sábado, 19 de setembro de 2026

 

O Coração do Mutum: A Saga Invisível de Suor, Coragem e Dignidade no Campo

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Existem histórias que o tempo não pode apagar, pois elas foram escritas com o suor do rosto e a força da esperança. Olhar para trás e recontar a trajetória da APRAMBRAS (Associação dos Pequenos Produtores do Assentamento Mutum de Brasilândia) não é falar apenas sobre terras ou números, mas sobre a alma de centenas de famílias que decidiram lutar pelo direito de existir com dignidade.

Tudo começou oficialmente em um 18 de setembro de 1997. Naquele dia, a esperança de 340 famílias ganhou voz na liderança de Roberto Silva. Ele não assumiu apenas a presidência de uma associação; ele abraçou o destino de pais, mães e filhos espalhados por uma imensidão que tocava Santa Rita do Pardo, Ribas do Rio Pardo e Brasilândia.

No início, o que aquelas 187 famílias de Brasilândia encontraram foi o isolamento. A realidade era dura: poços artesianos secos ou quebrados, a escuridão da falta de energia elétrica e estradas que eram verdadeiras barreiras. Mas a fome de justiça daquela comunidade era maior.

Roberto Silva, com passos incansáveis e o apoio vital do então vereador Lauro Canno, transformou o silêncio do campo em clamor. A prefeita Marilza do Amaral ouviu o chamado, e em março de 1998, as primeiras lágrimas de alívio correram com a inauguração da Escola e do Posto de Saúde. Pela primeira vez, o Mutum sentia que o futuro era possível.

Contudo, a terra cobra o seu preço, e o abandono governamental quase sufocou o sonho. Entre 1999 e 2000, o Mutum viveu seu inverno mais rigoroso. Sem recursos do INCRA, a penúria foi tamanha que alguns precisaram partir para não morrer de fome. Projetos técnicos frios e distantes da realidade tentavam impor regras impossíveis — como sustentar uma casa inteira com a produção de apenas seis vacas. Mas a associação não se curvou. Roberto voltou à cidade, denunciou a dor do seu povo e exigiu o respeito que a dignidade daquelas famílias merecia.

O bastão da liderança foi passado em outubro de 2000 para as mãos calejadas de Pedro Paulo Cassemiro Martins, então com 55 anos. Com o mesmo fogo no peito, Pedro Paulo continuou a marchar pelos direitos da comunidade. Ele lutou por cada pedaço de chão demarcado, brigou para que o comércio ganhasse vida e insistiu na abertura da Estrada do Bico da Bota, o cordão umbilical que finalmente tiraria o reassentamento do isolamento.

E a vitória veio. Ela veio no teto das casas, na água que corria pura e, principalmente, no milagre da Bacia Leiteira, que alcançou 60% de sua capacidade, e na força do Laticínio Mova Lat. Ver o queijo muçarela cruzar as fronteiras do assentamento e ver o soro retornar para alimentar os animais e adubar a própria terra era a prova viva de que o Mutum havia vencido.

A história da Agrovila Mutum é um monumento à resiliência humana. Cada estrada aberta, cada sala de aula cheia e cada poço que jorra água celebra um sonho pautado no sacrifício e a união da APRAMBRAS e de seus heróis anônimos. Eles não apenas cultivaram a terra; eles semearam a dignidade para as gerações que hoje colhem os frutos dessa brava e inesquecível jornada.


Brasilândia/MS, 18 de setembro de 2026. 

Artigo inspirado nas memórias e registros históricos resgatados por C.A.S. Dutra na obra "História e Memória de Brasilândia/MS - Volume II – Patrimônio".

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