quinta-feira, 6 de junho de 2024

 

"O Cerrado é o bioma mais azarado do planeta"

João Paulo Vicente





Alguns anos atrás, Nurit Bensusan, coordenadora de biodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA), deparou-se com uma manchete curiosa em uma revista de bordo durante um voo. O título prometia o segredo para aumentar a produção agrícola sem derrubar nenhuma árvore. Ao ler a reportagem, veio a decepção: as árvores eram só as da Amazônia. O segredo? Expandir a lavoura no Cerrado.

O Cerrado é o único bioma presente em todas as regiões do país. Mas desde 1970 é, também, o mais ameaçado, tendo perdido cerca de 50% de sua vegetação original graças, principalmente, à expansão da fronteira agropecuária.

“Eu digo que o Cerrado é o bioma mais azarado do planeta. Pense: é super rico, a savana com a maior biodiversidade arbórea do mundo, contém uma série de espécies endêmicas, mas está no mesmo país que a Mata Atlântica – o bioma mais ameaçado do mundo – e a Amazônia – a floresta tropical mais exuberante”, conta Bensusan. “Se o Cerrado estivesse em qualquer outro país, seria mega valorizado.”

O Cerrado ocupa cerca de 24% do território nacional – quase um quarto do país – e é o único presente em todas as cinco regiões. Há no bioma uma grande variedade de ambientes e paisagens – são 11 fitofisionomias, ou seja, aspectos diferentes de vegetação. “A flora está assentada em diferentes níveis de altitude e diferentes tipos de solo, o que promove uma grande especiação entre grupos de plantas”, diz Marcos José da Silva, professor do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Silva estuda a flora de áreas de preservação no Cerrado há dez anos, com foco especial em regiões de elevada altitude com relevo acidentado, lugares de difícil acesso. Nesses locais, explica o professor, há uma predominância de herbáceas, com uma alta taxa de endemismo. “Embora o bioma como um todo seja muito devastado, nessas áreas nós temos manchas relictuais, uma vegetação secular idêntica à do ano 1500”, conta. “Isso faz com que exista muitas espécies ainda desconhecidas” (...)

(...) Por ocupar 23% do território nacional e fazer divisa com quase todos os biomas, menos o Pampa, o Cerrado possui uma grande variedade de vegetações. Há pelo menos 25 tipos e subtipos de fitofisionomias (...).

“Não é uma informação valorizada, não se tem noção do tamanho disso. Na verdade, há a percepção de que o Cerrado está atrapalhando a economia”, lamenta. “Enquanto isso, não fazemos ideia do que estamos perdendo, nem da magnitude do que estamos perdendo.”

E estamos perdendo rápido. O número oficial dá conta de que 50% da vegetação original do bioma já não existe, mas há estimativas que chegam a 70%. Apenas 20% da área do Cerrado é preservada em grandes fragmentos e 8% é protegida em algum tipo de reserva. Tudo isso em tempo recorde: a maior parte foi desmatada a partir da década de 1970 com a expansão da fronteira agrícola.

“Apesar de termos demorado 500 anos para destruir a Mata Atlântica, acabamos com o Cerrado em 50”, diz Nurit Bensusan, do ISA. O resultado desse processo é que hoje o bioma é considerado um hotspot de biodiversidade, onde há pelo menos 1,5 mil espécies vegetais endêmicas distribuídas em menos de 30% de vegetação original (...).

(...) Ao contrário da Amazônia, o Cerrado é uma região que pega fogo naturalmente (1). Ele depende do fogo para controlar o extrato herbáceo rasteiro da vegetação, e é por isso que suas árvores possuem raízes profundas e cascas grossas para se protegerem do calor. Da mesma forma, a fitofisionomia fragmentada ajuda a fauna a encontrar refúgio próximo em paisagens de mato denso, menos propensas aos incêndios, nas redondezas.

Normalmente, o fogo ocorre em anos espaçados. Com casos recorrentes de incêndios criminosos e a destruição desses refúgios naturais para dar lugar a pastos ou lavouras, o Cerrado queima de maneira mais frequente e por mais tempo. E aí não há adaptação que salve a biodiversidade da região.

“Há um mal-uso do Cerrado onde o lucro é privatizado e o prejuízo é socializado”, diz Aldicir Scariot. “Não estou dizendo que explorar um hectare de Cerrado com pequi vai dar mais dinheiro que plantar soja ou gado. Mas quando você coloca na balança outros componentes socioambientais, a maneira como o bioma vem sendo explorado não compensa.”

Confira também: Kuhlmann que é autor do livro Frutos e Sementes do Cerrado: Espécies atrativas para a fauna, e criador do site Frutos Atrativos do Cerrado. Ao todo, são 4 mil variedades diferentes de frutos no bioma – alimento para aves, mamíferos, répteis e peixes da região.

 

Brasilândia/MS, Dia Mundial do Meio Ambiente/05.Jun.2024.

terça-feira, 4 de junho de 2024

 

A mulher e suas circunstâncias na Prefeitura de Brasilândia

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 

O município de Brasilândia/MS, daqui aproximadamente quatro meses irá eleger seu novo chefe do Poder Executivo e novos membros para o Poder Legislativo através do sufrágio universal do voto, instrumento que só a Democracia é capaz de garantir à livre manifestação do povo.

A se confirmar o que as convenções partidárias já decidiram ao escolherem os pré-candidatos, no mês de outubro teremos na disputa um duelo preconizado por duas mulheres candidatas à prefeita que deverão se apresentar com todo o brilho, garra e altivez de seus propósitos para a apreciação e crivo dos cidadãos e exigentes eleitores desta comunidade.

Não é a primeira vez que o município vive semelhante situação. A participação das mulheres na política local teve início já no ano de 1982 quando acontecia o declínio do Regime Militar de 1964 na última (e única) eleição promovida pelo general João Batista Figueiredo. Foi quando Brasilândia elegeu sua primeira prefeita mulher, Neuza Paulino Maia, que derrotou os dois candidatos homens que concorriam na época.

O primeiro confronto direto entre duas mulheres, entretanto, aconteceu dez anos depois, nas eleições de 1992, quando os brasilandenses decidiram os destinos políticos do município entre Neuza Paulino Maia e a Profª Sandra Aparecida Louzada da Costa. Naquela ocasião Neuza Paulino Maia foi eleita prefeita ao lado de Marilza Maria Rodrigues do Amaral.

Bastante disputada, esta eleição mereceu do poeta e trovador popular desta terra, o lendário e imortal José Batista, os seguintes versos: 

Vou sair da minha casa
Para mais uma campanha
De Neuza e Marilza
Em Brasilândia ninguém ganha.
Elas têm popularidade
Capacidade e vergonha,
Respeitam o dinheiro público
É o que o povo de Brasilândia sonha. 

Noutra trova ele cantou: 

A política só é boa
Quando a gente tem companheiro
Que não precisa comprar
Com mentira e com dinheiro
Eu vou sempre conservar
Esta raça de barbeiro.
Que é para nós fazermos de novo
Barba, bigode, cabelo
O poeta Zé Batista tem vergonha
E não se vende por dinheiro.

Nos anos que se seguiram as mulheres continuaram disputando o cargo majoritário que aos poucos foi admitindo a participação de novos nomes femininos ao pleito. Marilza Maria Rodrigues do Amaral (prefeita eleita em 1996 e reeleita em 2000); Jucli Terezinha Stefanello Peruzo (candidata a vice-prefeita na chapa contrária em 1996); Márcia Regina do Amaral Schio (candidata a prefeita em 2008 e eleita vice em 2012, num pleito disputado também por duas mulheres candidatas: Profª Eurides Palhares Lins e Profª Rosimeire Ferreira, sua vice). Márcia Regina do Amaral Schio ainda em 2016 concorreu ao cargo de prefeita e em 2020, a Drª Léa Karla Moura Dias, representou a participação das mulheres ao cargo de prefeita.

A tradição, portanto, mostra que o eleitorado brasilandense já está acostumado com a participação das mulheres na disputa política, na maior parte das vezes, bastante acaloradas e nada amistosas.

Não obstante, os tempos mudaram. Se, por um lado as campanhas políticas cristalizaram-se na forma e jeito masculino de serem conduzidas, por outro, esse modus operandi tem se revelado ultrapassado diante das exigências de gênero que se impuseram à sociedade ao longo dos anos, sobretudo nos dias atuais. O campo de ação e atuação das mulheres, se antes, tornado secundário e invisíveis aos olhos das administrações públicas, eis que agora protagonizam e brilham feito luz.

No caso presente, já experimentadas na administração municipal, ambas como servidoras e já tendo galgado posições e cargos de coordenação, secretarias, presidências e cargos eletivos, ambas são portadoras de escolaridade superior em áreas humanas semelhantes – Assistência Social – e sinalizam para a população de Brasilândia, por meio de suas candidaturas, sem dúvida, novas perspectivas para a realidade local.

Tal quadro oportuniza aos eleitores presenciar a construção de uma administração de configuração não somente com o rosto e olhar feminino, mas com diferencial no modo de agir e interagir com os demais que se encontram ao seu redor, com a dinâmica e percepção que são peculiares às mulheres.

Diante da complexidade e exigências pertinentes à gestão pública de uma cidade, a experiência adquirida como cidadãs, profissionais, mães e gestoras de seus empreendimentos socioeconômicos afetivos chamados Lar, as tornam plenamente capazes de gerenciar uma cidade, um Estado, um País.

Mulheres que operam milagres no orçamento doméstico, administrando os gastos da economia familiar; mulheres que garantem a mantença dos filhos, os reclames da casa e quiçá os caprichos do esposo; mulheres capazes de gerenciar empresas, ordenar despesas e planejar investimentos de seus negócios, desafiando os ditames e oscilação do mercado; mulheres capazes de levantar bandeiras, vencer preconceitos e lutar por direitos em prol de uma sociedade igualitária, fraterna e justa...

Por que não haveriam de ser também brilhantes, criativas e eficientes prefeitas?

Não obstante, o que pode estar martelando a cabeça de muitos (homens e mulheres) é saber: quais das duas mulheres que concorrem à Prefeitura Municipal de Brasilândia terão os predicados e qualidades necessárias para tal cargo e envergadura para exercê-los?

Não tem como saber. Isso porque é impossível adentar o que vai em cada coração, em cada mente, e principalmente em cada situação: a chamada circunstância que nos envolve a todos.

À semelhança do que escreveu o filósofo espanhol Ortega y Gasset (recorro ao meu tempo de Filosofia na UCPel nos anos 1980), lembro: Eu sou eu e minhas circunstâncias. Se não salvo a ela, não me salvo a mim. Ou seja, a ideia que move o administrador ou o cidadão comum é sempre a de que: se quiser salvar-se (realizar bem seus propósitos) deverá também salvar sua própria circunstância: a realidade a sua volta (seu objeto, o povo), uma vez que ele se torna inseparável dela.

Em outras palavras, a melhor prefeita para Brasilândia, sem dúvida, deverá ser aquela que implicitamente subordinar a melhoria da condição do homem (seu projeto social de governo) à sua ação, empenho e realizações, jamais pela omissão.

Brasilândia, portanto, será melhor administrada pela mulher prefeita que, em meio às circunstâncias que a envolverem durante os seus quatro anos de mandato, conseguir lançar-se e arregaçar as mangas no trabalho que se propôs realizar, o que deverá ser delineado já na feitura de seu Plano de Governo, construído por múltiplas mãos, corações e mentes interessadas na segurança, no progresso e na felicidade deste lugar.

Por essa razão, o conselho: que essas duas mulheres candidatas, ao construírem seus planos de ação e gestão, garantam espaço às demais, sobretudo àquelas que vivem à margem das decisões, que são discriminadas em razão da cor, etnia e gênero. E que a vertente social da formação acadêmica que forjou o pensamento de ambas seja o Norte para a concretização de seus projetos voltados para o desenvolvimento econômico, nunca descolado da proteção da infância, do meio ambiente e da valorização da cultura.

Para aqueles preocupados com a eficiência e o temor dos gastos com a máquina pública, recordemos um estudo recente realizado pela Fundação Getúlio Vargas nos 882 municípios de Minas Gerais, sobre a capacidade fiscal de prefeituras lideradas por mulheres: 12% delas mostraram-se superiores às prefeituras lideradas por homens. No item capacidade fiscal a análise revelou o quanto as prefeituras administradas por mulheres foram capazes de arrecadar a partir de taxas e impostos e dividir essa receita entre a população através dos serviços prestados (...). 

Brasilândia/MS, 04 de junho de 2024.

 

 

Fotos: (6) Facebook Fonte: DUTRA, C.A.S. História e Memória de Brasilândia, Vol. 5-Poderes, Cap. 1- Os poderes, as eleições e a política. Edição do Autor, Brasilândia/MS, página 158s. Notas 336/337.; Trova Popular de José Batista, Jornal de Brasilândia, 04 de junho de 1992; e Jornal O santarritense, 20 de junho de 1992.; Prefeitas têm desempenho fiscal melhor que homens, diz pesquisa | Brasil | Valor Econômico (globo.com), acesso em 04.Jun.2024.; scielo.br/j/pusp/a/gx7FwGyypjNMn5hbyZh8Hgh/?format=pdf&lang=pt

domingo, 19 de maio de 2024

 

O apito da locomotiva e o velho pescador

Carlos Alberto dos Santos Dutra


As águas mansas, quase paradas da lagoa, lembram o velho pescador. As palavras são arrancadas do coração e somente se acalmam com o apito da locomotiva que desde longe anuncia a chegada do trem. Diferente do caniço lançado e relançado à água pelo braço ainda firme daquele octogenário, o trem que chega, já não é mais o trem que parte.

O olhar na lagoa prateada nos leva de carona o pensamento e as lembranças do trem que partia para diversos e distantes caminhos... Sempre com a certeza de que no dia seguinte iria voltar. De Cacequi partiam trens da viação férrea lotados de passageiros para as cidades de Rio Grande, Livramento, Uruguaiana e Porto Alegre. Verdadeira rosa dos ventos ferroviária do Estado gaúcho.

O silêncio do campo e a bulha da água só é interrompido, ao longe, pelo apito do trem. Apito que brotava da força das locomotivas que lhe dava impulso e levava seus vagões para onde apontavam os trilhos. Máquinas poderosas, locomotivas movidas a diesel e elétricas. E com potência superior a dois mil agapês e mais de cem toneladas de peso. E eu lembro... que com elas eu conversava. 

Sim. O diálogo dava-se cada vez que meus pezinhos calçando alpercatas tropicavam pelos dormentes em direção ao depósito, antiga oficina de máquinas onde meu pai Vilson trabalhava.

A cada apito dessas máquinas meu coração tremia fazendo colar no peito a marmita embrulhada num pano de prato enquanto levava o almoço para aquele ferroviário anônimo, meu pai, motivo de minha felicidade. E lá estava ele em meio à graxa patente, debaixo de uma dessas possantes máquinas construída pela empresa fundada por Thomas Edson, a General Electric, dando-lhes manutenção, vida e segurança.

A especialidade de meu pai - lembro -, era os freios: freios dinâmicos, freios a ar comprimido ou freios a vácuo. E o tal de sistema homem morto - vim saber depois -, tratava-se de um dispositivo de segurança que envolvia o maquinista e um equipamento sofisticado para aquela época. 

Isso tornava meu pai, para mim, o homem mais importante daquele depósito, pois era ele o responsável pela segurança de todos os passageiros do trem rebocado por aquela locomotiva, bem como a carga que transportava.

Ainda debaixo da máquina, depois de me ver, dizia: --Ah, você está aí. Pronto. Era o suficiente para me encher de alegria ouvir aquelas palavras que conferiam a mim gratidão por, de certa forma, quem sabe, também poder participar daquela grandiosidade.

Ao seu redor eram sons de martelo, ferragens e máquinas, num ruído ensurdecedor. E ele sem qualquer proteção aos ouvidos. Por isso, talvez, queixava-se em casa exigindo silêncio durante o descanso. Depois, limpando as mãos numa bucha de pano, ele vinha ao meu encontro. Um gigante. De macacão estampando no peito RFFSA. Mãos grandes, unhas sujas de óleo, braços fortes e um sorriso nos lábios. Era tudo o que eu precisava: poder servir a quem eu mais admirava. O mundo se tornava pequeno naquele momento.

Hoje, o velho ferroviário aposentado, transformado em pescador, contempla o espelho das águas e vê que seus guris cresceram... viraram homens... e partiram. Levaram para longe os pequenos gestos de ternura que semeou, como aquele que o filho mais velho guardou. Depois de pegar a vianda e passar a mão sobre minha cabeça, descabelando-me de leve, dizia: -- Agora, vá para casa.... Ou algo assim, pois a memória nos golpeia sempre aos pedaços: Nacos de carne retirada aos poucos, qual churrasco, deixando vazios no prato principal de nossos sentimentos.

Voltava sempre cantarolando para casa. Desafiando o eco das locomotivas que por aquele verdadeiro lençol de vagões cobriam os trilhos e desvios espalhados pelo recinto ferroviário da rede. Algumas antigas marias-fumaças que nesta época tinham sido substituídas pelas vermelhas elétricas e alguns casarões antigos dos ferroviários, o clube Apolo e a minha escola Fernão Dias... A tudo, meus olhos contemplavam... E tudo ia ficando para trás. 

Hoje, morando distante de minha terra natal, não frequento as lagoas onde meu pai pescava. Mas ainda escuto o apito do trem, que tem outros nomes e outros propósitos. O rosto dos passageiros, entretanto, está cada vez mais esmaecido. 

Mas o caminho dos trilhos que me levavam ao velho depósito de máquinas e aos braços de meu pai, este, ainda o encontro... muito vivo... nas lembranças de um tempo que não volta mais.


Fonte:  Publicado originalmente em https://www.institutocisalpina.org/o-apito-da-locomotiva-e-o-velho-pescador.html, em 20.Mai.2017. Depois em DUTRA, C.A.S. Quando eu me chamar saudade. vol. 1. Brasilândia, 2021, pág. 196.

 

 




sábado, 18 de maio de 2024

 

Pentecostes é Radicalidade

Thalita Rocha/CEBI-MG [1]


 

No dia de Pentecostes o povo celebrava a Terra. 

O ciclo da vida que se dava através do manejo cuidadoso, e culminava na colheita frutífera de tudo que a terra dava!

E a colheita deveria respeitar os limites do campo e ser dividida com quem tivesse necessidade (Lv 23:22).

Era a festa da gratidão a Deus por quem nos alimenta, nos supre e nos lembra que o que há de mais sagrado é gerar vida!

O povo ainda celebrava a entrega dos dez mandamentos a Moisés no Monte Sinai, Cinquenta dias depois da libertação, o Êxodo.

No monte, Deus entrega a Moisés leis que preservariam a vida do povo.

No Pentecostes, cinquenta dias depois da páscoa, o Espírito desce sobre os que estavam reunidos, e a partir daí não é mais a lei ou um sacerdote quem guia o povo, mas a própria Ruah Divina, o Espírito da vida de Deus!

Jesus foi a terra sagrada que deu início ao ciclo, e o nosso sonho é uma colheita frutífera de vida!

Quando Ele ressuscitou, prometeu que deixaria o Consolador, alguém que convenceria os maus dos seus pecados e da justiça de Deus, e se derramaria sobre o seu povo, renovando-lhes os sonhos, as forças e a coragem.

O povo reunido recebeu o Espírito que veio como línguas de fogo! Fogo queima, esquenta e purifica.

Fogo produz combustível. Fogo que ilumina. Todos se entendiam mesmo na diversidade de línguas.

Quando o povo se organiza e ora, a Ruah desce! O Espírito desce. E desce com diversidade de línguas, pensamentos, movimentos.

É no meio da diversidade do povo que a libertação acontece. 

É na organização do povo que Deus convence os maus dos seus pecados contra a vida, dos seus acúmulos de riquezas e empobrecimento do povo.

A justiça nasce quando o povo grita com línguas de fogo contra o deus capital, assassino, escravocrata e explorador!

É no meio do fogo que o povo se entende e se levanta forte e com coragem para sonhar! Sonhar é disruptivo, sonhar junto com nosso povo é subversivo!

Pentecostes é todo o povo junto, profetizando e gerando vida sagrada, que alimenta, que nutre e que sustenta o nosso corpo.

Tem a ver com partilhar o que se produz, nunca concentrar. Tem a ver com cuidado, não domínio.

Tem a ver com revolucionar o sistema de morte que agride toda vida!

É a radicalidade que arranca o mal desde seu fundamento e espalha a raiz da vida!

Que sejamos povo diverso, povo da profecia, povo do fogo, povo da justiça e povo da vida.

E que no meio de nós a Ruah se manifeste nos fazendo sonhar e caminhar na radicalidade do Reino de Deus!


Brasilândia/MS, 18 de maio de 2024.

 



[1] - Fonte e Foto: Pentecostes é Radicalidade - (João 15,26-27; 16,4b-15) - CEBI, publicado em 16.Maio.2024.

terça-feira, 14 de maio de 2024

 

A conversão e os sinais de Deus na nossa vida.

Carlos Alberto dos Santos Dutra










 

A nossa vida é sempre rodeada de sinais. Frutos de nossas escolhas, eles estão a nossa volta nos apontando rumos, explicando trajetos percorridos, nos animando e dando um sentido para nossa existência e de toda a humanidade.

Isso acontece com todos: os pintores, ao deitar os olhos sobre as cores da parede, observando a textura e a tonalidade que foi usada; as cozinheiras, ao adentar um ambiente logo percebem o aroma do tempero que está sendo usado no preparo do alimento; o mecânico, ao caminhar pela rua, logo o ouvido acusa uma determinada falha no motor do veículo que passa ao seu lado.

E assim por diante. Todas as pessoas, de diferentes forma, sempre se veem rodeadas de sinais e conhecimentos a elas inerentes e que as faz interagir com o mundo. É como se aquilo lhes mostrasse que estão vivas, são capazes e têm um lugar na comunidade onde vivem; tornam-se pessoas, cidadãs, se sentindo parte de um todo maior que lhes garante conforto e autoestima. Mais do que um emprego ou uma fonte de renda, sentem-se realizadas e úteis ao meio social onde construíram suas histórias.

A pergunta que fazemos agora é: E os sinais de Deus nas suas vidas? Quando é que percebemos Deus a nossa volta?

Há quem possa dizer que, tal qual ao poeta, toda vez que elevamos nosso olhar para um pássaro voando ou um imenso jardim de flores silvestres, estamos vendo os sinais de Deus aqui na terra.

Sim. Ele se manifesta, desde a criação, de forma maravilhosa, esplendorosa, grandiosa, para os olhos e enlevo de nossas almas. Porém, nem sempre nos deixamos tocar por esse cenário bucólico e ambiente de paz, luz e generosidade divina que ele deita sobre nós.

Isso porque insistimos em dissociar a Vida daquilo que seria o essencial para todos que buscam vivê-la em plenitude. Sim, pode-se dizer que Ele, o Filho de Deus, veio justamente para propor reconectar, através da Conversão, esta humanidade perdida. Da mesma forma que também pode-se dizer que Ele, o Servo Sofredor, morreu na Cruz para Redimir esta mesma humanidade de todo o pecado. De onde se pode concluir que a Redenção está intimamente ligada a Conversão. Ou seja, se guardarmos a Lei de Deus, nos convertendo e nos arrependendo de nossos pecados, seremos redimidos e salvos pela Expiação e Ressurreição de seu Filho, Jesus Cristo.

A conversão e o arrependimento, portanto, são as chaves do Paraíso. Desde o jardim chamado Getsêmani, onde Jesus fez sua derradeira Oração, Ele começou a pagar pelos nossos pecados, dispondo-se a sofrer por nós, para que vivêssemos... desde que nos arrependêssemos. O arrependimento, portanto, é o caminho para a vida eterna.

Iniciamos este texto falando em sinais e agora falamos em arrependimento. E foi por um motivo: mostrar que precisamos aguçar nossos sentidos para perceber os sinais de Deus na nossa vida e a Ele devotar a nossa confiança, testemunho e fé, nos arrependendo de nossas faltas e culpas, fraquezas e egoísmos, ódios e vinganças, descuido e desrespeito com a vida. Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,15).

Por isso os sinais a nossa volta são tão importantes para a saúde e o futuro de nossas almas. Almas que suspiram a grandeza e o refrigério do infinito, do poder e da graça de Deus. Plenitude que nos transporta além das necessidades e vaidades terrenas e nos arrebata aos braços de um Pai e Mãe celestes e generosos que lá do céu acompanham nossos passos.

Por isso a percepção dos sinais é importante para o nosso bem estar espiritual e nossa missão aqui na terra. Os bens materiais, necessários à sobrevivência, somos capazes de alcançar, com nosso esforço e trabalho. Capazes somos até mesmo de alcançar a fartura dos bens de consumo, saúde, educação e lazer. 

Mas e os bens espirituais? Aqueles que nos motivam e inspiram o nosso viver? Na ordem do dia, onde se encontra o rosto de Deus? Será um Deus que nos mostra o caminho e enche nossa vida de alegria e esperança? Onde vejo este rosto de Deus misericordioso que me ama e zela pelos meu passos, quando caminho pela rua? Quais são os sinais de sua presença que percebemos pulsando dentro do peito e pensamentos sempre ocupados?

Perceber os sinais de Deus no cotidiano, configura um dos maiores desafios do cristão hoje. Isso porque nossa atenção cada vez mais se torna difusa, caminha em todas as direções, tal qual uma rosa dos ventos, que aponta para uma realidade tão diversificada de ritmos e valores tão divergentes que nos perdemos no labirinto da técnica e da desinformação.

E não percebemos mais os sinais de Deus que aos poucos vão se esmaecendo. Quando muito sentimos uma leve sensação de sua presença quando dobramos o joelho diante do tabernáculo, no templo, aos domingos, celebrando a Eucaristia, renovando e relembrando o Sacrifício que Ele fez por todos nós. E achamos que isso é tudo. Ao sairmos dali, quase que tropeçando no mendigo estirado na porta da igreja, seguimos em frente nossa vida, cegos e moucos aos sinais de Deus que nos acompanha desde há muito, desde o nosso batismo.

Redescobrir os sinais de Deus na nossa vida e no ambiente onde vivemos é o desafio do tempo que se chama hoje. Quando vemos tantos sinais de destruição e grito de dor de irmãos, tocados pela força da natureza que se rebela dos maus tratos que têm sofrido pelas mãos do chamado progresso, percebemos que os sinais de Deus precisam ser urgentemente restaurados em nossas vidas. Antes que o som da trombeta anuncie a chegada do fim dos tempos, é necessário que retomemos as lições antigas do Catecismo e da Fé: do amor ao próximo e o zelo pela vida. Que eles sejam as prioridades para a barca que nos levará todos para o Céu. E que Deus tenha misericórdia de todos nós.

 

Brasilândia/MS, 14 de maio de 2024. Dia de São Matias, aquele que foi escolhido para substituir o apóstolo Judas Iscariotes, o traidor (Atos 1, 15-26).

Foto: Conversão Diária - Parte 1 | Diocese de Valadares (diocesevaladares.com.br)

sábado, 11 de maio de 2024

 

O grito de dor e lágrimas... da mãe natureza

Carlos Alberto dos Santos Dutra

 



As recente inundações às cidades do Rio Grande do Sul provocadas pelas chuvas torrenciais que causaram o transbordamento dos rios do Estado – Rio Uruguai, Taquari, Jacuí, Guaíba, Ibicuí, dos Sinos, Caí e  tantos outros –, que devastaram cidades inteiras, levando tudo por diante, arrombando barragens, diques e comportas de contenção, deixam, não somente um mar de prejuízos pelas perdas materiais e lágrimas pelas vidas que as águas levaram, mas também deixa uma lição que relutamos em aprender, porém, que jamais deveríamos esquecer.

É certo que outras catástrofes como essas, de tempo em tempo acontecem em alguma parte do país e também em diversos continentes; notícias que nos chegam todos os dias fazendo com que, aos poucos, vamos nos acostumando com elas – sobretudo quando atingem os outros e não a nós mesmos. Poucos se dão o trabalho de se perguntar: Por que isso acontece cada vez com mais frequência?

Esses reclames da natureza, para os desavisados -- é bom que saibam --, o que acontece hoje no Rio Grande do Sul, e que já aconteceu em outros estados do Brasil, é uma clara sinalização de que os recursos naturais estão exaustos. A natureza precisa de fôlego, precisa de oxigênio, precisa de descanso, para se recompor. Desde a atmosfera, as águas e a terra precisam respirar e seguir o seu curso natural, sem interferência do homem, numa tarefa solitária que só ela pode e deve empreender.

De uma vez por todas temos de tomar consciência – pela dor, sobretudo, já que pela ciência e o conhecimento, não o fazemos --, de que nós somos  hóspedes, transitórios, portanto, deste imenso e, ao mesmo tempo, finito planeta. Tempo para os senhores donos do mundo, do capital e da terra, olharem menos para o alto de seus arranha-céus, estratégias de guerra e vida extraterrestre, e deitar suas preocupações e esforços técnicos para preservar a vida neste planeta abençoado.

Que a mestre natureza ensine, sobretudo aos governantes que as lições do passado não mais servem para os dias atuais e o tempo urge, tamanha foram as agressões e feridas causadas no rosto da mãe natureza. Mãe que nunca negou o fruto a quem lhe confiou a semente; mãe que nunca deixou faltar o alimento a quem quer que seja, plantas, homens e bichos.

Quando a sirene tocar e os alunos crescidos da escola da vida saírem à campo, no final de mais um ciclo de história natural, que eles tenham  aprendido a maior lição da ecologia, sobre a importância das matas ciliares para a proteção da vazão dos rios e contenção do assoreamento de suas águas; sobre a precaução de não se construir cidades e bairros nas encostas dos morros, nas margens dos rios e áreas insalubres, entre tantas lições menores.

Todos sabemos que não é mais nenhum segredo que as mudanças climáticas e agressão ao meio ambiente estão entre as ameaças mais graves à humanidade e, se nada for feito, em poucos séculos a Terra como conhecemos pode deixar de existir. Há muito os ambientalistas – sempre desacreditados --, recomendam atitudes simples que, no dia a dia, podem ajudar a minimizar os danos causados no meio ambiente: economizar energia; economizar papel; consumir mais vegetais; economizar água potável; reduzir o consumo de plástico, praticar a reciclagem, entre outros.

A responsabilidade maior, entretanto, deve recair sobre os planos e políticas públicas dos governantes. O puxão de orelha no dia 5 de junho próximo, Dia Mundial do Meio Ambiente, vai, em particular, para os candidatos à Prefeito e Vereadores que daqui a 4 meses serão eleitos os novos administradores das 5,5 mil cidades brasileiras. 

Aqui em Brasilândia/MS, neste ano, muitas propostas sobre o meio ambiente deverão estar presentes nos planos de governo dos dois candidatos que irão disputar a governança a partir do Paço Municipal Neuza Paulino Maia. Oxalá devam estar, inevitavelmente, também: 

1º) controle do desmatamento e queimadas; 2º) retomar o debate sobre o Comitê de Bacias e mini-hidrelétricas; 3º) preservar as APAs do município; 4º) criar um Parque Municipal (desapropriando a Chácara São João, criando ali uma Escola de Meio Ambiente ou viveiro municipal); 5º) criar ciclovia ao longo da Rodovia Luigi Cantone (BR-158, Reserva Cisalpina) e ao longo da MS-395 (BR-158) em direção ao Novo Porto João André; 6º) rever o trajeto do esgoto sanitário previsto para o seu despejo no rio Verde (Jabuticabeira); 7º) que o município volte a ter um biólogo para o Departamento de Meio Ambiente, descolando-o da Secretaria do Desenvolvimento; 8º) construir bichoduto subterrâneo para a passagem de animais da Reserva Cisalpina e construção de cercas ao longo da Rodovia Luigi Cantone (BR-158), entre outras demandas que a natureza e municipalidade pedem e agradecem.


Brasilândia/MS, 11 de maio de 2024.


Foto: Córrego da Viação transbordou. Jornal da Cidade, 2006; Fonte: Conheça 5 atitudes simples para preservar o meio ambiente — UNIVASF Universidade Federal do Vale do São Francisco

domingo, 14 de abril de 2024

 

Homenagem ao desportista Professor José Cândido da Silva

Carlos Alberto dos Santos Dutra



 

1.              O esporte no Brasil e no mundo é paixão. Mexe com o coração não só dos atletas, mas também daqueles que torcem por eles nas arquibancadas.

2.              Aqui em Brasilândia isso não seria diferente. O amor pelo esporte, principalmente pelo futebol, sempre embalou as alegrias desta comunidade. Desde seu nascimento, o esporte esteve presente ao longo dos mais de 50 anos de existência desta cidade.

3.              Simples e criativo, para sua prática, bastava uma bola, mesmo que de pano, para ser jogada num campinho qualquer. Desde a pelada que era disputada na terra batida do bairro distante da cidade até o campo gramado das fazendas, especialmente preparado para os dias de festa e congraçamento dos funcionários e seus familiares, tudo era uma festa.

4.              A homenagem que fazemos hoje tem início de forma simbólica com a trajetória de uma bola que é arremessada pelo tempo, rolando pelo campo dos sonhos, em direção ao gol. Depois de passar por vários pés e ser tocada com habilidade e maestria por um atleta e seus dribles, eis que ela chega ao fundo da rede, objetivo final da partida, para orgulho e delírio da torcida ao ver mais uma vitória conquistada pelo seu time e seu atleta preferido.

5.              O jogador agora curva-se para o campo e segura nas mãos a bola que lhe dá o título. Contempla a pelota e seus gomos, antes multicoloridos e hoje já desgastados pelo tempo; mesmo assim a abraça num gesto de carinho e gratidão. Sente o seu calor e, ao longe, é como se ouvisse as vozes do passado que o alcançam, golpeando-o na emoção.

6.              Era como se tivesse ouvindo uma voz dizendo: --passa a bola Zé. Parecia ouvir os colegas do times de futebol que participou repetindo: --passa essa bola Zé.

7.              O atleta, agora, volta a ser um menino. Um menino que na infância corria seminu e descalço pelas ruas da cidade. Sim o menino que sonhara um dia ser jogador de futebol aos pouco ia se encontrando com seu destino.

8.              Aos 12 anos de idade, ele corre ao redor do gramado vendo seu pai, Joaquim Cândido, às voltas com a presidência da associação que fundara, o Brasilândia Atlético Clube-BAC, que arregimentava a elite dos atletas e formava o time de estrelas do futebol de campo da Costa Leste do Estado.

9.              Time que teve a ousadia de ostentar a garra e supremacia de ter conquistado o feito inédito de 33 vitórias consecutivas permanecendo invicto durante um largo período no anos 1990.

10.       Mas o sonho de José Cândido estava apenas começando a ser escrito na história das fileira do esporte brasilandense. 

11.       O atleta e administrador experiente, hoje, corre a passos lentos pela linha lateral do campo. Afinal, 73 anos se passaram desde que seus pais, Joaquim Cândido e dona Joana Maria, o tomaram nos braços cheios de alegria no dia 20 de maio de 1950 na vizinha Guaraçaí/SP, onde nasceu.

12.       Depois de terem morado em Planalto, Murutinga do Sul, Santa Fé do Sul e Guaraçaí, no estado de São Paulo, sua família fincou raízes em Brasilândia, instalando-se, no ano de 1956, nas margens do Córrego Bom Jardim cujas águas fartas nesta época irrigavam as roças e enchiam de esperança àquela zona rural.

13.       Foi nesta Cidade Esperança que o menino recebeu o apelido de Zé Paçoca, em razão de ter trabalhado  como vendedor de doces de amendoim moído na juventude.

14.       Foi aqui que ele aprendeu as primeiras letras no Grupo Escolar Arthur Höffig, estudando da 1ª a 4ª série. Depois, prestou exame de admissão para ingressar na 5ª série estudando até a 8ª série no Ginásio Estadual Dom Lúcio Antunes, na cidade vizinha Panorama/SP, fazendo a travessia arriscada pela balsa do Rio Paraná que neste tempo ainda corria rápido, livre e forte.

15.       Os ano se passaram e ele sempre conciliando os estudos com o esporte. Até o momento de se ver transformado num homem, para a alegria e orgulho da única irmã caçula, Áurea que sempre o incentivou.

16.       Licenciado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Ministro Tarso Dutra, de Dracena/SP, formou-se professor de Português e Inglês vindo a lecionar na cidade que o viu crescer.

17.       Aqui casou e constituiu família. Inicialmente ao lado da professora Célia Maria, falecida em 2017, com quem teve os filhos: Adriano, Adriana, Gislaine, e Franciane. E depois, ao lado de Aparecida de Fátima, com quem teve a filha Letícia. Hoje José Cândido é avô e encanta-se com os netos: Everton, Luiz Carlos, Camila, Gustavo, Carolina, Leandro, Andressa e Júlia.

18.       O início de sua carreira de professor deu-se no antigo Mobral no ano de 1968 quando passou a ministrar aulas no km 3 da barranca do Rio Paraná na Escola chamada Três Botecos.

19.       Anos mais tarde, escreveu a primeira biografia do município de Brasilândia, narrativa que pode ser considerada a história oficial do município.

20.       Em 1986 teve a participação decisiva na fundação da Associação Brasilandense de Professores-ABRAP que deu origem ao atual SIMTED.

21.       Sua vocação para a política nasceu vendo o desprendimento de seu pai, Joaquim Cândido, quando ele andava a cavalo, atravessando campos e roças, em busca de votos durante as campanhas eleitorais.

22.       Foi assim que o menino José Cândido, muito cedo, aprendeu como lidar com partidos, siglas e coligações políticas. Expertise adquirida que lhe garantiu ter sido eleito e permanecido como vereador e presidente da Câmara Municipal por 5 mandatos e uma prorrogação, totalizando 22 anos como legislador.

23.       Presidente do partido PDT por vários anos, foi prefeito de 1989 a 1992, sob o lema Dedicação e Fraternidade. Foi também candidato a deputado federal em 2002 conquistando o 1º lugar no município e 37º do Estado.

24.       Como chefe do Executivo municipal, José Cândido foi responsável por muitos feitos em sua administração que ainda hoje são lembrados pela população: Um dos mais marcantes é ter reconstruído o Cruzeiro, monumento originalmente instalado pelo fundador de Brasilândia Arthur Höffig, e que representa o marco histórico da fundação do município.

25.       Fruto de sua larga experiência política, seu jeito natural e ao mesmo tempo peculiar de agir ganhou o imaginário popular tornando-se uma figura folclórica agregando o apelido de Zé Rojão, pelo fato de chamar a população, quando da chegada de autoridades, inaugurações e eventos da municipalidade, por meio de fogos de artifícios, cujo som dos foguetes informava todos os munícipes.

26.       Entre suas realizações estão também a criação da Secretaria Municipal de Agricultura; o Centro Profissionalizante do Menor, e a Corporação da Guarda Mirim.

27.       Deu impulso também à Fanfarra Simples de Brasilândia, refundando a FAMBRA, criada 1983,  despertando para a música e o sentimento de patriotismo às crianças e jovens daquela época. Isso sem falar do Carnaval que era uma festa que ele sempre incentivou trazendo bandas para animar os foliões.

28.       Foi na sua administração também que a Prefeitura Municipal de Brasilândia ganhou sede definitiva, quando as dependências da antiga Escola Estadual Pedro Pedrossian, foram reformadas e ampliadas sendo transformada no Paço Municipal.

29.       Os olhos deste administrador, entretanto, nunca descuidou de seguir o rumo de seu coração que o levava aos campos, aos jogadores e à bola.

30.       Retroage o relógio do tempo e lá  encontramos o atleta José Cândido participando dos campeonatos amadores, quando a seleção de Brasilândia era representada pela equipe do Brasilândia Atlético Clube – o BAC, o time de maior brilho da região.

31.       E recorda a partida contra o time do Jupiá Esporte Clube, quando o BAC estreou dois jogadores que se tornariam referência no futebol em Brasilândia: o lateral André e o ponta-esquerda Fogoió.

32.       Este foi um dos maiores méritos de José Cândido: o de apostar no talento de um atleta que, entre tantos servidores que se dedicaram à área do esporte, trouxe as maiores alegria para Brasilândia: Everaldo Vieira da Silva, o popular Fogoió. Foi quando o BAC ressurgiu pelas mãos do ex-vereador Samuel Ramos Lopes, popular Biro-Biro.

33.       Tempo de glória do esporte, o futebol de campo era presença obrigatória nas Festas do Peão, quando as partidas que eram realizadas no imortal estádio Joaquim Cândido da Silva, lembra com saudade o antigo atleta ao ver o antigo estádio hoje envolto em sombras do desprestigio.

34.       Ah. Que orgulho sentiu quando deu entrada na documentação para o BAC ingressar na Liga e poder disputar o campeonato amador em Três Lagoas em 1989.

35.       Tantas partida e lembranças que marcaram a memória do BAC quando este time chegou a jogar até três partidas numa tarde pelo campeonato de veteranos da Liga de Três Lagoas.

36.       E ele estava lá, até mesmo na época quando as cores antigas, preto e branco, das camisas do BAC ganharam as cores o azul e o branco.

37.       Além do BAC, onde José Cândido atuou como ponta-esquerda, honrando o time com a camisa 11, ele também participou do CRB – Clube Recreativo Brasilandense, em 1990 e do BEC – Brasilândia Esporte Clube. Sobre a quantidade de gols que praticou, por modéstia, ele não arrisca a dizer.  

38.       Sempre atento às necessidades do esporte, inaugurou em 1989 a chamada Casa do Atleta, como era o Departamento Municipal de Desporto. E foi o grande incentivado do segmento feminino do BAC, com a criação do BRASAC que brilhou por décadas projetando o esporte das meninas de ouro em várias modalidades.

39.       Entre os eventos que o atleta-prefeito deixou sua marca está o célebre jogo entre as mulheres Solteiras x Casadas, ocasião em que as atletas foram saudadas no início da partida por uma bateria de fogos, bem ao estilo da época.

40.       Como já dissemos, o futebol é paixão. E as manchetes dos jornais estão aí para provar: quando o BAC ganhou de 1x0 do Frigotel, o jornal de Três Lagoas estampou: Frigotel não admite perder para o BAC! Isso aconteceu no dia 23 de maio de 1990.

41.       Fato curioso neste dia de festa quando se enfrentaram: Empaer, Bandeirantes, Xavantes, Bamerindus, Sucateiros, Cafezinho, Baixada Santista, Indiana Supermercados, República dos Anjos e Ginásio, o artilheiro deste torneio foi Biro-Biro e o prêmio de goleiro menos vazado foi para o nosso atleta José Cândido. 

42.       O redemoinho do tempo envolve a todos e o nosso homenageado respira fundo ao relembrar sua história de vida que deixou para trás. São tantas realizações e alegrias sentidas que é impossível recordar uma a uma.

43.       A maior de todas as alegrias, sem dúvida, no campo do esporte, foram os grande momento vividos em que pisou o tapete verde, verdadeiro campo dos sonhos onde cultivou amigos e ali pode ser admirado pela torcida que o aplaudia.

44.       Sobre sua maior tristeza e momento de dor familiar, foi quando viveu o falecimento de sua mãe, dona Joana Maria, aos 88 anos, e o falecimento do pai, Joaquim Cândido, que faleceu com apenas 52 anos de idade.

45.       No mundo do esporte, por fim, o desencanto do santista José Cândido vai para o estado de abandono em que se encontra o imortal Estádio Municipal Joaquim Cândido da Silva, nos dias atuais, carente de reformas e manutenção.

46.       Pequeno desgosto que o atleta-prefeito de outrora, busca esquecer, ao som da música sertaneja que embala os seus dias atuais de aposentado.

47.     Acordes sonoros que o animam a sorrir e estender as mãos em agradecimento à Deus pela homenagem que lhe é prestada neste dia. 

Obrigado Associação Recreativa Master-ARMs. 

Parabéns José Cândido da Silva.


Brasilândia/MS, abril de 2024.