segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

 

Oitavas para Jesús Hortal Sánchez SJ

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Era o outono de 1984. Sob os arcos da majestosa PUCRS, o tempo parecia suspender o fôlego. Naquelas naves de saber, entrelaçavam-se destinos: seminaristas de olhar atento, religiosos de hábito e leigos banhados pelo sol do interior ou pelo asfalto da capital, todos unidos sob o peso de um rito de passagem: o exame de Direito Canônico. 

Pelos corredores, o eco de passos firmes anunciava a chegada da autoridade. O Pe. Jesús Hortal Sánchez, jesuíta de alma universal e mente forjada na Pontifícia Universidade Gregoriana, aproximava-se. Ele não trazia apenas o saber de Roma; carregava nos ombros o prestígio de quem deu voz portuguesa ao Código da Igreja, traduzindo leis em caminhos para o seu povo.  

O mestre postou-se à frente, com o destino de cada aluno em um maço de papel. O ritual da entrega era uma lenta agonia de esperança. Para este que vos escreve, então um jovem seminarista da Diocese de Bagé, o silêncio tornava-se denso. O monte de papéis minguava e o meu nome não soava; a ansiedade soprava que o final da fila guardava apenas o desalento. 

Mas a realidade guardava um verso de luz.

Restavam apenas duas laudas na pasta do professor. Com um brilho raro no olhar, ele revelou: — Saibam que um de seus colegas ousou tecer críticas em versos na prova. Pela audácia e originalidade, eu os lerei. 

E ali, há mais de quatro décadas, a voz do mestre, tingida por seu inconfundível sotaque espanhol, deu vida àquelas rimas juvenis. Enquanto as palavras flutuavam pela sala, percebi que o rigor acadêmico se curvava à beleza da crítica literária. Pe. Hortal dedilhava o papel com uma satisfação mansa, perdoando os erros métricos em favor da alma que saltava das linhas. 

“Me perdoe seu Jesus / Mas não peca quem confessa / Vou dizer-te bem depressa / O que vai neste meu peito / Não repara o meu jeito / Algo de santo e maligno / Que às vezes até perde o tino / Mas não quer faltar o respeito / Hoje vou abrir o verbo / Sobre uma disciplina / Não julgando o que ela ensina / Julgo-a de mui valor / Acontece que um senhor / Tão competente e capaz / Faz do “direito” um az / Não dá chance ao perdedor / Toda a linguagem contesto: /Intimista e privada / Deixa toda a peonada / Naquela dicotomia / Um rezando Ave Maria / Outro vê o povo penando / Mas, os dois vão se aguentando / Vendo assim passar os dias / O “canônico” de casos / Todo mui longe do povo / É padre que bota ovo / Freira faceira, um tarado / Todos os exemplos dados / São na linha bem “freudiana” / Bota moral bem sacana / Ando até desorientado / Sonhava, exigência do padre / Luta, povo, mutirão / Não piadas de salão / De convento ou sacristia / O povo trabalha não ria / Come poeira na estrada / Para esta gente falta nada / “direito” pros nossos dias? / Mas Jesus não se alvorote / Que a paz é companheira / Saio logo da banheira / Que esta água é muito insossa / Pro povo toda mulher é moça / Que “casou”, ponto final / Pra que fazer temporal / Farisaísmos da roça? / Estamos mais interessados / Naquilo que o “direito” / Pode bota, de respeito / Nesta nossa sociedade / Que ajude a comunidade / E os cristãos na caminhada / Vamos todos de mãos dadas / Rumo ao Reino da igualdade / Pro arremate capitulo / Diante de minha ignorância / Mas meu Deus não tem importância / Faço o que posso estudando / Mas bem sei, Tu tá chamando / Não dentro das catedrais / Muito além destes vitrais / Lá tá Tu, pobre esperando”. 

As lembranças daqueles "anos de chumbo" hoje repousam em águas mais calmas, onde a Teologia da Libertação servia de âncora para que o Nazareno pudesse, enfim, caminhar sobre a terra firme da justiça. Agora, ao saber da Páscoa definitiva do meu mestre, ocorrida neste 2 de fevereiro de 2026, a saudade se faz prece. Mesmo de longe, inclino o pensamento para honrar o homem que fez da vida um magistério vivo, especialmente em sua jornada como reitor da PUC-Rio, onde deixou rastros de luz entre 1995 e 2010. 

As Edições Loyola guardam, em papel e alma, o eco de sua inteligência. Seus livros — do cuidado com o "O que Deus uniu" à esperança de que "Haverá um só rebanho" — não são apenas volumes em estantes; são sementes de um Direito que pulsa com coração pastoral. Sua produção intelectual permanece como um farol seguro, unindo o rigor da norma à ternura do Evangelho, guiando gerações que aprenderam com ele que a lei só faz sentido se servir à vida. 

A meros doze dias de completar seu centenário incompleto, o Pe. Jesús Hortal Sánchez, SJ (1927–2026) despede-se do tempo para entrar na eternidade. A comunidade acadêmica e religiosa silencia em gratidão por essa existência doada, por essa mente que colocou a erudição aos pés da fé. Ele partiu como viveu: sendo ponte, sendo mestre e, acima de tudo, sendo um fiel operário na vinha do Senhor.


Brasilândia/MS, 2 de fevereiro de 2026.

 

Foto: jesús hortal sánchez - Pesquisa Google; Fonte: Poesia publicada em DUTRA, C.A.S. Homenagens, pág. 15-16, Brasilândia, 2011. Padre Jesús Hortal Sánchez, ex-reitor da PUC-Rio, morre no Rio | G1

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

 

Brasilândia consolida coleta seletiva de vidro e celebra resultados inéditos.

Carlos Alberto dos Santos Dutra






Poucos conhecem a complexa engenharia por trás da fabricação do vidro. Sua produção envolve a fusão de matérias-primas como areia de sílica, soda cáustica e calcário em temperaturas que atingem os 1.500°C. 

No dia a dia, ao utilizarmos uma garrafa ou um copo, raramente refletimos sobre esse processo ou sobre o imenso potencial de sustentabilidade do material. 

Pois saibam que o vidro é 100% reciclável e possui um altíssimo valor agregado: um quilo de vidro quebrado transforma-se em exatamente um quilo de vidro novo. 

Além disso, ele pode ser reciclado infinitas vezes sem perder a qualidade, o que o torna o verdadeiro "campeão" da logística reversa. 

Tudo isso para dizer que nosso município hoje começa a colher os frutos de uma plantinha chamada consciência há 22 anos através do trabalho da Associação Brasilandense de Agentes Ambientais (ASSOBRAA). 

Em apenas quatro meses de implementação do sistema de coleta porta a porta, a entidade alcançou um feito histórico na coleta do vidro: no dia 3 de dezembro de 2025, realizou a primeira entrega oficial de vidro reciclado em Campo Grande. 

Ao todo foram 3,29 toneladas de vidro destinadas corretamente à reciclagem. Para o Engenheiro Ambiental Jorge Henrique Olivi de Paula, entusiasta da coleta seletiva e que acompanha de perto o trabalho da ASSOBRAA há muitos anos, o resultado da coleta seletiva do vidro no município é um excelente ponto de partida. 

Ele ressalta, porém, que o apoio de moradores, bares e conveniências é, igualmente, fundamental para ampliar esses números. 

Além do ganho ambiental, a iniciativa traz também benefícios econômicos diretos. Segundo o técnico da Prefeitura, ao evitar que essas 3,29 toneladas fossem descartadas e enviadas ao transbordo comum, o município gerou uma economia de R$ 1.360,55. 

A recomendação da Secretaria de Meio Ambiente e Turismo é, portanto, que os munícipes adotem cada vez mais este salutar hábito de separar garrafas e copos, preferencialmente, acomodando-os em caixas de papelão ou embrulhados em jornal. 

O material pode ser entregue diretamente na ASSOBRAA ou colocado na calçada nos dias de coleta seletiva, garantindo a segurança dos agentes ao recolhê-los e promovendo a preservação do meio ambiente. Parabéns ASSOBRAA. Parabéns Brasilândia.

 

Brasilândia/MS, 16 de janeiro de 2026.


Foto: João Batista/PMB 

Confira também: https://carlitodutra.blogspot.com/2025/08/brasilandia-avanca-na-coleta-seletiva.html



 

 

 

domingo, 11 de janeiro de 2026

 

11 de janeiro: um dia para refletir sobre os Agrotóxicos.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


Datas comemorativas na maioria das vezes são paradoxais. Encerram alegria mas também podem denotar apreensão, quando não, sentido de alerta. Estamos mais familiarizados, entretanto, com aquelas comemorações subjetivas que mexem com o nosso sentimento. É o caso das datas de aniversário, casamento, falecimento, inaugurações, vitórias, derrotas, viagens, declarações e inúmeros momentos que ao longo de nossas vidas experimentamos. 

Quando a motivação nos leva a comemorar algo que se encontra distante de nós, somos tentados a dar menor atenção, em que pese a importância objetiva que ela possa representar. Entre as comemorações que possam representar pouco ou nenhum interesse ao senso comum está o Dia do Combate da Poluição por Agrotóxicos comemorado neste dia 11 de janeiro. 

Ainda que possa ser uma comemoração que pouco interaja com a população em geral, ela é um dos dias que pode dizer muito a todos, dada o seu sentido de alerta à nossa saúde e à conscientização ambiental. Afinal, vivemos num mundo globalizado e que nossas ações alcançam o meio ambiente e a terra, alcança também os filhos da terra, que somos nós, indistintamente. Eis a importância de se refletir sobre o significado deste dia. 

Pois bem, o dia 11 de janeiro lembra a publicação do Decreto nº 98.816 que ocorreu no ano de 1990 e que determinou mais rigor no registro, controle, inspeção e fiscalização de agrotóxicos, seus componentes e produtos derivados no Brasil. A data, portanto, como já foi bem lembrado, não serve para fins de comemoração, mas para que seja um dia de reflexão perante o uso indiscriminado desses produtos, prática usual e que pode causar sérios efeitos à saúde humana e ao meio ambiente.

É importante, portanto, que se divulgue cada vez mais tomemos consciência de que o Brasil está na primeira colocação entre os países que mais fazem uso de agrotóxicos, deixando para trás até mesmo os Estados Unidos e outros países com ampla tradição na agricultura e a vida dos cidadãos comuns. Da mesma forma é importante falar abertamente sobre os riscos dessas substâncias à saúde humana e ao meio ambiente, buscando alternativas sustentáveis, como a agricultura orgânica, alinhado aos objetivos da ONU de redução de seu uso

A redução do uso de agrotóxicos é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. A meta é de até 2030 reduzir substancialmente o número de mortes e doenças causadas pelo uso e diminuir a contaminação e poluição do ar, água e solos. Nesse contexto, há de se dar acurada atenção aos riscos causados pelo uso desordenado dessas substâncias e suas consequências ao meio ambiente e à saúde humana. 

Neste dia, portanto, também por aqui, a data deve ser motivo de reflexão para nossa mentalidade ignara que nos faz assistir complacentes, inocentes cidadãos com suas maquininhas costais de herbicida, sem qualquer equipamento de proteção, disseminando pelos meios-fios de calçadas, praças e lotes de nossa cidade, o  veneno de morte que ceifará a vida de nossos filhos em poucos anos. 

Por outro lado, também é motivo para acreditar que estamos no caminho certo, no caminho da esperança buscando o controle da poluição por agrotóxicos, ainda que timidamente. Isso porque em nossa cidade, desde 2008, temos em nosso ordenamento jurídico municipal a Lei 2.265/08, de 25 de agosto de 2008, ainda em vigência, que orienta o poder público e os cidadãos deste município: 

Artigo 11- Fica proibida, no território do município, a utilização de elementos ou compostos químicos para a supressão de vegetação nas praças, parques, jardins, vias e logradouros urbanos ou rurais.

Parágrafo Único- Em propriedades urbanas ou rurais, quando na atividade agrosilvopastoril, não será permitida a utilização de herbicidas ou praguicidas a menos de 500 (quinhentos) metros de qualquer corpo d'água lótico ou lêntico. 

Tempo de esperança também para elevarmos nossa reflexão ao nível da política que nos representa. E saber, por exemplo, qual a posição e o que pensam os deputados do nossos Estado sobre os agrotóxicos.

Ainda que muitos parlamentares de Mato Grosso do Sul se movam sob a influência da bancada ruralista e tendam a ser favorável à flexibilização do uso dessas substâncias, corajosamente, existem posicionamentos divergentes, especialmente por parte de deputados de oposição. 

Por isso, é importante exercer o senso crítico e sair em defesa da vida, da saúde e do meio ambiente, argumentando na hora de escolher o seu representante.

 

Brasilândia/MS, 11 de janeiro de 2026.

 

Foto: https://www.bioemfoco.com.br; Fonte: https://trt15.jus.br/noticia/2023/11-de-janeiro-dia-do-combate-da-poluicao-por-agrotoxicos;

https://www.pedrinhaspaulista.sp.gov.br/noticia/1785/dia-do-combate-da-poluicao-por-agrotoxicos/;

INCA edita nota pública contra “PL do Veneno”, que incentiva uso de agrotóxicos no Brasil — Instituto Nacional de Câncer - INCA;

Veja como votou cada deputado no ‘pacote do câncer’ que põe mais veneno na comida do brasileiro - SINDSPREV/RJ.

Confira também: https://carlitodutra.blogspot.com/2022/03/tem-veneno-quero-saber.html