sexta-feira, 17 de julho de 2026

 As lembranças vivas de Dona Ana: Uma história de força, luta, silêncio e raízes em Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra




 




Quem viaja pela rodovia BR-158 e decide fazer uma breve pausa no Bar do Rio Verde, estabelecimento cuidado pelo senhor José Gomes e por dona Neuza, mal imagina a preciosidade histórica que ali reside. Naquele ponto, resguarda-se a memória viva de Ana Pereira Gonçalves, uma baiana nascida nas bandas do Riacho de Santana que testemunhou os primeiros passos da colonização de Brasilândia, chegando ao local quando existiam somente duas casas cercadas pelo cerradão.

A trajetória cronológica de dona Ana carrega as marcas e mistérios de um Brasil antigo. Embora ela própria afirme ter nascido em 1923, sua certidão de casamento lavrada na Bahia aponta o ano de 1926, enquanto sua identidade recente registra 1933. Divergências burocráticas à parte, o que preenche verdadeiramente a sua história são as recordações indeléveis de uma vida moldada pelo trabalho duro e pela superação.

A sua caminhada ganhou um rumo definitivo em 17 de agosto de 1951, dia em que se casou com o lavrador Izaías Gonçalves da Cruz. O início dessa união teve traços de predestinação e ousadia: Izaías, que já tinha casamento marcado no estado de São Paulo, retornou à Bahia para buscar seus familiares e, ao cruzar o caminho de Ana, mudou seus planos repentinamente, escolhendo-a para ser sua companheira de vida. Juntos, deixaram o solo baiano rumo às lavouras paulistas de Sorocaba e Araraquara nos anos cinquenta, dedicando-se exaustivamente ao plantio de algodão e hortelã, até migrarem em definitivo para o território sul-mato-grossense na década de sessenta.

Por trás do olhar sereno de dona Ana oculta-se a dor de uma das maiores privações de sua vida: a negação ao conhecimento. Criada sob a forte rigidez de um pai que acreditava convictamente que mulher não precisava de leitura, ela foi privada de frequentar a escola. Sem aprender sequer a assinar o próprio nome, dona Ana passou a carregar no polegar direito a sua única forma de registro. Em um desabafo carregado de emoção, ela revela que não sente orgulho pela riqueza ou pela beleza alheia, mas confessa guardar uma profunda inveja da escrita, pelo poder de ler o mundo que lhe foi negado.

A lida doméstica e o cuidado com a família tornaram-se o seu refúgio e o seu legado. Mãe de nove filhos biológicos e responsável pela criação de outras três crianças, ela permaneceu firme no gerenciamento do lar enquanto o marido e os filhos mais velhos trabalhavam nas terras que adquiriram na Cabeceira Perdida e no córrego Beleza. Naquela Brasilândia primitiva — onde a solidariedade entre vizinhos supria a ausência de médicos e de prefeitos —, as crianças brincavam juntas nas veredas da icônica fazenda Toca da Raposa, uma propriedade de 20 alqueires adquirida por seu marido.

O destino, contudo, impôs uma despedida precoce e dolorosa. No dia 13 de setembro de 1969, após lutar bravamente ao lado de companheiros para apagar um incêndio que consumia o pasto local, seu Izaías cometeu o erro fatal de beber água fria em uma moringa de barro com o corpo ainda quente. O choque térmico provocou um derrame cerebral fulminante. Mesmo socorrido às pressas por estradas de terra e transportado de bote e trem até centros médicos maiores, ele não resistiu, deixando dona Ana viúva com filhos pequenos para criar sozinha.

Apesar do sofrimento, a herança de trabalho deixada pelo casal confunde-se com a própria fundação de Brasilândia. Seu Izaías foi um dos braços fortes que ajudaram a erguer o Cruzeiro, marco inicial do município, além de ter trabalhado na edificação do primeiro cemitério de pau a pique da localidade. Embora a família lamente que o nome desse pioneiro nunca tenha sido eternizado em uma rua da cidade, a verdadeira homenagem reside na imensa ramificação que o casal fincou naquela terra.

Hoje, ao olhar para trás, os olhos de dona Ana brilham com o contentamento de quem venceu a aspereza do tempo. Mãe, lavradora e guardiã de memórias, ela encontra nos braços de seus 23 netos, 32 bisnetos e um tataraneto a escrita mais bonita que a vida lhe permitiu redigir: a história contínua de sua própria linhagem.

Então. Se você passar pela BR-158 antes da ponte Pedro Pedrossiam, e parar no Bar do Rio Verde, saiba que ali se encontra uma joia rara que o local esconde. Ali vive Dona Ana Pereira Gonçalves, uma baiana forte que chegou a Brasilândia quando a cidade tinha apenas duas casas e muito cerradão, como ela mesmo lembra. Sua trajetória é o retrato de milhões de mulheres que desbravaram o interior do Brasil, marcadas pela fé, a esperança e superações profundas. Uma mulher que carrega em seus olhos a própria história viva de Brasilândia. Obrigado por tanto, Dona Ana! Deus a abençoe.

Brasilândia/MS, 17 de julho de 2026.

Fonte: Mais detalhes de sua biografia se encontram publicados originalmente em https://carlitodutra.blogspot.com/2021/09/dona-ana-pereira-goncalves-e-as.html

Foto: Paróquia Cristo Bom Pastor

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário