terça-feira, 27 de outubro de 2026

 

A Menina das Curvas do Trem: O Legado de Laura dos Santos Dutra e o Apelo por Justiça Histórica em Cacequi

Por Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

A história de uma cidade não se restringe à frieza dos tijolos de suas construções ou aos dados estatísticos de seus relatórios oficiais; ela é moldada, fundamentalmente, pela alma, pela sensibilidade e pela dedicação das pessoas que nela deixaram suas marcas. Em Cacequi, Rio Grande do Sul, poucas trajetórias traduziram tão profundamente o amor por essa terra quanto a de Dona Laura dos Santos Dutra. 

Nascida sob as bênçãos de Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre, no dia 2 de fevereiro de 1933, a filha de marinheiro e ferroviário adotou o solo cacequiense ainda na juventude, transformando-o no cenário de suas maiores vivências e inspirações. 

Foi entre as páginas da antiga Biblioteca do Bolãozinho, no Clube Apolo, que Laura consolidou sua paixão voraz pela literatura universal. Ali, alimentou o espírito inquieto que a tornaria uma mulher muito à frente de seu tempo. Em Cacequi, ela constituiu família ao lado de Vilson da Silva Dutra, gerando oito filhos, a quem sempre embalou com música, poesia e uma perene gentileza. 

Sua atuação comunitária foi pioneira e multifacetada: estendeu-se desde a fundação da Liga Feminina de Combate ao Câncer em 1986 até a liderança de círculos bíblicos que lançaram as bases da Capela São Pedro, no Povo Novo. Mesmo quando a vida a levou a novos horizontes, como Brasilândia em Mato Grosso do Sul, Laura jamais desligou-se de suas raízes, mantendo Cacequi vivo em seu coração e em suas produções intelectuais. 

O ápice de seu reconhecimento público na terra natal ocorreu em 2018, quando foi homenageada como a primeira mulher patronesse da Feira do Livro de Cacequi. 

Autora de quatro obras publicadas já na maturidade — História de um amor comum (2003), Os estranhos amores de Lili (2011), A fonte da felicidade (2018) e A menina e as curvas do trem (2019) —, ela eternizou a identidade local através da escrita e foi nacionalmente aclamada no prêmio Talentos da Terceira Idade. 

Faleceu em agosto de 2022, deixando um vazio preenchido por uma admiração nostálgica e pelo eco de sua voz, que nunca hesitou em se levantar para defender os injustiçados. 

Quatro anos após sua partida, um movimento legítimo movido pelo afeto filial e pelo desejo de reparação histórica busca perenizar sua memória. Em carta direcionada ao Prefeito Municipal, Edson Luiz Lima Fragoso, solicitei a concessão do nome de Dona Laura dos Santos Dutra a uma das ruas de Cacequi. 

Como um "desgarrado" que volta os olhos e o coração para a terra natal, penso que uma placa com o nome de Dona Laura dos Santos Dutra em uma esquina de Cacequi seria muito mais que uma simples homenagem topográfica. Seria o reencontro definitivo da menina com as suas curvas do trem. 

Uma forma singela e terna de dizer que quem tanto amou e escreveu sobre essa terra, agora, faz parte do seu próprio mapa, uma forma de devolver à comunidade o nome daquela que dedicou sua arte e sua liderança para inscrever Cacequi na eternidade da literatura.

Brasilândia/MS, 27 de outubro de 2026

Um comentário: