quarta-feira, 31 de julho de 2019

A Suinocultura e os Licenciamentos Ambientais


A suinocultura e os licenciamentos ambientais.
Carlos Alberto dos Santos Dutra.


A manifestação ruidosa da comunidade urbana do reassentamento Novo Porto João André, ocorrida dias atrás pelas ruas da cidade, desnudou uma questão que mais cedo ou mais tarde o município teria que enfrentar, uma vez que, cada vez mais, o cidadão tem acesso às informações e deseja decidir sobre os destinos de sua cidade, seu desenvolvimento, e aplicação dos recursos.

Para tanto o município conta, como sempre contou, com seu tradicional arcabouço jurídico. Acontece que na maioria das vezes, a comunidade e o próprio poder público desconhece o conteúdo e o alcance deste aparato legislativo. E tampouco interage com o povo sobre as decisões que tem tomado. 

No caso específico dos licenciamentos ambientais, sobretudo dos projetos de suinocultura, atividade que há vinte anos vem fomentando a economia de Brasilândia, em regime de parceria e consórcio com os produtores rurais, cabe aqui um dedinho de prosa e atenção sobre este assunto intocado.

Recordemos que os primeiros projetos de suinocultura iniciaram nos anos 1994 pelo Grupo Arthur Hofig e que deram impulso significativo na economia do município.  Duas décadas depois, o Grupo AH possuía um plantel de 108.492 cabeças, com uma reprodução de 8.100 matrizes, obtendo um resultado em 2012, em vendas, de 195.718 cabeças e 21.623 toneladas de carne vendida, com um número de 93 colaboradores.

De lá para cá o pioneirismo da suinocultura cada vez mais foi incentivado e estimulado como uma nova alternativa para a economia da região gerando emprego e renda para a comunidade, o que garantiu àquela empresa alcançar seu objetivo de distribuir riquezas elevando a melhoria de vida dos parceiros.

E os benefícios para Brasilândia logo vieram. Os mais antigos hão de recordar dos pioneiros nesta atividade. Um deles, o primeiro parceiro na cidade a implantar o projeto, foi a família Franzin que no dia 20 de junho de 1999 recebeu em sua propriedade rural, o Sítio Santa Luzia, a primeira remessa composta de 810 leitões. Um dia histórico, um marco na suinocultura de Brasilândia.

O livro “História e Memória de Brasilândia” (que estou escrevendo) registra que naquela oportunidade, encontrava-se no ato da entrega, o Gerente de Mercado, Miguel Estevam; o Gerente da Granja, Carlos Alberto Brands e o Técnico em Suinocultura, Franklin Ribeiro.

A empresa, junto com o município conseguiu um convênio onde a Prefeitura na época, de livre e espontânea vontade, encarregou-se de doar aos primeiros seis parceiros do projeto um poço semi-artesiano e também a terraplanagem para construção dos barracões, as escavações e abertura das valetas, para canalizar os dejetos dos suínos até as lagoas de decantação, tudo isso em benefício ao produtor rural em parceria com o Grupo Hofig Jr.

Tudo isso abriu caminho para outros produtores que vieram depois e também se dedicaram a exploração da suinocultura agregando valor à atividade agropecuária de Brasilândia, o que conferiu ao município status entre os dez maiores produtores de suíno do Estado. Seus nomes e sua historia deixarei para revelar àqueles que se dispuser a adquirir o livro que se encontra no prelo. Ficou patente, assim, a importância inconteste desse ramo de atividade no incremento da economia do município.

Em virtude do impacto ambiental, e das já conhecidas complicações decorrentes da coexistência e proximidade desta atividade com unidades residenciais, esta nova realidade exigiu do município debruçar-se sobre a parca legislação que possuía e a necessidade de disciplinar a implantação destes projetos na proximidade da zona urbano, haja vista que muitos dos produtores interessados em aderir à suinocultura eram sitiantes ou moradores na região periurbana do município.

Na ausência do preenchimento da vaga de biólogo que o município protela há mais de um lustro, entre outras limitações estruturais, o que daria autonomia ao município para realizar ele mesmo os licenciamentos ambientais, ao contrário, essa atividade permanece a cargo do órgão estadual, o IMASUL que, a partir de Campo Grande, procede às liberações e licenças para a implantação desses empreendimentos.

No caso de projetos localizados na região periurbana dos municípios, a legislação do Estado de Mato Grosso do Sul, há muito segue as determinações ainda vigentes da Resolução nº 30/1982, de 26 de abril de 1982, que permite a instalação de criadouros de suínos somente a uma distância mínima de 1000 metros do perímetro urbano do município.

A legislação municipal de Brasilândia por sua vez também dispõe sobre essa proibição (art. 177 da Lei 399/1985, Código de Postura), ratificando este limite através do art. 25 da Lei 2211/2007, de 1º de novembro de 2007 que trata do Controle de Zoonoses, detalhando que esta proibição também se estende às concentrações residenciais de vilas e povoados.

Ora, durante os estudos para a implantação de um empreendimento desta magnitude e importância é imprescindível que haja a participação da Secretaria de Desenvolvimento e Conselho de Meio Ambiente do local, pois o órgão estadual que libera esses empreendimentos nem sempre tem o conhecimento necessário sobre a realidade onde está sendo implantada tal atividade. Senão vejamos:

A construção do empreendimento que está sendo questionado pelos moradores do reassentamento Novo Porto João André, localiza-se uma região que envolve dois núcleos habitacionais, um deles, numa distância muito inferior aos 1000 metros facultados pela legislação para a criação de animais ungulados. Se pelo aspecto demográfico e social é visível que o lugar encontra-se habitado por mais de 300 famílias, pelo aspecto jurídico e legal, igualmente, é passivo que o local possui status de estrutura urbana. O que torna a criação de suínos no entorno destes loteamentos uma afronta à legislação depondo contra a incolumidade pública.

O reassentamento, denominado a partir de então Loteamento Novo Porto João André foi declarado área urbana por força do Decreto nº 4788/2018, de 5 de outubro de 2018. Já o outro lindeiro próximo ao empreendimento, o Loteamento Urbano Beleza do Rio Verde, criado em 2008, ali foi instalado graças à expansão urbana que o município se submeteu, por força do Decreto 2180/2007, de 16 de maio de 2007, e que transformou aquela região igualmente em área urbana.

Diante disso, a manifestação dos moradores do Loteamento Novo Porto João André, em que pese possa ser entendida como desafiadora aos órgãos instituídos, não deixa de ser uma justa demonstração de descontentamento daqueles moradores pelo fato de não terem sidos consultados antes do início das obras, que segundo consta, já se encontram adiantadas. 

Em que pese possa a reação sonora daquela comunidade ser entendida (e instrumentalizada) como um grito contra a suinocultura, sob-hipótese alguma, isso assim pode ser entendido, uma vez que o dedo em riste dos manifestantes notadamente aponta firme, sim, contra os atos administrativos praticados pelo IMASUL e não contra esta atividade geradora de emprego e renda para Brasilândia.

Mas, como tudo no Brasil, pela absoluta incapacidade do poder público se articular entre si e fomentar o diálogo com a sociedade civil, esse será mais um caso que irá para os braços do Ministério Público, outra vez transformado, como de praxe, em senhor das causas primeiras ou das razões últimas.

Brasilândia/MS, 31 de julho de 2019.

quarta-feira, 1 de maio de 2019


Dona Ezilda de Souza: a saudade e o gesto de acolhida.
Carlos Alberto dos Santos Dutra




Perder amigos, todos nós sentimos. Agora perder amigos especiais, a dor é sempre maior. 


É assim que nos sentimos em relação a dona Zilda (Ezilda) que há dois anos nos deixou.

 
Não, não sou da família e sequer amigo íntimo. Mas era como se fosse.


Uma rápida olhada pelas ruas, na paróquia, e  lá estava aquela senhora regendo a orquestra daquela  grande família.


E isso nos faz pensar.


Passando pelos revezes da vida, ela sempre se apresentou disposta e de bem com o rumo da graça que Deus lhe deu. 


Sempre vencendo as dificuldades inerentes da natureza humana e familiar com otimismo e fé.

 
E ainda encontrava tempo para inspirar a todos, apontando com um sorriso no rosto, o norte que todos esperavam.


Mas o que mais chamava a atenção, e alguns até nem sabiam, o quanto ela dedicava-se aos pobres.


Houve um tempo em que ela fornecia uma tradicional e suculenta sopa de legumes na praça, juntamente com outras senhoras, zelando pela caridade aos desvalidos. 


Dedicada à sua família, também arranjava tempo para dedicar-se às famílias daqueles que não tinha com quem contar.


Isso a diferenciava das demais pessoas comuns de nossa cidade.


E andava com elegância e jovialidade; alegria e simplicidade.


Exemplo e orgulho para toda sua família, diga-se numerosa, de nossa cidade, ligada pelos laços de sangue e de afeto, carinho e respeito, que a cidade aprendeu nutrir por ela.


Até mesmo aqueles que pouco a conheciam, ainda que de passagem, podem se sentir felizes por tê-la visto pelo menos uma vez.


Por essa razão, todos temos razões de sobra para externar nossos sentimentos a seus familiares que viram partir a sua matriarca.


Mulher que soube tornar a vida mais leve a partir de seus passos lentos, porém decididos, no rumo do amor e da felicidade. 


Os dias passam e a amiga Ezilda de Souza, com certeza, descansa em paz. Que os céus brindem a sua chegada com a acolhida fraterna dos manos Amélia, Tunicão, Helena, Onofre e outros que te saúdam, pois tu fizestes por merecer. 


Nossa saudade e sentimentos eternos a seus familiares e amigos.


Publicado em DUTRA, C.A.S. Diálogos impertinentes e crônicas de adeus, Brasilândia: Edição do Autor, 2020, p. 292. Disponível para compra em: https://clubedeautores.com.br/livro/dialogos-impertinentes-e-cronicas-de-adeus


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Que disparidade salarial é essa?


Eu ganho mil; ele ganha 100 milhões.
Carlos Alberto dos Santos Dutra

Fonte: Getty Images/BBC News, 08/01/2019

A notícia da BBC News fala que os tais CEOs (sigla derivada do inglês que se refere ao cargo de diretor executivo) de algumas empresas chegam a ganhar em 30 minutos o que um trabalhador comum levaria o ano inteiro para ganhar.
O levantamento que compara salário de diretores executivos de empresas com rendimentos anuais de trabalhadores médios em 22 países não deixa de ser um tapa na cara do trabalhador comum.
Os menos céticos poderão dizer que na virada do ano, depois de vestir amarelo ou ter definido metas para incrementar seus rendimentos nos próximos 12 meses, eles se sentiram bastante otimistas...
Mas o que dizer depois de saber que, dependendo do país em que o cidadão viva, o chefe da empresa onde ele trabalha já pode ter feito, já nos primeiros dias do ano, mais dinheiro do que ele, reles cidadão, conseguirá reunir o ano inteiro?
Segundo a empresa do ramo financeiro e midiático, Bloomberg, em artigo publicado na BBC News, em 08/01/2019,  só nos Estados Unidos, por exemplo, estes executivos precisam de menos de dois dias para superar a renda média anual dos trabalhadores. Na Índia, é preciso ainda menos: um terço de dia.
“É prá acabar!”, diria uma amiga minha. Isso porque, segundo a pesquisa, de uma forma geral, parece que uma semana é mais do que suficiente para grande número de altos executivos chegarem ao salário anual do trabalhador em diferentes partes do mundo. Na África do Sul são necessários quase três dias, enquanto na China são necessários 2 dias.
E no Brasil? Boa pergunta. Ah, mas a Bloomberg não estendeu sua coleta de dados sobre a sinecura que ronda nosso colorido Pindorama. Como consolo, busquemos na FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), informações para verificar que os CEOs daqui, não tão bem remunerados como os de lá, também levam bela vantagem sobre o trabalhador comum.
Podemos observar que os diretores executivos de empresas implantadas aqui gastam apenas oito dias do ano para levar a seus cofres, em média R$ 1,2 milhão, o ganho médio que o trabalhador brasileiro irá labutar o ano inteiro.
Na maior parte das grandes corporações nacionais e internacionais, os trabalhadores típicos teriam que trabalhar mais de três séculos para chegar ao que seus diretores especializados ganham em um ano. 
Na empresa McDonald's, pasmem!, um trabalhador típico teria que trabalhar mais de 3 mil anos para equiparar seu salário ao do seu patrão.
Há, entretanto, alguém que diga: “Nem todo lugar é igual...”. Sim. Existem fatores que fazem variar os salários de executivos ao redor do mundo. Na Suécia, por exemplo, que tem fama de ter uma sociedade mais igualitária do que no resto mundo, a proporção é de 60 para 1 - ou seja, os rendimentos de um CEO são 60 vezes maiores que os de um trabalhador médio.
Na Noruega, as coisas estão mais equilibradas, mas, ainda assim, eles ganham em média 20 vezes mais do que o salário médio nacional, de cerca de R$ 191 mil. Já a Rússia é desses países em que CEOs superaram o rendimento anual dos trabalhadores no primeiro dia o ano.
Nossos Deputados, Senadores e Ministros da Suprema Corte, também não ficam para trás. Desfrutam eles de tamanhas benesses que os transformam numa verdadeira casta privilegiada. Se comparado com o salário mínimo nacional, o rendimento auferido a esses executivos da res pública pode chegar a 100, 200, 300 vezes ao que é pago ao trabalhador privado.
Um escândalo! Uma disparidade inaceitável! "Quando você escuta a quantia recebida por um CEO, isso vai soar ultrajante. As pessoas vão reagir com paixão", disse Ethan Rouen, professor assistente de administração de empresas em um artigo publicado no site da Harvard Business School no início do ano passado.
E defendeu: “Que as disparidades sejam explicadas ao público e aos trabalhadores!”. "Portanto, toda empresa que for obrigada a revelar esses dados terá que dar alguma explicação e uma resposta que justifique a disparidade salarial". A receita também vale para os políticos, ministros e magistrados tupiniquins.
Brasilândia/MS, 10 de Janeiro de 2019.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Todos contra a Dengue.






Com este mosquito não se brinca
Carlos Alberto dos Santos Dutra

Uma febrezinha aqui, uma dorzinha no corpo ali... E vamos levando. Preparamos um chazinho aqui, um analgésico ali, e achamos que tudo não passa de um resfriado. 

Passam-se mais alguns dias, e achamos que está tudo superado. Até o dia que a fraqueza toma conta da gente e, não mais aguentando, corremos para o Posto de Saúde.

Lá o médico suspeita de Dengue e, após a prescrição do medicamento e recomendar repouso, notifica o caso à Vigilância Epidemiológica. 


No dia seguinte a enfermeira do órgão de saúde preventiva, acompanhada de um agente de combate a endemias, visita a residência do paciente e observa que os sintomas evoluíram e confirma a suspeita de Dengue, recomendando a realização de exame de sangue ao paciente.

Na maioria das vezes o paciente encontra sempre uma desculpa para não ir ao laboratório, para colher material e obter o diagnóstico e comprovação da doença. Só para ter uma ideia, somente 20% dos casos notificados procuram o laboratório para coletar sangue para envio ao Laboratório Central-LACEN, de Campo Grande/MS, e assim obter a confirmação da doença.

O número de casos notificados para a Dengue na vizinha Três Lagoas/MS, cuja marca atingiu na última semana mais de duas mil pessoas, também chegou ao nosso município. 


A doença é grave e não está presente somente na cidade das águas. Também está aqui, na cidade esperança. E o impertinente Aedes aegypti, transmissor da Dengue, da Chikungunya e da Zika vem com força total.

A Dengue vem para ceifar vidas e semear a morte entre nós. E quando não alcança o seu intento, deixa sequelas irreparáveis na saúde de suas vítimas.

Terrenos baldios sujos e abandonados por seus donos, descuido na limpeza dos quintais, galerias pluviais entupidas, lançamento de esgoto clandestino, impacto do desmatamento, e tantas agressões cometidas pelo cidadão no dia a dia, tudo se transforma no banquete para o vetor da Dengue, animais peçonhentos e demais transmissores de doenças.

Mesmo assim, sob risco constante, a população, a grande maioria preocupada com a incolumidade pública, tem de conviver com a má-educação e o desrespeito de alguns para com a coletividade.

Pelo descuido de alguns, a doença pune a todos. E causa dor, sofrimento e morte a quem amamos.

Uma lição de educação tão simples... 
Mas como é difícil colocá-la em prática...

Mesmo assim, lá estão eles, resolutos, os agentes comunitários de saúde, agentes de combate a endemias, equipe dos serviços urbanos, secretaria de obras, voluntários de igrejas e associações, comunidade consciente, todos labutando contra o lixo e o entulho, contra os quintais sujos e lotes abandonados. Todos fazendo a sua parte neste mutirão que a cidade promove. 

Mutirão que precisa avançar, na prática e no imaginário de todos nós: Com a pá carregadeira e patrola, caçamba e enxada, cavando fundo na consciência de todos nós...

Tudo para erradicar de vez do nosso comportamento o hábito do desleixo, do descuido e o desrespeito com o meio ambiente da cidade onde vivemos.

Combater o mosquito é um dever de todos! E procurar o médico ao menor sintoma também! 

Sentiu febre alta, dor abdominal, náuseas, vômito, diarreia, dor nos olhos, tontura, fraqueza, sagramento... Procure imediatamente um Posto de Saúde.


Brasilândia-MS, 19 de dezembro de 2018.

domingo, 2 de dezembro de 2018

A Educação sobre rodas: Motorista Professor.


Carlos Alberto dos Santos Dutra


Corria o ano de 1996 e a Educação garantida aos filhos de Brasilândia neste tempo que hoje é só lembrança, acontecia pelos desvãos das empoeiradas estradas que ligavam o campo à cidade e nele o progresso que aos poucos a todos foi alcançando.

No distrito Debrasa, sacolejando lá vai um ônibus mercedes-benz de cor bege arrebanhando alunos, entre porteiras e cercas, gado e seriemas, adentrando o coração das fazendas que vão surgindo entre ipês, pequis e carandás.

Fátima, Jesuíta, Córrego Azul, Modelo, Miracema e arredores da Debrasa uma a uma vão acolhendo o frescor da juventude e inocência pelas mãos dos motoristas até chegar à Escola para beber do saber e o desafio do amanhã.

Heráclito Luiz da Silva era o professor da estrada. Assim como outros, na pessoa de Alessandro Gonçalves da Cruz e seu mercedes-benz de cor verde, ou os proprietários das famosas peruas Kombi encarregadas de transportar docente e discente por caminhos nativos, do conhecimento de muitos, em especial dos alunos que por lá trilharam essa educação sobre rodas.

E lá estão, muito cedo, aquelas meninas brancas, de rodas, céleres, cortando o município rumo ao Porto João André, fazendas Modelo, Córrego Azul, Antares, Boa Esperança e Vista Alegre, pelas mãos prestativas do Sr. Auri Vieira dos Santos recolhendo o bem mais precioso -- os filhos --, de pais que fitam de longe, vê-los transformados em cidadãos de bem.

Enquanto isso, esses pupilos aguardam, pacientes, junto à porteira ou sob uma árvore, protegendo-se do frio ou do sol, que nasce muito cedo para os que precisam vencer distâncias no tempo da discórdia e na história das injustiças.

Nos trajetos mais longínquos, o dia parece noite e a linha da Fazenda Pontal, feito pela Kombi do Sr. Jesumiro Olimpio de Lima, ou a linha da Barra Bonita, realizada pela Kombi de propriedade da Srª Silvana Alves, é trajeto seguro para o aluno aplicado mesmo que retorne sonolento e cansado para os braços da família.

Alunos e pais permanecem olhando para o amanhã, entre o cerrado e a estrada, enquanto o veículo se esconde no bambusal do caminho. Sentem conforto e confiança em saber que há um futuro para seus pequenos e frágeis tesouros.

Quanto aos professores, que também viajam no itinerário deste aprendizado, por dever e cotidiano de luta, sonham em ver aqueles rebentos, que também são seus, formados, colocados no mundo das realizações e das oportunidades que todos desejam.

O amanhã logo chegará. Mais uma parada, mais uma porteira a ser aberta, mais um viagem cumprida, rompendo o silêncio, mesmo que o gado estoure e o vento balance com força o junco da cana que a cada ano parece mais viçosa. E lá vai ficando para trás as fazendas Jatiúca, Pioneira, Gameleira, Santana e tantas outras...

Um pouco mais adiante, e o pipilar estudantil chega à escola da Fazenda Araponga. Ah, que saudade. O veículo-escola do Sr. Alcides Raimundo abre a porta e os sonhos, a passos largos, saem todos correndo, enquanto uma brisa de esperança e futuro dá sinal de querer entrar.

É fim de aula, é fim de um ciclo. Um novo amanhã que chega. Os motoristas do transporte escolar, que foram e muitos deles ainda permanecem, eles continuam sua missão. Vinte e dois anos se passaram. Mas a lembrança dos mestres da estrada permanecem. Obrigado motorista-professor... Parece que foi ontem. 



quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Indulto de Natal e crime de lesa-pátria


Carlos Alberto dos Santos Dutra.

Leio que o Presidente do Brasil irá conceder indulto natalino a criminosos do colarinho branco presos na Lava Jato numa atribuição que lhe é autorizada pelo artigo 84, inciso XII da Constituição Federal, e que é sempre aguardado todos os anos com muito interesse por aqueles que fazem jus ao benefício.

É sempre muito bom perdoar. E neste caso, conceder indulto a quem se encontra preso, perdoar ou comutar a sua pena é verdadeiro ato de libertação. É como se ofensa ou o crime cometido contra alguém fosse redimido. Por isso o perdão deve ser proporcional a dimensão da falta cometida e a remissão conquistada.

Nesta linha de raciocínio, entendo que o perdão institucional que está sendo proposto devesse alcançar não a politicastra empedernida que desviou recursos da pobre sociedade brasileira – a criança, o jovem, a educação, o idoso --, mas sim dirigida àquele que desafortunadamente cometeu um crime em circunstância extrema, geralmente famélica e passional de sua existência.

Não indulto àqueles senhores bem nascidos e criados, cuja educação nunca lhes faltou, brancos e afeiçoados, homens de paletó e gravata, ocupando altos cargos em empresas privadas e estatais, palácios e parlamentos, secretarias e instituições bancárias, sindicais e filantrópicas de toda a ordem.

Indulto, sim, entendo, devesse ser dirigido àqueles presos primários bem comportados, que estão estudando e trabalhando durante o cumprimento da pena, e, uma vez avaliados psicologicamente, deram sinais de que estão arrependidos e redimidos, mesmo que suas condenações tenham o agravo da violência ou ameaça à pessoa humana.

Entendo ser esse o espírito da lei. Perdão como medida de justiça e promoção humana. Um prêmio ao esforço e empenho de cada um dos milhares de presos, muito deles encarcerados injustamente em situação desumana e que cumprem suas penas em silêncio, esquecidos, amordaçados, e sob constante vigilância de seus pares, assassinos e tiranos, colegas de cela.

Não a liberdade para aqueles que, de sã consciência, surrupiaram os cofres públicos, das entidades e órgãos que lhes foram confiados. Não o indulto àqueles que privaram pais de famílias de alimentar seus filhos, subtraindo-lhes cada vintém de seu salário, do transporte, da saúde, e a oportunidade de crescer.

Não o indulto àqueles que praticaram crime de lesa-pátria e impediram o Brasil de ser a potência e fartura de felicidade que despontava ser. Não o indulto àqueles que nem acreditam no Natal e seu significado religioso mais profundo, pois há muito viraram as costas para o amor ao próximo e a prática da justiça.

Entendo que o indulto de Natal deveria atingir sobretudo àqueles que depositam suas esperanças na democracia e num Presidente capaz de lhes estender a mão num gesto de confiança e soerguimento patriótico; não àqueles que sequer o admiram e respeitam, e tampouco manifestam qualquer sinal de respeito ao erário, a res publica, e ao cidadão.

Brasilândia-MS, 28 de novembro de 2018

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A intelligentsia do futuro e a Educação





Carlos Alberto dos Santos Dutra



Todos sabem que pelo nível da Educação se pode avaliar o grau de desenvolvimento de uma cidade ou de um país. As mães geralmente sabem muito bem disso. 


É o caso daquela dona de casa que todas as manhãs, muito cedo, preparava o leite quente dos filhos, cuidava do remendo na roupa do caçula e da lancheira de sua princesinha de olhos escuros que sonhava ser veterinária. No rigor daquele inverno, lá ia o casal de filhos para a Escola do bairro, todos confiantes de que o amanhã estava logo ali, muito seguro, na sua frente.
 
A mãe põe a mão espalmada sobre os olhos e acompanha ao longe os filhos que aos poucos vão sumindo no declínio da rua formada de pedriscos que brilhavam ao encontro com o sol. Entra em casa, pensa no marido que saiu cedo para o trabalho e logo se põe na limpeza dos quartos e da cozinha. Pensa no cardápio que irá preparar para o almoço, pois a família, ao meio dia, estará toda reunida ao redor da mesa, faminta, como de costume.

Aquela senhora tinha orgulho de seu pequeno mundo, de seu pequeno tesouro. Maior orgulho ainda sentia do casal de filhos que Deus lhe dera, pois eram obedientes, estudiosos e amorosos. Sempre agradecia aos céus por isso, porque eles gostavam de estudar, chegando a passar a maior a parte do tempo às voltas com suas tarefas escolares. O que resultava em muito pouco tempo para fazerem alguma tarefa ajudando a mãe e o pai na lida doméstica.

O casal achava que aquilo era o mais importante: ver os filhos estudando, estudando, estudando, até se formarem. Obterem um diploma, uma profissão na vida, e poderem, assim, conquistar um emprego. Depois, casar e construir uma família, dando continuidade ao ciclo da vida, como seus pais e seus avós, assim por diante. Depois viriam os netos, os bisnetos, e a felicidade estaria completa.

A Educação era o único bem que aquela família modesta possuía e que pretendia deixar para os filhos. Era a maior herança que os filhos desfrutariam para sempre. A Educação, neste universo, começava em casa e se aperfeiçoava na Escola. Escola maravilhosa que fazia seus filhos crescerem cada vez mais, em estatura e em conhecimento, em valores e em sabedoria. Mesmo que a tigela da merenda fosse uma simples sopa de legumes, a harmonia que ali reinava, entre professores e alunos, tudo contribuía para o desenvolvimento integral daquelas pequenas criaturas, sementes para o amanhã.


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Esse modelo de família que ainda vive no imaginário de tantos pais e mães, avôs e avós, infelizmente, não existe mais. O tempo que se chama hoje pauta suas metas em horizontes bem mais pragmáticos. Vive-se o aqui e agora, sob o império da economia e do consumo. E esse tempo corre por demais célere, exigente, sobrando raros espaços para o diálogo e a convivência. Famílias, onde os filhos, mesmo que voltassem mais cedo para casa, não encontrariam os pais a sua disposição, pois ambos ainda se encontram no trabalho, na dupla ou tripla jornada, que exige esforço redobrado para manter uma família de pé.

Da mesma sorte a Educação padece do mesmo desafio. Acompanhar o progresso tecnológico e a pluralidade dos reclamos sociais e morais que são trazidos para as salas de aulas desde o centro de educação infantil, ensino fundamental e médio, até à universidade. Avanço que exige, sem dúvida, revisão nas pedagogias escolares no rumo de uma educação integral e libertadora. Mesmo que isso tenha sobrecarregado ainda mais a árdua tarefa desses verdadeiros heróis anônimos: os professores.

Pensando no futuro, mas com os pés muito firmes no presente, lá estão esses mestres ministrando os elementos básicos para a vida de tantos aluninhos, no desafio de uma sala de aula superlotada, entre celulares e ipod, puxões de cabelo e disputas entre colegas. Lá estão esses professores, de volta às suas casas, não preparando o leite quente de seus filhos ou dando-lhes maior tempo e atenção às suas tarefas escolares. Lá está aquela professora que também é mãe, preparando suas aulas, suas provas e diários cheios de detalhes chatos e exigências tolas. Tudo por amor à profissão que abraçaram. Isso para não falar dos baixos salários e pisos de uma categoria que deveria ser mais bem respeitada por governos e parlamentares.

Pode interessar a alguns políticos que haja sempre um número significativo de analfabetos, pois afinal, não é de hoje que a Educação vem sendo usada como cabo eleitoral em campanhas políticas. Mas o futuro da Educação, deve-se reconhecer, aponta para um outro rumo, o do progresso. Rumo distante daqueles que desejam ver a Educação amordaçada e refém dos problemas sociais – muitos deles criados pela própria ineficiência do Estado. O rumo da Educação agora segue os passos do desenvolvimento integral e sustentável. Palavrinhas novas, mas que têm o poder de revolucionar o mundo. O rumo da pluralidade e da diversidade, do relativismo cultural e o da não violência.

O futuro da Educação já está traçado nestes tempos de pós-modernidade. Quem não se atualizar está fora do círculo das grandes realizações. Com o apoio das novas tecnologias a Educação deu um salto de qualidade, instrumentalizando o saber que agora está ao alcance da tela de LED de qualquer tablet. O que separava, em horas a distância entre dois mundos, hoje o google e o GPS trazem de graça, em poucos segundos, para dentro da sala de aula. O saber universalizou-se e a Escola não é mais a detentora de todo o saber. Ela apenas lida com esse saber em constante mudança sob o prisma de novos olhares e interpretações, provocando a intelligentsia nos alunos.

O progresso de uma cidade ou de uma nação, portanto depende da Educação. Ela é a base de sua cultura e de suas potencialidades. Somente com uma educação de qualidade é que a população de uma cidade como Brasilândia poderá ter esperança no futuro pautada no presente. Por isso precisamos estudar, estudar, estudar. E valorizar a nossa Escola. Para poder entender e enfrentar as transformações radicais que acontecem a nossa volta. Precisamos opinar sobre isso, dizendo o que pensamos, educadamente.

Aquele espaço chamado Escola continuará existindo como o lugar que receberá nossos pequenos e grandes tesouros, nossos filhos queridos e que esperamos sejam o orgulho de seus pais e de seu País. Espaço cada vez mais equipado e qualificado, onde o profissionalismo de seu corpo docente saberá como enfrentar eficazmente a complexidade dos temas vividos por seus educando. Por conseguinte a Educação, como política pública, haverá de ampliar seus horizontes e repensar que tipo de homens e mulheres ela está ajudando a construir. Educação com mais responsabilidade e menos preconceito, para um mundo com menos violência e mais sabedoria.


Publicado originalmente em http://dutracarlito.com em 21 de abril de 2013.