A Tristeza em Palomas de Juremir Machado
No dia
11 de maio de 2010 redigi uma carta ao amigo Padre Alex José Kloppenburg, um hulha-negrense tornado pedritense da pampa gaúcha, comentando
um artigo que ele me enviou e que havia sido publicado na coluna do Juremir
Machado no jornal Correio do Povo, de Porto Alegre-RS, em 27 de abril de 2010 (1).
Dizia eu na ocasião: Conheci Palomas há 40 anos. Não conheço Juremir pessoalmente, esse poeta das letras e da sensibilidade. Parabéns pelo texto. Mas, quem és tu Juremir, se me permite? E o que andas escrevendo na ânsia de nos alimentar a saudade e as vergas que cruzam o peito? Deixando inquieto esse quera aqui distante do Cacequi?.
Eis a crônica TRISTEZA EM PALOMAS.
De Juremir Machado da Silva (2) que tomo a liberdade de reproduzir aqui.
Quando
eu era criança, Palomas era o meu universo. O mundo começava logo depois do
cerro.
Era
o desconhecido. Pouco antes do grande morro, está o cemitério branco, num alto.
Era um divisor. Chegávamos até perto dali. Ao avistar os túmulos, mortos de
medo, disparávamos de volta para a vila. Em "Cai a noite sobre
Palomas", conto uma história da qual tive de me lembrar recentemente.
Fui
buscar as vacas ao final da tarde. Depois de muito procurar, concluí que
estavam para o lado do cemitério. Bati com a vara de alecrim nas ancas do
cavalo. A noite vinha caindo muito rápido. De repente, vi um vulto todo branco
balançando em frente ao cemitério. Desabalei. Poucas vezes senti tanto medo,
salvo, talvez, outra vez, em Paris, no hotel Home Latin, quando temi
enlouquecer.
O
matungo chegou estafado ao povoado. Não encontrei ninguém para me queixar ou
para voltar comigo. Fiquei com medo do meu pai. Afinal, não trouxera as vacas.
Enchi-me de uma coragem que não tinha e segui para o cemitério. Aproximei-me do
vulto que balançava ao vento. Era um enorme caraguatá com flores brancas. Morri
de vergonha.
Palomas
era a fonte, o nascimento, a infância, os campos sem fim, os belos cerros
distantes e os seres estranhos que transformei em personagens, acrescentando
ficção ou cortando o inverossímil por excesso de verdade.
Nunca
me esquecerei do primeiro enterro que vi no cemitério de Palomas, numa tarde de
inverno. Nunca me esquecerei do longo apito do trem. Nunca me esquecerei do
enforcado. Nunca me esquecerei das velozes carreiras de cancha reta. Palomas
era, sobretudo, a alegria da natureza pulsando.
Tinha
os seus mistérios insondáveis para a fantasia de um guri sonhador. Uma gruta
que se perdia no fundo da terra, na qual eu nunca estive. O canto triste dos
jacus nos matos. A louca raspando latas. O alaranjado das bergamotas vergando
as árvores. A cor linda dos maracujás. As pandorgas serpentando no céu azul. O
silêncio das "cordilheiras". O vento assobiando na rua de trás. A lua
descendo por trás dos eucaliptos. As meninas crescendo, tornando-se mulheres
com suspiros repentinos.
As
estrelas coalhando o firmamento nas noites de verão. Homens conspirando nos
cantos ou jogando truco nos bolichos. As melancias crescendo nas lavouras
fartas.
Agora,
aos poucos, Palomas vai ganhando tristezas, tornando-se uma lenta acumulação de
más lembranças. Estive lá, na semana passada, para o enterro do marido da minha
irmã Nina. Írio morreu aos 52 anos de idade. Era um grande marceneiro, um
uruguaio que se abrasileirou sem perder a origem.
Chorei
a morte desse gremista apaixonado, cujo último jogo que escutou no rádio, como
sempre fazia, foi do Internacional. Deve ter dado uma secadinha. Quero que o
Grêmio ganhe este gauchão em homenagem a ele. Foi muito triste.
Palomas
pareceu-me exatamente a mesma da minha infância. Quase uma paisagem imóvel de
um quadro melancólico. O mundo depois do cerro eu já conheço um pouco. Palomas,
no entanto, é outra: o lugar aonde agora vamos para enterrar os nossos mortos.
Texto reproduzido em Dutra, C.A.S. Se me deixam falar: crônicas daqui e além mais. Edição do Autor, Brasilândia/MS, 2013, Página 254s.

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