domingo, 9 de outubro de 2022

 

O menino, o olhar e as lembranças.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

Ah! Como o tempo voa. E as lembranças, de quando em vez, tomam de assalto nossa memória e nos fazem novamente pensar o quanto avançaram os nossos passos no rumo de uma estrada chamada felicidade. E isso muito nos conforta. 

Com certeza, ele não lembra. Era um tempo que meus cabelos ainda eram pretos e longos. Corria o ano dois mil e dois, e havia mudado há pouco para o centro da cidade. Época que tínhamos o hábito salutar de conversar: um vizinho podia visitar o outro sem dificuldade alguma. Uma época onde o celular ainda era uma raridade distante. E a comunicação acontecia tête-à-tête e muito próxima do coração. 

E ele estava lá, com mais ou menos cinco anos de idade, com seus olhinhos negros serelepes ao lado do pai, e a tudo observava. A conversa dos adultos girava em torno de causas judiciais, sociais e políticas; temas de predileção daquelas duas pessoas diferenciadas do restante daquela  comunidade que emergia. 

O bate papo despretensioso e desapaixonado fazia com que o diálogo se estendesse por horas, até o cair da tarde. Às vezes no meio fio da rua, outras vezes na varanda do amplo casarão onde o anfitrião educado recebia o amigo com modéstia e solicitude. 

Homem calmo e dotado de cultura prática no campo que se especializara profissionalmente, vivia naquele lugar há mais tempo, e se permitia discorrer sobre temas da atualidade mostrando não somente a oratória que era possuidor, mas também que sabia ouvir e ponderar suas conclusões com o oponente. 

E em meio essas longas conversas, o que acontecia no mais das vezes na presença da esposa e das filhas ainda pequenas, um par de ouvidos atentos se destacava entre os demais pelo interesse que demonstrava nos assuntos que eram debatidos em cada oportunidade. 

E lá estavam, os olhos do menino, como que por encantamento, fixos sobre o semblante do visitante e seu pai, parecendo vislumbrar uma suposta aura de saber e conteúdo que os unia. Num dado momento, parecia que a criança comparava o cabelo do visitante com o seu, castanho escuro que lhe batia nos ombros. Uma espécie de cumplicidade visual os unia naquele momento. 

Lembro que chegou a expressar algumas palavras na ocasião, falando em tom encabulado sobre aquele homem do cabelo grande, ou coisa parecida. Nesta época, muito apegado ao pai, se mantinha sempre ao lado, por vezes com os braços ao redor de seu pescoço, numa demonstração admirável de carinho e afeto, reveladora da dedicação e respeito que envolvia aquele filho e seu pai. 

Hoje, passados mais de vinte anos, uma fotografia deste menino, postada no Facebook por uma de suas irmãs, me fez lembrar essa passagem, rápida e fugaz que me veio à mente. Lembrança que recupero na gaveta da memória entre os guardados que pavimentam a resiliência do edifício adulto que o menino e também nós construímos. 

Imagem que ainda hoje marca o tempo que passou, e permanece, quiçá, nos sonhos e recordações que edificam e confortam. Sobremaneira naquelas noites que, de tempos em tempos, nos chegam, de súbito, lampejos da alma, em forma de escumas que sossobram sobre nosso travesseiro. 

Para Pedro Galindo Passos (in memoriam) e Gregory, pelo seu aniversário. 

Brasilândia/MS, 2 de outubro de 2022.

FOTOS: Cortesia Cíntia e Ingrid Karoline/Facebook.

sábado, 8 de outubro de 2022

 A barranca e a saudade, na poesia de João Brito de Souza.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

João Brito de Souza é um jovem egresso das lutas do povo sofredor da barranca do rio Paraná. Músico, poeta e militante das causas sociais e trabalhistas é líder comunitário e no ano de 2015 era o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasilândia. Também foi um dos fundadores do Fórum dos Usuários do Sus-FUSUS e da Associação da Mão de Obra Atingida e Moradores Excluídos da Barranca dos Rios Verde e Paraná, entre outras.

Sua poesia ainda hoje reflete suas lutas e seus ideais com um forte sentimento de pertença e respeito a terra em que tem dedicado boa parte de sua vida. Sobre suas poesias e melodias pouco espaço lhe é dado para alcançar círculo maior que uma roda de amigos. Poucas vezes pegou no violão e cantou em público, embora já tenha feito isso em eventos alternativos e não governamentais.

Receber homenagem em vida é uma dádiva reservada a poucos que alcançam esta gentileza. Ainda que em pleno vigor de suas potencialidade intelectuais e físicas, ele se nos apresenta um filete de sua bela produção artística que tomo a liberdade de tirá-la do anonimato e publicá-la no Volume II-Patrimônio, da coleção História e Memória de Brasilândia/MS.

O poema que reproduzo abaixo é um dos que se encontram na citados obra. Chama-se Meio século de Distância e foi redigida em 2014, por João Brito de Souza, cidadão brilhante que conheci ainda na barranca do rio Paraná e em meio as suas andanças pela poeira da estrada e os primeiros acampamentos de lona preta na encruzilhada do Assentamento Santana, Santa Emília e Pedra Bonita, a mais de 30 anos atrás.

Nela o agricultor orgânico e artista, que hoje aniversaria, nos fala de sua inspiração ambiental, de seu engajamento político e o resgate histórico de um tempo que marcou a vida de muitos brasilandenses. E que, através da escrita, inscreve na memória as lembrança daqueles que viveram e seus corações ainda miram as margens do rio Paraná...


PARA OUVIR A POESIA

Pelas curvas da estrada
Sempre existe algum abrigo...

Uma sombra, um olho d’água
Um abraço, um ombro amigo.

Um sorriso, uma palavra
Uma luz lá na distância,

Uma fé inabalável
Dessa cidade esperança...


Capela da gleba seca
As restingas do varjão...

A pesca da piapara
No famoso canaletão.

Aldeia da Cisalpina
Ofaié, povo do mel

Irmãos de sangue guerreiros
Humildes e hospitaleiros

São estrelas em nosso céu.

Da velha estrada do porto
Do iate e Shangrilá

Dos tijolos feitos a mão
Da balsa do Paraná

Lá do Porto João André
Saudoso amigo Chicão

Rude, matuto, polêmico
Humilde de coração...


Quem me dera fosse hoje
Meio século de distância

Duma ponte de madeira
Dum rio Verde tão pujante

Aguapés e jaçanãs
Fauna e flora exuberantes

Dos tuiuiús majestosos
Das arapongas gritantes.


Pelos cantos do caminho
Vão formando outros cordões

Norte, Sul, Leste, Oeste
Esplendor destes rincões

Brazil Land, Arthur Höffig
José Marques, Julião

Que botaram a mão na massa
Cobrindo de orgulho e raça

O nosso humilde torrão...

A história continua
Uma página cada dia

Lutas justas, sonhos utópicos
De desejos e fantasias

Novos atores que semeiam
Esperança, paz e glória

Os que foram e que virão
Estarão no coração

Também em nossa memória.

Brasilândia/MS, 08 de outubro de 2022.
Voz: Prof. Carlito Dutra.



sexta-feira, 7 de outubro de 2022

 

Brasilândia, a Suinocultura e o Progresso

Carlos Alberto dos Santos Dutra




Brasilândia viveu nos dias 9, 10 e 11 de outubro de 2022, seu Suino Brasa Fest, primeiro evento dedicado a promover e exaltar a atividade da Suinocultura que coloca o município na 3ª colocação do Estado na produção de suínos, concentrando, segundo dados do IBGE de 2020, o número de 152.678 cabeças, ocupando o 3º lugar também na produção de matrizes, com 17.998 cabeças.  

O município tem razões de sobra para festejar e, de igual forma, homenagear os pioneiros parceiros desta atividade que cada vez mais se consolida da região, ramo que se transforma em parte integrante e responsável pelo progresso e bem estar econômico dessa comunidade.  

Pode-se dizer que tudo começou quando da visita que o pecuarista Arthur José Höffig Júnior recebeu na fazenda Córrego Azul no dia 5 de junho de 1993 do secretário de agricultura indústria e comércio de Mato Grosso do Sul, Aldayl Heberle; o superintendente estadual do Banco do Brasil, Raimundo Maciel de Oliveira; o deputado estadual Valdomiro Gonçalves; a prefeita de Brasilândia Neuza Paulino Maia; o gerente da agência local do Banco do Brasil, José Carlos Nogueira; o gerente do Banco Bamerindus local, saudoso Valdir Menezes; vereadores e secretários municipais.  

Foi ali, pode-se dizer, em meio àquela concorrida comitiva, que foi lançada a semente daquilo que, depois, transformou-se em ícone da economia local, ficando demonstrado o potencial da família Höffig ocasião em foram solicitados incentivos às autoridades para a implantação no município do projeto integrado de suinocultura, agricultura e fabricação de ração para suínos, entre outras iniciativas. 

Na época, as lideranças locais saíram satisfeitas da fazenda naquele dia confirmando a vocação dos pioneiros que há mais de 40 anos haviam se instalado na região, direcionando a Cidade Esperança no rumo do progresso. Com um investimento de aproximadamente 12 milhões de dólares que seriam repassados em etapas ao projeto pelo Banco do Brasil, contando com recursos do FCO que até aquele momento havia aprovado todos os projetos oriundos do Mato Grosso do Sul, estava patente a demonstração do reconhecimento do empreendedorismo da região. 

Desde então, depois de implantado, o Projeto 10.000 matrizes/leitões, do Grupo Arthur Höfig Jr., cada vez mais foi incentivada e estimulada essa nova alternativa para a economia regional, com a criação e engorda de suínos, o que permitiu ao Grupo alcançar seu objetivo de distribuir riquezas elevando a melhoria de vida dos parceiros.  

Só para se ter uma ideia do progresso desta atividade no município, duas décadas após o lançamento do projeto, o Grupo já contabilizava um plantel de 108.492 cabeças, com uma reprodução de 8.100 matrizes, obtendo um resultado em 2012 em vendas de 195.718 cabeças e 21.623 toneladas de carne vendida, com um número de 93 colaboradores.  

Esta atividade ganhou seu 1º parceiro na cidade, os irmãos Odair e Antônio Franzin, no dia 20 de junho de 1999 quando eles receberam em sua propriedade rural, o Sítio Santa Luzia, a 1ª remessa composta de 810 leitões. Naquela oportunidade, encontrava-se no ato da entrega, o Gerente de Mercado, Miguel Estevam; o Gerente da Granja, Carlos Alberto Brands e o Técnico em suinocultura, Franklin Ribeiro

O Grupo junto com o município conseguiu um convênio, sendo que a Prefeitura, de livre e espontânea vontade, encarregou-se de doar aos primeiros seis parceiros um poço semiartesiano e também a terraplanagem para construção dos barracões, as escavações e abertura das valetas, para canalizar os dejetos dos suínos até as lagoas de decantação, tudo isso em benefício ao produtor rural em parceria com o Grupo Höfig Jr.  

O Jornal de Brasilândia na época, presente ao evento, ouviu alguns dos responsáveis técnicos por esse empreendimento, entre eles, o Gerente de Produção, Carlos Alberto Brands, que disse: (...) esse ano depois de uma série de percalços, nós estamos colocando no segundo parceiro, o primeiro é Silvio Yamaguti, em Três Lagoas, que tem 570 animais alojados e os do Franzin são o segundo parceiro nosso. Estamos hoje colocando aqui 810 animais, esse barracão primeiro era feito para 560 animais, mudou o projeto, alojamos mais animais, investimento do mesmo capital para esses animais. Os suínos estão sendo entregues aos parceiros em média com 56 a 60 dias de idade. Os animais são entregues com uma média de 25/29 quilos. 

O nosso planejamento e a técnica usada, os porcos tem possibilidade de ganhar 830 a 850 gramas por dia e devem sair daqui em torno de 114 a 115 quilos, daqui a 114 dias. No dia 11 de outubro, eles já estarão saindo para o abate. Nós estamos estimando em média, por baixo, não vamos tentar criar uma expectativa muito grande, é em torno de R$ 7,00 (sete reais) por animal instalado, ou seja, ele então lucraria em 800 animais, já calculando certa mortalidade que terá com certeza, ele ganhará R$ 5.600,00 (cinco mil e seiscentos reais) a cada lote, ou seja, a cada 120 dias ele estaria recebendo essa renda. 

O dejeto é uma das coisas que ele vai ter. Não digo de graça. É um subproduto da suinocultura, que não vai ter em dinheiro, mas vai ter seu uso como adubação, poderá ser usado também para alimentação de animais em confinamentos, corte, inclusive de leite, se ele trabalhar separando o líquido do sólido. O sólido ele usará para alimentar outro tipo de animal, e o líquido para fazer irrigação e usar como fertilizante do solo (...). 

A história da Suinocultura brasilandense seguiu em frente com a indicação de novos nomes que se propunham, na época, desenvolver essa atividade, a maior parte deles fixando-se neste ramo da pecuária: Alcides Lopes (Estância Indiana), Edson Hiroji Okamoto (Chácara Nossa Senhora Aparecida), Antônio José Lúcio de Oliveira Costa (fazenda São Cristóvão), Wilson Ferreira de Medeiros (fazenda Liderança), Claudionor Thomé (Sitio Santa Maria I); Josias Severino da Silva (Estância P.D); Marcos Höfig (fazenda Marilena); João e Hilton Renato Hadas (Sítio Herança); Onofre de Souza Oliveira; entre outros mais recentes (...).

...

Este artigo, completo, com nomes, fotografias e o quantitativo da produção desta atividade em seu anos iniciais está disponível no Volume 4-Desenvolvimento, da coleção História e Memória de Brasilândia/MS, ou adquirido no link informado abaixo. É uma singela e graciosa forma de homenagear, desde os pioneiros parceiros desta atividade, até os atuais empreendedores da suinocultura brasilandense. 

 

Brasilândia/MS, 07 de outubro de 2022.


 










Para adquirir (Impresso):

https://clubedeautores.com.br/livro/historia-e-memoria-de-brasilandia-ms-volume-iv-desenvolvimento

 

Fonte: DUTRA, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, volume 4 – Desenvolvimento, Capítulo II – O mundo urbano e rural que nos rodeia, pág. 150-154.

Fotos: Os irmãos Odair e Antônio Franzin, pioneiros da Suinocultura em Brasilândia. Jornal de Brasilândia, 1999; Arthur José Höfig Júnior e autoridades presenciam a assinatura do 1º contrato de parceria firmado com o sr. Odair e Antônio Franzin para o projeto de Suinocultura. Arquivo PMB, 1998; logomarca da 1ª Suíno Brasa Fest, de Brasilândia/MS/2022 (Facebook).

 

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

 Quem tem medo dos inteligentes?

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 



Em tempo de obscurantismos, terraplanismos e satanismos empedernidos, nunca é demais refletir sobre o futuro da cultura brasileira e para onde caminha a inteligência política de seus cidadãos. O texto abaixo recebi de um amigo, pela internet. Diz que é para pensar... E repassar. 

Hoje virou moda receber a informação e rapidamente repassá-la. Das duas, uma: ou estamos com muita pressa, sem tempo para pensar no assunto e, num clique, passamos adiante a bola; ou queremos célere, inundar o mundo a nossa volta com ideias novas que a cada instante surgem e nos motivam a ser cada vez mais... menos inteligentes.  

O fato teria se passado com o célebre político britânico Winston Leonard Spencer Churchill (1874-1965) quando, ainda jovem, acabara de pronunciar seu discurso de estreia na Câmara dos Comuns e foi perguntar a um velho amigo parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembleia de vedetes políticas. 

O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal: Meu jovem, você cometeu um grande erro. Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa. Isso é imperdoável. Devia ter começado um pouco mais na sombra. Devia ter gaguejado um pouco. Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado no mínimo, uns trinta inimigos. O talento assusta, concluiu.  

O jovem que chegara a Deputado aos 25 anos, e seria várias vezes ministro, depois primeiro Lorde do almirantado e finalmente primeiro ministro, como líder do Partido Conservador inglês, protagonista da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial, este historiador, Prêmio Nobel da Literatura em 1953, ouvia ali, nesse tempo pretérito, uma das melhores lições de abismo que aquele velho sábio podia dar ao seu pupilo que recém iniciava a próspera e, ao mesmo tempo, difícil carreira diplomática. 

A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas -- consola-me o amigo desconhecido --, é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência. Isso lá na Inglaterra. O que não diríamos aqui, em terra brasilis.  

Não é demais lembrar a famosa trova do jurisconsulto Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923), contemporâneo de Churchill: Há tantos burros mandando / em homens de inteligência, / que às vezes fico pensando / que burrice é uma ciência

Há de se convir, portanto que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições. Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder. 

Mais que isso: há de se considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar.  

Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas de embusteiros, solertes e trampolineiros; inexpugnáveis à legião dos lúcidos. Dentro desse raciocínio, comparado ao Elogio da Loucura, de Desidérius Erasmus Roterodamus (1469-1536) e seu espírito enciclopédico que tentou definir um humanismo desligado de qualquer polêmica religiosa, pode-se dizer que somos forçados a admitir que uma pessoa precise se fingir de burra se quiser vencer na vida.

Assevera-me o camarada que é pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social. Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas, boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres se fecham como ostras, à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar.  

Eles conhecem bem suas limitações; sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender. É um paradoxo angustiante. Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida. 

O atual confronto de mediocridades presentes na eleição presidencial deste ano é uma demonstração disso. Como diria Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980): finge-te de idiota e terás o céu e a terra...


Brasilândia/MS, 05 de outubro de 2022.


Fonte: Jornal MS Notícias, Bataguassu-MS, em 12 de abril de 2006. In DUTRA, C.A.S. Retalhos do Dia a Dia, Brasilândia/MS, Edição do Autor, 2010, pág. 255s.

Foto: https://www.ibccoaching.com.br/portal/comportamento/politica-voce-quem-faz/


terça-feira, 4 de outubro de 2022

 

Clemente Cardoso Farias e seu Curral do Conselho.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 








A história deste cidadão brasilandense ainda está para ser contada. Sempre alegre, brincalhão e contador de histórias, muitas delas apregoadas como embuste, nunca deixava de encher o ambiente de alegria e encantamento onde se encontrava. Mais do que uma história, há quem diga que ele era mesmo uma lenda viva dos tempos áureos da simplicidade e do contato direto entre os cidadãos na ânsia de resolver os problemas mais simples da convivência humana. 

Clemente Cardoso Farias era assim, e seu jeito e trejeitos foram elementos marcantes de sua personalidade, sobretudo pelo tipo de atividade que desenvolvia na comunidade. Era o responsável pelo recolhimento de animais que nos tempos primeiros da vila Brasilândia andavam soltos pelas ruas e pistas, colocando em risco a vida das pessoas e veículos que por elas transitavam. 

Como funcionário do Departamento municipal de Limpeza Urbana-DMLU, havia criado o tal de Curral do Conselho, local para onde os animais recolhidos por ele eram levados e que depois de um bom conselho dado ao proprietário do animal apreendido, o animal era liberado. Tornou-se figura folclórica na cidade que aos poucos foi se acostumando vê-lo montado em seu cavalo, de posse de todos os arreios e traias necessários à sua atividade, sempre sorridente e acenando para a população. 

De quando em vez, apeava do animal e, sentado numa esquina ou em algum boteco atendendo ao chamado de algum amigo, ficava horas contando causos e mais causos, muitos deles inacreditáveis, mas que alegravam os dias da emergente Cidade Esperança. 

No ano de 1999, o jornalista Ray Santos fotografou-o ao lado de seu instrumento de trabalho, o cavalo Sansão, verdadeira relíquia da qual zelava mais que a si mesmo. 

A expressão Curral do Conselho pode ser desconhecida para muitos. Para o senhor Clemente Cardoso não. Figura simpática e comunicativa era servidor público municipal responsável pelo tal órgão da administração municipal, sendo o encarregado de recolher os animais (bovinos, equinos, muares, caprinos, etc.) soltos nas ruas, e que acabam depredando o patrimônio público e privado, trazendo risco à saúde e aos veículos que trafegam nas vias públicas. Segundo o Código de Postura do município, os animais apreendidos deviam ser removidos para um local apropriado, ali ficando à disposição de seus proprietários. 

Mas seu Clemente até que gostava deste serviço, sendo considerado um exemplo de cidadão. Amado e querido por todos, era um típico cowboy e tinha como parceiro fiel o seu cavalo alazão conhecido por Caboclo do qual somente se apartava quando estava de folga do serviço. De igual modo, o seu traje era o mesmo que vestia diariamente, o que fazia há muitos anos. 

No exercício desta profissão ele confidenciou ao jornalista que havia brigado com muita gente para conseguir tirar os animais das ruas de Brasilândia, inclusive, outros companheiros que tentaram fazer o mesmo: chegou a apanhar de chicote de donos de animais. –Mas comigo não! Comigo as coisas são diferentes e com jeitinho e diálogo conseguimos acabar com o problema em Brasilândia, confidenciou orgulhoso.  

Muito respeitado, gozava de prestigio junto à população brasilandense, inclusive com as autoridades. Passou por vários prefeitos e falava com orgulho do trabalho que realizava. Antigamente a vaca desfilava nos jardins e nas ruas de Brasilândia. Hoje isso não existe, explica com satisfação. –Pergunte para o Maurinho Caitano, ele me ajudou muito e por diversas vezes tinha gente brava querendo bater na gente.  

O repórter pergunta para o senhor Clemente sobre o que ele mais gostava, e ele enfático responde sorrindo: --Da minha muié e das minhas filhas, é claro! Brinca. Nos anos 1998, amigo da então prefeita Marilza do Amaral e de vários vereadores, era comum vê-lo com sua peixeira afiada cortando carne, assando churrasco e servindo a todos com um largo sorriso no rosto, o que lhe foi sempre peculiar.  

Morador antigo da barranca do rio Paraná veio para a zona urbana de Brasilândia há muitos anos e recorda com saudade dos velhos tempos, inclusive das acirradas campanhas políticas que aconteciam especialmente em Panorama/SP do outro lado da margem do rio.  

O jornal menciona também que o nosso personagem lembrava do tempo da chamada 'Capitura' e conta estórias fantásticas da região, e com detalhes, sobre diversos acontecimentos como brigas que envolveram posseiros e políticos poderosos da região.  

Seu Clemente era assim: um homem de muitas estórias e fez história em Brasilândia. Sempre lembrado entre risos, por sua fama de contar lorotas, fábulas e invenções. Diziam os amigos que seu cavalo andava sempre de cabeça baixa, por sentir vergonha das mentiras que seu dono apregoava.  

Nascido em 26 de setembro de 1939 e faleceu esquecido no dia 9 de junho de 2017, três meses antes de completar 78 anos. Um homem simples, do povo, mas que gozava da amizade, carinho e prestígio de um autêntico brasilandense. A este brasilandense e seus familiares, as nossas homenagens póstumas.

Brasilândia/MS, 04 de outubro de 2022.

 












Fonte: História e Memória de Brasilândia/MS - Volume IV – Desenvolvimento. Capítulo 2 – O Mundo Urbano e Rural que nos rodeia, pág. 232-234. 

Foto: Jornal de Brasilândia, 1999; e Jornal Dia a Dia, 1998 / Colorizado por Remini e My Heritage.

Link: Para baixar a versão em PDF do Volume 4 da coleção História e Memória de Brasilândia/MS: https://www.dropbox.com/s/2yfvi3uwsiax1qb/Hist%C3%B3ria%20e%20Mem%C3%B3ria%20de%20Brasil%C3%A2ndia-MS%20V4-Desenvolvimento.pdf?dl=0

 

 

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

 

As eleições, os números e a esperança do PT

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 

Desde as últimas eleições gerais, em 2018, o PT em Brasilândia tem regredido. Falo aqui das estruturas partidárias e suas lideranças que sempre tiveram à frente do partido desde sua fundação nos anos 1980. Não obstante, a militância permanece quase que inalterada, fiel às fileiras do partido que, ao longo dos anos, transformou-se na última trincheira na defesa do trabalhador, de seus direitos e conceitos de vanguarda progressista levada a punho pela esquerda brasileira.

O que nos permite avançar nesta rápida análise são os números obtidos na última eleição ocorrida ontem, dia 2 de outubro, já em 1º turno. Brasilândia computou para o cargo de Presidente, 2.451 votos para o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, ou seja, 39,20% dos brasilandenses votaram na esquerda, contra 3.296 votos (52,85 %) que preferiram o candidato do PL, Jair Messias Bolsonaro, candidato a reeleição. Ao cago máximo da Nação a três-lagoense Simone Tebet (MDB) obteve em Brasilândia apenas 584 votos e Ciro Gomes (PDT) 86 votos

Sem dúvida o reflexo da crise econômica que acarretou na agravamento do custo de vida à níveis insustentáveis, elevação dos preços que geraram fome e miséria, os desacertos e irresponsabilidade sanitária que provocou a morte de milhares de brasileiros, e o quadro sombrio de desvario da atual governança em nível nacional fizeram com que um número elevado de cidadãos buscassem através do voto mudanças.

Tal situação oportunizou aos brasilandenses ver renascer a chama do PT local, capitaneada pela esperança que o candidato Luiz Inácio Lula da Silva passou a representar para o Brasil neste momento. E isso também foi possível de ser percebido nos 555 votos que a candidata a Governador Giselle Marques, do PT obteve em terras Ofaié, contra os 1.807 votos obtidos pelo candidato Eduardo Riedel (PSDB) com 30,46% dos votos; os 1.215 votos do Capitão Contar (PRTB) com 20,48% dos votos; e os 966 votos conseguidos em favor do ex-governador André Puccinelli (MDB) com 15,28% dos votos que ficou de fora do Palácio Guaicuru desta vez.

Outro vitorioso do PT em Brasilândia foi o candidato professor Thiago Botelho (PT), candidato a Senador que obteve 485 votos (8,63% dos votos), superando o festejado Mandetta (União Brasil) com 474 votos, ambos derrotados pela Senadora eleita Tereza Cristina (Progressistas) que obteve mais votos que o candidato a presidente Bolsonaro em Brasilândia: 3.997 votos (71,13%). Juiz Odilon (PSD) foi o 3º mais votado em Brasilândia (658 votos).

Nos demais cargos, para Deputado Federal, o PT elegeu Vander Loubet, que obteve em Brasilândia 248 votos (4,17%), tendo ainda Jaime Teixeira que obteve, pela garra da Profª Maria Inês Anselmo Costa, do Simted, 193 votos, porém não se elegeu. Brasilândia preferiu descarregar maciçamente seus votos nos conhecidos Beto Pereira (PSDB) com 1.812 votos (30,45%); Moka (MDB) com 574 votos; e Fábio Trad (PSD) com 482 votos. Marcos Pollon (PL), com 579 votos, foi a novidade por aqui impulsionado pelo partido de Bolsonaro, entre outros. 

Para a Assembleia Legislativa os grandes vitoriosos pelo PT em Brasilândia foram Amarildo Cruz (217 votos), Zeca do PT (52 votos) e Pedro Kemp (46 votos), tendo sido eleitos no Estado Zeca e Pedro. Em contrapartida Brasilândia manifestou esmagadora preferência regional ao candidato Caravina (PSDB) conferindo-lhe 2.275 votos (38,12%), e Júnior Mochi (MDB) com 451 votos. Entre os nomes que se seguiram e obtiveram votos em Brasilândia foram ainda Márcio Fernandes (MDB), 302 votos, 3º mais votado; Pedrossian Neto (PSD) com 298 votos e Jamilson Name (PSDB) com 222 votos.

Os candidatos às câmaras federal e estadual mais votados em Brasilândia a maioria deles elegeu-se, entretanto, alguns ficaram de fora, isso porque a eleição de âmbito nacional e estadual obedece a princípio da proporcionalidade de representação partidária, conferindo a cada sigla um número de ocupantes determinado para as vagas em sua composição. 

Para um universo de 6.443 eleitores que compareceram às urnas nestas eleições em Brasilândia, o índice de abstenção foi de 31,86% de eleitores que não compareceram às urnas. A soma de nulos, brancos e abstenções representou 34,03% do total de eleitores do município.

Dia 30 de outubro próximo os brasilandenses serão novamente chamados a comparecer às urnas para decidir em segundo turno entre Lula e Bolsonaro, entre Riedel e Contar. Novamente a polarização entre Esquerda e Direita estarão frente a frente. Mais uma oportunidade para o povo demonstrar o discernimento, nessa encruzilhada histórica do Brasil, podendo de uma  vez por todas derrotar o negacionismo, a extrema direita, o obscurantismo e o retrocesso

O PT renascido representa a possibilidade do país resgatar a democracia, combater a desigualdade e a fome, reconstruir políticas públicas, como educação, saúde, segurança e a participação popular, em um país devastado pelos governos Temer e Bolsonaro.

Mas isso somente o povo soberano poderá decidir no dia 30 de outubro próximo.

Brasilândia-MS, 03 de outubro de 2022.

 

Fonte: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2022/10/02/votacao-presidente-brasilandia-ms.htm; e Cf. também https://pt.org.br/artigo-o-pt-tem-a-missao-historica-de-reconstruir-o-brasil/ 

Foto: Imagem símbolo contra o racismo e xenofobia criada pelo artista espanhol Luiso García, a partir da fotografia da ativista sueca Tess Asplud em homenagem ao gesto icônico de desafio contra a marcha fascista em Borlange, no centro da Suécia. Disponível no site do Instituto da Mulher Negra, em https://www.geledes.org.br/tag/tess-asplund/ 12.Mai.2016., acesso em 17.Nov.2020


domingo, 2 de outubro de 2022

 

Parabéns Deputado Estadual Pedro Kemp

Carlos Alberto dos Santos Dutra (Carlito Dutra)


Celebrando tua vitória nesta dura empreitada, em meio a alegria e satisfação de estar ao seu lado, reviro o baú de guardados e lá encontro as palavras que me faltam para homenageá-lo agora. Palavras redigidas há 15 anos, mas que expressam a felicidade que é tua e de todos aqueles que caminharam contigo no mesmo rumo em busca de um novo horizonte. 

Desde há muito te devo uma poesia
Leve, livre e solta...
Mas ao mesmo tempo engajada e comprometida
Homem público que és
Das causas sociais e dos sonhos...
Professor ecologista
Liderança comunitária
Esperança libertária
Da psiquê dessa gente
Que assim de repente,
perde o sentido da vida
Política, existencial, atrevida
Para mostrar no mandato
Dedicado operário,
na luta pelo salário
Justo, e a oportunidade
De dizer sempre a verdade
Mesmo que doa por dentro
Quando, solitário, o rebento
Vê-se cercado de espinhos
Mesmo assim, abre caminho
Desafia toda a ordem
E se lança lado-a-lado
Braços dados, movimento,
Do sem-terra, do indígena
Da mulher, jovem, criança
Os negros e minorias.
E a dança...
A festa desses encontros
De amigos de fé, camaradas
Saudando o companheiro
Deputado pantaneiro
Hoje de aniversário
Guarde este relicário
No coração das lembranças
Quem lhe agradece a estima
E lhe retribui, sem esgrima
Co’a bênção que vem de cima
A amizade e militância
.

Parabéns. Felicidades.

Brasilândia/MS, 02 de outubro de 2022.

 

Fonte: Redigido em 5 de maio de 2007. Publicado em DUTRA, C.A.S. Homenagens. Brasilândia: Clube de Autores, 2011, p. 79.