Duas vias da Ata da Assembleia Geral: assinadas pelo presidente e pelo secretário, com todas as demais páginas rubricadas; Duas vias do Estatuto Social Reformado: necessárias caso o endereço antigo estivesse detalhado no texto original. Observe que o estatuto reformado deve ser assinado por um advogado inscrito na OAB. 

Ao Cartório também deve ser apresentada a Lista de presença, contendo a assinatura dos associados que participaram da assembleia; o DBE liberado, qual seja o documento de entrada da Receita Federal já assinado pelo representante, e o Requerimento de averbação que é uma solicitação formal assinada pelo presidente direcionada ao oficial do cartório com reconhecimento de firma. 

Atualmente, na maior parte dos estados brasileiros, os cartórios possuem convênio direto com a Receita Federal. Isso significa que, assim que o registrador aprova e averba a ata, a informação é transmitida automaticamente e o CNPJ da associação é atualizado em poucos dias. Com o CNPJ atualizado, a entidade poderá solicitar o novo Alvará de Funcionamento no portal da prefeitura onde a entidade está funcionando. 

Para poupar tempo e recursos, recomenda-se: Se você sabe que a sua associação precisará passar por uma mudança de endereço e a eleição da nova diretoria está próxima, planeje-se para fazer tudo junto.

A recomendação ideal é incluir a alteração do endereço diretamente no mesmo edital de convocação e na ata de eleição e posse da nova diretoria. Dessa forma, a entidade realiza uma única assembleia, gera apenas um conjunto de documentos e economiza com taxas cartorárias, regularizando toda a situação institucional de uma só vez. Mantenha a papelada da sua associação em dia para que ela continue cumprindo o seu papel fundamental de transformar a realidade da sua comunidade!

 

Brasilândia/MS, 25 de setembro de 2026. Dia Mundial do Sonho ("World Dream Day").