Dom Izidoro
Kosinski: O Pastor da Terra que habita o Céu.
Por Carlos Alberto
dos Santos Dutra
Há alguns anos, o jornalista João Maria Vicente resgatou as origens das pastorais sociais e os primeiros passos de Dom Izidoro Kosinski na Diocese de Três Lagoas. Hoje, envoltos pela saudade da partida deste Bispo, compreendemos que a maior homenagem que podemos prestar a este pai espiritual é silenciar a alma para contemplar a trajetória de um verdadeiro servo sofredor — um homem que enxergou o próprio Cristo no rosto dos pobres e dos esquecidos.
Um Coração Voltado
aos Despossuídos
Dom Izidoro chegou a Três Lagoas na força de seus 49 anos, mas não trazia consigo a vaidade do cargo. Trouxe, sim, braços abertos e olhos atentos para a promoção social dos despojados. Ele fez ecoar a voz dos camponeses e indígenas, dos barranqueiros e canavieiros, dos acampados e de todos aqueles cujos direitos humanos e dignidade haviam sido roubados. Sob o seu cajado, a Diocese assumiu feições novas e profundamente humanas, entregando-se inteiramente ao projeto de salvação dos mais pobres.
Foi a sua coragem que fez nascer a Comissão Pastoral da Terra (CPT) em nossa região. Com humildade desconcertante e uma liderança que arrastava corações, Dom Izidoro não liderava de longe: ele estava no meio do povo. Animava as equipes que socorriam os ribeirinhos do Rio Paraná e os sem-terra. Buscava recursos além-mar, movido pela mais pura solidariedade cristã. Na trágica enchente de 1982 e na dor dos atingidos pela barragem de Porto Primavera, lá estava ele — não apenas como bispo, mas como um pai que chora e luta junto com seus filhos ao longo de 20 anos de batalha.
A Voz Profética
que Ergueu os Caídos
Sua presença era
constante. Ele motivava a fundação de sindicatos, buscava parcerias e acolhia
incansavelmente novos braços para a colheita da justiça. Quando o CIMI foi
criado na Diocese para resgatar a história e a vida da comunidade indígena
Ofaié Xavante, a postura profética de Dom Izidoro foi o escudo que evitou o
desaparecimento dessa etnia. Perseguidos e massacrados pelo tempo, aqueles
irmãos indígenas ergueram-se das cinzas porque a Igreja de Dom Izidoro lhes deu
as mãos.
Por uma década, sua têmpera transformou a Diocese de Três Lagoas em uma vanguarda nacional na defesa dos direitos humanos. Mas o amor radical incomoda. O ato de acolher sem-terra no pátio, de celebrar com os negros, de pisar o chão de terra das aldeias e pregar o desapego foi intolerável para uma sociedade embriagada pelo consumo e pelo capital.
O Martírio e o
Legado do Silêncio
E então, a
profecia cobrou o seu preço mais alto. O discípulo de São Vicente de Paulo
experimentou o cálice da incompreensão. Acusado e caluniado pela imprensa, Dom
Izidoro tornou-se a imagem viva do Crucificado: foi injuriado, perseguido,
agredido fisicamente e torturado dentro de sua própria casa, chegando às portas
da morte. Vieram também as dores mais silenciosas — as incompreensões internas
que, aos poucos, feriram seu espírito e silenciaram as pastorais sociais que
ele tanto amou.
Mas nada pôde
apagar o rastro de luz que ele deixou. Dom Izidoro cumpriu sua missão até a
última gota. Ele fez valer, com a própria vida, o lema de sua ordenação: "Evangelizar
os Pobres".
Durante 27 anos de pastoreio, ele nos ensinou que a Igreja deve ser transparente, próxima e defensora intransigente dos pequenos. Ele viveu em um tempo em que as ações tinham consequências eternas. Ele melhorou o nosso mundo, tornando-o mais fraterno e solidário (...). A ele que tanto acolheu os caídos nesta terra, que tanto combateu o bom combate e guardou a fé, fazemos memória dos 8 anos que se passaram desde que cruzou os umbrais da esperança para descansar, finalmente, na glória definitiva do Pai.
Brasilândia/MS, 1º
de abril de 2026.
Foto: Pe. Lauri Vital Bósio, 2008. Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2017/12/dom-izidoro-kosinski.html; João Maria Vicente, 12/12/2008; Portal Hoje MS, 18/10/2010. Cf. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. 1-Pioneiros, pág.84-87.

