Onde Aninham as Corujas e a Memória
Por Carlos Alberto dos Santos Dutra
Olho para o Cruzeiro e um frio percorre-me a espinha. Aquele marco fundante do município há quarenta anos espera por uma reforma. Outrora, a Praça dos Fundadores estava projetada para o seu entorno. O tempo passou; após ser palco de encontros e do coroamento das saudosas Cavalgadas Arthur Höffig, o lugar foi, aos poucos, entregue ao esquecimento.
Com a madeira corroída, o monumento mantinha-se forte apenas o suficiente para
abrigar um casal de corujas teimosas. Elas insistiam em não abandonar o posto
que um dia — no sonho do patriarca do lugar — congregou a seus pés a urbe
nascente.
De repente, vejo homens trabalhando muito próximos àquele monumento: máquinas nivelando o terreno e estacas fincadas ao chão. Meu coração alegra-se e aproximo-me de um dos operários.
Numa conversa informal, após concordarmos sobre a importância de proteger a vida das corujas que mantêm sua toca na base do Cruzeiro, o senhor informa-me educadamente que ali será construído um estacionamento para a Câmara Municipal.
A informação, para meu absoluto desalento, foi confirmada mais tarde pela Secretaria de Infraestrutura e Serviços.
Passados a surpresa e o desencanto, ponho-me a refletir sobre o significado e importância de uma praça para o senso comum e para os administradores.
Sob o aspecto da engenharia, a preocupação limita-se à organização dos espaços e ao planejamento da estrutura urbana. Para alguns, a criação de uma praça traduz unicamente a ocupação de um espaço vazio, tantas vezes abandonado nos grandes centros à mercê da vulnerabilidade social. Restando a uma pequena parcela da sociedade enxergá-la como alternativa de lazer, meditação e deleite comunitário.
O geógrafo Milton Santos escreveu que “o espaço é hoje um sistema de objetos cada vez mais artificiais, povoado por sistemas de ações igualmente imbuídos de artificialidade, e cada vez mais tendentes a fins estranhos ao lugar e a seus habitantes”. É impossível discordar da lucidez de sua percepção trintenária.
Praças não se confundem com o espaço puro e simples. Elas são formas de paisagem intimamente ligadas à comunidade que as envolve. Construir e cuidar de praças é investir na paisagem que humaniza o território — uma paisagem que, com o passar do tempo, plasma e transforma a natureza em humanidade, herança e memória. Por isso, o esquecimento nos entristece: porque somos parte das paisagens que nos abraçam.
Ver uma paisagem desenhada pelo coração da comunidade — a Praça dos Fundadores, a Praça do Cruzeiro —, cuja forma exprime os sonhos, as lembranças e o orgulho dos pioneiros que ergueram este chão, ser reduzida a um mero depósito de veículos, choca pela frieza e insensibilidade.
Para a maioria, o significado da praça reside no elo vital entre o ser humano e a natureza. E é isso que nos enche de alento e esperança.
Porque a praça transfigura o espaço que vive e faz viver; reúne pessoas, histórias, política, religião, arte e música. É sinônimo de manifestação cultural e o verdadeiro palco da expressão de um povo consciente, feliz por caminhar entre jardins floridos e memórias preservadas.
Sim, somos um povo capaz
de garantir o voo livre de uma coruja perene que ainda resiste – como a Praça
de nossos sonhos que esperamos vê-la erguida e assim o faremos--, nos braços do Cruzeiro de Brasilândia.
Brasilândia/MS, 21 de setembro de 2026. Dia da Árvore.

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