A Arataca e a Ferida que mais Dói
Relato de um guardião da natureza
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra
As palavras que grito ao telefone são duras, eu sei.
Elas saem do meu peito como lâminas afiadas, fazendo a boca sangrar. Mas a
ferida que mais dói em mim não é a do metal; é o desalento de ver o caos
engolir o bem mais precioso que Deus me deu para proteger: esta terra, esta
mata, os filhos do mato.
Eu ligo para a secretaria de meio ambiente e grito. Minha
voz é puro estopim: — Vocês não fazem nada! Sempre pedi vistorias... Veja
este vídeo que te mando, olhe o tamanho da nossa culpa! Nas imagens, a
armadilha fria espreita na sombra das árvores. Uma arataca disfarçada de
sossego.
Minha indignação tem o formato de uma ausência.
Encontrei a caveira do veado-de-rabo-branco bem ali, onde a minha propriedade
faz divisa com o silêncio sagrado da Reserva Cisalpina. Andavam caçando dentro
da minha Área de Preservação Permanente. A minha APP, que deveria ser um
templo, virou um matadouro.
Ali, quase todo mundo esconde o hálito da pólvora em
armas ilegais. Eu imploro ao secretário: — Faça mandados, recolha o ferro
que mata a floresta... Eu juro que não abro a boca para ninguém. Só quero
salvar o que resta.
Sou apenas um homem idoso, um ambientalista sem farda,
testemunhando o avanço da morte na beira da mata. Logo agora... logo agora que
as onças-pintadas haviam entendido que aqui era um lar seguro. Nós flagramos
duas delas, lindas, majestosas, atravessando a fronteira do estado de São Paulo
para as terras de Mato Grosso do Sul... Procuravam vida, encontraram o medo.
Só quem mora no miolo da floresta, longe das luzes da
cidade, conhece a espessura dessa solidão. É um desamparo que aperta o peito. —
Mataram o meu veadinho... Ele vinha manso, com os cascos leves, comer o sal
junto com o gado. Era um pedaço da minha família, uma espécie em extinção que
confiava nos meus olhos. Agora, resta apenas a carcaça seca no pasto.
Sinto-me um Dom Quixote velho, desarmado, gritando
contra moinhos de impunidade e vento. — Mova-se, Carlito! Faz alguma coisa
ou pede demissão! Se você quiser, eu te levo pelas trilhas, antes que eles
sumam com as armadilhas. Sei onde tudo está. As antas vinham direto buscar o
mamão maduro que caía dos pés; os catetos passavam em bandos alegres, mas
mataram todos.
O homem é cruel: joga milho na arataca, ceva a fome do
bicho e, quando ele entra, a fechadura da tampa desaba como um caixão. Se eu
pegar um caçador perseguindo a nossa biodiversidade, juro que atiro. Mas Deus
sabe que hoje não carrego armas; não sou criminoso. Minhas mãos estão limpas,
pois arma boa serve apenas para prender bandido.
Quando a noite cai em Brasilândia, o silêncio deveria
ser um manto. Mas ele é rasgado pelo estampido seco de uma bala em busca de
carne e sangue. Com os dedos trêmulos, digito no celular: — Atende, pelo
amor da natureza! É tua obrigação moral agir. Eu fiz a minha parte. Já me
ameaçaram quando denunciei as aratacas que engoliam os catetos e as queixadas.
Já atiraram no meu veadinho.
Sei que somos pequenos Davis contra Golias
gigantescos. Sei que a ordem do mundo lá fora é "deixar passar a
boiada", desbotando o verde das nossas matas nativas, o vermelho fértil do
chão, o azul das nossas águas e o amarelo prateado que corre no pelo dos
bichos. A floresta está em fuga, intoxicada pelo veneno e pelas queimadas.
Mas eu continuo aqui, gritando no ouvido dos que têm o
poder. Olho para os jovens, para os professores, para os meus irmãos de fé,
implorando para que cuidem da nossa Casa Comum. Brasilândia não pode ser a
terra da despedida, precisa ser a cidade da esperança. Que um raio de luz desça
sobre nós antes que a última arataca se feche.
Brasilândia/MS, 1º de dezembro de 2025. Cf.