Gerson Paulo da
Silva: Guardião de Caminhos e Memória Viva da Saúde em Brasilândia
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra
A história de um homem, em sua essência, costuma fundir-se com a terra que ele pisa e com o suor que dedica ao seu ofício. Em Brasilândia, Mato Grosso do Sul, a trajetória do combate às endemias não é apenas um registro burocrático; ela possui rosto, caligrafia e a força dos passos de Gerson Paulo da Silva.
Em 1976, quando o
setor de endemias ainda atendia pela sigla SUCAM (Superintendência de
Campanhas de Saúde Pública) e respondia ao distrito de Três Lagoas, o Sr.
Gerson já cruzava as estradas de terra. Naquela época, os agentes eram chamados
de "Guardas" — um título apropriado para quem vigiava a vida entre sítios
e fazendas.
O caminho era um exercício de resistência. Fosse a pé ou sobre uma bicicleta, Gerson não carregava apenas equipamentos; levava consigo um caderno de notas, onde registrava, com um zelo quase ritualístico, cada visita e procedimento. Aquele caderno tornou-se o símbolo de uma dedicação que desafiou o tempo.
As funções de um "Guarda" eram vastas e vitais: iam da dosagem precisa de medicamentos para febre até a delicada colheita de sangue em lâminas de vidro. Estes homens eram, na prática, enfermeiros e técnicos de laboratório itinerantes. Sob o espírito de Oswaldo Cruz, Gerson e seus companheiros — como o saudoso Nicola Pedroso da Silva, o "Cuiabano" — enfrentaram o "barbeiro", o mosquito da malária e os vetores da febre amarela.
Os registros impressionam: em apenas uma de suas cadernetas, lê-se a coleta de 107 lâminas em uma dezena de fazendas. O Sr. Gerson enfrentou o sol escaldante do cerrado, as chuvas torrenciais e o perigo de animais silvestres. À noite, o descanso era em redes improvisadas em estrebarias ou galpões; a refeição, o clássico "empacotado" de farofa.
Vindo de
Andradina-SP em 1963, Gerson viu Brasilândia nascer e crescer. Viu o povoado
tornar-se município em 1965 e dedicou sua juventude a proteger essa nova
comunidade. Hoje, aos 72 anos, a pesada bomba aspersora Hudson X Pert e
o saco de veneno não pesam mais em seus ombros. Contudo, o peso do ofício ainda
se faz presente: os produtos químicos que outrora garantiram a saúde de
milhares, marcaram seu corpo, cobrando o preço em sua própria saúde.
Falar de Gerson
Paulo da Silva é falar de um pioneirismo que não buscou glórias, mas que salvou
vidas no silêncio das estradas de poeira. Ele é a prova de que a história da
saúde pública no Brasil foi escrita com a tinta do esforço pessoal e o
compromisso inabalável com o próximo. Orgulho da esposa, filhos e netos.
Brasilândia/MS, 09
de maio de 2026.
Fonte: A história completa dos Pioneiros
da Sucam o leitor encontra In História e Memória de Brasilândia/MS, vol.
1-Pioneiros, página 68-71 e Vol. 3-Cidadania, página 153-159.
Foto: Facebook

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