domingo, 19 de julho de 2026

 

Os Mistérios do Coração e a Pedagogia da Paciência de Deus

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra





A liturgia da Palavra deste Domingo nos convida a entrar em um território profundo, íntimo e, às vezes, desconfortável: os mistérios do nosso próprio coração. Jesus, através da conhecida Parábola do Trigo e do Joio (Mt 13, 24-43), revela-nos a realidade das coisas escondidas, o mal que nos circunda e, acima de tudo, o perigo imenso da nossa própria intolerância diante da infinita paciência de Deus. 

O Joio Inesperado e o Parasita Oculto. O Evangelho nos mostra o espanto dos servos ao verem o joio crescer onde apenas sementes boas foram plantadas. Na antiguidade, o joio de que Jesus fala era o Lolium temulentum. Essa planta tem uma característica impressionante: em sua fase inicial, ela é visualmente idêntica ao trigo. Elas crescem juntas, confundem os olhos e entrelaçam suas raízes sob a terra. Mais do que isso, a ciência e a história nos ensinam que a ação intoxicante do joio não vem da planta em si, mas de um parasita, um fungo oculto que habita dentro dela e contamina a espiga. 

Trazer isso para a nossa vida espiritual e comunitária é um choque de realidade. O mal que nos circunda, e que muitas vezes nos fere, opera dessa forma: silencioso, disfarçado e infeccioso. E o pior: o joio inesperado costuma aparecer justamente quando estamos fracos, cansados, ou nas madrugadas da nossa alma, quando o inimigo aproveita o nosso sono para semear a discórdia. 

A Nossa Reação Humana. Diante do joio, qual é a nossa reação natural? É a mesma dos servos: queremos a erradicação imediata. Queremos arrancar o mal pela raiz! Quando nos deparamos com o "joio" em nós mesmos — o desânimo, a dúvida que surge do nada, o abalo na fé, o sentimento de vergonha e a impotência — nossa primeira reação é a revolta. Perguntamos a Deus: "A semente que o Senhor plantou em mim não era ótima? Por que nasceu esse joio no meu coração?" 

Essa mesma intolerância nós aplicamos aos outros. Somos fortemente tentados a condenar de imediato aqueles que se aproximam de nós e nos ferem, nos desiludem ou nos decepcionam. Quando alguém coloca a nossa fé ou a nossa paz em risco, nossa justiça humana clama por uma sentença rápida. Quantas vezes, em pensamento ou atitude, "condenamos ao inferno" pessoas que nos causaram mal? Fazemos isso sem dar a elas o tempo e a oportunidade da conversão. Somos severos, rígidos e impacientes. 

A Pedagogia de Deus. Mas Jesus nos freia. Diante do pedido dos servos para arrancar o joio, a resposta do Mestre é categórica: "Não! Para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele.". Jesus condena qualquer julgamento sumário. Por quê? Porque na dúvida, na pressa, a nossa reação humana é pautada pelo medo, pelo orgulho ou pelo desejo de vingança. Deus, em sua soberana sabedoria, cuida de todas as coisas com uma pedagogia que nós desconhecemos. Na fase de crescimento, o joio e o trigo se parecem. Só depois de adultos, na hora da colheita, eles se revelam pelos seus frutos. Se Deus agisse como nós agimos, muitos santos da nossa Igreja teriam sido arrancados antes de darem frutos, pois um dia foram joio. Pensemos em São Paulo, que perseguia cristãos; pensemos em Santo Agostinho. A paciência de Deus é o espaço que Ele dá para que o joio possa se transformar em trigo. Deus ama tanto o trigo que prefere tolerar o joio por um tempo a correr o risco de perder uma única espiga boa. 

Lição para a Vida. Qual é, portanto, a lição central para as nossas vidas hoje? Olhar para dentro e confiar no reino. Em primeiro lugar, não se preocupe tanto com a vida alheia. Não fomos chamados para ser os "juízes da colheita", fomos chamados para ser trigo. O julgamento pertence a Deus. Cada um receberá o seu próprio juízo no final dos tempos.

Em segundo lugar, cuide do seu próprio coração. O verdadeiro combate ao mal começa dentro de nós. Precisamos combater o mal interior para deixar o trigo da graça florescer. Em vez de gastar energia apontando o joio no campo do vizinho, olhemos para as nossas próprias raízes. Deixemos que a oração e a graça divina curem os nossos parasitas internos — o orgulho, a fofoca, a amargura. 

Hoje, no dia a dia da comunidade identificar o Joio Moderno que aflige os nossos corações é tarefa difícil. Isso porque ele pode se manifestar também no campo social com igual influência sobre todos nós. É o caso do Joio Digital que semeia em nossos corações a cultura do cancelamento e do julgamento rápido. Senão vejamos: as redes sociais tornaram-se o tribunal do mundo moderno. Diante de um erro, de uma notícia falsa ou de um mal-entendido, a reação imediata da internet é "arrancar o joio": linchar virtualmente, expor, humilhar e cancelar a pessoa. Se olharmos para o Evangelho de hoje, podemos dizer que o “joio moderno se veste de justiça virtual. Queremos destruir a reputação de alguém instantaneamente, sem dar tempo para a verdade aparecer, sem direito à defesa e sem espaço para o perdão. Agimos exatamente como os servos impacientes, esquecendo que o tribunal da internet destrói vidas (o trigo) na pressa de punir o erro.". 

Da mesma forma o Joio Familiar que semeia a intolerância nas relações diárias. Por exemplo: um filho que se afasta da Igreja, um cônjuge que passa por uma crise de fé ou de humor, ou um parente que comete um erro grave que envergonha a família. "Muitas vezes, o joio aparece dentro de nossa casa sob a forma de uma decepção. A nossa tentação é apontar o dedo, condenar, gritar ou nos afastar agressivamente. Esquecemos que aquela pessoa que nos feriu pode estar passando por um momento de fraqueza, intoxicada por dores que não conhecemos. A pedagogia de Deus nos pede paciência para amar e rezar por eles, esperando os frutos da conversão, em vez de expulsá-los de nossas vidas."

E ainda, aquele joio que acomete aqueles mais bem intencionados no coração da igreja:  o Joio Interior. Isto é, aquele católico que faz muitas coisas boas, trabalha na paróquia, ajuda os pobres, mas, por dentro, está cheio de soberba, vaidade, amargura ou ressentimento crônico. Aplicando o Evangelho podemos dizer: "Lembremos do Lolium temulentum: ele se parece com o trigo por fora, mas está intoxicado por um parasita por dentro. O joio moderno mais perigoso é o que guardamos no coração. Podemos parecer cristãos perfeitos externamente (trigo), mas se estivermos habitados pelo parasita da hipocrisia, da mágoa ou do desejo de vingança, nossa vida se torna tóxica para os irmãos. Precisamos da graça de Deus para purificar o que está escondido em nós.". 

Deus é paciente e amoroso para com todos. Ele nos dá o tempo necessário para que possamos amadurecer e integrar plenamente o Seu Reino, mesmo que para isso tenhamos de passar pelo processo longo da vida até o Juízo Final. Nesta Celebração (16º domingo do tempo comum) peçamos ao Senhor o dom da paciência — para com os outros e para conosco. Que a mesa do Altar e da Palavra nos nutra, para que sejamos trigo limpo, forte e gerador de vida, confiando que o Senhor da colheita sabe perfeitamente guiar a história e salvar os Seus filhos.

 

Capela São Vicente de Paulo e Igreja Matriz da Paróquia Cristo Bom Pastor, Brasilândia/MS, 19 de julho de 2026.

 

 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

 

Sementes da Terra: A Trajetória de Luta e Resiliência dos Pioneiros da APASF

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




Celebrar a história da APASF (Associação de Produtores Agroecológicos de Subsistência Familiar) é resgatar uma trajetória profunda de união, suor e persistência no coração do município de Brasilândia. Fundada em 19 de julho de 2003, a associação nasceu no Reassentamento Santana com uma missão nobre: defender os direitos sociais e impulsionar o desenvolvimento da produção agroecológica e comunitária. Olhar para trás e lembrar de cada homem e mulher que colocou as mãos na terra para erguer essa história é prestar uma justa homenagem aos verdadeiros pioneiros da agricultura familiar da nossa região.

O Começo de Tudo: Os Primeiros Passos e Líderes. O caminho da cooperação começou a se consolidar formalmente em 15 de junho de 2004, com a aprovação do estatuto social e a eleição da primeira diretoria. Sob a liderança do primeiro presidente, João Batista do Nascimento, ao lado do vice-presidente João Pereira da Silva, e de nomes fundamentais como José da Silva Pinto, José Luiz Petelinkar, José Etinho de Souza e Maria Aparecida de Oliveira, a APASF ganhou estrutura e voz. No conselho fiscal, o compromisso foi fortalecido por titulares e suplentes que zelaram pelos primeiros passos coletivos da organização.

A conquista do primeiro espaço físico ocorreu com a cessão de um barracão de alvenaria de 220 metros quadrados e uma área de 15 hectares. Foi nesse pedaço de chão que a entidade firmou suas raízes, plantando, cultivando e comercializando o fruto do trabalho familiar, abrindo as portas também para os primeiros financiamentos coletivos e sonhos que transformariam a comunidade.

A Luta por Dignidade e Infraestrutura Básica. A história desses pioneiros nunca foi marcada pela facilidade. Em 2004, demonstrando uma forte consciência política e coletiva, um grupo de 37 proprietários de lotes dos Reassentamentos Santana e Santa Emília uniu-se para reivindicar o básico. Representados pela diretoria da associação, recorreram ao Ministério Público para garantir o direito de opinar sobre os rumos de recursos bloqueados, buscando direcioná-los para investimentos essenciais na própria comunidade.

Eles recordavam às autoridades que a implantação da infraestrutura básica vinha se arrastando desde o ano 2000. A água, essencial para a vida e para a lavoura, dependia de caminhões-pipa abastecidos por um poço perfurado. Faltava energia elétrica para cerca de 30% do reassentamento e um sistema definitivo de abastecimento hídrico. Essa mobilização inicial mostrou que a APASF ia muito além da produção: era um instrumento de luta por cidadania e dignidade.

O Caso das Queixadas: Resiliência Diante da Natureza. Ao longo dos anos, novas diretorias assumiram o bastão para dar continuidade ao trabalho, como a segunda gestão liderada novamente por João Batista do Nascimento, e a terceira, presidida por José Luiz Petelinkar. Foi durante esses anos de consolidação que a comunidade enfrentou provações que testaram a sua união, como o marcante Caso das Queixadas em janeiro de 2009.

Na madrugada do dia 13 de janeiro daquele ano, uma manada de queixadas (porcos-do-mato) vinda de uma reserva ambiental vizinha invadiu a plantação de mandioca de João Brito de Souza, então presidente da associação, destruindo grande parte de sua roça. Diante do enorme prejuízo financeiro e da ameaça à subsistência, a resposta da comunidade não foi o isolamento, mas a coletividade. Uma assembleia extraordinária reuniu 37 associados, técnicos agrícolas e defensores ambientais para buscar soluções integradas e cobrar dos responsáveis novas cercas e um manejo adequado para os animais. Esse episódio eternizou o espírito de mútua ajuda que define a associação: a dor de um produtor era a dor de todos.

Um Legado de Utilidade Pública. Todo esse esforço e dedicação foram oficialmente reconhecidos em 11 de junho de 2010, quando a APASF foi agraciada com a declaração de utilidade pública municipal através da Lei nº 2356/10. Essa conquista foi o selo de que a batalha travada nos reassentamentos Santana e Santa Emília gerou frutos que beneficiaram toda a sociedade de Brasilândia.

A caminhada seguiu forte, alcançando a quarta diretoria em 2013 sob a liderança de assembleias participativas coordenadas por nomes como Jorge Luiz da Silva e o próprio João Brito de Souza.

Hoje, ao celebrar mais de duas décadas de história, prestamos nossa sincera homenagem a cada pioneiro, parceiro, trabalhador e líder que transformou a APASF em um símbolo de resistência da agricultura familiar. Que a coragem daqueles que começaram em 2003 continue a inspirar as futuras gerações a proteger a terra, valorizar a agroecologia e manter viva a força da nossa comunidade.


 Brasilândia/MS, 18 de julho de 2026

Fonte: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, vol. II-Patrimônio, pág. 338s.


 As lembranças vivas de Dona Ana: Uma história de força, luta, silêncio e raízes em Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra




 




Quem viaja pela rodovia BR-158 e decide fazer uma breve pausa no Bar do Rio Verde, estabelecimento cuidado pelo senhor José Gomes e por dona Neuza, mal imagina a preciosidade histórica que ali reside. Naquele ponto, resguarda-se a memória viva de Ana Pereira Gonçalves, uma baiana nascida nas bandas do Riacho de Santana que testemunhou os primeiros passos da colonização de Brasilândia, chegando ao local quando existiam somente duas casas cercadas pelo cerradão.

A trajetória cronológica de dona Ana carrega as marcas e mistérios de um Brasil antigo. Embora ela própria afirme ter nascido em 1923, sua certidão de casamento lavrada na Bahia aponta o ano de 1926, enquanto sua identidade recente registra 1933. Divergências burocráticas à parte, o que preenche verdadeiramente a sua história são as recordações indeléveis de uma vida moldada pelo trabalho duro e pela superação.

A sua caminhada ganhou um rumo definitivo em 17 de agosto de 1951, dia em que se casou com o lavrador Izaías Gonçalves da Cruz. O início dessa união teve traços de predestinação e ousadia: Izaías, que já tinha casamento marcado no estado de São Paulo, retornou à Bahia para buscar seus familiares e, ao cruzar o caminho de Ana, mudou seus planos repentinamente, escolhendo-a para ser sua companheira de vida. Juntos, deixaram o solo baiano rumo às lavouras paulistas de Sorocaba e Araraquara nos anos cinquenta, dedicando-se exaustivamente ao plantio de algodão e hortelã, até migrarem em definitivo para o território sul-mato-grossense na década de sessenta.

Por trás do olhar sereno de dona Ana oculta-se a dor de uma das maiores privações de sua vida: a negação ao conhecimento. Criada sob a forte rigidez de um pai que acreditava convictamente que mulher não precisava de leitura, ela foi privada de frequentar a escola. Sem aprender sequer a assinar o próprio nome, dona Ana passou a carregar no polegar direito a sua única forma de registro. Em um desabafo carregado de emoção, ela revela que não sente orgulho pela riqueza ou pela beleza alheia, mas confessa guardar uma profunda inveja da escrita, pelo poder de ler o mundo que lhe foi negado.

A lida doméstica e o cuidado com a família tornaram-se o seu refúgio e o seu legado. Mãe de nove filhos biológicos e responsável pela criação de outras três crianças, ela permaneceu firme no gerenciamento do lar enquanto o marido e os filhos mais velhos trabalhavam nas terras que adquiriram na Cabeceira Perdida e no córrego Beleza. Naquela Brasilândia primitiva — onde a solidariedade entre vizinhos supria a ausência de médicos e de prefeitos —, as crianças brincavam juntas nas veredas da icônica fazenda Toca da Raposa, uma propriedade de 20 alqueires adquirida por seu marido.

O destino, contudo, impôs uma despedida precoce e dolorosa. No dia 13 de setembro de 1969, após lutar bravamente ao lado de companheiros para apagar um incêndio que consumia o pasto local, seu Izaías cometeu o erro fatal de beber água fria em uma moringa de barro com o corpo ainda quente. O choque térmico provocou um derrame cerebral fulminante. Mesmo socorrido às pressas por estradas de terra e transportado de bote e trem até centros médicos maiores, ele não resistiu, deixando dona Ana viúva com filhos pequenos para criar sozinha.

Apesar do sofrimento, a herança de trabalho deixada pelo casal confunde-se com a própria fundação de Brasilândia. Seu Izaías foi um dos braços fortes que ajudaram a erguer o Cruzeiro, marco inicial do município, além de ter trabalhado na edificação do primeiro cemitério de pau a pique da localidade. Embora a família lamente que o nome desse pioneiro nunca tenha sido eternizado em uma rua da cidade, a verdadeira homenagem reside na imensa ramificação que o casal fincou naquela terra.

Hoje, ao olhar para trás, os olhos de dona Ana brilham com o contentamento de quem venceu a aspereza do tempo. Mãe, lavradora e guardiã de memórias, ela encontra nos braços de seus 23 netos, 32 bisnetos e um tataraneto a escrita mais bonita que a vida lhe permitiu redigir: a história contínua de sua própria linhagem.

Então. Se você passar pela BR-158 antes da ponte Pedro Pedrossiam, e parar no Bar do Rio Verde, saiba que ali se encontra uma joia rara que o local esconde. Ali vive Dona Ana Pereira Gonçalves, que no dia 26 próximo completará 100 anos de idade. Uma baiana forte que chegou a Brasilândia quando a cidade tinha apenas duas casas e muito cerradão, como ela mesmo lembra. Sua trajetória é o retrato de milhões de mulheres que desbravaram o interior do Brasil, marcadas pela fé, a esperança e superações profundas. Uma mulher que carrega em seus olhos a própria história viva de Brasilândia. Obrigado por tanto, Dona Ana! Feliz Aniversário. Deus a abençoe.

Brasilândia/MS, 17 de julho de 2026.

Fonte: Mais detalhes de sua biografia se encontram publicados originalmente em https://carlitodutra.blogspot.com/2021/09/dona-ana-pereira-goncalves-e-as.html

Foto: Paróquia Cristo Bom Pastor

 

 

Vander Loubet e a Saga da Rodovia Luigi Cantone: História, Preservação e Identidade em Brasilândia

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 





Todo brasilandense conhece o trecho da BR-158 que corta a Reserva Cisalpina. É a rota vital que conecta o município de Brasilândia (MS) à cidade de Paulicéia (SP) através da imponente Ponte Estaiada Mário Covas, com seus 1.705 metros de extensão sobre o Rio Paraná. Para os moradores mais antigos, essa é a eterna “velha estrada do porto”, imortalizada pela melodia de Cidão da Viola — o nosso Tião Carreiro, que levou a alma de nossa terra para o cenário nacional.

Poucos conhecem, entretanto, a rica história por trás do nome dessa estrada de aproximadamente 20 quilômetros. Ela atravessa o coração da maior região alagada do município, o nosso "pequeno pantanal", conhecido como os varjões de Cisalpina.

 O Início de Tudo: A Homenagem Necessária. Essa jornada começou em 2007. Na época, eu estava à frente do Instituto Cisalpina, uma combativa entidade ambientalista que fundei em 2003 e presidi até 2022. Foi quando encaminhei a minuta de um projeto de lei ao deputado estadual Akira Otsubo. O parlamentar apresentou a proposta à Assembleia Legislativa para denominar como Rodovia Luigi Cantone o trecho da então MS-040. A estrada cruzava os 22.866 hectares da Reserva Cisalpina, área que pertencia à CESP e estava em vias de se tornar uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

A iniciativa prestava uma justa homenagem ao pioneiro empresário italiano e engenheiro agrônomo, naturalizado brasileiro, que se estabeleceu em Brasilândia em 1952 como orizicultor. Ao longo das décadas, Cantone tornou-se o verdadeiro precursor do ambientalismo responsável na região do Bolsão sul-mato-grossense.

O Projeto de Lei nº 149/2007 foi aprovado em tempo recorde. Sancionado pelo então governador André Puccinelli em 31 de outubro de 2007, transformou-se na Lei nº 3.430, publicada na primeira página do Diário Oficial do Estado no dia seguinte. A legislação oficializou o nome da rodovia desde a cabeceira da ponte sobre o Rio Paraná até o perímetro urbano de Brasilândia, no encontro com a Avenida José Estevam da Silva Filho.

A Federalização e a Luta pela Memória. No ano seguinte, o trecho de 19,5 km da MS-040 foi federalizado pela Portaria nº 170 do Ministério dos Transportes/DNIT, sendo incorporado à BR-158/MS. O processo foi consolidado pelo Extrato de Transferência de Patrimônio nº 01/2009.

A mudança de jurisdição, contudo, iniciou uma nova batalha para a comunidade. Foram anos de diálogo com órgãos estaduais e federais para garantir a instalação da sinalização correta, respeitando a lei estadual. Em março de 2013, em resposta ao meu pedido, o deputado federal Vander Loubet informou, via ofício, que cobrava o DNIT desde 2011 sobre a manutenção do nome na transição para a malha federal. Loubet manifestou o firme propósito de formalizar um projeto de lei federal para blindar a denominação de Luigi Cantone nesse trecho.

O Encontro Decisivo e o Futuro da Estrada. O pleito aguardou por mais de uma década. Em 2025, ao assumir a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo, viajei a Brasília com a prefeita Márcia do Amaral. O destino me colocou frente a frente com o assessor do deputado Vander Loubet, Ido Luiz Michels. Foi o momento exato para retomar a pauta. Ao resgatar o histórico de correspondências, o assessor prontamente localizou os registros e redigiu um novo ofício ao superintendente do DNIT. Menos de uma semana após nosso retorno, a resposta oficial já estava em nossa mesa.

Ainda há um longo caminho para sensibilizar os poderes públicos sobre a importância de preservar o patrimônio cultural e histórico de nossa cidade. Este artigo busca dar voz ao desejo da comunidade local. Uma voz que foi atentamente percebida pelo deputado Vander Loubet, a quem agradecemos o empenho em unir forças junto ao DNIT para a instalação de placas de sinalização e de caráter educativo.

Essas placas servirão para duas missões urgentes:

  • Proteger a fauna: alertando motoristas sobre o risco de atropelamentos nesta sensível Área de Preservação Ambiental.
  • Preservar a história: estampando de forma definitiva a nomenclatura oficial da nossa estrada.

A história se faz com persistência. Força e empenho da comunidade!

 

Brasilândia/MS, 17 de julho de 2026.
Dia do Protetor das Florestas.
Foto Capa: Alessandro Zioti
Foto abaixo: Carlito Dutra (Cimi), 1987 (Cecílio, CPT; Lauri, Padre; Luigi Cantone; Ataíde Xehitâ-ha Ofaié e Anamaria, esposa de seu Cantone.












































Secretário de Meio Ambiente e Turismo, Carlito Dutra, e a Prefeita de Brasilândia/MS, Márcia Amaral entregam ao Chefe de Gabinete do Deputado Federal Vander Loubet, Prof. Dr. Ido Luiz Michels, o livro Histórias da Mitologia Ofaié, de autoria da Profª. Ilda de Souza com a participação dos indígenas Professores Ofaié: José de Souza Kói, Elizangela Eliandes e Silvano Moraes.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

 

13 anos de histórias, encontros e direitos: A trajetória da Associação Viva a Vida de Apoio à Terceira Idade

Carlos Alberto dos Santos Dutra



O tempo passa, mas as marcas de uma trajetória construída com amor, união e propósito permanecem indeléveis. Celebrar o aniversário de uma instituição é muito mais do que contar os anos no calendário; é reviver memórias, homenagear quem abriu os caminhos e agradecer a cada pessoa que dedicou sua energia para transformar uma ideia em realidade.

Neste ano, a Associação Viva a Vida de Apoio à Terceira Idade, do nosso município de Brasilândia, completa 13 anos de fundação. Mais do que uma data comemorativa, este marco representa mais de uma década gerando convivência, promovendo o lazer e, acima de tudo, defendendo os direitos e o bem-estar dos idosos da nossa comunidade.

Para entender o tamanho dessa conquista, precisamos voltar no tempo e honrar o alicerce onde tudo começou.

O começo de tudo se deu pela coragem e o pioneirismo das mulheres. Toda grande história tem um ponto de partida. A da Associação Viva a Vida começou a se desenhar em 26 de junho de 2013, quando uma Comissão Pró Formação — liderada com muita determinação por Aparecida Oliveira da Silva e Maria Rosa Pereira Magalhães — lançou o edital que convocaria a população de Brasilândia para uma missão especial.

Pouco tempo depois, no dia 14 de julho de 2013, em uma assembleia geral realizada na Câmara Municipal, a associação nascia oficialmente. Com o objetivo claro de seguir as diretrizes do Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), a entidade assumiu o compromisso de criar um espaço que oferecesse mais do que distração: um ambiente de aprimoramento físico, artístico, social e cultural através de palestras, seminários e atividades recreativas.

Logo no início, em 1º de agosto do mesmo ano, a conquista do CNPJ próprio consolidou a Viva a Vida como uma das instituições mais sérias e dedicadas do município. Mas as engrenagens dessa máquina de fazer o bem só se moveram graças a corações dispostos a liderar.

E lá estavam elas. Duas Presidentes, uma só missão: O legado de Jovelina e Jesuína. Falar dos 13 anos da associação é falar, obrigatoriamente, de duas mulheres extraordinárias que souberam conduzir o grupo com sabedoria, alternando papéis com um espírito de parceria institucional admirável: Maria Jovelina da Silva e Jesuína Camargo de Toledo.

Maria Jovelina da Silva assumiu o desafio de ser a primeira presidente da associação, liderando o triênio pioneiro de 2013 a 2016. Com passos firmes, ela estruturou os primeiros anos da entidade. Mais tarde, seu amor pela causa ganhou proporções ainda maiores: atuando como vereadora, Jovelina apresentou o Projeto de Lei que resultou na sanção da Lei 2.689/2017, declarando a associação como de Utilidade Pública Municipal. Mesmo após sua presidência, continuou atuando firmemente na base como conselheira fiscal titular.

Jesuína Camargo de Toledo foi o braço direito de Jovelina desde o primeiro dia, ocupando o cargo de vice-presidente na gestão fundadora. O entrosamento e o compromisso eram tão grandes que, no triênio seguinte (vigendo até 2020), Jesuína foi eleita presidente da associação. Sob o seu comando, a Viva a Vida continuou expandindo suas atividades, acolhendo novos membros e mantendo acesa a chama do congraçamento e do respeito à melhor idade.

E a entidade continuou mantendo sua força na continuidade de lideranças que fizeram a diferença. Nenhum presidente governa sozinho. O verdadeiro segredo da longevidade e do sucesso da Associação Viva a Vida reside na lealdade e na persistência de seu corpo diretivo. Vários membros demonstraram um compromisso exemplar com a causa ao aceitarem a responsabilidade de guiar a instituição ao longo das duas primeiras gestões consecutivas:

Luiza Dias do Vale: A voz da organização, que atuou com dedicação e zelo como secretária em ambas as diretorias; Verônica Hippler: A guardiã dos recursos, cuidando das finanças da associação como tesoureira nos dois primeiros mandatos; Elli Rojas Romero de Aquino: Uma conselheira atenta e presente, exercendo o papel de titular do conselho fiscal nas duas gestões; Joana Sanches de Lima (in memoriam): Sinônimo de suporte constante, atuando ativamente na proteção administrativa do conselho fiscal nos dois períodos.

Tereza Franzin Tomé: Começou sua trajetória como suplente do conselho fiscal na primeira diretoria e, devido ao seu envolvimento com a causa, foi eleita vice-presidente na segunda gestão, ao lado de Jesuína. Não podemos esquecer também do apoio técnico e jurídico do colaborador Carlos Alberto dos Santos Dutra, que esteve presente desde a assembleia de fundação, garantindo que a entidade caminhasse passos seguros dentro da legalidade.

E então? O que os 13 anos nos ensinam? Desde a sua sede provisória na Rua Adilson Alves da Silva, no Bairro João de Abreu, até os dias de hoje, a Associação Viva a Vida provou que o envelhecimento deve ser celebrado com dignidade, alegria e integração. Ela ensina que a terceira idade não é o fim de um ciclo, mas sim um momento rico para a troca mútua de experiências e para o usufruto de direitos conquistados a duras penas. A cada palestra educativa assistida, a cada evento recreativo realizado e a cada sorriso compartilhado nesses 13 anos, o ecossistema de Brasilândia se tornou mais humano.

Aos fundadores, diretores, voluntários e, principalmente, aos idosos que dão vida a esta associação: muito obrigado. Que o legado de Jovelina, Jesuína e de tantas outras lideranças continue a ser a bússola que guiará os próximos anos da Associação Viva a Vida. Parabéns pelos 13 anos de história!

 

Brasilândia/MS, 14 de julho de 2026

Fonte: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, pág. 297s.

Gostou de relembrar essa trajetória? Deixe seu comentário abaixo parabenizando a associação ou compartilhe este texto nas redes sociais para que mais moradores de Brasilândia conheçam essa linda história!

 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

 O despertar das águas: O encontro entre o dever legal e o sonho verde

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 




O cumprimento de uma determinação legal nem sempre precisa se restringir à frieza dos relatórios técnicos e ao protocolo dos prazos processuais. 

Nas terras de Brasilândia, a resposta ao Termo de Ajustamento de Conduta (TAC nº 0900024-05.2020.8.12.0030), firmado sob o olhar atento e zeloso do Ministério Público Estadual, transformou-se em uma jornada de profunda sensibilidade e dedicação humana. 

O que começou como uma imposição judicial ganhou vida, cor e propósito pelas mãos de um pequeno grupo de servidores que enxergaram, na obrigação de resgatar o Córrego da Aviação, a oportunidade de semear um futuro sustentável.

Diante dos desafios de uma Prefeitura de estrutura modesta e recursos escassos, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (SEMATUR) provou que a união de esforços é capaz de romper a inércia administrativa.  

Longe de se limitarem ao papel, o Secretário Carlito Dutra, o Adjunto Pedro Coutinho e o Técnico Jorge Silva entregaram-se à lida prática. Sob o sol firme, enfrentaram o passivo herdado dos anos de abandono e degradação antrópica. 

Retirar o arame farpado antigo e enferrujado com as próprias mãos — ferindo a pele, mas fortalecendo o espírito — foi o primeiro passo doloroso, porém necessário, para abrir caminhos. 

A caminhada para fazer a coisa certa ganhou o reforço essencial da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços, sob o comando dos engenheiros Felipe Souto Murilo Dourados, e do Superintendente Eduardo Lima. 

Com o avanço das máquinas operadas com precisão pelo motorista Luizinho, o mato alto deu lugar ao cuidado. O roçado manual minucioso desenhou coroas de proteção ao redor de cada planta que resistia bravamente. E aquelas 600 mudas iniciais, outrora sufocadas, voltaram a respirar junto à borda ciliar.

Tudo isso foi possível pelo esforço de cidadãos invisíveis. Seja no volante de veículos, no serviço braçal ou no manejo firme da enxada, da roçadeira e do perfurador, todos mostraram o valor de suas funções. O orgulho brilhava no rosto de cada um: Valdecir Barbosa, Sidney Lima, Rubens Limoeiro, José Luiz, Wilson Alves, Lucas Carvalho e Marcelo Hilário.   

O horizonte ganhou contornos científicos e técnicos sólidos com o apoio acadêmico da UFMS e da UNESP, que diagnosticaram o solo profundamente para identificar a localização exata dos olhos d'água remanescentes.  

Essa sinergia institucional e humana culminou na revitalização simbólica da área. A antiga placa de sinalização de Área de Preservação Permanente (APP), resgatada dos escombros de um pátio esquecido, foi restaurada e fixada à margem da rodovia MS-040, anunciando aos viajantes que ali o meio ambiente voltou a ser prioridade. 

O realinhamento do traçado e o plantio cuidadoso de novas mudas de ipês e moringas marcou o desdobramento prático do PRADE, convertendo a cobrança do órgão fiscalizador em um legado vivo de preservação. 

Onde antes havia erosão e esquecimento, hoje floresce esperança e o orgulho de servidores motivados que provaram que o rigor da lei, quando acolhido com idealismo, transforma-se em pura beleza coletiva por uma Brasilândia perenemente verde.

 

Brasilândia/MS, 1º de julho de 2026.
























quarta-feira, 1 de julho de 2026

 

O Sonho do SINDCOM e a Mobilização dos Comerciários pelo valor do trabalho em Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra






A história econômica e social de uma cidade não é feita apenas por grandes empresas ou números de faturamento. Ela é construída, essencialmente, pela força de quem acorda cedo todos os dias para movimentar o comércio local. Em Brasilândia, uma trajetória em especial merece ser resgatada e celebrada: o sonho da criação do SINDCOM (Sindicato dos Empregados do Comércio de Brasilândia).

Embora o sindicato não tenha se consolidado institucionalmente a longo prazo, a sua história deixou um legado inestimável: provou aos comerciantes e à comunidade o valor gigante da categoria.

A semente plantada em 1991 foi o início de tudo. A caminhada começou muito antes do que muitos imaginam. No dia 14 de abril de 1991, no Salão Paroquial da cidade, a primeira semente foi plantada com a formação da Comissão Pró Formação do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio.

Liderados por nomes como Jorge Justino Diogo, Elizabete Cosme de Noronha, Antônio Rosa dos Santos, Silvia Souza Santos e João Valentim de Souza, esses pioneiros aprovaram o primeiro Estatuto Social da entidade. Naquele momento, ficava claro que a união da categoria não era um capricho, mas uma necessidade real de organização.

Mas o resgate aconteceu quatro anos depois por meio da voz na Câmara Municipal, quando a chama foi novamente acesa. O desejo de organização ganhou eco nos debates públicos locais, alcançando a Sessão nº 520 da Câmara Municipal.

Na oportunidade, vereadores expressaram opiniões diversas sobre o tema: Samuel Ramos Lopes (Biro-Biro) parabenizou publicamente a luta dos comerciários e professores por seus direitos; o prefeito da época alertou sobre os cuidados na gestão de uma entidade; Irineu de Souza Brito incentivou abertamente os trabalhadores a fundarem o sindicato e a negociarem firmemente, sem intimidações frente às pressões externas, e Carlos Amorim de Assis ofereceu apoio direto à recomendação de estruturação do órgão.

Até tudo culminar no Movimento de 2000: A Assembleia Geral Extraordinária, com a virada do milênio que trouxe o ápice da mobilização formal. No dia 2 de julho de 2000, às 9h da manhã, a sede da Câmara Municipal abrigou uma histórica assembleia geral extraordinária. Um expressivo grupo de trabalhadores reuniu-se para eleger a primeira diretoria provisória e o conselho fiscal da instituição.

A nova Comissão Pró Formação contava com Silvia Neura da Silva e Silva na presidência, acompanhada por Marcos Antônio Rodrigues e Divina Lúcia de Oliveira da Silva como membros ativos.

Estava registrado nos anais da história o legado e o porquê essa luta valeu a pena. Muitos poderiam analisar de forma simplista e decretar que o movimento falhou apenas porque a estrutura burocrática e jurídica do sindicato "não prosperou". No entanto, a verdadeira vitória do SINDCOM ocorreu no campo cultural e social de Brasilândia.

A mobilização serviu como um espelho para os comerciantes locais. Ela demonstrou que atrás de cada balcão, caixa registradora e vitrine existiam cidadãos conscientes de sua importância. O movimento gerou respeito mútuo e equilibrou forças, mostrando que o comércio forte só existe quando a mão de obra é valorizada.

A história do SINDCOM é a prova de que lutar pelo seu valor nunca é um esforço em vão. O sindicato físico pode não estar de portas abertas hoje, mas o respeito conquistado por aqueles trabalhadores permanece vivo na identidade do comércio de Brasilândia.

Brasilândia/MS, 2 de julho de 2026

Fonte: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, vol. 2-Patrimônio, pág. 430s