Aura de Chapéu
Branco: A Jornada de Seu Antônio
Carlos Alberto dos
Santos Dutra
O ano era 1985. Onde hoje pulsa o Bairro Thomaz de Almeida, o que se via eram casas semiconstruídas, entregues sob a urgência das promessas eleitorais. Ali, os primeiros habitantes não apenas moravam; eles desbravavam. Disputavam palmo a palmo o chão vermelho com o cerrado resistente e as trilhas de formigas que teimavam em não abandonar o antigo lar. Era tempo de pioneiros.
E entre eles, como
se fizesse parte daquela paisagem, estava ele. Um homem de hábitos rurais e
alma simples, que encontrou no ritmo do novo bairro o eco de sua própria
essência. Enquanto o asfalto não chegava, sua alegria era guiar cavalos e éguas
pelos pastos que abraçavam o loteamento. Daí nasceu o apelido que o eternizou
entre os vizinhos: Antônio das Éguas. Para a família, porém, ele
era Antônio Corretor — um título que carregava o brilho da
inteligência de quem, mesmo sem ter tido a chance de avançar nos bancos
escolares, dominava os números e os cálculos com a precisão de um mestre.
Nascido em
Araçatuba em 1927 e forjado na lida do campo em Pereira Barreto, Antônio
aprendeu cedo que a vida se escreve com trabalho e honradez. Em 1954, uniu seu
destino ao de Rita Simplício Alves. Juntos, construíram um castelo de
simplicidade onde floresceram oito filhos, frutos de um amor que atravessou
décadas e distâncias.
Quem o via passar,
com seu andar correto e um sorriso leve no rosto, sentia uma paz imediata.
Antônio tinha a mansidão de quem conversa com animais e a sabedoria de quem
sabe ouvir o tempo. Em Brasilândia, onde fincou raízes definitivas, ele se
tornou a memória viva da cidade: guardava no peito as histórias do motor a
diesel que trazia a luz e os causos dos fundadores, narrando tudo com o brilho
de quem viu o futuro nascer do barro.
Sua conduta era um
espelho sem mácula. Ao lado de Dona Rita, conduziu sua casa com a retidão de
uma bússola. Deixou para os filhos não posses materiais, mas o tesouro de uma
índole irretocável. Partiu deixando dois sonhos guardados na algibeira: o de
dirigir um automóvel e o de ter seu próprio pedaço de chão para plantar. Mal
sabia ele que seu plantio foi muito maior, florescendo no caráter de cada
descendente.
O dia 31 de
dezembro de 2020 trouxe a despedida mais doída. Em meio ao silêncio imposto por
tempos difíceis, o "corretor de destinos" preparou seus arreios para
a última viagem. A Covid-19, em sua frieza, negou à família o abraço final e o
descanso imediato ao lado de sua amada Rita. A dor de vê-lo partir assim, sob
protocolos e distâncias, feriu fundo. Mas nem a terra fria, nem a ausência de
um velório tradicional apagam a luz que ele deixou.
Hoje, a rua do
Thomaz de Almeida está asfaltada. O rastro dos cavalos sumiu, mas se você
apurar o olhar em uma tarde de sol, ainda poderá vislumbrar a aura de um homem
de chapéu branco montado em sua dignidade. Seu Antônio não partiu; ele
apenas mudou o pasto.
Descanse em paz,
mestre da simplicidade. Sua estrada agora é de luz, e seu legado é a paz que
nos ensinou a cultivar.
Brasilândia/MS, 25 de março de 2026.
Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/amansidao-e-paz-de-seu-antonio-alves.html

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