Salve o 20 de Setembro: O orgulho
Gaúcho que carregamos no peito, onde quer que estejamos
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra
O dia 20 de setembro não é apenas
uma data no calendário; é o pulsar de um sentimento telúrico que une todos
aqueles que carregam a alma rio-grandense, estejam eles cruzando as coxilhas do
Sul ou habitando qualquer outro canto deste imenso Brasil.
Neste Dia do Gaúcho, permitam-me
resgatar uma memória muito especial deste escrevinhador. Volto no tempo, mais
precisamente para o dia 19 de setembro de 2005. Naquela oportunidade, como
vereador na Câmara Municipal de Brasilândia, Mato Grosso do Sul, ousei quebrar
a solenidade dos protocolos habituais para falar do Rio Grande, minha terra
natal, que celebrava a sua Semana Farroupilha.
Lembrei aos presentes na Tribuna
que o Rio Grande do Sul guarda uma formação singular: foi o único estado
brasileiro que não integrou os domínios coloniais de Portugal logo de início,
pertencendo à Espanha até um século e meio após o restante do país ser
colonizado. Foi somente em 1737 que a Capitania de São Pedro do Rio Grande
ganhou vida, mas foi o estopim da Revolução Farroupilha, em 1835, que
verdadeiramente moldou as cores da nossa bandeira, definiu nossos contornos
geográficos e forjou o caráter indomável dos antigos habitantes daquelas
paragens.
Hoje, vivendo em Brasilândia —
terra generosa que honrosamente me adotou há mais de quatro décadas, desde que
aqui aportei em fevereiro de 1986 —, confesso que o tempo acabou por suavizar
meu sotaque. Distante da pampa que faz divisa com as bandas de Cacequi, na
fronteira oeste, o jeito de falar e a tradicional charla galponeira
parecem adormecidos na rotina.
Mas basta chegar o mês de setembro
para que toda essa cultura e apego às raízes se revigorem com força total.
Enquanto lá no Sul o chão estremece com as gineteadas, os fandangos, as trovas
e as bombachas, a gente que vive distante sente o coração apertar de saudade.
Começamos, quase sem perceber, a reeducar a língua e a memória. O sotaque
esquecido teima em voltar, trazendo à tona o guri, o piazito de campanha
que fomos ontem, contrapondo-se ao velho táta em que vamos nos
transformando com o branqueamento dos cabelos. O velho capão teima em se sentir
borrego diante da força da tradição.
Por isso, peço licença para
enveredar em cancha reta no rumo do sentimento. O Rio Grande está vivo em cada
um que cultiva seus valores, mesmo longe das fronteiras geográficas do Sul.
Como homenagem a essa herança cultural eterna, compartilho com vocês uma das
mais belas manifestações dessa fé galponeira: a célebre "Prece do
Gaúcho", escrita originalmente por Dom Luiz Felipe de Nadal. Uma Oração do
Pai Nosso rezada em versão xirua e gaudéria, direto do fundo do rincão.
Prece do Gaúcho
"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e com licença, Patrão Celestial.
Vou chegando, enquanto cevo o
amargo das minhas confidências, porque ao romper da madrugada e ao descambar do
sol, preciso camperear por estas invernadas e repontear do Céu a
força e a coragem para o entrevero do dia que passa.
Eu bem sei que qualquer guasca bem
pilchado, de faca, rebenque e esporas, não se afirma nos arreios da vida se não
se estriba na proteção do céu. Ouve, Patrão Celestial, a oração que te faço.
Tomara que todo mundo seja como irmão. Ajuda-me a perdoar as afrontas e não
fazer aos outros o que não quero para mim.
Perdoa-me, Senhor, porque
rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem
querer, eu me solto porteira afora... Eita, potrilho chucro, renegado e
caborteiro! Mas eu te garanto, meu Deus, quero ser bom e direito.
Ajuda-me, Virgem Maria, primeira
prenda do céu. Socorre-me, São Pedro, capataz da Estância Gaúcha. Pra fim de
conversa, vou te dizer, meu Deus, mas somente pra ti: que tua vontade leve a
minha de cabresto, pra todo o sempre, até a querência do Céu. Amém."
Que o civismo, a coragem e a
hospitalidade do povo gaúcho continuem a inspirar nossos passos, não importa a
distância da querência. Um feliz Dia do Gaúcho a todos!
Brasilândia/MS, 20 de setembro de
2026.
Publicado originalmente em https://carlitodutra.blogspot.com/2024/09/salve-o-20-de-setembro-dia-do-gaucho.html
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