Marilda Xartã
Ofaié: A Mestra que se fez rio e dialeto do coração.
Carlos Alberto dos
Santos Dutra
Ela carregava o
silêncio como quem guarda um segredo sagrado. Marilda era a tradução
viva de um povo de passos mansos e feições que desenhavam a sobriedade da alma.
Em seus olhos, um
brilho de melancolia contava histórias que o tempo tentou apagar: ali estavam
as cicatrizes das perseguições de ontem, o cansaço das andanças de hoje e o
medo do que viria amanhã.
Marilda de Souza era, na
verdade, Xartã. Além de guardiã de uma língua que se recusava a
morrer, ela foi o solo onde brotaram vidas. Chorou os filhos Josimar e Gilmar —
pequenas sementes que o vento levou cedo demais — mas sorriu com o orgulho de
mãe ao ver Léa e Elizangela florescerem. Uma delas, professora, levava adiante
a missão de quem entende que o saber é a única liberdade possível.
Dizem que ela era
a "última flor do Lácio" de sua gente, mas Marilda era muito mais:
era a ponte. Acadêmicos, mestres e doutores vinham de longe para se ajoelhar
diante de sua sabedoria.
Quantos ouvidos
atentos não se debruçaram sobre seus lábios para capturar os sons guturais, as
vogais estranhas, as palavras que o português não sabe dizer? Ela soletrava a
eternidade em uma língua à beira do abismo, transformando sua voz em um escudo
contra o esquecimento.
Sua dedicação não
gerou apenas teses e diplomas; gerou vida. O nome de Marilda Xartã Ofaié
está gravado no couro das monografias, mas vive pulsar no coração de quem pisou
no chão batido da Aldeia Anodhi.
Ela não era apenas
uma informante; era a mestra pedagoga de uma terra banhada em sangue e
resistência.
Hoje, Marilda
é voz da saudade que salta dos dicionários e abraça o saber universal. Deixou
sua marca em nomes que a ciência respeita, mas que nela encontraram a humildade
da verdadeira sabedoria.
Partiu aos 48
anos, vítima de uma dessas doenças sem nome que a modernidade traz para onde a
reza não alcança. Partiu jovem, como se o corpo não suportasse mais a urgência
de ser o último pilar de um templo.
As aldeias, às
vezes, tornam-se apenas memórias de velhos, cercadas por um mundo que não
entende o valor do ancestral. Mas Marilda enganou a morte. O Museu da
Pessoa guardou seu lamento e seu sonho. Ela agora não é mais carne; é som, é
brisa, é o eco Ofaié que se recusa a calar.
Que ela descanse
em outra margem, onde os rios são infinitos e a língua mãe é o único dialeto do
coração. Descanse em paz, Doutora Marilda. Sua voz agora é eterna.
Brasilândia/MS, 27
de março de 2026.
Homenagem ao 11º ano de falecimento da Profª. Marilda Xartã Ofaié.
Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2015/03/marilda-xarta-ofaie-mestrados-doutores.html
Fotos: Prefeitura Municipal de Brasilândia, 2023 e Antônio Jacob Brand, 1985.


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