Roni Eliandes Avá Verá está em Ñhanderu.
Carlos Alberto dos Santos Dutra.
Dia 2 de abril de 2019 foi o dia que o nosso irmão indígena Roni
Eliandes, o Avá Verá, da nação Guarani, partiu para os braços de Ñhanderu, deus da natureza e dos guerreiros que acolhe aqueles que pisam a Terra Sem
Males e partilham sob empréstimo a sua posse entre seus patrícios e também nós.
Falar de Roni Eliandes é como falar do tempo. Sempre
infinito enquanto dura. Mas sempre presente nas ações e nos acontecimentos. Ele
era assim, desde pequeno interessado nas coisas do seu povo, suas lutas e suas
esperanças.
Guarani por excelência, tanto os Ñhandeva como os Kaiowá
da região de Dourados/MS, todos se sentiam representados pela sua liderança,
desde os tempos de Marçal de Souza Tupã-i, o Deus pequeno, que era seu
tio e que sempre lhe serviu de inspiração.
Como a vida de todo grande líder, sua trilha foi penosa.
Filho de Vicente e Odete, assim que nasceu Roni foi
separado de seus pais, sendo levado para uma aldeia na cidade de Amambay,
para morar com uma tia e os avós maternos. Aos três anos de idade voltou a
morar com seus pais que se mudaram da fazenda para a aldeia.
Em sua casa todos eram bilíngues: falavam a língua Guarani e
o Português. Aprendeu a falar ambas as línguas com sua avó paterna de nome Maria,
que dominava este idioma e instantaneamente já traduzia para o Português. Falar
na língua nativa de seu povo para ele sempre foi motivo de orgulho e de um
profunda inspiração histórica.
Morava em casa de sapê, e nunca teve muito tempo para
brincadeiras: sua única ocupação era ajudar nos trabalhos de casa e na lida no
campo. Frequentou a escola da Aldeia por apenas uma semana, quando tinha nove
anos. Isso porque ele brigou com a professora que lhe aplicou um corretivo de
palmatória.
Ele mesmo, anos mais tarde numa entrevista confirmou isso:
derrubou a professora e saiu em disparada com seu cavalo. Chegando em casa,
deixou o cavalo amarrado na cerca e fugiu para a estrada, onde encontrou um
fazendeiro que passava e ia pra região de Campo Grande. O fazendeiro
perguntou-lhe o que ele estava fazendo ali naquela estrada, e ele disse estar
procurando alguém que lhe desse trabalho.
Roni então foi embora com esse fazendeiro, sem avisar ninguém de sua família,
deixando todos preocupados, que passaram dias procurando o rapaz, depois
desistiram. Um ano depois ele retornou à sua casa, com alguns trocados no
bolso, e foi uma alegria para sua família. Estava cumprido o rito de
passagem. Ele agora era um homem.
Quando falou que iria retornar para a fazenda para poder dar
continuidade ao seu trabalho, o pai o seguiu, e trabalhou por algum tempo com
seu filho na mesma fazenda. Trabalhou lá até os doze anos. Exemplo assim, não
se verifica mais nos dias de hoje.
Depois da morte do pai, saiu da aldeia e foi para o Paraguai
morando em várias fazendas por lá. Aos 17 anos retornou para a aldeia e
ingressou no Exército, do qual desertou por medo da guerra, voltando então para
os trabalhos em fazendas, até retornar para a aldeia aos 22 anos.
Roda o moinho do tempo e Roni Eliandes, homem feito, e
experiente da vida e maduro, assume a condição de líder para o seu povo. E como
toda a liderança combativa, logo entrou em conflito com os poderosos. Também
sofreu a oposição de alguns patrícios simpáticos ao lucro fácil e seus próprios
interesses. Mas nunca virou as costas para o seu povo.
Nunca se sentiu um vencido, nunca desanimou. Manteve-se firme
na luta em defesa daqueles que mais precisavam. E olha lá ele novamente com o
pé na estrada acompanhando uma réstia de patrícios retirados do Rancho
Jacaré e aldeia Guaimbê, todos largados junto dos Ofaié no
fundão da serra da Bodoquena, em Porto Murtinho, na Reserva Kadiwéu.
Foi lá que ele conheceu os Ofaié, integrando-se à luta
desse povo desconhecido e minúsculo. Laços de solidariedade e compromisso os
uniram a ponto dele se tornar um membro da família Ofaié, ao casar com Marilda,
nossa professora e mestra maior e ter com elas os filhos Gilmar, Elizângela,
Léia e o pequeno Josimar que o céu muito cedo levou.
De lá para cá, após o desterro de oito anos na Bodoquena, os
passos que se seguiram só sedimentaram a amizade e o respeito entre duas
culturas diferente, rompendo com a lógica verificada no passado eivada de
brigas e ataques havidos entre os Guarani e os Ofaié, chamados Chavante
naqueles tempos primeiros.
Logo seus outros filhos, Agenor, Laureano e Miguel
vieram para Brasilândia e, definitivamente integrado aos Ofaié, constituíram
suas famílias, fortalecendo os laços étnicos que caracterizam o povo Ofaié e o
povo Guarani fazendo renascer a esperança desta nação ressurgida.
Hábil artesão fez questão de ensinar aos filhos o artesanato
indígena, como arcos, flechas, penachos, maracás, com a preocupação de, algumas
vezes, imitar o artesanato Ofaié, valendo-se dos mesmos materiais que utilizava
nas peças de sua própria cultura material. Ensinou o Guarani para os filhos e a
esposas. Fez isso por achar importante preservar o idioma nativo que aos poucos
vai se acabando.
Quando perguntado certa vez por Márcio de Souza Sicílio,
promotor cultural de Brasilândia, qual era o seu maior sonho, Roni
respondeu: “Que haja mais união entre os índios da comunidade onde vivo, e
que todos recebam tudo em partes iguais”. Ele concebia o poder como um
serviço para garantir a partilha dos benefícios sem excluir ninguém. Era um
sábio.
Nesta data a lembrança do nosso patrício, Roni Eliandes,
se esvai, há poucos dias de completar 86 anos de idade ele se despediu de nós.
E levou consigo uma boa parte da história e lembranças do povo Ofaié que
conviveu por quatro décadas ao seu lado.
História que ele mesmo, sentado em sua cadeira de roda,
gostava de contar aos visitantes que recebia, sempre sorrindo e gesticulando,
como se desenhasse as cenas vividas no ar. Um verdadeiro poço da sabedoria
indígena, coisas que somente os velhos e anciões dos povos mais antigos do
Brasil sabem fazer e muito pouco valorizamos.
A ponto do Museu da Pessoa, da UNESCO, recolher o
seu testemunho de vida e registrá-lo num vídeo que se encontra no youtube (cf. abaixo o vídeo) a
disposição de todos que queiram entrar em contato com esse saber indígena que
não morre e vai viver através das palavras e imagens que esse ancião Guarani
deixou para os anais da história.
Quando ainda possuía força e saúde, mesmo de muletas, lá
estava ela à beira da estrada empoeirada pedindo carona para ir até a cidade
fazer suas compras e negócios. Pouco dependia dos outros. Havia certa dignidade
no seu olhar e gestos, sem nunca deixar de ser prático nas exigências do
cotidiano.
Rodeado de alunos e pesquisadores acadêmicos prendia a
atenção de todos contando a história de luta do povo Ofaié, sendo às
vezes confundido com se um deles fosse. Durante sua vida aprendeu a defender e
respeitar a comunidade que o acolheu, desde os tristes dias de sofrimento na
Reserva Kadiwéu, passando depois pela barranca do rio Paraná e por fim
instalando-se no território tradicional Ofaié, na Aldeia Anodhi, em
Brasilândia/MS, onde constituiu família, teve uma nova vida e onde deixou
saudade. Descanse em paz Roni Eliandes, Avá Verá, nos braços de
Ñhanderu.
Brasilândia/MS, 2 de abril de 2025.
Publicado originalmente em 2 de abril de 2019 em http://www.institutocisalpina/roni_eliandes_ava_vera_esta_em_nhanderu.html
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