segunda-feira, 24 de outubro de 2022

 Dona Dirce Marçal e sua Casa Encantada.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


Existem lembranças na nossa vida que atravessam a distância e os anos. Uma delas guardo desde o dia em que cheguei nesta cidade. Em frente a Praça da Matriz, uma casa mantinha presa o olhar de admiração de uma jovem, minha esposa, que dela se afeiçoou.

Corria o ano de 1986 e a casa foi colocada à venda, mas o valor do imóvel excedia em muito as economias do casal missionário que na época se encontrava hospedado na Casa Paroquial localizada em frente.

Anos depois a casa foi vendida. Mas a imagem e lembrança daquela espécie de casa encantada permaneceram. E, por algum motivo especial, o coração do imóvel despertava congraçamento e alegria, também conforto e nostalgia a quem por ali passasse.

Foi quando soube que para lá havia mudado a família da dona Dirce Teresinha de Lima Ferreira, moradores antigos da zona rural de Brasilândia e que aqui deitaram raízes, trabalharam a terra, criaram filhos e netos, e conquistaram o respeito e a admiração de todos. 

Nascida em 4 de agosto de 1938, na cidade de Araçatuba/SP, dona Dirce era filha de Jerônimo e Lioneta, casal de pioneiros lavradores que construíram o seu pequeno lar no interior da fazenda Santa Adélia, na sua terra natal.

Cheia de graça a menina, ela era a primeira filha de uma família de 12 irmãos. Prendada desde criança, aos 16 anos, entretanto, sofreu sua primeira dor, quando perdeu a mãe que faleceu de parto, vendo-se transformada muito cedo em senhora do lar, cabendo a ela a nobre tarefa de cuidar do pai e seus 11 irmãos menores.

Uma vida de responsabilidade que trilhou no percurso de toda sua juventude, sem contudo, tirar-lhe a alegria de viver. Dom que o céu lhe concedeu, através do exemplo vivido, conquistou a beleza e o conhecimento na arte da culinária, o que veio a aperfeiçoar anos mais tarde, quando mais uma vez viu-se só.

No ano de 1960, aos 22 anos, ela conheceu aquele que seria o seu companheiro para toda a vida. Tratava-se de João José Ferreira, também homem do campo, com quem casou, indo morar na Fazenda Santa Paula, no mesmo município de Araçatuba.

Foi em meados de 1964 que ela e o esposo mudaram para a Fazenda Pedra Bonita, quando Brasilândia ainda nem havia nascido. Nesta época o casal já carregava na bagagem a companhia de dois presentes de Deus, suas duas primeiras filhas: Maria Aparecida e Maria Helena.

Foi ali, como administrador da Fazenda Pedra Bonita, depois de substituir o senhor Tobias Molgora, que o esposo de dona Dirce adquiriu o apelido de João da Pedra, tornando-se muito conhecido e referência nos negócios de produtos agrícolas na cidade.

Foi ali que o casal venceu os desafios da vida no campo, em meio a índios e trabalhadores braçais, por longos anos, nunca desanimando. Construíram laços de amizade com os demais moradores
da antiga propriedade da família Megid que se extendia desde a antiga Tora Queimada até onde a vista alcança, ao longo da margem direita do rio Paraná.

Ah, como o tempo voa...

A chegada do menino Marcos Antônio Ferreira e, depois, o caçula João José Ferreira Júnior, completou a satisfação da família trazendo um novo brilho para o casal batalhador. Resolveram, então, mudar para a cidade.

A mudança para o centro da cidade deu-se no ano de 1989, mas o coração e os hábitos de trabalhadores de origem simples, eles trouxeram juntos com seus pertences, virtudes nobres que jamais se apartaram. E lá estava a mãe matriarca, dona Dirce, zelando pela saúde e sustento da família enquanto o pai, seu João, dedicava-se ao pequeno comércio que instalara na esquina da antiga Avenida Panorama.

Antes de completar 10 anos que a família se encontrava residindo na cidade, no dia 12 de junho de 1998, o esposo João José Ferreira, o seu João da Pedra faleceu. E lá encontramos dona Dirce viúva, em sua casa encantada, novamente, sem medo da vida, caminhando corajosa e escrevendo sua história.

História que os felizes rebentos: 4 filhos, 6 netos e 10 bisnetos ajudaram ela desenhar, palavra por palavra, enquanto a cobriam de beijos e abraços, reunindo-se felizes nos encontros de família. Todos hão de recordar com orgulho e alegria daquela que foi uma generosa, educada e brilhante senhora.

Dona Dirce faleceu no dia 18 de outubro de 2020, aos 82 anos de idade, deixando uma família rica em virtude e gratidão, todos cheios de saudades, e muito brio pela dignidade e grandeza desta doce guerreira.

Ela que, durante os últimos anos de vida, brindou a cidade com o seu maior dom: maravilhosas refeições de festas, juntamente com suas irmãs, soube dar sabor a vida. Imanava dela sempre gestos comedidos de simplicidade e generosa profundidade que marcava a todos que dela se aproximavam.

Ainda hoje quando passo em frente da antiga casa que guardou nas paredes seus sonhos e realizações, vejo familiares ali reunidos. Percorro os olhos em direção ao frontispício daquele lar em busca das flores que ela ali semeou...

E parece que sinto, como uma inspiração que vem do céu, no murmúrio das vozes em forma de canção, o quanto o coração de dona Dirce se alegra ao ver aquela casa, de novo, repleta de filhos, netos e bisnetos, em reunião de família, que era o seu maior desejo e alegria.

Contemplo tudo e vejo que a felicidade, ainda que doa a saudade, ela está de volta. O tempo pode dizer que não é época de flores, mas o bálsamo, a mansidão e a força de dona Dirce, sim, ainda permencem naquele lar...

Publicado originalmente em 23 de outubro de 2020. Também em DUTRA, C.A.S. Quando eu me chamar saudade, Brasilândia/MS, 2021, pág. 92.


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

 

COMO FUNDAR UMA ASSOCIAÇÃO

Carlos Alberto dos Santos Dutra


Este artigo originalmente publicado no antigo Jornal Dia a Dia, em fevereiro de 2000, há 22 anos portanto, merecia ser revisado antes de ser republicado. Porém, dada a urgência de um pedido da parte de um amigo, e o mesmo ainda se apresentar atual, eis que o torno público novamente. O enunciado faz parte do livro O Mendigo das Estrelas, crônicas brasilandenses, que circulou em 1ª edição no ano de 2005 e em 2ª edição no ano de 2016, às pág. 252-257 e se encontra disponível para consulta na Biblioteca Municipal Professora Abadia dos Santos, de nossa cidade.

Pois bem.

Muitos aventuram-se a fundar uma associação sem qualquer conhecimento sobre o assunto. Eis que dias atrás fui procurado pelos senhores Ovídio Lopes de Oliveira e Jair Bezerra Xavier que me solicitaram algumas dicas sobre o assunto. Em rápidas palavras tracei o rito para criação e registro de uma entidade. Inicialmente é necessário realizar uma reunião dos interessados e eleição de uma Comissão Provisória que ficará encarregada de elaborar a minuta do Estatuto, marcar a data da Assembleia Geral de Fundação e preparar o Edital de Convocação de todos os interessados para esta Assembleia com antecedência de 15 a 30 dias, devendo constar a Ordem do Dia, local e horário da Assembleia de Fundação. 

A divulgação e publicidade deste ato é importante para que ele não venha posteriormente ser contestada a sua legitimidade. Recomenda-se a publicação deste Edital em jornal local. Na falta de jornal, ler na Rádio e afixar na Câmara Municipal e Fórum local, além de outros locais que julgar necessário. A comissão deverá providenciar um Livro de Atas onde lavrará a Ata de criação da Comissão Provisória (Ata n.º 1) Pró Fundação da Associação X, registrando, além da presença dos presentes, os objetivos da Comissão bem como sua eleição. Para a Assembleia de Fundação (Ata n.º 2, no mesmo livro) deverá ser providenciado antecipadamente cédulas e uma urna para a eleição. 

No dia da Assembleia colher as assinaturas de todos os presentes na reunião no livro de Ata. Escrever no cabeçalho: Lista de Presença dos Participantes da Assembleia de Fundação da Associação X. inicialmente só estes primeiros é que constituem a Associação podendo candidatar-se a cargos eletivos e votar (sócios fundadores). Composta a mesa formada do Presidente, Secretário e Escrutinador, procede-se à leitura da Ordem do Dia, encaminhando a discussão e votação dos itens do Edital, conforme o caso. 

Nesta Assembleia de Fundação será discutido e aprovado do Estatuto Social; será eleita a 1ª diretoria e conselho fiscal, conforme esteja previsto no Estatuto. Quando existir mais de uma chapa, elas devem ser registradas antes do início do processo eleitoral. Na prática, nesta Assembleia de Fundação obedece-se ao seguinte roteiro: Iniciado os trabalhos da Assembleia (explica-se os motivos da Assembleia), logo se dá por aberto o período para inscrição de chapas. Digamos, se a Assembleia inicia as 8:00 horas, deverá reservar-se até as 11:00 horas para a inscrição de chapas. 

Inscreve-se a chapa da situação (preparada pela equipe da comissão provisória) e aguarda-se a chegada de uma nova chapa. É recomendado esperar esse período mínimo para não se alegar depois que não ouve oportunidade para todos concorrer. A Comissão Provisória deverá providenciar ficha de inscrição onde conste nome, filiação, endereço, CIC e RG dos candidatos, que deverão ficar a disposição dos presentes para, querendo, poderem montar uma chapa e se inscrever. Só devem ser aceitas chapas completas. Encerrando o período de inscrição, providencia-se a eleição, com cédulas e urna. Após a eleição o resultado da apuração deve ser registrado em Ata de Fundação (ou Constituição) da Associação, mencionando-se na Ata que imediatamente após a proclamação dos resultados da eleição, deu-se a posse da Diretoria. (O Estatuto da Associação deve ser aprovado primeiro). 

Durante o desenrolar-se da eleição no Livro de Atas logo abaixo da lista de presentes, (sem deixar linha em branco) inicia-se a redação da Ata de Fundação, Eleição e Posse e Aprovação de Estatuto da Associação e tudo lavrado da Associação. Termos da Ata (sugestão) – “reuniu-se em Assembleia Geral convocada pela Comissão Provisória eleita em (data), os moradores do bairro X, com a finalidade de aprovar o Estatuto da Associação X, e eleger a primeira Diretoria da Associação (...) Realizada a abertura dos trabalhos pelo Presidente da Comissão Provisória, Sr. Fulano de tal, foi passada a palavra para o Sr. (secretário) que procedeu a leitura do Estatuto e seus artigos, fazendo-se os esclarecimentos necessários às dúvidas apresentadas pelos moradores presentes. 

Depois de lido e discutido, foi colocado sob regime de votação sendo aprovado por unanimidade (por voto secreto) ou (por aclamação) de todos os presentes. Após a aprovação do Estatuto, abriu o período para a inscrição de chapas para concorrer à Diretoria da Associação X. inscrita somente uma chapa, procedeu-se a eleição nos termos do Estatuto (Artigo X) já aprovado. 

Foram eleitos por voto secreto e direto os integrantes da chapa única para a Diretoria (e Conselho Deliberativo). Foram eleitos para a Diretoria: Presidente: Fulano de tal, Secretário: (conforme a estrutura da Associação. Ao mencionar os nomes dos membros da Diretoria eleita elencar, nome, estado civil, profissão, CIC, RG e endereço. Prossegue a Ata: Nos termos do artigo X do Estatuto foram proclamados eleitos os membros da diretoria (e conselho deliberativo, conforme o caso), tomando posse imediatamente, e assumindo o exercício no ato da proclamação, ficando acertado que o Presidente da Associação providenciará o mais rápido possível a publicação do extrato de estatuto no Diário Oficial, sua inscrição no Registro Civil das pessoas jurídicas e posterior cadastramento na Secretaria Municipal de Assistência Social. Nada a mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a Assembleia... Eu, fulano de tal, secretário da Associação, que lavrei a presente Ata que vai assinada por mim e pela diretoria empossada. 

Depois de criada a associação, providencia-se o seu registro ao cartório de Títulos e documentos, para que a entidade obtenha personalidade jurídica. Para isso é necessário que previamente se publique no Diário Oficial do Estado (DOE) o Extrato de Estatuto (que é um resumo do que é, para que serve, como funciona e como está formada a entidade, tudo previsto no estatuto. Uma meia lauda datilografada basta, pois o DOE cobra o preço por cm2). 

De posse de dois exemplares do jornal em que foi publicado o Edital de Convocação (ou cópia do mesmo com o recebi do órgão público, comprovando que houve a fixação do mesmo na repartição); cópia de dois exemplares do DOE em que foi publicado o Extrato de Estatuto; cópia da Ata de Constituição da Associação, o Livro de Atas e de Presenças e 2 cópias do Estatuto, sendo uma cópia original e outra xerox. Deve-se apresentar também a relação atual da Diretoria com a indicação de nome, nacionalidade, estado civil, profissão, residência, CPF, RG de todos os membros da Diretoria. Ao Presidente cabe fazer um pequeno requerimento ao Cartório solicitando o registro do Estatuto. A taxa cobrada pelo Cartório varia atualmente em torno de R$ 50.00 (cinquenta reais). 

O passo seguinte é a inscrição da entidade no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, o CNPJ (antigo CGC/MF) que é expedido pela Receita Federal. Para obter este documento a entidade deve apresentar o Estatuto devidamente registrado, cópia do Extrato do Estatuto publicada no DOE e preencher as fichas de inscrição que tem formulários padronizados naquela repartição (escritórios também fazem isso via internet com rapidez). Exige-se também cópia da Ata da Constituição da entidade (Presidente) e comprovante de residência. Depois de recebido o número, a entidade deve providenciar a confecção de o carimbo (CNPJ). 

Para fins de obtenção de recursos através de convênios em nível e esfera governamental municipal, estadual e federal, recomenda-se, ainda obter uma declaração de utilidade pública, inicialmente municipal, (depois, conforme a área de abrangência da entidade, também a estadual e federal), enviando requerimento ao Prefeito em papel timbrado da entidade ou com o carimbo da mesma anexando ao documento cópia do cartão do CNPJ, o atestado passado pelo Conselho Municipal de Assistência Social (ou Promoção Social) ou autoridade local comprovando o funcionamento da entidade; prova de que os cargos não são remunerados (deve constar no Estatuto); cópia da Ata de Fundação; relação nominal da Diretoria; relatório de atividades e balanço financeiro dos últimos três anos. 

A entidade poderá (e deverá) ainda ser cadastrada na Secretaria Municipal de Ação Social de Brasilândia, através de requerimento dirigido à Secretaria solicitando seu cadastro. A documentação necessária é a mesma requerida para a obtenção da declaração de utilidade pública. Em Brasilândia existe Portaria (ou Decreto) regulamentando isso. (Verificar na Câmara Municipal). 

O passo seguinte (e final) para a obtenção de recursos em nível federal é o registro no Conselho Nacional de Assistência social, que exige uma longa e específica documentação. De antemão é bom frisar que o CNAS somente aceitará o pedido de registro se o Estatuto da entidade estabelecer claramente: a) que não fará distribuição de lucro entre seus participantes; b) que em caso de dissolução o patrimônio será destinado à outra instituição registrada no CNAS; c) que a Assembleia o órgão máximo; d) que possui Conselho Fiscal com atuação permanente; e) que todos os sócios efetivos podem votar e ser votados; f) que não haverá cargos de direção vitalícios, e que não se fará distinção de raça, sexo, credo religioso ou político de seus associados. 

Espero que estas dicas auxiliem os interessados de minha comunidade na formação desse importante instrumento de luta popular. Pela democratização do poder e da informação!

Brasilândia/MS, 20 de outubro de 2022.

Ilustração: https://www.uninassau.edu.br/noticias/encontro-de-diretores-de-escolas-acontece-na-uninassau.html





quarta-feira, 19 de outubro de 2022

 

Dona Fidelcina de Souza Brito, os sonhos, a família e a terra.
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Texto - Imagem - Voz

Falar sobre pessoas é sempre um desafio, sobretudo no momento da despedida. O coração embarga e as palavras faltam. Principalmente quando a perda é de um amigo. No desejo de lhe prestarmos solidariedade naquele momento de dor, inevitavelmente nos vem à mente o desejo de exaltar a memória daquele que parte. Ainda mais quando se trata do bem mais precioso que carregamos no peito, para toda a vida: a nossa mãe.

E lá a encontramos, ainda em sua juventude ao lado do esposo, rodeada dos filhos, olhando o futuro naqueles tempos primeiros, há cinquenta anos atrás. Assim foi com dona Fidelcina de Souza Brito. Desde quando nasceu no dia 4 de março de 1929 seus sonhos sempre os teve, e nunca lhe intimidou a vida simples da roça; atravessou infância e juventude sempre com força e coragem.

Depois de moça, casada com Antônio Benedito de Souza, construiu e manteve o leme da casa com sabedoria e segurança, educando os cinco filhos que Deus lhe deu: Jandira, Benedito, José, Antônio Aparecido e Irineu. Ao lado do esposo aportou por Brasilândia no dia 21 de setembro de 1969, quando a cidade ainda era uma criança, tinha apenas quatro anos de emancipação político-administrativa, lembra o filho Irineu de Souza Brito.
 
Antes de aqui chegar, vindo do Estado da Bahia, a família passou por Erculândia até Ouro Verde como trabalhadora rural, derrubando mata e formando plantações de café para fazendeiros da região. Com o passar dos anos, conseguiram tocar sua própria plantação de café em regime de porcentagem com os cafeicultores da alta paulista, recorda com orgulho o filho Irineu.

E foi ali, no Sitio São Benedito, que uma das famílias mais antigas da Brasilândia que emergia instalou-se permanecendo até os dias atuais. Dona Fidelcina, de voz firme e comedida, espalma a mão de lavradora sobre os olhos e mira longe a poeira do estradão da antiga estrada do porto, hoje praticamente zona urbana no município de Brasilândia.

Ah, como o tempo voa.

Na lembrança saudosa do filho Irineu, a memória ainda está lá rodopiando nos pensamentos. Quando a família aqui chegou vinda de São João do Pau D’Álho era ano eleitoral: Era 1969 e a cidade realizava um comínio do então candidato a prefeito Julião de Lima Maia. Chegando ao bairro Pipoca, em frente ao bairro Cabeceira Perdida, ali tinha um time de futebol dirigido pelo saudoso José Rodrigues, e onde os filhos da dona Fidelcina foram se enturmando e onde o Zé Brito mostrou mais habilidade com a bola do que o caçula Irineu, sorri o irmão ao contar.

O esposo de dona Fidelcina faleceu em 27 de janeiro de 1988 quando os filhos já estavam criados e realizados. E que logo cercaram a mamãe viúva de flores, netos, genros e noras, sobrinhos e amigos, tornando sua vida mais leve e feliz, depois da dura luta pela sobrevivência comum àqueles que vivem da terra.

Os anos passaram e a idade chegou e, junto dela, os abalos à saúde. Mas manteve-se firme, sempre lúcida e olhar aguçado, tal qual um angico de firme cerne, esteio da casa, sempre conselheira, norte de fé, apontando o rumo e a experiência dos mais antigos: era capaz de dar a vida se preciso para manter a palavra, a dignidade e a reverência, virtude comum aos simples que viviam no campo.

Dona Fidelcina, carinhosamente chamada de Dezinha, fez sua Páscoa hoje. O legado que deixa depois de 91 anos de vida para os filhos e netos é, sem dúvida, a inspiração e força que vem da terra, da agricultura, da família, dos valores e da fé. Deve, sim, a família Brito, sentir-se honrada e agradecida a Deus por ter acompanhado a trajetória desta senhora, que foi mãe de dois vereadores de Brasilândia e uma legião de amigos.

Mais que isso: resta sentir gratidão por ter recebido de seus braços, desde a juventude até seus últimos dias, o maior presente que uma mãe pode dar ao filho: a vida, o exemplo e o afeto. Descanse em Paz dona Fidelcina.

 

Publicado originalmente em 19 de outubro de 2020.

domingo, 16 de outubro de 2022

 Que fizeram de ti, meu velho Clube Ferroviário Apolo?

Carlos Alberto dos Santos Dutra

Poesia VOZ

A última imagem que tinha do velho Apolo era essa. Ereto e ainda com cobertura. À semelhança de um velho Charrua, mantinha a dignidade de um posteiro. Resistindo a intempérie e a brisa dos ventos vindo da pampa nua gaúcha.

Ainda depositava alguma esperança no bom senso dos homens, Prefeito, Governador, Presidente. Achei que haveriam de recuperá-lo para o patrimônio histórico, honrando a tradição da minha, da nossa Cacequi. O Cacequi dos meus recuerdos.

Só que os administradores já não pensam mais no ontem. E tampouco no amanhã... Esquecem rápido o que os antigos fizeram, de bom. Já não olham mais para trás, acham-se donos do mundo e do futuro. E rapidamente passam a borracha nos trilhos da história. E apagam tudo, riscando da memória o feito de seus pais.

É uma lástima ver agora o que restou daquele grande clube. Dá vergonha olhar. Dá mais vergonha olhar para os responsáveis por tamanho crime praticado contra o patrimônio do povo.

Mas ei-lo aí, imponente: Tapera. A foto de um gigante nos últimos estertores...

E eis que desperto do saudosismo que me embala para longe da realidade. Coloco os pés no chão. E custo acreditar.

Ah! como dói ver esta foto. É como se as paredes gritassem. Tal qual o apito das locomotivas feridas, encostadas no pátio do depósito, teimando em permanecer de pé. Sobrevida que esperam e a saudade que alimentam.

Parece que foi ontem, éramos meninos, cheios de sonhos e planos. E pulávamos os vagões para chegar cedo no baile. Que começava as 20 horas. E a meia noite, nosso pai já vigiava nossa chegada em casa. E éramos felizes.

Ah! o tempo bom... Aquela escada pomposa do clube para chegar ao salão... E ao longe a bulha do taco da bota cantando. Que orgulho subir aqueles degraus e encontrar o salão cheio. Prendas rodando, a a fina estampa ferroviária vivia os seus melhores dias.

O abandono do prédio é o retrato da decadência. Dos chamados tempos modernos.
Para não dizer da irresponsabilidade dos governantes que voltam às costas para a história de sua gente, de sua terra.

Enquanto o cidadão, em silêncio, tudo assiste...
Acabrunhado e ao mesmo tempo pasmo, diante de tão podres poderes... E em razão deste episódio, considero-me de luto. Até, me refazer deste pialo.

 

Publicado originalmente em 12.Mar.2012. Também em DUTRA, C.A.S., Diálogos impertinentes e crônicas de adeus, Brasilândia, 2020, pág. 217; Trilha: Unforgiven: Claudia’s Theme (Lennie Niehaus, 1994); Voz: Carlito Dutra


quarta-feira, 12 de outubro de 2022

 

Vicente Perpetuo Vieira, adeus.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 











Existem pessoas que nosso olhar pouco percebe. Elas passam ao nosso lado, nos servem e seguem seu caminho, sem qualquer deferência de nossa parte. E elas estão ali, na maior parte das vezes sorridente, desapegadas de nossos sentimentos de gratidão nem sempre presente em nosso rosto. 

Ele era uma dessas pessoas. Não fosse o respeito e educação que era possuidor, sua aparência esguia e trejeito próprio, seria confundido com andarilho. Ainda que bem vestido e asseado, não lhe denotavam importância, era algo como se fosse invisível. 

Conheci-o nos encontros bíblicos lá na casa da centenária dona Idalina, seu Simplício, e a penca de irmãos, filhos, neto e amigos de uma das famílias mais antigas deste lugar. Abraçado ao seu violão demonstrava sempre alegria quando falava através das cordas de seu instrumento. 

Também em dupla com sua irmã dona Odília, cantavam músicas sertanejas de raiz que faziam a gente pensar longe, como que viajando no tempo. Ao lado de seu cunhado, seu Nelson, com sua gaita e o Fita, com o violão ou o teclado, animavam muitas festas na comunidade. 

Servidor público municipal no cargo de zelador trabalhou muitos anos na Prefeitura de Brasilândia/MS; na Praça Santa Maria, como guarda e jardineiro; também prestou serviço em escolas e diversos órgãos, lotado que era na Secretaria Municipal de Educação. 

Pouco reconhecido pelo seu trabalho, desempenhou suas funções sempre em silêncio, erguendo a voz raras vezes, quando incompreendido e desprezado. Aposentou-se em 2019, já com problemas de saúde, porém, sempre disposto a ensinar violão a quem o procurasse. 

Pois este homem simples e sorridente e que estava sempre de bem com a vida, nos deixou na véspera da festa de Nossas Senhora Aparecida de quem era devoto e a ela entoou, por muitos anos no coral da Paróquia Cristo Bom Pastor, louvores à mãe do Criador. Com certeza foi tocar um hino à Mãe Morena, fazendo coro com os anjos, com sua querida irmã dona Odília e seus amigos músicos que lá se encontram, no céu.

Descanse em paz amigo Vicente Perpétuo Vieira.

 

Brasilândia/MS, 12 de outubro de 2022.

 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Campanha Política de 2006

 

Era uma vez uma Campanha Política.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

As campanhas políticas marcam a vida da gente. Participar de campanhas eleitorais municipais é uma experiência desafiadora, pois os votos são conquistados corpo a corpo. E se exerce uma vigilância maior sobre os candidatos, o que exige empatia e convivência comunitária. 

Nas campanhas de eleições gerais, entretanto, o mesmo não acontece. Via de regra nos deparamos com candidatos distantes que, sequer o conhecemos. E isso pode configurar numa vantagem pois exige que o eleitor pesquise mais sobre a vida e história pregressa deste cidadão ou cidadã. 

Inobstante, em ambos os casos, o desafio é o mesmo: exige conquistar o eleitorado espalhado em quaisquer partes da federação. 

As eleições de 2006, ocorrida há 16 anos, é um exemplo disso. E oportuniza a este escrevinhador relembrar, com saudade, desta experiência sempre nova a quem se decide por ela trilhar.

Convidado a ser candidato a Governador do Mato Grosso do Sul pelo PSOL, ele aceitou o desafio, mesmo durante o curto mandato do então estreante na vereança em Brasilândia. 

Era a primeira vez que o partido de Heloisa Helena se lançava a Presidência da República e arregimentava o sonho de transformar este país, garantindo avançar mais na participação popular e na gestão da coisa pública que, por razão de ser, devia ser gerido por todos. 

Meu pai, na época, quando soube na proposta, em sua humildade, perguntou ao filho se não era uma coisa muito alta que estava tentando. --Mas quem poderia tirar da cabeça de um sonhador a chance de mostrar que é possível organizar a sociedade e os recursos públicos de forma a garantir a sobrevivência de todos? 

E lá estávamos nós, com parcos recursos, percorrendo algumas poucas cidades do Estado levando a proposta inovadora do PSOL e PSTU coligados com a bandeira da Frente de Esquerda para o campo e a cidade. 

A mídia, sobretudo a TV, naquela época foi instrumento decisivo na divulgação das ideias de um partido que dispunha menos de dois minutos para enfrentar os poderosos PMDB (Puccinelli), PT (Delcidio), e os chamados nanicos PV (Livio) e MDC (Amarilha). 

No final da história Carlito Dutra acabou com um honroso 3º lugar, com 6.282 votos no Estado, sendo que Brasilândia confiou 347 votos ao seu conterrâneo. 

Mas o texto aqui não quer discorrer sobre esta eleição, o faremos isso através de um livro que deverá contar melhor essa história. Por ora, mencionamos os links dos principais momentos desta caminhada de 2006. Para conforto, reconhecimento e homenagem a todos os envolvidos, e para que persistam alimentando o desejo e estímulo para nunca desanimar e deixar de sonhar. 

Brasilândia/MS, 11 de outubro de 2022.


Campanha da Frente de Esquerda de 2006.

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/frente-de-esquerda-psol-pstu-2006.html


Entrevistas Canal Foco no Campo: 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/foco-no-campo-reforma-agraria.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/blog-post.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/blog-post_30.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/blog-post_6035.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/05/blog-post.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/05/foco-no-campo-desenvolvimento.html

 

 

Laços fora! Mato Grosso do Sul

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 








Não há muito tempo, sentíamos o maior orgulho em poder manifestar nossas cores partidárias. Agitar bandeiras e distribuir santinhos era uma atividade digna e revelava consciência política. Demonstrava, além da disposição em assumir nossas ideias, era o nosso jeito de revelar o patriotismo e acreditar na governança. 

De quando em vez algum desencontro de torcida e conflitos naturais paridos no calor da disputa. Tal qual torcedores de futebol, ao se encontrarem, cada qual sempre querendo mostrar o quanto seu time era ou foi melhor que o outro na partida. 

Terminado o confronto, e lá iam todos para o mesmo bar tomar uma cervejinha festejando a vitória ou amargando a derrota. Afinal, a vida continuava, assim como a amizade que, depois daquele acontecimento, às vezes saía ainda mais fortalecida. 

Hoje, os tempos são outros. É como se um tsunami sombrio carregado de maldade e periculosidade tivesse caído sobre os ombros de antigos militantes. Não se olha mais nos olhos com a alma, sente-se medo de sair às ruas ou falar de política com o vizinho. Corre-se o risco de perder amizades e perceber que nossos gestos não são compreendido e respeitados, como manifestação livre de nossa consciência e direito de nos posicionar. 

O que vemos agora não é mais aquela alegria de outrora, com agitos de bandeiras e caminhadas em mutirão, com distribuição de santinhos e conversas animadas pelas ruas e comitês partidários. Sob o domínio das redes sociais, os chamados cabos eleitorais, agora são arregimentados via WhatsApp e recebem pelos seus serviços, por demanda, através do aplicativo pix. 

Esta atividade, de militância, tornou-se agora mera fonte de renda, sobretudo para a classe mais pobre que neste período eleitoral respira mais aliviada com o ganho de alguns trocados, migalhas de um fundo eleitoral de bilhões aprovado pelos deputados. E lá vão eles a cabreto, oferecendo em troca, sem qualquer fidelidade, os seus préstimos, seus contatos e veículos para adesivar, ainda que timidamente. 

Neste ano, depois de um debatido 1º turno, motivado pela TV e os institutos de pesquisa, as eleições gerais chegaram ao 2º turno. Tal situação, sobretudo em Mato Grosso do Sul, colocou os cidadãos em geral numa encruzilhada. Sobretudo em relação à eleição para Governador. Digo isso pelo fato de os dois candidatos que concorrem - Riedel e Contar -, serem os representantes do candidato à reeleição, presidente Bolsonaro. 

Em que pese estejam vinculados à siglas distintas, em 30 de outubro próximo, Riedel (PSDB-45) e Contar (PRTB-28) deverão bater os cascos (como se dizia no meu tempo de quartel) em continência ao Capitão Bolsonaro (PL-22). 

Embora alguns setores ligados a campanha de Lula (PT-13) alimentasse a esperança de uma aliança com Riedel, este já afirmou apoio ao candidato Bolsonaro, a quem declara estar junto desde o início da corrida eleitoral. 

Conforme já noticiado pelo jornal Correio do Estado, desde o primeiro turno, o diretório estadual do PSDB fechou apoio a Bolsonaro e, até o momento, mantém a mesma linha. Diferentemente da executiva nacional que, no primeiro turno, havia declarado apoio à candidata Simone Tebet (MDB). 

Já em relação ao 2º turno, a executiva nacional do PSDB divulgou que havia liberado os diretórios estaduais e filiados para as eleições presidenciais. Ou seja, em âmbito nacional o partido não escolheu nenhum lado e os estados estavam livres para tomar qualquer decisão.  

Da mesma forma a executiva estadual do PT colocou o abacaxi na mão dos filiados liberando-os para votar livremente em quem bem entendesse. 

Em outras palavras, isso quer dizer que o eleitor em Mato Grosso do Sul não terá muito o que escolher. Aquele que deverá ocupar o Palácio Guaicuru deverá ser, por afinidade, necessariamente um súdito de Bolsonaro

Se isso representa vantagem para aqueles que esperam que o Estado repita o mesmo número de votos que o chamado Mito alcançou no 1º turno (52,70%), somente as urnas no dia 30 de outubro poderão revelar. 

Enquanto o Mato Grosso do Sul corre risco de ficar isolado na caserna pantaneira, de sorte contrária, a esperança é redobrar as forças em torno do candidato Lula, único nome disponível para ocupar a Presidência da República que representa o laços fora! ao aniversariante neste 11 de outubro, em face do nefasto regime que emana do Planalto. E garantir o soerguimento de um país em desmonte cuja armadilha de um impeachment aprisionou e calou os brasileiros por 6 anos.


Brasilândia/MS, 11 de outubro de 2022.

Dia do aniversário da Divisão do Estado de Mato Grosso.


Foto: Nelson Cruz. A cadeira do rei. Petrópolis, 2020. In Esconderijos do tempo. Cristiane Rogério, 14.Out.2021. O que se fez pelo poder no Brasil.

Fonte: Correio do Estado. https://correiodoestado.com.br/politica/e-falsa-imagem-de-whatsapp-que-associa-riedel-a-lula/405693