terça-feira, 21 de junho de 2022

 

O Salão Paroquial na história de Brasilândia

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra



O Salão Paroquial da Paróquia Cristo Bom Pastor foi inaugurado no dia 16 de abril de 1978 e contou com a presença das mais altas autoridades do lugar e região, expressivas personalidades do nosso mundo social, político e religioso, dentre elas Dom Antônio Barbosa, Bispo Diocesano de Campo Grande, o Prof. Arthur Höffig, o prefeito de Três Lagoas, Ramez Tebet, o prefeito de Brasilândia, Adilson Alves da Silva, além dos membros da comissão administrativa da Igreja, entre eles, Wilson de Arruda, Manoel Galdino, Fernando Rufino, entre outros.

Por muitos anos este, que foi o primeiro salão construído no município, teve a finalidade de abrigar os principais eventos da comunidade religiosa e civil que aos poucos se erguia. Foi o Salão Paroquial, largamente utilizado para realização de encontros, reuniões públicas e privadas, assembleias gerais e sindicais, tomadas de posse, palco de formaturas, apresentações, bailes e festas, e demais eventos sociais e religiosos do município.

Durante a inauguração, o patriarca fundador do município lembrou que o primeiro prédio que construiu foi uma escola e que Brasilândia era fruto da proteção de Deus. E parabenizou a comunidade pela realização da obra do salão paroquial dizendo ser apenas um soldado, um lavrador que deu um pouco de sua vida a Brasilândia e com a proteção de Deus [em breve] entregará a cidade uma usina de álcool que acabará com as dificuldades econômicas da prefeitura (...), pois um dos princípios de Democracia é dar trabalho a todos, concluiu.

Dom Antônio Barbosa, que presidiu a celebração ao lado do padre Antônio do Carmo Ribeiro, humildemente falou, citando o Evangelho que retratava naquele dia o Bom Pastor, por isso foi escolhida esta data para a inauguração. Pedindo que crie novos pastores para nossa comunidade, lembrou que Jesus Cristo foi o Bom Pastor. Que Deus fez crescer estas ovelhas este desejo de união, de trabalho e de criação. Que o primeiro ato realizado no Salão Paroquial será um ato principal e repousará no sacrifício da Santa Missa. Com a certeza de que este ato inspirará para o futuro, tanta concórdia, tanta união e tanto sacrifício.

Domingos Cristóvão Ribeiro, em breve oratória, mas de profundo sentimento, agradeceu a todos que colaboraram para esta realização, reconhecendo ainda as irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, aos jovens professores, e em especial ao Prof. Arthur Höffig por tudo, pois sem dúvida nenhuma, ele foi o braço mais forte desta realização.

José Candido da Silva, presidente da Câmara Municipal, também falou do Salão Paroquial lembrando o levantamento do Cruzeiro instalado no alto da cidade e marco da fundação do povoado que foi uma doação do fundador da cidade, local onde realizou-se a primeira missa no dia 21 de abril de 1957 pelo padre João Tomes.

Com o calor da palavra que lhe é característica o prefeito de Três Lagoas, na época, Ramez Tebet proferiu sua oração numa exaltação a Deus, falando de fé e de união dos homens, que a efeméride que se comemora representa mais um marco da cidade cumprimentando o povo pela realização da obra. Disse ainda da união dos homens de Brasilândia, dos homens públicos que estão construindo uma praça pública, um parque infantil e estão trazendo a energia de Urubupungá para Brasilândia.

Disse também que Dom Antônio Barbosa é um enviado de Deus que muito fez pela nossa região. Que Três Lagoas é a cidade mãe de Brasilândia e por esta razão nós estamos torcendo por vocês. Terminou sua oração dizendo que o reconhecimento a Dom Antônio Barbosa vem através da graça de Deus e que estas graças sejam também derramadas sobre estas irmãs.

Na época, o prefeito de Brasilândia Adilson Alves da Silva disse: o homem desde o seu primeiro estágio de desenvolvimento sentiu que não podia viver isolado, sentindo com a evolução a necessidade de viver em união. E o que nós vemos aqui: uma linda e maravilhosa obra que é o resultado da união de homens. Da união deve partir o amor, a inteligência e a saúde. A união com esses três princípios vem sempre beneficiar a humanidade. Esta obra é o resultado feliz da união desses três princípios. Brasilândia está de parabéns. E a união da comuna em benefício da coletividade.

A cerimônia que foi conduzida pelas mãos da Irmã Margarida Clementina do Nascimento contou com a participação das irmãs Ignêz Guarnieri, Célia de Oliveira Nunes, Maria Moura e Regina Borges, da comunidade de Três Lagoas. Também estavam presentes membros do movimento jovem da paróquia que animou o evento com uma música tocada por um de seus integrantes e cuja letra tocou o coração de todos.

Após o desatar da fita inaugural pelo prefeito Adilson Alves da Silva, o bispo Dom Antônio Barbosa e os presentes se dirigiram até a Sala de Reuniões onde foram descerradas as fotos do Papa Paulo VI e de Arthur Höffig. Após a missa de inauguração foi oferecido aos convidados um churrasco na fazenda Santa Mercedes.

Durante a noite, o Salão Paroquial já foi placo de um show com algumas enquetes apresentadas pelo grupo jovem da paróquia, seguindo-se uma brincadeira dançante. Ao lado da irmã Margarida, compunham a Comissão Paroquial na época, os senhores: Domingos Cristóvão Ribeiro e Gilvaez de Almeida que, no dia 7 de maio daquele ano de 1978 foram até Três Lagoas para receber das mãos do primeiro bispo da Diocese, Dom Geraldo Majela Reis, a quantia de cento e dezoito mil, novecentos e um cruzeiros que fora ofertada pelos católicos alemães para concluir a construção do Salão Paroquial.

















Brasilândia/MS, 21/06/2022


Fonte: Revista Atualidades Forenses e Interioranas. Três Lagoas: Edição Especial. N° 32, abril/maio/1978, p. 36-37.

 


segunda-feira, 20 de junho de 2022

 Jubileu dos 50 anos da Paróquia Cristo Bom Pastor - Primeiros passos de uma caminhada de fé

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra


No dia 21 de abril de 1957, aos pés de uma Cruz, batizada de O Cruzeiro, contando com a presença do patriarca Arthur Höffig, fundador do povoado, o padre tchecoslovaco João Tomes, rezou a primeira missa campal em Brasilândia: - Ó bondoso Deus, olhai para este povoado de Brasilândia. Fazei crescer aqui uma igreja forte e que ela receba o nome de Cristo Bom Pastor.

E o povoado foi crescendo ao mesmo tempo que os serviços pastorais cada vez aumentavam mais. O atendimento da igreja vinha nesta época de Campo Grande, diocese da qual Brasilândia se encontrava vinculada.

Na comunidade também havia carência na área da saúde. - Pois é comadre, precisamos fazer alguma coisa para melhorar a saúde em nossa comunidade. - Concordo com a comadre Maria, acho que nós podíamos falar com o padre e pedir a sua ajuda. O que vocês acham? - Isso mesmo, dona Tereza, na próxima vinda do padre aqui, pode deixar que eu falo com ele. Ele tem mais contato e pode conhecer alguém que possa nos ajudar.

A Prefeitura de Brasilândia havia construído nesta época seu primeiro Posto de Saúde, numa obra pioneira do prefeito José Francisco Marques Neto que havia sido eleito com a criação do município em 1965. Mas o Posto de Saúde não possuía médico, sendo que o mesmo vinha de fora uma vez por mês. Faltava também uma enfermeira e uma parteira para atender a população.

E lá foi uma comissão conversar com o Prefeito: - Pois é Senhor Prefeito, nós precisávamos de uma pessoa para atender a população. - Uma pessoa que fosse profissional de saúde. - E que também fizesse partos, pois tem nascido muitas crianças por aqui, completou seu José que acompanhava as mulheres Maria e Tereza na audiência naquele dia. - Pois bem, disse o Prefeito. - Vou dizer o que a Prefeitura vai fazer: Vou entrar em contato com um grupo de irmãs missionárias de Três Lagoas que conheço e conseguir uma irmã enfermeira para vir trabalhar aqui.

O Padre João quando soube do problema também interviu: - Olha, o que a Igreja pode fazer é entrar em contato com a Diocese de Campo Grande e buscar uma solução que concilie o trabalho pastoral com essa necessidade da comunidade.  Então conversou com o Bispo Dom Antônio Barbosa obtendo dele a bela notícia de sua intenção de formalizar um pedido à provincial superioras das irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, propondo a criação de uma Paróquia que seria confiada a elas.

E foi o que realmente aconteceu: No dia 25 de junho de 1972 os destinos pastorais da nova Paróquia Cristo Bom Pastor, passaram às mãos das irmãs da Congregação das Missionárias de Jesus Crucificado. E lá estavam elas, transformadas em verdadeiras vigárias paroquiais de Brasilândia assumindo a nova Paróquia:

A Irmã Abigail Dias Batista, que foi coordenadora de 1972 a 1975; a Irmã Ana Ribeiro de Lima; a Irmã Célia Maria Simeão, que foi parteira do Posto de Saúde; a Irmã Margarida Baptista das Dores; a Irmã Cacilda Soares Ribeiro; a Irmã Zélia Lopes da Silva; a Irmã Margarida Clementina do Nascimento, que foi coordenadora de 1975 a 1979; a Irmã Maria Aparecida Guimarães; a Irmã Diocenísia Vieira, carinhosamente chamada de Irmã DIÓ; a Irmã Geni Réia; a Irmã Geralda Ferreira da Silva, que foi coordenadora de 1979 a 1982; a Irmã Judith; a Irmã Maria M. de Abreu; a Irmã Maria Benedita Borasca; e a Irmã Nair Ribeiro Cardoso. 

E assim, o dia 25 de junho de 1972 amanheceu festivo e repleto de autoridades civis, militares e eclesiásticas de Três Lagoas, Campo Grande e região que circulavam pelas ruas da cidade misturando-se às centenas de paroquianos que se dirigiam todos para a pequena capela construída pelo padre João Tomes no centro da praça idealizada pelo fundador da cidade Arthur Höffig.

Foi um dia muito bonito quando o Bispo, Dom Antônio Barbosa, leu o documento de fundação da Paróquia. Recorda a Irmã Margarida que lá estava o padre Ubajara Paz de Figueiredo, o prefeito municipal, Julião de Lima Maia, as irmãs e o senhor Manoel Galdino de Souza, primeiro presidente da comissão paroquial.

As palavras do Bispo Dom Antônio Barbosa foram: - Meus irmãos. Após maduras considerações, e cumpridas às disposições canônicas, tendo em vista o crescimento da população na região de Brasilândia houve por bem erigir a Paróquia Cristo Bom Pastor, desmembrando-a da Paróquia de Santa Luzia, de Três Lagoas. - Pois bem, meus caríssimos. Exortamos vivamente aos nossos fiéis que recebam e acatem com respeitosa amizade as irmãs que vem e se estabelecer em Brasilândia, em nome do Senhor, dando-lhes o conforto da correspondência cordial à sua ação missionária. Que, por intercessão da Virgem Maria, o Bom Pastor nos abençoe, conforte e conserve no seu santo serviço. Assim seja.

E foi o que aconteceu. Por dez anos a nova Paróquia foi confiada à Congregação das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado numa experiência pioneira na Diocese de Campo Grande: uma paróquia sem os serviços hierárquicos tradicionais, formando a primeira comunidade pastoral católica nesta terra possibilitando aos fiéis da região congregar ao redor de Cristo Bom Pastor e daqueles que O representam, formando uma fervorosa comunidade de fé, de culto, de amor e serviço fraterno.

Por dez anos estas irmãs desenvolveram atividades pastorais e sacramentais na Paróquia, sempre assistidas por diversos padres que, de tempo em tempo, vinham até a Paróquia Cristo Bom Pastor auxiliá-las. Entre eles podem ser lembrados o padre José Faralosse e o padre Nicolau Hames; o padre Ubajara Paz de Figueiredo que vinha sempre de Campo Grande ajudar na formação pastoral; o padre Nilvo Floriano Pase, e o padre Antônio do Carmo Ribeiro, que atendia a Capela Santa Rita em Xavantina. Tinha também o padre Hermes, o padre Ernesto, o padre Tomaz, o padre Iglesias, e outros.

Nesta época, o primeiro batizado na nova Paróquia aconteceu no dia 4 de junho de 1972 ministrado à criança Dalvina Aparecida Alves, nascida em 7 de setembro de 1967, filha do senhor Celso Alves e Maria Pereira Alves, tendo como padrinhos José Patrício Filho e Luzia Thereza da Silva. O batizado foi presidido pela irmã Abigail Dias Batista. Nos cinco primeiros anos da instalação da Paróquia, até o ano de 1977, foram realizados 1.549 batizados.

Podemos lembrar também que o primeiro casamento realizado na Paróquia aconteceu em 24 de julho de 1972, e uniu o casal Lourival da Silva e Neusa dos Santos; que foi ministrado também pela irmã Abigail. Durante os seis primeiros anos da instalação da Paróquia, de 1972 a 1978, foram realizados 329 casamentos

No Livro Tombo da Paróquia encontramos nomes conhecidos de antigos moradores, alguns deles já saudosos e outros que ainda permanecem atuantes na comunidade. Entre eles podemos citar: seu José Sanches Castilho e dona Consuelo Garcia Sanches; seu Germino Pereira dos Santos e dona Aureliana Dutra Pereira; seu Vicente Borges dos Reis e dona Niderci Maria Morais dos Reis; seu Eliazel Paes de Oliveira e dona Jurandira de Oliveira; seu Alfredo Goulart e dona Josefina de Souza Goulart; seu Mário Cherante e dona Maria Bielof Cherante; seu Pedro Takizawa e dona Anizia Nunes Pereira; seu Aparecido Lopes da Silva e dona Josefa Ribeiro de Almeida (nossa querida dona Mocinha)...

E ainda seu Filadelfo Basso e dona Maria Pereira Basso; seu Agmon Fernandes e dona Ercília Fernandes; seu Julião de Lima Maia e dona Neuza Paulino Maia; seu Edvaldo Mingante e dona Elmira Maria de Jesus; seu Antônio Benedito de Souza e dona Fidelcina de Souza Brito; seu Antônio Fernando Dias e dona Balbina Ribeiro de Moraes; seu Manoel Galdino de Souza e dona Adelaide Rosa de Souza...  

E tantos outros pioneiros da fé que figuraram como padrinhos de batizado e de casamento, e outros tantos fiéis discípulos que, ao lado das irmãs e dos padres que a sucederam ajudaram a construir a Paróquia Cristo Bom Pastor que agora completa 50 anos de caminhada. A todos manifestamos nossa gratidão e dedicamos nossas homenagens rogando a Deus que os abençoe aqui e na eternidade.  Salve a Paróquia Cristo Bom Pastor! Salve o Cristo Bom Pastor!

Brasilândia/MS, 20 de junho de 2022.

 


domingo, 19 de junho de 2022

A missão, a fé e a primeira enfermeira de Brasilândia

 

Homenagem às Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra

 

Corria o dia 4 de janeiro de 2006 e a Paróquia Cristo Bom Pastor recebia um grupo de missionárias admiráveis. Tratava-se da realização do PROMIS, uma experiência ministrada em Brasilândia pelas pioneiras Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, congregação fundada em 1928 e presente na Diocese de Três Lagoas desde 1958. Portadoras de um carisma diferente das demais congregações religiosas da época, tinham como lema: Ir em busca dos mais necessitados e o carisma: Ir em busca... com um pé no convento e outro no mundo.

E lá estavam elas chegando em Brasilândia, sendo recepcionadas pelo padre Lauri Vital Bósio, pároco na época e o grupo de fiéis locais dispostos a caminhar naquela empreitada de fé: as irmãs Ignês Guarnieri; Zélia Lopes; Célia Maria Simeão; Lídia Rodrigues; Maria Aparecida Zanchetta; Geni Reia; Wanda Lupato; Vera Wanda dos Santos. E os agentes locais Felipe Vituriano Neto; Magda Monteiro de Jesus; Regiane de Souza Dias, Eliana Munin Silva Pedrosa; Patrícia Helena Dias; Janaina Lopes da Silva Souza, entre outros.

Durante a missa de abertura dos trabalhos da missão, um acontecimento especial, entretanto, marcou profundamente a vida de todos que lá se encontravam naquele dia. Entre as intenções da celebração estava o 7º dia de falecimento de uma mãe da comunidade, que falecera de parto ao dar à luz uma linda menina que nasceu forte e bela, e recebeu o nome de Natali Raquel.

No Livro Tombo da Paróquia lá encontramos o registro deste momento especial e de alcance histórico digno de ser lembrado nos festejos do jubileu dos 50 anos da Paróquia Cristo Bom Pastor. Foi muito emocionante quando a Irmã Célia Maria tomou a criança nos braços e fez uma prece recordando o tempo que, no início desta Paróquia, ela, sendo enfermeira e parteira, ajudou a muitas mães terem seus filhos e nunca aconteceu de alguma gestante morrer na hora do parto. Era um tempo quando Brasilândia ainda não possuía médico e tampouco hospital...

A emoção tomou conta de todos naquele momento. Embora fosse motivo de dor pelo falecimento da mãe, o ambiente inspirava alegria pela vida da criança sobrevivente e imensa gratidão da comunidade pelas abençoadas mãos daquela irmã-parteira, que pode ser considerada como a primeira mãe de muitos brasilandense, a irmã Célia Maria Simeão.

Da mesma forma todos somos gratos às demais irmãs coordenadoras pelo pioneiro trabalho humano e evangelizador que realizaram: Abigail Dias Batista, Margarida Clementina do Nascimento e Geralda Ferreira da Silva. Elas foram as primeiras vigárias que por 10 anos administraram a Paróquia Cristo Bom Pastor.

As atividades do evento missionário do PROMIS seguiram em frente concentrando suas forças no Reassentamento Novo Porto João André que se viu transformado literalmente em terra de missão: trabalhos em grupo, visitas às famílias e cerâmicas, oficinas de artesanato, recreação infantil e de adultos, leitura orante da Palavra de Deus e celebrações a partir da vida pelas mãos daquelas irmãs missionárias. Manuel Édson Pereira e a Profª Joana Nogueira são citados como lideranças da paróquia que participaram ativamente daquele evento.

Contando com uma zelosa equipe de serviços formada pelas senhoras Vera Lúcia, Luciana, Vermilda, Branca, Cleonice, Marina e dona Chiquinha, o grupo de missionárias e animadores iluminou aquela comunidade, trocando experiências e cumulando de esperança àqueles ribeirinhos egressos da barranca dos rios Verde e Paraná.

No dia 25 de junho a Paróquia Cristo Bom Pastor celebra o jubileu de seus 50 anos de fundação no município de Brasilândia. Data que relembra também a primeira missa campal rezada 15 anos antes pelo padre João Tomes ao pé no Cruzeiro, marco da fundação do município, no dia 21 de abril de 1957.

Sim. Por uma década esta Paróquia criada em 1972 foi confiada por Dom Antônio Barbosa à valorosa congregação das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. Foi uma experiência pioneira na Diocese de Campo Grande, escreveu o padre Ubajara Paz de Figueiredo no Livro Tombo da Paróquia:

Uma paróquia sem os serviços hierárquicos tradicionais, formando a primeira comunidade pastoral católica nesta terra possibilitando aos fiéis da região congregar ao redor de Cristo Bom Pastor e daqueles que O representam, formando uma fervorosa comunidade de fé, de culto, de amor e serviço fraterno.

Muito temos a agradecer a estas irmãs vigárias que desafiaram o mundo para dar seu testemunho de sua missão: realizaram batizados, casamentos, exéquias, catequese, cursos de batismo, preparação do Crisma e matrimônio. Trouxeram vidas ao mundo, promoveram a alegria, o encanto e a arte, encarnaram a vida de sofrimento da comunidade, semearam esperança, celebraram a Palavra de Deus nas igrejas e capelas, na cidade e nas comunidades rurais.

Ao lado dos ribeirinhos, de homens e mulheres trabalhadores rurais sem terra e indígenas, deram o testemunho evangélico e profético; venceram a poeira das estradas e o obstáculo das distâncias, num mundo cominado pelos homens e num tempo de poucos recursos, movidas somente pelo carisma e a fé no Cristo Bom Pastor. Por tudo isso, obrigado Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado de ontem e de hoje.

Sobre o passado, a memória reclama, e é impossível não lembrar:

E lá estava a irmã Abigail ao lado de Dom Geraldo Majela Reis atendendo a comunidade da Capela Santa Bárbara, na Cabeceira Perdida! A irmã Ana atendendo a Capela São Paulo, na Fazenda Cisalpina, e a Capela São Francisco, na Fazenda Boa Esperança! A Irmã Célia, de pequena estatura, na condição de irmã enfermeira, atendia no posto de Saúde.

E lá encontramos a irmã Margarida Baptista viajando até a Debrasa para atender a Capela São José Operário! E a irmã Cacilda percorrendo a barranca do rio Paraná celebrando na Capela Nossa Senhora das Graças, no Porto João André! Cheia de criatividade lá encontramos a irmã Zélia e a valorosa irmã Nair acompanhando a pastoral da terra animando os ribeirinhos e pescadores, sem-terra e indígenas que viviam na barranca do rio Paraná no Porto Cisalpina e Porto João André!

Como não lembrar da irmã Margarida Clementina que atendia a Capela Nossa Senhora Aparecida mesmo antes que existisse o Iate Clube Rio Verde; a irmã Maria Aparecida que acompanhava o Padre quando ele visitava a Paróquia e celebrava missa pelas fazendas da região: Fazenda Mater, Fazenda Almeida, Capela São José dos Jesuítas. Ah, e a irmã Diocenísia, carinhosamente chamada de irmã DIÓ, que estimulava os jovens e se dedicava à catequese de crianças e adultos na paróquia!

Tanto trabalho e muita dedicação. E lá estava a irmã Geni visitando os doentes, de casa em casa, levando esperança e a comunhão aos enfermos. Da mesma forma a irmã Geralda sempre às voltas em reunião com a comissão administrativa da Paróquia ajudando nas promoções e eventos, quermesses e celebrações festivas!

A Irmã Judith prestando assistência espiritual a moradores do distrito de Xavantina, Capela Santa Rita e Capela Nossa Senhora de Fátima, na fazenda Mutum na companhia do padre Antônio Ribeiro. E a irmã Maria de Abreu celebrando nas comunidades rurais das fazendas Córrego Azul, Fazenda Limeira, Capela Nossa Senhora de Fátima, e Sitio Cafezinho. Também a irmã Maria Benedita que subia o rio Verde até os moradores da fazenda do Porto que atravessavam para Arapuá através do cabo de aço num tempo em que o padre vinha de Três Lagoas pela fazenda Arapuá.

Ao lado das irmãs que aqui residiam, muitas outras irmãs colaboradoras passaram por aqui e promoveram encontros, ministraram cursos e animaram a caminhada da igreja nos primeiros anos da Paróquia. Elas permaneceram em Brasilândia até a chegada do primeiro pároco nomeado, o padre Tadeu Kolochievjck, em 1982.

Que Deus abençoe as que aqui hoje se encontram e também as que já partiram para o Reino dos Céus, pelo muito que realizaram e somos gratos. Obrigado Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. A Paroquia Cristo Bom Pastor as guardará sempre na sua memória. Deus as abençoe.

Publicado originalmente em 18.Jun.2022 e republicado em 18.Jun.2024.

 

 

 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

 

Não chores por mim Amazônia.

Carlos Alberto dos Santos Dutra








Por entre as folhas da mata lá se encontram eles, indefesos. Os gritos ao longe, de ontem, que serviam para os aproximar e comunicar, hoje são encurtados pelos celulares e gps que facilmente os encontram.

As máquinas que revoltam a terra em busca do ouro, as armas de fogo que alcançam longe tirando-lhes a vida, e a violência de grupos de hábitos estranhos que transitam e traficam além fronteira, tudo os assombra e os afugenta.

Ao verem o helicóptero e o barco acenam aparentemente pedindo ajuda, mas estão sempre fugindo do contato. Não sabem em quem confiar, em quem acreditar. As matas e seus rios parecem que vão encolhendo enquanto uma multidão de estranhos vão lhe tomando as terras, consumindo-lhe as forças, oferecendo-lhes favores em troca de suas almas.

É neste contexto de medo e violência que o coração humano de desprendidos cidadãos se lança revestidos de inexplicável altruísmo, em sua defesa. Clamam aos poderes do mundo por justiça, e denunciam um estado de coisas que foge à compreensão do restante do mundo dito civilizado. O lado mais obscuro e perverso da condição humana que se passa no interior do subsolo da floresta amazônica é o roteiro de seus libelos.

Situação claramente sem controle alimentada pela omissão oficial, quando não incentivada pelos próprios poderes instituídos que deveriam ser os responsáveis para impedir que essas tragédias acontecessem: a morte de indígenas, a invasão de suas terras, a extração da madeira, o garimpo clandestino e o livre trânsito de homens armados do tráfico rumo à fronteira.

O desparecimento e provável assassinato do servidor da Funai, Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos há uma semana, é o retrato mais recente desta tragédia cujas autoridades não têm a hombridade de revelar e reconhecer o quanto é culpada por tudo isso que está acontecendo.

Não chores por mim Amazônia: chore e lute para reverter a política ambiental desastrada do atual governo, para acabar com a intervenção política na Polícia Federal e Funai que substituiu servidores titulares por nomes apadrinhados sem qualquer intenção de pacificar a região. Lute para garantir o direito que os povos da floresta exigem e merecem, devolvendo ao lugar a segurança e a dignidade que a Amazônia inteira espera para viver em paz...

Enquanto isso, a terra se revolta em gemidos de lamento e morte, colecionando seus corpos e lágrimas, suas vítimas e mártires... Até quando?

Brasilândia/MS, 13 de junho de 2022.