sábado, 19 de novembro de 2022

 

Feliz Aniversário Yuri Matsunaka

Carlos Alberto dos Santos Dutra




Querida Yuri. 

Hoje estás de aniversário, razão pela qual, desejo-te de todo o coração, já que meus braços não a alcançam, as mais belas flores do mundo. 

Sim, pode parecer piegas, escrevi certa vez, já que vivemos um tempo de tantas dores. Mas, falar de flores nos enobrece; plantar flores ainda é mais digno e poético, pois suas pétalas e perfume atraem vida, pássaros, e borboletas azuis de um novo horizonte.

Os aniversários têm dessas coisas: a capacidade de florir o caminho de nossas vidas. Nos faz rever o que fomos, o que somos, e o que seremos nos dias que nos restam. Sempre olhando para o amanhã. Ainda mais quando chegamos a uma certa idade, onde todo o mais nos é permitido, além de sonhar.

Agora, amiga, perenizaste no tempo a capacidade de amar incontinenti, mesmo que doa. Mas a dor é o arranque para que alcancemos a paz de espírito e alegria necessária para tocar em frente, vencer os obstáculos e deixar-se levar pela arena da vida, mesmo quando a sorte nem sempre nos sorria.

Que este marco, do teu aniversário, por fim, te projete no tempo que se rasga a nossa frente e que nos diz que ainda vale a pena. Cada vez mais sábia e sentindo gosto pelas pequenas grandes causas e lutas. Eis os teus frutos e rebentos...

O que vês lá fora, nem sempre é o que se passa por dentro, é bom lembrar. Razão pela qual envio-te novamente o presente poético Dentro e Fora, de Luan Jessan: 

Por fora, tenho tantos anos que você nem acredita. Por dentro, doze ou menos e me acho mais bonita. 

Por fora, óculos; algumas rugas, gordurinhas, prata nos tintos cabelos. Por dentro sou dourada, alma imaculada, corpo de modelo. 

Por fora em aluviões batem paixões contra o peito. Paixões por versos, pinturas, filosofia e amigos sem despeito. Por dentro, sei me cuidar, vivo a brincar meio sem jeito. 

Não me derrota a tristeza; não me deprime a saudade; não me demoro padecente. 

E é por viver contente, que concluo sem demora: é a menina que vive dentro, que alegra a mulher de fora!

Feliz Aniversário Yuri!

Brasilândia/MS, 19 de novembro de 2022.

Fonte: DUTRA, C.A.S. Homenagens, 2011, pág. 188; Foto: Yuri/Facebook


 

Dia Nacional da Consciência Negra

Carlos Alberto dos Santos Dutra

Voz: Carlito Dutra 


Vem de longe, de além mar

O lamento e as correntes

Antes livres sorridentes

Natureza e atabaque

Minha alma sem sotaque

Pés descalços, indefesos

Sobre o corpo verga o peso

Da injustiça que campeia

Escravidão e peleia

Na ginga e capoeira

Esperança na dianteira

Consciência vai nascendo

Desde Zumbi foi crescendo

Até os anos setenta

Os desafios que enfrenta

A luta dos movimentos

Igualdade racial nos tentos

Negro Unido, homenagem

Cultura ancestral e a coragem

Da mãe África, negritude

Símbolo e força, juventude

Resistência e liberdade

Sua culturalidade

O seu canto e seu valor

Inundar com seu amor

Redutos da sociedade

Visto sempre com maldade

Por homens brancos e ricos

Héteros, cisgêneros, fuxico

Microrrelações de poder

Que escondem prá valer

O privilégio social

Do homem sobre a mulher, afinal

Também outros marginais

A população LGBTQIA +

E os pretos que são maioria

Tudo isso evidencia

Materialismo que o diga

Desigualdade que intriga

E urge ser reparada,

Corrigida, denunciada

Desmistificar a história

Recuperar a memória

Festejar a importância

Protagonismo e a distância

Do tanto é preciso andar

A cabeça levantar

Contra o racismo e a cultura

Buscar uma nova leitura

Do choque e enfrentamento

Consciência, rompimento

Com a subalternidade

Negro como classe, metade

Desconstruir o papel

Na mídia de aluguel,

Sobre o empoderamento

Da força do movimento

Que é fonte de inspiração

Libelo, libertação

Mãos que foram acorrentadas

Mulheres encarceradas

Terceira maior do mundo

E o coração bate fundo

Saber que elas são pretas

Jovens, com filhos, eta!

Crimes leves cometidos

Sem violência, admitido...


Neste dia dedicado

Da consciência lembrado

Pelos negros, excluídos

Que a voz chegue aos ouvidos

De todos os povos da terra

Tal qual um grito de guerra

Do pioneiro de Palmares

Força às lutas populares

Das mulheres lá na frente

Parir novos combatentes

Por onde quer que andares...

 

Brasilândia/MS, 20 de novembro de 2022

sábado, 12 de novembro de 2022

 

Homenagem ao Padre Lourenço Biernaski
Carlos Alberto dos Santos Dutra



1-Amigos aqui presentes
Com licença vou chegando
E a todos vou saudando
Em especial aos confrades
Irmãos, amigos do Padre
Lourenço, o missionário
Homem devoto ao rosário
Curtido na fé, pescador
Dedicado professor
Dinâmico pastoralista
Pároco e catequista
Que hoje é homenageado
Nestes versos aprumados
Que lhe faz o pajador.

2-Mas prá falar desse homem
É preciso ter ciência
E lá está ele na docência
Com seus livros e revistas
Assistente aos cursilhistas
Atencioso com as pessoas
A comunidade abençoa
No retiro é pregador
Pai Abraão educador
Ilustre e admirado
Foi até homenageado
Prêmio João Paulo Segundo
Exemplo para todo mundo
Secretário provincial
Conselheiro espiritual
Esse padre é engajado.

3-E não é lá por acaso
Oitenta e cinco anos de vida
Sempre disposto na lida
Parido de um lar cristão
Parente de padre, bispo, irmão
Até prima religiosa
Filho de mãe amorosa
Dos diáconos, professor
Gosta de ler com amor
E ainda dirige carro
Cachimbo, em vez de cigarro
E um golinho de conhaque
Palestrante sem sotaque
Primoroso arquivista
De óculos, suplanta a vista
Padre Lourenço é um craque.

4-Sessenta e um anos de padre
Trilhados com humildade
Homem do campo e cidade
De arquivos e coração
De conferência e sermão
Nunca lhe assustou a morte
Abençoado pela sorte
Nos seus caminhos trilhados
Sinta-se, pois abraçado
Por toda a congregação
Por cada um dos irmãos
Que lhe devotam respeito
E pedem a Deus o direito
De vê-lo feliz neste dia
Com pitadas de alegria
Sempre feliz, satisfeito.

5-Pro arremate eu peço
Desculpa pela linguagem
Pois não lhe falta coragem
Padre Biernaski gaudério
Que nunca saiu do sério
Peleias do mundo afora
Despassito, sem demora
Sabedoria ilumina
Conquistada na batina
E elevada nos altares
Teus amigos aos milhares
Ó querido Vicentino
Que Deus lhe deu o destino
Ser ordenado na França
Quando selou a aliança
Repontando o itinerário
Com Maria, o legionário
Apostolado, oração
Das Irmãs foi capelão
Vigário cooperador
Do polonês tradutor
É o Padre da Missão!


De Brasilândia-MS para o confrade Padre Lauri Vital Bósio, CM. 
Curitiba-PR, 13 de maio de 2015. Cf. Também a entrevista do Padre Lourenço Biernaski por ocasião de seu 65º aniversário de ordenação em 2019 em https://youtu.be/OS4xnM57cbg  

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

 À Mãe Helena Franckini com carinho.

Carlos Alberto dos Santos Dutra



A vida sempre nos enche de alegria onde quer que andemos. Desde a nossa infância inúmeros gestos de carinho e pequenos cuidados para nós foram desprendidos, às vezes, por ilustres desconhecidos. Depois, crescemos. E durante a juventude também não faltou quem nos estendesse a mão e nos dispensasse um abraço de acolhida nos aninhando em sua concha.

No curso de minha vida, desde que minha mãe Laura, que ainda ontem nos deixou, me lançou no mundo, meus caminhos foram pontilhados de amigos e de modo especial de mães que sempre me dedicaram carinho e amparo.

Aquariana generosa soube dona Laura educar seus filhos tornando-os homens em conexão com o seu tempo. E sensíveis aos apelos do coração e sentimentos daqueles que se encontram a nossa volta.

Primeiro foi minha avó Maria que já no meu primeiro ano de vida, entre fraldas, me carregou de trem até a estação ferroviária de Entroncamento onde meu avô, seu Santos, era agente: ela foi minha segunda mãe.

Depois, foi a lendária tia Nelci, minha mãe rural, que me ensinou os segredos da vida e a paciência do campo. A tia Laureci, embora jovem, no meu tempo de criança, ela me tornou confidente de seus primeiros madrigais, completando o círculo de afeto que circundou minha infância.

Sempre fui uma criança abençoada. Depois de jovem, já no quartel militar, a mãe Albertina e sua simplicidade acolhendo-me num quartinho em sua casa e me fazendo não desanimar e a suportar as agruras do meu período verde oliva lá pelas bandas do rio Ibirapuitã, no Alegrete.

Por fim, já maduro, a mãe Helena nesta trilha que me levou à Pelotas e me fez descobrir os segredos do mundo, desde a filosofia da universidade ao engraxar as mãos no serviço braçal, me aproximando da terra e dos valores humanos da solidariedade para além das aparências.

E lá se encontrava o carrinho dormitório da Rede Ferroviária Federal, agora instalado naquela cidade tendo como local o recinto dos trilhos, junto a oficina e depósito, os dormentes, troles e EPIs dos trabalhadores que reformavam bueiros e pontes empunhando pesados arrebentadores e o solavanco das marretas.

Nas horas de descanso, os olhos daquele jovem, de quando em vez repousavam sobre uma cerca florida que fazia divisa entre aqueles vagões e o fundo de pátios dos moradores vizinhos.

E lá estava ela: cabelos levemente ondulados, aos poucos embranquecendo, sempre às voltas com a lida da casa. Mulher dinâmica era o orgulho da família e a alegria dos vizinhos e amigos. Estava sempre disposta a preparar pratos especiais da comida italiana, berço de seus antepassados.

Seu esposo, seu Daniel, também ferroviário, depois de muito trabalhar e garantir o sustento da família, depois de ter andado por outros depósitos e oficinas da Rede, já aposentado, ainda mantinha o vigor e a regência da casa.

Ao lado dos filhos, Caco, Tide, Cláu e Leo, aquela família ofereceu-se inteira a mim, como um ninho de acolhida amenizando a saudade de um tempo que ficara para trás na distante Cacequi.

Os dias foram passando e eis que amizade brotou cheia de laços de afeto e respeito, entre aquela senhora e aquele jovem que passou a ser chamado o filho preto, sentindo-se querido e abraçado.

Impossível desvencilhar-se quando o carinho e as lembranças são a base de uma amizade sólida e verdadeira. Impossível aquele jovem ter conseguido avançar nos seus estudos e progresso profissional, não fosse a atenção e o zelo daquela mãe generosa chamada Helena.

Sempre rodeada de flores, se esmerando para manter o jardim bonito e perfeito, ela era o centro das atenções. Mesmo quando os filhos aos poucos, um a um, foram deixando aquele casarão de madeira que mais parecia um castelo de sonhos e realidade de dias felizes, a aura e o perfume de vida ali permanecia.

Quando seu Daniel cumpriu o seu tempo e os anjos vieram buscá-lo, permaneceu ela firme no manejo do barco da casa, sempre com o olhar cumprido para os filhos e netos que de quando em vez chegavam, e também aqueles que lhe eram ausentes.

Entre eles, cá estava o filho preto, frequentando novos lugares, novos rumos, por terras estranhas, entre índios, sem-terra e capelas, com olhar espichado para as terras do Rio Grande e aquele amor materno pelo torrão natal que se negava morrer.

Sempre cheio de desculpas, nunca arrumou tempo para estar de novo ao lado daquela por quem seu coração ainda hoje reclama. Mensagens, telefonemas, palavras de estimulo à amiga, filha cuidadora Cláu a quem coube a nobre tarefa de ficar ao lado da mãe até os últimos momentos, foram os últimos gestos de aproximação.

Momento que hoje invade a alma deste filho ausente na lembrança do último adeus; irmão que chora com os demais e que, sob empréstimo, dividiram comigo o carinho nesta despedida de dor desta senhora.

E lá estava ela -- dona Loci era o seu verdadeiro nome --, sempre com um sorriso maroto no rosto, mesmo que esquecida de tudo, no alto de seus 91 anos, pela força da idade e da doença que lhe embaralhava as lembranças, demonstrava em silêncio ainda tudo recordar.

Óh, mãe Helena, sábio é o nosso Deus que a inspirou e preparou o caminho desta longa e lenta despedida. Óh, como dói senti-la desprendendo-se aos poucos de todos que se encontram a sua volta, distante e perto.

Das cinco mães de coração que Deus me deu, somente aquela que me deu a luz, lá numa pequena casinha de madeira à luz de lampião na minha terra natal, permaneceu ao meu lado até o dia 21 de agosto último. Uma a uma foram partindo. De certa forma dona Laura, lá no céu, há de sentir-se agradecida pelo carinho desprendido por todas essas mães ao seu filho primogênito itinerante pelo mundo.

E faz valer a sentença que ela, como mãe, cunhou em nossos corações desde a nossa infância: Quem meu filho beija, minha boca adoça. Só tenho a agradecer e pedir a Deus por ela. Obrigado mãe Laura. Obrigado mãe Helena de minhas ternas e eternas recordações.



Brasilândia/MS, 9 de novembro de 2021/2022.

 

sábado, 5 de novembro de 2022

 O brilho e a alegria no rosto de uma pioneira feliz.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 Aquilo é sagrado. Toda a viagem que ela faz, sempre traz uma lembrancinha. Em especial quando visita, além mar, a flor do lácio, e lá vem ela com um sorriso no rosto nos ofertando um mimo, um regalo: uma medalhinha, uma relíquia com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. Essa é sua marca registrada. Esse é o seu lado mais íntimo que transborda nos seus gestos e cuidados revelando a formação prestimosa e culta que recebeu esta elegante senhora. 

Isabel Ferrer Vicente sempre foi assim, desde o dia 18 de maio de 1940 quando nasceu, o mundo ela o pintou de azul e rosa. Mas esta preciosidade e seus dons só desabrocharam com o tempo quando a natureza a dotou de uma beleza impar, logo que deixou a sua terra natal Araxans, a sua mãe Maria Navarro e o pai João Ferrer. 

Nascida em uma família de quatro irmãos: Sebastião, Aparecido, Maria e Sonia, a jovem Isabel herdou do pai, que veio da Argentina e a mãe, natural de Araxans, distrito de Presidente Bernardes, a disposição para o trabalho com o espírito que somente os pioneiros aperfeiçoam. Ainda moça trabalhou em casa de família e depois, no Hospital de Presidente Prudente. Foi nesta cidade que Isabel, no ano de 1964, conheceu o jovem Antônio Coelho Vicente com quem se casou no dia 2 de janeiro de 1965. 

Tão logo chegou a Brasilândia, recém casada, o casal enfrentou todas as dificuldades inerentes ao desafio dos pequenos povoados: falta de energia elétrica, falta de água encanada, as distâncias e a má condição das estradas. Mas logo acostumou-se ao lugar e logo inseriu-se na vida social, econômica e religiosa do município que naquele ano havia se emancipado. E participou ativamente na construção dos rumos da Cidade Esperança que despertava. 

Embora tenha estudado somente até o quarto ano revelou-se ativa coordenadora de atividades sociais e de liderança na comunidade, participando de comissões, pastorais e eventos promovidos pela Igreja Matriz, desde o tempo das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado que dirigiam os trabalhos religiosos após a criação da Paróquia Cristo Bom Pastor no ano de 1972. 

Devota de Santa Terezinha, até hoje ela sente saudade daquelas irmãs pioneiras e o trabalho de catequese e reuniões que realizavam. Ao lado do esposo, que participou como tesoureiro da 1º Comissão Paroquial instalada por Dom Antônio Barbosa, dona Isabel participou com obstinada dedicação à vida da paróquia recém-criada. 

Outra participação, pouco lembrada, de dona Isabel, que contribuiu para o fortalecimento das instituições sociais e trabalhistas no município, foi sua passagem pelo Sindicado Rural de Brasilândia-SRB em 1980, quando a primeira diretoria, sob a presidência do patriarca Artur Höffig, elegeu a cidadã Isabel Ferrer Vicente para o cargo de Conselho Fiscal da entidade, ao lado de Abdias Pacheco dos Santos e Patrocínio de Souza Marinho.  

No seu histórico de vida, dona Isabel colecionou admiração e afeto de muita gente, em especial de seus dois filhos: Ezequiel Vicente e Raquel Vicente da Silva. E dos três netos: Oton Cano Vicente, Geovana Vicente da Silva e Rafaela Vicente da Silva que adoram esta avó moderna, culta, viajada e sorridente. 

Na verdade, essa simpática senhora, no vigor de seus 82 anos de juventude, até hoje, não revela um traço sequer de tristeza, irradiando sempre o brilho e a alegria de uma pioneira feliz. Otimista com a vida, lá está ela: esteio da casa e da família, driblando os revezes e olhando sempre em frente.

Dona Isabel, sim, tem muito a comemorar, e a família, muito a agradecer. Ela, por demonstrar sempre estar de bem com a vida; e os filhos, netos e amigos, pela graça de poder abraçá-la e agradecer o muito que ela faz. Em meio ao sorriso e sua habilidade de fazer crochê e bordado com maestria, este é o lema daquela a quem hoje homenageamos: viver! 

Com certeza, dona Isabel Ferrer Vicente está correta ao dizer: o importante é viver bem e com alegria, junto da família e daqueles que nos querem bem. Parabéns bela e sábia senhora. Muitas felicidades para esta joia preciosa!

 Brasilândia/MS, 05 de novembro de 2022.

Fonte: Com informações fornecidas pela filha Raquel Vicente da Silva. Fotos: Raquel Vicente da Silva, 2022; Eliazel Paes de Oliveira (in memoriam), 1985.














sexta-feira, 4 de novembro de 2022

 

Antenor Fonseca: história e memória de um fundador.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 










Os antigos quando partem sempre deixam marcas, deixam lembranças, mesmo que severas, porém não menos dignas de despertar em nós, saudade. Seja pelos laços de sangue existentes, seja pelos laços da amizade que despertou em nós e nutriu. A história deste senhor, pelo que fez e representou para o surgimento desta vila que se tornou cidade, merece, sem dúvida, o reconhecimento e as honrarias da história.

Antenor Fonseca nasceu no dia 2 de maio de 1912 e faleceu no dia 5 de agosto de 1998, aos 86 anos de idade. Era natural da antiga Xavantina, hoje Santa Rita do Pardo, extinto distrito de Três Lagoas. Ele casou com a senhora Rosa Nicácio Fonseca, nascida em 16 de setembro de 1922, em Terenos, comarca de Campo Grande, no dia 23 de setembro de 1938. Ele com 26 anos e ela com 16 anos.

O casamento deu-se perante o juiz José Carlos de Souza, no Distrito de Paz de Garcias, no então município e comarca de Três Lagoas. Ele, filho de Israel Augusto da Fonseca e Maria Cândida da Fonseca, e ela filha de José Nicácio e Antônia Inocência.

O casal constituiu os seguintes filhos: José Jurandir, Tarcisio, Rosa Aparecida e os saudosos Valdir, Aparecido e Eunice. Sobre a história deste esteio de fundação do município, a jornalista Patrícia Acunha conta que Antenor Fonseca parou em nossa cidade por acaso.

Talvez, se não fosse o emprego que ele arranjara com o então pecuarista e fazendeiro Arthur Höffig, Brasilândia teria sido fundada por outras pessoas, observa a jovem escritora. Embora tenha nascido em Xavantina, o menino xavantinense cresceu mesmo foi em Arapuá, sendo lá que conheceu Rosa Nicácio, com quem se casou.

O jovem virou homem e junto com sua esposa resolveram morar nas terras até então desconhecidas por muitos, no final da década de 1950. Seus familiares contam que Antenor foi um dos primeiros a chegar ao local, portanto fundador do povoado. Boa parte de sua vida foi vivida nas fazendas, sendo que em muitas delas trabalhou como administrador.

A fazenda Boa Esperança foi a mais importante delas. Sempre trabalhou no que mais gostava: no ramo da pecuária. A família lembra que ele era uma pessoa bastante reservada e também muito sistemática, pois nunca mudava de ideia por nada. Se para ele pau era pedra, então tinha que ser, de fato, pedra.

Na década de 1990, já aposentado, mudou-se para o centro da cidade de Brasilândia fixando sua residência próxima a Escola Estadual Adilson Alves da Silva. Uma pessoa que até antes era destemida, respeitada por todos, no final de sua vida já tinha sido esquecido por muitos, escreveu a jornalista e escritora brasilandense.

Com o falecimento de Antenor Fonseca junto com ele a cidade perdeu boa parte de sua história. Ele, que foi um dos primeiros homens de confiança da família Höffig nos seus longos 40 anos de funcionário dedicado à família fundadora da cidade tendo sido gerente geral da fazenda Boa Esperança, até hoje é lembrado.

Seu filho mais velho, José, lembrou quando, em 1959, seu pai foi designado para abrir e também gerenciar a fazenda Fátima. O que causa orgulho a extensa família saber que seu Antenor foi o verdadeiro desbravador do sertão brasilandense. Em meio aos causos e façanhas dos mais antigos desta região, populares contam que para defender o gado do patrão ele chegou a matar mais de 80 onças, animais que impediam o progresso pecuarista.

Antenor deve ter ido contente para o túmulo, por ter sido uma das poucas pessoas homenageadas em vida deste lugar, escreveu o Jornal de Brasilândia. Antes de falecer havia sido condecorado tendo recebido uma rua o seu nome em homenagem ao que realizou quando trabalhou nas fazendas Sant’Ana, Rio Verde, Califórnia (Izordino Ferreira) e por último na fazenda Perua (Sebastião Mundin), entre tantas.

O fundador foi velado no salão comunitário da AMATA, no Conjunto Habitacional Thomaz de Almeida, bairro onde passou seus últimos dias, e logo depois, sepultado no campo santo local. Sua lembrança e memória, entretanto, há de permanecer para sempre nos anais da história de Brasilândia.

 

Brasilândia/MS, 04 de novembro de 2022.

 

Fonte: ACUNHA, Patrícia. Conhecendo a minha rua. Brasilândia: Criativa Print, 2009, p. 46-47. Também em DUTRA, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. 1-Pioneiros, Brasilândia, Edição do Autor, 2020, pág. 163-164.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

 

Seu Gil: Homens ilustres desta terra também merecem homenagens.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 


Gilvaes de Almeida Rodrigues, o popular seu Gil, como era conhecido, nasceu no dia 3 de outubro de 1931 na cidade de Avaí, estado de São Paulo. Era filho de Manoel Rodrigues Costa Ferreira e Francisca Theodora de Almeida. Filho de uma família simples formada por cinco irmãos, dividiu com os demais, Rubens, Iolanda, Tonhão e Irene, uma infância e convivência feliz. 

Na sua cidade, o jovem Gil, começou cedo a trabalhar. Inicialmente como servente, depois, balconista. Sua filha, a professora Mirtes Almeida, lembra que a primeira empresa que ele trabalhou foi Ângelo Benetti e Irmãos. Iniciou no dia 30 de janeiro de 1959, observa ela com orgulho do pai com sua carteira de trabalho na mão. 

Chegou a Brasilândia sete anos após a emancipação político administrativa do município, no ano de 1972. Dois anos depois, em 1º de junho de 1974, já ocupava o cargo de gerente no ramo de Posto de Gasolina, Óleos e Lubrificantes, Peças e Assessórios, no então Mato Grosso, para onde a empresa o havia transferido, assumindo uma de suas filiais. 

Depois de trabalhar ainda um ano, entre agosto de 1980 e junho de 1981, na firma Cavalli Cia Ltda, desligou-se da mesma e abriu o seu próprio negócio. Consta nos registros da Receita Federal que em setembro de 1980 ele abriu o estabelecimento Bar Continental, e depois, já em definitivo, dedicou-se às atividades da empresa Comércio de Auto Peças São Cristóvão, e a comércio varejista de gás, com o Depósito de Gás, da Liquigás, localizado na antiga Avenida Panorama, nº 798, no centro de Brasilândia.  

Homem lúcido e dinâmico, neste período também se dedicou à exploração da rede leiteira do município, realizando o transporte de leite produzido nos sítios e fazendas através de uma Linha de Leite, para onde transportava o produto recolhido para a antiga empresa, o Laticínio de Brasilândia, que existia na época, do saudoso e popular, senhor Luiz do Laticínio.  

Seu Gilvaes era um amante da leitura e de fino trato. Era um homem que escondia a sua sabedoria, sendo que poucos o conheciam a fundo. Participante ativo da vida social da cidade destacava-se como um mentor e conselheiro dos demais. Razão pela qual era convidado para participar das instituições e entidades, como a Associação Atlética Brasilandense-AAB, entre outras que ajudaram o fortalecimento do município que ainda erguia nestes tempos primeiros suas hostes e horizontes.  

No âmbito da política, filiado ao PTB, foi candidato a vereador no ano de 1988, não se elegendo. Também participou nas eleições de 1992, por este mesmo partido, como candidato a Vice-Prefeito ao lado da candidata Prof.ª Sandra Aparecida Louzada da Costa, ano em que foi eleita a prefeita Neuza Paulino Maia. Depois de uma rápida passada ainda pelo PSDB no ano de 1999, aposentou-se do trabalho e da política, não sendo esta sua verdadeira vocação, homem inteligente que era.  

Ao lado de dona Emilia Bichoff Rodrigues, com quem teve cinco filhos – Miriam, Mirtes, Merina, Mary e Marcos --, construiu sua vida com simplicidade, dignidade e respeito. Casal participativo também na vida religiosa da comarca de emergia, nos primeiros anos de existência da Paróquia Cristo Bom Pastor, o casal atuou de forma decisiva ajudando a comunidade católica nas festividades e promoções realizadas, desde o tempo das Irmãs Missionárias, ele como presidente do Conselho Paroquial, até depois da chegada do padre Lauri Vital Bósio.  

Antes do seu falecimento, que ocorreu na cidade de Tupi Paulista/SP, em seis de janeiro de 2016, o autor deste artigo teve uma experiência singular com esse pioneiro de Brasilândia que depois de 1991, já aposentado, teve tempo para desfrutar a beleza e a paisagem da vida que o cercava. Encontrava-se o seu Gil, ali sentado num degrau da Praça Santa Maria observando os taxi e caminhões de frete que por ali estacionavam.  

O dia estava radiante e era pela manhã. Ao passar por ele, eis que o cumprimento e sento ao seu lado em silêncio. Observo que ele tinha um livro nas mãos, um livro de minha autoria que há alguns anos havia lançado em Brasilândia. Logo ele me diz: eu leio tudo o que você escreve, até os jornais. E apreciava. O que me gratificou muito naquele momento. E logo nos alongamos na conversa e ele começou a me contar outras histórias, uma atrás da outra.  

E eu ali, encantado, sem gravador, querendo tudo anotar. O ruído da rua, os transeuntes, a sua voz moderada, e aos poucos fui vendo fio daquelas histórias ir se perdendo e eu impotente sem ter muito que fazer, a não ser ouvir. A tarde anunciava que o tempo de partir havia chegado. Despeço-me daquele homem lá no ano de 2015, para reencontrá-lo, agora, anos depois, através da narrativa de sua filha, professora Mirtes, que revive também em silêncio a saudade. O que nos resta lamentar e agradecer prestando-lhe essa tardia homenagem. 

Brasilândia/MS, 2 de novembro de 2022.


Foto: Arquivo José Cândido da Silva, 2015). Fonte: DUTRA, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Volume 1-Pioneiros, 2. Ed. Brasilândia/MS, Edição do Autor, 2020, pág. 190-191.