segunda-feira, 20 de julho de 2020


Os candidatos, a memória e as ruas.
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Eleições em clima de pandemia e isolamento social soam estranhas e contraditórias, uma vez que toda campanha eleitoral exige contato físico: tapinha nas costas; pegar criança no colo; beijar senhoras idosas; andar muito e não economizar palavras, comprometendo-se pouco. 

A nova realidade imposta pelo Covid-19 fez com que o pleito deste ano, mesmo tendo sido adiado por alguns dias, deva ser realizado de uma forma totalmente diferente. Exigirá dos candidatos elaborar melhor seus discursos e seu poder de convencimento.

O palanque ao nível do chão neste contexto deverá ser singular e distante dos grandes problemas nacionais e estaduais, focando sobremaneira as demandas locais. E tudo sob uma forte influência da concepção diversa de campanha vivida até então pelos cidadãos e cidadãs. 

Na verdade os eleitores de hoje são outros, diferentes daqueles que votaram em 2016. Mudança verificada, sobretudo em razão da popularidade e influência que as redes sociais assumiram na vida de cada um, onde as notícias e os segredos palacianos estão ao alcance de todos, diuturnamente expostos nas redes sociais: o que exigirá redobrada atenção do eleitor para a conduta social e as propostas apresentadas por cada candidato.

A reflexão aqui, entretanto, é a escolha que cada um será chamado a fazer. E parte de uma dupla perspectiva: a primeira, voltada para a vida pregressa e o modus operandi que este candidato já tenha praticado ou afirme possuir, capaz de intervir sobre a realidade, para mudá-la ou para melhorá-la. 

E a segunda, o olhar daqueles eleitores que entendem o candidato e o exercício de seu mandato, como uma extensão de seus interesses pessoais, algo como se ele fosse um funcionário seu e que devesse cumprir tão somente o que tenha prometido.

Ambas as visões tem seus méritos e deméritos. A última, por ser norteada por uma leitura clientelista e utilitarista do agente político, o candidato será eleito para satisfazer o desejo do eleitor, geralmente, de natureza assistencial, quando não assistencialista. O que exige do candidato altos investimentos e gastos em bens materiais e numerário para cativar e manter esse eleitor sob sua tutela, o que lhe garantirá, não sem desprezo e repreensão pública, o seu sucesso eleitoral.

A primeira visão, ao contrário, mantém-se no horizonte de ampla parcela da população que entende o candidato como um servidor do bem comum a partir das demandas sociais, culturais, econômicas e de bem estar da sociedade que irá representar. 

O voto de cada cidadão aqui se reveste de um poder-dever que transcende o interesse pessoal de cada um, uma vez que ele representa a soma de todos os interesses pessoais, o que torna sua proposta coletiva, comum a todos os cidadãos da comunidade.

Ainda assim, o interesse individual de cada um prevalece, uma vez que ele está subjacente, representado no conjunto de demandas elencadas pelo candidato ideal que se empenha para levar a diante o seu mandato de forma representativa. 

Desejos pequenos e grandes, assim, se misturam nesse conjunto chamado plano de governo, para o candidato prefeito, e propostas legislativas, para o candidato vereador. De modo que o cidadão pode tranquilamente dizer que aquele candidato lhe representa!

Um desejo, entretanto, é lançado aos candidatos à edilidade, confessa este eleitor em particular, cidadão já avançado em idade e experiência também no legislativo, qual seja: que a memória de Brasilândia seja preservada! 

Entende que tudo pode ser executado de uma forma simples e com demanda de pouquíssimo esforço. Algo como assumir uma das atribuições natas do agente político, tanto do prefeito como do vereador: a de colocar nome nas ruas. 

Pode parecer pouco, mas isso representa uma réstia de sensibilidade que o candidato pode comprometer-se, não somente pelo sentimento de natureza familiar, homenageando entes queridos parentes ou de amigos seus, mas pelo alcance cultural que tal iniciativa representa: preservar nos contornos da história oficial o nome dos fundadores, logradouros, estruturas, ícones e imagens presentes no mosaico da memória local.

Isso porque é pelo nome das ruas que se percebe o quanto um município preserva os seus valores, sendo que as vias públicas, através das placas indicativas do trânsito e outras afixadas no frontispício de prédios públicos, servem de indicador ao transeunte para os feitos inscritos na heráldica do lugar. Mais que isso, é uma sala de aula aberta, ao ar livre, ensinando e enaltecendo os feitos do passado e do presente em uma narrativa visual.

Na pesquisa que atualmente este escrevinhador realiza para a coleção História e Memória de Brasilândia/MS (cujo 1º volume já se encontra publicado) deparamo-nos com nomes de antigas ruas, projetadas ainda pelo fundador do patrimônio Arthur Höffig e os engenheiros da COTERP, onomástica que foi mudada pelos agentes públicos de ontem e também de tempos mais recentes: foram apagados da história.

Houve um tempo também onde um vereador de Brasilândia já havia se rebelado contra isso quando propôs um projeto de lei que foi sancionado pelo prefeito da época proibindo a mudança de nome das ruas, como uma forma de coibir o desaparecimento do nome de vultos e logradouros que fizeram a história local.

A lei sancionada, felizmente, foi colocada em prática. E não mais foram substituídos nome de ruas em nossa cidade. Um dos artigos desta Lei (nº 2.063/05), porém, ficou silente e não mereceu a mesma atenção dos nobres edis que sucederam o antigo vereador: o artigo que previa a reposição dos nomes antigos de ruas que foram subtraídos da oficialidade sendo conferido às novas ruas que fossem criadas.

Desta forma - confia o ex-vereador autor -, deverá fazer parte da plataforma de governo e/ou proposta legislativa de um candidato a proposta de resgatar a memória desprezada, garantindo a recomposição desta realidade, dando cores novas àqueles nomes que participaram da construção desta terra.

Nome Original 
(Que deverá ser recolocado em Ruas)
Nome Modificado (Atual)
Av. Arapuá
Av. Wilson de Arruda
Rua Chavantes
Rua dos Fundadores
Rua Cisalpina
Rua Hélio Martinez Júnior
Rua Clementina dos Santos
Rua João Paulo da Silva
Rua Fátima
Rua Anézio Zanoni
Rua Gastão Jordão
Rua Manuel Galdino de Souza
Rua Horácio Gea
Rua Aguimão Fernandes
Rua João de Lima
Rua Gerônimo Caetano Barbosa
Rua Lauro Ramalho
Rua João Augusto Fonseca
Rua Leonel Ferreira
Rua Raimundo de Assis Alencar
Av. Panorama
Rua José Estevam da Silva Filho
Av. Rio Verde
Av. Manoel Vicente
Rua Santa Fé
Rua Oclidio Zanardi
Rua Três Lagoas
Rua Jeremias Borges

Que sejam, pois, reconduzidos ao cenário da história oficial da cidade, através de projeto de lei, o nomes destes cidadãos e cidadãs, logradouros, signos da história da cidade esperança, devolvendo, assim, a dignidade e o respeito àqueles que, cristalizados no tempo aqui chegaram e aqui viveram muito antes de nós. 

Alguém poderá dizer que este é um desejo pessoal e, portanto, condenável. Talvez o seja em parte, porém, o seu alcance assume dimensão universal. Ao reconduzir personagens e ícones que marcaram a história de Brasilândia ao cenário da oficialidade o agente político presta relevante serviço à memória desta cidade, recolocando-os no pedestal da história. 

Brasilândia/MS, 20 de Julho de 2020.
Aniversário da Páscoa Definitiva do pioneiro Antônio de Souza Oliveira (Tunicão)


domingo, 12 de julho de 2020


O exemplo, a autoridade e a obediência

Carlos Alberto dos Santos Dutra (*)



Em tempo de Covid-19, que imprime medidas sanitárias e o preventivo isolamento social a todos, uma fotografia publicada na página do facebook da Diocese de Três Lagoas chamou atenção deste escrevinhador. 

Foi por ocasião da celebração de ordenação sacerdotal do então neodiácono, agora padre, Ronaldo Rodrigues da Silva, ocorrido no dia 11 de julho último, quando o bispo Dom Luiz Knupp Gonçalves impôs as mãos sobre o neo-sacerdote naquela abençoada celebração eucarística de ordenação presbiteral.

E lá estava aquela autoridade eclesiástica, no exercício de suas funções e missão, por assim dizer, no seu ambiente de trabalho, sem prejuízo algum a terceiros, usando máscara. 

A sua frente, igualmente, recebendo as ordens ministeriais do representante da Igreja ordinária local, se encontrava o jovem padre também usando máscara. Ambos em plena harmonia, protegendo-se e dando proteção aos que se encontravam a sua volta.

O quadro agora está completo. Para além do mistério e reverência que o rito romano encerra naquele momento sagrado digno dos anjos celestes e da ação do Espírito Santo, que desce à terra ao encontro de seus fiéis amados. 

Para além dos que creem e os que não creem nesta realidade teândrica que move os cristãos no mundo inteiro: o quadro em si inspira, sobretudo, a virtude da obediência e do exemplo.

Obediência, porque todos sabem o poder de morte que o novo Coronavirus possui. Mais de 70 mil almas brasileiras já foram ceifadas por esta pandemia que acomete quase dois milhões de irmãos só em solo pátrio, sobretudo os mais desamparados.

Obediência às orientações sanitárias decretadas pelos órgãos oficiais de saúde publica que todos, de sã consciência, são uníssonos em defender e pregar. O isolamento social e o uso de máscara para se proteger e proteger os outros da disseminação desta peste é o mandamento do dia que se chama hoje.

Obediência que - muitos podem até não concordar se elas são adequadas ou não, porém consenso entre os especialistas infectologistas, e demais especialidades médicas -, são as mais indicadas e única forma possível de combater a propagação da doença, até que surja uma vacina para imunizar a população que se encontra em permanente risco de morte no mundo inteiro.

Obediência que manifesta o quão frágil nós somos, e que precisamos de proteção. Primeiro: divina, a quem depositamos total confiança no Pai que nos criou e abençoou cumulando-nos de dádivas num mundo maravilhoso de sol, água e paz. 

E segundo: proteção da ciência, da inteligência, também ofertada por Deus, aos nossos cientistas, sobretudo no campo da medicina que é exemplo para o mundo todo, estando na vanguarda das descobertas científicas, tantas vezes desprezadas e pouco apoiadas.

E, síntese de tudo isso: o exemplo de quem pratica e que podemos aprender com a lição autoral como esta que nos foi graciosa e providencialmente dada pelo nosso superior e seu servo. 

Ambos, ao revestirem-se dos cuidados exigidos para a função e o trato com os demais, preventivamente usando máscaras em público, na internet, no jornal, no dia a dia, eles dão o maior exemplo às demais autoridades civis e militares do país. 

Mostram que ninguém está acima da Lei, que submete a todos. E para o que crê, nenhuma autoridade está acima da Lei de Deus, que, como bons filhos devemos obedecer com humildade e confiança.

Exemplo a ser seguido por todo o cristão, a começar pelos fiéis católicos, à exemplo de seu bispo, por padres, diáconos, religiosos, ministros e leigos. 

Diz o ditado cuja autoria é atribuída a Confúcio: ‘o argumento convence, mas o exemplo arrasta’. 

É o que aquela foto nos inspira, além do registro que marca na retina e nos corações dos que a veem: um momento divinamente impar de sintonia entre o céu e a terra, entre a obediência e o exemplo, entre a Salvação e a cura.

Brasilândia/MS, 12 de julho de 2020.
(*) 64 anos, diácono permanente na Paróquia Cristo Bom Pastor, em Brasilândia/MS.



sexta-feira, 26 de junho de 2020


Feliz Aniversário Domingos Cristovão Ribeiro.
Carlos Alberto dos Santos Dutra.

Prestar uma homenagem em vida sempre configura desafio, e fazê-la a um homem cuja biografia transcende o entendimento comum, transforma-se em verdadeiro ato de heroísmo. Mas comecemos, não pelo começo, mas pela parte mais visível da história daquele que pretendemos prestar tributo.

Corria o último ano da década de 1980 e no plenário da Câmara Municipal de Brasilândia, sempre muito concorrida, pelo fato das sessões ocorreram a noite e a sede do Legislativo estar situado no coração da comarca, lá estava um novato cidadão chegado à cidade e que frequentava quase que assiduamente as sessões legislativas.

E não por acaso, havia um motivo muito simples para isso: a satisfação de ouvir o Domingão falar. Tratava-se do vereador Domingos Cristovão Ribeiro que, ao som de seu sotaque português, acalorava os debates ao fazer uso da tribuna e fazer seus pronunciamentos. 

Causava inquietação na plateia e arrepios nos colegas parlamentares. Homem culto e falante, não tinha trava na língua e sempre defendia suas ideias e ideais com convicção em alto e bom tom.

Embora nada tivesse de ideológico que o aproximasse do novato, causava admiração e imprimia respeito ao forasteiro, fazendo-o lembrar da frase de Evelyn Beatrice Hall atribuída a Voltaire: Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.

Foi um dos pioneiros fundadores do PMDB local, antigo comerciante e membro de diversas entidades. Seu primeiro passo importante na política foi quando se candidatou a prefeito de Brasilândia depois de romper com lideranças internas do partido o que culminou numa situação inédita, nunca vista: um partido concorrer com dois candidatos ao mesmo cargo no Executivo!

As eleições municipais de 1982 aconteceram no mesmo dia que as eleições gerais para Governador e Congresso Nacional: 15 de novembro daquele ano. Foi a última eleição realizada sob a égide do Regime Militar de 1964. 

Nesta insólita eleição, lá estavam concorrendo para o cargo de prefeito três candidatos: Neuza Paulino Maia, que foi eleita, pelo PDS, com 1.740 votos; Domingos Cristovão Ribeiro, pelo PMDB, que obteve 1.025 votos; e João de Abreu Lima Filho, também pelo PMDB, que obteve 602 votos.

Não disponho da cronologia política oficial do homenageado, mas consta que seis anos depois, em 1988, ele elegeu-se vereador com 164 votos, pelo PMDB, disputando uma acirrada eleição onde participaram não menos do que 70 candidatos a uma vaga no Legislativo municipal, no mandato do prefeito eleito José Cândido da Silva.

Neste mandato atuou e participou decisivamente na instalação da Constituinte Municipal que foi responsável pela elaboração da Lei Orgânica Municipal aprovada em 1991. E o vereador português estava lá, ao lado dos demais que, sob a presidência do vereador Marcílio Borges Pedroso, instruiu e ajudou a firmar o ordenamento jurídico que norteia o município até os dias atuais.

O nosso homenageado também teve reveses. Nas eleições de 1992 ao que parece concorreu pelo PTB buscando uma reeleição, porém não conseguiu repetir a façanha anterior: obteve 79 votos e ficou em 27º lugar entre os 46 candidatos ao Legislativo que disputaram as eleições naquele ano.

A lista de suas indicações e projeto certamente se encontra nos arquivos da Casa de Leis da cidade das quais este cronista não teve acesso. Sem condições e tempo de ali pesquisar, atenho-me apenas às amareladas páginas do jurássico Jornal de Brasilândia, de mais de 30 anos atrás, para lembrar uma delas.

Foi a grande homenagem que este vereador prestou em 1991 ao segundo prefeito de Brasilândia, Patrocínio de Souza Marinho, indicando o seu nome para o Terminal Rodoviário de Brasilândia que foi inaugurado no ano seguinte.

Neste seu aniversário, comemorado e festejado no dia 25 de junho, quando completou 82 anos de vida, nosso desejo era poder contar toda a sua historia, mas a memória nos falta. 

Ao relembrar esses fatos -- alguns deles podem até estar incorretos --, queremos dizer que a caminhada de ontem é o motor que deve impulsioná-lo para o amanhã.

Mais que isso, nosso desejo é que os anos lhe sejam leves e a caminhada suave pela estrada que soube tão bem construir ao lado de dona Ignez Llorent Ribeiro, sua saudosa esposa, os filhos que Deus lhe deu, e a comunidade que o acolheu.

E dê de ombros, desculpando os tropeços e os percalços da estrada que às vezes, pedregosa, nos toma de assalto: eles servem para manter o nosso espírito em alerta. 

Assim como diz o poeta para nos acalmar: para manter a mente quieta, a espinha ereta, e o coração tranquilo. 

Feliz Aniversário Domingos Cristovão Ribeiro. 
Saúde e Felicidades.

Brasilândia/MS, 26 de junho de 2020.


quarta-feira, 24 de junho de 2020





A fotografia, o coração e o milagre.
Carlos Alberto dos Santos Dutra



A fotografia parece uma pintura. A cor verde simbolizando a esperança é como se navegasse em meio ao azul do mar que dá sustentação e envolve o quadro. Tudo para dar destaque ao centro que brilha: um verde claro que parece luz.

Ali mora o coração que pulsa daquelas profissionais que fazem a vida pulsar e acontecer. Cheios de fé e boa vontade, mesmo tropeçando no desconhecido que a cada dia se apresenta sempre novo colocando todos em risco, elas erguem a cabeça e ousam olhar para o amanhã.

E lá está ela em meio a tudo, confiante em Deus, do trabalho que realiza, do esforço que põe em prática todos os dias para fazer pequenos milagres acontecerem, à semelhança do rio que sempre corre em direção ao mar.

Os que estavam a sua volta, talvez, nem soubessem, nem ouvissem o rugido de um leão contido dentro do peito, querendo gritar, dizendo ao vento que pare, dissipando o medo que a todos assombra!

O dia está claro e dispensa o flash. Aqueles rostos, por detrás de máscaras parecem luz que emana daquele verde-claro; contrasta com o verde-escuro e o azul que adorna o quadro, numa combinação perfeita, divina até.

O coração da fotografia está repleto de vida. E em pensamento, abraça, sorri, deseja sorte, sucesso e esperança. São braços erguidos, olhares para o alto, gestos pedindo aos Céus para que a tempestade passe...

E que o brilho daquela imagem – tendo a Saúde ao centro – seja eterno, e cumule a todos de alegria, confiança e tudo o mais.

Brasilândia/MS, 24 de junho de 2020.

sexta-feira, 19 de junho de 2020



O Auxílio Emergencial e a Mumunha
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Vivemos num país cujo emprego de meios ilegais para benefício próprio campeia. Vira e mexe e nos deparamos com algum negócio ilícito, uma artimanha, uma mutreta. Desde aquelas que circulam pelos escaninhos palacianos do planalto central, até o lugar mais ermo e recôndito. A corrupção não faz distinção: ela se faz sentir entre homens e mulheres, velhos e moços, ricos e pobres.

A divulgação pela Imprensa nos últimos dias, da lista das pessoas beneficiadas com o auxílio emergencial, do governo federal, destinado àqueles informais e/ou desempregados, que faziam jus à ajuda financeira, oportunizou conhecer melhor também o perfil moral das pessoas.

Para alguns, isso só serviu para confirmar o que muitos já sabiam desde os tempos bíblicos: Em meio ao trigo há também o joio, a erva daninha. E como é difícil extirpá-la sem o recurso da educação e da leitura.

Já foi dito: "Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê". E, por assim dizer, pratica barbaridades. Não que a instrução lhe isente da maldade, mas porque ela lhe fornece critérios para não errar. E, se errar (como se aproveitar da miséria humana para tirar proveito próprio), possa ser julgado sem piedade, com o rigor da lei.

Por aqui, isso também não poderia ser diferente. É o que se depreende ao deitar os olhos pela longa lista de 2.748 pessoas que foram beneficiadas com a ajuda emergencial em Brasilândia, lista essa publicada pelo Jornal Midia Max que pode ser acessado AQUI. 

É possível encontrar ali nomes conhecidos de nossa cidade, nomes que nem de longe careceriam receber tal ajuda. Há de fazer a ressalva, entretanto, sobre alguns nomes e CPFs que poderão ter sido inseridos por terceiros ou equivocadamente, sem o conhecimento dos titulares, portanto inocentes. Desde que, convenhamos, não tenham ido até o banco retirar a quantia injustamente depositada na sua conta. 

A maior parte dos beneficiados, todos sabemos, são pessoas que notadamente são carecedoras desta ajuda emergencial, auxílio que lhe representa a própria subsistência nestes tempos de isolamento social e pandemia. Porém, ver ao lado desses mais necessitados, cidadãos, assim chamados "de bem", partilhando desses valores, usufruindo dessas migalhas é muito triste. É tirar o pão da boca do pobre; é desprezar a humanidade; é tiranizar a justiça, é debochar da imagem de Deus (Eclesiástico 34,25).

O Site do Jornal Midia Max, mencionando que as informações publicadas são todas oficiais, disponibilizadas pelo Portal da Transparência do Governo Federal, mantido pela Controladoria-Geral da União-CGU, incentiva e sugere que o ‘controle social’ seja exercido com a participação ativa da população no combate à corrupção com a devida denúncia sobre suspeitas e fraudes no pagamento do Auxílio Emergencial.

Brasilândia/MS, 19 de junho de 2020

quarta-feira, 27 de maio de 2020


O dia que a Cidade Esperança venceu o Covid-19
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Aquele dia o céu de Brasilândia amanheceu coberto de belas nuvens, num tom rosa que surpreendia seus moradores. A aurora naquela manhã irradiava um sol brilhante deitando seus raios sobre os campos, sobre as ruas e sobre as casas da Cidade Esperança que lentamente despertava para mais um dia. Mas o efeito de euforia que causava se fazia sentir mais no coração e na alma das pessoas que saíam às ruas para saudar aquele dia singular.

Sim. Aquele não era um dia qualquer. Havia algo de especial, algo envolvente e agradável que o diferenciava dos demais: uma aura de luz e satisfação que causava alegria em todos. A população saiu de suas casas, contemplou aquela imagem irradiante como se estivesse bebendo néctar de uma fonte luminosa e retornou para seus afazeres cotidianos, mas de um jeito diferente.

A maioria deles se dirigiu ao trabalho e deram graças a Deus porque a grande empresa onde trabalhavam como empregados, ela ainda estava lá e os acolheu. Outros ergueram a porta de seus pequenos negócios e voltaram a vender seus produtos cheios de satisfação a sorrir. E outros, tendo em mãos carrinhos, bicicletas, enxadas, pincéis, alicates e outros, como ambulantes e autônomos, puderam vender e prestar seus serviços ao público voltando a viver.

Outro grupo, basicamente de senhoras e senhores idosos, depois de arrumar seus filhos e netos, e os deixar na escola infantil do bairro, vendo-os correr para os braços das educadoras cheias de saudade, aquele grupo se dirigiu à igreja que finalmente abriu suas portas para os receber. Ali então puderam fazer suas orações com os olhos voltados para a Cruz e a Hóstia santa no sacrário, cheias de esperança e fé.

Aquelas pessoas tinham, sim, muito a agradecer por suas vidas e a saúde de seus familiares. Acreditavam que somente Deus em sua infinita bondade e tolerância para com seus filhos amados poderia ter intercedido por elas e as protegido desta pandemia. Por isso ali estavam, de joelhos, dando graças pela proteção divina.

Em suas preces, em silêncio, manifestavam também gratidão pelos médicos e enfermeiros que, no único hospital da cidade, dedicaram-se de corpo e alma para socorrer aqueles acometidos deste vírus mortal. Foram mãos, braços e rostos, cobertos por luvas, aventais e máscaras de profissionais de saúde carregando e entregando o melhor de si, portando corações sinceros e almas dedicadas a salvar vidas.

Eram agentes de saúde, de todos os níveis; motoristas de ambulâncias; auxiliares e serventes, no cuidado com a limpeza e higienização dos ambientes; foram equipes e horas extras, plantões noturnos e trabalho itinerante, distanciamento social que os privava do convívio da família, dos amigos, situação que exigiu sacrifício a todos. Por essa gente dedicada, por cada recuperação alcançada, sempre festejada, lágrimas de felicidade, tudo a Deus foi ofertado.

Na saída da igreja, quase se esquecendo, uma senhora ainda lembrou a tempo de agradecer a Deus pela mão firme do gestor municipal. Preocupação médica e pulso responsável de um prefeito que impôs a todos a ordem de isolamento, toque de recolher e uso de máscara obrigatória; barreira sanitária, boletins e informativos diários através do rádio e internet. Medidas sanitárias lúcidas e benéficas que ajudaram Brasilândia a conter o vírus e minimizar seus efeitos deletérios e de dor.

Sim. Deus havia sido bom para todos, mesmo para aqueles que nunca acreditaram nas medidas tomadas pela administração municipal e zombaram da inteligência que Deus deu a cada um, esquecendo-se que ‘a sabedoria habita com a prudência e acha conhecimento nos conselhos’ (conforme Provérbios 8,12). As orações não presenciais realizadas nas casas, o terço em família, as celebrações e comunhão da Ceia Pascal de forma espiritual, por todos os crentes no Evangelho, com certeza e humildade podemos reconhecer que foram agradáveis aos olhos de Deus Pai.

A tarde começa a declinar e os moradores da cidade começam a voltar para suas casas; todos com a convicção que mais um dia, com disciplina e fé, foi vencido. O medo e a angústia haviam passado, pelo menos até aquele dia. O distanciamento social vivido por dois meses serviu também para os aproximar ainda mais, e aquela cidade naquela noite, debaixo de um céu estrelado, pode descansar em paz, na confiança de que tudo pode n’Aquele que a fortalece. E voltou a ser feliz.

Brasilândia/MS, 27 de maio de 2020
Dia do Serviço de Saúde.


Foto: Edna Saia/Facebook.

segunda-feira, 18 de maio de 2020


Flores para Zélia Terezinha Luzzi Schio
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Existem situações no presente de nossas vidas que mesmo distantes elas nos remetem ao passado. Assim é, sobretudo, nos momentos de despedida, quando não mais veremos uma pessoa que esteve por muito tempo ao nosso lado, ou que simplesmente passou pela nossa vida.

Com dona Zélia Terezinha Luzzi Schio foi assim. 

Das poucas vezes que estive ao seu lado, lá em Aparecida do Taboado, de onde nos chega a notícia que ela se despediu para sempre de seus familiares e amigos, recordo, a sensação que a circundava era como uma espécie de aura que ia além do seu jeito gentil e elegante  de caminhar e conversar.

Um sopro de conhecimento e vida circundava aquela senhora que foi mãe, professora e manteve com o esposo um acolhedor hotel. De estatura pequena e de aparência frágil transparecia ao contrário, traços firmes, vigor e resistência aos embates cotidianos. 

E não guardou somente para si essa dádiva: isso também foi transferido a seus rebentos que, um a um, herdaram essa virtude, garra e temperança, algo como um encantamento, uma graças que ela deu de presente a cada um de seus filhos.

De poucas palavras, mas de raciocínio reto e ponderado, ao lado do esposo que partiu mais cedo para os campos do Senhor depois de uma longa vida feliz, levou adiante com altruísmo e paciência a tarefa final de seus dias de ser avó e bisavó, mãe conselheira de uma família que sempre lhe devotou agradecida respeito e admiração.

E hoje ao deixá-la na campa escura, assim, tão célere e sem adeus maior, causa em todos nós um vazio na alma fazendo cada um, por derradeiro, recorrer à fé para suportar a dor. 

Fé inquebrantável que dona Zélia sempre professou e que lhe deu forças para seguir em frente, superando as dores dos últimos dias e os dissabores de uma vida inteira.

Fé que impregnou na alma de cada um de seus filhos sábias lições de vivência do amor, do respeito e a certeza de que tudo tem um propósito e que a vida não acaba aqui.

Partes hoje dona Zélia, não sem dor para aqueles que ficam; dor que cala mais fundo no coração de seus eternos filhinhos: Deolir, Deomir, Deolino, Neuza, Maria Luíza, e dos familiares e amigos. 

Sim, Maria Luíza, vossa mãe, esta flor singela foi desabrochar no céu. E com certeza, segurando na mão de Deus e da Virgem Maria, ela foi ao encontro daquele anjo menina que conhecemos, que a espera, de mãos dadas com a linhagem celeste que a antecedeu...

E com um ramalhete de rosas para lhe saudar. 

Descanse em paz, noninha Zélia, mãe dileta dos amigos meus.

Brasilândia/MS, 18 de maio de 2020.