quinta-feira, 2 de abril de 2026

 

Roni Eliandes, o Avá Verá: O Guerreiro que Floresceu no Afeto

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 

No dia 2 de abril de 2019, o povo Guarani viu seu filho, Roni Eliandes, partir para os braços de Ñhanderu.

Falar de Roni é falar do tempo: infinito enquanto durou e eterno nas sementes que plantou.

Sua trilha foi moldada pela resiliência.

Separado dos pais ao nascer, Roni aprendeu cedo que a vida exige coragem.

 Aos nove anos, desafiou a palmatória da escola e partiu a cavalo rumo ao desconhecido, provando o mundo antes de voltar para casa como um homem feito.

Serviu ao Exército, percorreu fazendas e fronteiras, mas foi no destino da luta que ele encontrou sua verdadeira morada.

Líder nato e herdeiro da inspiração de seu tio, Marçal de Souza Tupã-i, Roni não apenas defendeu o seu povo; ele uniu mundos.

Ao cruzar o caminho dos Ofaié na Serra da Bodoquena, o compromisso político transformou-se em laço de alma.

Casou-se com Marilda, sua mestra e companheira, e ali, no calor do amor e do respeito, rompeu séculos de distâncias entre as culturas Guarani e Ofaié.

Pai zeloso e artesão de esperanças, Roni ensinou aos filhos o arco, a flecha e o orgulho da língua nativa.

Para ele, o poder era um serviço de partilha; seu maior sonho era a união plena, onde todos recebessem partes iguais da vida.

Roni despediu-se aos 86 anos, deixando a Aldeia Anodhi mergulhada em saudade. Partiu como viveu: com a dignidade no olhar e o sorriso de quem desenhava histórias no ar.

Hoje, passados 7 anos de sua partida, ele descansa na Terra Sem Males, mas sua voz continua a ecoar em cada gesto de resistência e em cada abraço que une os povos originários da floresta.

 

Brasilândia/MS, 2 de abril de 2026. Em memória do 7º ano de falecimento de Roni Eliandes. Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2025/04/roni-eliandes-ava-vera-esta-em-nhanderu.html

quarta-feira, 1 de abril de 2026

 

Dom Izidoro Kosinski: O Pastor da Terra que habita o Céu.

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 



Há alguns anos, o jornalista João Maria Vicente resgatou as origens das pastorais sociais e os primeiros passos de Dom Izidoro Kosinski na Diocese de Três Lagoas. Hoje, envoltos pela saudade da partida deste Bispo, compreendemos que a maior homenagem que podemos prestar a este pai espiritual é silenciar a alma para contemplar a trajetória de um verdadeiro servo sofredor — um homem que enxergou o próprio Cristo no rosto dos pobres e dos esquecidos. 

Um Coração Voltado aos Despossuídos

Dom Izidoro chegou a Três Lagoas na força de seus 49 anos, mas não trazia consigo a vaidade do cargo. Trouxe, sim, braços abertos e olhos atentos para a promoção social dos despojados. Ele fez ecoar a voz dos camponeses e indígenas, dos barranqueiros e canavieiros, dos acampados e de todos aqueles cujos direitos humanos e dignidade haviam sido roubados. Sob o seu cajado, a Diocese assumiu feições novas e profundamente humanas, entregando-se inteiramente ao projeto de salvação dos mais pobres. 

Foi a sua coragem que fez nascer a Comissão Pastoral da Terra (CPT) em nossa região. Com humildade desconcertante e uma liderança que arrastava corações, Dom Izidoro não liderava de longe: ele estava no meio do povo. Animava as equipes que socorriam os ribeirinhos do Rio Paraná e os sem-terra. Buscava recursos além-mar, movido pela mais pura solidariedade cristã. Na trágica enchente de 1982 e na dor dos atingidos pela barragem de Porto Primavera, lá estava ele — não apenas como bispo, mas como um pai que chora e luta junto com seus filhos ao longo de 20 anos de batalha. 

A Voz Profética que Ergueu os Caídos

Sua presença era constante. Ele motivava a fundação de sindicatos, buscava parcerias e acolhia incansavelmente novos braços para a colheita da justiça. Quando o CIMI foi criado na Diocese para resgatar a história e a vida da comunidade indígena Ofaié Xavante, a postura profética de Dom Izidoro foi o escudo que evitou o desaparecimento dessa etnia. Perseguidos e massacrados pelo tempo, aqueles irmãos indígenas ergueram-se das cinzas porque a Igreja de Dom Izidoro lhes deu as mãos.

Por uma década, sua têmpera transformou a Diocese de Três Lagoas em uma vanguarda nacional na defesa dos direitos humanos. Mas o amor radical incomoda. O ato de acolher sem-terra no pátio, de celebrar com os negros, de pisar o chão de terra das aldeias e pregar o desapego foi intolerável para uma sociedade embriagada pelo consumo e pelo capital. 

O Martírio e o Legado do Silêncio

E então, a profecia cobrou o seu preço mais alto. O discípulo de São Vicente de Paulo experimentou o cálice da incompreensão. Acusado e caluniado pela imprensa, Dom Izidoro tornou-se a imagem viva do Crucificado: foi injuriado, perseguido, agredido fisicamente e torturado dentro de sua própria casa, chegando às portas da morte. Vieram também as dores mais silenciosas — as incompreensões internas que, aos poucos, feriram seu espírito e silenciaram as pastorais sociais que ele tanto amou.

Mas nada pôde apagar o rastro de luz que ele deixou. Dom Izidoro cumpriu sua missão até a última gota. Ele fez valer, com a própria vida, o lema de sua ordenação: "Evangelizar os Pobres".

Durante 27 anos de pastoreio, ele nos ensinou que a Igreja deve ser transparente, próxima e defensora intransigente dos pequenos. Ele viveu em um tempo em que as ações tinham consequências eternas. Ele melhorou o nosso mundo, tornando-o mais fraterno e solidário (...).

A ele que tanto acolheu os caídos nesta terra, que tanto combateu o bom combate e guardou a fé, fazemos memória dos 8 anos que se passaram desde que cruzou os umbrais da esperança para descansar, finalmente, na glória definitiva do Pai. 

Brasilândia/MS, 1º de abril de 2026.

Foto: Pe. Lauri Vital Bósio, 2008. Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2017/12/dom-izidoro-kosinski.html;  João Maria Vicente, 12/12/2008; Portal Hoje MS, 18/10/2010. Cf. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. 1-Pioneiros, pág.84-87.




 

segunda-feira, 30 de março de 2026

 

Diácono Permanente: Onde o Serviço se Faz Graça

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 




Hoje, depois do despertar de meus 70 anos de vida, olho para o horizonte desta terra Ofaié e vejo mais do que paisagens; vejo a minha própria história.

Dos meus passos, 40 anos foram trilhados aqui, neste chão que me acolheu. E, neste dia 31 de março, celebro 24 anos desde que minhas mãos foram ungidas para o Diaconato Permanente.

Guardo com carinho a memória daquele dia em 2002, quando o saudoso Dom Izidoro Kosinski, no nosso Salão Paroquial, selou meu compromisso com o Reino.

Mas o chamado começou muito antes. Em 1986, quando cheguei a Brasilândia, o Espírito Santo já me conduzia. Fui ministro da comunhão pela barranca, testemunhando e celebrando casamentos e batismos, sempre caminhando lado a lado com o querido Padre Lauri Vital Bósio (in memoriam) e tantos outros que por aqui passaram.

Sinto um nó de gratidão na garganta ao pensar nestas quatro décadas. A Paróquia Cristo Bom Pastor não é apenas uma construção de tijolos; é a minha e de muitos casa de fé.

Foi nela, e através dela, que me fiz missionário entre os irmãos indígenas, os ribeirinhos e os acampados. Cada celebração ao lado dos sete párocos que conheci foi uma lição de aprendizado e entrega.

Ainda hoje, o momento mais doce do meu dia é o portal da igreja. Ali, no aperto de mão e no olhar, recebo os amigos e irmãos de longa data que me chamam carinhosamente de "Carlito".

Eles conhecem minha luta, meu passado político e social, e mesmo assim me acolhem com a fraternidade de quem sabe que ali, sob a veste litúrgica, bate um coração humano e servidor.

Nossa cidade cresceu. Novos rostos chegam, vindos de longe, trazendo suas próprias devoções. Muitas vezes, no deslumbre e balanço da túnica, sou confundido com o Padre. Sorrio e abençoo, pois a bênção é um transbordar do amor de Deus que o Diácono, o Padre e o Bispo partilham com o povo.

Mas, no silêncio da minha oração, recordo a beleza singular da minha vocação: fui ordenado para o serviço, não para o poder. Sou (ou busco ser) o "Cristo Servo" que lava os pés dos irmãos mais pobres.

Carrego comigo a marca indelével de um sacramento que é para a eternidade. E carrego algo ainda mais raro e belo: a dupla sacramentalidade: Sou Diácono e sou Esposo. A Ordem e o Matrimônio caminham de mãos dadas na minha vida.

Sem o "sim" da minha esposa Vilma e o carinho e respeito de minhas filhas, meu "sim" a Deus não estaria completo. Vivemos essa doação sem reservas, sem salários humanos, mas com uma recompensa que o mundo não pode dar.

Neste dia 31 de março em que celebro a alegria dos meus 24 anos de ordenação diaconal, não peço nada além da sua oração. Que eu continue sendo, para esta comunidade que tanto amo, um sinal de caridade e um eterno servidor.

Obrigado por me deixarem fazer parte da história de vocês. E que Deus vos abençoe. Amém.

 

Brasilândia/MS, 31 de março de 2026. 

24º aniversário de ordenação diaconal. 

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2024/02/diacono-permanente-desafio-e-graca.html;

https://carlitodutra.blogspot.com/2022/07/a-homenagem-asensibilidade-e-o-jubileu.html











quinta-feira, 26 de março de 2026

 

Marilda Xartã Ofaié: A Mestra que se fez rio e dialeto do coração.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Ela carregava o silêncio como quem guarda um segredo sagrado. Marilda era a tradução viva de um povo de passos mansos e feições que desenhavam a sobriedade da alma.

Em seus olhos, um brilho de melancolia contava histórias que o tempo tentou apagar: ali estavam as cicatrizes das perseguições de ontem, o cansaço das andanças de hoje e o medo do que viria amanhã.

Marilda de Souza era, na verdade, Xartã. Além de guardiã de uma língua que se recusava a morrer, ela foi o solo onde brotaram vidas. Chorou os filhos Josimar e Gilmar — pequenas sementes que o vento levou cedo demais — mas sorriu com o orgulho de mãe ao ver Léa e Elizangela florescerem. Uma delas, professora, levava adiante a missão de quem entende que o saber é a única liberdade possível.

Dizem que ela era a "última flor do Lácio" de sua gente, mas Marilda era muito mais: era a ponte. Acadêmicos, mestres e doutores vinham de longe para se ajoelhar diante de sua sabedoria.

Quantos ouvidos atentos não se debruçaram sobre seus lábios para capturar os sons guturais, as vogais estranhas, as palavras que o português não sabe dizer? Ela soletrava a eternidade em uma língua à beira do abismo, transformando sua voz em um escudo contra o esquecimento.

Sua dedicação não gerou apenas teses e diplomas; gerou vida. O nome de Marilda Xartã Ofaié está gravado no couro das monografias, mas vive pulsar no coração de quem pisou no chão batido da Aldeia Anodhi.

Ela não era apenas uma informante; era a mestra pedagoga de uma terra banhada em sangue e resistência.

Hoje, Marilda é voz da saudade que salta dos dicionários e abraça o saber universal. Deixou sua marca em nomes que a ciência respeita, mas que nela encontraram a humildade da verdadeira sabedoria.

Partiu aos 48 anos, vítima de uma dessas doenças sem nome que a modernidade traz para onde a reza não alcança. Partiu jovem, como se o corpo não suportasse mais a urgência de ser o último pilar de um templo.

As aldeias, às vezes, tornam-se apenas memórias de velhos, cercadas por um mundo que não entende o valor do ancestral. Mas Marilda enganou a morte. O Museu da Pessoa guardou seu lamento e seu sonho. Ela agora não é mais carne; é som, é brisa, é o eco Ofaié que se recusa a calar.

Que ela descanse em outra margem, onde os rios são infinitos e a língua mãe é o único dialeto do coração. Descanse em paz, Doutora Marilda. Sua voz agora é eterna.

 

Brasilândia/MS, 27 de março de 2026.

Homenagem ao 11º ano de falecimento da Profª. Marilda Xartã Ofaié.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2015/03/marilda-xarta-ofaie-mestrados-doutores.html

Fotos: Prefeitura Municipal de Brasilândia, 2023 e Antônio Jacob Brand, 1985.



 

quarta-feira, 25 de março de 2026

 

Aura de Chapéu Branco: A Jornada de Seu Antônio

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 







O ano era 1985. Onde hoje pulsa o Bairro Thomaz de Almeida, o que se via eram casas semiconstruídas, entregues sob a urgência das promessas eleitorais. Ali, os primeiros habitantes não apenas moravam; eles desbravavam. Disputavam palmo a palmo o chão vermelho com o cerrado resistente e as trilhas de formigas que teimavam em não abandonar o antigo lar. Era tempo de pioneiros.

E entre eles, como se fizesse parte daquela paisagem, estava ele. Um homem de hábitos rurais e alma simples, que encontrou no ritmo do novo bairro o eco de sua própria essência. Enquanto o asfalto não chegava, sua alegria era guiar cavalos e éguas pelos pastos que abraçavam o loteamento. Daí nasceu o apelido que o eternizou entre os vizinhos: Antônio das Éguas. Para a família, porém, ele era Antônio Corretor — um título que carregava o brilho da inteligência de quem, mesmo sem ter tido a chance de avançar nos bancos escolares, dominava os números e os cálculos com a precisão de um mestre.

Nascido em Araçatuba em 1927 e forjado na lida do campo em Pereira Barreto, Antônio aprendeu cedo que a vida se escreve com trabalho e honradez. Em 1954, uniu seu destino ao de Rita Simplício Alves. Juntos, construíram um castelo de simplicidade onde floresceram oito filhos, frutos de um amor que atravessou décadas e distâncias.

Quem o via passar, com seu andar correto e um sorriso leve no rosto, sentia uma paz imediata. Antônio tinha a mansidão de quem conversa com animais e a sabedoria de quem sabe ouvir o tempo. Em Brasilândia, onde fincou raízes definitivas, ele se tornou a memória viva da cidade: guardava no peito as histórias do motor a diesel que trazia a luz e os causos dos fundadores, narrando tudo com o brilho de quem viu o futuro nascer do barro.

Sua conduta era um espelho sem mácula. Ao lado de Dona Rita, conduziu sua casa com a retidão de uma bússola. Deixou para os filhos não posses materiais, mas o tesouro de uma índole irretocável. Partiu deixando dois sonhos guardados na algibeira: o de dirigir um automóvel e o de ter seu próprio pedaço de chão para plantar. Mal sabia ele que seu plantio foi muito maior, florescendo no caráter de cada descendente.

O dia 31 de dezembro de 2020 trouxe a despedida mais doída. Em meio ao silêncio imposto por tempos difíceis, o "corretor de destinos" preparou seus arreios para a última viagem. A Covid-19, em sua frieza, negou à família o abraço final e o descanso imediato ao lado de sua amada Rita. A dor de vê-lo partir assim, sob protocolos e distâncias, feriu fundo. Mas nem a terra fria, nem a ausência de um velório tradicional apagam a luz que ele deixou.

Hoje, a rua do Thomaz de Almeida está asfaltada. O rastro dos cavalos sumiu, mas se você apurar o olhar em uma tarde de sol, ainda poderá vislumbrar a aura de um homem de chapéu branco montado em sua dignidade. Seu Antônio não partiu; ele apenas mudou o pasto.

Descanse em paz, mestre da simplicidade. Sua estrada agora é de luz, e seu legado é a paz que nos ensinou a cultivar.

 

Brasilândia/MS, 25 de março de 2026. 

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/amansidao-e-paz-de-seu-antonio-alves.html


segunda-feira, 23 de março de 2026

 

AMAMEBVP - Associação da Mão de Obra Atingida e Moradores Excluídos da Barranca dos Rios Verde e Paraná

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 

Esta associação nasceu durante o movimento de resistência dos ribeirinhos, oleiros, pescadores, agricultores e comerciantes do Porto João André e extensão da margem direita dos rios Paraná e Verde por ocasião do enchimento do lago da barragem de Porto Primavera construída sob a responsabilidade da CESP.

Conforme a ata da assembleia geral pró-fundação da entidade, o primeiro encontro se deu no dia 7 de abril de 2000, quando compareceram dez moradores da barranca do rio Verde e Paraná, evento que ocorreu na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, já localizado na Rua Jeremias Borges, 524 na sede do município, ocasião em que foi lançado o Edital de convocação para a assembleia de fundação da associação, aprovação do Estatuto, eleição e posse da Diretoria marcada para o dia 15 de abril daquele ano de 2000 tendo como local o Rancho Morada do Sol, localizado na estrada do rio Verde, km 16.

Estiveram presentes nesta assembleia pró-fundação o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Irineu de Souza Brito, o representante da Comissão Pastoral da Terra - CPT, Mieceslau Kudlavicz, e os membros da Comissão, Lauro Brito, João Batista, Hélio Noronha, Sérgio Roberto, José Alexandre (Deguinha), José Elias (Zé Tranquilo), Rita Vitório, João Brito, Glória dos Santos, Aparecido Osvaldo, Alessandro Bispo, e ainda Luiz Carlos (Carlão), Edison Rosalino (Alemão), Francisco Elias (Chico), e Celso, da Pedra Bonita.

O 1º presidente da associação foi Hélio de Noronha e o 1º secretário João Brito de Souza. Em agosto de 2000 a entidade firmou convênio com a Fundação de Promoção Social de Mato Grosso do Sul - PROMOSUL e obtém o fornecimento de 60 cestas básicas para as famílias atingias pela barragem de Porto Primavera.

Dois anos depois, convocada pelo 1º secretário da associação, João Brito de Souza, no dia 18 de maio de 2002 aconteceu uma assembleia geral extraordinária que reuniu os moradores dos Reassentamentos Santana e Santa Emília que, na oportunidade, elegeram a segunda diretoria da entidade e alteado alguns artigos do antigo estatuto da entidade.

Ainda na administração anterior, o 1º secretário da entidade, João Brito de Souza, no dia 5 de setembro de 2000 informa que enviou um rol de reivindicações à Companhia Energética de São Paulo-CESP dirigida a Guilherme Augusto Cirne de Toledo, então presidente da concessionária elétrica paulista, com sede na alameda ministro Rocha de Azevedo, nº 25 em São Paulo Capital.

No dia seguinte, acontecia uma audiência convocada pela AMAMEBVP onde se reuniram: Eliana B, representando Mercedes de Oliveira; Márcio Bruno, representando Maria Aparecida Isabel dos Reis; Iara, representando Rosalino Bispo Machado; Glória dos Santos, representando Adriana dos Santos Tenório, Ernestina, representando Vanderly Lino Lopo, Juvenal, representando Eperson Ravanhani; Maria do Carmo, representando Antônio José Alves; João José da Silva, representando Nivaldo José da Silva; João Miguel da Silva; João Brito de Souza; João Cardoso de Sá; Lauro Brito de Souza; Edson Rafael Rosalino; Hélio Noronha; Alessandra Bispo Machado; Luiz Carlos Pires; José Elias dos Santos; Antônio Ferreira Tenório; João Batista da Silva; José Luiz Petelinkar; Pedro Luiz de Araújo; José Vieira Filho; Santos Gimenes; Terezinha Silvestre da Silva; José Alexandre da Silva; Ademir Pires, representando Aparecido Osvaldo da Silva; Sérgio R. P. representando da Motta, João Alves Coutinho Filho; Paulo Menzo de Oliveira; Júlio Evangelista de Souza; Silvio Antônio de Souza Ribas e Ana Maria; Ubirajara; Valdir Vicente, representando José Luiz da Silva Filho, e Leandro Leite dos Santos.

No dia 16 de novembro de 2000, ainda há o registro de que o 1º secretário da AMAMEBVP tenha encaminhado o Ofício nº 008/00 dirigido à Promotora de Justiça da Comarca, Drª Helen Neves Dutra da Silva, reivindicando direitos nos seguintes termos:

A associação de mão de obra atingida e moradores excluídos da barranca do rio Verde e Paraná mais uma vez solicita a excelentíssima Promotora Drª Helen que adote medidas cabíveis que venha de encontro satisfatório categoria, nessa há tanto tempo oprimida e repudiada pelos principais autores responsáveis dessa nossa situação calamitosa: como se não bastasse tantos abusos e desmandos por parte dos nossos opressores mais uma vez a poderosa CESP desfecha mais um golpe na nossa categoria sofrida e desabonada dos nossos direitos legais: 

Terça Feira 14 último, funcionários dessa referida empresa (CESP) estiveram entregando em mãos para a categoria mão de obra atingida ultimato com 05 (cinco) dias de prazo, por uso irregular de propriedade da mesma referida: aí perguntamos: Somos nós os responsáveis? Fizemos acordo com essa Companhia? Fomos nós que solicitamos esse número de terra insuficiente pra nossa sobrevivência? Não Drª Helen!

A Excelentíssima tem em mãos os acordos entre CESP e prefeitura sem o conhecimento da população atingida e as reivindicações com vários documentos, fita de vídeo, e declarações pessoais, que a nossa associação vem encaminhando a vossa Excelência já há alguns meses.

Não só prá vossa Excelência, que encaminhamos nossas reivindicações, mais para o (Terrasul) Departamento de Terras e colonização do Estado de Mato Grosso do Sul, ao digníssimo Governador José Orcírio Miranda dos Santos, ao Excelentíssimo Procurador Geral da República, Tarcísio Humberto Parreiros Henrique Filho, ao Ministério Público Federal, e até enviamos Ofício ao Excelentíssimo presidente da Companhia Energética de São Paulo CESP, Guilherme Augusto Cirne de Toledo, enviamos em 05/09/00, recebido em 11/09/00 e mandado a resposta em 10 de outubro de 2000 (.,.).

Mais uma pergunta Drª Helen: a quem mais precisamos recorrer? Certos de poder contar com vossa presteza para o assunto em questão, a Associação da Mão de Obra Atingida e Moradores Excluídos da Barranca do rio Verde e Paraná elevam seus protestos de estima e apreço (...).

 

FotoJoão Brito de Souza e o Acampamento da Mão de Obra Atingida. (Foto: Arquivo João Brito de Souza, 1999).

Fonte: História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, pág. 329-330. Disponível em: História e Memória de Brasilândia/MS - Patrimônio, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores

domingo, 22 de março de 2026

 

Cinco anos de luz: Rita Nogueira de Souza, a simpatia que floresce no céu.


 




É difícil falar de um sorriso vibrante em um momento de silêncio. Como traduzir em palavras a falta que faz aquela alegria que não apenas  contagiava, mas que completava o que faltava em cada um dos que a cercavam?

Dona Rita possuía a rara vocação para a felicidade; mesmo nos dias de cansaço ou dor, a vida teimava em brilhar no seu olhar, nos seus gestos e naquele sorriso que era o seu maior cartão de visitas.

Sua coragem inspirava. Ela não apenas viveu; ela fez a vida acontecer ao seu redor. Mulher de fibra, de passos firmes e alma iluminada, Dona Rita transformava o caminho de quem cruzasse com ela.

Antes que o destino impusesse distâncias, vê-la caminhar pela rua era ver a própria paz em movimento. Havia nela uma simplicidade tão nobre que, mesmo os estranhos, sentiam vontade de seguir seus passos, só para ficar um pouco mais perto daquela luz.

E isso não era por acaso. Era fruto do amor plantado no seio de sua família. Mãe, avó, bisavó — a joia preciosa que regia a orquestra de um lar cheio de vida. Seus filhos, hoje homens e mulheres admiráveis, são o espelho de sua alma: herdaram dela o olhar franco, a vontade de vencer e a capacidade de sorrir para o sol, mesmo em meio às tempestades.

Hoje, entre o aperto da saudade e o soluço da dor, passados cinco anos de sua partida, sua família recorda a "professora da vida" que sempre foi. A mulher que superou abismos com humildade e transformou obstáculos em estradas.

Dona Rita, todos imaginam que agora a senhora sorri entre anjos, revendo amigos e descansando nos braços de Deus. 

Daí do alto, a senhora contempla o rosto de cada um dos seus nove rebentos que tanto embalou: Manoel, Joana, Rozalina, Jorge, Ermelinda, Jaciro, Jaira, Luciane e Jairo. Eles, por aqui, deixam as lágrimas de gratidão correrem, lembrando do abraço apertado da mestra que lhes ensinou a ter esperança no futuro.

A senhora não foi apenas uma mãe zelosa; foi o porto seguro de gerações. Suas mãos, que tantas vezes repousaram sobre netos e bisnetos, não eram apenas mãos, eram bênçãos que acalmavam o mundo.

Nascida em um 16 de março de 1941, Dona Rita decidiu que sua próxima festa seria na eternidade. Atendeu ao chamado de Deus, deixando em cada canto da casa onde viveu o eco de seus passos e o calor de seu acolhimento. Seu espírito permanece vivo em cada batida do coração de cada um de seus rebentos.

Descanse em paz, eterna Rita Nogueira de Souza. Seu vigor e simpatia agora são estrelas brilhantes no céu de seus filhos e netos.

 

Brasilândia/MS, 22 de março de 2026

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/rita-nogueira-de-souza-mae-em-simpatia.html