sábado, 19 de setembro de 2026

 

Debrasa: A Força dos Pioneiros e a História do Distrito de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 

O ano de 2026 marca um momento especial para o município de Brasilândia (MS). A Prefeitura programou para o dia 10 de outubro uma série de atividades culturais e esportivas em comemoração ao aniversário de criação do distrito Debrasa. Embora as festividades tenham sido adiadas temporariamente devido ao mau tempo, a celebração e o resgate histórico permanecem mais vivos do que nunca.

Para fazermos justiça à memória dos pioneiros que dedicaram suas vidas àquela terra, cumpre lembrar que essa história começou muito antes de 19 de setembro de 1996, data em que a Lei Municipal nº 913/96 elevou oficialmente aquele aglomerado urbano à condição de distrito.

De acordo com o site da Prefeitura, os eventos comemorativos — que incluem o tradicional bingo com a população, praça de alimentação e shows musicais — terão como palco a Praça Walter Antônio Pádua Becker. Mas você sabe quem foi Walter Becker ou como nasceu o distrito? Para entender o presente, precisamos voltar um pouco no tempo. As páginas amareladas do antigo Jornal de Brasilândia, editado pelo saudoso jornalista Jamil Fernandes (falecido em 2015), nos ajudam a reconstruir esse rico passado.

O Sonho dos Desbravadores e a Destilaria. No final da década de 1970, empresários visionários enxergaram o potencial de implantar uma destilaria de álcool no interior de Mato Grosso do Sul, mais precisamente em Brasilândia. À custa de muitos sacrifícios e movidos pela determinação típica dos desbravadores, os obstáculos foram superados. Nascia ali a Destilaria Debrasa, fundada oficialmente em 25 de março de 1976.

Em seu auge na década de 1980, o setor produtivo da empresa operava em ritmo acelerado. A usina gerava mais de dois mil empregos na região, contava com uma área plantada de 16.400 hectares de cana-de-açúcar, produzia um milhão de toneladas de cana para corte e projetava uma produção impressionante de 74 milhões de litros de álcool para o ano de 1987.

Esse sucesso era motivo de grande orgulho para a diretoria pioneira, composta por: Maurílio Biagi Filho (Diretor-Presidente), Nelson Brochmann (Diretor Vice-Presidente), Arnaldo Bonini (Diretor Superintendente), e Walter Antônio Pádua Becker (Diretor de Administração) — que hoje dá nome à praça central. Naquela época, os principais acionistas do empreendimento eram a Usina Santa Elisa S/A (Indústria e Comércio e Construções) e Jacyra de Moraes Höffig.

Da Solução ao Desafio Urbano. Com o crescimento da indústria, surgiu um novo desafio: como fixar os trabalhadores perto do local de trabalho? Como solução provisória, a empresa realizou um loteamento nas proximidades da fábrica e vendeu os lotes aos operários de forma parcelada e a preços acessíveis. O núcleo habitacional cresceu a olhos vistos, com novas residências e comércios se estabelecendo rapidamente.

Contudo, o que havia sido uma solução imediata transformou-se em um problema jurídico com o passar dos anos. Como bem lembrava Jamil Fernandes em suas crônicas, a propriedade só se torna legítima quando está devidamente escriturada e registrada em cartório. Havia o sério entrave de os lotes estarem situados em uma área rural, apesar de possuírem finalidade estritamente urbana.

O Caminho Legal para a Criação do Distrito. A transformação definitiva do núcleo habitacional em distrito exigiu muito trabalho político e jurídico. Foi na gestão da então prefeita Neuza Paulino Maia que a Prefeitura de Brasilândia determinou a realização de estudos técnicos aprofundados. Tentativas anteriores já haviam sido feitas, mas se perderam nos meandros da política partidária da época por falta de fundamentação legal.

Os estudos apontaram o caminho: primeiro, a área precisava ser desvinculada do INCRA. Depois, era necessária uma lei municipal para ampliar o perímetro urbano — o que foi feito pela Lei Municipal nº 886/95. Só assim os proprietários puderam regularizar o loteamento, em conformidade com a Lei Municipal nº 401/95 e a Lei Federal nº 6.766/79. A Prefeitura atuou assessorando juridicamente os moradores, que eram os legítimos possuidores dos imóveis.

A empresa contratou um responsável técnico para cuidar da documentação e das respostas aos órgãos competentes, além de assumir os serviços de topografia para a demarcação dos lotes. Embora o processo tenha sofrido atrasos e interrupções temporárias pela falta de acompanhamento topográfico contínuo, a comunidade não parou de pulsar. Dados oficiais da época indicavam que o local já contava com 1.015 habitantes e um total de 610 imóveis, sendo 320 residências e 39 estabelecimentos comerciais.

Curiosidades e Limites Geográficos. A história do distrito também é feita de astúcia e visão de futuro. O jornalista Jamil Fernandes destacou em seus registros uma passagem muito interessante sobre o saudoso Senhor Thomaz de Almeida. Homem de visão, ele brigou para que a instalação de parte da moenda da usina Debrasa ficasse do lado esquerdo do Rio Taquaruçu. Ele sabia que, com a iminente emancipação do ex-distrito de Xavantina (que viria a se tornar o município de Santa Rita do Pardo), o território do outro lado do rio deixaria de pertencer a Brasilândia. Graças a ele, a usina permaneceu em terras brasilandenses.

Finalmente, em 19 de setembro de 1996, a prefeita Neuza Paulino Maia sancionou a Lei Municipal nº 913/96, oficializando o desmembramento e a criação do Distrito Debrasa. A lei determinou seus limites geográficos precisos: O perímetro inicia-se na ponte sobre o Rio Taquaruçu (na margem esquerda, divisa com Santa Rita do Pardo), segue pela margem esquerda da Rodovia Estadual MS-395 (denominada Julião de Lima Maia) no sentido à sede do município; ao encontrar o Córrego Azul (ou Paredão), segue cabeceira acima; dali, em linha reta (divisa seca), vai até a cabeceira mais alta do Córrego Invejoso, descendo por ele até a sua foz no Rio Taquaruçu, e segue o leito do rio abaixo até retornar à ponte da MS-395.

Valorizando Nossas "Bibliotecas Vivas"

São muitas as memórias e passagens históricas que moldaram o Debrasa. Na era da internet e da informação rápida, esses dados podem ser facilmente consultados por qualquer cidadão interessado. No entanto, mais do que comemorar datas com shows e bingos, este aniversário de fundação é uma oportunidade de ouro para valorizarmos as nossas "bibliotecas vivas". São os moradores mais antigos que, desafiando a memória fluida e passageira da modernidade digital, teimam em manter vivo o testemunho real e o legado dos pioneiros que ergueram e consolidaram o distrito Debrasa. Parabéns, Distrito Debrasa, pelos seus 30 anos de história, trabalho e comunidade!


Brasilândia/MS, 19 de setembro de 2026.

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2023/09/distrito-debrasa-quando-tudo-comecou.html; Mais informações sobre a história do Distrito Debrasa cf. História e Memória de Brasilândia/MS, volume 1-Pioneiros, capítulo 3-Quando tudo começou-Testemunhos. Páginas 283 a 295, que se encontra disponível na Biblioteca Municipal de Brasilândia Profª Abadia dos Santos, e Bibliotecas do SESI e todas as Bibliotecas Escolares de Brasilândia. Este volume também pode ser adquirido em: História e Memória de Brasilândia/MS - Pioneiros, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário