O Maestro do
Silêncio, da Sala de Aula e das Calçadas: As Lições Imortais de Tio Ide.
Carlos Alberto dos
Santos Dutra
Para muitos, o dia começa com o despertar dos despertadores. Para aquele cidadão atento, o dia amanhece de fato quando ele dobra a esquina da Rua Vicente Fernandes e encontra a personificação da paz.
Lá está ele, o Professor Yoshiki Ide — ou simplesmente Tio
Ide —, empunhando sua vassoura com a mesma precisão e carinho com que
um dia segurou o giz.
Varrer a calçada, para ele, não é um fardo doméstico; é uma coreografia de cuidado. Ele limpa o próprio chão, o do vizinho e o da rua inteira, estendendo sua gentileza até onde a vista alcança.
Quem passa recebe mais que um caminho limpo: recebe um
sorriso que parece flutuar sobre o tempo. É uma lição silenciosa de que a
dignidade reside no capricho e que a vida, assim como uma rua bem cuidada,
floresce na doação.
Olhar para Tio Ide é ver o reflexo de uma história forjada na resiliência. Filho de imigrantes japoneses que atravessaram oceanos após o horror da 2ª Guerra Mundial, ele traz no sangue a força de Kumamoto e o suor das terras de Lavínia.
Criado entre cafezais
e plantações de algodão, sua juventude foi o trabalho bruto da terra, restando
pouco espaço para os romances da idade — embora guarde, com um brilho terno no
olhar, a lembrança de um namoro aos 16 anos. Ele nunca se casou, mas tornou-se
pai de gerações através do saber.
A matemática entrou em sua vida não como uma imposição, mas como um destino traçado em abril de 1977. Você quer ficar no meu lugar?, perguntaram-lhe. Ele aceitou, e o que seria uma ocupação tornou-se uma missão de 30 anos na Escola Adilson Alves da Silva.
Cruzou a fronteira da divisão do Estado e as incertezas
da carreira com a mesma calma com que hoje enfrenta a calçada. Mesmo aposentado
com proventos parciais, ele não carrega amargura; carrega a exatidão dos
números e a imensidão do afeto.
Em sala de aula, Tio Ide era o porto seguro. Enquanto o mundo lá fora clamava por pressa e ruído, ele ensinava com a mansidão dos sábios. Nunca precisou erguer a voz ou o apagador para impor respeito; sua presença era o próprio ensinamento.
Ele
compreendia a dualidade do ser humano — "metade gosta, metade não",
dizia com humildade — mas dedicou cada segundo para que o amor pelo aprendizado
vencesse qualquer resistência.
Hoje, o mestre é como se flutuasse sobre nuvens ao caminhar: ele continua sendo o educador da
cidade, sem precisar de lousa ou caderno. Ele nos ensina que a matemática da
vida é simples, embora profunda: subtraia o orgulho, some a gentileza e divida o
tempo com o próximo.
Ao ver Tio Ide
varrendo a rua, ou ao meu lado contando-me a sua história, percebo que ele ainda está dando aula. E a lição de hoje é a
mais importante de todas: a grandeza de um homem não se mede pelo que ele
acumula, mas pela suavidade com que toca o chão por onde passa.
Obrigado professor Yoshiki, carinhosamente Tio Ide de toda uma geração. Suas lições vão muito além da matemática e das ruas dessa cidade.
Brasilândia/MS, 15 de março de 2025.
Dia da Escola no Brasil.
Fonte: Com informações de Fabiano Fonseca.
Professor de matemática aposentado desde o dia 7 de
dezembro de 2007, Yoshiki Ide, demonstra ainda hoje muito bem sua
facilidade em lidar com os números e datas, prática que alimentou desde a
infância e que, depois, na sua juventude, aprimorou na condição de empregado quando
trabalhou de 1970 a 1977 no escritório de uma firma na sua cidade natal,
lembra ele com precisão.
Perguntado sobre como nasceu a vocação de professor, ele
sorri e responde: A gente não tinha vocação para ser professor(...), mas daí
o professor Motsu Nakarina, que dava aula na Escola Estadual Adilson Alves da
Silva, disse: estou largando de ser professor, você quer ficar no meu
lugar? Foi no dia 30 de abril de 1977. E aí ele trouxe a gente aí, apresentou
para a professora Daura, que ela diretora, finada Daura, irmã da professora
Sandra.
Tendo ingressado na carreira do magistério cinco meses antes da divisão do Estado de Mato Grosso ainda uno, na data de 1º de maio de 1977, foi professor por 30 anos na Escola Estadual Adilson Alves da Silva. Diante da instabilidade da época, quando a gente não tem garantia de aposentar ou não, recorda sorrindo resignado, acabou aposentado percebendo somente 70% dos seus vencimentos. Perguntado se ele havia jogado apagador em algum aluno em sala de aula, ele responde que não. E giz? Talvez, alguma vez. A gente não lembra, brinca, sorrindo com discrição.

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