Oitavas para Jesús Hortal Sánchez SJ
Carlos Alberto dos Santos Dutra
Era o outono de 1984. Sob os arcos da majestosa PUCRS, o tempo parecia suspender o fôlego. Naquelas naves de saber, entrelaçavam-se destinos: seminaristas de olhar atento, religiosos de hábito e leigos banhados pelo sol do interior ou pelo asfalto da capital, todos unidos sob o peso de um rito de passagem: o exame de Direito Canônico.
Pelos corredores, o eco de passos firmes anunciava a chegada da autoridade. O Pe. Jesús Hortal Sánchez, jesuíta de alma universal e mente forjada na Pontifícia Universidade Gregoriana, aproximava-se. Ele não trazia apenas o saber de Roma; carregava nos ombros o prestígio de quem deu voz portuguesa ao Código da Igreja, traduzindo leis em caminhos para o seu povo.
O mestre postou-se à frente, com o destino de cada aluno em um maço de papel. O ritual da entrega era uma lenta agonia de esperança. Para este que vos escreve, então um jovem seminarista da Diocese de Bagé, o silêncio tornava-se denso. O monte de papéis minguava e o meu nome não soava; a ansiedade soprava que o final da fila guardava apenas o desalento.
Mas a
realidade guardava um verso de luz.
Restavam apenas duas laudas na pasta do professor. Com um brilho raro no olhar, ele revelou: — Saibam que um de seus colegas ousou tecer críticas em versos na prova. Pela audácia e originalidade, eu os lerei.
E ali, há mais de quatro décadas, a voz do mestre, tingida por seu inconfundível sotaque espanhol, deu vida àquelas rimas juvenis. Enquanto as palavras flutuavam pela sala, percebi que o rigor acadêmico se curvava à beleza da crítica literária. Pe. Hortal dedilhava o papel com uma satisfação mansa, perdoando os erros métricos em favor da alma que saltava das linhas.
“Me perdoe seu Jesus / Mas não peca quem confessa / Vou dizer-te bem depressa / O que vai neste meu peito / Não repara o meu jeito / Algo de santo e maligno / Que às vezes até perde o tino / Mas não quer faltar o respeito / Hoje vou abrir o verbo / Sobre uma disciplina / Não julgando o que ela ensina / Julgo-a de mui valor / Acontece que um senhor / Tão competente e capaz / Faz do “direito” um az / Não dá chance ao perdedor / Toda a linguagem contesto: /Intimista e privada / Deixa toda a peonada / Naquela dicotomia / Um rezando Ave Maria / Outro vê o povo penando / Mas, os dois vão se aguentando / Vendo assim passar os dias / O “canônico” de casos / Todo mui longe do povo / É padre que bota ovo / Freira faceira, um tarado / Todos os exemplos dados / São na linha bem “freudiana” / Bota moral bem sacana / Ando até desorientado / Sonhava, exigência do padre / Luta, povo, mutirão / Não piadas de salão / De convento ou sacristia / O povo trabalha não ria / Come poeira na estrada / Para esta gente falta nada / “direito” pros nossos dias? / Mas Jesus não se alvorote / Que a paz é companheira / Saio logo da banheira / Que esta água é muito insossa / Pro povo toda mulher é moça / Que “casou”, ponto final / Pra que fazer temporal / Farisaísmos da roça? / Estamos mais interessados / Naquilo que o “direito” / Pode bota, de respeito / Nesta nossa sociedade / Que ajude a comunidade / E os cristãos na caminhada / Vamos todos de mãos dadas / Rumo ao Reino da igualdade / Pro arremate capitulo / Diante de minha ignorância / Mas meu Deus não tem importância / Faço o que posso estudando / Mas bem sei, Tu tá chamando / Não dentro das catedrais / Muito além destes vitrais / Lá tá Tu, pobre esperando”.
As lembranças daqueles "anos de chumbo" hoje repousam em águas mais calmas, onde a Teologia da Libertação servia de âncora para que o Nazareno pudesse, enfim, caminhar sobre a terra firme da justiça. Agora, ao saber da Páscoa definitiva do meu mestre, ocorrida neste 2 de fevereiro de 2026, a saudade se faz prece. Mesmo de longe, inclino o pensamento para honrar o homem que fez da vida um magistério vivo, especialmente em sua jornada como reitor da PUC-Rio, onde deixou rastros de luz entre 1995 e 2010.
As Edições Loyola guardam, em papel e alma, o eco de sua inteligência. Seus livros — do cuidado com o "O que Deus uniu" à esperança de que "Haverá um só rebanho" — não são apenas volumes em estantes; são sementes de um Direito que pulsa com coração pastoral. Sua produção intelectual permanece como um farol seguro, unindo o rigor da norma à ternura do Evangelho, guiando gerações que aprenderam com ele que a lei só faz sentido se servir à vida.
A meros doze dias de completar seu centenário incompleto, o Pe.
Jesús Hortal Sánchez, SJ (1927–2026) despede-se do tempo para entrar
na eternidade. A comunidade acadêmica e religiosa silencia em gratidão por essa
existência doada, por essa mente que colocou a erudição aos pés da fé. Ele
partiu como viveu: sendo ponte, sendo mestre e, acima de tudo, sendo um fiel
operário na vinha do Senhor.
Brasilândia/MS,
2 de fevereiro de 2026.
Foto:
jesús
hortal sánchez - Pesquisa Google; Fonte: Poesia publicada em DUTRA, C.A.S. Homenagens,
pág. 15-16, Brasilândia, 2011. Padre
Jesús Hortal Sánchez, ex-reitor da PUC-Rio, morre no Rio | G1















































