O último apito do mestre e a lembrança de um ícone brasilandense.
Carlos Alberto dos
Santos Dutra
Brasilândia acordou naquele 18 de março de 2021 com um silêncio diferente. Aquele banco de motorista, que por décadas foi o trono de um homem simples e gigante, agora está vazio. Evair José da Silva, o conhecido e eterno Bahia, recolheu o boné e seguiu para a sua última viagem.
Dizer que ele era
apenas um motorista seria pouco. Bahia era o guardião de sonhos. Com as mãos
firmes no volante e o coração aberto no sorriso, ele cruzou as estradas de
terra desta cidade levando gerações. Levou crianças que se tornaram doutores,
jovens que buscavam o futuro na universidade e adultos que viam nele não apenas
o condutor, mas o amigo.
Quem não se lembra
das suas palavras de conforto quando o ônibus insistia em parar no meio do
caminho? "Calma, gente, de sede vocês não morrem!",
brincava ele, transformando o imprevisto em risada. Ou do gesto sagrado ao
avistar a Basílica de Aparecida, quando, num ato de pureza e fé, tirava o boné
para saudar a Padroeira com um viva que ecoava na alma dos passageiros.
Bahia foi o mestre
da "arte do bem viver". No esporte, ele não apenas jogava; ele unia
as pessoas. Seja no futebol-arte do antigo BAC, que ele tanto defendeu para ver
brilhar no estado, ou nas mesas de truco regadas a resenhas e amizades verdadeiras.
Ele estava lá, entre o Bar da Pedra e os torneios da Dona Margarida, sempre
cercado de gente, sempre sendo o elo que transformava uma simples disputa em
uma festa da vida.
Ele viu
Brasilândia nascer e ajudou a escrever os capítulos mais bonitos da nossa
história social. Do preto e branco ao azul e branco — as cores do céu e da paz
que ele tanto prezava — Bahia coloriu os dias da Cidade Esperança com sua
simplicidade peculiar.
E foi assim, aos
79 anos, que ele deixou esta comunidade devido complicações da nefasta e
fatídica Covid-19 de ontem. Mas o rastro que ele deixou não é de tristeza, é de
luz. Fica a saudade do juiz de futebol, do desportista dedicado e, acima de
tudo, do homem que caminhava de mãos dadas com os seus, honrando suas raízes e
amando sua terra.
Descance em paz, Mestre
Bahia. As estradas do céu agora são o seu novo itinerário, e temos certeza: aí
em cima, o jogo vai ser bom e a sede de alegria nunca vai acabar.
Brasilândia/MS, 18 de março de 2026.
Homenagem póstuma ao 5º aniversário de morte de Evair José da Silva. Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/evair-jose-da-silva-o-mestre-bahia-nos.html. Imagem colorizada in colorir a imagem: - Google Search






