quarta-feira, 2 de abril de 2025

  

Roni Eliandes Avá Verá está em Ñhanderu.

Carlos Alberto dos Santos Dutra.


 

Dia 2 de abril de 2019 foi o dia que o nosso irmão indígena Roni Eliandes, o Avá Verá, da nação Guarani, partiu para os braços de Ñhanderu, deus da natureza e dos guerreiros que acolhe aqueles que pisam a Terra Sem Males e partilham sob empréstimo a sua posse entre seus patrícios e também nós.

Falar de Roni Eliandes é como falar do tempo. Sempre infinito enquanto dura. Mas sempre presente nas ações e nos acontecimentos. Ele era assim, desde pequeno interessado nas coisas do seu povo, suas lutas e suas esperanças.

Guarani por excelência, tanto os Ñhandeva como os Kaiowá da região de Dourados/MS, todos se sentiam representados pela sua liderança, desde os tempos de Marçal de Souza Tupã-i, o Deus pequeno, que era seu tio e que sempre lhe serviu de inspiração.

Como a vida de todo grande líder, sua trilha foi penosa. Filho de Vicente e Odete, assim que nasceu Roni foi separado de seus pais, sendo levado para uma aldeia na cidade de Amambay, para morar com uma tia e os avós maternos. Aos três anos de idade voltou a morar com seus pais que se mudaram da fazenda para a aldeia.

Em sua casa todos eram bilíngues: falavam a língua Guarani e o Português. Aprendeu a falar ambas as línguas com sua avó paterna de nome Maria, que dominava este idioma e instantaneamente já traduzia para o Português. Falar na língua nativa de seu povo para ele sempre foi motivo de orgulho e de um profunda inspiração histórica.

Morava em casa de sapê, e nunca teve muito tempo para brincadeiras: sua única ocupação era ajudar nos trabalhos de casa e na lida no campo. Frequentou a escola da Aldeia por apenas uma semana, quando tinha nove anos. Isso porque ele brigou com a professora que lhe aplicou um corretivo de palmatória.

Ele mesmo, anos mais tarde numa entrevista confirmou isso: derrubou a professora e saiu em disparada com seu cavalo. Chegando em casa, deixou o cavalo amarrado na cerca e fugiu para a estrada, onde encontrou um fazendeiro que passava e ia pra região de Campo Grande. O fazendeiro perguntou-lhe o que ele estava fazendo ali naquela estrada, e ele disse estar procurando alguém que lhe desse trabalho.

Roni então foi embora com esse fazendeiro, sem avisar ninguém de sua família, deixando todos preocupados, que passaram dias procurando o rapaz, depois desistiram. Um ano depois ele retornou à sua casa, com alguns trocados no bolso, e foi uma alegria para sua família. Estava cumprido o rito de passagem. Ele agora era um homem.

Quando falou que iria retornar para a fazenda para poder dar continuidade ao seu trabalho, o pai o seguiu, e trabalhou por algum tempo com seu filho na mesma fazenda. Trabalhou lá até os doze anos. Exemplo assim, não se verifica mais nos dias de hoje.

Depois da morte do pai, saiu da aldeia e foi para o Paraguai morando em várias fazendas por lá. Aos 17 anos retornou para a aldeia e ingressou no Exército, do qual desertou por medo da guerra, voltando então para os trabalhos em fazendas, até retornar para a aldeia aos 22 anos.

Roda o moinho do tempo e Roni Eliandes, homem feito, e experiente da vida e maduro, assume a condição de líder para o seu povo. E como toda a liderança combativa, logo entrou em conflito com os poderosos. Também sofreu a oposição de alguns patrícios simpáticos ao lucro fácil e seus próprios interesses. Mas nunca virou as costas para o seu povo.

Nunca se sentiu um vencido, nunca desanimou. Manteve-se firme na luta em defesa daqueles que mais precisavam. E olha lá ele novamente com o pé na estrada acompanhando uma réstia de patrícios retirados do Rancho Jacaré e aldeia Guaimbê, todos largados junto dos Ofaié no fundão da serra da Bodoquena, em Porto Murtinho, na Reserva Kadiwéu.

Foi lá que ele conheceu os Ofaié, integrando-se à luta desse povo desconhecido e minúsculo. Laços de solidariedade e compromisso os uniram a ponto dele se tornar um membro da família Ofaié, ao casar com Marilda, nossa professora e mestra maior e ter com elas os filhos Gilmar, Elizângela, Léia e o pequeno Josimar que o céu muito cedo levou.

De lá para cá, após o desterro de oito anos na Bodoquena, os passos que se seguiram só sedimentaram a amizade e o respeito entre duas culturas diferente, rompendo com a lógica verificada no passado eivada de brigas e ataques havidos entre os Guarani e os Ofaié, chamados Chavante naqueles tempos primeiros.

Logo seus outros filhos, Agenor, Laureano e Miguel vieram para Brasilândia e, definitivamente integrado aos Ofaié, constituíram suas famílias, fortalecendo os laços étnicos que caracterizam o povo Ofaié e o povo Guarani fazendo renascer a esperança desta nação ressurgida.

Hábil artesão fez questão de ensinar aos filhos o artesanato indígena, como arcos, flechas, penachos, maracás, com a preocupação de, algumas vezes, imitar o artesanato Ofaié, valendo-se dos mesmos materiais que utilizava nas peças de sua própria cultura material. Ensinou o Guarani para os filhos e a esposas. Fez isso por achar importante preservar o idioma nativo que aos poucos vai se acabando.

Quando perguntado certa vez por Márcio de Souza Sicílio, promotor cultural de Brasilândia, qual era o seu maior sonho, Roni respondeu: “Que haja mais união entre os índios da comunidade onde vivo, e que todos recebam tudo em partes iguais”. Ele concebia o poder como um serviço para garantir a partilha dos benefícios sem excluir ninguém. Era um sábio.

Nesta data a lembrança do nosso patrício, Roni Eliandes, se esvai, há poucos dias de completar 86 anos de idade ele se despediu de nós. E levou consigo uma boa parte da história e lembranças do povo Ofaié que conviveu por quatro décadas ao seu lado.

História que ele mesmo, sentado em sua cadeira de roda, gostava de contar aos visitantes que recebia, sempre sorrindo e gesticulando, como se desenhasse as cenas vividas no ar. Um verdadeiro poço da sabedoria indígena, coisas que somente os velhos e anciões dos povos mais antigos do Brasil sabem fazer e muito pouco valorizamos.

A ponto do Museu da Pessoa, da UNESCO, recolher o seu testemunho de vida e registrá-lo num vídeo que se encontra no youtube (cf. abaixo o vídeo) a disposição de todos que queiram entrar em contato com esse saber indígena que não morre e vai viver através das palavras e imagens que esse ancião Guarani deixou para os anais da história.

Quando ainda possuía força e saúde, mesmo de muletas, lá estava ela à beira da estrada empoeirada pedindo carona para ir até a cidade fazer suas compras e negócios. Pouco dependia dos outros. Havia certa dignidade no seu olhar e gestos, sem nunca deixar de ser prático nas exigências do cotidiano.

Rodeado de alunos e pesquisadores acadêmicos prendia a atenção de todos contando a história de luta do povo Ofaié, sendo às vezes confundido com se um deles fosse. Durante sua vida aprendeu a defender e respeitar a comunidade que o acolheu, desde os tristes dias de sofrimento na Reserva Kadiwéu, passando depois pela barranca do rio Paraná e por fim instalando-se no território tradicional Ofaié, na Aldeia Anodhi, em Brasilândia/MS, onde constituiu família, teve uma nova vida e onde deixou saudade. Descanse em paz Roni Eliandes, Avá Verá, nos braços de Ñhanderu.

 

Brasilândia/MS, 2 de abril de 2025. 

Publicado originalmente em 2 de abril de 2019 em http://www.institutocisalpina/roni_eliandes_ava_vera_esta_em_nhanderu.html






 

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domingo, 30 de março de 2025

 

Como vim parar aqui: a história de uma imagem.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Vejo a fotografia de fiéis da Paróquia Cristo Bom Pastor, de Brasilândia/MS postados ao lado de seu pároco, diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida, lá no Centro Diocesano de Pastoral de Três Lagoas, durante o Encontro Foranial do último final de semana. 

Entre os presentes é possível observar um rostinho negro que se encontra entre eles e que, com certeza, os motiva a congregar e louvar. Rosto capaz de recordar em nós o que a imagem desta santa nos faz lembrar. 

A história desta imagem começa com a história de outra imagem semelhante a ela, quando o caudal do rio Verde corria livre e forte, e se encontrava com a fartura das águas do rio Paraná cuja margem direita banhava as terras do Porto João André, no município de Brasilândia. 

E lá estava ela olhando para aquelas estradas que contornavam as curvas dos rios e varjões de cisalpina, irrigadas pelas águas que garantiam o sustento das famílias que lá viviam, o lazer dos turistas e o cultivo da fé. 

Doada pela família de seu Luiz Bolognesi,  proprietário do Iate Clube Rio Verde, a imagem imponente e majestosa que media mais de 1,5 metros, conferia àquele lugar a expressão da religiosidade que emanava de uma comunidade de moradores ribeirinhos, oleiros e agricultores, pescadores e visitantes que depositavam suas preces e ação de graça na capela ali erigida. 

Padre Lauri Vital Bósio e seu ministro da comunhão, Carlito, por muitos anos, presidiram missas e celebrações naquela capela e também no interior do iate em ritos campais, sempre dando graças e rogando a bênção daquela santa protetora sobre os pescadores e ribeirinhos das águas conferindo-lhes coragem e sorte. 

Com a aproximação das águas da destruição, como foi classificado o enchimento do lago da hidrelétrica de Porto Primavera que represou as águas do rio Paraná e Verde, as propriedades de suas margens foram indenizadas, os posseiros foram alojados em reassentamentos e olarias e comerciantes do Porto João André, transferidos para longe do rio que lhes dava força e vida, pela concessionária elétrica Companhia Energética de São Paulo-CESP. 

Foi nessa, época que a imagem de Nossa Senhora Aparecida que se encontrava no Iate Clube Rio Verde foi doada à Paróquia Cristo Bom Pastor e trazida pelo pároco local para o recinto da igreja matriz de Brasilândia.

Por um longo período (10 anos), a bela imagem da Padroeira do Brasil permaneceu no Salão Paroquial, para visitação dos fiéis, sendo sobre ela depositadas flores e preces por graças e intenções alcançadas pelos paroquianos devotos locais. 

No ano de 2007, entretanto, o pároco de Brasilândia, de comum acordo com o bispo diocesano Dom Izidoro Kosinski e o padre Rogério Gomes, doou a imagem à igreja matriz da paróquia Nossa Senhora Aparecida de Três Lagoas, sendo lá recebida no dia 24 de agosto daquele ano, e colocada num distinto local de acesso àquele templo dedicado à padroeira dos pescadores, dos negros e os mais humildes entre os brasileiros. 

A antiga imagem, também imponente mas de confecção mais rústica, que se encontrava na matriz da Paróquia Nossa Senhora Aparecida foi transferida para o Centro Diocesano de Pastoral, onde se encontra até os dias atuais, entronizada no pátio central daquele local de encontro e oração de Três Lagoas. 

É ali que seus filhos fiéis se encontram e se reúnem a sua volta para expressar sua fé e devoção à Mãe morena que os brasileiros receberam a graça de resgatá-las das águas e, na sua humildade, elevá-la à condição sublime de venerada Mãe. 

Brasilândia/MS, 30 de março de 2025.

Dias Mundial da Juventude







 

 





















Fonte: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Volume V-Poderes, 2022, pág. 234-235, e 

Revista comemorativa aos 50 anos da Paróquia Cristo Bom Pastor -Diocese de Três Lagoas/MS, 2022, pág. 37.

sábado, 29 de março de 2025

 

O mundo mágico possível e o 1º Gabinete Itinerante no Mutum

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 



O brilho no olhar e o rosa estampado na face das crianças, no contexto de uma multicolorida gincana cultural, acolheu a todos que lá chegaram naquela manhã de outono no longínquo Assentamento Mutum. 

Distante da sede do município de Brasilândia/MS, cerca de 200 km pelo trajeto percorrido, a escola daquele lugar revestiu-se de uma contagiante alegria transformando alunos e professores, pais e colaboradores, em personagens de um verdadeiro conto de fadas, com direito à criativos adornos que desciam da cabeça aos pés fazendo-os flutuar na magia que inspiravam. 

A comitiva itinerante da Prefeitura Municipal de Brasilândia visitou a comunidade neste dia 29 de março de 2025 com o objetivo de apresentar a nova administração, seus secretários e servidores externando aos presentes a sua saudação de acolhida e também falar da disposição e empenho da prefeita Márcia Regina do Amaral Schio e sua equipe, de dar o melhor de si. 

Cada secretaria se dispôs a ouvir as demandas da população e também lhes oferecer alguns serviços que foram colocados ao alcance da comunidade, tais como atendimentos na área médica, odontológica, assistência social, defesa de direitos, emissão de documentos, informações jurídicas e apoio aos produtores, associações e empresários do lugar, entre outros. 

Foi o primeiro gabinete itinerante da nova administração e teve uma ótima aceitação pela comunidade. Uma demonstração de que o Assentamento Mutum não ficará invisível no campo das políticas públicas, fará parte de Brasilândia, apesar da distância, devendo participar da governança, através de suas instâncias organizadas e representativas, incluindo esta agrovila na rota do desenvolvimento. 

Enquanto as secretarias mais antigas que já se propuseram a oferecer serviços e soluções para algumas reivindicações da comunidade, a neófita secretaria de Meio Ambiente e Turismo, também ali esteve presente, e ouviu de integrantes do lugar as demandas referentes ao tema da ecologia. 

Visto ainda como um tema geralmente distante da preocupação dos moradores da zona rural, os olhos do secretário Carlito e secretário adjunto Pedrinho, lá presentes, durante o percurso de chegada ao lugar, puderam contemplar com satisfação extensas área preservadas por matas nativas no entorno e poucas áreas degradadas. 

As apresentações culturais e o saboroso almoço, com direito a doce de sobremesa servido a todos os presentes coroou o evento. E a tarde foi chegando em meio o brilho da decoração artesanal espalhada pelos corredores e jardins que enchiam de beleza o lugar. 

Os servidores agora recolhem seus pertences, fichas de atendimento, confeccionam seus relatórios e acenam em despedida aos últimos munícipes que permanecem no lugar após terem sido atendidos. 

O lugar aos poucos esvazia-se das folhas coloridas e os adereços festivos que mãos delicadas se esmeraram para construir. Mãe e filhos, diretora, coordenadoras, professoras e alunos se entreolham e sentem que algo importante fizeram e isso os enche de satisfação. 

Os carros e os ônibus se afastam levando servidores e profissionais consciente do trabalho que ali realizaram. Da próxima vez, muito ainda poderá ser melhorado. 

Enquanto a paisagem começa a deslizar diante de seus olhos, percebem que levam de volta para casa também um pouquinho do colorido mágico na lembrança do que representou este dia para aquele lugar. 


Brasilândia/MS, 29 de março de 2025.



Trajeto utilizado pelo Gabinete Itinerante:211 km




terça-feira, 25 de março de 2025

 

O sonhador

e sua carta para a Prefeita.

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 


A ideia de enviar cartas soa hoje como algo antigo e fora de moda. A tecnologia digital e a tela dos celulares sepultaram de vez o recurso do papel e até o uso comum do Personal Computer, o PC de mesa e o e-mail.

Mas a carta resiste, mesmo valendo-se desta forma de transmissão viajando em fibra ótica no tempo de maneira célere e com a vantagem de não extraviar e o remetente poder ficar sabendo se sua mensagem chegou no destino, se foi lida ou não.

A carta que me refiro aqui, assim sonhou o sonhador, não tem a forma de ofício, pois não é oficial; não tem número de protocolo e sequer regularidade na entrega. Apenas é uma carta, a primeira, quiçá, prenúncio de outras que poderão vir. Carta destinada a uma autoridade, sim, mas que parte de um olhar de uma pessoa comum, o cidadão.

O autor da missiva é o cidadão, o jovem, o estudante, a criança. Cidadão que passa pela rua e vê. Vê e comenta. Indaga e pergunta. Ousa refletir sobre o que vê e ouve. E decide conferir a possibilidade de ser ouvido e sugerir.

Parece um sonho, mas estamos desacostumados a acompanhar os atos das administrações públicas ao longo do tempo. Quando nos levamos pelo sabor das paixões político-partidárias, por vezes, nos perdemos acolhendo e acatando tudo o que nossas preferências e simpatias políticas nos propõem e que, depois de eleitos, pouco a pouco vão perdendo o vigor e sendo esquecidas.

Assim tem sido durante anos e achamos que assim deva continuar sendo. Só que o tempo não para e a realidade muda a cada instante. Aliás, a realidade, como a cultura, ela está sempre em movimento. Também o pensamento e a percepção das pessoas sobre o entorno onde vivem, sua comunidade, seus empregos, seu meio ambiente, enfim a percepção da vida.

Por isso, ao caminhar pela rua, o cidadão e a cidadã sentem que ali é o seu chão; se sentem seguros na sua terra querida e por isso se interessam por ela; percebem que dela brota-lhes a vida e todos querem vê-la cada vez melhor; para si e para os moradores que ali vivem. 

Por isso ao contemplar a realidade cotidiana, os acontecimentos, os rumos e as opções que, às vezes, a administração faz, se lhe interessam ou não, alimentam-lhe a vontade de manifestar-se. Na verdade, tudo lhe interessa saber e sente-se no dever-poder de externar o seu pensamento, a sua opinião.

Há quem possa dizer que isso é utopia, coisas de um cidadão sonhador e que essa avaliação e fiscalização dos atos da administração é tarefa do Legislativo eleito para isso, o que nós todos concordamos, porém, o cidadão também tem o seu papel social de fiscalizador e propositor de políticas públicas porque ele está na ponta do processo onde se encontra a atividade fim de toda a ação pública, impactando sua vida positiva ou negativamente.

Ainda que o cidadão e a cidadã tenha a sua disposição outros instrumentos para colaborar, contribuir e fiscalizar a atuação do Executivo e do Legislativo -- conselhos de direitos municipais, sindicatos de classe, associações de bairro, ouvidorias públicas, ministério público, tribuna livre e o direito constitucional de peticionar --, eles sentem o dever cívico de também contribuir subsidiariamente com o múnus público.

As redes sociais, hoje, todos sabemos, ela são as vitrines do mundo, o grande canal de exposição da vida privada e também tela para as mazelas pessoais, sociais e ideológicas que envolvem os escaninhos da política local, regional e nacional.

Nem todos porém são afeitos a ver seus nomes expostos manifestando uma crítica aberta ao público à administração de sua cidade, de seu estado ou país. Nem todos alimentam o desejo de, pela crítica pura e simples, denegrir ou ofender o agente político que administra o município onde vive.

Por outro lado, há cidadãos e cidadã que se sentem comprometidos com sua cidade a ponto de querer desinteressadamente lutar por ela, buscando o melhor para ela. Manifestam-se, assim, somente com a intenção de contribuir com ideias para o incremento de seu progresso e seu bem estar social. 

Neste gesto, de natureza, privada, através de uma carta, sentir-se-iam, portanto, amparados, respeitados, e considerados. Assim espera.

As cartas, por fim, guardam uma singela pretensão: a de contribuir com a formação e a cidadania dos moradores do lugar, independente de idade, estabelecendo um canal de participação, de fidelidade e de diálogo sincero entre o coração do município e o coração da Prefeita.

As cartas, consideradas de natureza pessoal, espera o sonhador, só seriam lidas pela Prefeita. Portanto, seus nomes não seriam divulgados; somente o conteúdo de suas reivindicações e sugestões viriam à público. E isso a administração municipal buscaria apreciar, atender e agradecer. 

Que tal colocar em prática essa ideia e despertar este sonho juvenil?

 

Brasilândia/MS, 25 de março de 2025


Dia Nacional da Carta Constitucional (25 de março de 1824, promulgação da 1ª Constituição Brasileira).

Foto: Instagran; https://m.media-amazon.com/images/I/61RTI4Djo-L.jpg; e Profª. Leonice e alunos do 3° ano da Escola Estadual Adilson Alves da Silva em 1999, Foto: Jornal de Brasilândia, 2000. In História e Memória da Brasilândia, Vol. 3-Cidadania, pág. 345.


Título inspirado no livro Carta à Prefeita (Campanha da Fraternidade Infantil), de autoria de Fernando Carraro, Editoras FTD, 2018. 

O livro conta a história de Juninho. Ele tem 10 anos e vive com sua família numa cidade pequena. Num dia chuvoso, a caminho da escola, ele se dá conta de que um dos semáforos na rua não funciona. Ao chegar à escola, Juninho conta a todos sobre esse problema. A professora Zelina, então, percebe que é hora de falar sobre os problemas da cidade e, portanto, decide dar aos alunos aulas sobre políticas públicas. Depois da primeira aula, os alunos têm uma ideia para tornar a cidade um lugar melhor para todos. Assim, nasce a carta com uma série de ações sociais endereçada à prefeita Mariana, que se envolve no projeto de uma maneira especial. (Carta à Prefeita (Campanha da Fraternidade Infantil) : Carraro, Fernando: Amazon.com.br: Livros).


 



sábado, 22 de março de 2025

 

A figueira, o vinhateiro e os frutos agradáveis a Deus

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 




O 3º Domingo da Quaresma nos apresenta a passagem de Lucas 13,1-9 que nos fala da figueira estéril. Em síntese, Jesus nos diz que, assim como a figueira criada por Deus, nós também devemos produzir frutos; somos convidados em nossa vida a produzir bons frutos e obras. Não quaisquer frutos ou obras, mas frutos e obras especiais, personalizadas, com nome e sobrenome de Jesus Cristo. Ou seja, frutos de santidade, de amor e de salvação.

Sim, frutos de amor ao próximo, amor à vida, amor à família, à comunidade, ao meio ambiente, enfim, frutos traduzidos em obras que revelem o amor grandioso de Deus e que sentimos por tudo aquilo que Ele criou, revelador de seu infinito amor pela humanidade e por nós mesmos.

Mas por que produzir tais frutos de amor e santidade? Por que não somente gozar a vida, aproveitá-la ao máximo, explorar os seus limites, seus recursos naturais e desfrutar da felicidade e vantagens que está ao alcance na medida certa para cada um?

Devemos produzir frutos de amor e santidade porque assim deseja o Senhor, autor da vida. O mesmo Senhor que nos dirige as palavras: “Já faz três anos que venho procurando figos e não encontro”, e que nos fala hoje ao coração.

Já faz três anos, dez anos, cinquenta anos, uma vida inteira que Ele vem procurando encontrar frutos na nossa vida e não encontra. Que tristeza se Jesus pensasse assim de todos nós.

Porque o desejo de Jesus é encontrar fartura de frutos e bênçãos em nós. Seu desejo é que produzamos frutos saborosos, cheios de graça e que alimentem a vida que segue o seu curso. Não frutos somente para o mundo, mas também para Deus, frutos que nos levem ao Reino de Deus.

Mas, a que frutos Jesus se refere? A julgar pela parábola, Jesus fala de frutos doces, saborosos, à semelhança da uva, que mostre que aquela planta, que também é sua obra, a figueira, não é estéril. Jesus quer nos mostrar que a obra do Pai é perfeita e maravilhosa, que é fértil e capaz de produzir as melhores bênçãos em nossa vida.

Só que o nosso Deus não é imediatista e tampouco rancoroso. Ele é paciente. Neste tempo propício onde experimentamos a via crucis da Quaresma, o Senhor Jesus acata o sugestão do vinhateiro que deseja adubar a figueira, acreditando que pode recuperá-la, acredita que ela vai ser capaz de superar e vencer o desafio da morte.

Ainda que seja uma figueira plantada no meio de uma vinha, ela não foi excluída e banida do lugar. Seu lugar foi preservado. O vinhateiro deu-lhe uma oportunidade. 

Assim Deus. Mesmo que estejamos em meio a uma realidade adversa e sombria, sempre há uma chance e uma esperança para todos que acreditam nos frutos da santidade e do amor que é capaz de produzir. 

Deus está sempre atento àqueles que acreditam no milagre da Salvação que passa irremediavelmente pelo perdão e a conversão. “Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”, disse Jesus.

Que Jesus nunca nos diga, como disse para à figueira: “Por que está ela inutilizando a terra?” Ó que palavras duras. Não frutificar, não fazer o bem é um mal insuportável para Deus. 

Mas sempre há a providência de Deus na nossa vida: “Vou cavar em volta dela e colocar adubo”. Deus sempre dá um jeito de colocar pessoas-anjos junto de nós que nos ajudam a cavar em volta, fazer a coroa ao redor da planta, removendo as ervas daninhas, os maus pensamentos, más influências e amizades que não promovem o bem, a justiça e a paz que Jesus nos pede.

Deus coloca adubo, ideias novas, luz, esperança e fé em nossos corações, que brotam do Verbo de Deus, de seu Filho e de seu Santo Espírito para que a vida em nós renasça. Sim, a nossa salvação passa pelo perdão, pelos frutos e a conversão. 

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja Louvado.

Brasilândia/MS, 23 de março de 2025.

Fonte: Deus Conosco, Dia a Dia, Ano Litúrgico C, março de 2025, Dia 23, 3º Domingo da Quaresma; Liturgia Diária, 23 de março, 3º Domingo da Quaresma, Homilia, Pe. Edison Oliveira.

Foto: https://i.pinimg.com/736x/a7/27/00/a727004bfda07c99f0f0ffcf49f3ba2b.jpg

 

 

 

O Dia Mundial da Água e a nova Secretaria de Meio Ambiente e Turismo

Carlos Alberto dos Santos Dutra







22 de março. Dia Mundial da Água. Melhor data não haveria para comemorar a criação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo em Brasilândia. A iniciativa pioneira da nova administração municipal, com a criação desta Secretaria revela de antemão, o quanto de carinho, respeito e cuidado haveremos de ter com a paisagem que circunda nossa casa, nossos campos e a cidade. 

Vivemos hoje um grande desafio que deverá ser enfrentado com coragem e determinação por esta governança que inicia: as exigências climáticas que estão na ordem do dia e reclamam ações urgentes de mitigação e nos impelem a desenvolver ações e projetos sempre novos de proteção ambiental. 

Sobretudo em relação aos recursos hídricos que são lembrados nesta data criada em 1992 pela Organização das Nações Unidas (ONU) para refletirmos sobre a sua importância, uma vez que a água é essencial para a sobrevivência de todos os seres vivos. Momento para lembrar da urgente necessidade de conservação dos ambientes aquáticos, evitando poluição e contaminação. 

A Prefeitura Municipal de Brasilândia, através de sua mais nova Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo-SEMATUR, reafirma seu compromisso na defesa do meio ambiente, envidando todos os seus esforços em ações que contribuam para a preservação da água orientando a comunidade a preservar os recursos hídricos, garantindo que eles não faltem no futuro. 

São ações já delineadas no Plano de Governo da Prefeita Márcia Regina do Amaral Schio, seu vice Fábio Toledo Leite da Silva, e seu Secretariado, que vão desde a qualidade e preservação do curso d’água dos nossos rios e córregos, até o monitoramento e fiscalização do uso do solo, da vida das florestas, e das áreas de preservação ambiental. 

Em matéria do Meio Ambiente, bem sabemos, somos todos dedicados aprendizes cujas melhores iniciativas e práticas deverão passar pela educação ambiental, o que só será conseguido se caminharmos de mãos dadas com quem vai no mesmo rumo, no rumo do bem estar econômico, social e ambiental desta comunidade. 

A escolha de um dia dedicado a esse patrimônio natural do mundo, deixa clara a sua importância na vida das pessoas e no equilíbrio dos ecossistemas. Apesar de nosso planeta possuir grande quantidade de água, nem toda ela está disponível para consumo humano. Somente 2,4% da água é doce e apenas 0,02% está disponível em lagos e rios que abastecem as cidades e pode ser consumida. 

O município de Brasilândia deverá contar a partir de agora com uma equipe técnica, capacitada e, sobretudo, apaixonada pelo Meio Ambiente. E fará de tudo para desenvolver o potencial transformador deste lugar, o que será conseguido com o apoio de cada um dos moradores e de todos os segmentos desta comunidade que amamos. 

Que tal começarmos a pensar em ações que contribuam para a preservação da água diariamente, como reutilizar esse recurso natural quando possível, não tomar banhos demorados, não jogar lixo nos rios e encostas e utilizar produtos de limpeza biodegradáveis. Assim, será possível preservar a água, garantindo que ela não venha a faltar. 

Ao instituir o Dia Mundial da Água, a ONU também divulgou a Declaração Universal dos Direitos da Água, um documento apresentando pontos importantes sobre esse recurso hídrico. Conheça os 10 principais artigos desta declaração: 

Art. 1º – A água faz parte do patrimônio do planeta.
Art. 2º – A água é a seiva do nosso planeta. Ela é a condição essencial de vida de todo ser vegetal, animal ou humano. Sem ela não poderíamos conceber como são a atmosfera, o clima, a vegetação, a cultura ou a agricultura.
Art. 3º – Os recursos naturais de transformação da água em água potável são lentos, frágeis e muito limitados.
Art. 4º – O equilíbrio e o futuro do nosso planeta dependem da preservação da água e de seus ciclos.
Art. 5º – A água não é somente uma herança dos nossos predecessores; ela é, sobretudo, um empréstimo aos nossos sucessores.
Art. 6º – A água não é uma doação gratuita da natureza; ela tem um valor econômico: precisa-se saber que ela é, algumas vezes, rara e dispendiosa e que pode muito bem escassear em qualquer região do mundo.
Art. 7º – A água não deve ser desperdiçada, nem poluída, nem envenenada.
Art. 8º – A utilização da água implica respeito à lei.
Art. 9º – A gestão da água impõe um equilíbrio entre os imperativos de sua proteção e as necessidades de ordem econômica, sanitária e social.
Art. 10º – O planejamento da gestão da água deve levar em conta a solidariedade e o consenso em razão de sua distribuição desigual sobre a Terra.

Que tal começarmos a construir juntos o futuro demonstrando o nosso cuidado e zelo com a água?

 

Brasilândia/MS, 22 de março de 2025.

Dia Mundial da Água.

Fonte: https://www.sema.ma.gov.br/p9740/

 

quarta-feira, 19 de março de 2025

 

Balbina artesã: palhas, tintas e resiliência.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 



   

Dia 19 de março foi o Dia do Artesão. Entre tantas profissões esta, sem dúvida, é a primeira que revela a espiritualidade dos habitantes e os frutos da terra. Ela nasceu, pois, num tempo pretérito, quando a humanidade ainda engatinhava e, num dado momento, ergueu a cabeça e percebeu as cores do arco íris, o tom aveludado das frutas, a firmeza dos juncos e das palhas do campo, a policromia das penas e o canto dos pássaros. 

E lá encontramos as mulheres, enquanto seus homens embrenhavam-se nas distâncias em busca do alimento desafiando a caça ao desconhecido durante dias, lá estavam elas nas suas tendas, na beira dos riachos, acariciando a água e contemplando as plumas esvoaçantes que lhe nutriam a alma e seu espírito inquieto e guerreiro. 

Assim, neste ambiente repleto de vida e onde a natureza se oferecia inteira com seus segredos e magias, mãos de fada começavam a domar os fios, as palhas e as tintas, entremeando as cores e as formas, fazendo brotar a arte que cada uma delas guardava nos seus corações e nos recônditos da alma. 

Ah, mas o tempo não para. Roda o moinho dos ventos e cá estamos nós em Brasilândia. O ano é 1979, há 46 anos, portanto, e o artesanato com palha de milho dava seus primeiros passos a partir de um curso de artesanato realizado pela prefeitura local. O curso reuniu na época 30 alunos que se habilitaram no artesanato com palha de milho e outros materiais. 

Entre os alunos, também lá estava o sonho de uma artesã que, hoje prestamos nossas homenagens: Dona Balbina Ribeiro de Novaes, conhecida simplesmente por Bina, que hoje revela o seu talento por meio do artesanato e já é referência dessa arte no nosso município. 

Trata-se de trabalho artesanal realizado em palha de milho e outras fibras trabalhadas com carinho e maestria por mãos que as transformam em produto de utilidade e fino acabamento, tais como bolsas, cestas, porta jornais, que identificam essa lutadora, dona Balbina. 

Depois de muito trabalhar como servidora pública na condição de gari, onde acabou aposentada por invalidez, há 20 anos, deu a volta por cima revelando-se uma artista ímpar e de renome de nossa cidade. 

Mas quem é essa mulher criativa e maravilhosa? De onde ela veio e onde descobriu sua vocação para a beleza da arte, parindo formas, rompendo barreiras, desenhando cores? 

Pois bem, é ela mesmo que conta a sua história, aqui cuidadosamente manuseada pelas palavras deste modesto escrevinhador que pede licença poética para revelar aos presentes um cadinho da história dessa mulher, experiência que perpassa também a história de vida de cada uma das artesãs de nosso cidade, pois ela fala com o coração feminino que nos envolve a todos. 

Balbina Ribeiro de Novaes, recebeu o apelido de Bina quando jovem, mas sua mãe, Izabel Maria de Novaes, sempre a chamava, carinhosamente de Nega. –Nega vai lá, --Nega vem cá... Mas o nome que pegou mesmo foi Bina. Pois essa pérola negra veio ao mundo no dia 4 de dezembro de 1946, lá no sudoeste Baiano, no município de Caraíbas. 

Pertencente a uma extensa família, para a preocupação do pai, seu Domingos José dos Santos, a jovem Bina era apenas mais um dos 22 irmãos que lhe ensinaram a dar os primeiros  passos naquela família. 

Hoje, com 78 anos, ela lembra muito bem daquele tempo. --Infância, eu nunca tive, diz sorrindo. --Coloquei os pés em Brasilândia com 7 anos de idade. Naquele tempo nós morava no km 17, nas margens do rio Paraná, no Porto João André, ela recorda. 

As águas mansas daquele rio a fazem voltar no tempo e recordar o tempo que ali viveu: a escola em que estudou e o quanto o mundo rodou. Não avançou muito no estudo, pois a escola era precária e a distância impedia as crianças e os jovens que ali viviam, de estudar. 

Mas ela lembra da professora Abadia dos Santos, sua professora que, sempre muito dedicada, também ensinava na casa dos alunos que viviam no Porto. Balbina confessa que deve a esta professora, todo o pouco que estudou. 

Quando seus braços já suportavam o peso da enxada, lá se encontrava a jovem Bina ajudando a família no trabalho da roça, colhendo e plantando ao lado dos irmãos. O tempo passou por ela e ela nem percebeu que a infância foi ficando para trás, a juventude foi chegando, e quando abriu os olhos já era uma moça feita. Porém, seus pés permaneceram sempre na roça, firmes na terra, o seu chão. 

Foi no trabalho no campo que ela conheceu aquele que viria a ser o seu esposo. Era um jovem que trabalhava com o seu pai, seu Domingos, e que já há algum tempo seus olhares já haviam se entrecruzado. 

Sobre o seu casamento, encabulada, conta que simplesmente foi embora com o esposo desprendendo-se da família de seus pais. Tinha apenas 12 anos de coragem e maturidade, e seu olhos miravam longe. A lado deste marido, teve de contentar-se com a missão de educar os filhos, os 9 que teve com ele e mais 7 filhos que adotou. Hoje, com satisfação é avó e contabiliza 12 netos. 

Nesse período os sonhos foram ficando para trás. Lembra com saudade que costumava sentar na barranca do rio e deixar a água acariciar levemente a planta dos pés como que convidando a caminhar sobre as águas e avançar em direção a outros mares com seu barquinho de papel. 

Quando não estava trabalhando, algumas vezes divertia-se jogando bola com o esposo. Outras vezes, num momento só seu, contemplava o colorido do brejo e varjões de Cisalpina, seus juncos e flores, atrativos cênicos que mais tarde lhe inspirariam a desenvolver a sua arte e seu ofício de artesã. 

A condição de mulher, esposa, mãe e servidora na atividade mais exigente e humilde que exerceu, nunca foram empecilhos que lhe impediam de mostrar o mundo sua capacidade e criatividade empreendedora. Mesmo quando não encontrava o apoio que merecia, nunca desanimou fazendo seu artesanato e participando nos eventos em que era convidada. 

Dona Balbina na atualidade é um exemplo de resiliência para todas as artesãs que consolidam a ARTEBRÁS. E olha que ela já acumula diversos troféus e homenagens que a enchem de alegria e contentamento. Mulher simples, mas também prática, recorda que um dos primeiros troféus que recebeu foi um relógio de feira e ver seu nome dado à Feira do Artesanato de Brasilândia. 

De obstinada persistência e vigor humano, dona Balbina soube ao logo do tempo vencer os desafios que a vida impõe valendo-se de sua criatividade e a força de seus ancestrais. 

Quando lhe faltavam recursos e matéria prima para seus trançados em palha de milho, não se sentia encabulada de ir à imprensa e reivindicar junto à sociedade local, o seu espaço de artesã, solicitando àqueles que pudessem ajudá-la, não por caridade, mas como produtor de arte. Sua arte a fazia feliz e também a todos que viam aquele material transformado em lindas cestas, balaios, leques de abano, entre outros. 

Um momento de glória lembrado por dona Balbina aconteceu no ano de 2008, quando Brasilândia participou da 23ª Festa do Folclore de Três Lagoas, e entre as peças produzidas por artistas brasilandenses, entre eles estavam também os trabalhos produzidos pela artesã senhora Balbina. 

Esta senhora é exemplo para as demais artesãs e artesãos de nossa cidade. E pedem licença e seguem em frente em busca de sua Casa do Artesão, levantam a voz em busca de apoio para obtenção da matéria prima que necessitam para sua arte. Saem pelas praças do mundo com seu colorido que brota da terra, provocando admiração e encantamento a quem se permita deitar os olhos sobre o belo de peças, produzidas com tanta graça, perícia e beleza. 

Essa senhora com sua arte, ganham o coração da humanidade transformando a matéria, do seu estado natural em um produto artesanal pela força e esmero de suas mãos, expressão da identidade cultural que cada um desses artistas carrega dentro de si: sua habilidade, originalidade e potencial econômico que urge ser promovido e cuja beleza encanta a todos. 

Parabéns dona Balbina Ribeiro de Novaes, parabéns artesãs e artesãos de Brasilândia. Feliz dia do artesão. Feliz a administração pública que reconhece e valoriza o fruto de vossas mãos! Feliz Dia do Artesão. 

Brasilândia/MS, 19 de março de 2025.


Fonte: Balbina Ribeiro de Novaes, entrevista concedida à Cristiane Carvalho em março de 2025; História e Memória de Brasilândia, Vol. 2-Patrimônio, pág. 83-85.

Foto: Arquivo Profª Maria Rita Santini e Patrícia Acunha, 2014. Pedro Henrique Coutinho, 2025.