sexta-feira, 17 de julho de 2026

 

Sementes da Terra: A Trajetória de Luta e Resiliência dos Pioneiros da APASF

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

Celebrar a história da APASF (Associação de Produtores Agroecológicos de Subsistência Familiar) é resgatar uma trajetória profunda de união, suor e persistência no coração do município de Brasilândia. Fundada em 19 de julho de 2003, a associação nasceu no Reassentamento Santana com uma missão nobre: defender os direitos sociais e impulsionar o desenvolvimento da produção agroecológica e comunitária. Olhar para trás e lembrar de cada homem e mulher que colocou as mãos na terra para erguer essa história é prestar uma justa homenagem aos verdadeiros pioneiros da agricultura familiar da nossa região.

O Começo de Tudo: Os Primeiros Passos e Líderes. O caminho da cooperação começou a se consolidar formalmente em 15 de junho de 2004, com a aprovação do estatuto social e a eleição da primeira diretoria. Sob a liderança do primeiro presidente, João Batista do Nascimento, ao lado do vice-presidente João Pereira da Silva, e de nomes fundamentais como José da Silva Pinto, José Luiz Petelinkar, José Etinho de Souza e Maria Aparecida de Oliveira, a APASF ganhou estrutura e voz. No conselho fiscal, o compromisso foi fortalecido por titulares e suplentes que zelaram pelos primeiros passos coletivos da organização.

A conquista do primeiro espaço físico ocorreu com a cessão de um barracão de alvenaria de 220 metros quadrados e uma área de 15 hectares. Foi nesse pedaço de chão que a entidade firmou suas raízes, plantando, cultivando e comercializando o fruto do trabalho familiar, abrindo as portas também para os primeiros financiamentos coletivos e sonhos que transformariam a comunidade.

A Luta por Dignidade e Infraestrutura Básica. A história desses pioneiros nunca foi marcada pela facilidade. Em 2004, demonstrando uma forte consciência política e coletiva, um grupo de 37 proprietários de lotes dos Reassentamentos Santana e Santa Emília uniu-se para reivindicar o básico. Representados pela diretoria da associação, recorreram ao Ministério Público para garantir o direito de opinar sobre os rumos de recursos bloqueados, buscando direcioná-los para investimentos essenciais na própria comunidade.

Eles recordavam às autoridades que a implantação da infraestrutura básica vinha se arrastando desde o ano 2000. A água, essencial para a vida e para a lavoura, dependia de caminhões-pipa abastecidos por um poço perfurado. Faltava energia elétrica para cerca de 30% do reassentamento e um sistema definitivo de abastecimento hídrico. Essa mobilização inicial mostrou que a APASF ia muito além da produção: era um instrumento de luta por cidadania e dignidade.

O Caso das Queixadas: Resiliência Diante da Natureza. Ao longo dos anos, novas diretorias assumiram o bastão para dar continuidade ao trabalho, como a segunda gestão liderada novamente por João Batista do Nascimento, e a terceira, presidida por José Luiz Petelinkar. Foi durante esses anos de consolidação que a comunidade enfrentou provações que testaram a sua união, como o marcante Caso das Queixadas em janeiro de 2009.

Na madrugada do dia 13 de janeiro daquele ano, uma manada de queixadas (porcos-do-mato) vinda de uma reserva ambiental vizinha invadiu a plantação de mandioca de João Brito de Souza, então presidente da associação, destruindo grande parte de sua roça. Diante do enorme prejuízo financeiro e da ameaça à subsistência, a resposta da comunidade não foi o isolamento, mas a coletividade. Uma assembleia extraordinária reuniu 37 associados, técnicos agrícolas e defensores ambientais para buscar soluções integradas e cobrar dos responsáveis novas cercas e um manejo adequado para os animais. Esse episódio eternizou o espírito de mútua ajuda que define a associação: a dor de um produtor era a dor de todos.

Um Legado de Utilidade Pública. Todo esse esforço e dedicação foram oficialmente reconhecidos em 11 de junho de 2010, quando a APASF foi agraciada com a declaração de utilidade pública municipal através da Lei nº 2356/10. Essa conquista foi o selo de que a batalha travada nos reassentamentos Santana e Santa Emília gerou frutos que beneficiaram toda a sociedade de Brasilândia.

A caminhada seguiu forte, alcançando a quarta diretoria em 2013 sob a liderança de assembleias participativas coordenadas por nomes como Jorge Luiz da Silva e o próprio João Brito de Souza.

Hoje, ao celebrar mais de duas décadas de história, prestamos nossa sincera homenagem a cada pioneiro, parceiro, trabalhador e líder que transformou a APASF em um símbolo de resistência da agricultura familiar. Que a coragem daqueles que começaram em 2003 continue a inspirar as futuras gerações a proteger a terra, valorizar a agroecologia e manter viva a força da nossa comunidade.


 Brasilândia/MS, 19 de julho de 2026

Fonte: Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, vol. II-Patrimônio, pág. 338s.


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