O Povo Ofaié e o dia do retorno
ao lar
Carlos Alberto dos Santos
Dutra
Eram latas de óleo
transformadas em copos, panelas encarvoadas pela ação do fogo de chão, roupas
surradas fruto da caridade alheia, alguns arcos e colares de contas silvestres,
e almas feridas de tanto tempo de exílio e espera de um raio de luz que lhes apontasse à dignidade pela fresta do barraco de sapé.
Mas seus rostos tímidos
sorriam numa alegria contagiante e encabulada, como que se desculpando pelo cadinho de
felicidade que experimentavam naquele dia histórico de suas vidas. Afinal, foram 10 anos de
luta e espera para que pudessem voltar a pisar o solo de seus antepassados.
Depois de tantas andanças,
desde Bodoquena, para onde foram transferidos pela Funai em 1978, ao retornarem
em 1986, experimentaram verdadeira via crucis como peões em fazendas – São
Paulo, Almeida, Pirajuí, Três Morrinhos, Santa Cecília --, até a barranca do rio e Cisalpina
de onde ecoou grito Ofaié: Aganíe! Quando foram ouvidos e seus direitos por fim
garantidos: estavam a um passo de realizá-lo nas proximidades do córrego Sete,
o berço Ofaié, ali, onde tudo começou.
A data da transferência da
comunidade Ofaié desde a barranca do Rio Paraná para a Aldeia Anodhi encravada
nos 484 hectares adquiridos pela Cesp e doados à Funai, é um marco a ser
festejado. Pois foi a partir da conquista desta área contigua ao território tradicional
Ofaié que a identificação e delimitação da área da Terra Indígena Ofaié
Xavante, pela Funai, se concretizou.
Mais que um pedaço de terra
a esses pioneiros caçadores e coletores da margem direita do Rio Paraná, a
retomada a seu antigo território, permitiu aos Ofaié proclamar ao mundo sua
existência e obter o reconhecimento da parte do Estado como povo, como entidade étnica, pondo por
terra velhas teses antropológicas e históricas que os davam como extintos.
Hoje, a comunidade Ofaié, ao lado de seus patrícios Guarani Kaiowá e Ñhandeva, que vivem na Aldeia Anodhi, em Brasilândia/MS, experimenta um novo tempo, cuja autoestima e a confiança em si mesma foi resgatada e revitalizada. Vive novas práticas e valores cultivados pela juventude das gerações que dia após dia florescem no rumo da sustentabilidade e autodeterminação.
Novos tempos e horizontes que os colocam, hoje, mais do quer nunca como sujeitos de seu próprio destino e história. Parabéns Povo Ofaié.
Brasilândia/MS, 11 de março
de 2025. Publicado originalmente em 11 de março de 2024.

Inauguração da Aldeia Anodhi doada pela Cesp

Que maravilha.
ResponderExcluirQ bom lelembra a nossa vivência o senhor e o nosso mestre carlito
ResponderExcluirHistória emocionante!!! Viva os Ofaié!!
ResponderExcluirParabéns pela matéria 🙏🏻🙏🏻🙏🏻
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