terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

A Feira e Viola como Palco da Identidade: Histórico e Evolução da Cultura Popular em Brasilândia

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 



Existem binômios que são sempre estimulantes: feira e artesanato; feira e viola; feira e empreendimento; feira e literatura; feira e esporte. Isso porque a feira livre é, por excelência, uma das maiores manifestações vivas da cultura de um povo.

Trata-se de um espaço residual de liberdade e criatividade, onde a arte ganha voz por meio da música, da dança, do teatro, do artesanato e das artes plásticas, conectando as produções feitas com esmero pelos moradores de um lugar diretamente ao coração da comunidade.

Em Brasilândia, essa vocação cultural manifestou-se cedo. As instituições e o poder público historicamente dedicaram especial atenção às expressões populares da região, acolhendo-as e impulsionando-as. Seja pela originalidade das riquezas da terra, seja pelo elo de comunicação criado entre os governantes e a comunidade — em tempos de forte configuração rural —, a feira sempre foi um ponto de encontro essencial.

O primeiro grande registro dessa natureza remonta à 1ª Feira Verde Arte de Brasilândia, realizada entre os dias 20 e 22 de outubro de 1989. Realizada pelo Conselho de Desenvolvimento Comunitário de Brasilândia (CODECOMB), que coordenei  na época, o evento ocorreu na quadra de esportes da Escola Municipal Arthur Höffig.

Foi uma das pioneiras exposições culturais da cidade, permitindo que os munícipes expusessem sua produção artesanal com suporte da administração municipal. Um dos pontos altos daquele encontro foi a participação da comunidade indígena Ofaié. Naquela oportunidade, os brasilandenses puderam compreender e valorizar os Ofaié como legítimos detentores de uma cultura própria e rica, assistindo em tempo real os estudantes acompanharem a confecção de arcos, flechas e colares em uma ação pedagógica marcante para a época.

Embora os registros em vídeo daquela gestão do prefeito José Cândido da Silva tenham se perdido com o tempo, a memória de pioneiros artesãos como Eduardinho Cri-í, Aparecida Hanto-grê, Pereirinha He-í e o jovem João Carlos Canrê permanece viva como a semente da nossa tradição.

Anos mais tarde, em 1995, o então vereador Jaime Assis de Alencar (Jaime Doce) propôs a criação de uma Feira Livre dominical para baratear os alimentos, ideia estendida ao distrito Debrasa. Em seguida, as proposições dos vereadores Irineu de Souza Brito, em 1997 — que sugeriu o nome poético de Feira da Lua por seu caráter noturno —, e de Marcos Roberto Lopes (Beto da Maurimar), em 1999, consolidaram o projeto. 

A chegada dos assentamentos Santana, Santa Emília e Pedra Bonita impulsionou definitivamente a produção de hortifrutigranjeiros, culminando na inauguração oficial da Feira Livre do Produtor Rural no dia 8 de fevereiro de 2000, na Praça da Pedra (Praça José Pinto Nunes).

Ao longo do tempo, o perfil produtivo transformou-se devido às safras sazonais, abrindo espaço para entidades filantrópicas e comerciantes locais, mas o viés de polo cultural manteve-se inabalável. Em 2013, o evento assumiu a denominação que carrega com orgulho até hoje: a Feira e Viola, convertendo-se em um instrumento indispensável de difusão da identidade brasilandense.

A partir de 2014, essa tradição expandiu as suas fronteiras e encontrou no bairro João Paulo da Silva, mais especificamente na Praça Ostelino Cardoso, o seu principal ponto de efervescência popular às quartas-feiras. O evento consolidou-se como um patrimônio social que atrai moradores de todos os cantos do município.

Semanalmente, o espaço transforma-se em um verdadeiro festival de convivência, oferecendo música ao vivo, uma variada praça de alimentação com comidas típicas, além da exposição e venda do autêntico artesanato local. Para as crianças, a diversão é garantida com o parquinho e a distribuição de pipoca, enquanto os adultos se divertem com os tradicionais binguinhos comandados pelo carismático radialista Ceará Santos e celebram a noite ao som do tradicional forró musical.

Atualmente, a Feira e Viola do bairro João Paulo da Silva prepara-se para vivenciar um novo e importante capítulo de sua história. A Praça Ostelino Cardoso passará por uma ampla reforma e modernização, uma obra aguardada que resultará em um espaço público revitalizado e com melhor infraestrutura para expositores e visitantes.

Durante o período de execução das obras do novo complexo, a tradicional feira de quarta-feira continuará acolhendo a população em um espaço alternativo temporário, assegurando que o comércio de subsistência, o lazer das famílias e a pulsação cultural de Brasilândia não sejam interrompidos até o retorno triunfal ao seu lugar de origem.


Brasilândia/MS, 15 de setembro de 2026.

Fonte de fundamentação histórica: https://carlitodutra.blogspot.com/2023/03/a-feira-da-lua-os-produtores-e-cultura.html

História e Memória de Brasilândia, Volumes II, III e IV.



 

 

O Legado que Acolhe: A Dignidade Humana na Reforma do Velório Municipal de Brasilândia

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra











Casa do Velório municipal Genuína Rodrigues da Conceição durante da inauguração ocorrida em 31 de outubro de 2000 (Foto: Jornal da Cidade, colorizada).


Uma obra pública vai muito além de tijolos, cimento e melhorias estruturais. Esse princípio se aplica a qualquer construção, mas ganha um significado profundamente humano quando se trata do Velório Municipal. 

Longe de ser apenas um prédio, esse espaço, à semelhança de um lar, é um local de acolhimento. É o ponto de encontro de uma comunidade que se despede de seus entes queridos, onde as dores se cruzam e onde o respeito pela história de cada cidadão deve prevalecer.

Neste contexto, o início das obras de reforma e ampliação da Casa de Velório Genuína Rodrigues da Conceição transcende a rotina administrativa. Trata-se de um ato que amplia a dignidade, a humanidade e o zelo da Administração Municipal para com as famílias de Brasilândia nos momentos de maior vulnerabilidade.

No entanto, este lançamento carrega um simbolismo ainda mais nobre e eterno pelo nome que o espaço ostenta. Prestar homenagem a Dona Genuína Rodrigues da Conceição, avó da atual prefeita, é resgatar a própria essência e a identidade do povo desta terra.

Dona Genuína não foi apenas uma matriarca querida. Foi uma mulher que testemunhou o crescimento de Brasilândia, fincando raízes com coragem, resiliência e um amor infinito pelos seus. 

Nascida em 7 de setembro de 1927, ela carregava no próprio nome a sua maior virtude: a genuína bondade, a dedicação e a força da mulher sul-mato-grossense. Conduziu sua família com simplicidade e sabedoria, deixando um legado de valores que hoje se reflete na liderança e no trabalho de sua neta.

A história dessa homenagem é marcada por uma bela linha de continuidade familiar e política. O Velório Municipal nasceu do anseio dos vereadores Mauro Alves de Oliveira e Antônio de Pádua Thiago, que já em 1994 solicitavam a construção à então prefeita Neuza Paulino Maia

Anos mais tarde, em 31 de outubro de 2000, em meio a dor da partida do cidadão Joaquim Pinto Nunes, o nome de Dona Genuína foi eternizado no prédio por sua filha, a ex-prefeita Marilza Maria Rodrigues do Amaral, que acolheu a indicação do vereador Carlos Amorim de Assis, inaugurando o Velório Municipal naquele dia.

Na inauguração, a mãe da atual prefeita relembrou com emoção o apoio espiritual e a trajetória de Dona Genuína, que também atuou como comerciante local e muito contribuiu para o município.

Agora, passados 26 anos daquela inauguração, a história se repete de forma tocante. Para a atual prefeita de Brasilândia, Márcia Regina do Amaral Schio, a reforma desta obra representa um compromisso administrativo rigoroso, mas também um tributo íntimo de amor, respeito e saudade. 

É a oportunidade de honrar a memória de quem plantou as sementes do passado para que o presente pudesse florescer.

Ao modernizar e ampliar esse espaço, a prefeita Márcia garante que o nome de sua avó continue umbilicalmente ligado ao acolhimento e ao amparo — qualidades que ela tão bem demonstrou em vida.

Que este renovado espaço seja um símbolo contínuo de paz, respeito e conforto para o povo de Brasilândia. Que a memória e o exemplo de generosidade de Dona Genuína sigam guiando os passos do município e inspirando o cuidado genuíno com o próximo.

Parabéns à prefeita Márcia pela sensibilidade do gesto, e parabéns a Brasilândia por preservar viva a sua história.


Brasilândia/MS, 15 de setembro de 2026. 

Cf. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol 4-Desenvolvimento, pág. 365s

sábado, 12 de setembro de 2026

 Brasilândia homenageia o seu Governador.









Amigos desta cidade

A poesia vai falar

E quer a todos saudar

Poder cantar confiante

Saudação ao visitante

Dr. Riedel, Eduardo 

E faz assim sem resguardo

Com o devido respeito

Versos livres desse jeito

Sinta-se, pois, abraçado

Deixa aqui o ser recado

Quem espera vê-lo eleito.


Aqui é a voz da Prefeita

Cuja política perfeita

Nunca lhe faltou coragem

Por isso essa mensagem

Também de agradecimento

Márcia é toda engajamento

E lhe faz essa homenagem:

 

Eduardo é um jovem

Tem formação superior

Biólogo e empreendedor

Em 95 aqui chegou

Tantos cargos ocupou:

Comitê, federação

Estrutura, habitação

Famasul, agricultura

Saúde, economia segura

Sindicato, secretário

E lá vai o empresário

Acumulando experiência

Com a gestão e a gerência

Estava pronto o necessário.


E aí veio a eleição

Uma disputa acirrada

Mas seguiu na caminhada

E no Palácio chegou

Guaicuru, e implantou

A nova administração

Com muita garra e paixão

Sonhos que concretizou.

 

E assim o Eduardo

Tornou-se Governador

Com seu esforço e labor

Trouxe, assim, a garantia:

À família, moradia

Foi cativando confiança

Para o povo, esperança

Diálogo é o que deseja

Ouvir a todos onde esteja

Cidade e campo, harmonia

Aos municípios, energia

Projetos e Educação

Transporte, industrialização

Fez raiar um novo dia.

 

Governo municipalista

Este Estado agradece

Brasilândia oferece

Ao cidadão que acolhe

Pede que por ela olhe

A Prefeita, os Secretários

Associações, empresários

Agricultores, artesãos

Professores, cidadãos

Vereadores e esportistas

As mulheres e os artistas

Os indígenas, natureza

Emprego, nossa riqueza

Progresso a perder de vista.


E pro arremate pede

Não solte a mão da Prefeita!

O povo a quer reeleita

Márcia, parceira avante!

Cidade Esperança confiante:

Pois quem semeou tem colheita!


 

Brasilândia/MS, 12 de Setembro 2026.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

 

Brasilândia, meu Brasil!

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


1-Senhores aqui presentes
Peço licença um momento
Dividir um sentimento
De agora poder falar.
Perdoe meu linguajar
Sou gaúcho caborteiro
Mas também sou brasileiro
Brasilândia é o meu lugar.
 
2-Hoje é 7 de Setembro
Ainda longe vejo a chama
A memória que reclama
Dia da gente lembrar
E na história buscar
O caminho percorrido
Do nosso Brasil querido
E a Brasilândia que amamos
De mãos dadas celebramos
Um vasto jardim florido.
 
3-Celebrar a Independência
Olhar pra trás com orgulho
A liberdade faz barulho
Explore e rasga o peito
Tantas lutas por direito
Conquistas que garantiu
Pátria livre construiu
Corrigindo seus defeitos.
 
4-Tantas vitórias vencidas
Elas podem ser lembradas
Lágrimas acorrentadas
Guerras e revoluções
Massacres, perseguições
Escravidão, nunca mais
Direito: todos iguais!
Nação que amadureceu
Novo dia amanheceu
Livres nossos ancestrais.
 
5-Desde o tempo “laços fora”
A nossa maior conquista
Progresso a perder de vista
Duzentos anos passaram
Palanques consolidaram
Escudos contra a opressão
Leis que deram proteção
Ao cidadão e à criança
O Tutelar da esperança
Que lhe garante sonhar
Sorrir, brincar, estudar
Idosos com segurança.
 
6-E a mulher, secretaria
Conselhos, delegacia
Igualdade e segurança
Nosso Brasil de esperança
Tem muito a comemorar
7 de setembro e lutar
Buscando mais melhorias
Antiga e novas alforrias
Caminhos novos trilhar.
 
7-Também nossa Brasilândia
Marca Argola do passado
Deixou prá trás o povoado
Hoje é empreendedora
Campeã, é vencedora
Seu coração bate fundo
Capaz de vencer o mundo
Na educação, na saúde
A força da juventude
Fruto do amor fecundo.
 
8-Administrando com garra
A Prefeita, Vereadores
Secretários, Servidores
Bate o tambor nossa banda
Fanfarra que nos comanda
Professores, Estudantes
Trabalhadores confiantes
Faz explodir nosso peito
Vibra de orgulho e respeito
Brasilândia ó Brasil
Não existe outros mil
Que nos faça desistir
Juntos vamos construir
Sonhos, responsabilidade
Com toda a força e vontade
Brasilândia vai sorrir.


Brasilândia/MS, 7 de setembro de 2026
Poema declamado durante a cerimônia de hasteamento da Bandeira na Pira da Pátria na Praça Santa Maria.

 


domingo, 30 de agosto de 2026

 

A tentação de seguir Cristo sem a cruz. 

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra









Queridos irmãos e irmãs, que a paz de Jesus esteja no coração de cada um de vocês.

Olhando para a nossa igreja hoje, vendo o rosto de cada um, sei que muitos vieram aqui trazendo cansaço. A vida não é fácil. Trabalhar o mês inteiro, cuidar da família, pagar as contas e ainda ver o mundo do jeito que está, cheio de divisões e brigas, pesa nos nossos ombros.

No Evangelho de hoje, Jesus fala diretamente para essa nossa realidade. Ele nos faz um convite que choca, mas que salva: "Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me".

O que significa isso na nossa vida simples de cada dia?

Significa escolher o caminho de Deus em um mundo que nos empurra para o lado oposto. Hoje, vivemos divididos. Parece que fomos esquecendo como caminhar juntos.

De um lado, estão as coisas de Deus: o amor, o perdão, a partilha, a paciência. Do outro, estão as coisas do mundo: o egoísmo, o querer ter razão a todo custo, o pisar nos outros para subir na vida.

Jesus nos avisa com clareza: de que adianta o homem ganhar o mundo inteiro, ter dinheiro, fama, curtidas na internet, se ele perder a sua alma? Se ele perder a sua paz, a sua família e a sua salvação? Ganhar o mundo e perder a vida é o grande engano dos nossos tempos.

Pedro, no Evangelho, tentou desviar Jesus do caminho do sofrimento. Ele pensava como o mundo pensa: "Evita a dor, busca o que é fácil". E Jesus o repreendeu fortemente. Às vezes, nós agimos como Pedro. Queremos um Deus que resolva nossos problemas, mas não queremos o compromisso de viver como Ele viveu.

Renunciar a si mesmo não é se destruir. É deixar de lado o nosso orgulho, o nosso egoísmo, a nossa mania de julgar o vizinho. Tomar a cruz é aceitar os desafios de fazer a coisa certa, mesmo quando todo mundo ao redor está fazendo a coisa errada.

Mas fazer a coisa certa hoje dá trabalho. É aí que entra o profeta Jeremias, na primeira leitura. Ele dizia algo que muitos de nós sentimos na pele: "Sempre que falo, tenho que clamar contra a maldade... e por causa disso, a palavra do Senhor virou para mim fonte de vergonha e deboche". Jeremias se sentia sozinho. Ele olhava ao redor e ver que o povo não queria ouvir a verdade.

Quem tenta ser um cristão de verdade hoje passa pelo mesmo que Jeremias. Se você decide não falar mal da vida alheia na roda de amigos, se você escolhe ser honesto no trabalho enquanto outros passam a perna, se você defende a paz em vez de alimentar o ódio nas redes sociais, muitas vezes você é apontado. Riem de você. Chamam você de bobo, de careta. O testemunho cristão virou motivo de deboche para o mundo. É uma cruz pesada.

Mas Jeremias também nos dá o segredo para não desanimar. Ele diz que tentou esquecer Deus, tentou não falar mais no Seu nome para não sofrer.

Mas a Palavra de Deus virou um fogo ardente no peito dele, uma força presa nos ossos que ele não conseguia segurar. É esse fogo que precisamos pedir ao Espírito Santo hoje. Que o nosso amor por Jesus seja maior do que o medo do que os outros vão falar.

Meus irmãos, a nossa vida é um caminho de seguimento. Não tenham medo da cruz de ser bom, de ser justo, de ser misericordioso. O mundo oferece um caminho largo, bonito, que promete felicidade fácil, mas que deixa o coração vazio e o mundo polarizado, dividido e violento. Jesus nos oferece a vida verdadeira.

Nesta semana, quando o egoísmo bater à porta, quando a vontade de brigar ou de julgar for maior, lembrem-se: renunciar a si mesmo é dar espaço para Deus agir. Tomar a cruz é abraçar o amor que salva.

Que o Senhor nos dê a coragem de Jeremias e a fidelidade dos santos, para que não queiramos ganhar o mundo, mas sim ganhar a vida eterna ao lado Daquele que nos ama. Amém.


Brasilândia/MS, 30 de agosto de 2026

Homilia Dominical - Mateus 16,21-27

22º Domingo do Tempo Comum, Ano Litúrgico A.

Dia Nacional do Perdão.

sábado, 29 de agosto de 2026

 

Política e Eficiência: O desafio da governança nas pequenas cidades - Parte 2.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra (1)






Na primeira parte deste artigo, discutimos a possibilidade de se obter equilíbrio entre a legitimidade político-ideológica e a eficiência técnica na gestão municipal. Esse objetivo pode ser alcançado por meio do monitoramento, ferramenta que viabiliza medir, mediante indicadores, se as decisões tomadas beneficiam o município de forma universal ou se atendem apenas a interesses parciais de grupos de sustentação econômica.

No campo teórico — embora perfeitamente aplicáveis à prática —, esses indicadores podem apontar caminhos quando observados a partir de dimensões estratégicas que facilitam o entendimento e a execução desse monitoramento:

A primeira dimensão é a da Eficiência e Entrega Técnica, por meio da qual se avalia se a máquina pública mantém sua capacidade operacional independentemente de pressões políticas. Isso pode ser mensurado, por exemplo, pelo percentual de execução orçamentária, ou seja, pelo volume de recursos efetivamente gastos em relação ao planejado para o ano. Deve-se atentar, ainda, para a taxa de entrega das obras e ações programadas na lei plurianual, bem como para o percentual da receita própria destinado a novos investimentos, e não apenas ao custeio da máquina administrativa.

Uma segunda dimensão auxiliar é a da Governança e Transparência, que avalia a blindagem institucional contra o favorecimento indevido de correntes econômicas apoiadoras. Como indicadores, citam-se a proporção de contratos celebrados por concorrência ampla — reduzindo-se o uso de dispensa de licitação ou de cartas-convite —, o percentual do orçamento municipal pago a empresas ligadas aos grupos de sustentação econômica, a aderência à Lei de Acesso à Informação (LAI) e o número de decisões efetivas tomadas pelos conselhos de desenvolvimento, saúde ou educação e outros.

A terceira dimensão a ser observada é a da Política e Representatividade, que mede a capacidade do secretariado de manter a governabilidade e o diálogo aberto com a sociedade civil. Monitora-se, neste aspecto, a distribuição geográfica dos recursos públicos para evitar que apenas regiões de interesse dos apoiadores recebam melhorias; o tempo médio de permanência dos secretários nos cargos (visto que a alta rotatividade indica instabilidade política ou técnica); o percentual de projetos do Executivo aprovados pela Câmara de Vereadores sem crises institucionais; e o volume de investimentos definidos por consulta popular direta.

Por fim, há a dimensão da Profissionalização Administrativa, que avalia o peso do mérito técnico em relação às indicações políticas (fisiologismo). A atenção, aqui, deve voltar-se para o percentual de funções de chefia ocupadas por funcionários de carreira qualificados, o percentual de secretários com formação acadêmica ou experiência prévia comprovada na área da pasta e a frequência de trocas em setores sensíveis, como comissões de licitação, procuradoria e finanças.

Esses indicadores podem, sem dúvida, ser transformados em ferramentas úteis e práticas para a realidade de pequenas cidades que almejam o desenvolvimento. Contudo, a sua implementação e observação devem ocorrer no âmbito de cada secretaria municipal.

Tomando como exemplo ilustrativo o campo das ideias, apontaremos alguns indicadores que poderão ser úteis quando colocados em prática por uma secretaria de nossa cidade. 

Mas isso o faremos no próximo artigo.


Brasilândia/MS, 29 de agosto de 2026

Dia Mundial de Combate ao Fumo

(1) https://www.escavador.com/sobre/2022269/carlos-alberto-dos-santos-dutra.


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Memórias sob a Chuva: a AMDE no Distrito Debrasa. Homenagem a Neusivan Fonseca do Nascimento.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra



Há histórias que o tempo teima em apagar, mas que a força da memória insiste em trazer de volta. Longe dos grandes centros urbanos, a 55 quilômetros da sede do município de Brasilândia, o distrito de Debrasa guarda os vestígios de uma época em que o associativismo e a cidadania pulsavam intensamente. Ali, no dia 28 de agosto de 1997, nascia a Associação de Moradores do Distrito Debrasa (AMDE), uma entidade modesta em recursos, mas gigante em propósitos.

Naquela época, a economia regional vivia o auge do ciclo da cana-de-açúcar. Sob o lema inspirador “Quem não segue o rumo, não chega ao seu destino”, a AMDE marcou época. Seu primeiro presidente, o Sr. Neusivan Fonseca do Nascimento — policial militar e atuante membro da Pastoral da Criança —, liderou um processo democrático exemplar. As eleições da entidade, como a concorrida disputa de 2001, mobilizavam a comunidade de casa em casa, com distribuição de santinhos e debates francos sobre o futuro local. Era o exercício mais puro da cidadania como motor de desenvolvimento.

Contudo, a trajetória das organizações comunitárias raramente segue uma linha reta. Elas são construídas aos pedaços, tijolo por tijolo. E lidar com tijolos deixa marcas profundas, do alicerce ao topo das paredes. Muitas vezes, quando o prédio parece finalmente consolidado, tempestades políticas ou administrativas põem tudo abaixo, deixando um rastro de frustração e abandono.

Com a AMDE não foi diferente. Dez ano após a sua fundação, ao visitar sua antiga sede na Rua Jaime Pastick, nº 3, deparei-me com um cenário que aperta o peito. O prédio outrora vibrante repousava em ruínas, sitiado pelo capim, muros caídos e árvores tombadas. Folhas soltas de documentos bailavam ao vento pelo chão batido.

A chuva fina que penetrava o telhado danificado ia, aos poucos, destruindo armários e caixas repletas de papéis empoeirados. São ofícios expedidos e recebidos, redigidos por mãos zelosas de homens e mulheres voluntários, sonhadores e, talvez, utópicos, que doaram suas vidas pela coletividade e acabaram esquecidos pelo poder público.

Como historiador, assumi naquele momento a missão de resgatar alguns desses escritos antes que a umidade e o tempo os consumissem por completo. Dizia para mim mesmo: --faço isso para fazer justiça, ainda que tardia, ao legado de Neusivan Fonseca do Nascimento. Pelos documentos e pela produção intelectual que ele deixou, confirma-se o perfil de um jovem líder que, se tivesse permanecido na região, hoje seria um forte quadro na política institucional de Brasilândia.

Divulgar essas memórias, em livros e também pelas redes sociais, é provar que existiram pessoas dedicadas a causas coletivas em tempos onde a voz do "ter" frequentemente abafa a importância do "ser".

Mesmo que o lixo e o esquecimento tentem consumir essas cartas, as sementes da solidariedade e da irmandade foram plantadas. Ao homenagear a saudosa AMDE neste Dia Nacional do Voluntariado, estendo o reconhecimento a tantas outras associações comunitárias que nascem e morrem no anonimato, mas que transformaram para melhor a realidade dos mais simples. Os nomes podem ser esquecidos, mas alguém, no futuro, sempre voltará a empunhar essas mesmas bandeiras.

 

Brasilândia/MS, 28 de agosto de 2026.

Dia Nacional do Voluntariado.
Foto da capa: Jornal da Cidade, 2005 (Restaurada por IA) 
A crônica detalhada e a trajetória documental da AMDE podem ser consultadas na obra História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II - Patrimônio (Páginas 379-382), de autoria de Carlos Alberto dos Santos Dutra. O livro está disponível para consulta na Biblioteca Municipal Professora Abadia dos Santos, em Brasilândia (MS), ou para aquisição na plataforma Clube de Autores



Fotos: Carlito Dutra, 2012.