domingo, 19 de junho de 2022

A missão, a fé e a primeira enfermeira de Brasilândia

 

Homenagem às Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado

Diác. Carlos Alberto dos Santos Dutra

 

Corria o dia 4 de janeiro de 2006 e a Paróquia Cristo Bom Pastor recebia um grupo de missionárias admiráveis. Tratava-se da realização do PROMIS, uma experiência ministrada em Brasilândia pelas pioneiras Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, congregação fundada em 1928 e presente na Diocese de Três Lagoas desde 1958. Portadoras de um carisma diferente das demais congregações religiosas da época, tinham como lema: Ir em busca dos mais necessitados e o carisma: Ir em busca... com um pé no convento e outro no mundo.

E lá estavam elas chegando em Brasilândia, sendo recepcionadas pelo padre Lauri Vital Bósio, pároco na época e o grupo de fiéis locais dispostos a caminhar naquela empreitada de fé: as irmãs Ignês Guarnieri; Zélia Lopes; Célia Maria Simeão; Lídia Rodrigues; Maria Aparecida Zanchetta; Geni Reia; Wanda Lupato; Vera Wanda dos Santos. E os agentes locais Felipe Vituriano Neto; Magda Monteiro de Jesus; Regiane de Souza Dias, Eliana Munin Silva Pedrosa; Patrícia Helena Dias; Janaina Lopes da Silva Souza, entre outros.

Durante a missa de abertura dos trabalhos da missão, um acontecimento especial, entretanto, marcou profundamente a vida de todos que lá se encontravam naquele dia. Entre as intenções da celebração estava o 7º dia de falecimento de uma mãe da comunidade, que falecera de parto ao dar à luz uma linda menina que nasceu forte e bela, e recebeu o nome de Natali Raquel.

No Livro Tombo da Paróquia lá encontramos o registro deste momento especial e de alcance histórico digno de ser lembrado nos festejos do jubileu dos 50 anos da Paróquia Cristo Bom Pastor. Foi muito emocionante quando a Irmã Célia Maria tomou a criança nos braços e fez uma prece recordando o tempo que, no início desta Paróquia, ela, sendo enfermeira e parteira, ajudou a muitas mães terem seus filhos e nunca aconteceu de alguma gestante morrer na hora do parto. Era um tempo quando Brasilândia ainda não possuía médico e tampouco hospital...

A emoção tomou conta de todos naquele momento. Embora fosse motivo de dor pelo falecimento da mãe, o ambiente inspirava alegria pela vida da criança sobrevivente e imensa gratidão da comunidade pelas abençoadas mãos daquela irmã-parteira, que pode ser considerada como a primeira mãe de muitos brasilandense, a irmã Célia Maria Simeão.

Da mesma forma todos somos gratos às demais irmãs coordenadoras pelo pioneiro trabalho humano e evangelizador que realizaram: Abigail Dias Batista, Margarida Clementina do Nascimento e Geralda Ferreira da Silva. Elas foram as primeiras vigárias que por 10 anos administraram a Paróquia Cristo Bom Pastor.

As atividades do evento missionário do PROMIS seguiram em frente concentrando suas forças no Reassentamento Novo Porto João André que se viu transformado literalmente em terra de missão: trabalhos em grupo, visitas às famílias e cerâmicas, oficinas de artesanato, recreação infantil e de adultos, leitura orante da Palavra de Deus e celebrações a partir da vida pelas mãos daquelas irmãs missionárias. Manuel Édson Pereira e a Profª Joana Nogueira são citados como lideranças da paróquia que participaram ativamente daquele evento.

Contando com uma zelosa equipe de serviços formada pelas senhoras Vera Lúcia, Luciana, Vermilda, Branca, Cleonice, Marina e dona Chiquinha, o grupo de missionárias e animadores iluminou aquela comunidade, trocando experiências e cumulando de esperança àqueles ribeirinhos egressos da barranca dos rios Verde e Paraná.

No dia 25 de junho a Paróquia Cristo Bom Pastor celebra o jubileu de seus 50 anos de fundação no município de Brasilândia. Data que relembra também a primeira missa campal rezada 15 anos antes pelo padre João Tomes ao pé no Cruzeiro, marco da fundação do município, no dia 21 de abril de 1957.

Sim. Por uma década esta Paróquia criada em 1972 foi confiada por Dom Antônio Barbosa à valorosa congregação das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. Foi uma experiência pioneira na Diocese de Campo Grande, escreveu o padre Ubajara Paz de Figueiredo no Livro Tombo da Paróquia:

Uma paróquia sem os serviços hierárquicos tradicionais, formando a primeira comunidade pastoral católica nesta terra possibilitando aos fiéis da região congregar ao redor de Cristo Bom Pastor e daqueles que O representam, formando uma fervorosa comunidade de fé, de culto, de amor e serviço fraterno.

Muito temos a agradecer a estas irmãs vigárias que desafiaram o mundo para dar seu testemunho de sua missão: realizaram batizados, casamentos, exéquias, catequese, cursos de batismo, preparação do Crisma e matrimônio. Trouxeram vidas ao mundo, promoveram a alegria, o encanto e a arte, encarnaram a vida de sofrimento da comunidade, semearam esperança, celebraram a Palavra de Deus nas igrejas e capelas, na cidade e nas comunidades rurais.

Ao lado dos ribeirinhos, de homens e mulheres trabalhadores rurais sem terra e indígenas, deram o testemunho evangélico e profético; venceram a poeira das estradas e o obstáculo das distâncias, num mundo cominado pelos homens e num tempo de poucos recursos, movidas somente pelo carisma e a fé no Cristo Bom Pastor. Por tudo isso, obrigado Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado de ontem e de hoje.

Sobre o passado, a memória reclama, e é impossível não lembrar:

E lá estava a irmã Abigail ao lado de Dom Geraldo Majela Reis atendendo a comunidade da Capela Santa Bárbara, na Cabeceira Perdida! A irmã Ana atendendo a Capela São Paulo, na Fazenda Cisalpina, e a Capela São Francisco, na Fazenda Boa Esperança! A Irmã Célia, de pequena estatura, na condição de irmã enfermeira, atendia no posto de Saúde.

E lá encontramos a irmã Margarida Baptista viajando até a Debrasa para atender a Capela São José Operário! E a irmã Cacilda percorrendo a barranca do rio Paraná celebrando na Capela Nossa Senhora das Graças, no Porto João André! Cheia de criatividade lá encontramos a irmã Zélia e a valorosa irmã Nair acompanhando a pastoral da terra animando os ribeirinhos e pescadores, sem-terra e indígenas que viviam na barranca do rio Paraná no Porto Cisalpina e Porto João André!

Como não lembrar da irmã Margarida Clementina que atendia a Capela Nossa Senhora Aparecida mesmo antes que existisse o Iate Clube Rio Verde; a irmã Maria Aparecida que acompanhava o Padre quando ele visitava a Paróquia e celebrava missa pelas fazendas da região: Fazenda Mater, Fazenda Almeida, Capela São José dos Jesuítas. Ah, e a irmã Diocenísia, carinhosamente chamada de irmã DIÓ, que estimulava os jovens e se dedicava à catequese de crianças e adultos na paróquia!

Tanto trabalho e muita dedicação. E lá estava a irmã Geni visitando os doentes, de casa em casa, levando esperança e a comunhão aos enfermos. Da mesma forma a irmã Geralda sempre às voltas em reunião com a comissão administrativa da Paróquia ajudando nas promoções e eventos, quermesses e celebrações festivas!

A Irmã Judith prestando assistência espiritual a moradores do distrito de Xavantina, Capela Santa Rita e Capela Nossa Senhora de Fátima, na fazenda Mutum na companhia do padre Antônio Ribeiro. E a irmã Maria de Abreu celebrando nas comunidades rurais das fazendas Córrego Azul, Fazenda Limeira, Capela Nossa Senhora de Fátima, e Sitio Cafezinho. Também a irmã Maria Benedita que subia o rio Verde até os moradores da fazenda do Porto que atravessavam para Arapuá através do cabo de aço num tempo em que o padre vinha de Três Lagoas pela fazenda Arapuá.

Ao lado das irmãs que aqui residiam, muitas outras irmãs colaboradoras passaram por aqui e promoveram encontros, ministraram cursos e animaram a caminhada da igreja nos primeiros anos da Paróquia. Elas permaneceram em Brasilândia até a chegada do primeiro pároco nomeado, o padre Tadeu Kolochievjck, em 1982.

Que Deus abençoe as que aqui hoje se encontram e também as que já partiram para o Reino dos Céus, pelo muito que realizaram e somos gratos. Obrigado Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado. A Paroquia Cristo Bom Pastor as guardará sempre na sua memória. Deus as abençoe.

Publicado originalmente em 18.Jun.2022 e republicado em 18.Jun.2024.

 

 

 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

 

Não chores por mim Amazônia.

Carlos Alberto dos Santos Dutra








Por entre as folhas da mata lá se encontram eles, indefesos. Os gritos ao longe, de ontem, que serviam para os aproximar e comunicar, hoje são encurtados pelos celulares e gps que facilmente os encontram.

As máquinas que revoltam a terra em busca do ouro, as armas de fogo que alcançam longe tirando-lhes a vida, e a violência de grupos de hábitos estranhos que transitam e traficam além fronteira, tudo os assombra e os afugenta.

Ao verem o helicóptero e o barco acenam aparentemente pedindo ajuda, mas estão sempre fugindo do contato. Não sabem em quem confiar, em quem acreditar. As matas e seus rios parecem que vão encolhendo enquanto uma multidão de estranhos vão lhe tomando as terras, consumindo-lhe as forças, oferecendo-lhes favores em troca de suas almas.

É neste contexto de medo e violência que o coração humano de desprendidos cidadãos se lança revestidos de inexplicável altruísmo, em sua defesa. Clamam aos poderes do mundo por justiça, e denunciam um estado de coisas que foge à compreensão do restante do mundo dito civilizado. O lado mais obscuro e perverso da condição humana que se passa no interior do subsolo da floresta amazônica é o roteiro de seus libelos.

Situação claramente sem controle alimentada pela omissão oficial, quando não incentivada pelos próprios poderes instituídos que deveriam ser os responsáveis para impedir que essas tragédias acontecessem: a morte de indígenas, a invasão de suas terras, a extração da madeira, o garimpo clandestino e o livre trânsito de homens armados do tráfico rumo à fronteira.

O desparecimento e provável assassinato do servidor da Funai, Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips, desaparecidos há uma semana, é o retrato mais recente desta tragédia cujas autoridades não têm a hombridade de revelar e reconhecer o quanto é culpada por tudo isso que está acontecendo.

Não chores por mim Amazônia: chore e lute para reverter a política ambiental desastrada do atual governo, para acabar com a intervenção política na Polícia Federal e Funai que substituiu servidores titulares por nomes apadrinhados sem qualquer intenção de pacificar a região. Lute para garantir o direito que os povos da floresta exigem e merecem, devolvendo ao lugar a segurança e a dignidade que a Amazônia inteira espera para viver em paz...

Enquanto isso, a terra se revolta em gemidos de lamento e morte, colecionando seus corpos e lágrimas, suas vítimas e mártires... Até quando?

Brasilândia/MS, 13 de junho de 2022.

domingo, 12 de junho de 2022

Aparecida Ofaié foi ao encontro do mar.

Carlos Alberto dos Santos Dutra














As águas do rio Paraná corriam mansas naqueles tempos de paz. Hanto-grê, sentada na proa do barco balança os pés sobre as águas na descontração da tarde. Perto dela brincam Sebastião, o filho mais velho, e o caçula Can-rê, conhecido pelos brancos por João Carlos. O mundo lhe parecia perfeito, mesmo que não se perguntasse muito sobre isso.

Leva a mão espalmada sobre olhos fixando mais amiúde o olhar que se irradia quando vislumbra entre as folhas da mata que contorna a curva do rio, o companheiro Cri-í, seu marido Eduardinho. E lá está ele coletando o roxinho e o taquari para a confecção de suas flechas e arcos que as constrói com esmero.

Maria Aparecida de Souza é todo sorriso e alegria. Desde que nascera no dia 27 de setembro de 1953, lá pelas bandas da Fazenda Esperança, acompanhou os passos do pai, Sebastião e da mãe Ana Maria, em suas andanças, varando cercas e fugindo do casco do boi e seu dono, mata adentro, cerrado afora.

Conhecer Eduardinho de Souza foi o que de melhor lhe acontecera na vida. Ele, hábil artesão, sempre estava sorridente, desde menino, quando, no dia 12 de fevereiro de 1943 encheu de alegria o pai, seu Paulino e dona Filomena, sua mãe. Depois de adulto, como pai e esposo, cercou-se sempre de uma vida simples e silenciosa, digna de um sábio que na arte do ofício extrai a beleza dos frutos que brotam da terra e dos ares.

Maria Aparecida contentava-se em passar o dia inteiro ao redor do fogo, tomando tererê ou mate, servindo à família, vendo os filhos crescer, mesmo que, sob a fumaça da casinha de sapé, construída com primor para agasalhar os sonhos de uma jovem mãe-mulher, de quando em vez tivesse de endurecer a verve frente aos desafios da vida tribal e o meio ambiente hostil envolvente.

O dia rapidamente declina e as crianças já não brincam mais na margem do rio. O dia esconde logo o seu brilho e o silêncio enche o ambiente com um tom sombrio
prenunciando um temporal. Rapidamente a mulher se transforma. Recolhe seus pertences, mas já não consegue ver quase nada do que restou de sua vida.

De súbito, as crianças somem. A mocinha que há pouco se encantava com seus rebentos, leva as mãos ao rosto e o que encontra são lágrimas. Leva as mãos ao peito e o que encontra são cicatrizes e dores.

Partiu Sebastião, seu primogênito, no dia 25 de janeiro de 1988, com 14 anos de idade, vítima de meningite tuberculosa. Partiu Eduardinho, seu amado companheiro, no dia 2 de fevereiro de 1999, com 55 anos de idade, vítima de doença neoplásica. Partiu João Carlos, Can-rê, condenado a prisão onde ficou distante de sua mãe por mais de dez anos antes de lá falecer... Partiu a aldeia Anodi para longe do rio, tocada pelas máquinas e a ganância civil, servil...

A anciã, que se tornara em segundos, olha a sua volta e percebe que não há mais nada a recolher. Uma espessa neblina cobre-lhe a visão. O barco debate-se vazio. No coração da mata, só o rufar do vento. E uma sensação de solidão toma-lhe o peito ferido pelas marcas do tempo.

Busca retornar à aldeia, vencendo a barranca do rio.
Mas suas pernas parecem-lhe fracas. Grita por socorro para que lhe ajudem a subir para a parte mais alta da margem do rio, onde ali encontrará amparo. Mas sua voz soa longe, longe, longe... Longe demais para o alcance da técnica, das cifras, do progresso... E da sensibilidade de seus pares.

Sente frio, sente-se sozinha. Esquecida naquele turbilhão de descaso, imagens e lembranças, só lhe resta a companhia do vento para acariciar-lhe a face e envolver-lhe os braços, o corpo inteiro e a alma. Impotente, sem forças para subir a barranca para retornar ao centro da aldeia que já foi sua, resigna-se, em silêncio.

Então, ela vira as costas para o mundo que lhe esqueceu. Olha para rio e contempla suas águas revoltas encrespadas pelo vento. O barco continua debater-se, como que resistindo a força que o domina. Corre os olhos sobre a popa – quantas vezes esteve ali sentada, sendo conduzida como uma deusa pelo seu amado, relembra. Depois, olha para a proa, quando um vigor teandrico a envolve e fortalece.

E decide soltas as amarras... Decide deixar livre aquele barco para que rume em direção ao mar. Vai com ele o espírito de seus antepassados. E remam firmes seus patrícios para o encontro com Agachô, o Deus criador Ofaié. --Leve também meus filhos, meu amado e também eu!, pede em silêncio Hanto-grê.

A visão, por causa do diabete, não lhe permite discernir direito, mas lhe parece que o barco enquanto se afasta, está cheio de luzes... E ela, uma espécie de santa, dentro dele segue, flutuando, através daquele rio encantado, parecido com o mar...

Maria Aparecida de Souza, Hanto-grê Ofaié nos deixou no dia 13 de junho de 2014, aos 60 anos de idade. 

sábado, 11 de junho de 2022

 

O círculo bíblico e o reencontro de dona Ana

Carlos Alberto dos Santos Dutra



A mensagem recebida pelo WhatsApp fez aquele rosto irradiar de alegria. Quem lhe dava a notícia era Ceiça, a filha zelosa que se esmerava nos cuidados com a mãe. O círculo bíblico iria retornar seus encontros. E a proposta era que esta primeira reunião fosse realizado na casa daquela octogenária.

Foi a motivação que faltava para aquela senhora que, no alto de seus bem-vividos 89 anos de idade, voltasse a se sentir uma menina, e deixasse de lado a caixa de bordado que vinha se dedicando nos últimos dois anos, desde a pandemia.

Mesmo com o agravo que lhe paralisou o lado esquerdo do corpo e a dor da saudade do esposo Raimundo que cumpriu sua missão aqui na terra e partiu para o Céu deixando-a só, ela, dona Ana nunca desanimou. Continuou a vida dedicando-se a confeccionar seus delicados guardanapos, colocando-os à disposição da obra assistencial da Canção Nova, da qual tornou-se devota colaboradora.

A notícia da realização do 1º Encontro da Novena em Preparação ao Jubileu dos 50 anos da Paróquia Cristo Bom Pastor em sua casa fez com que, naquele dia, ela despertasse mais animada do que o costume. Enquanto as horas corriam, lá estava aquela senhora e seus cabelos muito brancos sentada com os olhos no bordado em ponto cruz, porém, com o coração palpitando a espreita do encontro daquela noite.

Afinal, há mais de 30 anos aquele grupo de moradores se reunia para refletir a Palavra de Deus, desde o início da criação do bairro Cohab Thomaz de Almeida. E lá estava dona Ana e seu Raimundo, sob o impulso de minha mãe, dona Laura, vinda lá da pampa gaúcha, se somando ao grupo que só foi crescendo e se transformando em símbolo de fé e persistência na oração, nutrido na alegria e na amizade daquela gente.

Dona Ana era só encantamento. Ao olhar a sala de sua casa e ver aqueles rostos amigos, alguns já desfigurados e de cabelos brancos, não lhe cabia no peito tanta alegria e emoção.

A novena relembrava a caminhada de evangelização dos 50 anos da Igreja em Brasilândia, mas seu pensamento a fazia viajar em recordações locais: cada vizinho, cada família e tantos amigos que acompanharam aquela santinha -- Nossa Senhora das Graças --, andando de casa em casa, e reunindo em torno de si os pedidos e preces de agradecimento, todas as semanas ao longo dos anos.

Sentada ali, diante de todos, pediu a Deus por cada um daqueles que se mantiveram firmes e perseverantes, mesmo por aqueles que se encontravam ausentes: o tenente Neto e dona Deurides; seu Anibal e dona Júlia; seu Nelson e a saudosa dona Odília; o Carlito e dona Vilma; o Magno; a Vânia; dona Francisca; dona Diva; a Marlene; dona Neide; o Vicente e os saudosos seu Zé e dona Nice; dona Luzia e dona Izalina. Tantas lembranças e alegria pelo nome dos mais recentes que se achegaram ao grupo: o João, a Bete e a grande família do patriarca seu Raimundo sempre presente.

Ao som e melodia dos cantos que faziam chegar ao Céus nossas preces, foi nestes Cículos Bíblicos que uma geração de famílias viram seus filhos crescer, embalados na fé e no amor da Virgem Maria, nutridos na proteção do Pai e na fraternidade do Espírito Santo.

Hoje, os filhos estão criados e dona Ana os contempla olhando nos olhos de cada um e sorri: tenho muito a agradecer a Deus por ter chegado até aqui e poder me sentir abraçada e querida por todos.

Com voz firme e compassada ela sorri admirada com o tamanho das letras -- bem grandes --, do livreto da Novena e dá início aos Ritos Iniciais do encontro como Comentarista. Naquela noite uma luz iluminou o portal daquela casa e da boca de uma senhora abençoada se ouviu uma singela porém poderosa oração que brotava do átrio de seu coração. Obrigado dona Ana. É muito bom estar de volta e celebrando novamente juntos.


Brasilândia/MS, 11 de junho de 2022.

terça-feira, 7 de junho de 2022

Dona Maria, Mãe Cândida de Jesus Diogo.

Carlos Alberto dos Santos Dutra.


Existem mulheres que seu olhar nos confunde. Sobretudo quando transparecem estar revestida de uma aura dourada de santa. Dona Maria tinha esse aspecto e semelhança. Não aquelas santas rosadas, de gesso, intocadas, que vemos nos altares. Nossa Maria, ao contrário, não era de pedra, era de carne e osso, tinha o corpo franzino, braços esguios e percepção cujas imagens lhe pareciam povoadas de sombras. E mesmo assim seu olhar iluminava.

No seu nome, já observamos na tradução o espírito que ela fora concebida. Além de Maria, nome sagrado e que encarna todas as mães e mulheres do mundo, ela também era Cândida: de aspecto brando, de coloração clara, roupas muito alvas, sempre muito franca e de natureza sincera. E como se não bastasse seu nome ainda informava não ser uma cândida qualquer: era Cândida de Jesus, à semelhança da Imaculada, mãe e filha do Salvador.

Pois foi essa mulher, Maria Cândida que, ao casar com o jovem Sebastião, fez a santidade descer dos céus e avizinhar-se na terra. Inicialmente na cidade de Ouro Verde-SP onde plantaram roça para sobreviver e constituíram ali uma família de doze filhos - Luzia, Joaquim, José, Linda, Leontina, Lourdes, João, Sara, Aparecida, Jair, Lúcia, e o caçula, na época, Jorge Justino Diogo.

Foi, entretanto pelas mãos da carpintaria exercida pelo esposo que aquele casal venceu a pobreza, enfrentou as dificuldades da vida, criou e alimentou os filhos. Tarefa que coube essencialmente a esposa, dona Maria Cândida, que exerceu seu sacerdócio com paciência e afinco, buscando forças do Alto para bem educar seus rebentos no amor e na dignidade. 

Mudaram-se para Brasilândia em 1972, paraíso onde dona Maria Cândida e o esposo viram rebentos novos florirem - Mariana e Luiz - completando a felicidade daquela família. Residindo inicialmente na fazenda Rochedo, onde o senhor Joaquim Medeiros foi um bom patrão e administrador, sempre correto no pagamento,  lembra Jorge, na época com apenas 3 anos de idade, e foram tocando a vida.

Em meio às andanças do marido sempre construindo mangueiros e currais pelas fazendas, requisitado que era pelos bons serviços praticado, lá estava dona Maria Cândida, mulher forte, na porta da casa, fitando o horizonte, domando os desafios do dia a dia, verdadeira matriarca, heroína na defesa de seus filhos.

Mulher religiosa e de retos princípios cristãos participou dos primeiros passos de sua comunidade de fé tendo acompanhado o marido nas reuniões da Comissão de Construção da Nova Igreja Matriz da Paróquia Cristo Bom Pastor no ano de 2001, quando um vendaval destruiu a antiga igreja exigindo o envolvimento e a contribuição de todos os paroquianos na reconstrução do templo.

Mulher simples e lutadora, depois da morte do marido em 2003, permaneceu morando na mesma casa onde construiu seus sonhos, mesmo sentindo cada vez mais a casa vazia pela ausência e a partida dos filhos que um a um foram seguindo seu rumo: casando, mudando, falecendo. Dor que só as mães sentem quando a ordem natural se inverte, pois os pais não deviam enterrar seus filhos.

E ela sobreviveu. Venceu a doença e a perda da visão. E o que parecia ser o final de seus dias, foi o que lhe deu motivo para recomeçar. Na verdade ela nunca desanimou. Diante de aparência tão frágil, escondia-se ali uma sólida fortaleza. Via-se ali a matriz e o cerne de fibra nobre, à semelhança da madeira aplainada pelo esposo em velhas porteiras de fazendas de outrora, que resistiu o vento e a chuva. Deste material essa senhora parecia ter sido construída.

A casa se encontra praticamente vazia. A visão, agora são apenas sombras e nuvens. E em meio à escuridão, lá estava ela, atenta ao ruído do portão. Diante dos passos do desconhecido ela prontamente anunciava o seu nome, conhecendo o visitante apenas pela bulha do andar, antes mesmo de ouvir suas palavras. Quando um filho chegava seu semblante iluminava. Afinal, foram pesinhos, bracinhos e aqueles corpinhos frágeis e queridos que um dia ela aconchegou um a um em seu colo de mãe... E que agora, crescidos, retornavam.

Oh, que alegria quando a casa estava cheia. Toda feliz, lá estava dona Maria Cândida querendo preparar o alimento para os filhos; afinal, foi o que mais fez durante a vida, na regência da casa. E na ânsia de servir, circula pela cozinha, tateia os armários, tropeça, cai, levanta e continua, pouco se importando com a cicatriz que lhe marca o rosto.

Ah, dona Maria Cândida, agora somos nós seus filhos que sentimos falta do seu aconchego e palavras, às vezes duras de repreensão, justamente quando partes. Saudade desses seus braços consumidos pelo trabalho realizado e que garantiu cada um de nós chegar até aqui. Braços vigorosos que nos sustentaram e envolveram, semeando em nós confiança e amor ao próximo. Ah, esse olhar hoje a esmo, outrora cristalino, foi como um raio, um farol de luz, que sempre nos orientou.

Hoje, dona Maria Cândida de Jesus Diogo, teus filhos, netos, bisnetos e toda uma constelação de familiares que construíste e inspirou, tal qual as estrelas do céu, todos ainda choram a sua partida. Porque foste imprescindível para todos, também para os vizinhos e amigos, que a tinham como uma pessoa que soube, através da simplicidade, edificar as colunas de um templo chamado família, testemunho que lhe darão, com certeza, as chaves do Reino Eterno.

E por ter sido uma alma desprendida e caridosa, que nada acumulou durante a vida a não ser generosidade e bem querer, naquele dia 10 de junho de 2019, passado já três anos, quando se apartou de nós para sempre, entre um soluço e uma lágrima, temos o consolo de saber que fostes carregada no colo para o céu pelos anjos do bom Deus. Descanse em paz nossa santa.

Publicado originalmente em 10 de junho de 2019.


segunda-feira, 6 de junho de 2022

Heróis sem rosto:

 

A dengue, a máquina e o homem.
Carlos Alberto dos Santos Dutra



Já estamos quase nos acostumando com aquele zunido pelas ruas da cidade.
Logo ao cair da tarde ou altas horas da manhã, lá está o fumacê da Secretaria Municipal de Saúde aplicando o inseticida contra o mosquito aedes agypti, transmissor da dengue.

A máquina é potente e o jato de fumaça atinge a vegetação e espaço compreendido entre o meio fio da calçada e o muro ou cerca das casas. Busca, assim, eliminar o mosquito instantaneamente sem colocar em risco a saúde humana.

É um rito que quase nem percebemos. Afinal, estamos tão ocupados com o banho das crianças, colocando a rotina da casa em ordem, depois de mais um dia de trabalho, enquanto a noite chega. Ou, já levantando atrasado para mais um dia de labuta, para o corre-corre da vida, e nem colocamos reparo naquele som que passa em frente da nossa casa.

Mas eles estão lá. Após o horário comercial, à noite; ou muito cedo, junto com o sol que começa a iluminar a cidade, lá estão eles ajustando o equipamento (UBV-Ultra Baixo Volume) instalado sobre o veículo da Vigilância em Saúde, e dando partida para mais um dia de prevenção.

Afinal, no ano que findou foram mais de 400 casos confirmados de Dengue, segundo dados do Núcleo de Endemias de Brasilândia. Ao lado das visitas realizadas pelos Agentes de Combate às Endemias nas residências, alertando a população sobre as maneiras de evitar a proliferação do vetor, o combate ao mosquito com o fumacê foi intensificado sobretudo neste período de chuvas.

De distintos pontos da cidade, igualmente, outros profissionais e voluntários iniciam também a sua faina revisitando cada bairro e cada rua da cidade em busca de pesados tambores que carregam no ventre o que restou do consumo: ora aproveitável, reciclável; ora desprezado, rejeitado.

São servidores anônimos, como tantos outros, cuja presença só nos damos conta quando ouvimos o som daquele equipamento que passa, a música da Assobraa que cantarolamos, ou o ruído seco do caminhão da coleta do lixo orgânico da prefeitura.

Achamos isso tão natural que esquecemos que dentro da máquina, dirigindo o veículo ou correndo com fôlego de guepardo, de um lado para o outro, pelas ruas da cidade, seguindo aquele caminhão, existem pessoas, verdadeiros heróis sem rosto.

A crise de humanidade que nos acomete, instigada pela rapidez e frieza da técnica, cada dez mais nos afasta uns dos outros e nos nutre de ingratidão. O distanciamento social e as medidas sanitárias que nos obrigam a esconder o rosto e o sorriso, se tornou o maior desafio para que não nos tornemos de vez mais autômatos.

Isso porque a automação, a tecnologia e o aparato dos equipamentos que nos rodeia: celulares, computadores, controles remotos, mídias sociais, web sites e aplicativos, tudo conspira contra o que ainda nos resta de humanidade, cultura e respeito ao próximo.

Perdemos a capacidade de reconhecer o esforço e resiliência de quem está a nossa volta. E tudo em troca da informação e novidade que nos é enviada por um desconhecido que está do outro lado do mundo. O som do fumacê, do caminhão da Assobraa e a alegria de quem coleta o lixo orgânico, como um estampido no asfalto, nos faz acordar deste delírio.

Obrigado Agentes de Combate às Endemias. Obrigado Agentes Ambientais da Assobraa, pela coleta semanal de matérias recicláveis e que nos ensinam a construirmos um mundo menos egoísta e mais sustentável. Obrigado Motorista do caminhão da coleta de lixo e seu sorriso; obrigado aos valorosos Servidores que cumprem com dedicação e afinco, suando a camisa, a tarefa cuja percepção e gratidão quase sempre nos escapa.

Publicado originalmente em 08/Jan/2021 


domingo, 22 de maio de 2022

História e Memória de Brasilândia/MS Volume IV-Desenvolvimento

 


  


Este livro integra o 4º volume da coleção dedicada aos 50 anos de emancipação político administrativa do município de Brasilândia/MS sob o título História e Memória de Brasilândia/MS reunindo e dando destaque aos eventos históricos que gravitam em torno da Infraestrutura Econômica e Social, O mundo Urbano e Rural que nos Rodeia, e a Administração Pública e o Desenvolvimento que este município empreendeu através dos eventos e realizações que marcaram a sua trajetória, bem como recupera os aspectos históricos das secretarias e programas desenvolvidos pelas administrações ao longo dos anos desta comunidade.

No contexto dos acontecimentos da época em que a memória e os registros alcançam, destacam-se, sobretudo a história das empresas, indústrias, fazendas e o comércio que foram se instalando em Brasilândia, bem como reúne informações sobre demografia, hidrografia, malha viária, produção agrícola e pecuária, entre outras atividades, que revelam o progresso alcançado pelos cidadãos e cidadãs que aqui viveram e ainda vivem.

É uma forma de homenagear a todos que contribuíram e ainda contribuem para o engrandecimento da Cidade Esperança e seu desenvolvimento, garantindo o registro dos esforços desta comunidade, pessoas e instituições, no âmbito público e privado, em promovê-la e perpetuando seus feitos e realizações no tempo e na história.

Para adquirir:

https://clubedeautores.com.br/livro/historia-e-memoria-de-brasilandia-ms-volume-iv-desenvolvimento


Este livro pode estar à venda na:

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Mercado Livre