domingo, 20 de setembro de 2026

 

Salve o 20 de Setembro: O orgulho Gaúcho que carregamos no peito, onde quer que estejamos

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

O dia 20 de setembro não é apenas uma data no calendário; é o pulsar de um sentimento telúrico que une todos aqueles que carregam a alma rio-grandense, estejam eles cruzando as coxilhas do Sul ou habitando qualquer outro canto deste imenso Brasil.

Neste Dia do Gaúcho, permitam-me resgatar uma memória muito especial deste escrevinhador. Volto no tempo, mais precisamente para o dia 19 de setembro de 2005. Naquela oportunidade, como vereador na Câmara Municipal de Brasilândia, Mato Grosso do Sul, ousei quebrar a solenidade dos protocolos habituais para falar do Rio Grande, minha terra natal, que celebrava a sua Semana Farroupilha.

Lembrei aos presentes na Tribuna que o Rio Grande do Sul guarda uma formação singular: foi o único estado brasileiro que não integrou os domínios coloniais de Portugal logo de início, pertencendo à Espanha até um século e meio após o restante do país ser colonizado. Foi somente em 1737 que a Capitania de São Pedro do Rio Grande ganhou vida, mas foi o estopim da Revolução Farroupilha, em 1835, que verdadeiramente moldou as cores da nossa bandeira, definiu nossos contornos geográficos e forjou o caráter indomável dos antigos habitantes daquelas paragens.

Hoje, vivendo em Brasilândia — terra generosa que honrosamente me adotou há mais de quatro décadas, desde que aqui aportei em fevereiro de 1986 —, confesso que o tempo acabou por suavizar meu sotaque. Distante da pampa que faz divisa com as bandas de Cacequi, na fronteira oeste, o jeito de falar e a tradicional charla galponeira parecem adormecidos na rotina.

Mas basta chegar o mês de setembro para que toda essa cultura e apego às raízes se revigorem com força total. Enquanto lá no Sul o chão estremece com as gineteadas, os fandangos, as trovas e as bombachas, a gente que vive distante sente o coração apertar de saudade. Começamos, quase sem perceber, a reeducar a língua e a memória. O sotaque esquecido teima em voltar, trazendo à tona o guri, o piazito de campanha que fomos ontem, contrapondo-se ao velho táta em que vamos nos transformando com o branqueamento dos cabelos. O velho capão teima em se sentir borrego diante da força da tradição.

Por isso, peço licença para enveredar em cancha reta no rumo do sentimento. O Rio Grande está vivo em cada um que cultiva seus valores, mesmo longe das fronteiras geográficas do Sul. Como homenagem a essa herança cultural eterna, compartilho com vocês uma das mais belas manifestações dessa fé galponeira: a célebre "Prece do Gaúcho", escrita originalmente por Dom Luiz Felipe de Nadal. Uma Oração do Pai Nosso rezada em versão xirua e gaudéria, direto do fundo do rincão.

Prece do Gaúcho

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e com licença, Patrão Celestial.

Vou chegando, enquanto cevo o amargo das minhas confidências, porque ao romper da madrugada e ao descambar do sol, preciso camperear por estas invernadas e repontear do Céu a força e a coragem para o entrevero do dia que passa.

Eu bem sei que qualquer guasca bem pilchado, de faca, rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida se não se estriba na proteção do céu. Ouve, Patrão Celestial, a oração que te faço. Tomara que todo mundo seja como irmão. Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim.

Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me solto porteira afora... Eita, potrilho chucro, renegado e caborteiro! Mas eu te garanto, meu Deus, quero ser bom e direito.

Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do céu. Socorre-me, São Pedro, capataz da Estância Gaúcha. Pra fim de conversa, vou te dizer, meu Deus, mas somente pra ti: que tua vontade leve a minha de cabresto, pra todo o sempre, até a querência do Céu. Amém."

Que o civismo, a coragem e a hospitalidade do povo gaúcho continuem a inspirar nossos passos, não importa a distância da querência. Um feliz Dia do Gaúcho a todos!


Brasilândia/MS, 20 de setembro de 2026.

Publicado originalmente em https://carlitodutra.blogspot.com/2024/09/salve-o-20-de-setembro-dia-do-gaucho.html

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