quarta-feira, 19 de outubro de 2022

 

Dona Fidelcina de Souza Brito, os sonhos, a família e a terra.
Carlos Alberto dos Santos Dutra


Texto - Imagem - Voz

Falar sobre pessoas é sempre um desafio, sobretudo no momento da despedida. O coração embarga e as palavras faltam. Principalmente quando a perda é de um amigo. No desejo de lhe prestarmos solidariedade naquele momento de dor, inevitavelmente nos vem à mente o desejo de exaltar a memória daquele que parte. Ainda mais quando se trata do bem mais precioso que carregamos no peito, para toda a vida: a nossa mãe.

E lá a encontramos, ainda em sua juventude ao lado do esposo, rodeada dos filhos, olhando o futuro naqueles tempos primeiros, há cinquenta anos atrás. Assim foi com dona Fidelcina de Souza Brito. Desde quando nasceu no dia 4 de março de 1929 seus sonhos sempre os teve, e nunca lhe intimidou a vida simples da roça; atravessou infância e juventude sempre com força e coragem.

Depois de moça, casada com Antônio Benedito de Souza, construiu e manteve o leme da casa com sabedoria e segurança, educando os cinco filhos que Deus lhe deu: Jandira, Benedito, José, Antônio Aparecido e Irineu. Ao lado do esposo aportou por Brasilândia no dia 21 de setembro de 1969, quando a cidade ainda era uma criança, tinha apenas quatro anos de emancipação político-administrativa, lembra o filho Irineu de Souza Brito.
 
Antes de aqui chegar, vindo do Estado da Bahia, a família passou por Erculândia até Ouro Verde como trabalhadora rural, derrubando mata e formando plantações de café para fazendeiros da região. Com o passar dos anos, conseguiram tocar sua própria plantação de café em regime de porcentagem com os cafeicultores da alta paulista, recorda com orgulho o filho Irineu.

E foi ali, no Sitio São Benedito, que uma das famílias mais antigas da Brasilândia que emergia instalou-se permanecendo até os dias atuais. Dona Fidelcina, de voz firme e comedida, espalma a mão de lavradora sobre os olhos e mira longe a poeira do estradão da antiga estrada do porto, hoje praticamente zona urbana no município de Brasilândia.

Ah, como o tempo voa.

Na lembrança saudosa do filho Irineu, a memória ainda está lá rodopiando nos pensamentos. Quando a família aqui chegou vinda de São João do Pau D’Álho era ano eleitoral: Era 1969 e a cidade realizava um comínio do então candidato a prefeito Julião de Lima Maia. Chegando ao bairro Pipoca, em frente ao bairro Cabeceira Perdida, ali tinha um time de futebol dirigido pelo saudoso José Rodrigues, e onde os filhos da dona Fidelcina foram se enturmando e onde o Zé Brito mostrou mais habilidade com a bola do que o caçula Irineu, sorri o irmão ao contar.

O esposo de dona Fidelcina faleceu em 27 de janeiro de 1988 quando os filhos já estavam criados e realizados. E que logo cercaram a mamãe viúva de flores, netos, genros e noras, sobrinhos e amigos, tornando sua vida mais leve e feliz, depois da dura luta pela sobrevivência comum àqueles que vivem da terra.

Os anos passaram e a idade chegou e, junto dela, os abalos à saúde. Mas manteve-se firme, sempre lúcida e olhar aguçado, tal qual um angico de firme cerne, esteio da casa, sempre conselheira, norte de fé, apontando o rumo e a experiência dos mais antigos: era capaz de dar a vida se preciso para manter a palavra, a dignidade e a reverência, virtude comum aos simples que viviam no campo.

Dona Fidelcina, carinhosamente chamada de Dezinha, fez sua Páscoa hoje. O legado que deixa depois de 91 anos de vida para os filhos e netos é, sem dúvida, a inspiração e força que vem da terra, da agricultura, da família, dos valores e da fé. Deve, sim, a família Brito, sentir-se honrada e agradecida a Deus por ter acompanhado a trajetória desta senhora, que foi mãe de dois vereadores de Brasilândia e uma legião de amigos.

Mais que isso: resta sentir gratidão por ter recebido de seus braços, desde a juventude até seus últimos dias, o maior presente que uma mãe pode dar ao filho: a vida, o exemplo e o afeto. Descanse em Paz dona Fidelcina.

 

Publicado originalmente em 19 de outubro de 2020.

domingo, 16 de outubro de 2022

 Que fizeram de ti, meu velho Clube Ferroviário Apolo?

Carlos Alberto dos Santos Dutra

Poesia VOZ

A última imagem que tinha do velho Apolo era essa. Ereto e ainda com cobertura. À semelhança de um velho Charrua, mantinha a dignidade de um posteiro. Resistindo a intempérie e a brisa dos ventos vindo da pampa nua gaúcha.

Ainda depositava alguma esperança no bom senso dos homens, Prefeito, Governador, Presidente. Achei que haveriam de recuperá-lo para o patrimônio histórico, honrando a tradição da minha, da nossa Cacequi. O Cacequi dos meus recuerdos.

Só que os administradores já não pensam mais no ontem. E tampouco no amanhã... Esquecem rápido o que os antigos fizeram, de bom. Já não olham mais para trás, acham-se donos do mundo e do futuro. E rapidamente passam a borracha nos trilhos da história. E apagam tudo, riscando da memória o feito de seus pais.

É uma lástima ver agora o que restou daquele grande clube. Dá vergonha olhar. Dá mais vergonha olhar para os responsáveis por tamanho crime praticado contra o patrimônio do povo.

Mas ei-lo aí, imponente: Tapera. A foto de um gigante nos últimos estertores...

E eis que desperto do saudosismo que me embala para longe da realidade. Coloco os pés no chão. E custo acreditar.

Ah! como dói ver esta foto. É como se as paredes gritassem. Tal qual o apito das locomotivas feridas, encostadas no pátio do depósito, teimando em permanecer de pé. Sobrevida que esperam e a saudade que alimentam.

Parece que foi ontem, éramos meninos, cheios de sonhos e planos. E pulávamos os vagões para chegar cedo no baile. Que começava as 20 horas. E a meia noite, nosso pai já vigiava nossa chegada em casa. E éramos felizes.

Ah! o tempo bom... Aquela escada pomposa do clube para chegar ao salão... E ao longe a bulha do taco da bota cantando. Que orgulho subir aqueles degraus e encontrar o salão cheio. Prendas rodando, a a fina estampa ferroviária vivia os seus melhores dias.

O abandono do prédio é o retrato da decadência. Dos chamados tempos modernos.
Para não dizer da irresponsabilidade dos governantes que voltam às costas para a história de sua gente, de sua terra.

Enquanto o cidadão, em silêncio, tudo assiste...
Acabrunhado e ao mesmo tempo pasmo, diante de tão podres poderes... E em razão deste episódio, considero-me de luto. Até, me refazer deste pialo.

 

Publicado originalmente em 12.Mar.2012. Também em DUTRA, C.A.S., Diálogos impertinentes e crônicas de adeus, Brasilândia, 2020, pág. 217; Trilha: Unforgiven: Claudia’s Theme (Lennie Niehaus, 1994); Voz: Carlito Dutra


quarta-feira, 12 de outubro de 2022

 

Vicente Perpetuo Vieira, adeus.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 











Existem pessoas que nosso olhar pouco percebe. Elas passam ao nosso lado, nos servem e seguem seu caminho, sem qualquer deferência de nossa parte. E elas estão ali, na maior parte das vezes sorridente, desapegadas de nossos sentimentos de gratidão nem sempre presente em nosso rosto. 

Ele era uma dessas pessoas. Não fosse o respeito e educação que era possuidor, sua aparência esguia e trejeito próprio, seria confundido com andarilho. Ainda que bem vestido e asseado, não lhe denotavam importância, era algo como se fosse invisível. 

Conheci-o nos encontros bíblicos lá na casa da centenária dona Idalina, seu Simplício, e a penca de irmãos, filhos, neto e amigos de uma das famílias mais antigas deste lugar. Abraçado ao seu violão demonstrava sempre alegria quando falava através das cordas de seu instrumento. 

Também em dupla com sua irmã dona Odília, cantavam músicas sertanejas de raiz que faziam a gente pensar longe, como que viajando no tempo. Ao lado de seu cunhado, seu Nelson, com sua gaita e o Fita, com o violão ou o teclado, animavam muitas festas na comunidade. 

Servidor público municipal no cargo de zelador trabalhou muitos anos na Prefeitura de Brasilândia/MS; na Praça Santa Maria, como guarda e jardineiro; também prestou serviço em escolas e diversos órgãos, lotado que era na Secretaria Municipal de Educação. 

Pouco reconhecido pelo seu trabalho, desempenhou suas funções sempre em silêncio, erguendo a voz raras vezes, quando incompreendido e desprezado. Aposentou-se em 2019, já com problemas de saúde, porém, sempre disposto a ensinar violão a quem o procurasse. 

Pois este homem simples e sorridente e que estava sempre de bem com a vida, nos deixou na véspera da festa de Nossas Senhora Aparecida de quem era devoto e a ela entoou, por muitos anos no coral da Paróquia Cristo Bom Pastor, louvores à mãe do Criador. Com certeza foi tocar um hino à Mãe Morena, fazendo coro com os anjos, com sua querida irmã dona Odília e seus amigos músicos que lá se encontram, no céu.

Descanse em paz amigo Vicente Perpétuo Vieira.

 

Brasilândia/MS, 12 de outubro de 2022.

 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Campanha Política de 2006

 

Era uma vez uma Campanha Política.

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

As campanhas políticas marcam a vida da gente. Participar de campanhas eleitorais municipais é uma experiência desafiadora, pois os votos são conquistados corpo a corpo. E se exerce uma vigilância maior sobre os candidatos, o que exige empatia e convivência comunitária. 

Nas campanhas de eleições gerais, entretanto, o mesmo não acontece. Via de regra nos deparamos com candidatos distantes que, sequer o conhecemos. E isso pode configurar numa vantagem pois exige que o eleitor pesquise mais sobre a vida e história pregressa deste cidadão ou cidadã. 

Inobstante, em ambos os casos, o desafio é o mesmo: exige conquistar o eleitorado espalhado em quaisquer partes da federação. 

As eleições de 2006, ocorrida há 16 anos, é um exemplo disso. E oportuniza a este escrevinhador relembrar, com saudade, desta experiência sempre nova a quem se decide por ela trilhar.

Convidado a ser candidato a Governador do Mato Grosso do Sul pelo PSOL, ele aceitou o desafio, mesmo durante o curto mandato do então estreante na vereança em Brasilândia. 

Era a primeira vez que o partido de Heloisa Helena se lançava a Presidência da República e arregimentava o sonho de transformar este país, garantindo avançar mais na participação popular e na gestão da coisa pública que, por razão de ser, devia ser gerido por todos. 

Meu pai, na época, quando soube na proposta, em sua humildade, perguntou ao filho se não era uma coisa muito alta que estava tentando. --Mas quem poderia tirar da cabeça de um sonhador a chance de mostrar que é possível organizar a sociedade e os recursos públicos de forma a garantir a sobrevivência de todos? 

E lá estávamos nós, com parcos recursos, percorrendo algumas poucas cidades do Estado levando a proposta inovadora do PSOL e PSTU coligados com a bandeira da Frente de Esquerda para o campo e a cidade. 

A mídia, sobretudo a TV, naquela época foi instrumento decisivo na divulgação das ideias de um partido que dispunha menos de dois minutos para enfrentar os poderosos PMDB (Puccinelli), PT (Delcidio), e os chamados nanicos PV (Livio) e MDC (Amarilha). 

No final da história Carlito Dutra acabou com um honroso 3º lugar, com 6.282 votos no Estado, sendo que Brasilândia confiou 347 votos ao seu conterrâneo. 

Mas o texto aqui não quer discorrer sobre esta eleição, o faremos isso através de um livro que deverá contar melhor essa história. Por ora, mencionamos os links dos principais momentos desta caminhada de 2006. Para conforto, reconhecimento e homenagem a todos os envolvidos, e para que persistam alimentando o desejo e estímulo para nunca desanimar e deixar de sonhar. 

Brasilândia/MS, 11 de outubro de 2022.


Campanha da Frente de Esquerda de 2006.

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/frente-de-esquerda-psol-pstu-2006.html


Entrevistas Canal Foco no Campo: 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/foco-no-campo-reforma-agraria.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/blog-post.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/blog-post_30.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/04/blog-post_6035.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/05/blog-post.html 

http://dutracarlito.blogspot.com/2010/05/foco-no-campo-desenvolvimento.html

 

 

Laços fora! Mato Grosso do Sul

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 








Não há muito tempo, sentíamos o maior orgulho em poder manifestar nossas cores partidárias. Agitar bandeiras e distribuir santinhos era uma atividade digna e revelava consciência política. Demonstrava, além da disposição em assumir nossas ideias, era o nosso jeito de revelar o patriotismo e acreditar na governança. 

De quando em vez algum desencontro de torcida e conflitos naturais paridos no calor da disputa. Tal qual torcedores de futebol, ao se encontrarem, cada qual sempre querendo mostrar o quanto seu time era ou foi melhor que o outro na partida. 

Terminado o confronto, e lá iam todos para o mesmo bar tomar uma cervejinha festejando a vitória ou amargando a derrota. Afinal, a vida continuava, assim como a amizade que, depois daquele acontecimento, às vezes saía ainda mais fortalecida. 

Hoje, os tempos são outros. É como se um tsunami sombrio carregado de maldade e periculosidade tivesse caído sobre os ombros de antigos militantes. Não se olha mais nos olhos com a alma, sente-se medo de sair às ruas ou falar de política com o vizinho. Corre-se o risco de perder amizades e perceber que nossos gestos não são compreendido e respeitados, como manifestação livre de nossa consciência e direito de nos posicionar. 

O que vemos agora não é mais aquela alegria de outrora, com agitos de bandeiras e caminhadas em mutirão, com distribuição de santinhos e conversas animadas pelas ruas e comitês partidários. Sob o domínio das redes sociais, os chamados cabos eleitorais, agora são arregimentados via WhatsApp e recebem pelos seus serviços, por demanda, através do aplicativo pix. 

Esta atividade, de militância, tornou-se agora mera fonte de renda, sobretudo para a classe mais pobre que neste período eleitoral respira mais aliviada com o ganho de alguns trocados, migalhas de um fundo eleitoral de bilhões aprovado pelos deputados. E lá vão eles a cabreto, oferecendo em troca, sem qualquer fidelidade, os seus préstimos, seus contatos e veículos para adesivar, ainda que timidamente. 

Neste ano, depois de um debatido 1º turno, motivado pela TV e os institutos de pesquisa, as eleições gerais chegaram ao 2º turno. Tal situação, sobretudo em Mato Grosso do Sul, colocou os cidadãos em geral numa encruzilhada. Sobretudo em relação à eleição para Governador. Digo isso pelo fato de os dois candidatos que concorrem - Riedel e Contar -, serem os representantes do candidato à reeleição, presidente Bolsonaro. 

Em que pese estejam vinculados à siglas distintas, em 30 de outubro próximo, Riedel (PSDB-45) e Contar (PRTB-28) deverão bater os cascos (como se dizia no meu tempo de quartel) em continência ao Capitão Bolsonaro (PL-22). 

Embora alguns setores ligados a campanha de Lula (PT-13) alimentasse a esperança de uma aliança com Riedel, este já afirmou apoio ao candidato Bolsonaro, a quem declara estar junto desde o início da corrida eleitoral. 

Conforme já noticiado pelo jornal Correio do Estado, desde o primeiro turno, o diretório estadual do PSDB fechou apoio a Bolsonaro e, até o momento, mantém a mesma linha. Diferentemente da executiva nacional que, no primeiro turno, havia declarado apoio à candidata Simone Tebet (MDB). 

Já em relação ao 2º turno, a executiva nacional do PSDB divulgou que havia liberado os diretórios estaduais e filiados para as eleições presidenciais. Ou seja, em âmbito nacional o partido não escolheu nenhum lado e os estados estavam livres para tomar qualquer decisão.  

Da mesma forma a executiva estadual do PT colocou o abacaxi na mão dos filiados liberando-os para votar livremente em quem bem entendesse. 

Em outras palavras, isso quer dizer que o eleitor em Mato Grosso do Sul não terá muito o que escolher. Aquele que deverá ocupar o Palácio Guaicuru deverá ser, por afinidade, necessariamente um súdito de Bolsonaro. 

Se isso representa vantagem para aqueles que esperam que o Estado repita o mesmo número de votos que o chamado Mito alcançou no 1º turno (52,70%), somente as urnas no dia 30 de outubro poderão revelar. 

Enquanto o Mato Grosso do Sul corre risco de ficar isolado na caserna pantaneira, de sorte contrária, a esperança é redobrar as forças em torno do candidato Lula, único nome disponível para ocupar a Presidência da República que representa o laços fora! ao aniversariante neste 11 de outubro, em face do nefasto regime que emana do Planalto. E garantir o soerguimento de um país em desmonte cuja armadilha de um impeachment aprisionou e calou os brasileiros por 6 anos.


Brasilândia/MS, 11 de outubro de 2022.

Dia do aniversário da Divisão do Estado de Mato Grosso.


Foto: Nelson Cruz. A cadeira do rei. Petrópolis, 2020. In Esconderijos do tempo. Cristiane Rogério, 14.Out.2021. O que se fez pelo poder no Brasil.

Fonte: Correio do Estado. https://correiodoestado.com.br/politica/e-falsa-imagem-de-whatsapp-que-associa-riedel-a-lula/405693

domingo, 9 de outubro de 2022

 

O menino, o olhar e as lembranças.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

Ah! Como o tempo voa. E as lembranças, de quando em vez, tomam de assalto nossa memória e nos fazem novamente pensar o quanto avançaram os nossos passos no rumo de uma estrada chamada felicidade. E isso muito nos conforta. 

Com certeza, ele não lembra. Era um tempo que meus cabelos ainda eram pretos e longos. Corria o ano dois mil e dois, e havia mudado há pouco para o centro da cidade. Época que tínhamos o hábito salutar de conversar: um vizinho podia visitar o outro sem dificuldade alguma. Uma época onde o celular ainda era uma raridade distante. E a comunicação acontecia tête-à-tête e muito próxima do coração. 

E ele estava lá, com mais ou menos cinco anos de idade, com seus olhinhos negros serelepes ao lado do pai, e a tudo observava. A conversa dos adultos girava em torno de causas judiciais, sociais e políticas; temas de predileção daquelas duas pessoas diferenciadas do restante daquela  comunidade que emergia. 

O bate papo despretensioso e desapaixonado fazia com que o diálogo se estendesse por horas, até o cair da tarde. Às vezes no meio fio da rua, outras vezes na varanda do amplo casarão onde o anfitrião educado recebia o amigo com modéstia e solicitude. 

Homem calmo e dotado de cultura prática no campo que se especializara profissionalmente, vivia naquele lugar há mais tempo, e se permitia discorrer sobre temas da atualidade mostrando não somente a oratória que era possuidor, mas também que sabia ouvir e ponderar suas conclusões com o oponente. 

E em meio essas longas conversas, o que acontecia no mais das vezes na presença da esposa e das filhas ainda pequenas, um par de ouvidos atentos se destacava entre os demais pelo interesse que demonstrava nos assuntos que eram debatidos em cada oportunidade. 

E lá estavam, os olhos do menino, como que por encantamento, fixos sobre o semblante do visitante e seu pai, parecendo vislumbrar uma suposta aura de saber e conteúdo que os unia. Num dado momento, parecia que a criança comparava o cabelo do visitante com o seu, castanho escuro que lhe batia nos ombros. Uma espécie de cumplicidade visual os unia naquele momento. 

Lembro que chegou a expressar algumas palavras na ocasião, falando em tom encabulado sobre aquele homem do cabelo grande, ou coisa parecida. Nesta época, muito apegado ao pai, se mantinha sempre ao lado, por vezes com os braços ao redor de seu pescoço, numa demonstração admirável de carinho e afeto, reveladora da dedicação e respeito que envolvia aquele filho e seu pai. 

Hoje, passados mais de vinte anos, uma fotografia deste menino, postada no Facebook por uma de suas irmãs, me fez lembrar essa passagem, rápida e fugaz que me veio à mente. Lembrança que recupero na gaveta da memória entre os guardados que pavimentam a resiliência do edifício adulto que o menino e também nós construímos. 

Imagem que ainda hoje marca o tempo que passou, e permanece, quiçá, nos sonhos e recordações que edificam e confortam. Sobremaneira naquelas noites que, de tempos em tempos, nos chegam, de súbito, lampejos da alma, em forma de escumas que sossobram sobre nosso travesseiro. 

Para Pedro Galindo Passos (in memoriam) e Gregory, pelo seu aniversário. 

Brasilândia/MS, 2 de outubro de 2022.

FOTOS: Cortesia Cíntia e Ingrid Karoline/Facebook.

sábado, 8 de outubro de 2022

 A barranca e a saudade, na poesia de João Brito de Souza.

Carlos Alberto dos Santos Dutra

João Brito de Souza é um jovem egresso das lutas do povo sofredor da barranca do rio Paraná. Músico, poeta e militante das causas sociais e trabalhistas é líder comunitário e no ano de 2015 era o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasilândia. Também foi um dos fundadores do Fórum dos Usuários do Sus-FUSUS e da Associação da Mão de Obra Atingida e Moradores Excluídos da Barranca dos Rios Verde e Paraná, entre outras.

Sua poesia ainda hoje reflete suas lutas e seus ideais com um forte sentimento de pertença e respeito a terra em que tem dedicado boa parte de sua vida. Sobre suas poesias e melodias pouco espaço lhe é dado para alcançar círculo maior que uma roda de amigos. Poucas vezes pegou no violão e cantou em público, embora já tenha feito isso em eventos alternativos e não governamentais.

Receber homenagem em vida é uma dádiva reservada a poucos que alcançam esta gentileza. Ainda que em pleno vigor de suas potencialidade intelectuais e físicas, ele se nos apresenta um filete de sua bela produção artística que tomo a liberdade de tirá-la do anonimato e publicá-la no Volume II-Patrimônio, da coleção História e Memória de Brasilândia/MS.

O poema que reproduzo abaixo é um dos que se encontram na citados obra. Chama-se Meio século de Distância e foi redigida em 2014, por João Brito de Souza, cidadão brilhante que conheci ainda na barranca do rio Paraná e em meio as suas andanças pela poeira da estrada e os primeiros acampamentos de lona preta na encruzilhada do Assentamento Santana, Santa Emília e Pedra Bonita, a mais de 30 anos atrás.

Nela o agricultor orgânico e artista, que hoje aniversaria, nos fala de sua inspiração ambiental, de seu engajamento político e o resgate histórico de um tempo que marcou a vida de muitos brasilandenses. E que, através da escrita, inscreve na memória as lembrança daqueles que viveram e seus corações ainda miram as margens do rio Paraná...


PARA OUVIR A POESIA

Pelas curvas da estrada
Sempre existe algum abrigo...

Uma sombra, um olho d’água
Um abraço, um ombro amigo.

Um sorriso, uma palavra
Uma luz lá na distância,

Uma fé inabalável
Dessa cidade esperança...


Capela da gleba seca
As restingas do varjão...

A pesca da piapara
No famoso canaletão.

Aldeia da Cisalpina
Ofaié, povo do mel

Irmãos de sangue guerreiros
Humildes e hospitaleiros

São estrelas em nosso céu.

Da velha estrada do porto
Do iate e Shangrilá

Dos tijolos feitos a mão
Da balsa do Paraná

Lá do Porto João André
Saudoso amigo Chicão

Rude, matuto, polêmico
Humilde de coração...


Quem me dera fosse hoje
Meio século de distância

Duma ponte de madeira
Dum rio Verde tão pujante

Aguapés e jaçanãs
Fauna e flora exuberantes

Dos tuiuiús majestosos
Das arapongas gritantes.


Pelos cantos do caminho
Vão formando outros cordões

Norte, Sul, Leste, Oeste
Esplendor destes rincões

Brazil Land, Arthur Höffig
José Marques, Julião

Que botaram a mão na massa
Cobrindo de orgulho e raça

O nosso humilde torrão...

A história continua
Uma página cada dia

Lutas justas, sonhos utópicos
De desejos e fantasias

Novos atores que semeiam
Esperança, paz e glória

Os que foram e que virão
Estarão no coração

Também em nossa memória.

Brasilândia/MS, 08 de outubro de 2022.
Voz: Prof. Carlito Dutra.