Memórias e Desafios do Ambientalismo em Brasilândia: O Grito Necessário do Instituto Cisalpina
Carlos Alberto dos Santos Dutra
Relembro o ano de 2003. Ele foi profundamente marcante para a natureza e o meio ambiente de Mato Grosso do Sul, em especial para a nossa querida Brasilândia. Naquele período, após o enchimento do lago da Hidrelétrica Porto Primavera (posteriormente batizada com o nome do engenheiro Sérgio Motta), duas entidades pioneiras – Instituto Cisalpina e ASSOBRAA --, começavam a desbravar o imaginário popular da pequena cidade.
Era um tempo de despertar. Diante dos novos desafios ecológicos, um grupo de jovens altruístas destacou-se na multidão e, com extrema responsabilidade e afinco, deu um passo decisivo em defesa da preservação ambiental.
A primeira dessas façanhas históricas consolidou-se no dia 2 de agosto daquele ano. Cidadãos e técnicos de diversas áreas uniram-se pelo propósito de proteger a fauna e a flora da região. Numa rápida digressão histórica, recordo com orgulho que a assembleia de fundação reuniu mais de cem pessoas na antiga sede da Câmara Municipal, no centro da cidade.
De forma brilhante e acolhedora, a comunidade elegeu a primeira diretoria do Instituto Cisalpina de Pesquisa e Educação Sócio Ambiental, confiando a presidência ao professor Carlos Alberto dos Santos Dutra, o popular Carlito.
Durante aquele ato marcante, distribuímos à população cerca de 200 mudas de árvores nativas — como pau-brasil, murta, oiti, ipê-mirim e calistemo —, doadas pela Companhia Energética de São Paulo (CESP). O repasse foi viabilizado pela Secretaria Municipal de Agricultura, Desenvolvimento Econômico e Turismo, representada pelo então secretário e técnico em agropecuária Gilberto Silva, que também assumiu o cargo de diretor administrativo da nova entidade.
O evento, que movimentou o cenário cultural local, contou com o prestígio dos vereadores Francisco Aparecido Lins (in memoriam), Carlos Amorim de Assis e Marcos Roberto Lopes. A Polícia Florestal também se fez presente por meio dos policiais Da Silva e Sabatini, representando o Capitão Monari, do Batalhão de Três Lagoas.
O Instituto Cisalpina — que posteriormente incluiu em seus estatutos a Defesa do Patrimônio Cultural — nasceu com fôlego de onça. Suas ações iniciais ecoaram longe, levando educação ambiental às escolas públicas e fazendo ressoar o esturro da onça e o silvo da sucuri em favor da nossa biodiversidade.
É preciso parabenizar a grandiosa trajetória desta entidade, que venceu o ceticismo de uma classe muitas vezes alheia às causas ecológicas, transformando conceitos e expandindo os horizontes de inúmeras crianças e jovens.
O Instituto realizou dezenas de palestras e ciclos de cinema ambiental que lotavam o Centro Cultural Ramez Tebet. Exibições que iam desde o aclamado Avatar — que demandou três sessões devido à imensa procura — até documentários de forte teor crítico para o público adulto, como A Carne é Fraca e Lixo Extraordinário.
Contudo, ao olhar para o cenário atual, não posso deixar de manifestar uma profunda preocupação de caráter institucional e pessoal, como autor e fundador. O Instituto Cisalpina hoje estendeu suas linhas de ação para o esporte e o atendimento veterinário de animais domésticos. Embora tais causas sejam nobres, essa dispersão de foco acabou por arrefecer o espírito de vanguarda que nos definia.
Até o ano de 2022, o Instituto mantinha-se como uma força altamente combativa e ativa no debate ecológico regional. Hoje, a sobrevivência do ecossistema local parece repousar de forma quase solitária nos ombros da nova Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo (criada na administração Márcia Amaral) e da também incipiente Associação Brasilandense de Fiscalização Ambiental (ABAFA).
Elas resistem isoladas no clamor em defesa do Cerrado, dos pequis, dos palmitos e dos fragmentos remanescentes de Mata Atlântica e matas ciliares, que perdem espaço gradativamente para o avanço agressivo dos agrotóxicos e florestas plantadas.
Como pioneiro e idealizador dessa história de vinte anos, entretanto, guardo comigo uma réstia de esperança e um desejo categórico: que o Instituto Cisalpina retorne às suas origens essenciais. É urgente que a entidade reassuma o papel de protagonista do ambientalismo responsável e combativo que a caracterizou até 2022.
O município
necessita que o Instituto restabeleça sua forte parceria com a Secretaria de
Meio Ambiente e entidades como a ABAFA e instituições superiores de ensino de
pesquisa como o seu nome ostenta, somando forças na elaboração de projetos de educação ambiental e
implementação de políticas públicas que garantam a preservação real da nossa
fauna, da nossa flora e de um meio ambiente urbano e rural genuinamente saudável.
Parabéns Instituto Cisalpina pela
sua trajetória e pioneirismo que urge dar continuidade às suas ações e objetivos estatutários mais do que nunca no tempo que se chama hoje. É o que os ambientalistas de Brasilândia esperam e se propõem a apoiar.
Brasilândia/MS, 02 de agosto de 2026. 23º aniversário de fundação da Associação Instituto Cisalpina de Pesquisa e Educação Socioambiental e Defesa do Patrimônio Cultural, de Brasilândia. Mais informações In Dutra, C.A.S. História e Memória de Brasilândia/MS, Vol. II-Patrimônio, 2020, Pág. 323-328. Disponível em História e Memória de Brasilândia/MS Vol. 2-Patrimônio - Em Cores, por Carlos Alberto dos Santos Dutra - Clube de Autores




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