A Covid-19, o
rasgar as vestes e a esperança.
Carlos Alberto
dos Santos Dutra
O Brasil ultrapassou o número de 420 mil mortos pela Covid-19. O estado de Mato Grosso do Sul já soma seis mil mortos e Brasilândia contribui em números gerais com mais de 20 vidas que esta terrível doença ou em decorrência dela, nos roubou de nossos lares fazendo um buraco em nossos corações.
Em
meio a uma crise institucional permeada de desencontros nas esferas
governamentais sobre o uso de medicamentos não reconhecidos cientificamente, protocolos sanitários e medidas de
prevenção necessárias; somado aos impropérios diplomáticos negacionistas e a falta de insumos
e vacina vindos da China para conter o avanço da doença, eis que a curva de morte não cessa de
crescer.
Diante
de hospitais lotados, a fila de pacientes em busca de socorro médico transforma
o país num cenário de guerra, onde todos buscam socorro e a salvação nas mãos de médicos, enfermeiros e medicamentos que aliviem suas dores e lhes garanta a
sobrevivência.
Os
que se encontram a nossa volta - pais, mães, filhos, esposos, parentes e amigos
- do lado de fora da porta dos hospitais, muitos pacientes sem poder estar ao lado
dos familiares em tratamento ou entubados na UTI, resta-lhes acompanhar o
boletim médico que, com palavras técnicas comedidas, transmite a desesperança
daqueles que já não acreditam mais na recuperação, num triste quadro de exaustão e desalento.
A
solução que todos buscam, tem-se visto de forma crescente, é entregar a Deus o
destino de suas vidas e de seus entes queridos nesta luta insana contra a
Covid-19. Só que o número de mortes que aumenta cada vez mais, exige resposta mais convincente, mesmo para aqueles que acreditam que estamos nas
mãos do Senhor da história e que pouco ou nada podemos fazer.
Mas, por que meu Deus passamos por esta
provação?, alguns se
perguntam em silêncio. Os templos, respeitando as medidas de biossegurança,
voltam às celebrações e aos cultos presenciais, onde oradores, de braços abertos, conclamam o poder de Deus para afastar o mal que consome as cidades.
Só
que o mal permanece como se mouco fosse.
Carreatas,
caminhadas e peregrinações de fé buscam mostrar a Deus a confiança dos homens
na Parusia, buscando forças para
enfrentar o dia a dia. Em meio às lágrimas, uma ruidosa carreata denominada da Vitória une os cristãos de todas as
denominações locais numa manifestação de fé e testemunho de sua crença
inabalável em Jesus Cristo rogando a sua proteção. Na esperança de que a sorte
mude.
Os
cristãos, em dois mil anos de historias já passaram por centenas de provações,
pestes, catástrofes e mortes que devastaram cidades inteiras. E sempre
atribuíram esses fatos ao descontentamento de Deus com a humanidade. Ocasião
em que as comunidades rasgavam as vestes
em sinal de arrependimento de seus pecados.
Há
quem possa dizer que esse costume é antigo e que hoje não teria sentido algum rasgar
a roupa, numa sociedade que prima pelo narcisismo e culto ao corpo. Mais ainda:
que vive hábitos de urbanidade pautados, sobretudo, na razão e apelo meramente
estético. É o que vemos quando bem vestidos exercitamos a fé indo religiosamente ao templo.
O
fato é que desta prática podemos tirar algumas lições vividas desde os tempos bíblicos
pelas culturas orientais e que concebiam o rasgar
as vestes como uma demonstração de forte emoção, permeada de angústia,
tristeza ou remorso. É o que diz o profeta Josias numa passagem bíblica elucidativa:
Josias percebeu que o povo não estava
obedecendo ao Senhor e rasgou suas vestes como sinal de angústia e de remorso.
Deus aceitou este comportamento como sinal de seu arrependimento e ouviu sua
oração. A passagem se
encontra em 2 Reis 22,11.18-20.
Da
mesma forma assim agiu Esdras que mostrou
seus sentimentos de vergonha e remorso quando soube do pecado do povo em fazer casamentos
com os povos pagãos. Ele foi orar a Deus com as vestes rasgadas.
Quando as pessoas rasgavam as vestes
em arrependimento, no
entendimento do cristianismo vero testamentário, Deus perdoava. O ato exterior de rasgar as vestes refletia a mudança interior do coração. Hoje em dia
não faz sentido rasgar a roupa, mas devemos nos arrepender de nossos pecados (Joel 2,12-13).
Portanto, diante de tanta dor e morte a nossa volta; diante de tanto ódio entre os irmãos e violência que só divide e sacrificam vidas e sonhos de uma existência feliz e em paz, a lição que podemos acolher nos dias atuais é que Deus não olha para as roupas rasgadas (ele as vê todos os dias cobrindo a nudez dos desvalidos).
Ele se
interessa mesmo é pela conversão dos corações, despojamento e desapego às coisas que
nos afastam d’Ele. E a simplicidade no vestir é uma demonstração de que
queremos caminhar de mãos dadas com Ele.
Porque
assim Deus falou o que realmente quer de nós, pecadores: Ainda
assim, agora mesmo, diz o Senhor:
Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com
pranto. Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso Deus... (Joel 2:12-13).
Devemos,
pois, aproveitar a lição que nos é dada: a maneira de demonstrar a submissão
ao Senhor nos dias de hoje pode ser diferente do tempo do Antigo
Testamento, porém a necessidade da nossa reverência e obediência a Deus não
mudou. Se ontem Deus falou para o rei por meio de um profeta e apareceu
pessoalmente ao sumo sacerdote, hoje, ele nos fala por meio das páginas da Bíblia e dos pequeninos do Reino que cruzam todos os dias por nós pelas ruas da cidade, verdadeiro Evangelho vivo.
Portanto,
as mortes e o sofrimento que vivemos em razão da Covid-19 não nos chamam a alegria e a vitória, mas a esperança e ao
arrependimento. Nos oportunizam dobrar o joelho e chegar a Deus por meio de
nossa oração e suplica que brota de nossos corações quebrantados e arrependidos
(Joel 2,13). E quando Deus fala, devemos, pois, ouvir!
Foto: https://www.jw.org/pt/biblioteca/revistas/ws20140815/rasgar-suas-roupas/
Fonte: Cf.
Dennis Allan. https://estudosdabiblia.net/jbd957.htm; https://www.respostas.com.br/qual-era-o-significado-de-rasgar-as-vestes/;
Uma bela e oportuna reflexão. Parabéns!
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