quinta-feira, 19 de março de 2026

 

O último apito do mestre e a lembrança de um ícone brasilandense.

Carlos Alberto dos Santos Dutra




Brasilândia acordou naquele 18 de março de 2021 com um silêncio diferente. Aquele banco de motorista, que por décadas foi o trono de um homem simples e gigante, agora está vazio. Evair José da Silva, o conhecido e eterno Bahia, recolheu o boné e seguiu para a sua última viagem.

Dizer que ele era apenas um motorista seria pouco. Bahia era o guardião de sonhos. Com as mãos firmes no volante e o coração aberto no sorriso, ele cruzou as estradas de terra desta cidade levando gerações. Levou crianças que se tornaram doutores, jovens que buscavam o futuro na universidade e adultos que viam nele não apenas o condutor, mas o amigo.

Quem não se lembra das suas palavras de conforto quando o ônibus insistia em parar no meio do caminho? "Calma, gente, de sede vocês não morrem!", brincava ele, transformando o imprevisto em risada. Ou do gesto sagrado ao avistar a Basílica de Aparecida, quando, num ato de pureza e fé, tirava o boné para saudar a Padroeira com um viva que ecoava na alma dos passageiros.

Bahia foi o mestre da "arte do bem viver". No esporte, ele não apenas jogava; ele unia as pessoas. Seja no futebol-arte do antigo BAC, que ele tanto defendeu para ver brilhar no estado, ou nas mesas de truco regadas a resenhas e amizades verdadeiras. Ele estava lá, entre o Bar da Pedra e os torneios da Dona Margarida, sempre cercado de gente, sempre sendo o elo que transformava uma simples disputa em uma festa da vida.

Ele viu Brasilândia nascer e ajudou a escrever os capítulos mais bonitos da nossa história social. Do preto e branco ao azul e branco — as cores do céu e da paz que ele tanto prezava — Bahia coloriu os dias da Cidade Esperança com sua simplicidade peculiar.

E foi assim, aos 79 anos, que ele deixou esta comunidade devido complicações da nefasta e fatídica Covid-19 de ontem. Mas o rastro que ele deixou não é de tristeza, é de luz. Fica a saudade do juiz de futebol, do desportista dedicado e, acima de tudo, do homem que caminhava de mãos dadas com os seus, honrando suas raízes e amando sua terra.

Descance em paz, Mestre Bahia. As estradas do céu agora são o seu novo itinerário, e temos certeza: aí em cima, o jogo vai ser bom e a sede de alegria nunca vai acabar.


Brasilândia/MS, 18 de março de 2026. 

Homenagem póstuma ao 5º aniversário de morte de Evair José da Silva. Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2021/03/evair-jose-da-silva-o-mestre-bahia-nos.htmlImagem colorizada in colorir a imagem: - Google Search

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