sábado, 17 de outubro de 2026

A Arataca e a Ferida que mais Dói 
Relato de um guardião da natureza

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

As palavras que grito ao telefone são duras, eu sei. Elas saem do meu peito como lâminas afiadas, fazendo a boca sangrar. Mas a ferida que mais dói em mim não é a do metal; é o desalento de ver o caos engolir o bem mais precioso que Deus me deu para proteger: esta terra, esta mata, os filhos do mato.

Eu ligo para a secretaria de meio ambiente e grito. Minha voz é puro estopim: — Vocês não fazem nada! Sempre pedi vistorias... Veja este vídeo que te mando, olhe o tamanho da nossa culpa! Nas imagens, a armadilha fria espreita na sombra das árvores. Uma arataca disfarçada de sossego. 

Minha indignação tem o formato de uma ausência. Encontrei a caveira do veado-de-rabo-branco bem ali, onde a minha propriedade faz divisa com o silêncio sagrado da Reserva Cisalpina. Andavam caçando dentro da minha Área de Preservação Permanente. A minha APP, que deveria ser um templo, virou um matadouro. 

Ali, quase todo mundo esconde o hálito da pólvora em armas ilegais. Eu imploro ao secretário: — Faça mandados, recolha o ferro que mata a floresta... Eu juro que não abro a boca para ninguém. Só quero salvar o que resta. 

Sou apenas um homem idoso, um ambientalista sem farda, testemunhando o avanço da morte na beira da mata. Logo agora... logo agora que as onças-pintadas haviam entendido que aqui era um lar seguro. Nós flagramos duas delas, lindas, majestosas, atravessando a fronteira do estado de São Paulo para as terras de Mato Grosso do Sul... Procuravam vida, encontraram o medo. 

Só quem mora no miolo da floresta, longe das luzes da cidade, conhece a espessura dessa solidão. É um desamparo que aperta o peito. — Mataram o meu veadinho... Ele vinha manso, com os cascos leves, comer o sal junto com o gado. Era um pedaço da minha família, uma espécie em extinção que confiava nos meus olhos. Agora, resta apenas a carcaça seca no pasto. 

Sinto-me um Dom Quixote velho, desarmado, gritando contra moinhos de impunidade e vento. — Mova-se, Carlito! Faz alguma coisa ou pede demissão! Se você quiser, eu te levo pelas trilhas, antes que eles sumam com as armadilhas. Sei onde tudo está. As antas vinham direto buscar o mamão maduro que caía dos pés; os catetos passavam em bandos alegres, mas mataram todos. 

O homem é cruel: joga milho na arataca, ceva a fome do bicho e, quando ele entra, a fechadura da tampa desaba como um caixão. Se eu pegar um caçador perseguindo a nossa biodiversidade, juro que atiro. Mas Deus sabe que hoje não carrego armas; não sou criminoso. Minhas mãos estão limpas, pois arma boa serve apenas para prender bandido. 

Quando a noite cai em Brasilândia, o silêncio deveria ser um manto. Mas ele é rasgado pelo estampido seco de uma bala em busca de carne e sangue. Com os dedos trêmulos, digito no celular: — Atende, pelo amor da natureza! É tua obrigação moral agir. Eu fiz a minha parte. Já me ameaçaram quando denunciei as aratacas que engoliam os catetos e as queixadas. Já atiraram no meu veadinho. 

Sei que somos pequenos Davis contra Golias gigantescos. Sei que a ordem do mundo lá fora é "deixar passar a boiada", desbotando o verde das nossas matas nativas, o vermelho fértil do chão, o azul das nossas águas e o amarelo prateado que corre no pelo dos bichos. A floresta está em fuga, intoxicada pelo veneno e pelas queimadas. 

Mas eu continuo aqui, gritando no ouvido dos que têm o poder. Olho para os jovens, para os professores, para os meus irmãos de fé, implorando para que cuidem da nossa Casa Comum. Brasilândia não pode ser a terra da despedida, precisa ser a cidade da esperança. Que um raio de luz desça sobre nós antes que a última arataca se feche. 

Brasilândia/MS, 1º de dezembro de 2025. Cf.

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