quarta-feira, 13 de maio de 2020


Júnior Marceneiro, a arte e a vida
Carlos Alberto dos Santos Dutra.



Tem certos dias em que eu penso em minha gente, e sinto assim todo o meu peito se apertar...

É assim a canção de Vinícius de Moraes e Chico Buarque, que embalou o sonho e rebeldia de uma geração inteira nos anos 1970. 

É assim que muitos se sentem no dia de hoje.

Mesmo aqueles mais distantes ou que vivem a nossa volta, não há como não chorar e lamentar a partida do amigo André Cardamone Júnior, o popular Júnior Marceneiro.

Roda a cortina do tempo e vejo aquele jovem de 25 anos, sempre muito dinâmico ajudando nos preparativos da grande quermesse realizada no bairro onde morava, a Cohab Tomaz de Almeida, em 1989.

Nascido em 21 de outubro de 1962 era um homem de muitas habilidades profissionais, entre elas a marcenaria, um dom que Deus graciosamente lhe ofertara. 

Era o homem certo para todas as ocasiões.

E lá estava o artífice, o artista, o construtor, o marceneiro, sempre solícito a estender a mão para quem precisasse na comunidade que ainda dava seus primeiros passos.

Pai exemplar e dedicado, enquanto ali viveu, era possível vê-lo brincando com os filhos e ensinando-lhes o ofício através das palavras e dos gestos, exemplos que edificaram e floresceram nos seus rebentos.

Homem de aparência simples e de um grande e generoso coração, também se preocupou com a administração de sua cidade engajando-se no campo político como candidato ao cargo de vereador nas eleições de 2004 e de 2012.  

Ah Júnior Marceneiro, o tempo passou e a vida  seguiu seu curso. Mas tu continuaste transformando a madeira bruta em obras de utilidade e uso; lapidando a natureza transformando-a em poesia e arte.

Como aquele mimo, um carrinho de bois talhado em madeira, de forma artesanal que entregaste ao prefeito de Brasilândia em seu gabinete por ocasião da transmissão do cargo, salvo engano, em 2005.

Nos contornos da história tua criatividade e beleza ainda permanecem nas obras que criastes, fazendo história, adornando e dando consistência e calor à vida que não morre...

Vida que experimentamos hoje nos escapar entre os dedos, mas que agora, lá no azul celeste, experimentas vivê-la em plenitude.

E aí me dá uma tristeza no meu peito, feito um despeito de eu não ter como lutar. E eu que não creio, peço a Deus por minha gente, é gente humilde, que vontade de chorar.... 

A canção prossegue arrastando a dor da despedida pelo resto dos nossos dias, até essa tempestade passar. Descanse em paz, amigo Júnior Marceneiro.

Brasilândia, 12 de maio de 2020.
        


sábado, 9 de maio de 2020


Feliz Dia das Mães, mamães atletas
Carlos Alberto dos Santos Dutra



Naquele ano o Dia das Mães foi diferente. Igual aquele nunca tinha acontecido na cidade.
Não. Não estou falando do isolamento social dos dias atuais que fez redobrar o trabalho das mulheres, donas de casa com a dupla e tripla jornada de trabalho, atendendo marido, filhos, casa e profissão, por causa do novo coronavírus.
Falo de um tempo pretérito brando e suave, nostálgico talvez. Falo de um dia na história, que ficou para trás, mas que ainda vive na lembrança de algumas mães e senhoras. E o faço em homenagem a elas nesta data especial.
Aquele dia havia despertado no coração das mulheres algo que somente homens, pais, maridos e filhos, gentis e educados, criativos e poéticos poderiam lhes ofertar. Em que pese as motivações políticas que o evento possa ter, não deixou de ter o seu brilho original.
E lá estavam as mamães: Áurea, dona Jô, Lúcia, Angelina Amorim, Maris, Márcia Amaral, Elizete, Tica, Cida do Doca, Marilza, Maria José e Elizabete Costa, adentrando  o tapete verde do Estádio Municipal Joaquim Cândido da Silva, que se estendia a seus pés.
Mas elas não estavam sós. Ovacionadas por uma torcida vibrante e animada, pisaram firmes no gramado portando o esplendor de suas juventudes, mulheres solteiras, prontas para o embate: Gélia, Cristina, Roseli, Neuza, Maria Aparecida, Ivonete, Eunice, Elizabete, Érika, Sandra, Joelma, Eliane, Patrícia, Andréia, Ana Lúcia e Ângela.
Tratava-se do jogo Mulheres Casadas x Mulheres Solteiras realizado em Brasilândia que ocorria naquele sábado, dia 12 de maio de 1990, promovido pelo Departamento Municipal de Desporto e sua dedicada equipe que organizou aquele jogão de bola, registrou o Jornal de Brasilândia, na época.
E elas entraram em campo todas perfiladas saudando a torcida que compareceu em massa ao estádio. Uma bateria de fogos, bem ao estilo da época, na administração do Prof. José Cândido da Silva, explodiu no ar saudando as queridas mamães pelo seu dia. Motivo de alegria para todos os que se encontravam nas arquibancadas prestigiando o evento.
O jogo, modesta à parte, foi muito bom e engraçado, lembram aqueles que lá estavam na época: só não sorriu quem era banguela ou tinha dente de ouro com medo de ser assaltado, brincou o repórter na ocasião.
A exemplo de anos anteriores, as mulheres Solteiras deram uma goleada no time das mulheres Casadas pelo placar de 4x0. O placar só não foi maior devido a forte marcação defensiva das mamães Tica, dona Jô e Sandra que mostraram toda sua habilidade na zaga.
O jornal não traz maiores detalhes sobre o jogo, mas o que fica para nós, passado 30 anos deste evento, é que as mulheres, sobretudo as mamães, a partir de então, cada vez mais começaram a ter seu espaço garantido em esportes tidos como restrito somente aos homens, como o futebol de campo. Exemplo maior foi o pioneirismo do BRASAC.
E assim, naquele dia Brasilândia viu mamães entrar em campo exercitando naquele espaço lúdico de afirmação, criatividade e sonho, a sua liberdade.
Num tempo ainda eivado de preconceito contra certas atividades exercidas pelas mulheres, aquele Dia das Mães diferente oportunizou a todos reconhecer o valor da mulher.
E lá, nas arquibancadas, cada um do seu jeito, aqueles homens simples de aparência rude puderam, com sua atenção e aplauso, homenagear suas mamães, esposas e filhas. Feliz Dias das Mães, mamães atletas.

Brasilândia/MS, 09 de Maio de 2020.


quarta-feira, 6 de maio de 2020


Ariobaldo Badim pelos Campos do Senhor
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Nem todos os dias são iguais. Dias de sorrir e dias de chorar. Dias de festejar e dias de lembrar. 

Os olhos do observador debruçam-se sobre uma silhueta que, com passos firmes, vai cruzando a pé o centro da cidade. É a mãe, Dorvina Ferreira Oliveira que, ao lado da filha Nadir Carlos, marca o chão desta terra cotidiana com sua história de vida. 

Conquista que orgulharia muito o falecido Ico, seu Andrelino Carlos que lá do alto observa orgulhoso sua gente, seus rebentos. 

No burburinho do trânsito, no contorno da Praça Santa Maria ainda é possível contemplar o passado: o tempo em que o Hotel Avenida, ainda pertencia ao pioneiro Noel Cândido...

Mas seu Andrelino desta vez não está só. Ao seu lado, o filho dileto Ariobaldo Carlos de Oliveira, carinhosamente chamado de Badim, que lhe faz companhia, recém-chegado da viagem que todos nós faremos um dia. 

A família celeste está feliz. Depois de um longo abraço cheio de saudade e lágrimas, olhos nos olhos e já não precisam ser ditas mais palavras, tamanho o encantamento e sintonia. 

E juntos contemplam a cidade a seus pés, sua gente, suas vitórias, em especial, aquelas carregadas de fé e nostalgia.

A primeira lembrança é um momento de rara beleza dos anos 1970 registrado pela observação atenta e cuidadosa da professora Áurea Cândido que lhe oferta uma foto onde o artista, o jovem Badim participa de uma cerimônia religiosa na igreja matriz de Brasilândia representando um dos apóstolos, onde o rapaz se apresenta paramentado em vestes litúrgicas próprias ao lado de colegas e paroquianos.

Num outro momento lá encontramos Badim, já como dedicado músico, perfilado, tocando bumbo na banda – Fanfarra – de Brasilândia, na quadra de esportes do antigo Grupo Escolar Arthur Höffig, no ano de 1978, durante ensaio dos preparativos para o 12º aniversário de emancipação político administrativa da Cidade Esperança...

São momentos de felicidade vividos que só envaidece o pai e o filho lá no alto. E cá na terra, a mãe, a mana Nadir, os irmãos, os parentes e amigos entoam hinos de agradecimento. 

Badim, com os olhos cheios d’água ao olhar aquele filme passando diante de si, sorri de alegria. Depois de tanto sofrimento suportado nos últimos meses, quando a doença lhe corroía as forças, agora, não sentia mais dores, somente o perfume das flores. E se encontra em paz, em boa companhia, a melhor que podia existir.

De súbito, os aplausos de uma torcida agitando bandeiras o desperta para o calor da realidade. E lá está Badim, o atleta, entrando em campo ao lado de Neto Arruda; Eliseu Soares (Bili); Pedrinho; Mauro Alves; Maurílio, Joaquim Polícia, Oseias, Arnaldo, Selê, Nico, Beto entre outros. Alegria maior não há.

Anos dourados do esporte brasilandense vividos pelo Brasilândia Atlético Clube – BAC, o chamado Galo da Fronteira. Sim, Badim carregou nos ombros e nos pés de seus dedicados atletas toda a garra e força do esporte de uma época, para a alegria de uma cidade que dava seus primeiros passos.

Badim com o tempo e a maturidade se tornou um atleta disputado pelos clubes locais que se sucederam. Em 1995, integrado às fileiras da Sociedade Esportiva Brasilandense – SEB, na categoria Master’s, ajudou este time, entre tantas vitórias, a conquistar honroso vice-campeonato pela Liga Três-Lagoense de Desportos, em disputada partida no Estádio Municipal Joaquim Cândido.

Tempos de garra e muito suor para quem usava as pernas e os pés para extravasar o que mandava o coração. A verdadeira paixão pelo futebol de campo que fazia de atletas simples e sem um vintém no bolso enfrentar agremiações feras, a nata da mais fina e original prática do futebol desta época.

E lá estava novamente o nosso saudoso Badim ao lado de Quero-Quero, Frangão, Pascoal, Dorval, João Gaúcho, Roque, Tonhão, Nê, Joaquim, Zé Brito, Beto, Hamilton José, Hamilton Véio, Zé Mendes, Kobayashi, Pedrinho, Oséias, Boni, Florindo, Paulinho Barbosa, Toninho, Eliseu Soares, Jami Doce, Biro-Biro, entre outros, cruzando a bola fatal na linha do gol.

Ah, meu Pai e meus amigos. Foram tempos áureos. Valeu a pena ter vivido e sentir a alegria desses momentos de emoção, algo que meu coração não suporta recordar... 

As imagens continuam rodando ilustrando o caminho percorrido enquanto o atleta se prepara para mais uma vez entrar no gramado... desta vez, pelos campos do Senhor.

A música cadenciada da orquestra e seu bumbo agora eleva aos Céus o espírito deste nosso irmão enquanto ele acena para os que o saúdam numa sinfonia de adeus.

É a vida que segue deixando o seu rastro de saudade. E felicidade por ele ter estado aqui conosco e ter jogado sobre nós lances de alegria e esperança. Descanse em paz Ariobaldo Carlos de Oliveira, o nosso eterno Badim.

Brasilândia/MS, 5 de maio de 2020.


terça-feira, 5 de maio de 2020


Políbio Leal de Freitas, uma vida, um olhar.
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Brasilândia vive tempos sombrios, de temor e insegurança em razão de uma ameaça que nós não vemos, mas a sentimos na alma e no coração. 

Não. Não falo do COVID-19, este Vírus que aos poucos vai ceifando vidas, patrimônio e liberdade, enquanto um que outro irresponsavelmente zomba de sua capacidade e o desafia.

Falo da dor que trespassa nossas vidas neste dia pela perda de um ente querido, entre tantos que todos os dias se apartam de nós.

Conhecido, sobretudo, dos mais antigos, é impossível não lembrar o seu jeito peculiar, sentado ao lado da esposa Glorinha, na Alameda Arthur Höffig proseando com os amigos. E o seu inconfundível chapéu de palha Panamá que ostentava com elegância doméstica.

Sim, hoje, podemos relembrar os bons tempos desde pioneiro, Políbio Leal de Freitas, que chegou a Brasilândia em 1963, antes, portanto, da emancipação da cidade, e que acompanhou de perto os passos iniciais desta comuna. Tocando sua Casa Nova, uma das primeiras lojas que serviram a população que emergia em meio ao cerrado, ao lado de outras, Casa Mendes, Casa Talayeh...

Homem lúcido e de negócios, também possuía visão política tendo militado nas fileiras da antiga ARENA, partido que presidiu nos primeiros anos de existência da Cidade Esperança, firmando-se depois, com o tempo, como fiel representante do comércio e das classes atuantes na vida social e econômica de Brasilândia. Em 1995 encontrava-se filiado ao PSDB onde conquistou adesões significativas para essa sigla e progresso local.

Os ponteiros do relógio do tempo não param e lá o encontramos, ainda jovem, ao lado da esposa, com os olhos rasos d’água: era a sua Marissol, filha e fruto da terra recebendo o grau de cirurgiã dentista abrindo seu consultório dentário. 

Cidade que também viu nascer a filha Maris. Rebentos que aprenderam as primeiras lições na Escola Estadual Adilson Alves da Silva, depois Três Lagoas, e o mundo afora. E que se tornaram no correr dos anos, exemplo e estímulo para os demais brasilandenses, e a maior alegria daquele pai.

Natural de Paranaíba/MS, Políbio Leal de Freitas nasceu em 11 de outubro de 1934, e logo após sua chegada a Brasilândia nutriu amizade sincera com José Francisco Marques Neto, primeiro prefeito de Brasilândia, falecido recentemente, há menos de um mês, contribuindo em muito para a edificação do município que escolheu para construir sua família e escrever a sua história.

Homem engajado das causas sociais e comunitárias, em 2003 constava como sócio fundador da ASSOBRAA, o que honrava a entidade, tendo participado igualmente de outras entidades de cunho benemérito, sempre com lisura e honestidade, mantendo-se sóbrio nas palavras e gigante nas ações.

Para a neta Laís Imada a despedida do avô Políbio é ainda mais dolorosa devido ao momento e circunstâncias em que vivemos, o que não lhe permitia abrir os braços da comunidade para despedir-se dele. Pede orações para que ele descanse em paz.

Da mesma forma a amiga professora Sandra Louzada da Costa, que, sensível, estende os seus sentimentos de dor à amiga Glorinha, esposa de Políbio, pedindo a Deus que a conforte e amenize o seu sofrimento. 

De igual modo, o mesmo Políbio que ontem estendia a palma da mão para receber a Ceia Eucarística, todos os domingos na igreja matriz, hoje, ele deve estar recebendo-A do próprio Senhor Jesus.

Brasilândia 5 de Maio de 2020.

sábado, 25 de abril de 2020



I Remember, Brasilândia!
Carlos Alberto dos Santos Dutra




Hoje é dia de festa. Festa de aniversário. Com carros alegóricos, música, faixas, cores e muita alegria. Brasilândia/MS comemora hoje seu 60º Aniversário...  25 de abril, I remember...

O ano era 1978, e vivia-se a primeira década de Brasilândia após o seu desmembramento de Três Lagoas. Sim Brasilândia, em tua homenagem,          I remember...

Ao tempo dessa emancipação havia quem resistisse em aceitar o fato por se tratar da melhor parte de terras do município de Três Lagoas. De fato, a área que hoje constitui o município de Brasilândia é aquilo que se pode chamar de filé mignon desta região.

Passado o período inicial e logo Brasilândia começou a ensaiar seus primeiros passos, logo se transformando numa comuna cheia de querer, de vontade própria, mercê do valor de suas lideranças, pouco importando as divergências naturais entre elas. Com uma população que superava a casa dos 15.000 habitantes, revelava ainda forte concentração rural, onde apenas 3.000 residiam no perímetro urbano, evidenciava a força da agricultura, ainda emergente.

Seu colégio eleitoral neste ano era superior a 4.500 eleitores, o que revelava um índice de politização bastante alto a considerar a época e o tipo de política coronelista então praticada nestes cerrados. Sob forte influência do Estado de São Paulo, com quem faz limite pelo rio Paraná, possuía nesta época um Cartório de Paz; um banco, o Banco Financial do Mato Grosso, e 46 casas comerciais.

Outra característica ou sintoma da vocação rural de Brasilândia destes tempos primeiros se denunciava no número de escolas. Das 30 escolas do município 26 estavam na zona rural. O número de estudantes matriculados naquele ano era de 1.460 alunos. Naquele momento Brasilândia preparava-se para dar o seu grande salto no que diz respeito ao desenvolvimento. Época em que o município iria receber luz elétrica e eletrificação rural, o seu posto telefônico e uma indústria de muita importância para o município, que era o Laticínio Brasilândia.

O prefeito Adilson Alves da Silva, a Câmara Municipal e os políticos influentes que assessoravam a administração, registrou a imprensa na época buscam tirar todo o proveito desse momento que se apresenta muito favorável para o município. A Administração está empenhada em três outras frentes de trabalho, além das já acima mencionadas: a implantação da cultura do café, a colocação das guias de sarjetas e o término da moderna Praça Santa Maria, cujas obras já se acham em adiantada fase de construção.

Com a eletrificação, pelo sistema originário de Urubupungá, o conjunto de geradores que hoje serve a sede municipal será levado para o Distrito de Xavantina, que assim receberá também a sua iluminação pública. Essa era a imagem de 1978 de Brasilândia, que se destaca, que promove, acompanhando bem os tempos que os primeiros moradores viveram. É a imagem dinâmica de um jovem município que promete muito para o futuro e que por suas especialíssimas condições de riquezas, de posicionamento geográfico e agora de infraestrutura sobe aceleradamente de cotação na corrida que suporta todo o Estado de Mato Grosso na atração de investimentos, ressaltava a Imprensa na época.

Nos carros alegóricos, a Escola, a Indústria nascente, o comércio, a lavoura, a assistência da EMATER, a juventude e o progresso. Todo o esforço de desenvolvimento de um município. Neste dia, a população mostrou-se entusiasmada, vibrando e aplaudindo o desfile de carros alegóricos e a palavra de seus representantes no palanque oficial que foi improvisado na Praça Santa Maria.

A partir das 8 horas o prefeito Adilson Alves da Silva, com sua digníssima esposa, dona Maria José da Silva compareceu no palanque da Praça Santa Maria juntamente com a imprensa e autoridades visitantes. Dar-se-ia o início do desfile escolar, marco inicial das festividades comemorativas da data magna do município. Do programa constava, além do desfile, um churrasco na fazenda Santa Mercedes, de propriedade de Amadeu Demiscki.

Para a parte da tarde o programa apresentava duas partidas de futebol de campo. A primeira mostraria um empate entre os veteranos de Brasilândia e uma equipe secundária local. Na peleja de fundo o esquadrão titular da Cidade Esperança defrontar-se-ia com a equipe da Polícia Militar de Três Lagoas. Para a noite duas importantes atrações: um Concurso de Violeiros (aguardado com grande ansiedade pela população) e o grande baile de aniversário da cidade.

Logo após as 8 horas, conforme o programado deu-se início ao desfile escolar. No palanque postado ao lado da Praça Santa Maria, que se acha em obras de implantação, as autoridades locais e visitantes se colocaram para as homenagens que a Comissão Especial de Aniversário, nomeada pelo prefeito Adilson, havia preparado para o momento de solenidade e civismo.

Presentes, no palanque, achavam-se o prefeito Adilson Alves da Silva, a primeira dama da cidade, dona Maria José da Silva; vice-prefeito Fernando Martins Mendes; presidente da Câmara Municipal, José Cândido da Silva; vereador Donato Ferreira dos Santos; secretário da administração Ângelo Lopes Aguiar; Fernando, gerente do Banco Financial, agência de Brasilândia; presidente do Diretório da ARENA local, Políbio Leal Freitas, morador em Brasilândia desde 1963, e representantes do comércio e de classes atuantes na vida social e econômica de Brasilândia.

Prestigiando o acontecimento compareceram e se fizeram presentes no palanque oficial: Dr. Ramez Tebet, prefeito de Três Lagoas; Akira Otsubo, na época vereador da Câmara Municipal de Três Lagoas; Nadir Pousa, vice-prefeito de Panorama, cidade vizinha do lado paulista; major Lon Guarany de Albuquerque, comandante do 1º/4º RC Moto; capitão Júlio Martins, comandante da 6ª Companhia de Polícia Militar, e representantes da imprensa de Três Lagoas, falada e escrita.

As escolas locais, do Estado e do Município, desfilaram conduzindo faixas e dizeres alusivos ao grande dia, algumas, portando mensagens de boas-vindas aos visitantes e outras tantas saudando suas autoridades, mormente o chefe do Executivo da cidade aniversariante, o acadêmico de direito, Adilson Alves da Silva.

Fizeram um semicírculo e postaram-se à frente do palanque, deixando espaço para o desfile dos carros alegóricos, em número de 11, demonstrativo de um esforço notável para fazer das comemorações natalícias da cidade um acontecimento marcante na memória da população. Bonitos carros, alguns pontificando pela inegável criatividade, mas todos enfim, contribuindo para evidenciar o clima de otimismo que hoje invade a população de Brasilândia, no que respeita ao seu futuro imediato.

Não resta dúvida nenhuma, mínima que seja, de que Brasilândia vive um momento de singular felicidade, quando todos os esforços do jovem prefeito vêm resultando em soluções concretas para problemas tradicionais daquela comunidade.

Todo esse esforço bem sucedido do prefeito Adilson se soma a uma série de desfechos e coincidências, resultando num desaguar de benefícios que se acumulam em favor de um povo trabalhador e de uma terra realmente muito bem dotada, que é Brasilândia, registrou a imprensa.

Terminado o desfile dos carros alegóricos e quando todos já esperavam pelos costumeiros discursos, ansiosos por ouvir a palavra de seus líderes surge debaixo de um som e ritmo característicos, a Banda Marcial Cristo Redentor, um presente do prefeito Ramez Tebet ao povo e autoridades de Brasilândia. A presença da consagrada corporação fez o público inteiro explodir em aplausos, numa demonstração mais uma vez confirmada do prestígio da nossa Banda Marcial. Em frente ao palanque a Banda executou vários números, sempre seguidos de intensa manifestação de apreço pela população, inclusive o Parabéns a você.

Iniciando os pronunciamentos relativos à data que se comemorava falou o prefeito Ramez Tebet, levando a sua homenagem, em nome da Caçula ao povo e autoridades de Brasilândia. Muito aplaudido pelos presentes, o prefeito Ramez Tebet deixou gratíssima impressão em todos. Em seguida falou o prefeito Adilson, agradecendo todos pela colaboração no trabalho realizado a fim de oferecer à cidade uma comemoração digna de seu estágio de comunidade em franco progresso. 

Ao mencionar as obras em construção deixou o compromisso de que no próximo aniversário de Brasilândia o seu povo já poderá comemorá-lo tendo sua luz elétrica, o seu telefone e a sua sonhada Praça Santa Maria. Ao encerrar suas palavras anunciou a candidatura do prefeito Ramez Tebet como representante de Brasilândia na Assembleia Legislativa estadual no novo Estado de Mato Grosso do Sul.

Usou da palavra, após o prefeito Adilson, o Sr. Domingos Cristóvão Ribeiro, proprietário do Supermercado Lisboa, levando uma palavra de confiança na Administração do prefeito Adilson e formulando votos de progresso para Brasilândia, seu comércio e seu povo. Falou, após, o presidente da Câmara Municipal, vereador José Cândido da Silva, reiterando o propósito do Legislativo em continuar facilitando o trabalho do prefeito Adilson no sentido da busca do progresso e do bem-estar da gente urbana e rural. Justificou a ausência de alguns vereadores que foram impossibilitados de comparecer às festividades em andamento. Ao final convidou a todos ali presentes para o aniversário do progressista e querido Distrito de Xavantina, comemorado no dia 22 de maio.

Encerrando, falou o vereador Akira Otsubo, em nome do Legislativo de Três Lagoas. Cumprimentou povo e autoridades de Brasilândia, confirmando suas impressões sobre o promissor futuro daquela terra, aplaudindo a manifestação do prefeito Adilson sobre a candidatura do prefeito de Três Lagoas à Assembleia Legislativa do nosso Estado, pois se trata de um político hábil, de um homem culto e por tudo isso muito capaz de contribuir para a solução dos nossos problemas regionais[i].

Ah, Brasilândia... eu me lembro, você se lembra, nós nos lembramos daqueles tempos em que os pioneiros abriram as estradas que hoje agradecidos trilhamos. 60 anos passados de sua emancipação político administrativa, nesta festa de aniversário, cá estamos nós, entrando com passos firmes em novos tempos, com coragem e determinação, vencendo os desafios e escrevendo uma nova história com a prefeita Márcia Regina do Amaral Schio e sua equipe.

Ainda que na condição de filhos adotivos, muitos aprenderam a amar mais do que tudo esta cidade. Como diz o hino oficial do município: Terra que acolheu a todos, gratidão que só tu deste. Para além dos poderes e honrarias que passam. Sim, Cidade Esperança, podemos dizer com orgulho: tens a nossa confiança, fé e amor! Parabéns Brasilândia.

Brasilândia/MS, 25 de abril de 2025. Publicado originalmente em 25 de abril de 2020, sob o título "Feliz Aniversário Brasilândia!".



[i] - Texto publicado pela Revista Bolsão Matogrossense, Três Lagoas/MS, Ano 01, nº 04, abril, 1978, pág. 15 a 22, e reproduzido no livro História e Memória de Brasilândia, de Carlos Alberto dos Santos Dutra, Vol I- Pioneiros, 1.Ed. Clube de Autores/Edição do Autor, 2019, pág. 42 a 46. Disponível em História e Memória de Brasilândia/MS - Pioneiros, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores. 2ª Edição foi publicado pela Editora Life.


terça-feira, 21 de abril de 2020


José Francisco Marques Neto, a memória e o tempo.
Carlos Alberto dos Santos Dutra



No ano de 2016, ao ser homenageado em vida no município de Brasilândia/MS, que conferiu o nome de José Francisco Marques Neto a uma Unidade Básica de Saúde-UBS construída no bairro Residencial Vale Verde (Lei 2654/2016), foi apresentada aos presentes na cerimônia de inauguração uma biografia do homenageado, o 1º Prefeito de Brasilândia, elaborada pelo então diretor de comunicação da Prefeitura local Alessandro Zioti e a pesquisadora Leila Adelaide Ferreira. O texto abaixo se encontra reproduzido no volume 5 da coleção História e Memória de Brasilândia que se encontra no prelo. É a singela homenagem que prestamos àquele que nos antecipou na caminhada e nos faz agora a gentileza de recebe-la do alto.

José Francisco Marques Neto nascido na cidade de José Bonifácio-SP aos 10 dias do mês de setembro do ano de 1932, é o 4° filho de um total de sete de um casal de colonos. Ainda garoto resolveu separar-se dos seus pais para dar início a sua caminhada, onde, alçou altos voos para atingir seus objetivos. Serviu o Exército brasileiro durante cinco anos, e na ocasião teve a oportunidade de estudar e formar-se em Farmácia pela escola militar. Em 1950 aos 18 anos votou pela primeira vez e já pertencia ao diretório municipal do PSD no estado de Mato Grosso, onde a política já corria pelas suas veias.

Foi eleito vereador por Três Lagoas no ano de 1962 e lutou pelo distrito de Brasilândia, no ano de 1965 onde o distrito se tornou município. Marques Neto como assim é conhecido se candidatou ao cargo de prefeito tendo como vice Gentil Ferreira de Souza, sendo eleito através do voto popular na cidade recém-emancipada, governou no período de 25/04/1965 a 14/09/1966.

Em seu legado deixou a estruturação da escola municipal Arthur Höffig, o campo de aviação e Estádio de Futebol Joaquim Cândido da Silva, além das diversas escolas feitas de madeira entre a cidade e a zona rural que já foram extintas. Deu o início primordial para a urbanização da cidade que até então era totalmente rural.

José Francisco Marques Neto é farmacêutico, bacharel em direito, professor de história e geografia da universidade federal e pecuarista. Não abandonou a política, continua membro do diretório municipal do PSD em Três Lagoas. 

Homenageado em vida pela administração municipal de Brasilândia que conferiu o seu nome a uma Unidade Básica de Saúde local, ao receber a notícia, Marques Neto se sentiu lisonjeado e agraciado com o feito quando se fez presente no dia da inauguração abrilhantando a solenidade e relatando fatos pitorescos da história do município. 

A homenagem, nada mais justa para o homem que pegou um povoado e transformou-o em cidade, explica Irineu de Souza Brito que teve a experiência de entrevistá-lo e ouvir uma peculiar história sobre o nascimento do município de Brasilândia da própria boca deste pioneiro:

Anos atrás, conta o ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e ex-vereador de Brasilândia, tive uma rica conversa com o primeiro prefeito de Brasilândia, José Francisco Marques Neto, que ainda vive na cidade de Três Lagoas. Ele me falou da grande festa da sua posse como prefeito e dos vereadores. Festa linda, com a presença de políticos de todas as regiões do antigo Mato Grosso e diante da população local, que não eram muitos, mas já formava um aglomerado digno de empolgar os discursos dos políticos mais afoitos e emocionados. Só que depois, quando acabou a festança, os visitantes se foram, voltando para suas localidades de origem, deixando a saudades e a poeira na estrada para trás... Foi aí que a ficha caiu, como se diz.

Ficaram em pé, então, no meio da praça [em meio à poeira e à tarde que declinava], o prefeito e os vereadores um olhando para o outro: sem câmara, sem Prefeitura, sem nada. O jeito foi partir para a luta, com a cara e a coragem, para conquistar passo a passo, um local para a instalação do prédio da Câmara Municipal e da Prefeitura, e os respectivos móveis que aos poucos foram ajeitando[i], relatou o prefeito José Francisco Marques Neto ao amigo Irineu Brito.

Cumpriu sua missão, escreveu Ray Santos, ainda em 1999 ao relembrar este pioneiro de Brasilândia. Aqui implementou as primeiras obras instalando o prédio da Prefeitura e trazendo muitos conterrâneos para a cidade que abria as portas para o desafio e novos tempos. A sua família também se radicou em Brasilândia e aqui viveu muitos anos, a exemplo Anésio Marques, Wilson Marques, entre outros. Vai-se o homem, mas suas obras permanecem na memória. Descanse em paz amigo Marques Neto.

Brasilândia/MS, 21.Abr.2020.




[i] - BRITO, Irineu de Souza. Câmara Municipal de Brasilândia: Sua história, ritual legislativo e personagens. TCC apresentado a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul-UEMS, Curso de Administração Pública, Unidade Universitária de Água Clara, 2018, p. 41.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Um endereço chamado Avenida Dona Felicidade


Um endereço chamado Avenida Dona Felicidade

Felicidade Antunes da Silva nasceu na localidade de Villa Espinosa, em Minas Gerais, no dia 20 de abril de 1916. 

Filha de Januário José de Oliveira e Maria Conceição de Jesus, veio com a família para o estado de São Paulo, onde conheceu o baiano Otílio Rodrigues da Silva, com quem se casou na cidade de Iacri, no estado paulista, ali fixando residência e constituindo família.

O casal chegou a Brasilândia nos anos 1950, dedicando-se com afinco no ramo da agricultura e da pecuária, na barranca do rio Verde e Paraná, onde criaram 10 filhos: Pedro Ivo, Joel, Lair, José, Diva, Vilma, Alice, Ernestina, Alvina e Devanir.

Foi nas margens destes rios que os olhos de dona Felicidade viram o progresso pouco a pouco ir chegando naquele lugar, desde a antiga Fazenda Cisalpina até o Iate Clube Rio Verde, quando o esposo, seu Otílio, desceu daquela embarcação e por trilhas e picadas continuou sua viagem a cavalo e se instalou numa posse de vinte alqueires, dos quais dez alqueires era reserva de argila com mais de cinco metros de profundidade.

Foi ali, ao longo dos anos, que ela pode ver, um a um, de seus filhos crescer, moldando o barro, zelando a roça, ordenhando o gado, pescando no rio. Sim é verdade, Felicidade e Otilio escolheram aquele paraíso para viver. Desde que lá plantaram os pés, viveram no sitio denominado Sítio Nossa Senhora da Proteção, próximo ao chamado esgotão, ponto de parada de todo o viajante que por aquela estrada passava.

E lá estava ela, dona Felicidade, verdadeira matriarca, sempre humilde, mas de uma simpatia irradiante que contagiava a todos. Mulher de fé e sempre acolhedora. Recebia a todos de braços abertos como uma verdadeira mãe. Até missas e batizados foram realizados em sua casa na barranca do rio.

Mulher negra e líder de um povo lutador foi exemplo para os filhos e sua comunidade. Quando a barranca começou a agitar-se com a movimentação para retirar a força dos oleiros e ribeirinhos de seu paraíso, talvez para evitar todo aquele sofrimento de ver sua propriedade e pertences serem removidos pelas máquinas a contragosto de todos que lhe eram vizinhos e amigos, os olhos de seu esposo se fecharam. Foi  no dia 7 de junho de 1994 que seu esposo Otilio, de 80 anos, partiu.

Cinco anos mais tarde, foi a vez da viúva, dona Felicidade, deixar a Chácara Paraíso, onde viveu os últimos dias de sua vida, e também partir para o encontro de seu companheiro de luta. Foi no dia 6 de janeiro de 1999, aos 83 anos, que Felicidade Antunes da Silva despediu-se dos filhos, netos, bisnetos e amigos, para sempre.

Homenagear dona Felicidade conferindo o seu nome a uma via pública no Reassentamento Novo Porto João André, é reconhecer a grandeza desta mulher, é manifestar nossa admiração e respeito, e dar oportunidade às gerações futuras de conhecer o nome e o endereço de um lugar, merecidamente chamado Avenida Dona Felicidade.


@Carlos Alberto dos Santos Dutra, 27/11/2019.

Motivados por este artigo, os vereadores Maria Jovelina da Silva Aurinéia de Almeida Halsback, Luiz Tomaz Real Oziel Soares, Alexandre Rodrigues Carlos, Antônio José da Silva Domingos Moreira da Silva, Edson Pereira Costa e Joaquim Martos de Moraes apresentaram Projeto de Lei 08/2020, denominando o nome da avenida principal de acesso ao núcleo urbano no Reassentamento Novo Porto João André, de Avenida Dona Felicidade, em homenagem a senhora Felicidade Antunes da Silva. O Projeto de Lei foi transformado na Lei 2856/20, de 24 de junho de 2020, que foi sancionada pelo prefeito de Brasilândia/MS, Dr. Antônio de Pádua Thiago, o que o autor e a comunidade agradecem.