quinta-feira, 25 de junho de 2026

 Excelentíssimo Senhor Presidente, Luiz Inácio Lula da Silva,


Sei que o senhor é um homem muitíssimo ocupado, integralmente dedicado a resolver questões de extrema relevância no Brasil e no mundo. 

Sei também que, por essa entrega, o senhor é profundamente amado e respeitado por tantos de nós.

Essa é a nobre sina daqueles que recusaram o comodismo diante da vida e escolheram se posicionar no lado mais frágil e esquecido da balança da desigualdade. 

É o destino de quem não maldiz a própria sorte, mas suporta o peso da dor, enfrenta a morte e segue adiante, sem jamais virar as costas para os companheiros que outrora partilharam do mesmo prato e da mesma humilde condição.

É por reconhecer no senhor essa profunda sensibilidade que tomo a liberdade de pedir um breve minuto de sua valiosa atenção.

Não venho clamar por eles como se fossem desamparados, pois hoje os Ofaié têm voz. Diferentemente de ontem, esse povo — que ao longo da história foi erroneamente chamado de Xavantes —, em Mato Grosso do Sul ressurgiu altivo das cinzas do abandono oficial. Sem dúvida são os sobreviventes que nem mesmo o rigor histórico da força verde-oliva conseguiu dizimar.

Não pretendo, Senhor Presidente, estender-me narrando a trajetória desta gente. As imagens e os recortes de seu percurso que acompanham este modesto presente falarão por si, ilustrando com sensibilidade o soerguimento de um povo de índole genuinamente pacífica e gentil.

Se não me for possível entregar pessoalmente esta lembrança que os Ofaié lhe destinam, peço que, em sua viagem de retorno à Capital — em meio aos seus nobres, urgentes e necessários afazeres —, o senhor deite os olhos, ainda que por um breve instante, sobre o coração deste povo.

Da mesma forma que outrora carregávamos nossas esperanças nos ombros de nossas mães, hoje depositamos o futuro da homologação do território sagrado Ofaié em vossas mãos.

Brasilândia/MS, 25 de junho de 2026.

Fraternamente,
Carlito Dutra, Axayray Ofaié










 

Paróquia Cristo Bom Pastor, 54 anos de uma linda caminhada de fé.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 






Queridos irmãos e irmãs em Cristo,

É com o coração transbordando de gratidão e alegria que nos reunimos hoje, nesta Santa Missa de Ação de Graças, para celebrar uma caminhada de fé profunda, construída com dedicação, amor e espírito comunitário: os 54 anos da nossa querida Paróquia Cristo Bom Pastor de Brasilândia. 

Toda grande árvore começa com uma pequena semente. A nossa história remonta ao dia 21 de abril de 1957, quando, sob os pés de uma cruz batizada de "O Cruzeiro", o povoado de Brasilândia se uniu para a sua primeira missa campal, rezada pelo padre tchecoslovaco João Tomes, na presença do patriarca e fundador Arthur Höffig. 

Naquele dia santo, o padre João elevou aos céus uma prece profética: "Ó bondoso Deus, olhai para este povoado de Brasilândia. Fazei crescer aqui uma igreja forte e que ela receba o nome de Cristo Bom Pastor". Deus ouviu esse clamor. 

O tempo passou e o povoado cresceu, amparado inicialmente pelo atendimento espiritual que vinha da Diocese de Campo Grande. Mas a nossa história não foi feita apenas de orações nos altares; ela foi tecida no dia a dia, nas dores e nas necessidades do nosso povo. 

Lembramos com carinho da carência de saúde que afligia a comunidade. Da sensibilidade de um grupo de mulheres nasceu a coragem de pedir socorro. Diante da falta de médicos e parteiras no primeiro posto de saúde do município — criado em 1965 pelo prefeito José Francisco Marques Neto —, a união entre a prefeitura e a Igreja buscou uma resposta concreta para o cuidado da vida. 

O padre João interveio e o Bispo Dom Antônio Barbosa abraçou a causa, formalizando um pedido à Congregação das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. Assim, no dia 25 de junho de 1972, a Paróquia Cristo Bom Pastor foi oficialmente instituída, desmembrada da Paróquia de Santa Luzia de Três Lagoas. 

A partir daquele momento festivo, que reuniu tantas autoridades civis, militares e eclesiásticas na praça chamada na época Praça dos Fundadores, vivemos uma experiência pioneira e belíssima quando a Diocese de Três Lagoas ainda nem existia e a Paróquia Cristo Bom Pastor estava vinculada à Diocese de Campo Grande: por dez anos, nossa Paróquia foi inteiramente confiada às mãos zelosas dessas irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. Elas se transformaram em verdadeiras vigárias paroquiais, assumindo as atividades pastorais e sacramentais com um amor incomensurável. 

Como não recordar da Irmã Abigail Dias Batista, nossa primeira coordenadora, que presidiu o primeiro batizado da pequena Dalvina Aparecida Alves e o primeiro casamento do casal Lourival e Neusa? Como esquecer a Irmã Célia Maria Simeão, que além de zelar pelas almas, atuou como parteira no posto de saúde, ajudando a trazer tantas vidas ao mundo? 

Lembramos de cada uma das irmãs que por aqui passaram — Ana, Margarida, Cacilda, Zélia, Maria Aparecida, Diocenísia, Geni, Geralda, Judith, Maria de Abreu, Maria Benedita e Nair —, mulheres de fibra que plantaram o amor fraterno neste chão. 

Nessa jornada pioneira, elas nunca estiveram sós. Foram amparadas pelo povo fiel e assistidas por padres dedicados, como o Padre Ubajara Paz de Figueiredo, José Faralosse, Nicolau Hames, Nilvo Floriano Pase, Antônio do Carmo Ribeiro, Hermes, Ernesto, Tomaz, Iglesias, entre tantos outros que ajudaram na formação inicial do nosso povo. 

Essa semente plantada no passado continuou a dar frutos abundantes ao longo das décadas. A missão de guiar o rebanho do Bom Pastor foi abraçada por pastores dedicados que marcaram a nossa história recente. Lembramos com profunda gratidão do padre Lauri Bósio, que dedicou tantos anos de sua vida ao nosso meio, conduzindo esta comunidade com zelo e paternidade espiritual. Recordamos também o pastoreio e a dedicação do padre Luiz Mariano e do padre Fábio Alves, que doaram seus corações a este povo, deixando pegadas de fé e evangelização em nossa comunidade. 

E hoje, dando continuidade a essa belíssima história de amor a Deus e ao próximo, expressamos nossa profunda gratidão ao nosso atual pároco, o padre Ronaldo Rodrigues. Com o mesmo espírito de serviço dos que o antecederam, ele renova diariamente o nosso compromisso de caminhar como Igreja viva, acolhedora e missionária. 

Olhar para o Livro Tombo da nossa paróquia é ler a história das famílias pioneiras de Brasilândia. Nomes como o de seu José Sanches Castilho e dona Consuelo, seu Germino e dona Aureliana, seu Vicente e dona Niderci, seu Eliazel e dona Jurandira, seu Alfredo e dona Josefina, seu Pedro e dona Anizia, seu Aparecido e dona Josefa, a nossa querida dona Mocinha, e tantos outros casais como os Basso, os Fernandes, os Mingante, os Souza, os Dias e o primeiro presidente da comissão paroquial, seu Manoel Galdino de Souza, representam os alicerces vivos desta comunidade. 

Hoje, ao celebrarmos este aniversário, nossa gratidão se eleva ao céu por cada batismo realizado, por cada matrimônio abençoado, por cada Eucaristia partilhada e por cada ato de caridade silenciosa que aconteceu sob o olhar do Bom Pastor. Somos uma paróquia nascida da fé, da saúde partilhada, da cooperação e do serviço ao próximo. 

Que as palavras de Dom Antônio Barbosa continuem a ecoar em nossos corações, inspirando-nos a conservar sempre uma comunidade de culto, de amor e de serviço fraterno. Rogamos a Deus que abençoe a todos os pioneiros, aos que já partiram para a eternidade e a todos nós que hoje, guiados pelo Padre Ronaldo, continuamos a escrever as páginas dessa linda caminhada de fé.

Viva a Paróquia Cristo Bom Pastor! Salve o Cristo Bom Pastor! Amém. 

Brasilândia/MS, 25 de junho de 2026.

54º aniversário da Paróquia Cristo Bom Pastor.

Publicado originalmente In https://carlitodutra.blogspot.com/2022/06/jubileu-dos-50-anos-da-paroquia-cristo.html


domingo, 21 de junho de 2026

Uma saudade chamada AAB: o coração de Brasilândia ainda pulsa em nossas memórias

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

A história de Brasilândia sempre trouxe no ventre uma predileção natural pela alegria, pelas festas e pelos encontros comunitários. Desde os tempos em que o município era apenas um povoado, os finais de semana ganhavam vida através de manifestações culturais que uniam as pessoas nas fazendas, sítios e ruas. 

Mas foi com o nascimento dos clubes sociais que essa vocação para a coletividade encontrou o seu verdadeiro lar. Entre eles, um nome se eternizou na identidade da nossa gente: a Associação Atlética Brasilandense (AAB). 

Fundada em 21 de junho de 1981 e sediada na Rua Jacira, nº 131, a AAB foi muito mais do que uma estrutura de concreto; ela foi o palco dos anos mais dourados da nossa comunidade.  

A AAB foi o cenário de uma geração. Falar da AAB é reviver a imagem de uma sede invejável. Quem não se lembra da grandiosa piscina olímpica, cujas águas límpidas eram um convite diário ao lazer, ao esporte e à convivência? Era um verdadeiro deslumbre ver a juventude brasilandense movimentando as bordas daquela piscina nos dias ensolarados.  

Ao lado, o campo de futebol de medidas oficiais estendia seu tapete verde para torneios históricos, que se tornaram uma das maiores glórias da entidade. Ali, uma geração inteira viu seus filhos crescerem, correrem e aprenderem a nadar. A AAB era o porto seguro da nossa diversão.  

A AAB foi, na verdade um palco de grandes momentos. O clube ditava o ritmo da vida social de Brasilândia. Embalados pelo som do conjunto Brancão, do grupo Barcelona ou do Alma Serrana, e outros, os bailes da AAB atravessavam madrugadas. 

A expectativa tomava conta da cidade em dias de bingos e sorteios de prêmios vultosos, como as cobiçadas motocicletas CG-125 ou o inesquecível Fiat zero quilômetro sorteado em 1999. 

Além do lazer, a associação era o cérebro e o coração pulsante da municipalidade. Suas dependências abrigaram casamentos chic inesquecíveis — como o de Cleiton (Bambolê) e Doriana, filha da ex-prefeita Marilza do Amaral que mereceram registro na imprensa local. 

O espaço também dava lugar à seriedade da política e da cidadania, acolhendo grandes debates como o do Orçamento Participativo, que reuniu centenas de cidadãos para decidir o futuro da nossa região. Quantas decisões importantes para o desenvolvimento de Brasilândia não nasceram de conversas descontraídas em seu recinto? 

Sim, foram lideranças que deixaram legado. Essa trajetória brilhante foi erguida por mãos dedicadas. Lembramos com respeito de Julião de Lima Maia, o primeiro presidente, e de seu vice, Anísio de Almeida Borges, que assumiu a liderança após o falecimento do fundador. Nomes como Júlio César Paulino Maia, Celso Messias da Silva, Nelson Pedretti, Irineu Gaiotti e Donizeth Rodrigues, junto a tantos outros diretores e secretários, doaram seu tempo para fazer o clube prosperar. 

Ficou a lição e a eterna gratidão. O relógio do tempo correu e, infelizmente, a partir de 2004, o abandono e as dificuldades financeiras calaram a nossa querida associação. O prédio físico virou alvo de disputas judiciais e acabou transformado em um espaço particular, deixando a AAB viva apenas na memória. 

No entanto, o fim das atividades não apaga a grandeza do esforço realizado. Os erros do passado ficam como lição de preservação do nosso patrimônio. O que prevalece, acima de tudo, é o sentimento de profunda gratidão por termos vivido os tempos áureos da Associação Atlética Brasilandense. 

O clube AAB não existe mais em endereço físico, mas continua eternizada em cada mergulho da nossa infância, em cada gol comemorado, em cada evento realizado e em cada baile que deixou saudade no coração de Brasilândia.

 

Brasilândia/MS, 21 de junho de 2026.

Fonte: Dutra. C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, pág. 406-413.

Foto: Jornal independente Notícias, 2003 (colorizada)

sábado, 20 de junho de 2026

 Ceará Santos: a voz que embala a história e o coração de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 

Brasilândia está em festa para celebrar a vida de uma de suas figuras mais emblemáticas. Cícero Pereira dos Santos, amplamente conhecido e carinhosamente chamado de Ceará Santos, completa 65 anos de idade. 

Mais do que um aniversário, esta data representa o marco de uma trajetória inteiramente dedicada à alegria, à cultura e ao rádio em nossa região. O verdadeiro homem do rádio e da animação. 

Não há quem viva em Brasilândia e não conheça a força do nome de Ceará Santos. Há décadas, sua presença é sinônimo de sucesso em praças, clubes, desfiles, bailes e eventos oficiais. Seja através das ondas do rádio ou no comando de seus potentes equipamentos sonoros, ele rompe as barreiras do tempo mantendo a mesma energia contagiante de sempre. 

Sua caminhada na mídia radiofônica acumula prêmios e grandes recordações, da época de ouro em que o município chegou a contar com três rádios FMs. Mesmo diante de adversidades — como o fechamento precoce da pioneira Rádio FM Brasil pelo antigo Dentel —, Ceará nunca deixou o silêncio vencer. 

Ele levou seu talento para os palanques políticos, festas de rodeio e grandes shows. Quem não se lembra do histórico Show de Prêmios de 1998 na Praça Santa Maria, onde ele embalou mais de 3 mil pessoas? 

Ceará Santos foi e é um garimpeiro de talentos. Seu coração sempre foi gigante para acolher e impulsionar novos artistas. Ele funcionou como um verdadeiro padrinho para os talentos locais:

Apresentou a dupla infantil Rick & Ricardo no Festival de Intérpretes em Três Lagoas. Descobriu e incentivou o jovem cantor João Fábio no icônico projeto Feira e Viola. Apoiou famílias inteiras, aconselhando pais a acreditarem no sonho musical de seus filhos. 

Sua produtora, a DJ Ceará Santos Produções Artísticas, testemunhou de perto o crescimento de grandes lendas nacionais. Ele esteve ao lado de duplas brasilandenses que embalaram canções da consagrada dupla João Paulo & Daniel em suas passagens pelas praças da cidade. Além disso, acompanhou os primeiros passos do Grupo Tradição e de Michel Teló, quando estes ainda iniciavam a caminhada rumo ao estrelato. 

Ceará Santos também é um exemplo de cidadania. Além do entretenimento, o radialista usou os microfones da Rádio FM Cidade no final dos anos 90 como ferramenta de transformação social. Suas campanhas diárias de conscientização e combate ao consumo de drogas deixaram um legado educativo tão expressivo que lhe renderam a indicação para uma merecida Moção de Congratulações para ser concedida pela Câmara Municipal. 

Feliz Aniversário, Sr. Cícero! Brasilândia inteira se orgulha de sua história, agradece pelo seu trabalho incansável e deseja muita saúde, paz e vida longa para continuar ecoando alegria em nossos corações.

 

Brasilândia/MS, 20 de junho de 2026.

Foto Facebook, 2017.

sábado, 13 de junho de 2026

 

O Gigante Resiste: A Verdadeira História por Trás do Risco de Queda da Árvore Centenária de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 






Este texto fala na perspectiva da leniência histórica e da ressignificação do futuro. As palavras iniciais já definem o seu propósito: A trajetória do centenário Tamboril em Brasilândia é o retrato vivo de que o crescimento urbano não pode caminhar cego às leis da natureza.

Após quase duas décadas de omissão do Poder Público — que permitiu o sufocamento radicular do espécime Tamboril pela construção irregular de um prédio e a posterior mutilação de sua base para a abertura de um anel viário —, o gigante do cerrado provou sua impressionante resiliência adaptativa, alterando sua própria biologia para continuar de pé. 

Pois bem, caros leitores. Desde que eu e o Pedro Henrique Coutinho do Vale assumimos a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo, muitos moradores e pais dirigiram a nós sua preocupação com o risco de a árvore Tamboril tombar sobre a creche.

Logo vistorias técnicas de engenharia ambiental foram realizadas buscando avaliar os riscos reais disso acontecer. A árvore Tamboril, que é um patrimônio protegido por lei passou, então, a merecer toda a atenção da Prefeitura Municipal de Brasilândia. Através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (SEMATUR) e Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços, o poder público mobilizou seus técnicos e engenheiros para avaliar a situação da histórica árvore Tamboril que se encontra localizada ao lado do berçário do CEINF Henrique Mendonça Quintino. 

Abaixo, o cidadão pode confere em detalhes o diagnóstico técnico, o histórico de agressões urbanas que o gigante do cerrado sofreu e o plano de ação para resolver o problema de forma definitiva. 

Inicialmente registre-se que o diagnóstico técnico apresentado excluiu o risco iminente de queda desta árvore sobre a Creche. Quanto ao comportamento de suas raízes, observou-se que a árvore passou por cortes severos de suas raízes no passado, especificamente do lado onde foi construído o anel viário da rodovia MS-395.

Tal situação determinou que sua inclinação, caso ocorresse uma queda futura pela ação do vento, a análise apontou que o Tamboril cairia para o lado da rodovia pois suas raízes profundas foram deste lado suprimidas, diminuindo a sua sustentação lateral.

O que os pareceres, de real, apontam sobre a interferência da árvore no prédio configura risco para o CEINF tão somente o crescimento de suas raízes superficiais. Sob na ótica da planta, suas raízes buscam oxigênio devido a um aterro colocado sobre o tronco. Essas raízes quebram calçadas e muretas, mas, até o momento, a estrutura principal da creche não apresenta rachaduras decorrente disso.

No plano institucional providências foram adotadas no sentido de alinhar a preservação ambiental e a segurança pública com os passos formais subsequentes: 

Em 23 de outubro de 2025, a SEMATUR concluiu o Relatório Técnico com a emissão de um Laudo de Engenharia que foi enviado à Procuradoria Geral do Município por meio da Comunicação Interna nº 46/2025, procedendo-se avaliação conjunta dos pareceres emitidos pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e turismo, e Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços. 

No referido documento medidas preventivas foram recomendadas, por exemplo: Para resolver as patologias estruturais sem agredir o patrimônio cultural, foram sugeridas as ações como: Sondagem subterrânea com o uso de georradar para mapear a exata profundidade das raízes; Barreira física com a instalação de uma barreira subterrânea (raiz-containment) para desviar o crescimento radicular para longe da creche; Remoção do aterro com a retirada controlada da terra sufocante sobre a base da árvore para devolver a oxigenação natural, e Reforma da calçada com a reconstrução do pavimento usando juntas de dilatação e camadas drenantes para aliviar futuras expansões. 

Para compreender a atual situação da árvore Tamboril, é fundamental contudo resgatar o histórico de ocupação do espaço urbano ao seu redor. Faço aqui, por fim, o registro:

Memória e Resistência: O Histórico de Lutas e Agressões ao Tamboril

Pois saibam os senhores e senhoras que este gigante, centenário Tamboril já testemunhava a paisagem local muito antes da própria fundação do município de Brasilândia. No entanto, as últimas décadas foram marcadas por um embate constante entre o avanço de construções de engenharia e a preservação deste patrimônio natural.

Em 13 de junho de 2007, o município promulgou a Lei Municipal nº 2.186/07, que oficializou o tombamento do Tamboril (Enterolobium contortisiliquum) para o Patrimônio Histórico de Brasilândia. A lei declarou a árvore imune ao corte por meio de uma proibição rígida: O Artigo 2º da legislação vedou expressamente a derrubada, a poda drástica ou qualquer ação antrópica que gerasse modificações no desenvolvimento natural ou provocasse a morte do espécime. Assim, o Tamboril foi reconhecido como um monumento cultural paisagístico icônico e um verdadeiro cartão-postal na entrada da cidade.

Não obstante, apenas uma semana após a promulgação desta lei de proteção, aconteceu a primeira grande agressão: A Construção do CEINF. O Tamboril enfrentou o seu primeiro grande risco devido ao início das obras do Centro Educacional Infantil (CEINF). Em total desrespeito ao projeto original, o loteamento original que previa que o CEINF ocupasse lotes catalogados como "área institucional" (Quadras 10, 12, 13 ou 14) não foi obedecido. As escavações avançaram de forma irregular sobre a Quadra 15, classificada como área verde de preservação, exatamente onde a árvore ficava.

Na época, num gesto de resistência civil, a combativa ONG de outrora, Associação Instituto Cisalpina de Pesquisa e Educação Socioambiental e Defesa do Patrimônio Cultural acionou o Ministério Público Estadual (MPMS) em regime de urgência. A entidade alertou que assentar os alicerces do prédio a apenas um metro do caule condenaria o gigante à morte.

Apesar dos apelos públicos na Tribuna da Câmara e nas rádios locais bradados pelo então vereador Carlito Dutra, para que se respeitasse uma distância mínima técnica, engenheiros e administradores da época mantiveram-se silentes e ignoraram os alertas. A obra avançou sob a promessa infantil de funcionários de que fariam apenas uma "cerquinha" protetora ao redor do tronco.

Como se não bastasse, veio a segunda grande agressão: As Obras do Anel Viário. O sistema radicular do Tamboril sofreu outro golpe severo com a modernização da infraestrutura de transportes do município. O que se viu foi o corte radical de raízes: 

Durante as obras de implantação do anel viário de acesso à cidade, interligando a Rodovia MS-395 à Avenida São José, a empreiteira contratada executou escavações profundas. Como resultado obteve-se exposição e mutilação: Esse processo promoveu o corte drástico e a supressão de longos e calibrosos segmentos laterais das raízes fasciculadas que davam sustentação e nutrição à árvore.

Valendo-se de mecanismo de defesa e resposta biológica a tantas mutilações, o heroico Tamboril alterou sua dinâmica de crescimento, buscando a sobrevivência crônica concentrando forças para emitir raízes na direção oposta às agressões, avançando por dezenas de metros por baixo do solo do CEINF. O sufocamento posterior gerado pelo aterramento do seu tronco reduziu a oxigenação da terra, forçando o surgimento das atuais raízes superficiais secundárias que hoje quebram as calçadas. A omissão e leniência ao longo de 18 anos davam agora os seus frutos.

As palavras dirigidas na época aos poderes públicos ainda ecoam nos ouvidos deste escrevinhador. Em matéria publicada no portal BBC News em 30 de junho de 2007, a entidade expôs publicamente a contradição da prefeitura, que avançava com o maquinário dias após o tombamento: “É um verdadeiro cartão postal de nossa cidade, explica o vereador Carlito Dutra (autor do projeto de lei), porém o senhor Prefeito parece que não entendeu direito o teor da Lei nº 2.186/07 que ele mesmo sancionou no dia 13 de junho último. A Lei obriga a proteção e preservação da árvore, sendo vedado o seu corte, derrubada ou prática de qualquer ação que possa provocar danos, alteração no seu desenvolvimento natural ou morte.” 

Ao final da reportagem, o parlamentar e presidente da ONG Instituto Cisalpina endureceu a cobrança para barrar a obra irregular na área de preservação: “Se o Prefeito não rever o seu projeto, não haverá outra alternativa para a entidade a não ser denunciá-lo ao Ministério Público, evitando que ele cometa um crime ambiental (...).”

No dia 2 de outubro de 2007, a Associação oficializou uma representação junto à Promotoria de Justiça de Brasilândia. O texto detalha tecnicamente como o avanço físico dos alicerces sufocava a árvore: “Patente está, portanto, que uma obra pública que senta seus alicerces a um metro do caule de uma árvore centenária, cuja proteção está garantida em Lei, além de configurar dano, no mínimo, zomba da norma e seu espírito que é o de preservar a vida e a conservação dessa espécie.”

A entidade apontou também o vício de planejamento urbano, já que o loteamento oficial destinava outro quadrante para a creche: “A olhos vistos, a ampliação da obra em construção padecia de vício, pois se encontrava em desacordo com o projeto original do loteamento que previa naquele local uma área verde de preservação.”

Diante do ritmo acelerado das máquinas da empreiteira, o apelo final da petição ao Ministério Público que se encerrava com uma previsão sombria sobre o destino do Tamboril caso o Estado se mantivesse inerte: “Solicitava a entidade, por fim, que fossem tomadas as providências cabíveis, no que couber de direito, em regime de urgência urgentíssima, dado o adiantado das obras, fazendo valer, assim, a proteção jurisdicional do Estado ao meio ambiente. Pois caso contrário, na omissão deste, in concreto, estaremos condenando este Tamboril à morte num futuro bem próximo.”

Essas citações textuais têm o único propósito de ajudar o leitor a entender e comprovar que os problemas estruturais enfrentados hoje pelas calçadas do CEINF não são culpa da natureza da árvore, mas sim fruto de um erro urbanístico alertado exaustivamente há quase duas décadas.

Hoje, o conflito que outrora opunha a segurança de uma creche à sobrevivência de um patrimônio histórico foi finalmente superado pela técnica. O diagnóstico de 2025 afasta de forma definitiva o fantasma do desabamento sobre o educandário e devolve a razão à coletividade: a engenharia moderna e o manejo ambiental responsável caminharão juntos por meio de georradares, barreiras físicas subterrâneas e a descompactação do solo.

Proteger o Tamboril não é apenas cumprir a Lei nº 2.186/07: é o resgate de uma dívida histórica e um compromisso ético com a nossa "Casa Comum". Ao salvaguardar este cartão-postal, Brasilândia deixa de carregar a marca da leniência do passado e assume o protagonismo de uma cidade que aprendeu a harmonizar sua infraestrutura com a preservação de suas raízes mais profundas.

Brasilândia/MS 13 de junho de 2026

19º aniversário da promulgação da lei que inscreveu o Tamboril como patrimônio histórico de Brasilândia.





sexta-feira, 12 de junho de 2026

 

Por onde anda o brilho da Tribuna?

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 





Houve um tempo em que a Câmara Municipal de Brasilândia era o palco dos acontecimentos e a caixa de ressonância da política da urbe. Quando a sede do Legislativo se encontrava no centro da cidade, no início da Alameda Arthur Höffig, seu frontispício era um calçadão movimentado. 

As sessões eram à noite e participar delas era um programa obrigatório, um fiel compromisso para as mentes locais mais esclarecidas. O evento só perdia em audiência para os dias de jogos de campeonato e para as novelas globais, que roubavam a atenção da população em geral. 

A alternativa nesses casos, sobretudo para os homens, era participar das sessões para se colocar a par dos acontecimentos políticos da Prefeitura, sempre vista com olhos críticos pela coletividade brasilandense. 

Sim, vivia-se em um tempo ainda distante das atuais redes sociais, celulares e aplicativos que transmitem eventos e atividades políticas em tempo real, ao alcance de qualquer cidadão. Um tempo em que as notícias locais chegavam somente através das páginas dos periódicos semanais — Jornal de Brasilândia, Jornal Dia a Dia, Jornal da Cidade e Jornal Independente —, que circulavam na cidade, via de regra, com as cores e os releases paridos pelas administrações municipais que os patrocinavam. 

A alternativa oferecida ao cidadão no campo da política, sem dúvida, era adentrar a porta angular do Legislativo e se acomodar em uma poltrona acolchoada do ambiente para ver e ouvir o que seus representantes iriam falar naquele dia. 

Diante de uma composição, na maior parte das vezes, simétrica — cujos braços da balança sempre se mantinham em equilíbrio, seja nos debates, seja nas proposições —, os olhos e ouvidos do cidadão podiam, assim, inteirar-se sobre as decisões e a aplicação do erário pelo alcaide. 

E o que era mais impressionante: naquele tempo, primava-se pelo poder da palavra, que era lida e proclamada na tribuna. Ao ouvir a leitura em voz alta das indicações e dos projetos, o cidadão, mesmo o menos letrado, tinha a oportunidade de saber o que os administradores estavam fazendo ou propondo. 

Depois, um dos momentos mais esperados era quando o vereador ocupava a tribuna. Ali, o cidadão podia perceber e conhecer melhor o seu representante. Ao fazer uso da palavra, o edil podia dizer, em viva voz, a que veio e por qual motivo estava ali — se a favor ou contra o povo —, causando orgulho ou tristeza em seus eleitores. 

E tudo começava com a leitura da Ata da sessão anterior. Naquele momento, ao cidadão era permitido ter uma noção do trâmite legislativo e dos passos necessários para se chegar até a aprovação de uma lei, ou até mesmo acompanhar o posicionamento dos vereadores que, no andar da carruagem, às vezes mudavam de opinião em relação às proposições apresentadas por seus pares. 

Sim, foi um tempo que, infelizmente, não existe e não volta mais. Em razão do advento das novas tecnologias, hoje muitos justificam a necessidade de suprimir vários passos do ritual legislativo, enxugando-o. Porém, mais do que a informação que circulava nos escaninhos — hoje ao alcance de privilegiados que acessam a pauta das sessões da Câmara através de um site nem sempre muito bem divulgado —, advoga-se que se vivia, naquele tempo, em um ambiente pedagógico inspirador de cidadania. 

Muitos daqueles ouvintes, devido à proximidade com o tema, passaram, após algum tempo, a compor aquele seleto quadro de representantes da municipalidade, pois ali foram inspirados. Uma escola que os permitiu observar, por um lado, o brilho e o vigor de uns e, não raro, por outro, a mediocridade e a pequenez de outros. 

Hoje, o cidadão é surpreendido pela informação de que, nas sessões da Câmara, não mais se lê a Ata da sessão anterior e tampouco o teor da pauta das proposições do dia. Perde a viagem o cidadão que não teve acesso prévio ao teor daquilo que estaria sendo discutido e aprovado. Perde a democracia uma escola cuja prática distancia cada vez mais o cidadão da res publica e da defesa de sua incolumidade.

 Para o consolo do cidadão, resta torcer para que seu representante aplique o "TBC", ocupe a tribuna e fale, permitindo que ele o ouça através das mídias sociais, no conforto de sua casa. E, assim, possa acompanhá-lo em eventual debate que se aventure a empreender.

 

Brasilândia/MS, 12 de junho de 2026.

Fonte: Publicado originalmente em 12/06/2023 In https://carlitodutra.blogspot.com/2023/06/por-onde-anda-o-brilho-da-tribuna.html

 

Foto: Arquivo Prof. José Cândido da Silva, 1991.

TBC="Tire a Bunda da Cadeira" é uma expressão motivacional utilizada pelos coaching em eventos dirigidos a profissionais liberais e empreendedores criando a convicção de que "sem ação não há realização".

 

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

 

Dona Maria Cândida de Jesus Diogo: Uma Luz Eterna

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 








Existem raras mulheres cujo olhar confunde a nossa própria alma, tamanha a aura dourada de santidade que carregam consigo. 

Dona Maria Cândida era exatamente assim: uma joia lapidada não pelo gesso frio dos altares, mas esculpida em carne, osso, silêncio e amor. Seu corpo franzino e seus braços esguios carregavam o peso do mundo, e mesmo quando a visão lhe impôs a escuridão das sombras, seus olhos teimavam em iluminar tudo ao redor. 

Seu nome já anunciava sua essência sagrada. Maria, a mãe de todas as mães; Cândida, a brancura da alma pura, a franqueza em pessoa, a própria imagem da devoção. 

Ao unir sua vida à do jovem Sebastião, ela trouxe um pedaço do céu para a terra. Juntos, enfrentaram a pobreza com a dignidade de quem planta a roça e molda a madeira. Ouro Verde testemunhou o milagre da multiplicação da vida em doze filhos amados, os primeiros: Luzia, Joaquim, José, Linda, Leontina, Lourdes, João, Sara, Aparecida, Jair, Lúcia e Jorge Justino.

 Em 1972, o destino os guiou até o paraíso de Brasilândia, onde o milagre da vida floresceu ainda mais com a chegada de Mariana e Luiz. Enquanto o marido gastava as mãos construindo mangueiros e porteiras pelas fazendas da região, dona Maria Cândida fincava suas raízes na porta de casa. 

Olhando o horizonte, ela se agigantava como uma fortaleza inabalável, a matriarca suprema, a heroína incansável na defesa de seus filhos.

Sua fé moveu montanhas. Quando o vendaval de 2001 destruiu a antiga Igreja Matriz da Paróquia Cristo Bom Pastor, lá estava ela, de mãos dadas com a comunidade, reerguendo o templo sagrado. 

Mas a vida, em sua face mais dolorosa, também lhe impôs tempestades devastadoras. Viu a casa esvaziar. Chorou a partida do companheiro em 2003 e, mais tarde, enfrentou a dor mais dilacerante que uma alma pode suportar: a inversão da ordem natural da vida, tendo que sepultar os próprios filhos. 

Ainda assim, ela resistiu. Venceu doenças, enfrentou a perda da visão e transformou o que parecia o fim em um eterno recomeço. Sob a aparência frágil, habitava uma fibra tão nobre e resistente quanto a madeira aplainada por seu esposo, capaz de suportar o vento e a chuva temporal. 

Mesmo na escuridão dos seus últimos anos, quando o mundo exterior virou apenas nuvens e sombras, o seu coração permanecia vigilante. Bastava o ruído do portão ou o compasso de um passo desconhecido para que ela soubesse exatamente quem chegava. 

Mas quando era um filho que cruzava o batente, o seu semblante se transformava em pura luz. Naquele instante, o tempo voltava: aqueles homens e mulheres crescidos tornavam a ser os bracinhos e corpinhos frágeis que ela acolhera um dia em seu colo materno. 

Como era linda a sua alegria com a casa cheia! Mesmo tateando armários, tropeçando nas próprias limitações e carregando as cicatrizes do tempo no rosto, ela insistia em ir para a cozinha preparar o alimento. Servir era o seu oxigênio; amar era o seu sustento. 

Ah, dona Maria Cândida... que saudade imensa sentimos do seu aconchego e até das suas palavras duras de repreensão. Nossos corações sangram de saudade desses braços consumidos pelo trabalho, que foram o chão firme para que cada um de nós pudesse caminhar. Seu olhar, outrora cristalino e depois perdido no infinito, foi o farol que nos salvou do naufrágio. 

Hoje, seus filhos, netos, bisnetos e a constelação infinita de familiares que você inspirou ainda sentem a sua ausência. Você foi o alicerce, a coluna principal do templo sagrado que chamamos de família.

No dia 10 de junho de 2019, o mundo perdeu um anjo, mas o céu ganhou sua rainha. Uma alma tão desprendida e caridosa, que não acumulou riquezas na terra, apenas generosidade e bem-querer. 

Entre o pranto e a dor da despedida, resta o consolo eterno de saber que os próprios anjos de Deus a carregaram no colo rumo ao Reino Eterno. Sua luz jamais se apagará em nós.

 

Brasilândia/MS 10 de junho de2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2022/06/dona-mariamae-candida-de-jesus-diogo.html.