As lembranças vivas de Dona Ana: Uma história de força, luta, silêncio e raízes em Brasilândia
Carlos
Alberto dos Santos Dutra
Quem
viaja pela rodovia BR-158 e decide fazer uma breve pausa no Bar do Rio Verde,
estabelecimento cuidado pelo senhor José Gomes e por dona Neuza,
mal imagina a preciosidade histórica que ali reside. Naquele ponto,
resguarda-se a memória viva de Ana Pereira Gonçalves, uma baiana
nascida nas bandas do Riacho de Santana que testemunhou os primeiros passos da
colonização de Brasilândia, chegando ao local quando existiam somente duas
casas cercadas pelo cerradão.
A
trajetória cronológica de dona Ana carrega as marcas e mistérios de um
Brasil antigo. Embora ela própria afirme ter nascido em 1923, sua certidão de
casamento lavrada na Bahia aponta o ano de 1926, enquanto sua identidade
recente registra 1933. Divergências burocráticas à parte, o que preenche
verdadeiramente a sua história são as recordações indeléveis de uma vida
moldada pelo trabalho duro e pela superação.
A
sua caminhada ganhou um rumo definitivo em 17 de agosto de 1951, dia em que se
casou com o lavrador Izaías Gonçalves da Cruz. O início dessa união teve
traços de predestinação e ousadia: Izaías, que já tinha casamento
marcado no estado de São Paulo, retornou à Bahia para buscar seus familiares e,
ao cruzar o caminho de Ana, mudou seus planos repentinamente,
escolhendo-a para ser sua companheira de vida. Juntos, deixaram o solo baiano
rumo às lavouras paulistas de Sorocaba e Araraquara nos anos cinquenta,
dedicando-se exaustivamente ao plantio de algodão e hortelã, até migrarem em
definitivo para o território sul-mato-grossense na década de sessenta.
Por
trás do olhar sereno de dona Ana oculta-se a dor de uma das maiores privações
de sua vida: a negação ao conhecimento. Criada sob a forte rigidez de um pai
que acreditava convictamente que mulher não precisava de leitura, ela foi
privada de frequentar a escola. Sem aprender sequer a assinar o próprio nome,
dona Ana passou a carregar no polegar direito a sua única forma de
registro. Em um desabafo carregado de emoção, ela revela que não sente orgulho
pela riqueza ou pela beleza alheia, mas confessa guardar uma profunda inveja da
escrita, pelo poder de ler o mundo que lhe foi negado.
A
lida doméstica e o cuidado com a família tornaram-se o seu refúgio e o seu
legado. Mãe de nove filhos biológicos e responsável pela criação de outras três
crianças, ela permaneceu firme no gerenciamento do lar enquanto o marido e os
filhos mais velhos trabalhavam nas terras que adquiriram na Cabeceira Perdida e
no córrego Beleza. Naquela Brasilândia primitiva — onde a solidariedade entre
vizinhos supria a ausência de médicos e de prefeitos —, as crianças brincavam
juntas nas veredas da icônica fazenda Toca da Raposa, uma propriedade de 20
alqueires adquirida por seu marido.
O
destino, contudo, impôs uma despedida precoce e dolorosa. No dia 13 de setembro
de 1969, após lutar bravamente ao lado de companheiros para apagar um incêndio
que consumia o pasto local, seu Izaías cometeu o erro fatal de beber
água fria em uma moringa de barro com o corpo ainda quente. O choque térmico
provocou um derrame cerebral fulminante. Mesmo socorrido às pressas por
estradas de terra e transportado de bote e trem até centros médicos maiores,
ele não resistiu, deixando dona Ana viúva com filhos pequenos para criar
sozinha.
Apesar
do sofrimento, a herança de trabalho deixada pelo casal confunde-se com a
própria fundação de Brasilândia. Seu Izaías foi um dos braços fortes que
ajudaram a erguer o Cruzeiro, marco inicial do município, além de ter
trabalhado na edificação do primeiro cemitério de pau a pique da localidade.
Embora a família lamente que o nome desse pioneiro nunca tenha sido eternizado
em uma rua da cidade, a verdadeira homenagem reside na imensa ramificação que o
casal fincou naquela terra.
Hoje,
ao olhar para trás, os olhos de dona Ana brilham com o contentamento de
quem venceu a aspereza do tempo. Mãe, lavradora e guardiã de memórias, ela
encontra nos braços de seus 23 netos, 32 bisnetos e um tataraneto a escrita
mais bonita que a vida lhe permitiu redigir: a história contínua de sua própria
linhagem.
Então.
Se você passar pela BR-158 antes da ponte Pedro Pedrossiam, e parar no Bar do Rio Verde, saiba que ali se
encontra uma joia rara que o local esconde. Ali vive Dona Ana Pereira
Gonçalves, uma baiana forte que chegou a Brasilândia quando a cidade tinha
apenas duas casas e muito cerradão, como ela mesmo lembra. Sua trajetória é o
retrato de milhões de mulheres que desbravaram o interior do Brasil, marcadas
pela fé, a esperança e superações profundas. Uma mulher que carrega em seus
olhos a própria história viva de Brasilândia. Obrigado por tanto, Dona Ana! Deus a abençoe.
Brasilândia/MS,
17 de julho de 2026.
Fonte: Mais detalhes de sua biografia se encontram publicados originalmente em https://carlitodutra.blogspot.com/2021/09/dona-ana-pereira-goncalves-e-as.html
Foto: Paróquia Cristo Bom Pastor

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