terça-feira, 22 de setembro de 2026

 

Saudação à Profª Drª Izabel Castanha Gil

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Olá, pessoal! Que alegria ver esse auditório cheio de jovens com tanta energia e o futuro inteirinho pela frente. Sejam muito bem-vindos a este encontro!

Quando pensamos em construir o amanhã, muitas vezes olhamos para as telas dos nossos celulares em busca de inovação. Mas a verdade é que as maiores transformações começam exatamente onde os nossos pés estão pisando, na nossa própria comunidade e no respeito à nossa terra.

Hoje, nós temos a honra gigantesca de abrir este evento recebendo uma convidada que é a definição viva de como o conhecimento pode mudar o mundo real. Quero apresentar e prestar uma homenagem muito especial à nossa palestrante: a Professora Doutora Izabel Castanha Gil.

Para vocês terem uma ideia de quem está aqui conosco hoje, a Professora Izabel é uma mente brilhante. Ela é graduada em Geografia, História e Pedagogia, mestre em Ensino e Doutora em Geografia pela UNESP. Ela dedica a sua vida a entender o Desenvolvimento Regional, ou seja, como fazer as cidades e as regiões crescerem de forma inteligente, justa e sustentável. Atualmente, ela ensina futuros profissionais no Centro Universitário de Adamantina-UniFAI.

Mas não pensem que ela vive trancada em uma biblioteca ou em um laboratório! A Professora Izabel é uma empreendedora de futuro, daquelas que põe a mão na massa. Ela já ganhou dezenas de prêmios internacionais, até da Organização das Nações Unidas (ONU) por seu trabalho com agricultura sustentável. Ela criou projetos incríveis com frutos nativos da nossa região, transformando o jatobá em produtos inovadores — como o "Bolobá", um bolo de caneca feito com frutos locais!

Além disso, ela é a grande idealizadora do movimento sociocultural e ambiental Latitude 21, que desde 2019 conecta ciência, música, fotografia e literatura para valorizar a identidade de 30 municípios da região da Alta Paulista e que se estende até Mato Grosso do Sul.

A Professora Izabel tem uma ligação histórica muito bonita com a nossa querida Brasilândia. Há mais de 15 anos, em 2009, quando a nossa cidade ainda dava os primeiros passos para planejar o seu crescimento e mobilizar a comunidade, ela estava exatamente aqui, neste mesmo Anfiteatro Cultural Ramez Tebet, nos ensinando sobre cooperação e desenvolvimento local.

Dizem que o conhecimento é como uma gota de orvalho que cai do céu e enche uma folha verde de vida. Hoje, a folha verde somos nós, cheios de sonhos, e a Professora Izabel é essa gota que vem renovar as nossas ideias. Suas ações nos mostram que o meio ambiente e a economia podem caminhar de mãos dadas, e que o progresso de verdade só nasce quando buscamos o bem comum.

Professora Izabel, tê-la aqui novamente com esta nova geração é uma honra imensa. Nossa profunda gratidão por sua dedicação, seu brilho e sua generosidade em compartilhar tanto saber.

Alunos, preparem os cadernos, celulares e as mentes. Vamos receber com uma salva de palmas calorosa a nossa querida palestrante, Professora Drª Izabel Castanha Gil!

Brasilândia/MS, 22 de setembro de 2026.

Minha Pegada Ambiental

A Escola Municipal Antônio Henrique Filho realizou, no dia 22 de setembro, a palestra “Minha Pegada Ambiental: pequenos gestos, grandes mudanças”, um momento de grande importância para a comunidade escolar e para a promoção da consciência ambiental.

O evento contou com a participação dos estudantes do Ensino Fundamental e convidados, proporcionando um espaço de aprendizagem, reflexão e diálogo sobre a preservação do meio ambiente e a responsabilidade de cada cidadão na construção de um futuro mais sustentável.

A palestra foi ministrada pela Prof.ª Dr.ª Isabel Castanha Gil, professora do Centro Universitário de Adamantina, pesquisadora em desenvolvimento regional e escritora, que compartilhou conhecimentos e reflexões sobre atitudes sustentáveis e os impactos das nossas escolhas no cotidiano.

A realização do evento contou com a importante participação e parceria da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo Carlos Alberto dos Santos Dutra e da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Brasilândia Maria Inês Anselmo Costa, fortalecendo a união entre os setores públicos em favor da educação ambiental.

A escola agradece à Prefeitura Municipal de Brasilândia, às Secretarias envolvidas e, à gestão da Escola Municipal Antônio Henrique Filho, pelo apoio, organização e empenho para que esse momento pudesse acontecer com tanto significado para nossos estudantes.

🌳 Pequenos gestos podem transformar grandes realidades. Educar para cuidar do meio ambiente é investir no futuro!

Equipe Tecnologia. ESCOLA ANTONIO HENRIQUE FILHO

domingo, 20 de setembro de 2026

 

Onde Aninham as Corujas e a Memória

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 





Olho para o Cruzeiro e um frio percorre-me a espinha. Aquele marco fundante do município há quarenta anos espera por uma reforma. Outrora, a Praça dos Fundadores estava projetada para o seu entorno. O tempo passou; após ser palco de encontros e do coroamento das saudosas Cavalgadas Arthur Höffig, o lugar foi, aos poucos, entregue ao esquecimento. 

Com a madeira corroída, o monumento mantinha-se forte apenas o suficiente para abrigar um casal de corujas teimosas. Elas insistiam em não abandonar o posto que um dia — no sonho do patriarca do lugar — congregou a seus pés a urbe nascente.

De repente, vejo homens trabalhando muito próximos àquele monumento: máquinas nivelando o terreno e estacas fincadas ao chão. Meu coração alegra-se e aproximo-me de um dos operários.

Numa conversa informal, após concordarmos sobre a importância de proteger a vida das corujas que mantêm sua toca na base do Cruzeiro, o senhor informa-me educadamente que ali será construído um estacionamento para a Câmara Municipal. 

A informação, para meu absoluto desalento, foi confirmada mais tarde pela Secretaria de Infraestrutura e Serviços.

Passados a surpresa e o desencanto, ponho-me a refletir sobre o significado e importância de uma praça para o senso comum e para os administradores. 

Sob o aspecto da engenharia, a preocupação limita-se à organização dos espaços e ao planejamento da estrutura urbana. Para alguns, a criação de uma praça traduz unicamente a ocupação de um espaço vazio, tantas vezes abandonado nos grandes centros à mercê da vulnerabilidade social. Restando a uma pequena parcela da sociedade enxergá-la como alternativa de lazer, meditação e deleite comunitário.

O geógrafo Milton Santos escreveu que “o espaço é hoje um sistema de objetos cada vez mais artificiais, povoado por sistemas de ações igualmente imbuídos de artificialidade, e cada vez mais tendentes a fins estranhos ao lugar e a seus habitantes”. É impossível discordar da lucidez de sua percepção trintenária. 

Praças não se confundem com o espaço puro e simples. Elas são formas de paisagem intimamente ligadas à comunidade que as envolve. Construir e cuidar de praças é investir na paisagem que humaniza o território — uma paisagem que, com o passar do tempo, plasma e transforma a natureza em humanidade, herança e memória. Por isso, o esquecimento nos entristece: porque somos parte das paisagens que nos abraçam.

Ver uma paisagem desenhada pelo coração da comunidade — a Praça dos Fundadores, a Praça do Cruzeiro —, cuja forma exprime os sonhos, as lembranças e o orgulho dos pioneiros que ergueram este chão, ser reduzida a um mero depósito de veículos, choca pela frieza e insensibilidade.

Para a maioria, o significado da praça reside no elo vital entre o ser humano e a natureza. E é isso que nos enche de alento e esperança.

Porque a praça transfigura o espaço que vive e faz viver; reúne pessoas, histórias, política, religião, arte e música. É sinônimo de manifestação cultural e o verdadeiro palco da expressão de um povo consciente, feliz por caminhar entre jardins floridos e memórias preservadas. 

Sim, somos um povo capaz de garantir o voo livre de uma coruja perene que ainda resiste – como a Praça de nossos sonhos que esperamos vê-la erguida e assim o faremos--, nos braços do Cruzeiro de Brasilândia.

Brasilândia/MS, 21 de setembro de 2026. Dia da Árvore.

 

Salve o 20 de Setembro: O orgulho Gaúcho que carregamos no peito, onde quer que estejamos

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

O dia 20 de setembro não é apenas uma data no calendário; é o pulsar de um sentimento telúrico que une todos aqueles que carregam a alma rio-grandense, estejam eles cruzando as coxilhas do Sul ou habitando qualquer outro canto deste imenso Brasil.

Neste Dia do Gaúcho, permitam-me resgatar uma memória muito especial deste escrevinhador. Volto no tempo, mais precisamente para o dia 19 de setembro de 2005. Naquela oportunidade, como vereador na Câmara Municipal de Brasilândia, Mato Grosso do Sul, ousei quebrar a solenidade dos protocolos habituais para falar do Rio Grande, minha terra natal, que celebrava a sua Semana Farroupilha.

Lembrei aos presentes na Tribuna que o Rio Grande do Sul guarda uma formação singular: foi o único estado brasileiro que não integrou os domínios coloniais de Portugal logo de início, pertencendo à Espanha até um século e meio após o restante do país ser colonizado. Foi somente em 1737 que a Capitania de São Pedro do Rio Grande ganhou vida, mas foi o estopim da Revolução Farroupilha, em 1835, que verdadeiramente moldou as cores da nossa bandeira, definiu nossos contornos geográficos e forjou o caráter indomável dos antigos habitantes daquelas paragens.

Hoje, vivendo em Brasilândia — terra generosa que honrosamente me adotou há mais de quatro décadas, desde que aqui aportei em fevereiro de 1986 —, confesso que o tempo acabou por suavizar meu sotaque. Distante da pampa que faz divisa com as bandas de Cacequi, na fronteira oeste, o jeito de falar e a tradicional charla galponeira parecem adormecidos na rotina.

Mas basta chegar o mês de setembro para que toda essa cultura e apego às raízes se revigorem com força total. Enquanto lá no Sul o chão estremece com as gineteadas, os fandangos, as trovas e as bombachas, a gente que vive distante sente o coração apertar de saudade. Começamos, quase sem perceber, a reeducar a língua e a memória. O sotaque esquecido teima em voltar, trazendo à tona o guri, o piazito de campanha que fomos ontem, contrapondo-se ao velho táta em que vamos nos transformando com o branqueamento dos cabelos. O velho capão teima em se sentir borrego diante da força da tradição.

Por isso, peço licença para enveredar em cancha reta no rumo do sentimento. O Rio Grande está vivo em cada um que cultiva seus valores, mesmo longe das fronteiras geográficas do Sul. Como homenagem a essa herança cultural eterna, compartilho com vocês uma das mais belas manifestações dessa fé galponeira: a célebre "Prece do Gaúcho", escrita originalmente por Dom Luiz Felipe de Nadal. Uma Oração do Pai Nosso rezada em versão xirua e gaudéria, direto do fundo do rincão.

Prece do Gaúcho

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e com licença, Patrão Celestial.

Vou chegando, enquanto cevo o amargo das minhas confidências, porque ao romper da madrugada e ao descambar do sol, preciso camperear por estas invernadas e repontear do Céu a força e a coragem para o entrevero do dia que passa.

Eu bem sei que qualquer guasca bem pilchado, de faca, rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida se não se estriba na proteção do céu. Ouve, Patrão Celestial, a oração que te faço. Tomara que todo mundo seja como irmão. Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim.

Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me solto porteira afora... Eita, potrilho chucro, renegado e caborteiro! Mas eu te garanto, meu Deus, quero ser bom e direito.

Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do céu. Socorre-me, São Pedro, capataz da Estância Gaúcha. Pra fim de conversa, vou te dizer, meu Deus, mas somente pra ti: que tua vontade leve a minha de cabresto, pra todo o sempre, até a querência do Céu. Amém."

Que o civismo, a coragem e a hospitalidade do povo gaúcho continuem a inspirar nossos passos, não importa a distância da querência. Um feliz Dia do Gaúcho a todos!


Brasilândia/MS, 20 de setembro de 2026.

Publicado originalmente em https://carlitodutra.blogspot.com/2024/09/salve-o-20-de-setembro-dia-do-gaucho.html

sábado, 19 de setembro de 2026

 O Assobio da Esperança: Como a Música Transforma o Lixo em Dignidade

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra







Quando aquele comandante britânico vestiu a farda militar interpretada pelo ator Alec Guinness e decidiu liderar um grupo de prisioneiros que se mantinha refém dos japoneses na Birmânia, durante a IIª Guerra Mundial, ele não sabia que entraria para a história. Esse argumento, que foi adaptado do romance The bridge on the river Kwai e ganhou as telas do mundo inteiro em 1957, viria a ser vencedor de sete Oscar: filme, direção, ator, roteiro, montagem, fotografia e trilha sonora.

Embalado pela música-tema desse grande épico inesquecível do cinema, a contagiante marcha Colonel Bogey, assobiada por esses prisioneiros que foram induzidos e encorajados a construir a célebre ponte do rio Kwai (se pronuncia cuêi), até hoje é conhecida e cantarolada no mundo inteiro.

O ritmo melódico da marcha imprime volume e consistência, fazendo brotar em nós uma força que vem de dentro e nos projeta para a frente. O rigor com que é executada transmite um timbre de euforia e ânimo, ao mesmo tempo em que nos convida à ordem e à disciplina.

É essa mesma sensação que os brasilandenses têm vivido e sentido durante dias determinados, aqui em nossas ruas. Quando aquele assobio ecoa desde o centro até os bairros, não é apenas um caminhão de material reciclável que se aproxima; é uma onda sonora que nos envolve e embala, funcionando como um despertar coletivo que nos força a sair de nossos egoísmos cotidianos. É um convite poético para nos mexer, para vencer nossos desafios maiores.

O exemplo do militar inglês foi este: mesmo sabendo que a ponte, uma vez construída, iria servir tão somente ao inimigo, ainda assim ele continuou sua empreitada para provar a superioridade e a dignidade de seus homens em relação às forças opositoras.

Fazendo um rápido paralelo entre a construção dessa ponte e a ASSOBRAA, encontramos a mesma essência de superação. Mesmo sabendo que a tarefa da coleta seletiva do lixo pudesse ser (ou até devesse ser) realizada somente pela Administração Pública, eles — os cidadãos, os sócios, transformados em atores reais da nossa história — assumiram para si a missão de fazê-la, e de fazê-la brilhantemente.

Já não importa mais questionar de quem fora a obrigação legal de outrora. Com braços fortes e sorriso no rosto, esses Agentes Ambientais recolhem o que a sociedade descarta e devolvem em forma de cidadania, provando que a coleta seletiva em nossa cidade é plenamente possível.

Lá estavam eles, há 23 anos, heroicamente animados pelo senhor Deolir Felipe Schio, o popular Caco, e um grupo de amigos sonhadores, mostrando que é preciso conclamar a comunidade para a tarefa pedagógica de transformar comportamentos e superar nossos limites. Olhar para o trabalho da ASSOBRAA nos obriga a baixar os olhos diante do nosso próprio comodismo e erguê-los novamente, prontos para colaborar.

Assim como o filme do diretor David Lean foi coroado de glórias, auferimos aqui à ASSOBRAA nota DEZ pela sua iniciativa e coragem de fazer acontecer aquilo que Jean Cocteau, escritor francês, eternizou: "Ele não sabia que era impossível, foi lá e realizou".

E lá vem o assobio daquela musiquinha, uma composição de Malcolm Arnold eternizada pela KMC Orchestra e que ganha vida na gravação utilizada pelo caminhão da coleta, dirigido hoje pelo amigo Bidão. Na voz inconfundível do saudoso Benê Soares, esse gesto grandioso ecoa como um hino, convidando cada morador a se engajar nesse mutirão de amor por nossa terra.

Sim, sentimos uma pontinha de orgulho legítimo, todos nós brasilandenses. Isso porque quem faz isso é gente nossa, pelas mãos da Jociane e sua valorosa equipe, trabalhando por todos nós e desenhando o melhor futuro para a totalidade da nossa Brasilândia. Sentimo-nos orgulhosos porque alguém ousou desafiar o óbvio e superar obstáculos.

Parabéns, agentes ambientais da ASSOBRAA; parabéns, Brasilândia. Nossa cidade pulsa no peito desses heróis. E para aqueles que ainda teimam em dizer que Brasilândia não tem jeito... bem, assobia aquela musiquinha pra ele!

 

Brasilândia/MS, 20 de setembro de 2026. Homenagem aos 23 anos de Fundação da ASSOBRAA. Crônica inspirada no artigo publicado originalmente no Jornal Diário MS, Dourados, 09.fev.2004; A Tribuna, Campo Grande, 8-14.fev.2004. E em DUTRA, C.A.S. Retalhos do Dia a Dia, Brasilândia, 2010, pág. 104s.

 

 

O Coração do Mutum: A Saga Invisível de Suor, Coragem e Dignidade no Campo

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Existem histórias que o tempo não pode apagar, pois elas foram escritas com o suor do rosto e a força da esperança. Olhar para trás e recontar a trajetória da APRAMBRAS (Associação dos Pequenos Produtores do Assentamento Mutum de Brasilândia) não é falar apenas sobre terras ou números, mas sobre a alma de centenas de famílias que decidiram lutar pelo direito de existir com dignidade.

Tudo começou oficialmente em um 18 de setembro de 1997. Naquele dia, a esperança de 340 famílias ganhou voz na liderança de Roberto Silva. Ele não assumiu apenas a presidência de uma associação; ele abraçou o destino de pais, mães e filhos espalhados por uma imensidão que tocava Santa Rita do Pardo, Ribas do Rio Pardo e Brasilândia.

No início, o que aquelas 187 famílias de Brasilândia encontraram foi o isolamento. A realidade era dura: poços artesianos secos ou quebrados, a escuridão da falta de energia elétrica e estradas que eram verdadeiras barreiras. Mas a fome de justiça daquela comunidade era maior.

Roberto Silva, com passos incansáveis e o apoio vital do então vereador Lauro Canno, transformou o silêncio do campo em clamor. A prefeita Marilza do Amaral ouviu o chamado, e em março de 1998, as primeiras lágrimas de alívio correram com a inauguração da Escola e do Posto de Saúde. Pela primeira vez, o Mutum sentia que o futuro era possível.

Contudo, a terra cobra o seu preço, e o abandono governamental quase sufocou o sonho. Entre 1999 e 2000, o Mutum viveu seu inverno mais rigoroso. Sem recursos do INCRA, a penúria foi tamanha que alguns precisaram partir para não morrer de fome. Projetos técnicos frios e distantes da realidade tentavam impor regras impossíveis — como sustentar uma casa inteira com a produção de apenas seis vacas. Mas a associação não se curvou. Roberto voltou à cidade, denunciou a dor do seu povo e exigiu o respeito que a dignidade daquelas famílias merecia.

O bastão da liderança foi passado em outubro de 2000 para as mãos calejadas de Pedro Paulo Cassemiro Martins, então com 55 anos. Com o mesmo fogo no peito, Pedro Paulo continuou a marchar pelos direitos da comunidade. Ele lutou por cada pedaço de chão demarcado, brigou para que o comércio ganhasse vida e insistiu na abertura da Estrada do Bico da Bota, o cordão umbilical que finalmente tiraria o reassentamento do isolamento.

E a vitória veio. Ela veio no teto das casas, na água que corria pura e, principalmente, no milagre da Bacia Leiteira, que alcançou 60% de sua capacidade, e na força do Laticínio Mova Lat. Ver o queijo muçarela cruzar as fronteiras do assentamento e ver o soro retornar para alimentar os animais e adubar a própria terra era a prova viva de que o Mutum havia vencido.

A história da Agrovila Mutum é um monumento à resiliência humana. Cada estrada aberta, cada sala de aula cheia e cada poço que jorra água celebra um sonho pautado no sacrifício e a união da APRAMBRAS e de seus heróis anônimos. Eles não apenas cultivaram a terra; eles semearam a dignidade para as gerações que hoje colhem os frutos dessa brava e inesquecível jornada.


Brasilândia/MS, 18 de setembro de 2026. 

Artigo inspirado nas memórias e registros históricos resgatados por C.A.S. Dutra na obra "História e Memória de Brasilândia/MS - Volume II – Patrimônio".

 

Debrasa: A Força dos Pioneiros e a História do Distrito de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 

O ano de 2026 marca um momento especial para o município de Brasilândia (MS). A Prefeitura programou para o dia 10 de outubro uma série de atividades culturais e esportivas em comemoração ao aniversário de criação do distrito Debrasa. Embora as festividades tenham sido adiadas temporariamente devido ao mau tempo, a celebração e o resgate histórico permanecem mais vivos do que nunca.

Para fazermos justiça à memória dos pioneiros que dedicaram suas vidas àquela terra, cumpre lembrar que essa história começou muito antes de 19 de setembro de 1996, data em que a Lei Municipal nº 913/96 elevou oficialmente aquele aglomerado urbano à condição de distrito.

De acordo com o site da Prefeitura, os eventos comemorativos — que incluem o tradicional bingo com a população, praça de alimentação e shows musicais — terão como palco a Praça Walter Antônio Pádua Becker. Mas você sabe quem foi Walter Becker ou como nasceu o distrito? Para entender o presente, precisamos voltar um pouco no tempo. As páginas amareladas do antigo Jornal de Brasilândia, editado pelo saudoso jornalista Jamil Fernandes (falecido em 2015), nos ajudam a reconstruir esse rico passado.

O Sonho dos Desbravadores e a Destilaria. No final da década de 1970, empresários visionários enxergaram o potencial de implantar uma destilaria de álcool no interior de Mato Grosso do Sul, mais precisamente em Brasilândia. À custa de muitos sacrifícios e movidos pela determinação típica dos desbravadores, os obstáculos foram superados. Nascia ali a Destilaria Debrasa, fundada oficialmente em 25 de março de 1976.

Em seu auge na década de 1980, o setor produtivo da empresa operava em ritmo acelerado. A usina gerava mais de dois mil empregos na região, contava com uma área plantada de 16.400 hectares de cana-de-açúcar, produzia um milhão de toneladas de cana para corte e projetava uma produção impressionante de 74 milhões de litros de álcool para o ano de 1987.

Esse sucesso era motivo de grande orgulho para a diretoria pioneira, composta por: Maurílio Biagi Filho (Diretor-Presidente), Nelson Brochmann (Diretor Vice-Presidente), Arnaldo Bonini (Diretor Superintendente), e Walter Antônio Pádua Becker (Diretor de Administração) — que hoje dá nome à praça central. Naquela época, os principais acionistas do empreendimento eram a Usina Santa Elisa S/A (Indústria e Comércio e Construções) e Jacyra de Moraes Höffig.

Da Solução ao Desafio Urbano. Com o crescimento da indústria, surgiu um novo desafio: como fixar os trabalhadores perto do local de trabalho? Como solução provisória, a empresa realizou um loteamento nas proximidades da fábrica e vendeu os lotes aos operários de forma parcelada e a preços acessíveis. O núcleo habitacional cresceu a olhos vistos, com novas residências e comércios se estabelecendo rapidamente.

Contudo, o que havia sido uma solução imediata transformou-se em um problema jurídico com o passar dos anos. Como bem lembrava Jamil Fernandes em suas crônicas, a propriedade só se torna legítima quando está devidamente escriturada e registrada em cartório. Havia o sério entrave de os lotes estarem situados em uma área rural, apesar de possuírem finalidade estritamente urbana.

O Caminho Legal para a Criação do Distrito. A transformação definitiva do núcleo habitacional em distrito exigiu muito trabalho político e jurídico. Foi na gestão da então prefeita Neuza Paulino Maia que a Prefeitura de Brasilândia determinou a realização de estudos técnicos aprofundados. Tentativas anteriores já haviam sido feitas, mas se perderam nos meandros da política partidária da época por falta de fundamentação legal.

Os estudos apontaram o caminho: primeiro, a área precisava ser desvinculada do INCRA. Depois, era necessária uma lei municipal para ampliar o perímetro urbano — o que foi feito pela Lei Municipal nº 886/95. Só assim os proprietários puderam regularizar o loteamento, em conformidade com a Lei Municipal nº 401/95 e a Lei Federal nº 6.766/79. A Prefeitura atuou assessorando juridicamente os moradores, que eram os legítimos possuidores dos imóveis.

A empresa contratou um responsável técnico para cuidar da documentação e das respostas aos órgãos competentes, além de assumir os serviços de topografia para a demarcação dos lotes. Embora o processo tenha sofrido atrasos e interrupções temporárias pela falta de acompanhamento topográfico contínuo, a comunidade não parou de pulsar. Dados oficiais da época indicavam que o local já contava com 1.015 habitantes e um total de 610 imóveis, sendo 320 residências e 39 estabelecimentos comerciais.

Curiosidades e Limites Geográficos. A história do distrito também é feita de astúcia e visão de futuro. O jornalista Jamil Fernandes destacou em seus registros uma passagem muito interessante sobre o saudoso Senhor Thomaz de Almeida. Homem de visão, ele brigou para que a instalação de parte da moenda da usina Debrasa ficasse do lado esquerdo do Rio Taquaruçu. Ele sabia que, com a iminente emancipação do ex-distrito de Xavantina (que viria a se tornar o município de Santa Rita do Pardo), o território do outro lado do rio deixaria de pertencer a Brasilândia. Graças a ele, a usina permaneceu em terras brasilandenses.

Finalmente, em 19 de setembro de 1996, a prefeita Neuza Paulino Maia sancionou a Lei Municipal nº 913/96, oficializando o desmembramento e a criação do Distrito Debrasa. A lei determinou seus limites geográficos precisos: O perímetro inicia-se na ponte sobre o Rio Taquaruçu (na margem esquerda, divisa com Santa Rita do Pardo), segue pela margem esquerda da Rodovia Estadual MS-395 (denominada Julião de Lima Maia) no sentido à sede do município; ao encontrar o Córrego Azul (ou Paredão), segue cabeceira acima; dali, em linha reta (divisa seca), vai até a cabeceira mais alta do Córrego Invejoso, descendo por ele até a sua foz no Rio Taquaruçu, e segue o leito do rio abaixo até retornar à ponte da MS-395.

Valorizando Nossas "Bibliotecas Vivas"

São muitas as memórias e passagens históricas que moldaram o Debrasa. Na era da internet e da informação rápida, esses dados podem ser facilmente consultados por qualquer cidadão interessado. No entanto, mais do que comemorar datas com shows e bingos, este aniversário de fundação é uma oportunidade de ouro para valorizarmos as nossas "bibliotecas vivas". São os moradores mais antigos que, desafiando a memória fluida e passageira da modernidade digital, teimam em manter vivo o testemunho real e o legado dos pioneiros que ergueram e consolidaram o distrito Debrasa. Parabéns, Distrito Debrasa, pelos seus 30 anos de história, trabalho e comunidade!


Brasilândia/MS, 19 de setembro de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2023/09/distrito-debrasa-quando-tudo-comecou.html; Mais informações sobre a história do Distrito Debrasa cf. História e Memória de Brasilândia/MS, volume 1-Pioneiros, capítulo 3-Quando tudo começou-Testemunhos. Páginas 283 a 295, que se encontra disponível na Biblioteca Municipal de Brasilândia Profª Abadia dos Santos, e Bibliotecas do SESI e todas as Bibliotecas Escolares de Brasilândia. Este volume também pode ser adquirido em: História e Memória de Brasilândia/MS - Pioneiros, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores

 

 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

A Feira e Viola como Palco da Identidade: Histórico e Evolução da Cultura Popular em Brasilândia

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 



Existem binômios que são sempre estimulantes: feira e artesanato; feira e viola; feira e empreendimento; feira e literatura; feira e esporte. Isso porque a feira livre é, por excelência, uma das maiores manifestações vivas da cultura de um povo.

Trata-se de um espaço residual de liberdade e criatividade, onde a arte ganha voz por meio da música, da dança, do teatro, do artesanato e das artes plásticas, conectando as produções feitas com esmero pelos moradores de um lugar diretamente ao coração da comunidade.

Em Brasilândia, essa vocação cultural manifestou-se cedo. As instituições e o poder público historicamente dedicaram especial atenção às expressões populares da região, acolhendo-as e impulsionando-as. Seja pela originalidade das riquezas da terra, seja pelo elo de comunicação criado entre os governantes e a comunidade — em tempos de forte configuração rural —, a feira sempre foi um ponto de encontro essencial.

O primeiro grande registro dessa natureza remonta à 1ª Feira Verde Arte de Brasilândia, realizada entre os dias 20 e 22 de outubro de 1989. Realizada pelo Conselho de Desenvolvimento Comunitário de Brasilândia (CODECOMB), que coordenei  na época, o evento ocorreu na quadra de esportes da Escola Municipal Arthur Höffig.

Foi uma das pioneiras exposições culturais da cidade, permitindo que os munícipes expusessem sua produção artesanal com suporte da administração municipal. Um dos pontos altos daquele encontro foi a participação da comunidade indígena Ofaié. Naquela oportunidade, os brasilandenses puderam compreender e valorizar os Ofaié como legítimos detentores de uma cultura própria e rica, assistindo em tempo real os estudantes acompanharem a confecção de arcos, flechas e colares em uma ação pedagógica marcante para a época.

Embora os registros em vídeo daquela gestão do prefeito José Cândido da Silva tenham se perdido com o tempo, a memória de pioneiros artesãos como Eduardinho Cri-í, Aparecida Hanto-grê, Pereirinha He-í e o jovem João Carlos Canrê permanece viva como a semente da nossa tradição.

Anos mais tarde, em 1995, o então vereador Jaime Assis de Alencar (Jaime Doce) propôs a criação de uma Feira Livre dominical para baratear os alimentos, ideia estendida ao distrito Debrasa. Em seguida, as proposições dos vereadores Irineu de Souza Brito, em 1997 — que sugeriu o nome poético de Feira da Lua por seu caráter noturno —, e de Marcos Roberto Lopes (Beto da Maurimar), em 1999, consolidaram o projeto. 

A chegada dos assentamentos Santana, Santa Emília e Pedra Bonita impulsionou definitivamente a produção de hortifrutigranjeiros, culminando na inauguração oficial da Feira Livre do Produtor Rural no dia 8 de fevereiro de 2000, na Praça da Pedra (Praça José Pinto Nunes).

Ao longo do tempo, o perfil produtivo transformou-se devido às safras sazonais, abrindo espaço para entidades filantrópicas e comerciantes locais, mas o viés de polo cultural manteve-se inabalável. Em 2013, o evento assumiu a denominação que carrega com orgulho até hoje: a Feira e Viola, convertendo-se em um instrumento indispensável de difusão da identidade brasilandense.

A partir de 2014, essa tradição expandiu as suas fronteiras e encontrou no bairro João Paulo da Silva, mais especificamente na Praça Ostelino Cardoso, o seu principal ponto de efervescência popular às quartas-feiras. O evento consolidou-se como um patrimônio social que atrai moradores de todos os cantos do município.

Semanalmente, o espaço transforma-se em um verdadeiro festival de convivência, oferecendo música ao vivo, uma variada praça de alimentação com comidas típicas, além da exposição e venda do autêntico artesanato local. Para as crianças, a diversão é garantida com o parquinho e a distribuição de pipoca, enquanto os adultos se divertem com os tradicionais binguinhos comandados pelo carismático radialista Ceará Santos e celebram a noite ao som do tradicional forró musical.

Atualmente, a Feira e Viola do bairro João Paulo da Silva prepara-se para vivenciar um novo e importante capítulo de sua história. A Praça Ostelino Cardoso passará por uma ampla reforma e modernização, uma obra aguardada que resultará em um espaço público revitalizado e com melhor infraestrutura para expositores e visitantes.

Durante o período de execução das obras do novo complexo, a tradicional feira de quarta-feira continuará acolhendo a população em um espaço alternativo temporário, assegurando que o comércio de subsistência, o lazer das famílias e a pulsação cultural de Brasilândia não sejam interrompidos até o retorno triunfal ao seu lugar de origem.


Brasilândia/MS, 15 de setembro de 2026.

Fonte de fundamentação histórica: https://carlitodutra.blogspot.com/2023/03/a-feira-da-lua-os-produtores-e-cultura.html

História e Memória de Brasilândia, Volumes II, III e IV.