Sementes da Terra:
A Trajetória de Luta e Resiliência dos Pioneiros da APASF
Carlos Alberto dos
Santos Dutra
Celebrar a
história da APASF (Associação de Produtores Agroecológicos de Subsistência
Familiar) é resgatar uma trajetória profunda de união, suor e persistência no
coração do município de Brasilândia. Fundada em 19 de julho de 2003, a
associação nasceu no Reassentamento Santana com uma missão nobre: defender os
direitos sociais e impulsionar o desenvolvimento da produção agroecológica e
comunitária. Olhar para trás e lembrar de cada homem e mulher que colocou as
mãos na terra para erguer essa história é prestar uma justa homenagem aos
verdadeiros pioneiros da agricultura familiar da nossa região.
O Começo de Tudo:
Os Primeiros Passos e Líderes. O caminho da cooperação começou a se
consolidar formalmente em 15 de junho de 2004, com a aprovação do estatuto
social e a eleição da primeira diretoria. Sob a liderança do primeiro
presidente, João Batista do Nascimento, ao lado do
vice-presidente João Pereira da Silva, e de nomes fundamentais como José
da Silva Pinto, José Luiz Petelinkar, José Etinho de Souza e Maria
Aparecida de Oliveira, a APASF ganhou estrutura e voz. No conselho fiscal,
o compromisso foi fortalecido por titulares e suplentes que zelaram pelos
primeiros passos coletivos da organização.
A conquista do
primeiro espaço físico ocorreu com a cessão de um barracão de alvenaria de 220
metros quadrados e uma área de 15 hectares. Foi nesse pedaço de chão que a
entidade firmou suas raízes, plantando, cultivando e comercializando o fruto do
trabalho familiar, abrindo as portas também para os primeiros financiamentos
coletivos e sonhos que transformariam a comunidade.
A Luta por
Dignidade e Infraestrutura Básica. A história desses pioneiros nunca foi
marcada pela facilidade. Em 2004, demonstrando uma forte consciência política e
coletiva, um grupo de 37 proprietários de lotes dos Reassentamentos Santana e
Santa Emília uniu-se para reivindicar o básico. Representados pela diretoria da
associação, recorreram ao Ministério Público para garantir o direito de opinar
sobre os rumos de recursos bloqueados, buscando direcioná-los para
investimentos essenciais na própria comunidade.
Eles recordavam às
autoridades que a implantação da infraestrutura básica vinha se arrastando
desde o ano 2000. A água, essencial para a vida e para a lavoura, dependia de
caminhões-pipa abastecidos por um poço perfurado. Faltava energia elétrica para
cerca de 30% do reassentamento e um sistema definitivo de abastecimento hídrico.
Essa mobilização inicial mostrou que a APASF ia muito além da produção: era um
instrumento de luta por cidadania e dignidade.
O Caso das
Queixadas: Resiliência Diante da Natureza. Ao longo dos anos, novas diretorias
assumiram o bastão para dar continuidade ao trabalho, como a segunda gestão
liderada novamente por João Batista do Nascimento, e a terceira,
presidida por José Luiz Petelinkar. Foi durante esses anos de
consolidação que a comunidade enfrentou provações que testaram a sua união,
como o marcante Caso das Queixadas em janeiro de 2009.
Na madrugada do
dia 13 de janeiro daquele ano, uma manada de queixadas (porcos-do-mato) vinda
de uma reserva ambiental vizinha invadiu a plantação de mandioca de João
Brito de Souza, então presidente da associação, destruindo grande parte
de sua roça. Diante do enorme prejuízo financeiro e da ameaça à subsistência, a
resposta da comunidade não foi o isolamento, mas a coletividade. Uma assembleia
extraordinária reuniu 37 associados, técnicos agrícolas e defensores ambientais
para buscar soluções integradas e cobrar dos responsáveis novas cercas e um
manejo adequado para os animais. Esse episódio eternizou o espírito de mútua
ajuda que define a associação: a dor de um produtor era a dor de todos.
Um Legado de
Utilidade Pública.
Todo
esse esforço e dedicação foram oficialmente reconhecidos em 11 de junho de
2010, quando a APASF foi agraciada com a declaração de utilidade pública
municipal através da Lei nº 2356/10. Essa conquista foi o selo de que a batalha
travada nos reassentamentos Santana e Santa Emília gerou frutos que
beneficiaram toda a sociedade de Brasilândia.
A caminhada seguiu
forte, alcançando a quarta diretoria em 2013 sob a liderança de assembleias
participativas coordenadas por nomes como Jorge Luiz da Silva e o
próprio João Brito de Souza.
Hoje, ao celebrar
mais de duas décadas de história, prestamos nossa sincera homenagem a cada
pioneiro, parceiro, trabalhador e líder que transformou a APASF em um símbolo
de resistência da agricultura familiar. Que a coragem daqueles que começaram em
2003 continue a inspirar as futuras gerações a proteger a terra, valorizar a
agroecologia e manter viva a força da nossa comunidade.
Brasilândia/MS, 19 de julho de 2026
Fonte: Dutra, C.A.S.
História e Memória de Brasilândia/MS, vol. II-Patrimônio, pág. 338s.

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