A Bênção, vovó
Aparecida Monção Batista
Por Carlos Alberto
dos Santos Dutra
Um dia, os caminhos me levaram até aquela casa. O calendário marcava o ano de 2016, mas o motivo exato se perdeu no tempo, como se o destino apenas quisesse me guiar ao aconchego.
Desde a porteira
do sítio, a singeleza do lugar já anunciava um abraço. Conforme o carro se
aproximava, a casa de madeira ia se revelando, emoldurada por uma varanda
espaçosa que a contornava inteira, como se o próprio lar vestisse uma saia
rodada de crochê.
No desvão das
colunas de madeira rústica, a natureza fazia morada: folhagens delicadas,
flores em vasos e trepadeiras suspensas dividiam espaço com samambaias e rosas
em pequenos potes. Aquele cenário transformava a realidade em poesia, tal qual
uma casa encantada saída dos contos de fadas.
E lá estava ela.
Pequenina em estatura, com um corpo franzino que carregava a leveza dos anos e
a pele docemente enrugada pelo tempo. No rosto, trazia um discreto e eterno
sorriso estampado. Seus olhos miúdos e profundamente atentos pareciam guardar
distâncias vividas e segredos do passado, brilhando intensamente ao nos olhar. Com
passos firmes que desafiavam a idade, exalando um vigor que vinha da alma, ela
caminhou ao nosso encontro e nos acolheu de braços abertos.
Ali reluzia a
rainha do lar, o centro de gravidade daquela casa e a razão da nossa jornada.
Dona Aparecida Monção Batista era a grande regente da melodia daquele lugar. Eu
e minha esposa, Vilma, sentimo-nos profundamente lisonjeados por tanta ternura.
Pouco depois, com um gesto terno, ela nos conduziu até a cozinha.
No coração da
casa, fomos recebidos por uma mesa farta e generosa, preparada para o café da
tarde. Pães dourados e cucas caseiras repousavam sobre uma toalha florida,
cercados pelo aroma do leite fresco, do queijo e das geleias. Tudo ali tinha o
divino sabor colonial que só as mãos e as memórias de Dona Aparecida sabiam
despertar.
Pioneira e
fundadora daquele povoado, ela chegou a Brasilândia no distante ano de 1956.
Lembrava-se de cada detalhe, desde os primeiros passos da cidade ao lado de
Arthur Höffig. Enquanto ela resgatava essas relíquias do tempo, seu filho Nilvo
a amparava com as datas e os fios das recordações. Foi no dia 12 de julho
daquele mesmo ano de chegada que Nilvo nasceu, lembrou. Ao lado, Dirce sorria
com os olhos cheios de admiração diante das narrativas daquela doce mãe octogenária, alimentando o encantamento deste historiador.
Dona Aparecida
recordou o tempo das primeiras escolas rurais, sob a gestão do prefeito Marques
Neto. Depois, evocou a época do prefeito Patrocínio, quando nasceu a primeira
escola estadual da cidade: o Centro Educacional Pedro Pedrossian, que abrigou
sonhos até 1978 onde hoje funciona a prefeitura. Mais tarde, esse templo do
saber ganhou um novo endereço e o nome do ex-prefeito Adilson Alves da Silva,
cuja jornada foi abreviada em um acidente de carro. Nilvo, que se tornou professor,
recorda com orgulho no peito que fez parte da primeira turma a se formar
naquela instituição.
Para Dirce, ver
Dona Aparecida tão lúcida, vibrante e cheia de vida era um espetáculo de pura
luz. Católica fervorosa, sua fé era o seu norte: nunca deixou de caminhar nas
missas, procissões e celebrações da Paróquia Cristo Bom Pastor desde o dia em
que fincou suas raízes na cidade. Querida por todos, ela conhecia a vida em sua
essência mais pura e crua, mantendo sempre as mãos estendidas para quem
precisasse de amparo.
A tarde foi
derramando suas luzes douradas e, após folhearmos o passado guardado nas poucas
fotografias do álbum de família, chegou a hora da despedida. Agradecemos a
imensa hospitalidade e partimos. Conforme o carro se afastava pela estrada, uma
sensação terna nos invadia, como se um pedaço de nossos corações tivesse
escolhido ficar ali.
Hoje, os filhos,
netos e bisnetos que choraram a partida para o céu de sua grande matriarca,
rememoram a saudade. Nas vozes embargadas pelas lembranças, ecoa a certeza de
que ela foi, e sempre será, a rainha e a avó mais dedicada. Era para os seus
braços que os netos corriam em busca de uma bênção, de um cheiro e de um beijo
terno. Há, nos corações daqueles que tanto a amaram, o lamento doloroso de um
último beijo que a distância e a malfadada doença não permitiram entregar. Mas
a saudade que fica é também a prova desse amor imensurável.
Dona de um coração
gigante, bom e generoso, Aparecida era uma mulher doce ao modo antigo: tinha o
dom raro de enxergar a alma das pessoas, sem se importar com as aparências.
Sábia, autêntica e desbravadora, ela esculpiu sua trajetória com os fios da
dignidade, do respeito e do trabalho honesto. Raridade nos dias de hoje, ela se
tornou credora de toda a nossa admiração.
Fará falta o eco
de sua voz reunindo a família ao redor da mesa para partilhar conselhos e
histórias. Mesmo quando silenciava, Dona Aparecida deixava falar a voz do
coração — a única linguagem universal que todos compreendem.
Obrigado, vovó
Aparecida Monção Batista, por aquela tarde eterna e imorredoura que nos brindou há 10 anos. Saudade
eterna desta serena guerreira da vida.
Brasilândia/MS, 18
de maio de 2026.
Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/05/a-bencao-vovo-aparecida-moncao-batista.html
18 de maio de 2021.






