Dona Maria Cândida de Jesus Diogo: Uma Luz Eterna
Carlos Alberto dos
Santos Dutra
Existem raras mulheres cujo olhar confunde a nossa própria alma, tamanha a aura dourada de santidade que carregam consigo.
Dona Maria Cândida era exatamente assim: uma joia lapidada não pelo gesso frio dos altares, mas esculpida em carne, osso, silêncio e amor. Seu corpo franzino e seus braços esguios carregavam o peso do mundo, e mesmo quando a visão lhe impôs a escuridão das sombras, seus olhos teimavam em iluminar tudo ao redor.
Seu nome já anunciava sua essência sagrada. Maria, a mãe de todas as mães; Cândida, a brancura da alma pura, a franqueza em pessoa, a própria imagem da devoção.
Ao unir sua vida à
do jovem Sebastião, ela trouxe um pedaço do céu para a terra. Juntos,
enfrentaram a pobreza com a dignidade de quem planta a roça e molda a madeira.
Ouro Verde testemunhou o milagre da multiplicação da vida em doze filhos amados,
os primeiros: Luzia, Joaquim, José, Linda, Leontina, Lourdes, João, Sara,
Aparecida, Jair, Lúcia e Jorge Justino.
Olhando o
horizonte, ela se agigantava como uma fortaleza inabalável, a matriarca
suprema, a heroína incansável na defesa de seus filhos.
Sua fé moveu montanhas. Quando o vendaval de 2001 destruiu a antiga Igreja Matriz da Paróquia Cristo Bom Pastor, lá estava ela, de mãos dadas com a comunidade, reerguendo o templo sagrado.
Mas a vida, em sua face mais dolorosa, também lhe impôs tempestades devastadoras. Viu a casa esvaziar. Chorou a partida do companheiro em 2003 e, mais tarde, enfrentou a dor mais dilacerante que uma alma pode suportar: a inversão da ordem natural da vida, tendo que sepultar os próprios filhos.
Ainda assim, ela resistiu. Venceu doenças, enfrentou a perda da visão e transformou o que parecia o fim em um eterno recomeço. Sob a aparência frágil, habitava uma fibra tão nobre e resistente quanto a madeira aplainada por seu esposo, capaz de suportar o vento e a chuva temporal.
Mesmo na escuridão dos seus últimos anos, quando o mundo exterior virou apenas nuvens e sombras, o seu coração permanecia vigilante. Bastava o ruído do portão ou o compasso de um passo desconhecido para que ela soubesse exatamente quem chegava.
Mas quando era um filho que cruzava o batente, o seu semblante se transformava em pura luz. Naquele instante, o tempo voltava: aqueles homens e mulheres crescidos tornavam a ser os bracinhos e corpinhos frágeis que ela acolhera um dia em seu colo materno.
Como era linda a sua alegria com a casa cheia! Mesmo tateando armários, tropeçando nas próprias limitações e carregando as cicatrizes do tempo no rosto, ela insistia em ir para a cozinha preparar o alimento. Servir era o seu oxigênio; amar era o seu sustento.
Ah, dona Maria Cândida... que saudade imensa sentimos do seu aconchego e até das suas palavras duras de repreensão. Nossos corações sangram de saudade desses braços consumidos pelo trabalho, que foram o chão firme para que cada um de nós pudesse caminhar. Seu olhar, outrora cristalino e depois perdido no infinito, foi o farol que nos salvou do naufrágio.
Hoje, seus filhos,
netos, bisnetos e a constelação infinita de familiares que você inspirou ainda
sentem a sua ausência. Você foi o alicerce, a coluna principal do templo
sagrado que chamamos de família.
No dia 10 de junho de 2019, o mundo perdeu um anjo, mas o céu ganhou sua rainha. Uma alma tão desprendida e caridosa, que não acumulou riquezas na terra, apenas generosidade e bem-querer.
Entre o pranto e a
dor da despedida, resta o consolo eterno de saber que os próprios anjos de Deus
a carregaram no colo rumo ao Reino Eterno. Sua luz jamais se apagará em nós.
Brasilândia/MS 10
de junho de2026.
Fonte: https://carlitodutra.blogspot.com/2022/06/dona-mariamae-candida-de-jesus-diogo.html.

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