domingo, 12 de junho de 2022

Aparecida Ofaié foi ao encontro do mar.

Carlos Alberto dos Santos Dutra














As águas do rio Paraná corriam mansas naqueles tempos de paz. Hanto-grê, sentada na proa do barco balança os pés sobre as águas na descontração da tarde. Perto dela brincam Sebastião, o filho mais velho, e o caçula Can-rê, conhecido pelos brancos por João Carlos. O mundo lhe parecia perfeito, mesmo que não se perguntasse muito sobre isso.

Leva a mão espalmada sobre olhos fixando mais amiúde o olhar que se irradia quando vislumbra entre as folhas da mata que contorna a curva do rio, o companheiro Cri-í, seu marido Eduardinho. E lá está ele coletando o roxinho e o taquari para a confecção de suas flechas e arcos que as constrói com esmero.

Maria Aparecida de Souza é todo sorriso e alegria. Desde que nascera no dia 27 de setembro de 1953, lá pelas bandas da Fazenda Esperança, acompanhou os passos do pai, Sebastião e da mãe Ana Maria, em suas andanças, varando cercas e fugindo do casco do boi e seu dono, mata adentro, cerrado afora.

Conhecer Eduardinho de Souza foi o que de melhor lhe acontecera na vida. Ele, hábil artesão, sempre estava sorridente, desde menino, quando, no dia 12 de fevereiro de 1943 encheu de alegria o pai, seu Paulino e dona Filomena, sua mãe. Depois de adulto, como pai e esposo, cercou-se sempre de uma vida simples e silenciosa, digna de um sábio que na arte do ofício extrai a beleza dos frutos que brotam da terra e dos ares.

Maria Aparecida contentava-se em passar o dia inteiro ao redor do fogo, tomando tererê ou mate, servindo à família, vendo os filhos crescer, mesmo que, sob a fumaça da casinha de sapé, construída com primor para agasalhar os sonhos de uma jovem mãe-mulher, de quando em vez tivesse de endurecer a verve frente aos desafios da vida tribal e o meio ambiente hostil envolvente.

O dia rapidamente declina e as crianças já não brincam mais na margem do rio. O dia esconde logo o seu brilho e o silêncio enche o ambiente com um tom sombrio
prenunciando um temporal. Rapidamente a mulher se transforma. Recolhe seus pertences, mas já não consegue ver quase nada do que restou de sua vida.

De súbito, as crianças somem. A mocinha que há pouco se encantava com seus rebentos, leva as mãos ao rosto e o que encontra são lágrimas. Leva as mãos ao peito e o que encontra são cicatrizes e dores.

Partiu Sebastião, seu primogênito, no dia 25 de janeiro de 1988, com 14 anos de idade, vítima de meningite tuberculosa. Partiu Eduardinho, seu amado companheiro, no dia 2 de fevereiro de 1999, com 55 anos de idade, vítima de doença neoplásica. Partiu João Carlos, Can-rê, condenado a prisão onde ficou distante de sua mãe por mais de dez anos antes de lá falecer... Partiu a aldeia Anodi para longe do rio, tocada pelas máquinas e a ganância civil, servil...

A anciã, que se tornara em segundos, olha a sua volta e percebe que não há mais nada a recolher. Uma espessa neblina cobre-lhe a visão. O barco debate-se vazio. No coração da mata, só o rufar do vento. E uma sensação de solidão toma-lhe o peito ferido pelas marcas do tempo.

Busca retornar à aldeia, vencendo a barranca do rio.
Mas suas pernas parecem-lhe fracas. Grita por socorro para que lhe ajudem a subir para a parte mais alta da margem do rio, onde ali encontrará amparo. Mas sua voz soa longe, longe, longe... Longe demais para o alcance da técnica, das cifras, do progresso... E da sensibilidade de seus pares.

Sente frio, sente-se sozinha. Esquecida naquele turbilhão de descaso, imagens e lembranças, só lhe resta a companhia do vento para acariciar-lhe a face e envolver-lhe os braços, o corpo inteiro e a alma. Impotente, sem forças para subir a barranca para retornar ao centro da aldeia que já foi sua, resigna-se, em silêncio.

Então, ela vira as costas para o mundo que lhe esqueceu. Olha para rio e contempla suas águas revoltas encrespadas pelo vento. O barco continua debater-se, como que resistindo a força que o domina. Corre os olhos sobre a popa – quantas vezes esteve ali sentada, sendo conduzida como uma deusa pelo seu amado, relembra. Depois, olha para a proa, quando um vigor teandrico a envolve e fortalece.

E decide soltas as amarras... Decide deixar livre aquele barco para que rume em direção ao mar. Vai com ele o espírito de seus antepassados. E remam firmes seus patrícios para o encontro com Agachô, o Deus criador Ofaié. --Leve também meus filhos, meu amado e também eu!, pede em silêncio Hanto-grê.

A visão, por causa do diabete, não lhe permite discernir direito, mas lhe parece que o barco enquanto se afasta, está cheio de luzes... E ela, uma espécie de santa, dentro dele segue, flutuando, através daquele rio encantado, parecido com o mar...

Maria Aparecida de Souza, Hanto-grê Ofaié nos deixou no dia 13 de junho de 2014, aos 60 anos de idade. 

sábado, 11 de junho de 2022

 

O círculo bíblico e o reencontro de dona Ana

Carlos Alberto dos Santos Dutra



A mensagem recebida pelo WhatsApp fez aquele rosto irradiar de alegria. Quem lhe dava a notícia era Ceiça, a filha zelosa que se esmerava nos cuidados com a mãe. O círculo bíblico iria retornar seus encontros. E a proposta era que esta primeira reunião fosse realizado na casa daquela octogenária.

Foi a motivação que faltava para aquela senhora que, no alto de seus bem-vividos 89 anos de idade, voltasse a se sentir uma menina, e deixasse de lado a caixa de bordado que vinha se dedicando nos últimos dois anos, desde a pandemia.

Mesmo com o agravo que lhe paralisou o lado esquerdo do corpo e a dor da saudade do esposo Raimundo que cumpriu sua missão aqui na terra e partiu para o Céu deixando-a só, ela, dona Ana nunca desanimou. Continuou a vida dedicando-se a confeccionar seus delicados guardanapos, colocando-os à disposição da obra assistencial da Canção Nova, da qual tornou-se devota colaboradora.

A notícia da realização do 1º Encontro da Novena em Preparação ao Jubileu dos 50 anos da Paróquia Cristo Bom Pastor em sua casa fez com que, naquele dia, ela despertasse mais animada do que o costume. Enquanto as horas corriam, lá estava aquela senhora e seus cabelos muito brancos sentada com os olhos no bordado em ponto cruz, porém, com o coração palpitando a espreita do encontro daquela noite.

Afinal, há mais de 30 anos aquele grupo de moradores se reunia para refletir a Palavra de Deus, desde o início da criação do bairro Cohab Thomaz de Almeida. E lá estava dona Ana e seu Raimundo, sob o impulso de minha mãe, dona Laura, vinda lá da pampa gaúcha, se somando ao grupo que só foi crescendo e se transformando em símbolo de fé e persistência na oração, nutrido na alegria e na amizade daquela gente.

Dona Ana era só encantamento. Ao olhar a sala de sua casa e ver aqueles rostos amigos, alguns já desfigurados e de cabelos brancos, não lhe cabia no peito tanta alegria e emoção.

A novena relembrava a caminhada de evangelização dos 50 anos da Igreja em Brasilândia, mas seu pensamento a fazia viajar em recordações locais: cada vizinho, cada família e tantos amigos que acompanharam aquela santinha -- Nossa Senhora das Graças --, andando de casa em casa, e reunindo em torno de si os pedidos e preces de agradecimento, todas as semanas ao longo dos anos.

Sentada ali, diante de todos, pediu a Deus por cada um daqueles que se mantiveram firmes e perseverantes, mesmo por aqueles que se encontravam ausentes: o tenente Neto e dona Deurides; seu Anibal e dona Júlia; seu Nelson e a saudosa dona Odília; o Carlito e dona Vilma; o Magno; a Vânia; dona Francisca; dona Diva; a Marlene; dona Neide; o Vicente e os saudosos seu Zé e dona Nice; dona Luzia e dona Izalina. Tantas lembranças e alegria pelo nome dos mais recentes que se achegaram ao grupo: o João, a Bete e a grande família do patriarca seu Raimundo sempre presente.

Ao som e melodia dos cantos que faziam chegar ao Céus nossas preces, foi nestes Cículos Bíblicos que uma geração de famílias viram seus filhos crescer, embalados na fé e no amor da Virgem Maria, nutridos na proteção do Pai e na fraternidade do Espírito Santo.

Hoje, os filhos estão criados e dona Ana os contempla olhando nos olhos de cada um e sorri: tenho muito a agradecer a Deus por ter chegado até aqui e poder me sentir abraçada e querida por todos.

Com voz firme e compassada ela sorri admirada com o tamanho das letras -- bem grandes --, do livreto da Novena e dá início aos Ritos Iniciais do encontro como Comentarista. Naquela noite uma luz iluminou o portal daquela casa e da boca de uma senhora abençoada se ouviu uma singela porém poderosa oração que brotava do átrio de seu coração. Obrigado dona Ana. É muito bom estar de volta e celebrando novamente juntos.


Brasilândia/MS, 11 de junho de 2022.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Dona Maria, Mãe Cândida de Jesus Diogo.

Carlos Alberto dos Santos Dutra.


Existem mulheres que seu olhar nos confunde. Sobretudo quando transparecem estar revestida de uma aura dourada de santa. Dona Maria tinha esse aspecto e semelhança. Não aquelas santas rosadas, de gesso, intocadas, que vemos nos altares. Nossa Maria, ao contrário, não era de pedra, era de carne e osso, tinha o corpo franzino, braços esguios e percepção cujas imagens lhe pareciam povoadas de sombras. E mesmo assim seu olhar iluminava.

No seu nome, já observamos na tradução o espírito que ela fora concebida. Além de Maria, nome sagrado e que encarna todas as mães e mulheres do mundo, ela também era Cândida: de aspecto brando, de coloração clara, roupas muito alvas, sempre muito franca e de natureza sincera. E como se não bastasse seu nome ainda informava não ser uma cândida qualquer: era Cândida de Jesus, à semelhança da Imaculada, mãe e filha do Salvador.

Pois foi essa mulher, Maria Cândida que, ao casar com o jovem Sebastião, fez a santidade descer dos céus e avizinhar-se na terra. Inicialmente na cidade de Ouro Verde-SP onde plantaram roça para sobreviver e constituíram ali uma família de doze filhos - Luzia, Joaquim, José, Linda, Leontina, Lourdes, João, Sara, Aparecida, Jair, Lúcia, e o caçula, na época, Jorge Justino Diogo.

Foi, entretanto pelas mãos da carpintaria exercida pelo esposo que aquele casal venceu a pobreza, enfrentou as dificuldades da vida, criou e alimentou os filhos. Tarefa que coube essencialmente a esposa, dona Maria Cândida, que exerceu seu sacerdócio com paciência e afinco, buscando forças do Alto para bem educar seus rebentos no amor e na dignidade. 

Mudaram-se para Brasilândia em 1972, paraíso onde dona Maria Cândida e o esposo viram rebentos novos florirem - Mariana e Luiz - completando a felicidade daquela família. Residindo inicialmente na fazenda Rochedo, onde o senhor Joaquim Medeiros foi um bom patrão e administrador, sempre correto no pagamento,  lembra Jorge, na época com apenas 3 anos de idade, e foram tocando a vida.

Em meio às andanças do marido sempre construindo mangueiros e currais pelas fazendas, requisitado que era pelos bons serviços praticado, lá estava dona Maria Cândida, mulher forte, na porta da casa, fitando o horizonte, domando os desafios do dia a dia, verdadeira matriarca, heroína na defesa de seus filhos.

Mulher religiosa e de retos princípios cristãos participou dos primeiros passos de sua comunidade de fé tendo acompanhado o marido nas reuniões da Comissão de Construção da Nova Igreja Matriz da Paróquia Cristo Bom Pastor no ano de 2001, quando um vendaval destruiu a antiga igreja exigindo o envolvimento e a contribuição de todos os paroquianos na reconstrução do templo.

Mulher simples e lutadora, depois da morte do marido em 2003, permaneceu morando na mesma casa onde construiu seus sonhos, mesmo sentindo cada vez mais a casa vazia pela ausência e a partida dos filhos que um a um foram seguindo seu rumo: casando, mudando, falecendo. Dor que só as mães sentem quando a ordem natural se inverte, pois os pais não deviam enterrar seus filhos.

E ela sobreviveu. Venceu a doença e a perda da visão. E o que parecia ser o final de seus dias, foi o que lhe deu motivo para recomeçar. Na verdade ela nunca desanimou. Diante de aparência tão frágil, escondia-se ali uma sólida fortaleza. Via-se ali a matriz e o cerne de fibra nobre, à semelhança da madeira aplainada pelo esposo em velhas porteiras de fazendas de outrora, que resistiu o vento e a chuva. Deste material essa senhora parecia ter sido construída.

A casa se encontra praticamente vazia. A visão, agora são apenas sombras e nuvens. E em meio à escuridão, lá estava ela, atenta ao ruído do portão. Diante dos passos do desconhecido ela prontamente anunciava o seu nome, conhecendo o visitante apenas pela bulha do andar, antes mesmo de ouvir suas palavras. Quando um filho chegava seu semblante iluminava. Afinal, foram pesinhos, bracinhos e aqueles corpinhos frágeis e queridos que um dia ela aconchegou um a um em seu colo de mãe... E que agora, crescidos, retornavam.

Oh, que alegria quando a casa estava cheia. Toda feliz, lá estava dona Maria Cândida querendo preparar o alimento para os filhos; afinal, foi o que mais fez durante a vida, na regência da casa. E na ânsia de servir, circula pela cozinha, tateia os armários, tropeça, cai, levanta e continua, pouco se importando com a cicatriz que lhe marca o rosto.

Ah, dona Maria Cândida, agora somos nós seus filhos que sentimos falta do seu aconchego e palavras, às vezes duras de repreensão, justamente quando partes. Saudade desses seus braços consumidos pelo trabalho realizado e que garantiu cada um de nós chegar até aqui. Braços vigorosos que nos sustentaram e envolveram, semeando em nós confiança e amor ao próximo. Ah, esse olhar hoje a esmo, outrora cristalino, foi como um raio, um farol de luz, que sempre nos orientou.

Hoje, dona Maria Cândida de Jesus Diogo, teus filhos, netos, bisnetos e toda uma constelação de familiares que construíste e inspirou, tal qual as estrelas do céu, todos ainda choram a sua partida. Porque foste imprescindível para todos, também para os vizinhos e amigos, que a tinham como uma pessoa que soube, através da simplicidade, edificar as colunas de um templo chamado família, testemunho que lhe darão, com certeza, as chaves do Reino Eterno.

E por ter sido uma alma desprendida e caridosa, que nada acumulou durante a vida a não ser generosidade e bem querer, naquele dia 10 de junho de 2019, passado já três anos, quando se apartou de nós para sempre, entre um soluço e uma lágrima, temos o consolo de saber que fostes carregada no colo para o céu pelos anjos do bom Deus. Descanse em paz nossa santa.

Publicado originalmente em 10 de junho de 2019.


segunda-feira, 6 de junho de 2022

Heróis sem rosto:

 

A dengue, a máquina e o homem.
Carlos Alberto dos Santos Dutra



Já estamos quase nos acostumando com aquele zunido pelas ruas da cidade.
Logo ao cair da tarde ou altas horas da manhã, lá está o fumacê da Secretaria Municipal de Saúde aplicando o inseticida contra o mosquito aedes agypti, transmissor da dengue.

A máquina é potente e o jato de fumaça atinge a vegetação e espaço compreendido entre o meio fio da calçada e o muro ou cerca das casas. Busca, assim, eliminar o mosquito instantaneamente sem colocar em risco a saúde humana.

É um rito que quase nem percebemos. Afinal, estamos tão ocupados com o banho das crianças, colocando a rotina da casa em ordem, depois de mais um dia de trabalho, enquanto a noite chega. Ou, já levantando atrasado para mais um dia de labuta, para o corre-corre da vida, e nem colocamos reparo naquele som que passa em frente da nossa casa.

Mas eles estão lá. Após o horário comercial, à noite; ou muito cedo, junto com o sol que começa a iluminar a cidade, lá estão eles ajustando o equipamento (UBV-Ultra Baixo Volume) instalado sobre o veículo da Vigilância em Saúde, e dando partida para mais um dia de prevenção.

Afinal, no ano que findou foram mais de 400 casos confirmados de Dengue, segundo dados do Núcleo de Endemias de Brasilândia. Ao lado das visitas realizadas pelos Agentes de Combate às Endemias nas residências, alertando a população sobre as maneiras de evitar a proliferação do vetor, o combate ao mosquito com o fumacê foi intensificado sobretudo neste período de chuvas.

De distintos pontos da cidade, igualmente, outros profissionais e voluntários iniciam também a sua faina revisitando cada bairro e cada rua da cidade em busca de pesados tambores que carregam no ventre o que restou do consumo: ora aproveitável, reciclável; ora desprezado, rejeitado.

São servidores anônimos, como tantos outros, cuja presença só nos damos conta quando ouvimos o som daquele equipamento que passa, a música da Assobraa que cantarolamos, ou o ruído seco do caminhão da coleta do lixo orgânico da prefeitura.

Achamos isso tão natural que esquecemos que dentro da máquina, dirigindo o veículo ou correndo com fôlego de guepardo, de um lado para o outro, pelas ruas da cidade, seguindo aquele caminhão, existem pessoas, verdadeiros heróis sem rosto.

A crise de humanidade que nos acomete, instigada pela rapidez e frieza da técnica, cada dez mais nos afasta uns dos outros e nos nutre de ingratidão. O distanciamento social e as medidas sanitárias que nos obrigam a esconder o rosto e o sorriso, se tornou o maior desafio para que não nos tornemos de vez mais autômatos.

Isso porque a automação, a tecnologia e o aparato dos equipamentos que nos rodeia: celulares, computadores, controles remotos, mídias sociais, web sites e aplicativos, tudo conspira contra o que ainda nos resta de humanidade, cultura e respeito ao próximo.

Perdemos a capacidade de reconhecer o esforço e resiliência de quem está a nossa volta. E tudo em troca da informação e novidade que nos é enviada por um desconhecido que está do outro lado do mundo. O som do fumacê, do caminhão da Assobraa e a alegria de quem coleta o lixo orgânico, como um estampido no asfalto, nos faz acordar deste delírio.

Obrigado Agentes de Combate às Endemias. Obrigado Agentes Ambientais da Assobraa, pela coleta semanal de matérias recicláveis e que nos ensinam a construirmos um mundo menos egoísta e mais sustentável. Obrigado Motorista do caminhão da coleta de lixo e seu sorriso; obrigado aos valorosos Servidores que cumprem com dedicação e afinco, suando a camisa, a tarefa cuja percepção e gratidão quase sempre nos escapa.

Publicado originalmente em 08/Jan/2021 


domingo, 22 de maio de 2022

História e Memória de Brasilândia/MS Volume IV-Desenvolvimento

 


  


Este livro integra o 4º volume da coleção dedicada aos 50 anos de emancipação político administrativa do município de Brasilândia/MS sob o título História e Memória de Brasilândia/MS reunindo e dando destaque aos eventos históricos que gravitam em torno da Infraestrutura Econômica e Social, O mundo Urbano e Rural que nos Rodeia, e a Administração Pública e o Desenvolvimento que este município empreendeu através dos eventos e realizações que marcaram a sua trajetória, bem como recupera os aspectos históricos das secretarias e programas desenvolvidos pelas administrações ao longo dos anos desta comunidade.

No contexto dos acontecimentos da época em que a memória e os registros alcançam, destacam-se, sobretudo a história das empresas, indústrias, fazendas e o comércio que foram se instalando em Brasilândia, bem como reúne informações sobre demografia, hidrografia, malha viária, produção agrícola e pecuária, entre outras atividades, que revelam o progresso alcançado pelos cidadãos e cidadãs que aqui viveram e ainda vivem.

É uma forma de homenagear a todos que contribuíram e ainda contribuem para o engrandecimento da Cidade Esperança e seu desenvolvimento, garantindo o registro dos esforços desta comunidade, pessoas e instituições, no âmbito público e privado, em promovê-la e perpetuando seus feitos e realizações no tempo e na história.

Para adquirir:

https://clubedeautores.com.br/livro/historia-e-memoria-de-brasilandia-ms-volume-iv-desenvolvimento


Este livro pode estar à venda na:

Amazon


Mercado Livre




quinta-feira, 28 de abril de 2022

Construir uma casa é sonhar


Contruir uma casa é sonhar

Edifício, aconchego, lar...

É muito mais que um morar

São beleza e arte para contemplar



 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Istênio Peixe

 

Istênio Peixe: um construtor de pontes e o milagre.

Carlos Alberto dos Santos Dutra









Havia há pouco saído do quartel, num tempo em que ter 19 anos representava apenas o prolongamento da infância até a juventude inocente chegar vinda de um tempo que já não existe mais. E o menino estava lá ouvindo aquele senhor de sorriso largo e uma vasta cabeleira e bigodes viçosos que conversava com seu pai. Tudo combinado e lá se foi o rapaz, de carteira assinada orgulhoso das letras garrafais inscrita em sua primeira carteira de trabalho. Era agora um trabalhador, um TUCO, como se dizia, sob os cuidados da Rede Ferroviária Federal-RFFSA, segmento da Viação Férrea do Rio Grande do Sul.

Seu mundo agora aninhava-se nos carrinhos da REDE, que eram dormitórios e cozinhas, oficinas e escritórios, seguindo o par de trilhos, vagões puxados por locomotivas na direção de caminhos ainda por eles desconhecidos. Todos sob o comando de um homem chamado Istênio Peixe, verdadeiro astro-rei que se notabilizou por apontar o caminho a tantos jovens que experimentaram a primeira e maior façanha laboral de suas vidas. Com braço firme e sem nunca deixar que a tristeza lhe desacorçoasse, com um sorriso que lhe iluminava o rosto, cativava a todos a sua volta. Desde comandados até os que lhe eram desconhecidos que logo a ele se afeiçoavam.

Essa é a lembrança que tenho deste senhor alinhado e elegante, que falava franco e tinha palavras que alcançavam longe. Esteve lado a lado com seus operários ao longo dos trilhos do trem: Cacequi a fora, Rio Grande a dentro, comandando a valorosa turma de montagem de pontes por muitos anos, até se aposentar.

Sim. Foi o período que passamos juntos ao longo das linhas do trem, aquele que guardo entre as melhores recordações, à semelhança dos feitos do outro irmão de seu Istênio, o meu tio Henrique Peixe, cujo rastro suplanta o tempo e a distância se aninha sempre nas dobras do coração.

E lá se foram aqueles jovens sonhadores em direção a cidade de Rio Grande, passando por Azevedo Sodré, São Gabriel, Vacacaí, Suspiro, Bagé, Candiota, Pedro Osório, Capão do Leão e Pelotas, em busca de experiência e realizações que acabaram por marcar suas vidas.

São lembranças que, agora, no momento da partida deste nosso pai Istênio, que foi mais que um chefe ou patrão, deixam um rastro de saudade e venturosas recordações. E em todas elas este senhor se apresenta com o rosto cheio de brilho, olhar profundo e gestos solidários; sempre disposto, animando os companheiros naquele duro e arriscado trabalho que praticavam.

Com o coração apertado, porém, sem nunca demonstrar dúvida, era o primeiro a incentivar aqueles trabalhadores vendo-os correr sobre o arco de uma ponte de dez metros de altura tendo o rio abaixo como chão, imprimindo-lhes confiança e coragem, o que lhe conferia orgulho pelo que fazia.

O dia amanhecera chuvoso na cidade de Pedro Osorio e nossa missão ali era trocar dois bueiros. A turma já estava acostumada àquele serviço, mas sempre o fazia com cautela em face do perigo que representava. Depois de dois dias de espera, a chuva passou, e eis que ordem era para levar um dos bueiros sobre o truque e o trole.

A manhã muito cedo acolheu a turma toda equipada com suas capas plásticas amarelas. O trabalho naquele dia estava sob o comando do senhor Istênio Peixe e o senhor Daniel Franckini. Pesando mais de 9 mil quilos o bueiro era empurrado à força pelos trabalhadores. Ao som de iup, rip, já, a estrutura ia avançando em direção ao local da troca.

Quando o sol finalmente mostrou-se inteiro, seus raios refletiram majestosos sobre o alumínio da ponte, num brilho por demais contagiante. Estávamos em uma curva e os frisos da roda do trole ringiam e choravam, enquanto a turma empurrava mais e mais. A todo momento seu Istênio não cessava de animar os trabalhadores contando piadas e palavras acaloradas.

Na ocasião, olhando para os transeuntes da cidade que acompanhavam o esforço dos rapazes, sorrindo seu Istênio dizia: --Vejam como sofre um coração que nada sente. Os garotos sorriam e a turma continuava sua missão. Era como se aquelas palavras ditas pelo mestre tivessem o dom de acariciar a alma restabelecendo-lhes as forças.

Atravessamos uma ponte sobre o rio Piratini. Os trilhos eram paralelos a uma rua que dava acesso à cidade, unindo-a ao local chamado Serrito. Mais alguns passos e lá estava o velho bueiro sobre uma pilha de dormentes tramados que chamávamos de fogueira. Não era muito alto, mais ou menos seis metros. Na parte de baixo, uma empresa fazia os pilares de concreto.

Logo começamos a colocar os dormentes sobre os trilhos para, à medida que chegasse ao nível do trole, o bueiro, que estava encima, fosse gradativamente baixado. Os macacos hidráulicos começaram a ser acionados. Tão logo isso aconteceu meti-me para baixo do bueiro, ajudando na colocação dos dormentes. Seu Istênio, precavido, logo avisou que era perigoso e, então, retirei-me dali para alguem mais prático assumir no meu lugar.

O bueiro estava a menos de metro dos trilhos quando o imprevisível aconteceu. Encontravam-se em uma das cabeceiras da ponte: seu Istênio, eu, o Nico, o Pedro, o Adão e João. Ao lado do bueiro estavam o Aracy, o Mauro e o seu Gil. Na outra cabeceira da ponte estava o Badico e os demais trabalhadores à espera de que o nosso lado fosse abaixando para nivelar o bueiro. De súbito, um dos macacos hidráulicos, à minha frente, cedeu: --eu vi o espaço ir aumentando e do lado oposto o bueiro ir cedendo.

Foi tudo muito rápido. Ouvi o senhor Istênio gritar: --Cuidado que ele se vai! Virei-me de costas e ouvi outros gritos, e depois um grande estalo. Em questão de segundos o bueiro estava caído lá embaixo. Corremos os olhos a procura dos companheiros Aracy, Gil, Mauro que estavam justamente do lado em que o bueiro caiu. Mauro disse: --Estou bem. Seu Istênio perguntou: --E o Aracy? Tão logo falou, o olhar sério do Aracy surgiu por trás dos dormentes. Pensamos logo: machucou-se. Não nos enganamos, havia raspado as costas ao chocar-se com um dormente. O Gil também surgiu sorrindo.

--Milagre! Um falou. O enorme bueiro havia despencado lá de cima, rodeado de pessoas a sua volta e todos estavam salvos. Seu Istênio sentou-se em um dormente, levantou a perna da calça e apalpando o joelho falou: --Eu tentei firmá-lo; seria impossível. Felizmente ele bateu de leve aqui. Não era grave.

Todos após o momento de terror passar, ao olharem para baixo, vendo a capa amarela de um trabalhador que ainda permanecia presa entre os dormentes que despencaram, suspiraram aliviados. Sim, um milagre havia acontecido sobre aqueles escombros. E todos sorriram de satisfação, agradecidos.

Essas e outras histórias os amigos de seu Istênio que nos deixou hoje aos 86 anos, podem lembrar. Da mesma forma seus filhos, esposa, netos e demais familiares podem sentir orgulho do pai, esposo, avô, e sogro que tiveram. Sangue espanhol que trazia no temperamento e gestos do saudoso guarda-chaves Ataliba e da matriarca Lindolfa, desde os tempos e recuerdos de Entroncamento, o sentimento é de gratidão pelos ensinamentos. Descanse em paz, amigo, Istênio Peixe, agora construtor de pontes no Céu.

Brasilândia/MS, 14 de abril de 2022










A frente: Mauro, Antônio e Badico. Atrás: Istênio, Carlito e outros. No alto: Zé e Gil. Turma de Pontes que trabalhou na localidade de Tanque do Guassu-Boi, foto de abril de 1976.


Mauro, Renê, Carlito (na máquina de escrever), Jesus, Lair, e Breno. Turma de Pontes que trabalharam na localidade de Tanque do Guassu-Boi, foto de abril de 1976.


Aracy e Carlito (ao centro) e demais colegas da Turma de Pontes comandaas pelo Sr. Istênio Peixe. Localidade do Tanque do Guassu-Boi, foto de abril de 1976.