Quem manda em mim: o Público ou o Privado? Uma abordagem pedagógica.
Carlos Alberto dos
Santos Dutra
Todo ser humano é,
por natureza, um ser político. Essa famosa premissa do filósofo grego
Aristóteles nos lembra que é impossível separar o cidadão da vida em sociedade.
Quando vivemos em uma comunidade organizada — seja em Brasilândia (MS) ou em
qualquer outra cidade do Brasil — nós assumimos papéis diferentes dependendo do
lugar onde estamos.
O grande desafio
surge quando um cidadão comum decide atravessar a fronteira e assumir um cargo
público (como prefeito, vereador, secretário ou servidor concursado ou não). Nesse
momento, as regras do jogo mudam drasticamente.
No nosso dia a
dia, na esfera da vida particular, nós buscamos a nossa própria
satisfação, os nossos sonhos e os interesses pessoais. Para reger essas
relações cotidianas, existe o Direito Privado. A regra de ouro aqui é a liberdade
total dentro da lei: No Direito Privado, o cidadão comum pode fazer TUDO
o que a lei não proíbe.
Um Exemplo
Prático:
Se você quer abrir uma padaria no seu bairro e não existe nenhuma lei proibindo
o comércio ali, você simplesmente abre. Você não precisa de uma autorização
legislativa específica dizendo: "Você está autorizado a vender
pão". O silêncio da lei significa permissão.
Quando esse mesmo
cidadão veste o chapéu de administrador, político ou funcionário do Estado, o
cenário se inverte completamente. Ele passa a gerenciar o dinheiro e os
interesses de toda a sociedade (o chamado múnus público). Para guiar
essa conduta, aplica-se o Direito Público. A regra de ouro aqui é a estrita
legalidade: No Direito Público, o agente público SÓ pode fazer aquilo
que a lei determina explicitamente.
Um Exemplo
Prático:
Se um prefeito quer construir uma escola, ele não pode simplesmente contratar a
empresa de um amigo e começar a obra. Ele precisa de uma lei orçamentária que
destine dinheiro para isso, precisa seguir leis de licitação e agir
rigorosamente dentro dos limites legais. Se a lei não diz "como"
fazer, ele não pode fazer.
No Comparativo
Direto temos, assim, o Jogo das Diferenças: Para facilitar o
entendimento, veja como as regras mudam conforme a "cadeira" que você
ocupa na sociedade:
|
Critério |
Cidadão Comum (No
âmbito Privado) |
Servidor Público
(no âmbito Público) |
|
Qual é o foco? |
Desejos,
vontades e carências particulares. |
Interesse
coletivo e bem-estar social. |
|
Qual é a regra? |
Pode fazer tudo,
exceto o que a lei proíbe. |
Só pode fazer o
que a lei autoriza ou determina. |
|
Margem de
escolha |
Alta autonomia e
liberdade pessoal. |
Nula ou restrita
aos limites da legislação. |
|
Consequência do
erro |
Prejuízo pessoal
ou punição se violar a lei. |
Processos por
improbidade, multas e perda do cargo. |
Entende-se, assim o Choque de Realidade vivido sobretudo pelos novos Políticos. Isso porque essa enorme distância entre o público e o privado costuma pegar de surpresa os chamados "neófitos" — os vereadores, secretários e prefeitos de primeira viagem.
Muitas vezes, movidos por ótimas intenções e querendo aplicar
suas habilidades profissionais, eles planejam melhorias para a cidade. No
entanto, esbarram na burocracia legal.
Outro exemplo: um caso clássico que acontece nas câmaras municipais: Edil bem-intencionado tem a ideia: "Vou construir um parquinho para as crianças do bairro!", porém, esqueceu de conferir a legislação orçamentária:
Aprovou a verba na LOA
(Lei Orçamentária Anual)? SIM? A obra pode ser realizada. NÃO? "Adeus
sonho do parquinho!". Ou seja, o
administrador público não pode gastar um centavo sem previsão legal.
Se o administrador ignorar essa barreira e construir o parquinho sem orçamento aprovado, ele cometerá uma infração administrativa grave, ficando sujeito a punições legais. Isso nos leva a concluir que a Previsão Legal está sempre à Frente.
Para o enfrentamento desta situação, qualquer pessoa que deseja, administrar o bem público, o aprendizado técnico é indispensável. Cursos preparatórios e estudos de conteúdos programáticos voltados para concursos ou cargos eletivos são essenciais para incutir esses princípios nos servidores, em todos os níveis e hierarquia, antes que os erros aconteçam.
No plano da gestão
de uma cidade, a previsão legal e a legislação devem estar sempre no
horizonte do administrador, antes mesmo do próprio orçamento e do ato de politicar que o espreita a cada passo. Afinal, no
mundo público e da política, a boa intenção sem o amparo da lei é o primeiro passo para uma
ilegalidade.
Brasilândia/MS, 23 de maio de 2023.
Dia da Juventude Constitucionalista. A data homenageia
os quatro estudantes MMDC (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo) mortos em um
protesto contra Getúlio Vargas em 1932, um marco que deu origem ao famoso
levante da Revolução Constitucionalista.
Foto/Charge: In https://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/politicos-confundem-o-publico-e-o-privado-3z9dnqyf8qe3dqogw7db97z9q/

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