segunda-feira, 25 de maio de 2026

 

Feliz Aniversário ACIABRA: 38 anos de amor por Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra







Caía a tarde daquele inesquecível 25 de maio de 1988. O sol que se punha nas terras de uma jovem e promissora Brasilândia testemunhava também o nascimento de uma nova era. 

Nas salas simples da Escola Municipal Prof. Arthur Höffig, um grupo de cidadãos idealistas se reunia, movido pelo pulsar de um desejo comum. À frente deles estava Alcides Lopes, um jovem comerciante cuja maior riqueza não estava em suas prateleiras, mas na grandiosidade dos seus sonhos. 

Com olhos brilhantes e voz firme, Alcides semeou naquela noite a semente da união. Ele sabia que o comércio local só caminharia forte se todos dessem as mãos. Foi ali, cercado por mentes corajosas, que nasceu a Associação Comercial, Industrial e Agropastoril (ACIA) — a nossa querida e eterna ACIABRA. 

Ao seu lado, assinando aquela ata histórica que mudaria o destino da cidade, estavam companheiros de luta cujos nomes o tempo jamais apagará: Nelson Pedretti, Robert Gerhart Hippler, Agenor Marinho de Souza, Adão Gardino de Souza, Hélio Martinez Júnior, Isac Honorato Barbosa, Mauro Alves de Oliveira, Alcides Servilla Martinez, Gilvaez de Almeida Rodrigues e Ezilda de Souza Santos. 

Junto com a diretoria pioneira formada por Roberto Rodrigues e Maria de Fátima Servilla Barbosa, as primeiras barreiras começaram a ser derrubadas. 

Os primeiros anos foram marcados por provações e sacrifícios implacáveis. Ser comerciante naquela época exigia uma coragem quase suicida, como o próprio Alcides costumava lembrar com um misto de angústia e resiliência. 

Atrás de cada balcão havia um pai ou uma mãe de família lutando contra altas contas de luz, água e impostos sufocantes, enquanto aguardavam por dias melhores para o sustento dos seus lares. 

Em 1993, a voz de Alcides ecoou nas páginas do Jornal de Brasilândia, clamando por justiça social. Com o peito apertado, ele via a riqueza gerada pelo suor das fazendas da região ser escoada por vendedores ambulantes estranhos à cidade, que surgiam nos dias de pagamento e sufocavam o trabalhador local. 

Alcides não defendia apenas lucros; defendia a dignidade e a sobrevivência do povo brasilandense. "Devemos fechar nossas portas? Irmos todos embora?", questionava ele em um apelo urgente às autoridades. Suas palavras eram o escudo de uma classe vulnerável, mas cheia de garra. 

E eis que nasce uma fortaleza chamada ACIABRA que cresceu e tornou-se a grande guardiã do coração econômico de Brasilândia. Sob a liderança contínua de Alcides até 1998, e posteriormente de Waldemar Firmino de Campos, a entidade não apenas sobreviveu, mas transformou a realidade do município. 

Foi dessa união que nasceu o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) em 1996, um marco que trouxe segurança e profissionalismo para as transações locais, oficializado com muito orgulho na inauguração da sede própria em 1999. 

A associação deixou de ser apenas um prédio ou uma sigla; ela se transformou no porto seguro do empreendedor. Ela passou a representar o amparo para o pequeno comerciante que começava do zero e o orgulho para as famílias que viam na cidade um solo fértil para prosperar. 

Hoje, Alcides Lopes já não caminha entre nós. O homem incansável e atarefado foi chamado para cumprir missões em planos mais altos, onde com certeza reencontrou os velhos amigos que partiram antes dele para partilhar de novas e celestiais tarefas. 

O homem é o reflexo de sua obra. E a obra de Alcides pulsa em cada porta que se abre todas as manhãs no comércio de Brasilândia. 

Hoje, ao celebrarmos os 38 anos de fundação da ACIABRA, sentimos as mãos invisíveis dos pioneiros estendidas sobre nós, abençoando cada geração que deu continuidade àquela semente plantada em 1988. 

Obrigado, pioneiros. Que as pilastras da ACIABRA continuem firmes, sustentando um comércio forte, dinâmico e humano, capaz de encher de orgulho cada lar da nossa amada Brasilândia. Feliz Aniversário, ACIABRA!

 

Brasilândia/MS, 25 de maio de 2026. Data do 38º aniversário da ACIABRA. 

Cf.: https://carlitodutra.blogspot.com/2024/08/homenagem-aos-36-anos-da-aciabra-carlos.html

https://carlitodutra.blogspot.com/2024/08/a-musica-aciabra-e-as-homenagens-carlos.html

Para conhecer mais sobre a ACIABRA: História e Memória de Brasilândia/MS, 2021, Vol. II-Patrimônio, pág. 298-308.

 

domingo, 24 de maio de 2026

 

Valdecir Gregio: O Legado de um Homem que Viveu para sua Comunidade

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra




 



Falar sobre a vida de um homem no momento de sua partida definitiva deste mundo é sempre uma tarefa dolorosa. A dor natural da despedida, por vezes, cega nossos olhos para a beleza da jornada que se encerrou. No entanto, é com um esforço de profunda gratidão e amor que reaprendemos a sorrir pelas lembranças e pelos feitos daquele que, agora, acena a todos nós em seu último adeus. 

Para que o tempo jamais apague a memória de Valdecir Gregio, que nos deixou no último dia 23 de maio aos 77 anos, reunimos aqui fragmentos incompletos de uma história grandiosa. Ele não apenas escreveu seu nome na heráldica de Brasilândia/MS, mas cravou sua marca eterna no coração de sua gente. Esta é uma singela e calorosa homenagem à sua alma, e um abraço apertado de conforto ao coração de sua esposa, do filho e toda a sua família. 

Uma Vida Entrelaçada ao Progresso e ao Esporte. Desde a juventude, Valdecir, desde que aqui chegou vindo de Junqueirópolis/SP, carregava no peito o desejo de ver sua cidade pulsar. Ele foi um homem intensamente engajado nos eventos sociais e esportivos de diversos clubes e associações. Na história da Associação Recreativa União (ARU), nascida em 1982 e repleta de glórias, por exemplo, há um capítulo inesquecível: 

Em 23 de agosto de 1998, lá estava Valdecir. Com um sorriso no rosto, ao lado do padre Lauri Bósio, de Isac Honorato Barbosa e de Jaime Alencar, ele descerrou a fita inaugural do campo de futebol da ARU, sob a gestão de José Carlos Bandera. Um momento de alegria que o tempo e uma fotografia não podem apagar. 

O Coração Generoso da Filantropia. O amor de Valdecir pelo próximo traduzia-se em ações concretas de pura dedicação. Na laboriosa Associação de Voluntários de Combate ao Câncer (AVCC), fundada em 1999, ele doou seu tempo e energia como vice-presidente (2013-2014) e, posteriormente, como presidente (2017-2018), estendendo a mão a quem mais precisava de amparo. 

Sua sensibilidade também abraçou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Ele foi o primeiro diretor financeiro da instituição em 1997 e assumiu a presidência no biênio de 2000 a 2002. Anos mais tarde, em 2012, quando a APAE conquistou o credenciamento como Centro de Atendimento Educacional Especializado, Valdecir continuava lá, doando sua sabedoria como conselheiro de administração e fiscal. 

O Empresário Respeitado e Visionário. No comércio, Valdecir transformava sonhos em realidade. À frente da Confiança Móveis desde 2002 — que nasceu da remodelação da antiga Buriti Móveis —, ele consolidou-se como um empresário próspero, respeitado e querido por todos. Sua liderança o levou à vice-presidência da Associação Comercial, Industrial e Agropastoril de Brasilândia (ACIABRA) em 2004, onde idealizou a 1ª Semana do Consumidor, um evento pioneiro que se tornou uma linda tradição na cidade. 

Além disso, sua presença foi um pilar na Loja Maçônica ARLS Estrela do Ocidente nº 12 tendo sido presidente de 2001 à 2002. Em 2006, ele participou ativamente da refundação da entidade, integrando a Comissão Pró-Formação no honroso cargo de 2º Vigilante, sempre guiado pelos valores da fraternidade. 

Solidariedade, Fé e Amor Incondicional. A verdadeira essência de sua humanidade transbordava na solidariedade do dia a dia. Quem em Brasilândia não se lembra, com carinho, dos eventos que ele, a esposa e o filho realizavam em frente à Confiança Móveis? Com os olhos brilhando, Valdecir distribuía alimentos, doces e bombons para as crianças da comunidade e da APAE, espalhando sorrisos puros e esperança. 

Sua vida era fundamentada na rocha firme da fé. Membro dedicado da Paróquia Cristo Bom Pastor, ele se reunia todas as terças-feiras no Terço dos Homens para rezar e agradecer a Deus pelo milagre da vida. Mas o testemunho mais lindo de seu coração acontecia aos domingos, na Santa Missa. 

Com zelo infinito, devoção e um respeito que emocionava a todos, Valdecir conduzia sua amada esposa. Ele a retirava cuidadosamente da cadeira de rodas, acomodava-a ao seu lado no banco da igreja e, de mãos dadas, os dois entregavam a vida da família aos cuidados do Criador. 

Hoje, temos a certeza de que aquele mesmo Deus que ele tanto buscou o recebe de braços abertos no alto dos céus. O comerciante visionário, o voluntário incansável, o marido exemplar e o cidadão inesquecível concluiu sua missão terrena.

Descanse em paz, eterno Valdecir Gregio. Brasilândia chora a sua partida, mas aplaude, de pé, a beleza do seu legado.

 

Brasilândia/MS, 23 de maio de 2026.

Fonte: História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio; III-Cidadania; e IV-Desenvolvimento.






sábado, 23 de maio de 2026

 

Quem manda em mim: o Público ou o Privado? Uma abordagem pedagógica.

Carlos Alberto dos Santos Dutra








Todo ser humano é, por natureza, um ser político. Essa famosa premissa do filósofo grego Aristóteles nos lembra que é impossível separar o cidadão da vida em sociedade. Quando vivemos em uma comunidade organizada — seja em Brasilândia (MS) ou em qualquer outra cidade do Brasil — nós assumimos papéis diferentes dependendo do lugar onde estamos.

O grande desafio surge quando um cidadão comum decide atravessar a fronteira e assumir um cargo público (como prefeito, vereador, secretário ou servidor concursado ou não). Nesse momento, as regras do jogo mudam drasticamente.

No nosso dia a dia, na esfera da vida particular, nós buscamos a nossa própria satisfação, os nossos sonhos e os interesses pessoais. Para reger essas relações cotidianas, existe o Direito Privado. A regra de ouro aqui é a liberdade total dentro da lei: No Direito Privado, o cidadão comum pode fazer TUDO o que a lei não proíbe.

Um Exemplo Prático: Se você quer abrir uma padaria no seu bairro e não existe nenhuma lei proibindo o comércio ali, você simplesmente abre. Você não precisa de uma autorização legislativa específica dizendo: "Você está autorizado a vender pão". O silêncio da lei significa permissão.

Quando esse mesmo cidadão veste o chapéu de administrador, político ou funcionário do Estado, o cenário se inverte completamente. Ele passa a gerenciar o dinheiro e os interesses de toda a sociedade (o chamado múnus público). Para guiar essa conduta, aplica-se o Direito Público. A regra de ouro aqui é a estrita legalidade: No Direito Público, o agente público SÓ pode fazer aquilo que a lei determina explicitamente.

Um Exemplo Prático: Se um prefeito quer construir uma escola, ele não pode simplesmente contratar a empresa de um amigo e começar a obra. Ele precisa de uma lei orçamentária que destine dinheiro para isso, precisa seguir leis de licitação e agir rigorosamente dentro dos limites legais. Se a lei não diz "como" fazer, ele não pode fazer.

No Comparativo Direto temos, assim, o Jogo das Diferenças: Para facilitar o entendimento, veja como as regras mudam conforme a "cadeira" que você ocupa na sociedade:


Critério

Cidadão Comum (No âmbito Privado)

Servidor Público (no âmbito Público)

Qual é o foco?

Desejos, vontades e carências particulares.

Interesse coletivo e bem-estar social.

Qual é a regra?

Pode fazer tudo, exceto o que a lei proíbe.

Só pode fazer o que a lei autoriza ou determina.

Margem de escolha

Alta autonomia e liberdade pessoal.

Nula ou restrita aos limites da legislação.

Consequência do erro

Prejuízo pessoal ou punição se violar a lei.

Processos por improbidade, multas e perda do cargo.


Entende-se, assim o Choque de Realidade vivido sobretudo pelos novos Políticos. Isso porque essa enorme distância entre o público e o privado costuma pegar de surpresa os chamados "neófitos" — os vereadores, secretários e prefeitos de primeira viagem. 

Muitas vezes, movidos por ótimas intenções e querendo aplicar suas habilidades profissionais, eles planejam melhorias para a cidade. No entanto, esbarram na burocracia legal.

Outro exemplo: um caso clássico que acontece nas câmaras municipais: Edil bem-intencionado tem a ideia: "Vou construir um parquinho para as crianças do bairro!", porém, esqueceu de conferir a legislação orçamentária: 

Aprovou a verba na LOA (Lei Orçamentária Anual)? SIM? A obra pode ser realizada. NÃO? "Adeus sonho do parquinho!".  Ou seja, o administrador público não pode gastar um centavo sem previsão legal.

Se o administrador ignorar essa barreira e construir o parquinho sem orçamento aprovado, ele cometerá uma infração administrativa grave, ficando sujeito a punições legais. Isso nos leva a concluir que a Previsão Legal está sempre à Frente. 

Para o enfrentamento desta situação, qualquer pessoa que deseja, administrar o bem público, o aprendizado técnico é indispensável. Cursos preparatórios e estudos de conteúdos programáticos voltados para concursos ou cargos eletivos são essenciais para incutir esses princípios nos servidores, em todos os níveis e hierarquia, antes que os erros aconteçam.

No plano da gestão de uma cidade, a previsão legal e a legislação devem estar sempre no horizonte do administrador, antes mesmo do próprio orçamento e do ato de politicar que o espreita a cada passo. Afinal, no mundo público e da política, a boa intenção sem o amparo da lei é o primeiro passo para uma ilegalidade.


Brasilândia/MS, 23 de maio de 2023. 

Dia da Juventude Constitucionalista. A data homenageia os quatro estudantes MMDC (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo) mortos em um protesto contra Getúlio Vargas em 1932, um marco que deu origem ao famoso levante da Revolução Constitucionalista.

Foto/Charge: In https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/politicos-confundem-o-publico-e-o-privado-3z9dnqyf8qe3dqogw7db97z9q/

 

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

 

Brasilândia: O Coração da Biodiversidade Entre as Águas e a Ancestralidade

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 




Viver em Brasilândia é partilhar de um privilégio ecológico e histórico único. Nosso município abriga uma verdadeira riqueza natural na borda dos rios Paraná e Verde, onde a imponência do Bioma Cerrado se encontra com fragmentos vitais da Mata Atlântica. Essa transição cria refúgios ecológicos indispensáveis para a sobrevivência de espécies raras da nossa fauna e flora. 

Cuidar desse patrimônio é um dever coletivo que se apoia em dois pilares fundamentais da nossa terra: a RPPN Cisalpina e a Comunidade Indígena Ofaié. 

A Reserva Particular do Patrimônio Natural Cisalpina é um escudo verde contra a degradação. Ela protege as florestas ciliares que garantem a qualidade da água dos nossos rios, evitam o assoreamento e servem como corredores ecológicos para animais como a onça-pintada e o cervo-do-pantanal. 

A Comunidade Indígena Ofaié abriga os guardiões originais desta terra. A preservação da biodiversidade local é indissociável da sobrevivência física e cultural do povo Ofaié. O respeito à sua floresta e ao seu modo de vida tradicional é o maior exemplo de convivência harmônica entre o ser humano e a natureza. 

Neste Dia da Biodiversidade, olhe ao seu redor. Proteger o Cerrado, apoiar a conservação da Cisalpina e valorizar a ancestralidade Ofaié não é apenas cuidar do meio ambiente. É garantir o futuro de Brasilândia, garantindo água limpa, clima equilibrado e orgulho de nossa identidade.

A biodiversidade da nossa casa depende das ações de cada um de nós. Preserve!

O despertar para a consciência pode iniciar com pequenas ações diárias de preservação da nossa floresta e dos nossos rios, tais como: evitando queimadas. O fogo destrói o Cerrado e ameaça os animais da Cisalpina. Não queime lixo ou folhas secas no quintal; economize e proteja a água, reduza o tempo no banho. Nunca descarte óleo de cozinha, pilhas ou remédios vencidos no lixo comum ou na rede de esgoto.

E não se esqueça de plantar árvores nativas. Recupere o solo plantando espécies locais, como Ipê, Tamboril, Jatobá entre outras, se você dispõe de áreas maiores. Respeite a fauna local. Não cace, não pesque em períodos proibidos e reduza a velocidade ao dirigir próximo às áreas de mata para evitar atropelamentos.

Valorize a cultura Ofaié, apoie o artesanato e os projetos da comunidade indígena. A preservação cultural fortalece a proteção da floresta. E não esqueça de praticar o turismo consciente. Ao visitar a Jaboticabeira ou as margens dos rios Paraná e Verde, recolha todo o seu lixo. Não deixe plásticos, garrafas, redes ou linhas de pesca na margem. Faça a sua parte. A biodiversidade de Brasilândia é a nossa maior herança. 

Brasilândia/MS, 22 de maio de 2026. 

Dia Internacional da Biodiversidade.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

 Mural Cultural conta a História de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 





Caminhar pela Praça Anísio Gomes de Almeida é mais do que passear por um espaço público; é fazer uma viagem no tempo conduzida pela arte. Inaugurado em 20 de maio de 2012, o Mural Cultural de Brasilândia transformou um simples muro em uma galeria viva, que pulsa com a identidade e o orgulho de seu povo. O que antes era concreto, hoje é um espetacular ponto turístico repleto de significados e memórias entrelaçadas.

Essa grandiosa obra de arte nasceu da sensibilidade e do olhar atento da artista plástica Francieli Ribas Gomes, que entre o final de 2011 e o início de 2012 dedicou-se a moldar a história local em pequenos azulejos de cerâmica.

A grande inspiração para o painel veio diretamente da melodia e da poesia do hino oficial do município. Ao ouvir os versos que exaltam a "Cidade Esperança", a artista materializou a delicadeza de uma pomba branca e a inocência de uma criança regando uma flor, eternizando em imagens os sentimentos mais profundos contidos na canção de Brasilândia.

Mais do que uma criação isolada, o mural é fruto de um verdadeiro encontro humano. Durante pouco mais de um mês de confecção, a comunidade brasilandense aproximou-se da artista para partilhar memórias, histórias e fotografias antigas. 

Com extrema sensibilidade, Francieli desenhou silhuetas para representar os trabalhadores anônimos que ergueram a cidade, permitindo que cada morador se sentisse parte fundamental daquela construção histórica.

Cada detalhe do mosaico reconta um capítulo essencial dessa jornada. Ali estão gravadas as raízes indígenas do povo Ofaié, a fé pioneira representada pela cruz da primeira missa celebrada no centro urbano, e o rosto do patriarca e fundador Arthur Höffig.

A icônica balsa que cruzava o Rio Paraná ligando Brasilândia a Panorama, do lado paulista, ressurge no painel, resgatando a nostalgia dos tempos em que as águas eram o principal caminho de conexão humana. O mural também celebra o suor da terra, ilustrando a riqueza da agricultura, a força da pecuária e a doçura da produção de mel, que tanto orgulham o município.

Do primeiro traço ao ponto final, o Mural Cultural narra de forma poética a evolução de Brasilândia, desde os seus primeiros passos até o acolhimento espiritual sob a proteção do padroeiro Bom Pastor.

Trata-se de um patrimônio de cores e afetos que convida moradores e visitantes a contemplar, respeitar e se emocionar com o legado histórico de uma comunidade que caminha de mãos dadas com a sua própria memória e que urge ser preservada.

 

Brasilândia/MS, 20 de maio de 2026.

14º aniversário de inauguração do Mural Cultural de Brasilândia. 
Mais informações: História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. 2-Patrimônio, pág. 142-144. 

terça-feira, 19 de maio de 2026

 

Uma Jornada de Luz: 58 Anos de Amor e Fraternidade em Brasilândia.

Carlos Alberto dos Santos Dutra






Assim poderia ser dito aos irmãos, cunhadas, sobrinhos e aos bem-vindos convidados que congregam o entorno desta entidade.

Hoje, nossos corações batem no mesmo compasso. Um compasso que começou a ditar o seu ritmo no dia 19 de maio de 1968. Há exatos 58 anos, nascia a Augusta e Respeitável Loja Simbólica Estrela do Ocidente nº 12.

Ela não nasceu por acaso. Ela floresceu junto com a própria terra de Brasilândia, entrelaçando sua história à história de cada família desta cidade. 

Olhar para trás, para esse quase sessenta anos de caminhada, é enxergar uma trilha pavimentada por homens e mulheres de valor. Homens que entenderam que ser maçom não é buscar honrarias. É despir-se do egoísmo. 

É ter o caráter moldado na justiça e estender a mão a quem mais precisa. É praticar a caridade da forma mais pura que existe: no silêncio, acolhendo o necessitado com o calor de um abraço, sem nunca humilhá-lo. 

Aqui, encontramos o alicerce da família e o aroma da Acácia. Nesta noite de festa, a emoção transborda ao olharmos para o lado e vermos nossas famílias unidas. Lembramos, com imensa gratidão, de cada jantar de confraternização, de cada amigo secreto no fim do ano e das risadas de nossos filhos correndo pelo templo. 

Esses momentos são a verdadeira tradução do nosso plano maior: unir as famílias. E o que seria de nós sem a força vibrante e acolhedora do Clube das Acácias? Às nossas eternas companheiras, que receberam aquelas luvas brancas como símbolo de pureza, o nosso mais profundo respeito. 

Vocês são as sacerdotisas dos nossos lares. Com a suavidade e a resiliência da Acácia — essa planta sagrada que desafia o tempo e representa a imortalidade da alma —, vocês transformam a caminhada em um jardim de solidariedade e amor ao próximo. 

Sim, gratidão ao passado e fé no futuro.

Que se rendam graças e homenagens a todos os irmãos que já presidiram esta oficina de irmandade, aos fundadores e àqueles que hoje nos assistem do Oriente Eterno. Cada tijolo dessa construção espiritual e social carrega o suor, a dedicação e o amor de vocês. 

Que o Grande Arquiteto do Universo continue a abençoar a Estrela do Ocidente nº 12. Que a luz jamais se apague e que continue a ser, como outrora, o porto seguro e o farol de esperança para o povo de Brasilândia. 

Feliz aniversário, Estrela do Ocidente!

Brasilândia/MS, 19 de maio de 2026.

 58º aniversário de fundação da ARLS Loja Maçônica Estrela do Ocidente nº 12.

Para saber mais consulte: História e Memória de Brasilândia, vol. 2-Patrimônio, Pág. 315-320 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

 

A Bênção, vovó Aparecida Monção Batista

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 







Um dia, os caminhos me levaram até aquela casa. O calendário marcava o ano de 2016, mas o motivo exato se perdeu no tempo, como se o destino apenas quisesse me guiar ao aconchego.

Desde a porteira do sítio, a singeleza do lugar já anunciava um abraço. Conforme o carro se aproximava, a casa de madeira ia se revelando, emoldurada por uma varanda espaçosa que a contornava inteira, como se o próprio lar vestisse uma saia rodada de crochê.

No desvão das colunas de madeira rústica, a natureza fazia morada: folhagens delicadas, flores em vasos e trepadeiras suspensas dividiam espaço com samambaias e rosas em pequenos potes. Aquele cenário transformava a realidade em poesia, tal qual uma casa encantada saída dos contos de fadas.

E lá estava ela. Pequenina em estatura, com um corpo franzino que carregava a leveza dos anos e a pele docemente enrugada pelo tempo. No rosto, trazia um discreto e eterno sorriso estampado. Seus olhos miúdos e profundamente atentos pareciam guardar distâncias vividas e segredos do passado, brilhando intensamente ao nos olhar. Com passos firmes que desafiavam a idade, exalando um vigor que vinha da alma, ela caminhou ao nosso encontro e nos acolheu de braços abertos.

Ali reluzia a rainha do lar, o centro de gravidade daquela casa e a razão da nossa jornada. Dona Aparecida Monção Batista era a grande regente da melodia daquele lugar. Eu e minha esposa, Vilma, sentimo-nos profundamente lisonjeados por tanta ternura. Pouco depois, com um gesto terno, ela nos conduziu até a cozinha.

No coração da casa, fomos recebidos por uma mesa farta e generosa, preparada para o café da tarde. Pães dourados e cucas caseiras repousavam sobre uma toalha florida, cercados pelo aroma do leite fresco, do queijo e das geleias. Tudo ali tinha o divino sabor colonial que só as mãos e as memórias de Dona Aparecida sabiam despertar.

Pioneira e fundadora daquele povoado, ela chegou a Brasilândia no distante ano de 1956. Lembrava-se de cada detalhe, desde os primeiros passos da cidade ao lado de Arthur Höffig. Enquanto ela resgatava essas relíquias do tempo, seu filho Nilvo a amparava com as datas e os fios das recordações. Foi no dia 12 de julho daquele mesmo ano de chegada que Nilvo nasceu, lembrou. Ao lado, Dirce sorria com os olhos cheios de admiração diante das narrativas daquela doce mãe octogenária, alimentando o encantamento deste historiador.

Dona Aparecida recordou o tempo das primeiras escolas rurais, sob a gestão do prefeito Marques Neto. Depois, evocou a época do prefeito Patrocínio, quando nasceu a primeira escola estadual da cidade: o Centro Educacional Pedro Pedrossian, que abrigou sonhos até 1978 onde hoje funciona a prefeitura. Mais tarde, esse templo do saber ganhou um novo endereço e o nome do ex-prefeito Adilson Alves da Silva, cuja jornada foi abreviada em um acidente de carro. Nilvo, que se tornou professor, recorda com orgulho no peito que fez parte da primeira turma a se formar naquela instituição.

Para Dirce, ver Dona Aparecida tão lúcida, vibrante e cheia de vida era um espetáculo de pura luz. Católica fervorosa, sua fé era o seu norte: nunca deixou de caminhar nas missas, procissões e celebrações da Paróquia Cristo Bom Pastor desde o dia em que fincou suas raízes na cidade. Querida por todos, ela conhecia a vida em sua essência mais pura e crua, mantendo sempre as mãos estendidas para quem precisasse de amparo.

A tarde foi derramando suas luzes douradas e, após folhearmos o passado guardado nas poucas fotografias do álbum de família, chegou a hora da despedida. Agradecemos a imensa hospitalidade e partimos. Conforme o carro se afastava pela estrada, uma sensação terna nos invadia, como se um pedaço de nossos corações tivesse escolhido ficar ali.

Hoje, os filhos, netos e bisnetos que choraram a partida para o céu de sua grande matriarca, rememoram a saudade. Nas vozes embargadas pelas lembranças, ecoa a certeza de que ela foi, e sempre será, a rainha e a avó mais dedicada. Era para os seus braços que os netos corriam em busca de uma bênção, de um cheiro e de um beijo terno. Há, nos corações daqueles que tanto a amaram, o lamento doloroso de um último beijo que a distância e a malfadada doença não permitiram entregar. Mas a saudade que fica é também a prova desse amor imensurável.

Dona de um coração gigante, bom e generoso, Aparecida era uma mulher doce ao modo antigo: tinha o dom raro de enxergar a alma das pessoas, sem se importar com as aparências. Sábia, autêntica e desbravadora, ela esculpiu sua trajetória com os fios da dignidade, do respeito e do trabalho honesto. Raridade nos dias de hoje, ela se tornou credora de toda a nossa admiração.

Fará falta o eco de sua voz reunindo a família ao redor da mesa para partilhar conselhos e histórias. Mesmo quando silenciava, Dona Aparecida deixava falar a voz do coração — a única linguagem universal que todos compreendem.

Obrigado, vovó Aparecida Monção Batista, por aquela tarde eterna e imorredoura que nos brindou há 10 anos. Saudade eterna desta serena guerreira da vida.

 

Brasilândia/MS, 18 de maio de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/05/a-bencao-vovo-aparecida-moncao-batista.html 18 de maio de 2021.

Foto: Vilma Galli Dutra, 2016