quarta-feira, 25 de março de 2026

 

Aura de Chapéu Branco: A Jornada de Seu Antônio

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 







O ano era 1985. Onde hoje pulsa o Bairro Thomaz de Almeida, o que se via eram casas semiconstruídas, entregues sob a urgência das promessas eleitorais. Ali, os primeiros habitantes não apenas moravam; eles desbravavam. Disputavam palmo a palmo o chão vermelho com o cerrado resistente e as trilhas de formigas que teimavam em não abandonar o antigo lar. Era tempo de pioneiros.

E entre eles, como se fizesse parte daquela paisagem, estava ele. Um homem de hábitos rurais e alma simples, que encontrou no ritmo do novo bairro o eco de sua própria essência. Enquanto o asfalto não chegava, sua alegria era guiar cavalos e éguas pelos pastos que abraçavam o loteamento. Daí nasceu o apelido que o eternizou entre os vizinhos: Antônio das Éguas. Para a família, porém, ele era Antônio Corretor — um título que carregava o brilho da inteligência de quem, mesmo sem ter tido a chance de avançar nos bancos escolares, dominava os números e os cálculos com a precisão de um mestre.

Nascido em Araçatuba em 1927 e forjado na lida do campo em Pereira Barreto, Antônio aprendeu cedo que a vida se escreve com trabalho e honradez. Em 1954, uniu seu destino ao de Rita Simplício Alves. Juntos, construíram um castelo de simplicidade onde floresceram oito filhos, frutos de um amor que atravessou décadas e distâncias.

Quem o via passar, com seu andar correto e um sorriso leve no rosto, sentia uma paz imediata. Antônio tinha a mansidão de quem conversa com animais e a sabedoria de quem sabe ouvir o tempo. Em Brasilândia, onde fincou raízes definitivas, ele se tornou a memória viva da cidade: guardava no peito as histórias do motor a diesel que trazia a luz e os causos dos fundadores, narrando tudo com o brilho de quem viu o futuro nascer do barro.

Sua conduta era um espelho sem mácula. Ao lado de Dona Rita, conduziu sua casa com a retidão de uma bússola. Deixou para os filhos não posses materiais, mas o tesouro de uma índole irretocável. Partiu deixando dois sonhos guardados na algibeira: o de dirigir um automóvel e o de ter seu próprio pedaço de chão para plantar. Mal sabia ele que seu plantio foi muito maior, florescendo no caráter de cada descendente.

O dia 31 de dezembro de 2020 trouxe a despedida mais doída. Em meio ao silêncio imposto por tempos difíceis, o "corretor de destinos" preparou seus arreios para a última viagem. A Covid-19, em sua frieza, negou à família o abraço final e o descanso imediato ao lado de sua amada Rita. A dor de vê-lo partir assim, sob protocolos e distâncias, feriu fundo. Mas nem a terra fria, nem a ausência de um velório tradicional apagam a luz que ele deixou.

Hoje, a rua do Thomaz de Almeida está asfaltada. O rastro dos cavalos sumiu, mas se você apurar o olhar em uma tarde de sol, ainda poderá vislumbrar a aura de um homem de chapéu branco montado em sua dignidade. Seu Antônio não partiu; ele apenas mudou o pasto.

Descanse em paz, mestre da simplicidade. Sua estrada agora é de luz, e seu legado é a paz que nos ensinou a cultivar.

 

Brasilândia/MS, 25 de março de 2026. 

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/amansidao-e-paz-de-seu-antonio-alves.html


segunda-feira, 23 de março de 2026

 

AMAMEBVP - Associação da Mão de Obra Atingida e Moradores Excluídos da Barranca dos Rios Verde e Paraná

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 

Esta associação nasceu durante o movimento de resistência dos ribeirinhos, oleiros, pescadores, agricultores e comerciantes do Porto João André e extensão da margem direita dos rios Paraná e Verde por ocasião do enchimento do lago da barragem de Porto Primavera construída sob a responsabilidade da CESP.

Conforme a ata da assembleia geral pró-fundação da entidade, o primeiro encontro se deu no dia 7 de abril de 2000, quando compareceram dez moradores da barranca do rio Verde e Paraná, evento que ocorreu na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, já localizado na Rua Jeremias Borges, 524 na sede do município, ocasião em que foi lançado o Edital de convocação para a assembleia de fundação da associação, aprovação do Estatuto, eleição e posse da Diretoria marcada para o dia 15 de abril daquele ano de 2000 tendo como local o Rancho Morada do Sol, localizado na estrada do rio Verde, km 16.

Estiveram presentes nesta assembleia pró-fundação o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Irineu de Souza Brito, o representante da Comissão Pastoral da Terra - CPT, Mieceslau Kudlavicz, e os membros da Comissão, Lauro Brito, João Batista, Hélio Noronha, Sérgio Roberto, José Alexandre (Deguinha), José Elias (Zé Tranquilo), Rita Vitório, João Brito, Glória dos Santos, Aparecido Osvaldo, Alessandro Bispo, e ainda Luiz Carlos (Carlão), Edison Rosalino (Alemão), Francisco Elias (Chico), e Celso, da Pedra Bonita.

O 1º presidente da associação foi Hélio de Noronha e o 1º secretário João Brito de Souza. Em agosto de 2000 a entidade firmou convênio com a Fundação de Promoção Social de Mato Grosso do Sul - PROMOSUL e obtém o fornecimento de 60 cestas básicas para as famílias atingias pela barragem de Porto Primavera.

Dois anos depois, convocada pelo 1º secretário da associação, João Brito de Souza, no dia 18 de maio de 2002 aconteceu uma assembleia geral extraordinária que reuniu os moradores dos Reassentamentos Santana e Santa Emília que, na oportunidade, elegeram a segunda diretoria da entidade e alteado alguns artigos do antigo estatuto da entidade.

Ainda na administração anterior, o 1º secretário da entidade, João Brito de Souza, no dia 5 de setembro de 2000 informa que enviou um rol de reivindicações à Companhia Energética de São Paulo-CESP dirigida a Guilherme Augusto Cirne de Toledo, então presidente da concessionária elétrica paulista, com sede na alameda ministro Rocha de Azevedo, nº 25 em São Paulo Capital.

No dia seguinte, acontecia uma audiência convocada pela AMAMEBVP onde se reuniram: Eliana B, representando Mercedes de Oliveira; Márcio Bruno, representando Maria Aparecida Isabel dos Reis; Iara, representando Rosalino Bispo Machado; Glória dos Santos, representando Adriana dos Santos Tenório, Ernestina, representando Vanderly Lino Lopo, Juvenal, representando Eperson Ravanhani; Maria do Carmo, representando Antônio José Alves; João José da Silva, representando Nivaldo José da Silva; João Miguel da Silva; João Brito de Souza; João Cardoso de Sá; Lauro Brito de Souza; Edson Rafael Rosalino; Hélio Noronha; Alessandra Bispo Machado; Luiz Carlos Pires; José Elias dos Santos; Antônio Ferreira Tenório; João Batista da Silva; José Luiz Petelinkar; Pedro Luiz de Araújo; José Vieira Filho; Santos Gimenes; Terezinha Silvestre da Silva; José Alexandre da Silva; Ademir Pires, representando Aparecido Osvaldo da Silva; Sérgio R. P. representando da Motta, João Alves Coutinho Filho; Paulo Menzo de Oliveira; Júlio Evangelista de Souza; Silvio Antônio de Souza Ribas e Ana Maria; Ubirajara; Valdir Vicente, representando José Luiz da Silva Filho, e Leandro Leite dos Santos.

No dia 16 de novembro de 2000, ainda há o registro de que o 1º secretário da AMAMEBVP tenha encaminhado o Ofício nº 008/00 dirigido à Promotora de Justiça da Comarca, Drª Helen Neves Dutra da Silva, reivindicando direitos nos seguintes termos:

A associação de mão de obra atingida e moradores excluídos da barranca do rio Verde e Paraná mais uma vez solicita a excelentíssima Promotora Drª Helen que adote medidas cabíveis que venha de encontro satisfatório categoria, nessa há tanto tempo oprimida e repudiada pelos principais autores responsáveis dessa nossa situação calamitosa: como se não bastasse tantos abusos e desmandos por parte dos nossos opressores mais uma vez a poderosa CESP desfecha mais um golpe na nossa categoria sofrida e desabonada dos nossos direitos legais: 

Terça Feira 14 último, funcionários dessa referida empresa (CESP) estiveram entregando em mãos para a categoria mão de obra atingida ultimato com 05 (cinco) dias de prazo, por uso irregular de propriedade da mesma referida: aí perguntamos: Somos nós os responsáveis? Fizemos acordo com essa Companhia? Fomos nós que solicitamos esse número de terra insuficiente pra nossa sobrevivência? Não Drª Helen!

A Excelentíssima tem em mãos os acordos entre CESP e prefeitura sem o conhecimento da população atingida e as reivindicações com vários documentos, fita de vídeo, e declarações pessoais, que a nossa associação vem encaminhando a vossa Excelência já há alguns meses.

Não só prá vossa Excelência, que encaminhamos nossas reivindicações, mais para o (Terrasul) Departamento de Terras e colonização do Estado de Mato Grosso do Sul, ao digníssimo Governador José Orcírio Miranda dos Santos, ao Excelentíssimo Procurador Geral da República, Tarcísio Humberto Parreiros Henrique Filho, ao Ministério Público Federal, e até enviamos Ofício ao Excelentíssimo presidente da Companhia Energética de São Paulo CESP, Guilherme Augusto Cirne de Toledo, enviamos em 05/09/00, recebido em 11/09/00 e mandado a resposta em 10 de outubro de 2000 (.,.).

Mais uma pergunta Drª Helen: a quem mais precisamos recorrer? Certos de poder contar com vossa presteza para o assunto em questão, a Associação da Mão de Obra Atingida e Moradores Excluídos da Barranca do rio Verde e Paraná elevam seus protestos de estima e apreço (...).

 

FotoJoão Brito de Souza e o Acampamento da Mão de Obra Atingida. (Foto: Arquivo João Brito de Souza, 1999).

Fonte: História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, pág. 329-330. Disponível em: História e Memória de Brasilândia/MS - Patrimônio, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores

domingo, 22 de março de 2026

 

Cinco anos de luz: Rita Nogueira de Souza, a simpatia que floresce no céu.


 




É difícil falar de um sorriso vibrante em um momento de silêncio. Como traduzir em palavras a falta que faz aquela alegria que não apenas  contagiava, mas que completava o que faltava em cada um dos que a cercavam?

Dona Rita possuía a rara vocação para a felicidade; mesmo nos dias de cansaço ou dor, a vida teimava em brilhar no seu olhar, nos seus gestos e naquele sorriso que era o seu maior cartão de visitas.

Sua coragem inspirava. Ela não apenas viveu; ela fez a vida acontecer ao seu redor. Mulher de fibra, de passos firmes e alma iluminada, Dona Rita transformava o caminho de quem cruzasse com ela.

Antes que o destino impusesse distâncias, vê-la caminhar pela rua era ver a própria paz em movimento. Havia nela uma simplicidade tão nobre que, mesmo os estranhos, sentiam vontade de seguir seus passos, só para ficar um pouco mais perto daquela luz.

E isso não era por acaso. Era fruto do amor plantado no seio de sua família. Mãe, avó, bisavó — a joia preciosa que regia a orquestra de um lar cheio de vida. Seus filhos, hoje homens e mulheres admiráveis, são o espelho de sua alma: herdaram dela o olhar franco, a vontade de vencer e a capacidade de sorrir para o sol, mesmo em meio às tempestades.

Hoje, entre o aperto da saudade e o soluço da dor, passados cinco anos de sua partida, sua família recorda a "professora da vida" que sempre foi. A mulher que superou abismos com humildade e transformou obstáculos em estradas.

Dona Rita, todos imaginam que agora a senhora sorri entre anjos, revendo amigos e descansando nos braços de Deus. 

Daí do alto, a senhora contempla o rosto de cada um dos seus nove rebentos que tanto embalou: Manoel, Joana, Rozalina, Jorge, Ermelinda, Jaciro, Jaira, Luciane e Jairo. Eles, por aqui, deixam as lágrimas de gratidão correrem, lembrando do abraço apertado da mestra que lhes ensinou a ter esperança no futuro.

A senhora não foi apenas uma mãe zelosa; foi o porto seguro de gerações. Suas mãos, que tantas vezes repousaram sobre netos e bisnetos, não eram apenas mãos, eram bênçãos que acalmavam o mundo.

Nascida em um 16 de março de 1941, Dona Rita decidiu que sua próxima festa seria na eternidade. Atendeu ao chamado de Deus, deixando em cada canto da casa onde viveu o eco de seus passos e o calor de seu acolhimento. Seu espírito permanece vivo em cada batida do coração de cada um de seus rebentos.

Descanse em paz, eterna Rita Nogueira de Souza. Seu vigor e simpatia agora são estrelas brilhantes no céu de seus filhos e netos.

 

Brasilândia/MS, 22 de março de 2026

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/rita-nogueira-de-souza-mae-em-simpatia.html

quinta-feira, 19 de março de 2026

 

O último apito do mestre e a lembrança de um ícone brasilandense.

Carlos Alberto dos Santos Dutra




Brasilândia acordou naquele 18 de março de 2021 com um silêncio diferente. Aquele banco de motorista, que por décadas foi o trono de um homem simples e gigante, agora está vazio. Evair José da Silva, o conhecido e eterno Bahia, recolheu o boné e seguiu para a sua última viagem.

Dizer que ele era apenas um motorista seria pouco. Bahia era o guardião de sonhos. Com as mãos firmes no volante e o coração aberto no sorriso, ele cruzou as estradas de terra desta cidade levando gerações. Levou crianças que se tornaram doutores, jovens que buscavam o futuro na universidade e adultos que viam nele não apenas o condutor, mas o amigo.

Quem não se lembra das suas palavras de conforto quando o ônibus insistia em parar no meio do caminho? "Calma, gente, de sede vocês não morrem!", brincava ele, transformando o imprevisto em risada. Ou do gesto sagrado ao avistar a Basílica de Aparecida, quando, num ato de pureza e fé, tirava o boné para saudar a Padroeira com um viva que ecoava na alma dos passageiros.

Bahia foi o mestre da "arte do bem viver". No esporte, ele não apenas jogava; ele unia as pessoas. Seja no futebol-arte do antigo BAC, que ele tanto defendeu para ver brilhar no estado, ou nas mesas de truco regadas a resenhas e amizades verdadeiras. Ele estava lá, entre o Bar da Pedra e os torneios da Dona Margarida, sempre cercado de gente, sempre sendo o elo que transformava uma simples disputa em uma festa da vida.

Ele viu Brasilândia nascer e ajudou a escrever os capítulos mais bonitos da nossa história social. Do preto e branco ao azul e branco — as cores do céu e da paz que ele tanto prezava — Bahia coloriu os dias da Cidade Esperança com sua simplicidade peculiar.

E foi assim, aos 79 anos, que ele deixou esta comunidade devido complicações da nefasta e fatídica Covid-19 de ontem. Mas o rastro que ele deixou não é de tristeza, é de luz. Fica a saudade do juiz de futebol, do desportista dedicado e, acima de tudo, do homem que caminhava de mãos dadas com os seus, honrando suas raízes e amando sua terra.

Descance em paz, Mestre Bahia. As estradas do céu agora são o seu novo itinerário, e temos certeza: aí em cima, o jogo vai ser bom e a sede de alegria nunca vai acabar.


Brasilândia/MS, 18 de março de 2026. 

Homenagem póstuma ao 5º aniversário de morte de Evair José da Silva. Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/evair-jose-da-silva-o-mestre-bahia-nos.htmlImagem colorizada in colorir a imagem: - Google Search

domingo, 15 de março de 2026

 

O Maestro do Silêncio, da Sala de Aula e das Calçadas: As Lições Imortais de Tio Ide.

Carlos Alberto dos Santos Dutra






 

Para muitos, o dia começa com o despertar dos despertadores. Para aquele cidadão atento, o dia amanhece de fato quando ele dobra a esquina da Rua Vicente Fernandes e encontra a personificação da paz. 

Lá está ele, o Professor Yoshiki Ide — ou simplesmente Tio Ide —, empunhando sua vassoura com a mesma precisão e carinho com que um dia segurou o giz.

Varrer a calçada, para ele, não é um fardo doméstico; é uma coreografia de cuidado. Ele limpa o próprio chão, o do vizinho e o da rua inteira, estendendo sua gentileza até onde a vista alcança. 

Quem passa recebe mais que um caminho limpo: recebe um sorriso que parece flutuar sobre o tempo. É uma lição silenciosa de que a dignidade reside no capricho e que a vida, assim como uma rua bem cuidada, floresce na doação.

Olhar para Tio Ide é ver o reflexo de uma história forjada na resiliência. Filho de imigrantes japoneses que atravessaram oceanos após o horror da 2ª Guerra Mundial, ele traz no sangue a força de Kumamoto e o suor das terras de Lavínia. 

Criado entre cafezais e plantações de algodão, sua juventude foi o trabalho bruto da terra, restando pouco espaço para os romances da idade — embora guarde, com um brilho terno no olhar, a lembrança de um namoro aos 16 anos. Ele nunca se casou, mas tornou-se pai de gerações através do saber.

A matemática entrou em sua vida não como uma imposição, mas como um destino traçado em abril de 1977. Você quer ficar no meu lugar?, perguntaram-lhe. Ele aceitou, e o que seria uma ocupação tornou-se uma missão de 30 anos na Escola Adilson Alves da Silva. 

Cruzou a fronteira da divisão do Estado e as incertezas da carreira com a mesma calma com que hoje enfrenta a calçada. Mesmo aposentado com proventos parciais, ele não carrega amargura; carrega a exatidão dos números e a imensidão do afeto.

Em sala de aula, Tio Ide era o porto seguro. Enquanto o mundo lá fora clamava por pressa e ruído, ele ensinava com a mansidão dos sábios. Nunca precisou erguer a voz ou o apagador para impor respeito; sua presença era o próprio ensinamento. 

Ele compreendia a dualidade do ser humano — "metade gosta, metade não", dizia com humildade — mas dedicou cada segundo para que o amor pelo aprendizado vencesse qualquer resistência.

Hoje, o mestre é como se flutuasse sobre nuvens ao caminhar: ele continua sendo o educador da cidade, sem precisar de lousa ou caderno. Ele nos ensina que a matemática da vida é simples, embora profunda: subtraia o orgulho, some a gentileza e divida o tempo com o próximo.

Ao ver Tio Ide varrendo a rua, ou ao meu lado contando-me a sua história, percebo que ele ainda está dando aula. E a lição de hoje é a mais importante de todas: a grandeza de um homem não se mede pelo que ele acumula, mas pela suavidade com que toca o chão por onde passa.

Obrigado professor Yoshiki, carinhosamente Tio Ide de toda uma geração. Suas lições vão muito além da matemática e das ruas dessa cidade.

Brasilândia/MS, 15 de março de 2025. 

Dia da Escola no Brasil.

Fonte: Com informações de Fabiano Fonseca.


Professor de matemática aposentado desde o dia 7 de dezembro de 2007, Yoshiki Ide, demonstra ainda hoje muito bem sua facilidade em lidar com os números e datas, prática que alimentou desde a infância e que, depois, na sua juventude, aprimorou na condição de empregado quando trabalhou de 1970 a 1977 no escritório de uma firma na sua cidade natal, lembra ele com precisão. 

Nascido na cidade de Lavínia, próximo a Mirandópolis, estado de São Paulo, no dia 2 de maio de 1949, provém de uma família de 10 irmãos, 6 homens e 4 mulheres, sem contar com outros dois irmãos que faleceram ainda pequenos. 

Perguntado sobre como nasceu a vocação de professor, ele sorri e responde: A gente não tinha vocação para ser professor(...), mas daí o professor Motsu Nakarina, que dava aula na Escola Estadual Adilson Alves da Silva, disse: estou largando de ser professor, você quer ficar no meu lugar? Foi no dia 30 de abril de 1977. E aí ele trouxe a gente aí, apresentou para a professora Daura, que ela diretora, finada Daura, irmã da professora Sandra. 

Tendo ingressado na carreira do magistério cinco meses antes da divisão do Estado de Mato Grosso ainda uno, na data de 1º de maio de 1977, foi professor por 30 anos na Escola Estadual Adilson Alves da Silva. Diante da instabilidade da época, quando a gente não tem garantia de aposentar ou não, recorda sorrindo resignado, acabou aposentado percebendo somente 70% dos seus vencimentos. 

Perguntado se ele havia jogado o apagador em algum aluno em sala de aula, ele responde que não. E giz? Talvez, alguma vez. A gente não lembra, brinca, sorrindo com discrição.


quarta-feira, 4 de março de 2026

 

O Renascimento do Povo do Mel: A Esperança Ofaié Ganha Chão

Carlos Alberto dos Santos Dutra







A notícia não veio por canais oficiais frios, mas pelo vibrar dos celulares e o brilho nos olhos: a justiça, enfim, desembarcou em Brasilândia/MS. 

Durante uma semana inteira, o solo ancestral do povo Ofaié sentiu o passo firme de técnicos que não vieram apenas medir terras, mas validar uma existência que muitos tentaram apagar. 

Lá estavam eles, munidos de drones e tecnologia de ponta, sobrevoando as margens dos córregos Sete de Setembro e São Paulo. Ao avançarem em direção aos vestígios da antiga Aldeia Esperança, parecia que até o murmúrio das águas mudava de tom, celebrando o retorno de quem nunca desistiu. 

É o georreferenciamento — um nome técnico para um milagre esperado desde 1992. São 1.937 hectares de um território imemorial, onde o "Povo do Mel" resiste e adocica a história da região desde que foram registrados pela primeira vez, em 1901, por Albert Vojtech Frič vivendo nesta região. 

Após décadas de processos paralisados e silenciamentos, a ancestralidade voltou a ser prioridade. O entusiasmo de Elciney Paiz Flores, antropólogo da Funai, transbordava o "orgulho Terena" e de todos os povos originários. 

No gabinete da prefeita Márcia Amaral, naquele dia 26 de fevereiro, ele não falou apenas como técnico; falou com a alma, revelando o compromisso com uma verdade indígena que passou tempo demais sufocada sob o peso da burocracia. 

Ao lado dele, especialistas como o coordenador geral José Antônio de Sá e Leandro Lopes, da equipe do SEGATI reforçaram que cada marco cravado no chão é um tributo aos antigos líderes e à força da atual Cacica Ramona Coimbra Pereira. 

Para os Ofaié, demarcar não é apenas traçar linhas num mapa: é garantir que um povo que ressurgiu das cinzas agora tenha terra firme para florescer. O horizonte, antes nublado, hoje é de pura perspectiva. 

Parabéns ao povo Ofaié e as muitas mãos solidárias que lhes acompanharam nesta travessia. 

Brasilândia/MS, 04 de março de 2026.

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

 

O privilégio do encontro: Uma homenagem a três amigos aniversariantes.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Escolher amigos é uma arte e, por vezes, um mistério. Nem sempre o número deles é farto; o que importa é a ressonância. Amigos reais são aqueles que não apenas ocupam espaços em nossas redes sociais, mas que habitam nossas aspirações e nos motivam a caminhar rumo aos nossos sonhos. 

Hoje, 28 de fevereiro, o destino reservou uma coincidência poética: celebro a vida ao lado de três pessoas que admiro profundamente. Cruzar a linha de chegada de mais um ano junto a eles não é apenas um acaso, é um privilégio. 

Maria Aparecida: A Nobreza da Simplicidade

Conheci Cida nos corredores da Secretaria de Saúde, e ali bebi da fonte de sua simplicidade. Testemunhar seu crescimento profissional foi uma lição: ela provou que é possível alcançar o topo da montanha acadêmica sem perder a essência da menina sorridente que estende a mão ao próximo. Cida, que tantas vezes leu e corrigiu meus escritos, hoje lê aqui minha gratidão eterna. Obrigado por ser luz acima dos interesses. Parabéns! 

Francismeire: O Olhar que Embeleza o Mundo

Nossa conexão vem da juventude, selada pela descoberta de que dividimos o mesmo dia no calendário. Trabalhamos lado a lado na habitação, percorrendo lotes e selecionando lares para quem mais precisava. Francismeire sempre tratou o bem público com um zelo raro, mesclando dever com um olhar de profunda humanidade. Sua presença é capaz de embelezar o coração de quem a rodeia, inclusive o deste humilde escrevinhador. Feliz aniversário, querida Francismeire! 

Pedro Henrique: A Juventude que Inspira

Com menos de 30 anos, Pedrinho já carrega a sabedoria dos generosos. Convivemos há 14 meses na Secretaria de Meio Ambiente, tempo suficiente para eu confirmar o que todos dizem: ele é uma bênção. Sua disposição em servir, tratando cada cidadão como um irmão e estendendo a mão — e o próprio bolso — a quem precisa, é um testemunho de caráter. Pedrinho conquista o respeito pelo exemplo. Parabéns, meu amigo! 

Aos meus três companheiros de data, meu abraço fraterno. Que a nossa "ciranda" continue girando pelo mundo, espalhando o bem que cultivamos aqui. Feliz Aniversário para nós!

Brasilândia/MS, 28 de fevereiro de 2026.

Fotos: Facebook