sexta-feira, 12 de junho de 2026

 

Por onde anda o brilho da Tribuna?

Carlos Alberto dos Santos Dutra


 





Houve um tempo em que a Câmara Municipal de Brasilândia era o palco dos acontecimentos e a caixa de ressonância da política da urbe. Quando a sede do Legislativo se encontrava no centro da cidade, no início da Alameda Arthur Höffig, seu frontispício era um calçadão movimentado. 

As sessões eram à noite e participar delas era um programa obrigatório, um fiel compromisso para as mentes locais mais esclarecidas. O evento só perdia em audiência para os dias de jogos de campeonato e para as novelas globais, que roubavam a atenção da população em geral. 

A alternativa nesses casos, sobretudo para os homens, era participar das sessões para se colocar a par dos acontecimentos políticos da Prefeitura, sempre vista com olhos críticos pela coletividade brasilandense. 

Sim, vivia-se em um tempo ainda distante das atuais redes sociais, celulares e aplicativos que transmitem eventos e atividades políticas em tempo real, ao alcance de qualquer cidadão. Um tempo em que as notícias locais chegavam somente através das páginas dos periódicos semanais — Jornal de Brasilândia, Jornal Dia a Dia, Jornal da Cidade e Jornal Independente —, que circulavam na cidade, via de regra, com as cores e os releases paridos pelas administrações municipais que os patrocinavam. 

A alternativa oferecida ao cidadão no campo da política, sem dúvida, era adentrar a porta angular do Legislativo e se acomodar em uma poltrona acolchoada do ambiente para ver e ouvir o que seus representantes iriam falar naquele dia. 

Diante de uma composição, na maior parte das vezes, simétrica — cujos braços da balança sempre se mantinham em equilíbrio, seja nos debates, seja nas proposições —, os olhos e ouvidos do cidadão podiam, assim, inteirar-se sobre as decisões e a aplicação do erário pelo alcaide. 

E o que era mais impressionante: naquele tempo, primava-se pelo poder da palavra, que era lida e proclamada na tribuna. Ao ouvir a leitura em voz alta das indicações e dos projetos, o cidadão, mesmo o menos letrado, tinha a oportunidade de saber o que os administradores estavam fazendo ou propondo. 

Depois, um dos momentos mais esperados era quando o vereador ocupava a tribuna. Ali, o cidadão podia perceber e conhecer melhor o seu representante. Ao fazer uso da palavra, o edil podia dizer, em viva voz, a que veio e por qual motivo estava ali — se a favor ou contra o povo —, causando orgulho ou tristeza em seus eleitores. 

E tudo começava com a leitura da Ata da sessão anterior. Naquele momento, ao cidadão era permitido ter uma noção do trâmite legislativo e dos passos necessários para se chegar até a aprovação de uma lei, ou até mesmo acompanhar o posicionamento dos vereadores que, no andar da carruagem, às vezes mudavam de opinião em relação às proposições apresentadas por seus pares. 

Sim, foi um tempo que, infelizmente, não existe e não volta mais. Em razão do advento das novas tecnologias, hoje muitos justificam a necessidade de suprimir vários passos do ritual legislativo, enxugando-o. Porém, mais do que a informação que circulava nos escaninhos — hoje ao alcance de privilegiados que acessam a pauta das sessões da Câmara através de um site nem sempre muito bem divulgado —, advoga-se que se vivia, naquele tempo, em um ambiente pedagógico inspirador de cidadania. 

Muitos daqueles ouvintes, devido à proximidade com o tema, passaram, após algum tempo, a compor aquele seleto quadro de representantes da municipalidade, pois ali foram inspirados. Uma escola que os permitiu observar, por um lado, o brilho e o vigor de uns e, não raro, por outro, a mediocridade e a pequenez de outros. 

Hoje, o cidadão é surpreendido pela informação de que, nas sessões da Câmara, não mais se lê a Ata da sessão anterior e tampouco o teor da pauta das proposições do dia. Perde a viagem o cidadão que não teve acesso prévio ao teor daquilo que estaria sendo discutido e aprovado. Perde a democracia uma escola cuja prática distancia cada vez mais o cidadão da res publica e da defesa de sua incolumidade.

 Para o consolo do cidadão, resta torcer para que seu representante aplique o "TBC", ocupe a tribuna e fale, permitindo que ele o ouça através das mídias sociais, no conforto de sua casa. E, assim, possa acompanhá-lo em eventual debate que se aventure a empreender.

 

Brasilândia/MS, 12 de junho de 2026.

Fonte: Publicado originalmente em 12/06/2023 In https://carlitodutra.blogspot.com/2023/06/por-onde-anda-o-brilho-da-tribuna.html

 

Foto: Arquivo Prof. José Cândido da Silva, 1991.

TBC="Tire a Bunda da Cadeira" é uma expressão motivacional utilizada pelos coaching em eventos dirigidos a profissionais liberais e empreendedores criando a convicção de que "sem ação não há realização".

 

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