sábado, 25 de abril de 2020



I Remember, Brasilândia!
Carlos Alberto dos Santos Dutra




Hoje é dia de festa. Festa de aniversário. Com carros alegóricos, música, faixas, cores e muita alegria. Brasilândia/MS comemora hoje seu 60º Aniversário...  25 de abril, I remember...

O ano era 1978, e vivia-se a primeira década de Brasilândia após o seu desmembramento de Três Lagoas. Sim Brasilândia, em tua homenagem,          I remember...

Ao tempo dessa emancipação havia quem resistisse em aceitar o fato por se tratar da melhor parte de terras do município de Três Lagoas. De fato, a área que hoje constitui o município de Brasilândia é aquilo que se pode chamar de filé mignon desta região.

Passado o período inicial e logo Brasilândia começou a ensaiar seus primeiros passos, logo se transformando numa comuna cheia de querer, de vontade própria, mercê do valor de suas lideranças, pouco importando as divergências naturais entre elas. Com uma população que superava a casa dos 15.000 habitantes, revelava ainda forte concentração rural, onde apenas 3.000 residiam no perímetro urbano, evidenciava a força da agricultura, ainda emergente.

Seu colégio eleitoral neste ano era superior a 4.500 eleitores, o que revelava um índice de politização bastante alto a considerar a época e o tipo de política coronelista então praticada nestes cerrados. Sob forte influência do Estado de São Paulo, com quem faz limite pelo rio Paraná, possuía nesta época um Cartório de Paz; um banco, o Banco Financial do Mato Grosso, e 46 casas comerciais.

Outra característica ou sintoma da vocação rural de Brasilândia destes tempos primeiros se denunciava no número de escolas. Das 30 escolas do município 26 estavam na zona rural. O número de estudantes matriculados naquele ano era de 1.460 alunos. Naquele momento Brasilândia preparava-se para dar o seu grande salto no que diz respeito ao desenvolvimento. Época em que o município iria receber luz elétrica e eletrificação rural, o seu posto telefônico e uma indústria de muita importância para o município, que era o Laticínio Brasilândia.

O prefeito Adilson Alves da Silva, a Câmara Municipal e os políticos influentes que assessoravam a administração, registrou a imprensa na época buscam tirar todo o proveito desse momento que se apresenta muito favorável para o município. A Administração está empenhada em três outras frentes de trabalho, além das já acima mencionadas: a implantação da cultura do café, a colocação das guias de sarjetas e o término da moderna Praça Santa Maria, cujas obras já se acham em adiantada fase de construção.

Com a eletrificação, pelo sistema originário de Urubupungá, o conjunto de geradores que hoje serve a sede municipal será levado para o Distrito de Xavantina, que assim receberá também a sua iluminação pública. Essa era a imagem de 1978 de Brasilândia, que se destaca, que promove, acompanhando bem os tempos que os primeiros moradores viveram. É a imagem dinâmica de um jovem município que promete muito para o futuro e que por suas especialíssimas condições de riquezas, de posicionamento geográfico e agora de infraestrutura sobe aceleradamente de cotação na corrida que suporta todo o Estado de Mato Grosso na atração de investimentos, ressaltava a Imprensa na época.

Nos carros alegóricos, a Escola, a Indústria nascente, o comércio, a lavoura, a assistência da EMATER, a juventude e o progresso. Todo o esforço de desenvolvimento de um município. Neste dia, a população mostrou-se entusiasmada, vibrando e aplaudindo o desfile de carros alegóricos e a palavra de seus representantes no palanque oficial que foi improvisado na Praça Santa Maria.

A partir das 8 horas o prefeito Adilson Alves da Silva, com sua digníssima esposa, dona Maria José da Silva compareceu no palanque da Praça Santa Maria juntamente com a imprensa e autoridades visitantes. Dar-se-ia o início do desfile escolar, marco inicial das festividades comemorativas da data magna do município. Do programa constava, além do desfile, um churrasco na fazenda Santa Mercedes, de propriedade de Amadeu Demiscki.

Para a parte da tarde o programa apresentava duas partidas de futebol de campo. A primeira mostraria um empate entre os veteranos de Brasilândia e uma equipe secundária local. Na peleja de fundo o esquadrão titular da Cidade Esperança defrontar-se-ia com a equipe da Polícia Militar de Três Lagoas. Para a noite duas importantes atrações: um Concurso de Violeiros (aguardado com grande ansiedade pela população) e o grande baile de aniversário da cidade.

Logo após as 8 horas, conforme o programado deu-se início ao desfile escolar. No palanque postado ao lado da Praça Santa Maria, que se acha em obras de implantação, as autoridades locais e visitantes se colocaram para as homenagens que a Comissão Especial de Aniversário, nomeada pelo prefeito Adilson, havia preparado para o momento de solenidade e civismo.

Presentes, no palanque, achavam-se o prefeito Adilson Alves da Silva, a primeira dama da cidade, dona Maria José da Silva; vice-prefeito Fernando Martins Mendes; presidente da Câmara Municipal, José Cândido da Silva; vereador Donato Ferreira dos Santos; secretário da administração Ângelo Lopes Aguiar; Fernando, gerente do Banco Financial, agência de Brasilândia; presidente do Diretório da ARENA local, Políbio Leal Freitas, morador em Brasilândia desde 1963, e representantes do comércio e de classes atuantes na vida social e econômica de Brasilândia.

Prestigiando o acontecimento compareceram e se fizeram presentes no palanque oficial: Dr. Ramez Tebet, prefeito de Três Lagoas; Akira Otsubo, na época vereador da Câmara Municipal de Três Lagoas; Nadir Pousa, vice-prefeito de Panorama, cidade vizinha do lado paulista; major Lon Guarany de Albuquerque, comandante do 1º/4º RC Moto; capitão Júlio Martins, comandante da 6ª Companhia de Polícia Militar, e representantes da imprensa de Três Lagoas, falada e escrita.

As escolas locais, do Estado e do Município, desfilaram conduzindo faixas e dizeres alusivos ao grande dia, algumas, portando mensagens de boas-vindas aos visitantes e outras tantas saudando suas autoridades, mormente o chefe do Executivo da cidade aniversariante, o acadêmico de direito, Adilson Alves da Silva.

Fizeram um semicírculo e postaram-se à frente do palanque, deixando espaço para o desfile dos carros alegóricos, em número de 11, demonstrativo de um esforço notável para fazer das comemorações natalícias da cidade um acontecimento marcante na memória da população. Bonitos carros, alguns pontificando pela inegável criatividade, mas todos enfim, contribuindo para evidenciar o clima de otimismo que hoje invade a população de Brasilândia, no que respeita ao seu futuro imediato.

Não resta dúvida nenhuma, mínima que seja, de que Brasilândia vive um momento de singular felicidade, quando todos os esforços do jovem prefeito vêm resultando em soluções concretas para problemas tradicionais daquela comunidade.

Todo esse esforço bem sucedido do prefeito Adilson se soma a uma série de desfechos e coincidências, resultando num desaguar de benefícios que se acumulam em favor de um povo trabalhador e de uma terra realmente muito bem dotada, que é Brasilândia, registrou a imprensa.

Terminado o desfile dos carros alegóricos e quando todos já esperavam pelos costumeiros discursos, ansiosos por ouvir a palavra de seus líderes surge debaixo de um som e ritmo característicos, a Banda Marcial Cristo Redentor, um presente do prefeito Ramez Tebet ao povo e autoridades de Brasilândia. A presença da consagrada corporação fez o público inteiro explodir em aplausos, numa demonstração mais uma vez confirmada do prestígio da nossa Banda Marcial. Em frente ao palanque a Banda executou vários números, sempre seguidos de intensa manifestação de apreço pela população, inclusive o Parabéns a você.

Iniciando os pronunciamentos relativos à data que se comemorava falou o prefeito Ramez Tebet, levando a sua homenagem, em nome da Caçula ao povo e autoridades de Brasilândia. Muito aplaudido pelos presentes, o prefeito Ramez Tebet deixou gratíssima impressão em todos. Em seguida falou o prefeito Adilson, agradecendo todos pela colaboração no trabalho realizado a fim de oferecer à cidade uma comemoração digna de seu estágio de comunidade em franco progresso. 

Ao mencionar as obras em construção deixou o compromisso de que no próximo aniversário de Brasilândia o seu povo já poderá comemorá-lo tendo sua luz elétrica, o seu telefone e a sua sonhada Praça Santa Maria. Ao encerrar suas palavras anunciou a candidatura do prefeito Ramez Tebet como representante de Brasilândia na Assembleia Legislativa estadual no novo Estado de Mato Grosso do Sul.

Usou da palavra, após o prefeito Adilson, o Sr. Domingos Cristóvão Ribeiro, proprietário do Supermercado Lisboa, levando uma palavra de confiança na Administração do prefeito Adilson e formulando votos de progresso para Brasilândia, seu comércio e seu povo. Falou, após, o presidente da Câmara Municipal, vereador José Cândido da Silva, reiterando o propósito do Legislativo em continuar facilitando o trabalho do prefeito Adilson no sentido da busca do progresso e do bem-estar da gente urbana e rural. Justificou a ausência de alguns vereadores que foram impossibilitados de comparecer às festividades em andamento. Ao final convidou a todos ali presentes para o aniversário do progressista e querido Distrito de Xavantina, comemorado no dia 22 de maio.

Encerrando, falou o vereador Akira Otsubo, em nome do Legislativo de Três Lagoas. Cumprimentou povo e autoridades de Brasilândia, confirmando suas impressões sobre o promissor futuro daquela terra, aplaudindo a manifestação do prefeito Adilson sobre a candidatura do prefeito de Três Lagoas à Assembleia Legislativa do nosso Estado, pois se trata de um político hábil, de um homem culto e por tudo isso muito capaz de contribuir para a solução dos nossos problemas regionais[i].

Ah, Brasilândia... eu me lembro, você se lembra, nós nos lembramos daqueles tempos em que os pioneiros abriram as estradas que hoje agradecidos trilhamos. 60 anos passados de sua emancipação político administrativa, nesta festa de aniversário, cá estamos nós, entrando com passos firmes em novos tempos, com coragem e determinação, vencendo os desafios e escrevendo uma nova história com a prefeita Márcia Regina do Amaral Schio e sua equipe.

Ainda que na condição de filhos adotivos, muitos aprenderam a amar mais do que tudo esta cidade. Como diz o hino oficial do município: Terra que acolheu a todos, gratidão que só tu deste. Para além dos poderes e honrarias que passam. Sim, Cidade Esperança, podemos dizer com orgulho: tens a nossa confiança, fé e amor! Parabéns Brasilândia.

Brasilândia/MS, 25 de abril de 2025. Publicado originalmente em 25 de abril de 2020, sob o título "Feliz Aniversário Brasilândia!".



[i] - Texto publicado pela Revista Bolsão Matogrossense, Três Lagoas/MS, Ano 01, nº 04, abril, 1978, pág. 15 a 22, e reproduzido no livro História e Memória de Brasilândia, de Carlos Alberto dos Santos Dutra, Vol I- Pioneiros, 1.Ed. Clube de Autores/Edição do Autor, 2019, pág. 42 a 46. Disponível em História e Memória de Brasilândia/MS - Pioneiros, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores. 2ª Edição foi publicado pela Editora Life.


terça-feira, 21 de abril de 2020


José Francisco Marques Neto, a memória e o tempo.
Carlos Alberto dos Santos Dutra



No ano de 2016, ao ser homenageado em vida no município de Brasilândia/MS, que conferiu o nome de José Francisco Marques Neto a uma Unidade Básica de Saúde-UBS construída no bairro Residencial Vale Verde (Lei 2654/2016), foi apresentada aos presentes na cerimônia de inauguração uma biografia do homenageado, o 1º Prefeito de Brasilândia, elaborada pelo então diretor de comunicação da Prefeitura local Alessandro Zioti e a pesquisadora Leila Adelaide Ferreira. O texto abaixo se encontra reproduzido no volume 5 da coleção História e Memória de Brasilândia que se encontra no prelo. É a singela homenagem que prestamos àquele que nos antecipou na caminhada e nos faz agora a gentileza de recebe-la do alto.

José Francisco Marques Neto nascido na cidade de José Bonifácio-SP aos 10 dias do mês de setembro do ano de 1932, é o 4° filho de um total de sete de um casal de colonos. Ainda garoto resolveu separar-se dos seus pais para dar início a sua caminhada, onde, alçou altos voos para atingir seus objetivos. Serviu o Exército brasileiro durante cinco anos, e na ocasião teve a oportunidade de estudar e formar-se em Farmácia pela escola militar. Em 1950 aos 18 anos votou pela primeira vez e já pertencia ao diretório municipal do PSD no estado de Mato Grosso, onde a política já corria pelas suas veias.

Foi eleito vereador por Três Lagoas no ano de 1962 e lutou pelo distrito de Brasilândia, no ano de 1965 onde o distrito se tornou município. Marques Neto como assim é conhecido se candidatou ao cargo de prefeito tendo como vice Gentil Ferreira de Souza, sendo eleito através do voto popular na cidade recém-emancipada, governou no período de 25/04/1965 a 14/09/1966.

Em seu legado deixou a estruturação da escola municipal Arthur Höffig, o campo de aviação e Estádio de Futebol Joaquim Cândido da Silva, além das diversas escolas feitas de madeira entre a cidade e a zona rural que já foram extintas. Deu o início primordial para a urbanização da cidade que até então era totalmente rural.

José Francisco Marques Neto é farmacêutico, bacharel em direito, professor de história e geografia da universidade federal e pecuarista. Não abandonou a política, continua membro do diretório municipal do PSD em Três Lagoas. 

Homenageado em vida pela administração municipal de Brasilândia que conferiu o seu nome a uma Unidade Básica de Saúde local, ao receber a notícia, Marques Neto se sentiu lisonjeado e agraciado com o feito quando se fez presente no dia da inauguração abrilhantando a solenidade e relatando fatos pitorescos da história do município. 

A homenagem, nada mais justa para o homem que pegou um povoado e transformou-o em cidade, explica Irineu de Souza Brito que teve a experiência de entrevistá-lo e ouvir uma peculiar história sobre o nascimento do município de Brasilândia da própria boca deste pioneiro:

Anos atrás, conta o ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e ex-vereador de Brasilândia, tive uma rica conversa com o primeiro prefeito de Brasilândia, José Francisco Marques Neto, que ainda vive na cidade de Três Lagoas. Ele me falou da grande festa da sua posse como prefeito e dos vereadores. Festa linda, com a presença de políticos de todas as regiões do antigo Mato Grosso e diante da população local, que não eram muitos, mas já formava um aglomerado digno de empolgar os discursos dos políticos mais afoitos e emocionados. Só que depois, quando acabou a festança, os visitantes se foram, voltando para suas localidades de origem, deixando a saudades e a poeira na estrada para trás... Foi aí que a ficha caiu, como se diz.

Ficaram em pé, então, no meio da praça [em meio à poeira e à tarde que declinava], o prefeito e os vereadores um olhando para o outro: sem câmara, sem Prefeitura, sem nada. O jeito foi partir para a luta, com a cara e a coragem, para conquistar passo a passo, um local para a instalação do prédio da Câmara Municipal e da Prefeitura, e os respectivos móveis que aos poucos foram ajeitando[i], relatou o prefeito José Francisco Marques Neto ao amigo Irineu Brito.

Cumpriu sua missão, escreveu Ray Santos, ainda em 1999 ao relembrar este pioneiro de Brasilândia. Aqui implementou as primeiras obras instalando o prédio da Prefeitura e trazendo muitos conterrâneos para a cidade que abria as portas para o desafio e novos tempos. A sua família também se radicou em Brasilândia e aqui viveu muitos anos, a exemplo Anésio Marques, Wilson Marques, entre outros. Vai-se o homem, mas suas obras permanecem na memória. Descanse em paz amigo Marques Neto.

Brasilândia/MS, 21.Abr.2020.




[i] - BRITO, Irineu de Souza. Câmara Municipal de Brasilândia: Sua história, ritual legislativo e personagens. TCC apresentado a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul-UEMS, Curso de Administração Pública, Unidade Universitária de Água Clara, 2018, p. 41.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Um endereço chamado Avenida Dona Felicidade


Um endereço chamado Avenida Dona Felicidade

Felicidade Antunes da Silva nasceu na localidade de Villa Espinosa, em Minas Gerais, no dia 20 de abril de 1916. 

Filha de Januário José de Oliveira e Maria Conceição de Jesus, veio com a família para o estado de São Paulo, onde conheceu o baiano Otílio Rodrigues da Silva, com quem se casou na cidade de Iacri, no estado paulista, ali fixando residência e constituindo família.

O casal chegou a Brasilândia nos anos 1950, dedicando-se com afinco no ramo da agricultura e da pecuária, na barranca do rio Verde e Paraná, onde criaram 10 filhos: Pedro Ivo, Joel, Lair, José, Diva, Vilma, Alice, Ernestina, Alvina e Devanir.

Foi nas margens destes rios que os olhos de dona Felicidade viram o progresso pouco a pouco ir chegando naquele lugar, desde a antiga Fazenda Cisalpina até o Iate Clube Rio Verde, quando o esposo, seu Otílio, desceu daquela embarcação e por trilhas e picadas continuou sua viagem a cavalo e se instalou numa posse de vinte alqueires, dos quais dez alqueires era reserva de argila com mais de cinco metros de profundidade.

Foi ali, ao longo dos anos, que ela pode ver, um a um, de seus filhos crescer, moldando o barro, zelando a roça, ordenhando o gado, pescando no rio. Sim é verdade, Felicidade e Otilio escolheram aquele paraíso para viver. Desde que lá plantaram os pés, viveram no sitio denominado Sítio Nossa Senhora da Proteção, próximo ao chamado esgotão, ponto de parada de todo o viajante que por aquela estrada passava.

E lá estava ela, dona Felicidade, verdadeira matriarca, sempre humilde, mas de uma simpatia irradiante que contagiava a todos. Mulher de fé e sempre acolhedora. Recebia a todos de braços abertos como uma verdadeira mãe. Até missas e batizados foram realizados em sua casa na barranca do rio.

Mulher negra e líder de um povo lutador foi exemplo para os filhos e sua comunidade. Quando a barranca começou a agitar-se com a movimentação para retirar a força dos oleiros e ribeirinhos de seu paraíso, talvez para evitar todo aquele sofrimento de ver sua propriedade e pertences serem removidos pelas máquinas a contragosto de todos que lhe eram vizinhos e amigos, os olhos de seu esposo se fecharam. Foi  no dia 7 de junho de 1994 que seu esposo Otilio, de 80 anos, partiu.

Cinco anos mais tarde, foi a vez da viúva, dona Felicidade, deixar a Chácara Paraíso, onde viveu os últimos dias de sua vida, e também partir para o encontro de seu companheiro de luta. Foi no dia 6 de janeiro de 1999, aos 83 anos, que Felicidade Antunes da Silva despediu-se dos filhos, netos, bisnetos e amigos, para sempre.

Homenagear dona Felicidade conferindo o seu nome a uma via pública no Reassentamento Novo Porto João André, é reconhecer a grandeza desta mulher, é manifestar nossa admiração e respeito, e dar oportunidade às gerações futuras de conhecer o nome e o endereço de um lugar, merecidamente chamado Avenida Dona Felicidade.


@Carlos Alberto dos Santos Dutra, 27/11/2019.

Motivados por este artigo, os vereadores Maria Jovelina da Silva Aurinéia de Almeida Halsback, Luiz Tomaz Real Oziel Soares, Alexandre Rodrigues Carlos, Antônio José da Silva Domingos Moreira da Silva, Edson Pereira Costa e Joaquim Martos de Moraes apresentaram Projeto de Lei 08/2020, denominando o nome da avenida principal de acesso ao núcleo urbano no Reassentamento Novo Porto João André, de Avenida Dona Felicidade, em homenagem a senhora Felicidade Antunes da Silva. O Projeto de Lei foi transformado na Lei 2856/20, de 24 de junho de 2020, que foi sancionada pelo prefeito de Brasilândia/MS, Dr. Antônio de Pádua Thiago, o que o autor e a comunidade agradecem.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019


Amazônia: tempo de refletir sobre os erros que cometemos

Marcelo Barros de Souza/Adap. Carlos Alberto dos Santos Dutra


Conheço o monge Marcelo Barros desde o tempo em que fiz teologia na PUC em Porto Alegre/RS. Não, não conheço este  beneditino pessoalmente, mas desde o tempo de estudante sempre admirei este escritor e teólogo pernambucano, sobretudo pelo que escrevia. Hoje, passado um bom par de anos, ele, dez anos mais experiente do que eu, é de admirar, o quanto suas palavras continuam lúcidas, incisivas e proféticas.

O texto que recebi é a ele atribuído. E acredito piamente que seja em razão do estilo e força que carrega nas palavras, que fluem atingindo em cheio o coração de quem deseja estar atento aos sinais dos tempos a sua volta.

E ele parte de um tema por demais atual: o meio ambiente. Seu artigo inicia com uma pergunta desafiadora: 

Por que não proponho rezarmos pela proteção da natureza?  E, bem ao seu estilo, inicia a exegese contando sua experiência pessoal ocorrida dias atrás ao ser convidado por um grupo cristão que pregava a defesa da terra e da natureza, através de mudança no nosso estilo de vida. Ele mesmo conta:

Pediram-me para falar da Amazônia e falei. À tarde, me levaram de barco a uma ilha belíssima da lagoa de Veneza: São Francisco do Deserto. Conforme a tradição, ali há exatos 800 anos (1319), São Francisco de Assis voltava do Egito e do encontro com o sultão e, cansado, desembarcou em Veneza.

Ali viu aquela ilha deserta, mas cheia de pássaros. Esses faziam uma imensa orquestra de sons. São Francisco disse aos irmãos que os pássaros louvavam a Deus e quis participar do louvor deles. Falou aos pássaros e estes fizeram silêncio para escutá-lo.

Hoje nessa ilha há um convento e é um lugar de natureza belíssima. Nos jardins do convento embaixo a uma árvore imensa, se colocaram cadeiras e fui convidado para participar de  uma oração ecumênica pela Criação.

Coordenavam essa oração o arcebispo (patriarca de Veneza) e um pastor adventista. Eu não queria falar (confessa) mas os organizadores insistiram e eu disse o seguinte:

O que significa orar pela terra e pela natureza?  
Que sentido tem viver em uma sociedade organizada de forma que sistematicamente a natureza é explorada e destruída e depois rezar a Deus para refazer aquilo que a gente destrói?
Deus poderia pensar que o fazemos de bobo. Pedimos para que ele proteja a natureza de nós próprios?

Para a tradição judaico-cristã, a oração começa por escutar a Deus. Mas, será que queremos verdadeiramente escutá-lo?

O que adianta rezar por uma coisa diante da qual Deus parece impotente e incapaz de ajudar?

Na parábola do evangelho que se leu no último domingo nas Igrejas católicas, anglicanas e luteranas, um homem rico pede ao pai Abraão, que ele trata como sendo Deus, que mande o pobre aliviar a sua sede (na parábola de Lázaro).

Com palavras de hoje, Deus nos responde: Meu filho (minha filha), nem eu posso ajuda-lo/a. Entre nós e vocês aí, nesse inferno do lucro e do aquecimento global que faz da terra um inferno, existe um abismo (Não fui eu que criei abismo ou inferno. Foram vocês mesmos) e nem eu posso anulá-lo.

Vocês acham que eu posso convencer à Vale do Rio Doce a ganhar menos lucro e não destruir a Amazônia e as regiões de Minas que seus proprietários já destruíram? Os rios que eles já mataram?

Acham que eu consigo que eu vou conseguir convencer Bolsonaro e os empresários brasileiros a respeitar a vida dos povos indígenas e o direitos dos pobres?

Acham que algum dia vou conseguir convencer as comunidades de Igreja e seus pastores que eu quero justiça e não culto?

Eles continuam achando que sou extremamente narcisista e que gosto mesmo de ser adorado e bajulado. Eles criaram um deus à imagem e semelhança de sua ambição de poder e de vaidade e dizem que sou Eu.

De tudo isso sou tanto vítima como vocês e a terra. Se vocês quiserem libertar a Terra e aos pobres, pode ser que ajude também a proposta de vocês pensarem em libertar a mim mesmo Deus da religião narcisista e hipócrita que adora o poder travestido de Deus e os que a exploram para a sua vaidade e o seu lucro.

Desculpem vocês que estão aqui para orar pela criação. Não quero que pensem que estou dizendo que é inútil. Estou apenas sublinhando as premissas e condições de uma oração bíblica hoje. Vocês têm razão: podemos sim orar pela criação. Deus está triste e está meio deprimido.

Que nossa oração tenha duas dimensões:

1 – a de consolar Deus do fato de ter fracassado em seu intento de nos empolgar pelo seu reino, projeto de um mundo feito de amor, justiça e comunhão cósmica.

2 – a de lhe prometer que vamos libertá-lo da prisão em que as religiões e mesmo a nossa Igreja o mantêm prisioneiro e vamos com ele reiniciar o caminho da redenção de nós mesmos e do mundo. Amém.

Brasilândia/MS, 7 de outubro de 2019.

Foto: Romaria da Terra. Arroio Caiboaté (São Gabriel/RS)
local onde tombou o índio Sepé Tiaraju, 7 de fevereiro de 1978.

sábado, 5 de outubro de 2019

Homenagem aos Agentes de Endemias Gerson Paulo da Silva e João Francisco dos Santos.



Amigos me dão licença
Um minuto vou falar
Quero aqui homenagear
Uma pessoa querida
Que pelas canhadas da vida
Fez historia na saúde
Peço que Deus o ajude
Nesta sua caminhada
Estrada longa trilhada
Com muita dedicação
Fez das tripas coração
Como agente de endemias
No tempo, naqueles dias
Tão difíceis de outrora
Falo agora sem demora
De Gerson Paulo, irmão
Com aperto no coração
Agora aposentado
Por nós todos estimado
Desde que aqui chegou
De Andradina de onde veio
10 irmãos, sem aperreio
Nascido em 53
20 de outubro era o mês
Chegando no Mato Grosso
Devagar, sem alvorosso
No ano 63
O filho de camponês
Se achegou na Brasilândia
Conhecida Arturlândia
Pertencia a Xavantina
Sem prefeito, na campina
E, olha lá o moleque
Colocando o pé no breque
Diante do cavaleiro
Não, não era um pistoleiro
Era o Joaquim, candidato
Pedindo voto, mandato
Prá prefeito, eleição.
Depois o Zé Marques, de então
Assumiu o patronato.

Seu Gerson todo é memória
Um homem que conta história
Daquilo que já viveu
Soube lutar e venceu
Desde o tempo do Nicola
Colega que fez escola
Chamado de cuiabano
Da SUCAM um veterano
E o Cido da malária
Percorrendo a braquiária
Gerson Paulo de mochila
Brasilândia era vila
Mas a região era enorme
Muito rigor no uniforme
A barba bem aparada
Toda ação fiscalizada
Pelo tal supervisor
Que não via com amor
O peso daquela bomba
Aspersora, uma tromba
Pesada de inseticida
Que era oferecida
X-Pert da Hudson era a marca
Mas quando a chuva encharca
O corpo e alma do agente
Lá vai seu Gerson valente
Vencer outro desafio
Cruzar a distância e o rio
Com a sua bicicleta
E lá vai o nosso atleta
Sem medo pelas encostas
Com a vida sempre exposta
Ao veneno e a intempérie
E nesta vida paupérie
Foi superando a morte
Com a ajuda de Deus teve sorte
Quando veio a condução
Veículo a disposição
Coisa rara uma carona
A comida, amigona
Era o empacotado
Farofa, assim ensacado
Que levava no bornal
Com carinho maternal
Pela patroa preparado.

E lá vai o nosso Gerson
Dormindo em uma rede
Pendurada na parede
Do galpão ou galinheiro
Tendo o céu por companheiro
Ou no galho de um arbusto
Às vezes levava um susto
Com medo de algum bicho
Onça, formiga, capincho
Mas logo adormecia
Ver logo chegar o dia
Longa noite de ousadia
Deste herói da Endemias
DENERU assim chamada
Que estava programada
Para cuidar da malária
Febre amarela fundiária
A peste e o mal de chagas
Enfermeiro destas plagas
Lá no fundão das fazendas
O povo de baixa renda
Sem acesso a prevenção
Aplicava injeção
Técnico em laboratório
Verdadeiro ambulatório
Coletava sangue, fazia
Lâminas, mais de cem, produzia.
E lá vai o nosso irmão
Educação em Saúde
Com palavras simples, amiúde
Gerson dá os seus conselhos
Sua vida é um espelho
Um livro que está aberto
Mostra prá longe e pra perto
O gosto pelo trabalho
Desculpe se me atrapalho
Na rima, do pajador
Foste nosso professor
De história e procedimentos
Prevenção, acompanhamento
Aos trabalhos realizados
Traz lembranças do passado
Que ilustram dias atuais
Alimenta os ideais
Dos agentes de endemias
Que também não veem o dia
Bicicleta, deixar de lado
A mochila e o legado
Que fica cá na Saúde
Pedido a Deus que ajude
Ao Gerson e sua família
Pois estamos em vigília
Por sua felicidade
E já sentindo saudade
De vê-lo assim, e gozar
O descanso acalentar
Enquanto aqui esperamos
Velhos e crianças sonhamos
Um dia se aposentar...


Com o agradecimento e as homenagens dos profissionais da Secretaria Municipal de Saúde ao servidor Guarda de Endemias, Gerson Paulo da Silva, e ao Agente de Saúde João Francisco dos Santos, pelos serviços prestados ao Núcleo de Combate a Endemias de Brasilândia/MS.
Brasilândia/MS, 4 de outubro de 2019.

Carlos Alberto dos Santos Dutra (Carlito).