quarta-feira, 25 de março de 2026

 

Aura de Chapéu Branco: A Jornada de Seu Antônio

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

 







O ano era 1985. Onde hoje pulsa o Bairro Thomaz de Almeida, o que se via eram casas semiconstruídas, entregues sob a urgência das promessas eleitorais. Ali, os primeiros habitantes não apenas moravam; eles desbravavam. Disputavam palmo a palmo o chão vermelho com o cerrado resistente e as trilhas de formigas que teimavam em não abandonar o antigo lar. Era tempo de pioneiros.

E entre eles, como se fizesse parte daquela paisagem, estava ele. Um homem de hábitos rurais e alma simples, que encontrou no ritmo do novo bairro o eco de sua própria essência. Enquanto o asfalto não chegava, sua alegria era guiar cavalos e éguas pelos pastos que abraçavam o loteamento. Daí nasceu o apelido que o eternizou entre os vizinhos: Antônio das Éguas. Para a família, porém, ele era Antônio Corretor — um título que carregava o brilho da inteligência de quem, mesmo sem ter tido a chance de avançar nos bancos escolares, dominava os números e os cálculos com a precisão de um mestre.

Nascido em Araçatuba em 1927 e forjado na lida do campo em Pereira Barreto, Antônio aprendeu cedo que a vida se escreve com trabalho e honradez. Em 1954, uniu seu destino ao de Rita Simplício Alves. Juntos, construíram um castelo de simplicidade onde floresceram oito filhos, frutos de um amor que atravessou décadas e distâncias.

Quem o via passar, com seu andar correto e um sorriso leve no rosto, sentia uma paz imediata. Antônio tinha a mansidão de quem conversa com animais e a sabedoria de quem sabe ouvir o tempo. Em Brasilândia, onde fincou raízes definitivas, ele se tornou a memória viva da cidade: guardava no peito as histórias do motor a diesel que trazia a luz e os causos dos fundadores, narrando tudo com o brilho de quem viu o futuro nascer do barro.

Sua conduta era um espelho sem mácula. Ao lado de Dona Rita, conduziu sua casa com a retidão de uma bússola. Deixou para os filhos não posses materiais, mas o tesouro de uma índole irretocável. Partiu deixando dois sonhos guardados na algibeira: o de dirigir um automóvel e o de ter seu próprio pedaço de chão para plantar. Mal sabia ele que seu plantio foi muito maior, florescendo no caráter de cada descendente.

O dia 31 de dezembro de 2020 trouxe a despedida mais doída. Em meio ao silêncio imposto por tempos difíceis, o "corretor de destinos" preparou seus arreios para a última viagem. A Covid-19, em sua frieza, negou à família o abraço final e o descanso imediato ao lado de sua amada Rita. A dor de vê-lo partir assim, sob protocolos e distâncias, feriu fundo. Mas nem a terra fria, nem a ausência de um velório tradicional apagam a luz que ele deixou.

Hoje, a rua do Thomaz de Almeida está asfaltada. O rastro dos cavalos sumiu, mas se você apurar o olhar em uma tarde de sol, ainda poderá vislumbrar a aura de um homem de chapéu branco montado em sua dignidade. Seu Antônio não partiu; ele apenas mudou o pasto.

Descanse em paz, mestre da simplicidade. Sua estrada agora é de luz, e seu legado é a paz que nos ensinou a cultivar.

 

Brasilândia/MS, 25 de março de 2026. 

Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/amansidao-e-paz-de-seu-antonio-alves.html


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