terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Joaquim Polícia.

Joaquim Polícia, estimado cidadão brasilandense.
Carlos Alberto dos Santos Dutra
 


  
  
Aquela noite havia sido especial. A Câmara Municipal estava repleta. Tinha gosto de reconhecimento e gratidão. Ao lado de outros colegas de farda lá estava ele, orgulhoso de si, com toda a sua humildade, segurando aquele troféu.

Não. Não era a arma que muito tempo foi sua companheira, ainda que presa ao coldre e usada raras vezes, com parcimônia, comedida. Tampouco a farda da guarnição a que pertenceu por tantos anos e que lhe permitiu angariar amizade e respeito, e também construir uma vida, uma família.

O que empunha nas mãos não era um regalo qualquer; era uma placa em homenagem a um ilustre morador de Brasilândia: o título de cidadão brasilandense, honraria dedicada somente aos homens e mulheres que dedicaram a vida à serviço do bem comum em prol de uma comunidade.

E ele estava lá. Em meio aos sorrisos e abraços, dos familiares e amigos, no coração palpitante do velho soldado, depois, cabo e por fim sargento, Antônio Joaquim da Silva, personificava ali o melhor de si que ao longo da vida havia conquistado, e que agora, lhe revelava a estima nutrida.

Em meios aos flashes e num piscar de olhos, roda a engrenagem do tempo e lá o encontramos como verdadeira muralha debaixo dos três paus fechando o gol, pelos campos de futebol em meio aos gramados, nas quatro linhas dos pioneiros times de futebol de Brasilândia, tendo passado por vários deles, quando teve a oportunidade de ver cada um deles nascer, crescer e florescer.

Hábil desportista, disputado por todos os treinadores locais, sempre foi um atleta zeloso e dedicado, animador e, melhor do que ninguém, os que o conheceram nesta época, e que ainda por aqui se encontram, podem sobejamente relembrar e falar das aventuras deste verdadeiro herói de uma época onde a humildade e retidão eram as virtudes dos verdadeiros homens.

Dono de uma idoneidade exemplar, no cotidiano, com a farda ou sem ela, sempre foi a mesma pessoa, tratando a todos igual. Conselheiro, e de uma alegria contagiante, o velho Quinca, como alguns o chamavam, também foi um dedicado pai, esposo, vizinho, morador e associado.

Participou ativamente das iniciativas do seu bairro, a Cohab Thomaz de Almeida, sendo um dos fundadores da AMATA, dedicando altruisticamente sua força de trabalho e suas ideias para o fortalecimento do bairro, plantando arvores, e ajudando a regar muitas delas com paciência e consciência ambiental invejável.

Mais uns passos no rumo da história e a vida lhe mostrava a oportunidade de andar de bicicleta pela cidade, mesmo depois de aposentado da polícia militar, continuou sendo um homem de alto astral, de coração grande, e sempre disposto a ajudar, dar um conselho e fazer um comentário sempre na busca da promoção humana, jamais se deixando levar pela vaidade ou a inimizade. Era um homem de paz.

O enfarto que o apartou para sempre de seus familiares, Cidinha e Willian, esposa e filho, mais próximos, deixa em todos, também nos amigos, um vácuo em nossa existência e que por muito tempo essa dor e sentimento será sentida e lembrada.

Perde Brasilândia um cidadão que, merecidamente, recebeu o tributo dedicado aos grandes homens ainda em vida. E isso nos deixa feliz. É a homenagem mínima que a municipalidade pode lhe dar naquele dezembro de 2016.

Hoje, no dia do seu passamento, só nos resta nos despedir e lembrar com saudade deste companheiro que foi exemplo para todos, e partiu para o campo aberto da eternidade, onde certamente vai encontrar antigos atletas e colegas de farda que o precederam, na querência do céu...

Descanse em paz, querido Joaquim, pois amigo, o serás para sempre.


Brasilândia-MS, 04 de setembro de 2017.

O Povo Ofaié



Os Ofaié e a Universidade: Encontro de Saberes.
Carlos Alberto dos Santos Dutra

A jovem menina Ofaié, com um sorriso nos lábios, empunhava nas mãos algo que lhe figurava mais que um troféu. Era como se carregasse nos braços o peso de um século de história. E olha que não era uma história qualquer. Tratava-se de fruto de suór e lágrimas: Um produto da cultura material de seu povo, de seus ancestrais não tão distantes.

Motivo de tanta emoção plasmava o ambiente de admiração e espanto ao ver aqueles estudantes buscando reter na lente do celular fotos antigas e documentos que marcaram a vida e a trajetória de seus parentes e que naquele momento se encontravam preservados e valorizados.

E tudo isso acontecendo dentro de uma universidade pública. No palco de um evento memorável de lançamento de uma página do Núcleo de Documentação Histórica Honório de Souza Carneiro que naquela noite contemplava a academia com o fundo documental dedicado ao indígena Ataíde Francisco Rodrigues da Silva, o Xehitâ-ha Ofaié.

E lá estavam duas dezenas de pares de olhinhos muito atentos de estudantes indígenas e não-indígenas percorrendo os corredores e prateleiras, caixas-box de recortes de imprensa e documentos, gavetas de mapas e acervo de som e imagem daquele centro de documentação, que instigava a todos.

Estimulados pelos mestres Profª Marciana Santiago e Prof. Weslen Manari, que oportunizaram aos alunos de Brasilândia participar desta visita à universidade, a iniciativa se tornou mais significativa ainda ao contar com a participação da liderança do cacique da aldeia Ofaié e sua filha Tainá, neta do homenageado Ataide Francisco Rodrigues Xehitâ-ha Ofaié, além do representante da Funai, o amigo Olivar Brasil Moreira, popular Bili, que se uniu ao grupo marcando também presença no evento.

Já no anfiteatro, após a abertura dos trabalhos pelo Prof. Dr. Vitor Wagner Neto de Oliveira, a platéia que preenchia todos os espaços do ambiente escolhido para o evento, pode ouvir a manifestação deste escrevinhador acompanhado da liderança Ofaié, Marcelo da Silva Lins, numa troca de informações e saberes que culminou com o lançamento da segunda edição do livro “O território Ofaié pelos caminhos da história”, lançado este ano pela Editora da UFMS dentro do Projeto Saberes Indígenas na Escola.

Em meio a juventude estudantil do ensino fundamental da Escola Antonio Henrique Filho e os acadêmicos do curso de história e outras áreas afins, foi gratificante reencontrar velhos militantes da causa indígena e campesina: Miesceslau Kudlavicz, Adriana Lofego, Eduardo Nakamura, entre outros professores mestres e doutores ali presentes.

Maravilhoso saber que o acervo relacionado aos Ofaié está preservado e será disponibilizado a todos pesquisadores do mundo, através da página Ataíde Xehitâ-ha Ofaié, que, por intermédio do Núcleo de Documentação Histórica, se transformava agora numa ferramenta importante de divulgação da memória indígena, contribuindo assim para a democratização da informação e forte motivação para a continuidade da pesquisa.

Sim, foi um momento histórico e de suma importância para a trajetória do povo Ofaié. Depois de 30 anos de pesquisa e vivência lado a lado a uma geração de indígenas que aos poucos foi se apartando de nós, temos a sensação de que estamos semeando novamente esperança para aqueles que sobreviveram.

Pois bem. Na linha da história, a presença da Universidade junto aos Ofaié, havia começado 30 anos antes. Estávamos nós lá no final dos anos 80 e eis que os Ofaié -- ainda acampados, praticamente sem terra, nas barrancas do rio Paraná --, eles eram surpreendidos com uma visita de dois ilustres professores da UFMS-CPTL: Prof. Honório de Souza Carneiro e Prof. Nazareth dos Reis.

A universidade local desde 1986, a partir do momento que os Ofaié retornaram a sua terra natal, de onde tinham sido expulsos em 1978, passou a ser instigada pelo CIMI, CPT, CDDH, CEBI e Pastorais Sociais da Diocese de Três Lagoas, tendo a frente o um extraordinário e combativo bispo, D. Izidoro Kosinski, a voltar os olhos para essa etnia ressurgida.

A Profª Terezinha Bazé, à frente da CPTL, nesta época, foi a pioneira ao elaborar um projeto de pesquisa, documentação esta que hoje se encontra preservada no Centro de Documentação Histórica Honório de Souza Carneiro. Depois surgiram outros projetos, como o da Escola Ofaié E-Iniecheki, que contou com o apoio da Profª. Edima Aranha, entre outros profissionais e acadêmicos que aos poucos foram desvelando a realidade étnica do entorno da Universidade.

Pois bem, e lá estava o Prof. Honório e seu filho Marcelo com uma filmadora fazendo um dos primeiros registros dos Ofaié nesta região e também colhendo uma entrevista com o indigenista na época. Lembro que o áudio do VHS não captou o som perfeitamente e o documentário foi salvo graças ao pequeno gravador do filho do Prof. Honório que acompanhava a equipe. Ele, na época, cursava Jornalismo  e conseguiu gravar paralelamente as entrevistas, o que depois pode ser juntado ao vídeo, com uma pequena diacronia, e aproveitado na sua edição.

Além deste material histórico que ainda precisa ser resgatado pelo Núcleo de Documentação Histórico, existe outra entrevista desta mesma época, concedida na barranca do rio Paraná pelos Ofaié e pelo indigenista na época, ao então apresentador de programa, o cantor Renato Teixeira, para a TV Educativa ou Canal Futura, não recordo bem. Trata-se de uma entrevista também de valor histórico que deverá ser recuperada para o acervo Ofaié que nesta noite é lançado.

Após a exposição do pesquisador, foi a vez dos presentes ouvirem a voz do indígena Ofaié que falou pausadamente sobre a história de seu povo até onde a memória alcançava. Apesar da pouca idade, a história oral praticada na aldeia fê-lo experienciar como nos velhos tempos os eventos ocorridos. Falou firme, confessando seu pouco estudo e vontade de crescer, fazer valer seus direitos, pisar numa universidade...

A noite já ia longe e o cacique Ofaié, Marcelo da Silva Lins, como que recuperando  o passado sob a luz das lembranças transparecia empunhar aquela arco e flecha talhado pelo velho Alfredo e Eduardinho, como os antigos caçadores e coletores da margem direita do Rio Paraná, encerrou suas palavras sendo aplaudido por todos: uma forma de reconhecimento da academia que se rendia ao saber milenar das populações indígenas devotando-lhe quiçá respeito e compromisso.


Brasilândia-MS, 13 de setembro de 2017.





























sábado, 28 de outubro de 2017

A Língua Ofayé e o reencontro com a esperança

A língua Ofayé o reencontro e a esperança.
Carlos Alberto dos Santos DutraO sentimento é maior que a razão. Mas atenho-me a foto, tendo dela participado para impregná-la no tempo. Lá estavam dois embaixadores daquele povo-esperança. De um lado, o velho cacique Ofaié, Xehitâ-ha, batizado pela cultura portuguesa de Ataíde Francisco Rodrigues, e ao seu lado, um estudioso da língua Ofayé, Prof. Eduardo Rivail Ribeiro, que também se identifica com o povo Kariri e recebeu dos patrícios Karajá o nome de Kawina.

Depois de uma longa separação, o informante indígena Ofaié se reencontra com o amigo professor, mestre e doutor
, de respeitável estudo e bibliografia etnolinguistica garimpada pelos recônditos meandros de campos e cerrados brasileiros, não sem antes superar os desafios da pesquisa e as exigências da cátedra do além mar.

E lá estavam aqueles dois intelectuais orgânicos com os pés muito firmes no chão, em meio aos escombros de uma nação, sobreviventes, vislumbrando horizontes possíveis para aquele povo ressurgido, cuja língua do tronco macro-Jê é falada hoje por apenas nove pessoas. Quem os observa é Hanto-grê que se encontra ao lado. E agachado, de mão dada a ela, Ancheirai, o outro pesquisador que acompanhou o ilustre professor até a Aldeia Enodi (anödji).

É impressionante como as ideias e os sentimentos unem as pessoas não importando sua origem ou raça. Pouco importa a cor de nossa pele ou a tinta de nossos cabelos. O que permanece é o olhar e o coração: “Eu sei quem é o senhor”, disse Ataíde, logo que avistou o visitante. Já faziam mais de 10 anos que eles não se viam, e olha que eles fisicamente mudaram com o tempo, mas uma coisa permaneceu e os identificava: o lugar social.

Para ser cientista social, pesquisador, professor ou servidor de órgão oficial ou ONG indigenista é preciso ter vocação. Para além do imanente e transcendente. É preciso ser transparente, zeloso sacerdote para lidar com a alteridade. Nessa condição somos atemporais, o relógio é o sol, e o estômago é que nos alerta para a primariedade da vida e a sobrevivência. Há de se ter paciência e sensibilidade para perceber o detalhe, odetalhe importante como observa Peter Burke (1).

Obsequioso e gentil lá está o anfitrião que tem o apelido de Kren-graí, de 56 anos, mostrando ao professor suas anotações e pesquisas. Numa pequena prateleira improvisada de tábua e tijolos, reúne materiais – livros surrados, revistas e jornais velhos --, a maioria deles recolhidos pelas bordas da civilização. “Esse livro achei no lixo”, confessa sem cerimônia, sorrindo, enquanto mostra a obra de Gabriel Garcia Marques, como se guardasse o último tesouro da terra.

Pelas paredes de seu quarto, desbotadas figuras do mundo contemporâneo, de luta e símbolos de resistência – como a foto de Ingrid Bitancurt, ex-refém da FARC recém-saída do cativeiro e a estampa do Padre Marcelo Rossi animando uma multidão de fiéis num concerto para a Paz. Mosteiro de portas abertas a luz adentra aquele claustro e o mundo que o cerca revelando o homem plural e de aspirações holísticas que se encontra a nossa frente.

No esplendor de suas potencialidades intelectuais, é uma pérola, uma joia rara que, depois de lutar contra o genocídio imposto sobre os Ofaié, depois de ajudá-los empunhar a bandeira do reconhecimento étnico frente à FUNAI e soerguer esse minúsculo povo das cinzas, hoje enfrenta a hanseníase, a discriminação e a indiferença. Vive isolado numa casinha, entre plantas e a literatura, num canto da aldeia Enodi, mas se revigora e alegra ao receber visitas que o despertam para a vida.

Quando sóbrio, dá gosto conversar com esse verdadeiro depositário do cabedal histórico do povo Ofaié. Ainda que seja jovem, o aspecto é de um idoso, tamanho o peso de suas desventuras pelas trilhas do abandono. Quantas vezes pela manhã saiu feliz de uma casa, onde havia ganhado alimento e roupas novas, para logo a noite ser encontrado escondido, 
somente de calção, tremendo de frio, depois de ter sido roubado, espancado e jogado no breu de uma rua qualquer, pelos descaminhos da solidariedade etílica que todos os dias ceifa a vida de dezenas de desvalidos, mesmo na pequena Brasilândia, cá num pontinho do Mato Grosso do Sul.

O rosto do grande líder se ilumina ao sintonizar as palavras do linguista com a frequência das intenções que pulsam no lado esquerdo do peito. Gesticula, sorri, faz planos. E ambos numa cumplicidade contagiante aspiram dias melhores para aquele povo. Desejam continuar, permanecer ali por mais tempo, realinhando rumos, como que trazendo o amanhã de projetos e felicidade futura para perto do tererê e a sombra que os acolhe no agã-chanagui daquela tarde que morre.

Hanto-grê, de olhos muito pequenos, chora a saudade de João Carlos Can-hê. Na casa ao lado, Neuza Teng-hô e Luciana Chamiri espreitam o amanhã de seus filhos que acabam de chegar da Escola Ofaié E-Iniecheki que funciona na aldeia. Da mesma sorte, o cacique José Kói e o professor Silvano Hang-tar-héc, partilham desta esperança. A Profª Marilda Char-tâ, segue redesenhando suas cartilhas sempre apoiando os pesquisadores que por lá aparecem, na espectativa de dar eco as palavras de Darcy Ribeiro: "A língua Ofaié está salva" (2). Seu esposo guarani-kaiowá, Roni Va-verá, em silêncio, na sua cadeira de rodas, tudo observa. Diz ao professor de longe que “lembra de tudo”. Sorri e continua falando.

Enquanto o carro se afasta levando Kawina e Ancheirai, levam eles também na mochila satisfação e uma sensação de saudade. No rasto, para os olhos de Xehitâ-ha e o restante da aldeia Enodi (nödji), fica por lá, quem sabe, a sensação de esperança.

(1) RIBEIRO, Renato Janine. Peter Burke. Entrevista a Renato Janine Ribeiro. Seção Textos. nº 20, pp. 112-8, dez/93-fev-1994.
(2) RIBEIRO, Darcy. Confissões. São Paulo, Companhia das Letras, 1997., p. 171.



Para saber mais sobre os Ofaié, acesse: 

A intolerância religiosa e os tambores da fé
Carlos Alberto dos Santos Dutra
A recente (2017) decisão da Justiça Federal no Rio de Janeiro que definiu que cultos afro-brasileiros, como umbanda e candomblé, não são religião, e que suas “manifestações religiosas não contêm traços necessários de uma religião”, mexeu com a fé e o sentimento de muita gente.

A notícia trazida por Tiago Chagas informa que a definição aconteceu em resposta a uma ação do Ministério Público Federal (MPF) que pedia a retirada de vídeos de cultos evangélicos que foram considerados intolerantes e discriminatórios contra as práticas religiosas de matriz africana do YouTube.

O juiz responsável, Eugênio Rosa de Araújo, ainda que em primeira instância da 17ª Vara Federal do Rio, entendeu que, para uma crença ser considerada religião, é preciso seguir um texto base – como a Bíblia Sagrada, Torá, ou o Alcorão, por exemplo – e ter uma estrutura hierárquica, além de um deus a ser venerado.

A ação do MPF visava a retirada dos vídeos por considerar que o material continha apologia, incitação, disseminação de discursos de ódio, preconceito, intolerância e discriminação contra os praticantes de umbanda, candomblé e outras religiões afro-brasileiras. “Para se ter uma ideia dos conteúdos, em um dos vídeos, um pastor diz aos presentes que eles podem fechar os terreiros de macumba do bairro”, disse o procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jaime Mitropoulos.

Diante da sentença prolatada, impossível ao cidadão não posicionar-se e desvelar o equívoco em que se pautou o douto juiz federal. Para tanto, recorro aos apontamentos da velha Teologia concluída ainda em 1985 lá na PUC em Porto Alegre, quando travava com o especialista em Teologia Ecumênica, meu professor Dr. Moacyr Flores, profícuas e acaloradas discussões.

Pois bem. Esqueceu o ínclito magistrado que uma das atividades mais universais da humanidade, sendo praticada por todas as culturas, desde o início dos tempos, é a religião. E que não há uma definição de religião universalmente aceita, muito mesmo no arcabouço jurídico pátrio.

Alguns aspectos da religião, entretanto, é pacífico para a maioria dos estudiosos. Eles seriam cinco: a Fé, o Culto, a Comunidade, o Credo, e o Código. O primeiro, a Fé, é a parte interna da religião, o sentimento que leva as pessoas a acreditarem, manifestando temor e reverência a um deus supremo. O segundo elemento é o Culto, ou seja, é tudo o que a devoção envolve e que representam a expressão da fé: construções, imagens, altares, rituais, canções sagradas, reuniões, gestuais, louvores.

O terceiro elemento constitutivo da religião seria a Comunidade, ou seja, o aspecto social da religião onde a mesma se insere. São os devotos de uma igreja, templos, casa ou ambiente específico, denominação, corpo eclesial, entre outros. O quarto aspecto da religião é o Credo, que envolve todas as crenças e ideias mantidas pela religião: inclui as escrituras, livros sagrados, entidades espirituais, anjos, demônios, conceitos concernentes ao conteúdo da fé. Por fim o quinto elemento da religião, que seria o Código, ou seja aquilo que envolve o modo como as pessoas se comportam devido à sua crença religiosa: inclui éticas, tabus, ideias sobre valores, pecado, santidade, geralmente contido num livro sagrado ou de norma cogente.

Estava lá, tudo apontadinho no velho e surrado caderno "panamá". E foi assim que por muito tempo entendi que esses cinco elementos é que melhor definiam se uma determinada manifestação religiosa pode ou não ser considerada religião. Também ensinei isso aos meus alunos na disciplina de ensino religioso que tornei-a holística e ministrei por algum tempo. Revendo esses apontamentos em face da notícia que nos chega do Rio, entretanto, percebo que, no caso da Umbanda e Candomblé, essa manifestação do rito afro-brasileiro se enquadra nos cinco quesitos exigidos para ser considerados religiões. Portanto, errou o juiz carioca no argumento de sua sentença.

Bem elucidou o procurador Mitropoulos ao lembrar “a noção de que as religiões de matizes africanas estão ancoradas nos princípios da oralidade, temporalidade, senioridade, na ancestralidade, não necessitando de um texto básico para defini-las”. Aliás, no cômputo geral da classificação das religiões, enquanto o judaísmo, o islamismo e o cristianismo são classificados como religiões proféticas, as manifestações religiosas afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé, são classificadas como religiões espiritualistas. Visão esta plenamente aceitável e corrente na literatura especializada.

Cai por terra, assim o fundamento que embasa a decisão do magistrado carioca, de discriminar as religiões afro-brasileiras dando ganho de causa àqueles que, de posse de tal decisão, só alimentarão a intolerância religiosa que aos poucos vai tomando de assalto a epiderme social deste Brasil plural étnico e religioso. Assiste razão, pois a “perplexidade” do senso comum instaurada, “pois ao invés de conceder a tutela jurisdicional pretendida, optou-se pela definição do que seria religião, negando os diversos diplomas internacionais que tratam da matéria, a Constituição Federal, bem como a Lei 12.288/10”.

Isso sem mencionar a dura luta que o povo imigrante de além mar enfrentou, revestindo-se esse ato praticado pela esfera federal do Brasil, vergonhosa “negação da história e dos fatos sociais acerca da existência das religiões e das perseguições que elas sofreram ao longo da história”. De acordo com o site Justiça em Foco, e G1 Globo, o MPF recorreu da decisão em primeira instância da Justiça Federal para continuar tentando remover os vídeos da plataforma de Streaming do Google.


sábado, 7 de janeiro de 2017

Deixe o Rio Verde correr livremente.



Deixe o Rio Verde correr livremente.
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Com o título Deixe o Rio Verde correr livremente, a ONG Instituto Cisalpina de Pesquisa e Educação Socioambiental e Defesa do Patrimônio Cultural, entregou formalmente, durante a audiência pública realizada em Brasilândia na noite do dia 3 de dezembro de 2015, um abaixo assinado onde 157 cidadãos manifestaram-se contrários à instalação das hidrelétricas propostas para serem construídas no Rio Verde, entre os municípios de Água Clara e Brasilândia.

Sim já fazem 9 anos. Mas, assim como aquela iniciativa solitária de ontem que ocorreu no Clube das Acácias, pode ser comemorada, hoje, ela ainda se nos apresenta como um estímulo a continuar lutando.

A divulgação da audiência pública que ocorreu somente na véspera, lamentamos na época, impediu que a entidade mobilizasse número maior de cidadãos com entendimento contrário à instalação de barragens naquele rio.

O Instituto, na época, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasilândia-STRB, setores do comércio, da Educação e cidadãos comuns, em apenas um dia conseguiu arregimentar 157 assinaturas de pessoas preocupadas com os impactos desses empreendimentos, lembrou João Brito, então presidente do STRB.

No documento entregue ao IMASUL os signatários argumentavam, com base no artigo 5º, inciso IV da Constituição Federal, o direito da livre manifestação, posicionando-se contrários à construção das PCHs de Água Clara e Baixo Verde I e III, propostas pela empresa Minas PCH S.A., cujos impactos atingirão o meio ambiente de Brasilândia e região.

O documento entregue na ocasião dizia: O Rio Verde é um berçário natural da ictiofauna que habita no Rio Paraná e é o local para onde os peixes sobem para desovar nas águas de suas cabeceiras.

Para o Instituto Cisalpina a previsão da construção das tais escadas para os peixes subirem, todos sabemos que na prática esse dispositivo não funciona: o fluxo natural dos cardumes será interrompido, resultando a morte da piscosidade desse rio.

E ao final defendíamos: Queremos que o Rio Verde continue assim, correndo livremente suas águas por entre pedras e as cachoeiras que a PCH São Domingos (construída acima, no mesmo rio) não conseguiu destruir. 

Deixem as águas do Rio Verde correrem livremente para o trânsito do pintado, do dourado e do jaú, peixes nobres cada vez mais raros no prato dos pescadores. Chega de concreto! Poupem as matas ciliares! Protejam a fauna e os corredores ecológicos!

Sim, construir barragens e desviar o curso dos rios não é a vontade de Deus. Energia limpa (eólica e solar) é o que queremos! Ainda há tempo de lutar.

Foto: João Brito de Souza/I.Cisalpina. 
Fonte: Publicado originalmente em 07.Jan.2017. 
Brasilândia/MS, 09 de dezembro de 2024. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016




Arikâ Xehitâ-ha, velho guerreiro Ofaié

Carlos Alberto dos Santos Dutra




Os passarinhos não cantam mais porque estão foragidos de medo: barulho de maquinários que destroem sem piedade. Fogem sem rumo deixando seus filhotinhos para trás. Perdem as suas vidas sem erro nenhum. Meu Deus, quanta ganância por injustiça! E o índio também sofre o mesmo regime. Quando luta pelo seu direito encontra a desgraça imperfeita, criada pelo inimigo desconhecido. Que pensa o homem? Esquece a própria vida, esquece os próprios filhos quando sai para lugares estranhos. Mexer com o índio que nada pensa porque está na sua terra, no seu ranchinho, mesmo sendo esquecido pelas autoridades competentes, que fingem não saber o problema. Se a decisão chegasse com força o índio estaria tranquilo, ia trabalhar mais sossegado, sem desconfiança nenhuma. O índio espera esta oportunidade.

Este poema (Duas Vítimas) é de autoria de um jovem índio Ofaié chamado  Xehitâ-ha, nome indígena que recebeu Ataíde Francisco Rodrigues antes de ser batizado pelos brasileiros, no dia 15 de abril de 1957. Membro da comunidade indígena Ofaié, do tronco macro-jê, descende de uma família de caciques. Antes, porém, era um poeta. Também escritor e líder de seu povo.

Desde jovem dedicou seu trabalho na promoção e defesa da sofrida comunidade a que pertence e a qual ajudou a soerguer-se das cinzas, apontando-lhes uma esperança. Foi muito bem alfabetizado em português, por uma das famílias que, juntamente com outros fazendeiros, acabaram por tomar suas terras. Pode assim, desta forma, através da palavra, falada e escrita, atuar de forma decisiva, levando adiante as aspirações de seu povo. Com a sensibilidade e erudição que lhe foi sempre peculiar, manifestou suas ideias, desenvolveu a poesia, resgatou a história e semeou um rumo para a nação Ofaié.

Na introdução do livro “Ofaié, morte e vida de um povo”, editado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, em 1996, Xehitâ-ha nos brindou com uma pequena parte da sua produção de escritos paridos dez anos antes, quando o conheci, e que sobreviveu às constantes andanças e perseguições que têm sido vítima estes tradicionais caçadores e coletores da margem direita do rio Paraná e que mantinham sob domínio e controle uma extensa área onde habitavam desde o rio Sucuriú até o rio Ivinhema.

Não poucas vezes seu caderninho de anotações extraviou-se. E, pacientemente, lá o encontramos, sob a lamparina, a escrever tudo de novo, revivendo em silêncio cada momento sofrido nos campos do abandono pelos órgãos oficiais.

Lutador incansável pela sobrevivência de seu povo, sua rica produção de escritos  -- que hoje integra o acervo do Núcleo de Documentação Histórica Honório de Souza Carneiro,  da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Três Lagoas-MS --, revela o quanto seu empenho e seu comprometimento com a luta pela terra ancestral de seu povo marcou a história deste Estado.

De forma admirável, desafia os senhores da terra com seu canto de poesia e dor. Seus relatos, ora em tom áspero e profundo, ora emocionado e pueril, navega entre o lírico e o rasteiro, carregando nas palavras toda a força de sua narrativa.

Sua história, assim como a sobrevivência da língua deste povo, mais do que um lamento a ser ouvido, é o grito, de indignada esperança, que se traduz inteira na carência de solidariedade devida.

Solidariedade que este velho guerreiro, meu irmão, que aprendi a admirar e respeitar, no dia de seu passamento, 13 de dezembro de 2016, há de contemplar lá do alto da colina, onde os pássaros voam livres e em paz. E onde o espírito repousa no Agã-chanagui de sua e nossa existência.

Arikâ Kren-graí. Adeus Xehitâ-ha Ofaié.

Para saber mais sobre Xehitâ-ha, acesse http://www.ndh.ufms.br/?page_id=943

Foto: Bill Gann (Fotógrafo da Revista Nathional Geographic), 1991.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Os pássaros e a beleza do Rio Verde.


A preocupação com o meio ambiente, infelizmente, hoje, se faz notar somente por uma minoria que se posiciona publicamente contra as agressões praticada contra ela. É incrível. Com toda a tecnologia e informação disponível ainda vemos nos dias atuais homens maduros gastando parte do seu tempo produtivo capturando animais silvestres. Causa indignação a recente noticia que em Santa Rita do Pardo um cidadão foi flagrado criando 17 aves silvestres em cativeiro no assentamento rural Porto Seguro, segundo o Portal G1.

Atitude digna não de uma criança, pois os jovens hoje estão aí a ensinar como se deve respeitar o meio ambiente em ações e projetos que são o orgulho para muitos pais e professores. A notícia diz que ele foi multado em 9 mil reais. Faz-me rir. Como coisa que multas contra pessoas que agridem o meio ambiente fossem pagas ou modificassem a mentalidade primitiva dessas pessoas.

A lá estavam na residência do assentado três paturis, um canário-da-terra, cinco pássaros-pretos, quatro curiós, três coleirinhas e um sangue-de-boi, que estavam em 15 gaiolas a espera de compradores que vivem do tráfico de animais. Mais que isso, pássaros que lá estavam – oxalá -, a espera que algum vizinho levantasse a voz e denunciasse este ato criminoso praticado contra a vida desses animais indefesos.

Cá no nosso quintal, a natureza também não está segura. Como se não bastasse as dezenas de atropelamentos de animais silvestres pelas estradas, sobretudo pela BR 158 que atravessa a Reserva Cilsapina e diversas áreas de preservação e maciço florestal plantado entre Brasilândia e Três Lagoas, a ação predatória do homem engrossa a fila dos destruidores da natureza.

Há poucos dias a Polícia Militar Ambiental autuou e multou um homem de 35 anos por derrubar árvores nas margens do curso d’água de um riozinho cristalino que atravessa o loteamento Beleza Rio Verde, aqui em Brasilândia. Um loteamento criado para o deleite daqueles que curtem a natureza, na margem de um dos rios mais piscosos que existiu na Costa Leste Sul Mato-grossense, eis que este cidadão, resolve, a seu bel prazer, degradar 10 mil metros quadrados de mata ciliar que protege as margens desse rio, que é Área de Preservação Permanente (APP) protegida por lei.

A notícia informa que ele deverá pagar uma multa de 5 mil reais e apresentar um plano de recuperação de área degrada. Área degrada, registre-se, que ele próprio degradou. Recuperação que, aliás, nunca será igual e com a mesma diversidade implantada ao longo do tempo pela natureza pela margem do rio que serviu e serve de alimento para a fauna deste córrego Beleza e deságua seu caudal a poucos metros no Rio Verde.

Assim como os pássaros, presos e debatendo-se em minúsculas gaiolas, assim também se vai a beleza dos rios quando solapamos suas matas ciliares e o sufocamos com nossa irresponsabilidade. (Por Carlos Alberto dos Santos Dutra)