terça-feira, 15 de setembro de 2026

 

A Feira e Viola como Palco da Identidade: Histórico e Evolução da Cultura Popular em Brasilândia

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 



Existem binômios que são sempre estimulantes: feira e artesanato; feira e viola; feira e empreendimento; feira e literatura; feira e esporte. Isso porque a feira livre é, por excelência, uma das maiores manifestações vivas da cultura de um povo.

Trata-se de um espaço residual de liberdade e criatividade, onde a arte ganha voz por meio da música, da dança, do teatro, do artesanato e das artes plásticas, conectando as produções feitas com esmero pelos moradores de um lugar diretamente ao coração da comunidade.

Em Brasilândia, essa vocação cultural manifestou-se cedo. As instituições e o poder público historicamente dedicaram especial atenção às expressões populares da região, acolhendo-as e impulsionando-as. Seja pela originalidade das riquezas da terra, seja pelo elo de comunicação criado entre os governantes e a comunidade — em tempos de forte configuração rural —, a feira sempre foi um ponto de encontro essencial.

O primeiro grande registro dessa natureza remonta à 1ª Feira Verde Arte de Brasilândia, realizada entre os dias 20 e 22 de outubro de 1989. Realizada pelo Conselho de Desenvolvimento Comunitário de Brasilândia (CODECOMB), que coordenei  na época, o evento ocorreu na quadra de esportes da Escola Municipal Arthur Höffig.

Foi uma das pioneiras exposições culturais da cidade, permitindo que os munícipes expusessem sua produção artesanal com suporte da administração municipal. Um dos pontos altos daquele encontro foi a participação da comunidade indígena Ofaié. Naquela oportunidade, os brasilandenses puderam compreender e valorizar os Ofaié como legítimos detentores de uma cultura própria e rica, assistindo em tempo real os estudantes acompanharem a confecção de arcos, flechas e colares em uma ação pedagógica marcante para a época.

Embora os registros em vídeo daquela gestão do prefeito José Cândido da Silva tenham se perdido com o tempo, a memória de pioneiros artesãos como Eduardinho Cri-í, Aparecida Hanto-grê, Pereirinha He-í e o jovem João Carlos Canrê permanece viva como a semente da nossa tradição.

Anos mais tarde, em 1995, o então vereador Jaime Assis de Alencar (Jaime Doce) propôs a criação de uma Feira Livre dominical para baratear os alimentos, ideia estendida ao distrito Debrasa. Em seguida, as proposições dos vereadores Irineu de Souza Brito, em 1997 — que sugeriu o nome poético de Feira da Lua por seu caráter noturno —, e de Marcos Roberto Lopes (Beto da Maurimar), em 1999, consolidaram o projeto. 

A chegada dos assentamentos Santana, Santa Emília e Pedra Bonita impulsionou definitivamente a produção de hortifrutigranjeiros, culminando na inauguração oficial da Feira Livre do Produtor Rural no dia 8 de fevereiro de 2000, na Praça da Pedra (Praça José Pinto Nunes).

Ao longo do tempo, o perfil produtivo transformou-se devido às safras sazonais, abrindo espaço para entidades filantrópicas e comerciantes locais, mas o viés de polo cultural manteve-se inabalável. Em 2013, o evento assumiu a denominação que carrega com orgulho até hoje: a Feira e Viola, convertendo-se em um instrumento indispensável de difusão da identidade brasilandense.

A partir de 2014, essa tradição expandiu as suas fronteiras e encontrou no bairro João Paulo da Silva, mais especificamente na Praça Ostelino Cardoso, o seu principal ponto de efervescência popular às quartas-feiras. O evento consolidou-se como um patrimônio social que atrai moradores de todos os cantos do município.

Semanalmente, o espaço transforma-se em um verdadeiro festival de convivência, oferecendo música ao vivo, uma variada praça de alimentação com comidas típicas, além da exposição e venda do autêntico artesanato local. Para as crianças, a diversão é garantida com o parquinho e a distribuição de pipoca, enquanto os adultos se divertem com os tradicionais binguinhos comandados pelo carismático radialista Ceará Santos e celebram a noite ao som do tradicional forró musical.

Atualmente, a Feira e Viola do bairro João Paulo da Silva prepara-se para vivenciar um novo e importante capítulo de sua história. A Praça Ostelino Cardoso passará por uma ampla reforma e modernização, uma obra aguardada que resultará em um espaço público revitalizado e com melhor infraestrutura para expositores e visitantes.

Durante o período de execução das obras do novo complexo, a tradicional feira de quarta-feira continuará acolhendo a população em um espaço alternativo temporário, assegurando que o comércio de subsistência, o lazer das famílias e a pulsação cultural de Brasilândia não sejam interrompidos até o retorno triunfal ao seu lugar de origem.


Brasilândia/MS, 15 de setembro de 2026.

Fonte de fundamentação histórica: https://carlitodutra.blogspot.com/2023/03/a-feira-da-lua-os-produtores-e-cultura.html

História e Memória de Brasilândia, Volumes II, III e IV.



 

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